quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Três ótimos livros sobre Godard, a Nouvelle Vague e o Cinema Francês! – Marcos Doniseti!


Três ótimos livros sobre Godard, a Nouvelle Vague e o Cinema Francês! – Marcos Doniseti!
'Um Ano Depois': Um relato sério e equilibrado sobre o relacionamento de Anne e Godard no final dos anos 1960!

O excelente livro de Anne Wiazemsky (Editora Todavia) é um relato sério e equilibrado a respeito da sua relação com o genial cineasta Jean-Luc Godard nos últimos anos da década de 1960. Já o filme de Hazanavicius foi feito apenas para tentar manchar a imagem do cineasta. O motivo? Inveja, é claro. 

'Um Ano Depois', de Anne Wiazemsky é um ótimo livro, mas infelizmente ele foi bastante deturpado na transposição para o Cinema!
'Um Ano Depois' foi escrito pela atriz Anne Wiazemsky, ex-esposa de Godard, que atuou em vários filmes do cineasta franco-suíço, incluindo 'A Chinesa' e 'Week-End à Francesa'. 
Anne faz um relato sério e equilibrado a respeito de como foi viver com Godard nos agitados anos finais da conturbada década de 1960, sendo que o Maio de 68 francês ganha muito destaque no livro. 
Eles se conheceram durante as filmagens de 'A Chinesa', de 1967, e se apaixonaram, o que os levou rapidamente ao casamento.
O livro de Anne é uma leitura prazerosa, que flui facilmente, e se você tiver tempo livre é possível terminar o mesmo em, no máximo, uns dois dias, pois o mesmo tem cerca de 170 páginas. 
'Um Ano Depois' é um relato sóbrio a respeito deste relacionamento com o genial cineasta francês e que foi marcado por vários conflitos (e qual relacionamento que não é?), resultando no fim do mesmo (por iniciativa dela). 
Porém, o maior problema ocorreu com o filme ('Le Redoutable'/'O Formidável'), dirigido por Michel Hazanavicius, que diz que se baseou no livro de Anne. 
No entanto, na transposição para o Cinema o diretor modificou inúmeras passagens do livro, sendo que todas as mudanças foram feitas no sentido de se prejudicar a imagem de Godard.
Essa é a grande diferença entre o livro de Anne e o filme de Hazanavicius: Enquanto o primeiro é um relato crível e sério sobre o relacionamento de Anne e Godard, o filme de Hazanavicius se preocupa apenas em mostrar situações que possam manchar, o máximo possível, a imagem de Godard. 
Assim, para atingir o seu objetivo, todas as mudanças feitas por Hazanavicius no filme foram neste sentido. As histórias do livro foram alteradas a fim passar a pior imagem possível de Godard. 
E o livro de Anne nunca teve esse objetivo. 
Quem se der ao trabalho de assistir ao filme e de ler o livro dificilmente deixará de chegar à essa mesma conclusão. 
Logo, recomendo que leiam o livro de Anne Wiazemsky e, depois, o comparem com o filme, que apelou para inúmeras mentiras, distorções e omissões a fim de prejudicar a imagem de Godard. 
"A Nouvelle Vague e Godard', de Michel Marie!
Michel Marie escreveu 'O Livro' sobre a 'Nouvelle Vague' e a respeito de 'Acossado'. Tanto o movimento, quanto o filme, são analisados e dissecados, nos mínimos detalhes, neste livro essencial.

Quem deseja saber mais a respeito da Nouvelle Vague e sobre o primeiro longa-metragem ('Acossado', é claro), clássico e atemporal, do genial cineasta Jean-Luc Godard eu quero sugerir a leitura deste ótimo livro.
A 'Nouvelle Vague e Godard' (de Michel Marie, Editora Papirus) é sobre  as origens e a evolução do movimento que revolucionou o Cinema mundial e também faz uma análise minuciosa a respeito da obra-prima da Nouvelle Vague, que é 'Acossado', que é um verdadeiro filme-manifesto do movimento, tal como o autor demonstra em seu livro.
O livro de Michel Marie tem cerca de 250 páginas e está dividido ao meio entre o movimento e o filme. 
A primeira metade do livro trata do surgimento e da evolução da 'Nouvelle Vague', mostrando a sua origem nas páginas da revista 'Cahiers du Cinéma', publicação da qual os principais cineastas do movimento eram originários: Godard, Truffaut, Chabrol, Rohmer e Rivette. 
Já a segunda metade do livro analisa e disseca, literalmente, o clássico e revolucionário filme de Godard em todos os detalhes (de produção, roteiro, técnicos, narrativos, interpretação, econômicos...). Nada foi esquecido. 
É bom ressaltar que já escrevi e publiquei um texto a respeito deste livro aqui no blog (ver link abaixo). 
Jean-Paul Belmondo: Mil Vidas valem mais do que uma!
Autobiografia de Jean-Paul Belmondo é uma leitura bastante divertida e informativa sobre a trajetória de um dos principais astros do cinema francês do Pós-Guerra.

