quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

'Os Companheiros': Monicelli mostra a luta dos operários italianos por uma vida digna! - Marcos Doniseti!

'Os Companheiros': Monicelli mostra a luta dos operários italianos por uma vida digna! - Marcos Doniseti!
'I Compagni' ('Os Companheiros'): Filme clássico de Mario Monicelli sobre as lutas dos operários italianos, no final do século XIX, por melhores condições de trabalho e de vida. 
Mario Monicelli foi um dos principais diretores do cinema italiano e isso aconteceu quando a produção cinematográfica italiana estava no auge, fase esta que foi bastante longa e que durou do início do Neo-Realismo até meados da década de 1970.

Embora ele tenha ficado mais conhecido por suas comédias (como o clássico 'O Incrível Exército de Brancaleone' e os muitos populares filmes da série 'Totó'), o talentoso cineasta também realizou alguns filmes de caráter mais político, como é o caso de 'La Grande Guerra' e este 'I Compagni'.

'I Compagni' ('Os Companheiros') é um dos principais filmes políticos de todos os tempos e mostra a luta dos operários italianos do final do século XIX, em um estágio ainda inicial do movimento operário naquele país. Os operários do filme de Monicelli sequer estavam organizados em sindicatos.

O clássico filme de Monicelli teve um grande impacto no Brasil nos anos 1960, pois quando ele chegou ao país a Ditadura Militar o censurou, é claro.
Mario Monicelli e Marcello Mastroianni nos bastidores das filmagens de 'I Compagni'. 
Afinal, apenas no período 1964-1966, mais de 10 mil dirigentes sindicais foram afastados dos seus cargos pela Ditadura Militar, pois a mesma desejava arrochar os salários dos trabalhadores a fim de estimular a entrada de capital estrangeiro. E para isso era necessário reprimir duramente o movimento sindical brasileiro.

E essa política de repressão e de arrocho salarial foi executada com tanta competência e eficiência que o salário mínimo perdeu 45% do seu poder de compra entre 1964-1985.

Logo, permitir que um filme que mostra a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e de vida não era algo que agradasse à Ditadura Militar, cujas decisões beneficiaram apenas aos Grandes Capitalistas (brasileiros e estrangeiros) e a uma pequena parcela da classe média, mais abastada, que era formada por administradores, técnicos qualificados, gerentes, engenheiros, advogados e altos funcionários públicos.

Mesmo assim, o filme era exibido em universidades e sindicatos pelo Brasil afora e, com certeza, contribuiu para a conscientização política de milhares de pessoas, bem como para a continuidade das lutas populares pela Redemocratização do país.
'I Compagni', produção de 1963, é um dos principais clássicos do cinema político italiano. 
O crítico Inácio Araújo fez uma observação bastante interessante, em um artigo publicado há alguns anos na 'Folha', dizendo que o filme de Monicelli conquistou mais militantes para o movimento operário do que os textos de Marx, Lênin e Trotsky. 

A trama do filme se desenvolve na cidade de Turim (cidade sede da FIAT, que significa 'Fábrica Italiana de Automóveis de Turim'), no final do século XIX, e conta a história de operários de uma grande indústria de tecidos que são brutalmente explorados, sendo submetidos à péssimas condições de trabalho e a longas jornadas de trabalho.

Assim, o ambiente da fábrica é sujo, barulhento, os acidentes de trabalho são frequentes, os salários não são suficientes sequer para alimentar os operários e a sua família e a jornada de trabalho chega a 14 horas diárias.

E na época, é claro, também não existiam Salário Mínimo, Previdência Social, Jornada de 8 horas diárias, Carteira de Trabalho, Férias e Folgas remuneradas. Estas serão conquistas que os operários irão obter nas décadas seguintes, mas no final do século XIX elas ainda estavam distantes da sua realidade.
Fundadores da Primeira Internacional (Associação Internacional de Trabalhadores), que foi criada em 1864. Karl Marx estava entre eles. 
Um dos operários, inclusive, chega a pedir que a sua esposa leve o filho recém-nascido à fábrica, para que possa ver o mesmo, pois quando ele sai de casa para trabalhar, logo cedo, o bebê ainda está dormindo e quando ele chega do trabalho o filho também está dormindo.

