sábado, 25 de março de 2017

'Stromboli’ – Rossellini usa de temas neo-realistas e religiosos para fazer filme sobre Ingrid Bergman e a Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!

'Stromboli’ – Rossellini usa de temas neo-realistas e religiosos para fazer filme sobre Ingrid Bergman e a Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!
Clássico de Rossellini, 'Stromboli' mistura religião e neo-realismo para mostrar as dificuldades que Ingrid Bergman enfrentou quando foi viver com ele na Itália. 
‘Stromboli’ e a vida de Ingrid Bergman!

‘Stromboli’ foi o primeiro filme italiano que teve a participação da já famosa e consagrada atriz sueca Ingrid Bergman e no qual ela foi dirigida pelo seu futuro marido, Roberto Rossellini, com quem, aliás, ela já tinha um romance quando participou do filme.  

A maneira pela qual eles iniciaram o romance gerou um grande escândalo midiático na época, inclusive na liberal Suécia, onde a imprensa fez críticas muito duras ao fato dela ter abandonado marido e filha para poder iniciar o romance com Rossellini. 

Aliás, Rossellini também era casado e abandonou a esposa para viver com Ingrid. Inclusive, Ingrid (que ainda não havia se divorciado do seu marido) engravidou de Rossellini justamente na época em que ‘Stromboli’ estava sendo filmado. 

Há uma cena no filme na qual a sua personagem (Karen) diz que estava grávida de Mario, o seu marido no filme, o que deve ser uma referência à sua gravidez na vida real. 

Com a ida de Ingrid para a Itália, Hollywood perdeu uma das suas principais estrelas, que era uma fonte de grandes lucros para os estúdios. E a imprensa dos EUA também criticou duramente Ingrid Bergman pela sua atitude de ir para a Itália e viver com Rossellini, com quem ela acabou se casando e gerando três filhos, incluindo a bela e talentosa atriz Isabella Rossellini. 
Karen conheceu o soldado Antonio quando vivia em um campo de refugiados na Sicília. O filme é baseado em uma história que aconteceu com Rossellini. 
Nesta época, Ingrid chegou a ser chamada de ‘demônio’ e ‘corrompida’ por sua atitude. 

De certa maneira, a história de ‘Stromboli’ está intimamente relacionada com os fatos da vida pessoal de Ingrid Bergman. Esta saiu de um país rico (EUA), onde era uma das grandes estrelas de Hollywood, e vai morar em um dos países mais pobres da Europa naquele momento, que era justamente a Itália. 

Na Itália, Ingrid também terá que se adaptar a uma realidade completamente diferente, passando a viver em um país no qual tínhamos uma Igreja Católica extremamente conservadora e que exercia uma grande influência sobre as políticas adotadas pelo governo do país, que era, desde 1948, comandado pelo Partido Democrata-Cristão (intimamente relacionado com a Igreja Católica). Até a política cinematográfica italiana era controlada pela Igreja Católica. 

A Igreja Católica chegou a ter o direito, inclusive, de censurar os filmes que eram produzidos no país, o que atingiu em cheio a produção dos cineastas neo-realistas. 
Karen tentou obter autorização do Cônsul argentino para ir morar no país sul-americano, mas isso foi negado. E Ingrid Bergman dá mais um show de interpretação neste belo filme de Rossellini. 
O governo de ‘União Nacional’ e o Neo-Realismo!

Os filmes do Neo-Realismo eram vistos, pela Igreja Católica, como sendo amorais e ligados ao ideário comunista. De fato, vários cineastas neo-realistas eram ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), embora os seus filmes também tenham sofrido críticas por parte de pessoas que integravam o partido. 

Para os conservadores, os filmes neo-realistas acabavam sendo excessivamente críticos em relação à realidade italiana, enquanto que para os críticos do PCI eles eram vistos como sendo moderados e pequeno-burgueses. 