Esse livro autobiográfico do ator francês Jean-Paul Belmondo acabou de ser lançado no Brasil pela L&PM Editores (obrigado...). 
Belmondo conta a história de sua vida de uma forma bem humorada e divertida, tornando a leitura bastante agradável, mesmo quando escreve sobre as dificuldades que ele e a sua família enfrentaram na época da Segunda Guerra Mundial, quando o seu pai foi convocado para servir no Exército francês e foi feito prisioneiro pelos alemães. Depois, ele conseguiu fugir, mas teve que permanecer na condição de foragido até a Libertação da França, em Agosto de 1944. 
Ele diz que desde essa época já demonstrava claramente a sua vocação para ser ator, pois adorava, junto com os seus amigos, montar peças de teatro rápidas para as pessoas, a fim de divertir as mesmas em meio a todos os problemas do período da Guerra. 
Belmondo também percebeu, desde a adolescência, que tinha um grande talento para interpretar os mais variados personagens, chegando a enganar turistas ingleses em viagem pela França de que era um adolescente inglês.
Ele também não poupa críticas ao caráter muito conservador do curso de formação de atores do Conservatório de Paris, o que o prejudicava, pois ele adorava improvisar e usar de sarcasmos e de ironias, o que não era bem visto no curso, que era bem sério e tradicional.  
Impagáveis são as histórias que ele conta a partir do momento em que se tornou um astro do Cinema, o que aconteceu graças 'Acossado' (1960), a obra-prima da Nouvelle Vague e de Jean-Luc Godard. Aliás, ele disse que bastou um dia de exibição do filme para que o seu telefone não parasse de tocar com propostas de trabalho. 
Com isso, ele teve até que trocar o número de seu telefone. Mas a partir dali ele passou a escolher o que iria fazer. 
Aliás, o capítulo do livro em que ele conta sobre a sua participação no revolucionário filme de Godard é um show a parte. Ele diz que, tal como também pensava a belíssima Jean Seberg, 'Acossado' era um filme maluco e iria fracassar. 
Deu no que deu...
Nas filmagens, diz Belmondo, Godard procurava estimular a improvisação o máximo possível, o que ele adorou, é claro. Em uma cena de 'Acossado' ele teria que entrar em um bar e quando perguntou, para Godard, 'o que eu faço?', o cineasta respondeu 'O que você quiser'...
No livro ele também comenta muito sobre os bastidores das filmagens das quais participou (e foram muitas, em mais de 80 filmes), dos conflitos com os diretores, das aventuras, principalmente com seus carros velozes, paixão que passou para o filho (Paul), que chegou a ser piloto de F1. 
Belmondo também comenta sobre as suas relações amorosas com estrelas do Cinema (Úrsula Andress, Laura Antonelli), os conflitos com a imprensa e os paparazzi (sempre interessados em explorar a sua vida pessoal) e com os críticos (que o criticavam quando ele fazia papéis mais sérios), as brincadeiras com os amigos e as inúmeras amizades que fez no meio cinematográfico.
Para quem gosta de Cinema essa é uma leitura muito recomendável.

Link:
Livro 'A Nouvelle Vague' e Godard:

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

'Le Redoutable': Diretor mente, distorce os fatos e inventa fake news para atacar Godard! - Marcos Doniseti!

'Le Redoutable': Diretor mente, distorce os fatos e inventa fake news para atacar Godard! - Marcos Doniseti! 

Michel Hazanavicius, diretor de 'Le Redoutable' ('O Formidável'), não se preocupou em transpor para o Cinema a visão de Anne Wiazemsky, autora do livro no qual o filme se baseou. A sua prioridade foi a de atacar e destruir a imagem pública do genial Godard. E para conseguir isso ele deixou de lado o livro de Anne, que não tinha esse objetivo. 

O filme de Hazanavicius e seu interminável festival de Fake News sobre Godard!

'Le Redoutable', o filme de Michel Hazanavicius sobre o genial cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard não é ruim, é péssimo, pois o mesmo é mentiroso e deturpa e falsifica a história que pretende contar, o que irei procurar demonstrar nesse texto. 

O diretor de 'Le Redoutable' diz que se baseou no livro que foi escrito pela ex-esposa de Godard, a atriz Anne Wiazemsky, chamado 'Um Ano Depois', e que foi lançado na França em 2015. No Brasil o livro foi lançado, em 2018, pela Editora Todavia. 

Na humilde opinião deste modesto blogueiro que vos escreve, quando um cineasta diz que seu filme é baseado em um livro específico (como é o caso deste filme) ele tem que permanecer fiel ao seu conteúdo, à cronologia dos acontecimentos e ao espírito do livro. Ele não tem o direito de mudar nada. 

Afinal, foi o próprio diretor de 'Le Redoutable' que afirmou: 'Li o livro de Anne Wiazemsky e achei que seria muito interessante contar aquela história' (ver abaixo o link para a matéria de Luiz Carlos Merten a respeito do filme no site do 'Estadão').

Portanto, Hazanavicius deixa claro que seu filme não é uma adaptação livre, que foi apenas inspirada no livro de Anne, mas é a transposição do livro para as telas do Cinema. 

Mas é justamente isso que não vemos no filme de Hazanavicius. 
O livro de Anne Wiazemsky (que é ótimo... recomendo a leitura) foi virtualmente ignorado pelo diretor Hazanavicius, embora ele tenha dito que se baseou no mesmo para fazer o seu filme. Porém, ele distorce os acontecimentos, conta outros pela metade e omite fatos importantes. E tudo isso foi feito para destruir a imagem pública de Godard. Qual o motivo disso? Inveja? 

Ele simplesmente omitiu passagens importantes do livro de Anne e que mereciam estar no filme, distorceu totalmente outros momentos (contando apenas uma parte do que aconteceu ou mudando grande parte do relato contido no livro) e também inventou fatos que simplesmente não estão no livro da ex-esposa de Godard. 

Logo, o filme de Hazanavicius sobre Godard se baseia em três elementos fundamentais, que são: 1) Omissões; 2) Distorções; 3) Mentiras. 

Quem assiste ao filme percebe, claramente, que Hazanavicius fez um filme para atacar Godard, com o objetivo de destruir a imagem pública do revolucionário cineasta francês.

Mas quando lemos o livro de Anne Wiazemsky não vemos a presença desse espirito rancoroso, vingativo ou destrutivo em relação à figura de Godard. 

Anne simplesmente relata como se desenvolveu o relacionamento dela com Godard naquele ambiente marcado por fortes conflitos políticos, ideológicos e sociais que atingiram a França e grande parte do mundo no período final dos anos 1960, principalmente em Maio de 1968. 

A interpretação de Louis Garrel, no papel de Godard, é um dos poucos pontos positivos em um filme bem feito tecnicamente, mas que é mentiroso e manipulador, pois distorce os fatos relatados por Anne Wiazemsky em seu ótimo livro. 

Ela também mostra que tais acontecimentos tiveram um forte impacto sobre Godard, levando-o a repensar totalmente o seu papel como cineasta e a rever a maneira como se relacionava com as pessoas, incluindo a sua esposa, Anne, e os seus antigos amigos. 

Em função dessas mudanças pelas quais está passando, Godard chegará até mesmo a romper com o seu velho amigo François Truffaut, amigo desde a época em que eles eram críticos da 'Cahiers du Cinema'. Aliás, temos um breve relato desse rompimento no livro de Anne, mas o acontecimento sequer é citado no filme de Hazanavicius, apesar da sua imensa importância. 

Afinal, era uma amizade de longa data, de mais de 20 anos, que estava chegando ao fim. Logo, esse é o tipo de acontecimento que merecia, sim, estar em qualquer filme que deseja mostrar como foi a vida de Godard nos anos finais da década de 1960. 

Mas o diretor Hazanavicius conseguiu ignorar o fato em seu filme. Aliás, ele fará o mesmo com o filme que Godard realizou com os Stones (One Plus One/Sympathy For the Devil, de 1968), que sequer é citado em 'Le Redoutable'. 

Stacy Martin interpreta Anne Wiazemsky em 'Le Redoutable', filme de Hazanavicius que se especializou em mentir e falsificar os fatos relatados por Anne em seu ótimo livro ('Um Ano Depois').   

Comparação entre livro e filme é fundamental!


Eu li várias críticas que foram escritas a respeito de 'Le Redoutable' (ver links abaixo) e em todas elas os autores pecam pelo simples fato de que não fizeram um trabalho que, no meu entendimento, seria fundamental para poder analisar a produção de Hazanavicius, que é comparar o conteúdo do livro com aquilo que vimos no filme. 

Todas as críticas se concentraram apenas no filme, como se o mesmo tivesse sido totalmente fiel ao livro no qual se baseou. E na verdade, quando fazemos essa comparação entre as duas mídias pode-se, claramente, concluir que o diretor ignorou grande parte do conteúdo do livro no qual o mesmo se baseou inteiramente. 

As inúmeras manipulações feitas por Hazanavicius desqualificam inteiramente o seu filme, que acaba sendo apenas uma reles peça de ficção que não tem qualquer respeito pelo livro no qual o diretor diz que se baseou para produzi-lo e que se limita a tentar destruir a imagem pública de Godard. 

É isso que irei procurar demonstrar neste meu texto, mostrando as brutais diferenças entre o que está contido no livro de Anne Wiazemsky e o que foi mostrado no (manipulador e mentiroso) filme de Hazanavicius. E entendo que tenho plenas condições de fazer tal comparação porque assisti ao filme recentemente, ao mesmo tempo em que concluí a leitura do livro de Anne. 

Cena de 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil', filme que Godard fez em 1968 e que, em grande parte, mostra os The Rolling Stones gravando a sua clássica canção, que eles tocam em todos os seus shows até os dias atuais. Embora Anne faça um ótimo relato a respeito deste clássico filme de Godard em seu livro, Hazanavicius optou por ignorar o mesmo em seu filme mentiroso e manipulador. 

Aliás, quero sugerir que leiam o livro de Anne, que é ótimo, possuindo uma linguagem prazerosa e gostosa. É aquele tipo de livro que você começa a ler, não para mais e quando percebe o livro já acabou. 

Seu livro também passa uma ideia bem clara a respeito do contexto político da França da época (1967-1969), situação na qual se desenvolveu o relacionamento entre ela e Godard, que é narrado em seu livro, e que teve um impacto muito forte sobre o cineasta franco-suíço.  


E o livro mostra que esse relacionamento envolvia momentos de  intimidade, amor e carinho, como também de conflitos, tal como acontece em todos os relacionamentos amorosos, aliás. Outro elemento importante do livro de Anne é que fica claro que, tal como já afirmei, naquele momento, Godard passava por uma forte crise pessoal e política. Esse assunto aparece em vários momentos do livro escrito por Anne. 

Maio de 68!

O movimento de 'Maio de 68', que foi liderado pelos jovens estudantes e ao qual os operários franceses se aliaram durante um certo momento, levou à realização de uma Greve Geral que paralisou a França por várias semanas. 

O país ficou totalmente paralisado, levando os postos de gasolina a ficar sem combustível, as fábricas foram ocupadas pelos operários, as manifestações diárias em Paris sempre terminavam com a Polícia reprimindo duramente às pessoas que participavam das mesmas, levando à explosão de bombas, carros incendiados, lojas quebradas, num cenário que transformou a 'Cidade Luz' em uma verdadeira praça de guerra, o que deixou a jovem Anne (e grande parte dos franceses) horrorizada. 

Michèle Rosier e Bambam estavam entre alguns dos mais próximos amigos de Anne e Godard. 

Aliás, uma observação interessante sobre esses conflitos é que, inicialmente, Anne diz que a maioria dos franceses ficou a favor dos estudantes quando eles passaram a ser violentamente reprimidos pela Policia. Mas, em um segundo momento, quando apareceram 'estudantes' mascarados e que passaram a jogar coquetéis molotov e pedras nos policiais e a usar de extrema violência nos atos, a população voltou-se contra os mesmos. 

Inclusive, no livro de Anne, fica claro que os manifestantes não sabiam quem era os tais 'estudantes' mascarados. Com isso, pode-se perfeitamente suspeitar que eles eram, de fato, agentes infiltrados para gerar violência e jogar a opinião pública contra as manifestações. E foi exatamente isso que aconteceu. 

Mas no filme de Hazanavicius essas suspeitas a respeito de uma possível infiltração de agentes secretos nos atos sequer são citadas. 

Independente de quem fossem os tais 'estudantes' mascarados, os acontecimentos de Maio de 68 levaram Godard a se questionar a respeito do caráter da sua obra cinematográfica e de qual deveria ser a sua missão naquele momento, na condição de intelectual e cineasta de Esquerda. 