O nascimento, ascensão e auge do Neo-Realismo se deu entre 1943 e 1947, quando as principais forças políticas e sociais italianas (comunistas, socialistas, liberais, conservadores, católicos) se uniram para lutar contra o Nazi-Fascismo. 

A invasão e ocupação do Sul da Itália pelos Aliados, a partir de Julho de 1943, a derrubada do governo de Mussolini (no mesmo mês), o fato do novo governo italiano ter se passado para o lado dos Aliados e de ter declarado guerra à Alemanha Nazista, a criação e instalação da chamada ‘República de Saló’ (regime fascista fantoche que era controlado pelos Nazistas alemães e que dominou o Norte da Itália até o final de Abril de 1945) e a derrota final de Mussolini são os principais fatos deste período da história italiana.  

Obs1: Estes fatos foram reunidos em outro clássico filme neo-realista (‘Paisà’, de 1946), que também foi dirigido por Rossellini. 
Karen chega à ilha de Stromboli. Logo atrás vem o faroleiro local, com quem ela tentará fazer amizade. 
E com a derrota definitiva do Nazi-Fascismo, em Abril/Maio de 1945, as forças políticas que lutaram contra o mesmo se uniram para formar um governo de ‘União Nacional’, tal como havia acontecido em outros países que haviam sido libertados da dominação nazista pelos Aliados (EUA, Grã-Bretanha, URSS). E o mesmo aconteceu na França, Hungria, Tchecoslováquia, entre outros. 

Essa política, que resultou na instalação de governos de ‘União Nacional’ na Europa foi resultado de um acordo político mais amplo, que envolvia os países vencedores da Segunda Guerra Mundial: EUA, Grã-Bretanha e URSS, que tentaram manter, no Pós-Guerra, a aliança que havia sido vitoriosa na Segunda Guerra Mundial. 

Mas as inúmeras diferenças (políticas, ideológicas) existentes entre as três grandes potências inviabilizou essa tentativa, que entrará em colapso em 1947-1948. 

Foi neste momento histórico (1945-1947), de existência de um governo de ‘União Nacional’, em que os cineastas e roteiristas italianos desfrutaram de ampla liberdade criativa, no qual floresceu o Neo-Realismo. Logo, não há como separar o surgimento e desenvolvimento do Neo-Realismo do contexto político e social da época. Eles estão intimamente relacionados. 

Afinal, o governo de ‘União Nacional’ italiano era bastante plural e democrático e permitiu ampla liberdade de criação no país. 

Foi neste contexto que cineastas extremamente talentosos como Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, entre muitos outros, produziram inúmeros filmes clássicos neo-realistas e que mostravam toda a realidade de pobreza, miséria, violência, atraso e injustiça do país. 
Karen vive de forma totalmente solitária na ilha de Stromboli, onde não existe nada: água tratada, energia elétrica, museu, teatro, cinema, restaurante. Ela não apenas mudou de lugar, mas voltou no tempo. 
Os filmes neo-realistas fizeram um grande sucesso no início, principalmente no período 1945-1947, que foi justamente a época em que tivemos o governo de ‘União Nacional’, que foi bastante aberto, liberal e progressista, como eu já afirmei aqui.

Mas, a partir de 1948, quando um governo direitista e conservador (comandado pelo PDC) passou a liderar o país, os filmes produzidos nos EUA tiveram tratamento privilegiado por parte do governo italiano, passando a dominar inteiramente o mercado do país.

Assim, os filmes neo-realistas começaram a perder público para as produções de Hollywood, que mostravam uma vida idealizada e que não tinham qualquer conexão com a realidade econômica e social de pobreza e miséria do povo italiano. 

A política cinematográfica italiana passou a ser controlada pelo PDC e, com isso, muitos filmes neo-realistas sofreram cortes e até foram proibidos de serem exportados (o que foi o caso, até, de ‘Ladrões de Bicicleta’, de Vittorio De Sica), pois mostravam uma imagem do país que era considerada  fortemente negativa pelo governo conservador italiano.