Godard irá mergulhar inteiramente no movimento, participando intensamente das manifestações, o que leva Anne a se preocupar com a integridade física do cineasta, que era bastante agressivo e impulsivo nos atos dos quais participava. 

Godard e Anne, juntos, no cinema. Eles se conheceram durante as filmagens de 'A Chinesa' (1967) e acabaram se apaixonando. Embora o filme de Hazanavicius tenha sido muito bem desenvolvido no aspecto formal, ele foi muito prejudicado pelas mentiras, omissões e distorções contidas no mesmo. 

Maio de 68 foi um momento em que existiu, mesmo que por um breve período, a possibilidade de um triunfo de uma Revolução em um dos países mais ricos do mundo, que era integrante do G7, era um potência nuclear e que tinha um papel fundamental na estabilidade política e econômica de uma Europa dividida em dois blocos, o Capitalista (liderado pelos EUA) e o Socialista (liderado pela URSS).  

Godard e sua crise pessoal, artística, política e ideológica!

No livro de Anne vemos que a crise que Godard enfrenta o levará a adotar uma postura radicalmente diferente em relação à realização dos seus filmes, bem como o leva a reavaliar tudo o que havia feito até aquele momento. 

Godard passa a desprezar todos os filmes que havia feito até então era, o que inclui filmes fundamentais para a história do Cinema, tais como 'Acossado', 'O Desprezo', 'Pierrot le Fou', entre outros, e que são admirados por cineastas do mundo inteiro até os dias atuais.

Aliás, essa nova postura de Godard deixa os outros cineastas, que são seus amigos e ou admiradores (Bernardo Bertolucci, Philippe Garrell), totalmente indignados, pois eles veem no genial cineasta francês o grande responsável por iluminar o caminho de todos eles, pois o mesmo havia modificado radicalmente a forma de se fazer os filmes, libertando os cineastas de uma série de restrições. 

Bertolucci chega a dizer para Anne que 'Jean-Luc é um gênio, seria um crime se parasse de fazer filmes' (página 127 do livro 'Um Ano Depois'). 

Como foi muito bem ressaltado pelo crítico Inácio Araújo (da 'Folha'), Hazanavicius vampirizou a obra de Godard para fazer 'Le Redoutable', usando de recursos e técnicas cinematográficas que foram empregadas de forma inovadora pelo genial cineasta francês durante, principalmente, a década de 1960, que foi a sua fase mais criativa e influente. Nesta cena ele se refere ao brilhante filme 'Uma Mulher Casada' (1964). 

Godard não irá deixar de fazer filmes, mas ele irá mudar radicalmente a maneira de realiza-los, integrando-se a um grupo (Dziga Vertov) que produzia os mesmos de forma coletiva e no qual a sua palavra tinha o mesmo da dos outros membros do projeto, mesmo que os demais não tivessem nenhum talento cinematográfico, enquanto que Godard o tinha de sobra. 

Godard entendia que a sua função, enquanto um intelectual que se pretendia ser também um revolucionário, era colocar o seu talento a serviço dos trabalhadores. 

Aliás, no filme 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil' (de 1968), em uma das cenas nas quais a personagem Eve Democracia (interpretada por Anne Wiazemsky) era bombardeada por perguntas, uma destas questionava justamente se para se tornar um revolucionário não seria necessário, antes, deixar de ser um intelectual. Eve Democracia disse que sim. 

E foi justamente isso que Godard fez quando ele passou a fazer parte do 'Groupe Dziga Vertov', que foi criado por ele e por Jean-Pierre Gorin. 

Aliás, no filme de Hazanavicius não temos qualquer referência ao fato de Godard ter feito esse filme com os The Rolling Stones, embora Anne tenha feito observações bastante interessantes a respeito do mesmo em seu ótimo livro.

Anne, por exemplo, conta que o filme, na verdade, era para ter sido feito com os Beatles, mas John Lennon não se interessou (somente McCartney gostou da ideia de fazer um filme com Godard, do qual ele dizia ser um grande fã). Com isso, o contrato assinado por Godard foi vendido para outros produtores, que convenceram os Stones a aceitar filmar com o gênio francês. 

Godard participou intensamente das manifestações de Maio de 68, tendo sido fortemente afetado por elas, tanto no aspecto pessoal, quanto no artístico. Ele também participava das assembleias e de reuniões em seu apartamento, no qual ouvia os jovens ativistas da época, pelos quais ele nutria uma grande admiração e aos quais estava sempre disposto a ouvir. Godard dizia que tinha muito a aprender com os jovens. Enquanto isso, Anne afirmava exatamente o contrário, ou seja, que os jovens é que tinham que aprender com os mais velhos...

Aliás, um filme como 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil' nunca mais será realizado, pois Godard desfrutou de uma ampla liberdade criativa, com os integrantes dos Stones deixando-o à vontade para filmar o que desejasse enquanto desenvolviam os arranjos desta canção que se tornou clássica e que o grupo toca em todos os seus shows até os dias atuais. 

Depois das tragédias que, no entanto, se abateram sobre os The Rolling Stones (morte de Brian Jones; Festival de Altamont) e sobre o mundo do Rock (mortes de Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin) nunca mais um cineasta de talento passou a desfrutar da liberdade que Godard conseguiu dos Stones neste clássico filme/documentário.

O debate com Bertolucci e a nova visão de Godard sobre o Cinema!

Inclusive, neste aspecto, o filme de Hazanavicius conta uma história pela metade, o que é feito para denegrir a imagem de Godard, tal como acontece durante praticamente todo o filme.

No livro vemos que Godard foi convidado por Bertolucci para participar de um debate, em Roma, com estudantes, profissionais do cinema e estudiosos italianos a respeito da relação entre 'Cinema e engajamento político', incluindo o próprio Bernardo, Gianni Amico, entre outros. 

Neste debate, Godard ataca o que chama de 'concepção revisionista do Cinema' e chegou a dizer o seguinte: "Vomito nessa concepção romântica do cinema e da obra de arte em geral". 

Uma bandeira vermelha, Godard e Anne fugindo da Polícia, uma cena comum em Paris, em Maio de 68. Anne diz, em seu livro, que participava das manifestações muito mais para proteger Godard do que pelo fato de concordar com as ideias defendidas pelos manifestantes. Ela mesma admite que era vista apenas como uma jovem burguesa e alienada pela juventude revolucionária e contestadora da época. E olha que ela foi paquerada por um bom tempo por Daniel Cohn-Bendit, um dos principais líderes das manifestações estudantis.

E sobre os filmes que havia feito até aquele momento, Godard diz (para espanto de todos os presentes) que "Renego-os, assim como renego todos os meus outros filmes'. Bertolucci reage, chocado, dizendo que "Você não pode dizer isso, esses filmes iluminam nossos caminhos' (páginas 130 e 131 do livro de Anne Wiazemsky). 

Depois que o debate termina, Godard, Anne, Bertolucci, Paola (mulher de Bernardo, embora não fossem casados), Gianni e uma jovem foram para um restaurante, onde o debate continuou, levando o cineasta francês a abandonar o local por 15 minutos, ficando do lado de fora, sob uma forte chuva, e retornando logo depois. Apesar da discussão, a noite terminou com Godard reclamando que Bertolucci (a quem chama de irmão) não foi atrás dele quando saiu do restaurante.

Anne encerra o seu relato dizendo que a noite terminou com todos dando gargalhadas daquele momento, conversando, rindo o tempo inteiro. Ela escreveu o seguinte: "Nossas risadas chegaram às mesas mais próximas e logo às de todo o restaurante. Jean-Luc continuava sendo aquele homem totalmente imprevisível" (páginas 131 a 134 do livro de Anne).

No entanto, no filme de Hazanavicius essa reconciliação final entre Godard e os demais não aconteceu e a discussão entre eles ocorre em um local público (e não em um restaurante), em que Godard e Bertolucci trocam 'gentilezas' (vai se f...) e para por aí.

Assim, o filme de Hazanavicius conta apenas uma parte do que aconteceu e omite totalmente a maneira como esse debate, entre Godard e Bertolucci, terminou, com eles se reconciliando no final. 

Por que Hazanavicius omitiu essa parte da história? Oras, ele fez isso para mostrar a pior imagem possível de Godard. E ele fez isso mesmo depois que afirmou que desejava levar história do livro de Anne para as telas do Cinema. Mas ele contou apenas a parte que se encaixava perfeitamente com o seu objetivo, que é o de atacar Godard e destruir a imagem do revolucionário cineasta da Nouvelle Vague. 

Bertolucci e Godard discutem em função das críticas que o cineasta francês fazia à maneira como os filmes eram realizados, repudiando até mesmo os clássicos que havia produzido ('Acossado', 'O Desprezo', 'Uma Mulher é uma Mulher'). O relato feito por Anne em seu livro mostra que a noite terminou muito bem, com eles conversando e dando muitas risadas. Mas essa parte não está presente no filme. 

Godard e Anne: Amor, Ciúme e Conflitos!

Também fica claro, no livro de Anne, que Godard também passa a adotar uma postura diferente no relacionamento com a sua jovem esposa (ele tinha o dobro da idade dela, praticamente). 

Godard era ciumento, autoritário, possessivo e vivia desejando que Anne sempre estivesse ao seu lado, mas isso era uma característica dos homens daquela época, que cresceram em uma sociedade com valores muito diferentes dos atuais, que era marcada pelo machismo e pela submissão das mulheres, fato este que é ignorado por Hazanavicius em seu filme. 

Godard queria que Anne tivesse rejeitasse os convites para trabalhar em filmes de outros diretores para que pudesse estar sempre ao seu lado. Porém, mais para o final do livro de Anne, percebe-se que Godard começa a mudar o seu comportamento. 

Desta maneira, enquanto Godard vai fazer um filme na Tchecoslováquia, Anne vai, na mesma época, filmar na Itália. Ele reclama do fato de que terá que ficar dois meses separados de Anne, mas acaba por aceitar a decisão dela. 

No livro também fica claro que a própria Anne se conformava, em outros momentos e situações, em se submeter à autoridade de Godard.

O verdadeiro Jean-Luc Godard filma as manifestações de Maio de 68, em Paris, ao lado de Anne, sua jovem esposa. Embora ela fosse da mesma geração dos jovens contestadores da época, ela não se identificava com os mesmos, sendo herdeira dos valores conservadores da sua família. Seu avô (François Mauriac) era um católico conservador, amigo de De Gaulle e que havia conquistado o Prêmio Nobel de Literatura. 

Em uma outra passagem do livro ela conta para a sua melhor amiga (Rosier) que os cachês que recebia por trabalhar era depositado em uma conta de Godard. Rosier a estimula a mudar essa situação e Anne diz que fará isso, mas no fim ela não faz nada, pois diz que aquilo era conveniente para ela. 

No livro, Anne diz o seguinte a respeito desta situação:

"Quando ficou sabendo que eu não tinha conta em banco nem talão de cheques e que Jean-Luc me dava quando eu pedia um pouco de 'dinheiro trocado', ela ficou horrorizada. 'Mas você trabalha, ganha a própria vida! Ele é que recebe seus pagamentos?'. 'Hã, acho que sim.' Ela me convenceu a mudar aquilo. Prometi que mudaria, mas não fiz nada: no fundo, aquilo me convinha" (páginas 120 e 121 do livro). 

Mas em momento algum essa postura mais acomodada e conformista de Anne, na sua relação com Godard, é mostrada no filme de Hazanavicius, o que serve para reforçar a visão fortemente negativa que o diretor procurar passar a respeito de Jean-Luc.

Godard, Cournot e o Festival de Cannes!