Até o Festival de Veneza sofreu interferência do governo direitista italiano, que obrigou os jurados (que foram subornados) do mesmo a não premiar o filme ‘Sedução da Carne’, de Luchino Visconti (que se declarava marxista), em 1954. 

Obs2: Esta última informação foi retirada do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosaria Fabris, presente no livro ‘História do Cinema Mundial’, de Fernando Mascarello (org.).
Karen chora, desesperada com a tristeza e solidão em que vivia na ilha de Stromboli. 
Os filmes italianos também deixaram de receber verbas oficiais (o que acontecia em inúmeros outros países europeus) e o circuito comercial passou a ser controlado por estrangeiros. Até mesmo a lei que determinava que um percentual mínimo de filmes italianos que deveriam ser exibidos comercialmente não foi respeitada pelo governo democrata-cristão. 

Desta maneira, o Neo-Realismo teve o seu auge no período que vai de 1945-1947, quando os cineastas italianos desfrutaram de uma ampla liberdade de criação que foi propiciada pelo governo de ‘União Nacional’. 

Com o fim desta ‘União Nacional’ e a ascensão de um novo governo, conservador e direitista, as condições que permitiram o surgimento e expansão do Neo-Realismo deixaram de existir.

Tudo isso aconteceu porque o governo direitista italiano não tolerava o fato de que as produções neo-realistas mostravam os graves problemas econômicos e sociais que o país enfrentava naquele momento: desemprego elevado, pobreza, miséria, fome, trabalho infantil, prostituição, analfabetismo, criminalidade.   

Obs3: Tal governo (liderado pelo PDC) deterá a hegemonia política na Itália até 1990, quando ocorreu a chamada ‘Operação Mãos Limpas’, que destruiu o sistema político italiano tradicional, levando ao fechamento do PDC, do Partido Socialista e de mais alguns outros. Os principais líderes políticos do país acabaram presos ou aposentados. 
Karen conversa com o padre da ilha, inconformada com a vida tediosa e melancólica que tem no local. 
Logo, quando a situação política italiana se modificou radicalmente e as condições históricas que permitiram o desenvolvimento do Neo-Realismo deixaram de existir, o mesmo entrou em crise e perdeu espaço no circuito comercial italiano.

Mesmo assim, alguns cineastas italianos ainda continuaram usando de temas originários do Neo-Realismo (pobreza, desigualdades sociais, baixos salários, abandono das periferias urbanas, exploração dos trabalhadores), mas fizeram isso em filmes mais leves, de humor, o que deu origem ao termo ‘Neo-Realismo Rosa’. 
Este foi o caso, por exemplo, de ‘Le Ragazze di Piazza di Spagna’ (de Luciano Emmer), ótima comédia que já foi comentada aqui no blog, e ‘Pão, Amor e Fantasia’ (de Luigi Comencini).  

‘Stromboli’ e o Neo-Realismo!

Em ‘Stromboli’ temos a presença de alguns dos principais elementos do Neo-Realismo: 

A) Uso de atores não profissionais: Com a óbvia exceção de Ingrid, não havia outro ator ou atriz propriamente dito no filme; eram todos moradores da ilha de Stromboli;

B) Filmagens feitas em locações naturais, na ilha vulcânica de Stromboli, localizada nas proximidades da Sicília; 

C) Uso das técnicas de documentário e de filmes reais (caso da erupção vulcânica e da pescaria de atum);