Outra situação do livro que foi alterada pelo diretor a fim de transmitir uma imagem bastante negativa de Godard ocorre quando este e outros atores e cineastas (François Truffaut, Louis Malle, Jean-Pierre Leáud...) vão até Cannes para interromper o festival, o que acabam conseguindo, a fim de fortalecer a luta dos operários e dos estudantes que paralisavam a França naquele momento. 

No filme de Hazanavicius a viagem de volta a Paris foi marcada por uma forte discussão envolvendo Godard, Michèle e Cournot. Mas, segundo o livro de Anne, isso nunca aconteceu. 

Um dos amigos de Anne e Godard, o diretor Michel Cournot, fica frustrado com isso pois queria lançar o seu filme no festival, mas com o cancelamento do mesmo é claro que o lançamento acaba não acontecendo. Depois disso, eles voltam a Paris, numa longa viagem (800 kms) de carro. 

No filme de Hazanavicius vemos que, durante a viagem, ocorre uma forte discussão entre Godard e Cournot (e da qual a Rosier também participa, contra Godard) em função do cancelamento do Festival de Cannes. No filme, Godard chega até a atacar o motorista (Émile) que os levava de volta a Paris como sendo um 'camponês', pois o mesmo não teria um gosto mais sofisticado para Cinema, contentando-se em assistir filmes que o levassem a fugir da realidade. 

Assim, Hazanavicius tenta passar a imagem de um Godard hipócrita, que dizia defender os direitos dos trabalhadores ao mesmo tempo em que atacava Émile como sendo um 'camponês' por seu gosto pouco sofisticado para o Cinema. 

O grande problema é que, no livro de Anne, essa discussão simplesmente não aconteceu. Em nenhum momento do livro temos um relato desse tipo. 

Essa discussão foi inventada por Hazanavicius. É uma Fake News!

No livro de Anne, fica claro, inclusive, que Cournot e Godard evitaram de discutir a respeito do cancelamento do Festival de Cannes e do fato de que isso impediu que o filme dirigido por Cournot fosse lançado durante o mesmo.

No filme de Hazanavicius é mostrado como alguém que não tinha paciência para conversar com as pessoas que o reconheciam nas manifestações de Maio de 68. Mas, em seu livro, Anne diz exatamente o contrário, falando que Godard sempre parava para conversar, mesmo com pessoas que não conhecia. Essa foi mais uma manipulação feita por Hazanavicius com o objetivo de manchar a imagem de Godard. 

Assim, no livro 'Um Ano Depois', temos um relato sobre a viagem, no qual ela fala do momento em que eles se encontravam no apartamento de Gilles Deleuze, que voltaria a Paris junto com ela, Godard, Bambam (Jean-Pierre Bamberger, marido de Rosier), Cournot e o motorista que os conduzia (Émile), que diz o seguinte: "Dali a pouco iríamos jantar numa pizzaria perto da casa deles, mas naquele momento Gilles pedia mais informações sobre a interrupção do Festival de Cannes. Cournot e Jean-Luc foram evasivos. Um porque não havia sido um dos protagonistas, o outro por má vontade".

Logo, quando o assunto foi abordado pelos demais, Godard e Cournot evitaram de comentar a respeito. Outra coisa: Rosier não voltou com eles para a capital francesa. Ela ficou no sul da França e daria um jeito de retornar mais tarde a Paris. Mas no filme de Hazanavicius ela não apenas volta com eles, de carro, como também discute fortemente com Godard, devido ao comportamento grosseiro deste com Cournot. Porém, nada disso aconteceu, segundo o livro de Anne. 

Portanto, o conflito entre Godard e Cournot (e de Godard com Rosier), que foi mostrado por Hazanavicius em seu filme, simplesmente não aconteceu. 

Esta é mais uma das intermináveis Fake News que vimos no filme de Hazanavicius. 

Godard, Anne, Michele e Bambam reunidos na casa litorânea de Pierre Lazareff, jornalista conservador e que era aliado de De Gaulle. O simples fato de ficar na casa de Lazareff já desagradou bastante Godard, que também se irritou pelo fato de que Anne ficou ali, se bronzeando, enquanto ele lutava para interromper o Festival de Cannes de 1968. No livro, Anne disse que se arrependeu de não ter estado ao lado de Godard em Cannes. 

Vampirizando e deturpando tudo a respeito de Godard!

Como muito bem observou o Inácio Araújo, excelente crítico cinematográfico da 'Folha de S.Paulo', o diretor do filme fez uso de vários recursos cinematográficos que eram usados por Godard, vampirizando a obra do genial e revolucionário cineasta francês: frases escritas em muros (no filme de Hazanavicius ela é interminável, o que é uma forma de satirizar a técnica usada por Godard); uso das cores da França em várias cenas; atores falando diretamente com o espectador. 

Mas o problema é que ele faz isso apenas para tentar ridicularizar Godard e não se preocupa em mostrar aos espectadores o contexto em que o cineasta usava as técnicas e métodos inovadores que usou para revolucionar o Cinema a partir de sua obra-prima, que é 'À Bout de Souffle' ('Acossado'). 

Hazanavicius, por exemplo, reproduz em seu filme uma fala do personagem Bruno Forestier (do clássico 'Le Petit Soldat'), na qual este critica os atores por fazerem exatamente o que os diretores mandavam, sem questionar nada. 

Obs1: 'Le Petit Soldat' foi o segundo filme de Godard, tendo sido realizado em 1960, mas ele foi lançado apenas em 1963, pois foi censurado devido ao assunto do qual tratava, que era a Guerra da Argélia, tema que dividiu a sociedade francesa, gerando uma grave crise política, militar e social no país. Até tentativas de Golpes de Estado e de assassinar Charles De Gaulle aconteceram naquela época, pois o presidente francês, Herói da Segunda Guerra Mundial, concordou em reconhecer a Independência do país africano. 

Godard já estava cansado de fazer o mesmo Cinema de sempre e acabou sendo muito influenciado por Jean-Pierre Gorin, um crítico e intelectual marxista que defendia a criação de um novo Cinema, de caráter revolucionário e que se identificava com o ideal maoísta. Juntos eles criaram o 'Groupe Dziga Vertov', que procurou modificar radicalmente a maneira de filmar. Assim, Godard tentava promover uma nova Revolução no Cinema. Mas o impacto dessa segunda tentativa foi bem menor do que a da primeira, que começou com 'Acossado'. 

Porém, o que não é mostrado no filme de Hazanavicius é que essa crítica era feita à forma de interpretação, sem espaço para o improviso, que era usada pelos atores e atrizes até aquele momento no Cinema. E quem conhece a maneira pela qual Godard realizava os seus filmes nos anos 1960 sabe perfeitamente que ele estimulava o improviso dos atores e atrizes nas cenas. 

Para isso, Godard se utilizava de vários recursos, sendo que um deles era o de entregar o roteiro, com as falas de cada ator ou atriz, poucos momentos antes da filmagem se realizar, concedendo ao atores e atrizes o máximo de liberdade para a improvisação. 

Godard fazia isso com o objetivo de conseguir uma interpretação que fosse a mais natural possível dos atores e atrizes com os quais trabalhava. 

No livro autobiográfico 'Mil Vidas valem mais do que uma', o ator Jean-Paul Belmondo, que trabalhou com Godard em vários filmes, conta algumas passagens das filmagens de 'Acossado' que mostram muito bem qual era a maneira de Godard de trabalhar a atuação de cada um. 

Cena do clássico 'Le Petit Soldat', que foi o segundo longa-metragem de Godard, tendo sido filmado em 1960, mas que foi lançado apenas em 1963. Nesta cena o personagem Bruno Forestier criticava a postura dos atores e atrizes, que faziam tudo o que os diretores mandavam. Godard modificou radicalmente a forma de atuação em seus filmes, estimulando a improvisação por parte dos mesmos. Em 'Le Redoutable', Hazanavicius vampirizou essa cena, fazendo o Godard do seu filme repetir a fala de Forestier. 

Belmondo conta que em uma das cenas de 'Acossado' Godard lhe disse que ele teria que entrar em um bar e Belmondo perguntou 'E faço o quê?' e Godard respondeu 'O que você quiser'. Em outra cena, Godard lhe pediu para entrar em uma cabine telefônica. Belmondo perguntou 'E falo o quê?', ao que Godard respondeu 'O que você quiser'. 

E é claro que Belmondo adorou trabalhar com Godard, pois ele amava improvisar, sendo que fazia isso desde a época em que trabalhava no teatro francês, fato este que não era muito bem visto no ambiente tradicional do Conservatório, onde se formou. 

E o resultado final todos conhecem: 'Acossado' foi um grande sucesso e transformou Belmondo em um dos principais astros do cinema francês, que passou a ser requisitado para trabalhar com cineastas consagrados (François Truffaut, Vittorio De Sica, Jean-Pierre Melville, René Clément, Louis Malle, Claude Lelouch). 

Em seu livro, Belmondo também escreveu que 'A obra-prima de Godard é o meu cartão de visitas'. Posteriormente, ele voltaria a trabalhar com Godard em 'Une Femme est une Femme' (1961) e em 'Pierrot le Fou' (1965).  

Uma curiosidade dita por Belmondo em seu excelente livro é que, para ele, Godard insistiu em contratar Jean Seberg para trabalhar em 'Acossado' porque nutria uma paixão secreta pela belíssima atriz e queria se aproximar dela durante as filmagens, embora fosse muito tímido. 

Obs2: Estas informações foram retiradas do capítulo 'E então, Godard', do livro autobiográfico de Jean-Paul Belmondo, págs. 127 a 140, L&PM Editores. 

O excelente livro de Jean-Paul Belmondo tem um capítulo dedicado a 'À Bout De Souffle' ('Acossado') e nele fica claro que Godard procurava fazer com que os atores e atrizes com os quais trabalhavam improvisassem sempre. Durante as filmagens, Belmondo e Jean Seberg concluíram que aquele era um filme 'maluco' e que iria fracassar, mas como eles já haviam assinado contrato não havia como desistir. Deu no que deu...

Porém, quem assiste ao filme de Hazanavicius sem conhecer esse método, usado por Godard, de trabalhar a interpretação dos atores e atrizes pode chegar à uma conclusão equivocada, ou seja, a de que o genial cineasta da Nouvelle Vague era um carrasco com os atores e atrizes com os quais trabalhava. Na verdade, ele criticava atores e atrizes que atuavam de forma mecânica, que se limitavam a repetir exatamente as falas do roteiro.

Portanto, a crítica de Godard era feita contra essa forma mecânica de atuar e não aos atores e atrizes enquanto pessoas. Mas isso não fica claro no filme de Hazanavicius. É mais uma história do filme que é contada de maneira apenas parcial e distorcida, tal como aconteceu com a discussão de Godard com Bertolucci, em Roma. 

Outro momento do filme em que Hazanavicius procura ridicularizar Godard e a chamada 'Geração de 68' se dá quando mostrou o cineasta, Anne, Bamban e Rosier lendo alguns livros superficiais, infantis até, quando estavam no sul da França e esperavam o momento de iniciar a viagem de volta a Paris. E no filme eles dormiam pouco tempo depois de começar a ler. 

No entanto, no livro de Anne é dito que Godard estava lendo 'O Banquete' (de Platão), enquanto que Anne lia 'Jules et Jim' (livro de Henri-Pierre Roché que foi adaptado por Truffaut em 1962, gerando uma das obras-primas do cineasta), Bamban (Jean-Pierre Bamberger) lia a correspondência de Gustave Flaubert e Michèle Rosier estava lendo um romance inglês que ainda não havia sido traduzido para o francês. 

Portanto, até mesmo no assunto das leituras feitas pelos protagonistas do filme o diretor Hazanavicius deturpou totalmente o conteúdo do livro de Anne, pois ele queria passar a ideia de que aqueles intelectuais dos anos 1960 eram uma fraude e que os mesmos não liam nada que prestasse. 