D) Problemas econômicos e sociais sendo exibidos claramente, como o isolamento, a miséria e o baixo nível educacional e cultural dos moradores da ilha. 
Karen e o faroleiro dão risada juntos, motivo pelo qual os conservadores moradores da ilha passaram a desprezá-la. O mesmo aconteceu com Ingrid Bergman quando abandonou marido e filha para ir viver com Roberto Rossellini na Itália. 
Obs4: É bom ressaltar que quando se comenta sobre a questão educacional e cultural dos moradores da ilha que são mostrados no filme, estou me referindo ao fato de que ali não havia nenhuma escola, museu, teatro, cinema ou biblioteca, por exemplo. E a falta de perspectivas levava a que muitos moradores fossem embora do Sul italiano, indo para o Norte da Itália ou para outros países. Outros filmes neo-realistas trataram deste assunto, aliás, o que é o caso de ‘O Caminho da Esperança’ (de Pietro Germi; o filme já foi comentado aqui no blog). Mas os moradores da ilha não eram burros, muito pelo contrário. Eles sabiam muito bem como fazer para viver num ambiente isolado e que oferecia difíceis condições de sobrevivência, como era o caso daquela ilha vulcânica. Muitas pessoas esquecem que diploma não é atestado de inteligência e que esta independe de se possuir um diploma ou não. 

A trama do filme se desenvolve em torno de Karen Bjornsen, que é uma bela, educada e altiva refugiada lituana, que se envolveu com um oficial alemão durante a Guerra (assim, ela teria colaborado com os nazistas, que ocuparam e invadiram a Lituânia). Karen tem origem nórdica, burguesa e sua formação é racional, iluminista. 

Ela acaba indo parar na Itália, onde fica em um campo de refugiados na Sicília, vivendo com pessoas das mais variadas origens. 

Muitos destes refugiados conseguem ir embora para outros países, mas não é o caso de Karen, que tentou ir para a Argentina, mas que teve o seu pedido recusado pelo Cônsul do país. Para sair do local, ela acaba aceitando se casar com um soldado italiano (Antonio), sendo que mal o conhecia. 
Antonio agride Karen, pois suspeitava da sua traição, que não aconteceu. 
Obs5: A história do filme é baseada num fato que ocorreu com Rossellini. Ele conheceu uma mulher originária da Letônia que estava em um campo de refugiados localizado ao norte de Roma e que, junto com outras mulheres, originárias de vários países (Iugoslávia, Polônia, Hungria, Grécia, Lituânia, Romênia, Letônia), vagavam pela Europa, passando por vários campos, nos quais elas sofriam com a fome, estupros e trabalhos forçados. Rossellini chegou a conversar com a mulher quando a viu pela primeira vez, mas quando voltou ao local para revê-la ele ficou sabendo que ela havia se casado com um soldado italiano e que tinha ido viver com o mesmo em uma ilha do sul da Itália. Rossellini imaginou como seria a vida dessa mulher. Ele contou essa história para Ingrid Bergman, em uma carta na qual respondeu para a atriz sueca, que havia lhe escrito demonstrando interesse em trabalhar com Rossellini depois que assistiu ‘Roma, Cidade Aberta’ e ‘Paisà’. Essa informação foi retirada do livro ‘O Cinema de De Sica, Rossellini, Visconti, Antonioni, Fellini’, de Roberto de Castro Neves (Rio de Janeiro, Editora Mauad X, 2012, páginas 80-81).

Antonio leva Karen para uma isolada e miserável ilha vulcânica (Stromboli) localizada ao norte da Sicília e que é habitada por simples e rudes pescadores iguais a ele. Na ilha, não existe energia elétrica, água tratada ou qualquer conforto típico do século XX (e nem do XIX, XVIII, XVII...). O local é uma simples aldeia de pescadores que, literalmente, parou no tempo.

E é claro que Karen, que é uma mulher inteligente, culta, educada, que está habituada a viver em ambientes urbanos diversificados e sofisticados, e que possui personalidade forte, não irá se adaptar a esta vida tão simples e rústica junto a pescadores rudes e em um ambiente, natural e social, abertamente hostil a pessoas que possuem as suas características. 
Antonio e Karen vão à Igreja, onde todos os moradores olham para ela com desprezo, por considerarem que ela traiu ao marido, o que é mentira. 
Até fisicamente ela é totalmente diferente das mulheres da ilha: Ela é alta, bonita, com um belo corpo, orgulhosa e vaidosa, enquanto as mulheres da ilha já sofreram bastante os efeitos da ação do tempo e da natureza: São baixas, atarracadas, com a pele enrugada, nunca frequentaram uma escola e também possuem uma visão bem simples e modesta da vida. 