O imenso ciúmes de Godard o levou a pensar que Anne o estava traindo, o que não acontecia, segundo o relato dela no livro. Porém, isso não impediu que ele tentasse cometer o suicídio, o que gerou o fim da relação. Anne diz que o fim do relacionamento foi bastante doloroso para ambos. 

Outro fato que é mostrado no filme de maneira totalmente deturpada em relação ao que está contido no livro de Anne Wiazemsky é a maneira como Godard e Anne se relacionavam com os jovens estudantes revolucionários da época. Embora o filme mostre Godard participando ativamente das manifestações e assembleias que aconteceram, a forma como isso se deu foi distorcida totalmente no filme. 

Desta maneira, no filme vemos Godard adotando uma postura arrogante e grosseira com as pessoas que o reconheciam nas manifestações de Maio de 68. Mas, no livro de Anne não existe um único fato que comprove esse comportamento de Godard. 

Na verdade, o que Anne diz é que, nas manifestações, Godard era reconhecido tanto por pessoas que o admiravam ('Então Godard é um dos nossos?', perguntavam, entusiasmadas), como por pessoas que diziam que ele era um impostor. E como Godard reagia nestas situações em que era hostilizado? Ela responde "Ele não notava nada e continuava filmando'.

Logo, em nenhum momento ela diz, em seu livro, que Godard teria sido grosseiro com alguém durante as manifestações, mesmo quando foi hostilizado.

Em uma passagem do livro, de fato, Anne diz exatamente o contrário do que é mostrado no filme: "Às vezes, encontrávamos amigos que trabalhavam no cinema e parávamos um pouco para trocar impressões, conversar. Jean-Luc tinha se tornado mais gentil, mais disponível: aquela multidão tão heterogênea o divertia" (página 54 do livro de Anne). 

Godard e Gorin tentaram promover uma revolução na forma de se produzir e realizar filmes, criando o 'Groupe Dziga Vertov'. Dessa fase saíram obras como 'Un Film Comme les Autres'', 'Pravda', 'British Sounds', 'O Vento do Leste', 'As Lutas ideológicas na Itália', 'Vladimir e Rosa' e 'Tudo Vai Bem'. Recentemente foi lançado um BluRay com cinco dos filmes produzidos nesta época. Será que existe alguma chance deste Bluray ser lançado no Brasil (ou o DVD, pelo menos)?

Portanto, essa história a respeito da grosseria de Godard com os manifestantes foi mais uma mentira inventada por Hazavinicius em seu filme, que está repleto de Fake News.  

Outra situação que foi deturpada em 'Le Redoutable' é uma na qual Godard discutiu com um homem idoso em um restaurante pelo fato de que o mesmo criticou duramente os estudantes que estavam se manifestando pelas ruas da França, chamando-os de imbecis. No filme, este senhor idoso é mostrado como se estivesse acompanhado de sua esposa, também idosa, mas no livro de Anne esta deixa claro que a companhia dele era uma mulher bem mais jovem e que a mesma estava bastante maquiada. 

Logo, essa foi mais uma situação em que Hazanavicius distorceu o conteúdo do livro de Anne ('Um Ano Depois'). 

Aliás, depois de tantas distorções, mentiras e omissões que estão presentes em seu filme, pode-se perguntar se não foi Donald Trump que escreveu o roteiro do filme de Hazanavicius, tal é a quantidade de mentiras que o mesmo contém. 

Concluindo, também pode-se dizer que o péssimo e mentiroso filme de Hazanavicius resume o espírito de nossa época, que é inteiramente dominada pelas Fake News. E Hazavanicius absorveu de tal maneira essa espírito que fez um filme, a respeito de Godard, que é um verdadeiro festival de Fake News, do início ao fim. 

A julgar pelas inúmeras manipulações promovidas por Hazanavicius o roteiro do seu filme deve ter sido escrito por esse sujeito aí: Donald Trump, o Rei das Fake News. Na imagem  acima Trump está dizendo 'Assim é que se escreve um roteiro, seus zémanés!'...

Informações Adicionais:

Título: 'Le Redoutable' (O Formidável); 
Diretor: Michel Hazanavicius;
Roteiro: Michel Hazanavicius; adaptação do livro 'Um Ano Depois' ('Un An Après') de Anne Wiazemsky;
País de Produção: França; Ano de Produção: 2017;
Fotografia: Guillaume Schiffman; 
Elenco: Louis Garrel (Godard); Stacy Martin (Anne); Bérénice Bejo (Michele Rosier); Micha Lescot (Bamban); Grégory Gadebois (Michel Cournot); Félix Kysyk (Jean-Pierre Gorin); Arthur Orcier (Jean-Jock); Marc Fraize (Èmile); Jean-Pierre Mocky (Idoso no Restaurante); Guido Caprino (Bernardo Bertolucci); Emmanuele Aita (Marco Ferreri); Giulia Dussollier (Paola Bertolucci). 

Links:

Texto de Luiz Carlos Merten (Estadão):

https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,godard-e-retratado-como-comico-e-patetico-em-cinebiografia,70002065285

Texto de Inácio Araújo (Folha):

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/10/1930029-em-o-formidavel-hazanavicius-vampiriza-godard-descaradamente.shtml 

Crítica sobre o filme de Hazanavicius:

https://nosbastidores.com.br/critica-o-formidavel/

Crítica sobre o filme de Hazanavicius:

http://pocilga.com.br/2017/10/critica-o-formidavel-le-redoutable/

Maio de 68, quando o Festival de Cannes parou:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/11/cultura/1526039729_424562.html?rel=str_articulo#1546858645943

Cinco Filmes produzidos por Godard e Gorin entre 1968-71 são lançados em bluray:

https://culturedvultures.com/jean-luc-godard-jean-pierre-gorin-five-films-1968-1971-blu-ray-review-radical-collaboration/

Trailer do Filme (legendado em português):