E é claro que todas essas diferenças irão gerar conflitos entre Karen e as mulheres da ilha. 

Com isso, quando ela percebe quais são as características do local no qual foi morar, Karen fica desesperada e implora para que Antonio a leve embora dali, mas ele se recusa a lhe dar ouvidos. Ele simplesmente não consegue entender os motivos para que Karen queira ir embora. A comunicação entre eles também é difícil porque ela não domina muito bem o italiano e Mario não domina o inglês. 

Obs6: As dificuldades de comunicação entre as pessoas, especialmente entre homens e mulheres, será um tema fundamental dos clássicos filmes de outro brilhante cineasta italiano que também começou no Neo-Realismo: Michelangelo Antonioni. 

E com isso começa uma verdadeira ‘via crucis’ de Karen na ilha, levando-a a passar por momentos de grande sofrimento e a se sentir inteiramente solitária. Karen fica sozinha, dentro de casa, sem fazer absolutamente nada. 
Com a erupção vulcânica, os moradores da ilha buscam refúgio nos barcos dos pescadores. Logo, eles salvavam a vida das pessoas duas vezes: permitindo que pescassem e quando o vulcão entrava em ação.
Não há uma amiga, ou amigo, sequer com quem ela pudesse conversar ou sair, um livro para ler e, é claro, nenhum teatro, bar, cinema, restaurante ou museu que pudesse frequentar. Ela nem toma conhecimento do que está acontecendo na Itália e no Mundo, vivendo em situação de total isolamento. 

Em um determinado momento, desesperada, ela sai andando, a esmo, pela ilha (ela estava literalmente perdida em um labirinto) e chega a tentar conversar com uma criança de poucos anos de idade. E é claro que não consegue.

É evidente, também, que os valores e costumes da bela, urbana e sofisticada Karen são totalmente diferentes daqueles dos moradores da ilha. Ela começa, por exemplo, a querer enfeitar a sua casa, deixando-a mais bonita, e acaba sendo acusada pelas mulheres da ilha de não ser modesta. Ela também quer usar roupas melhores, mas sequer uma loja da ‘C & A’ existe no local. Assim fica difícil... 

Assim, Karen passa a ser hostilizada pelos moradores da ilha. Ela até tenta explicar para os mesmos que eles são diferentes, mas isso não resolve coisa alguma. 

Obs7: Podemos comparar esta situação que Karen enfrenta no filme com a ida de Ingrid Bergman para a Itália, que era um dos países mais pobres e conservadores da Europa e onde ela também sofrerá duras críticas e passou por um grande sofrimento em função disso. Ingrid declarou que chegou a pensar em abandonar o Cinema em função dos duros ataques que sofreu neste período de sua vida, quando se envolveu romanticamente com Rossellini em circunstâncias que as pessoas não aceitaram. 
A pesca parecia ser bastante violenta aos olhos de Karen, mas era uma questão de sobrevivência para os moradores da ilha. 
É bom que se diga que o fato de Karen ser discriminada pelos simples e rudes moradores da ilha não significa que eles sejam burros. 

Os moradores de Stromboli sabem tudo sobre pescaria e a respeito de qual é a melhor maneira de viver em um ambiente duro, inóspito e violento. Eles sabem, por exemplo, exatamente como devem proceder no momento em que ocorre uma erupção vulcânica e dominam inteiramente as técnicas de pescaria. 

Enquanto isso, Karen (a personagem de Ingrid), fica desesperada quando a erupção acontece e ela acaba seguindo os moradores neste momento, saindo da ilha e indo para os barcos, onde estavam protegidos das pedras vulcânicas que eram arremetidas contra a ilha. 

E quando ela vê os pescadores capturando os peixes (atuns) com as suas redes e arpões ela também fica horrorizada, pois não está acostumada com aquela situação que, para ela, parece ser extremamente violenta. 
Karen tenta ir embora da ilha, sozinha, atravessando para o outro lado da mesma, mas ela terá que passar pelo cume do vulcão para conseguir.
Mas para os pescadores e moradores da ilha aquilo faz parte da vida, já há muitas gerações, e eles sabem que a sobrevivência de todos ali depende das pescarias serem bem sucedidas. Sem isso, eles morreriam de fome. Então, o que pode parecer violento para Karen, é uma questão de luta pela sobrevivência para os moradores da ilha. 

Karen fica desesperada, também, porque o marido trabalha demais e não lhe dá a devida atenção, ou seja, não tem relações sexuais com ela. E também não deveria ser fácil para ela se relacionar com um marido que chega a casa cheirando a água do mar e peixe. Com isso, ela chega a tentar seduzir o padre e o homem responsável pelo farol da ilha. Isso é que é desespero...

Em outro momento, ela estava andando na beira do mar e acabou sendo vista, por muitos moradores da ilha, dando risada ao lado de outro homem. Em função deste fato, Antonio passou a ser chamado de ‘chifrudo’ pelos moradores da ilha, o que o fez agredir Karen. 

Mas, com todos os problemas, preconceitos, solidão, desespero que enfrenta, Karen decide ir embora da ilha, sem a ajuda de ninguém, a pé. 
Karen, desesperada, chora com as dificuldades que enfrenta na travessia pelo cume do vulcão. Ela não quer apenas sair da ilha, mas mudar de vida e atingir a redenção. 
No entanto, para fazer isso ela terá que ir até o outro lado da ilha, onde espera ser levada embora em um barco a motor e isso exige que ela atravesse o cume do vulcão. Ela fará isso em um momento no qual ele está expelindo uma fumaça intensa e bastante quente. Ela passa mal, chora, sofre, pensa em desistir. 

No fim, desesperada, ela passa por um surto religioso e apela para que Deus a ajude (se é que Ele existe, diz Karen). Ela pede a Deus por ‘compreensão, força e coragem’. 

Karen adormece e, quando acorda, ela percebe que a ajuda divina, pela qual implorou, chegou. E com isso ela olha em volta e vê um cenário que considera maravilhoso. 

E o final do filme fica em aberto, pois não ficamos sabendo se Karen foi embora da ilha ou não. 

Obs8: Apesar de ser considerado um dos principais cineastas do Neo-Realismo, Roberto Rossellini nunca foi ligado ao PCI. De fato, na época do governo de Mussolini, ele chegou a dirigir filmes de propaganda fascista e foi amigo de Vittorio Mussolini, filho do ‘Duce’, que era o diretor da revista ‘Cinema’, da qual Rossellini e Michelangelo Antonioni, entre outros, foram colaboradores. O misticismo e a religião estão muito presentes em vários dos seus principais filmes, caso deste ‘Stromboli’ e de ‘Europa 51’ (que já foi comentado aqui no blog). 
Karen não sabia se Deus existia mas, no fim, ela pede pela ajuda divina para superar as dificuldades que enfrenta em sua vida.
Informações Adicionais:

Título: ‘Stromboli, Terra di Dio’;
Diretor: Roberto Rossellini;
Roteiro: Sergio Amidei; Roberto Rossellini; Renzo Cesana; Gian Paolo Callegari; Art Cohn; Félix Morlión; 
Ano de Produção: 1950; País de Produção: Itália;
Duração: 100 minutos; Gênero: Drama;
Música: Renzo Rossellini;
Fotografia: Otello Martelli;
Elenco: Ingrid Bergman (Karen Bjornsen); Mario Vitale (Antonio); Renzo Cesana (Padre); Angelo Molino (criança). 

Vídeo - Trecho do Filme: 

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