Foi nestas condições, de brutal exploração promovida pelos Capitalistas proprietários de uma indústria de tecidos, que um acidente de trabalho, na qual um dos operários (Mondino) perdeu a mão em uma das máquinas, acabou desencadeando a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e pela redução da jornada de trabalho.

Esta luta dos operários começa apenas com a ideia de exigir uma jornada de trabalho menor, para 13 horas diárias, para que eles tivessem mais tempo livre para ficar com a família e para descansar.

Mas como naquela época não havia seguro-acidente e nem previdência social, os próprios operários tiveram que fazer uma coleta para ajudar a família do operário acidentado.
Operários da indústria de tecidos se reúnem para decidir o que fazer. A ideia inicial deles era paralisar a produção por apenas uma hora.
Inicialmente, os operários decidiram paralisar a produção uma hora antes do dia de trabalho ser encerrado e, depois, iriam todos embora, mas na falta de uma melhor organização, isso acabou não dando certo.

Na sequência, aparece na cidade um 'Professor' chamado Sinigaglia (brilhantemente interpretado por Marcello Mastroianni) que, tudo indica, foi enviado pelos Socialistas para ajudar na organização e na luta dos operários da indústria de tecidos.

Aliás, quando ele fala com os operários pela primeira vez ele reconhece que se ocupa, já há muitos anos, de problemas semelhantes aos que os operários estão enfrentando.

Portanto, Sinigaglia é um intelectual orgânico que se envolve com as lutas operárias italianas e que faz disso a própria razão de sua vida, deixando todo o restante em segundo plano (família, filhos, etc).

Obs1: A imensa maioria dos cineastas italianos do Pós-Guerra era ligada ao PCI (Partido Comunista Italiano). Mario Monicelli, por sua vez, era uma exceção. Ele se considerava um Socialista, mas não aceitava a interferência de ninguém em seu trabalho e o PCI costumava interferir no trabalho dos cineastas ligados ao partido, o que gerava frequentes conflitos entre os cineastas e o partido. Aliás, é bom dizer que o PSI (Partido Socialista Italiano) entrou para o governo italiano justamente em 1963, passando a governar o país juntamente com os Democratas-Cristãos e os Liberais. Pode ser coincidência, mas este foi o mesmo ano em que 'I Compagni' foi produzido e Mario Monicelli era declaradamente um Socialista.
Depois que o 'Professor' Sinigaglia começou a falar para os operários é que estes decidiram iniciar uma greve sem prazo para acabar. Suas orientações eram ouvidas com atenção pelos operários, que ainda estavam em um estágio inicial de conscientização, organização e de mobilização. 
Foi a partir do momento em que tivemos a participação do 'Professor' Sinigaglia nas lutas dos operários, que os mesmos irão conseguir se organizar de forma muito mais eficiente. Com isso, eles não irão mais parar a produção por apenas uma hora, mas darão início a uma greve que chegará a durar mais de um mês.

Assim, fica claro que Sinigaglia era um veterano militante político, já sendo bastante experiente no trabalho de conscientizar, organizar e mobilizar os trabalhadores para que promovessem greves duradouras, protestos e manifestações.

E ele percebeu que a grande unidade existente entre os operários daquela fábrica de tecidos de Turim criava as condições para que uma greve fosse desencadeada.

Logo, o filme de Monicelli defende, claramente, a ideia de que um movimento sindical forte, combativo e organizado tem que ter a participação não somente dos próprios operários, mas também de intelectuais comprometidos com as suas lutas.

E já em sua primeira reunião com os operários, o 'Professor' Sinigaglia fala para os mesmos que eles deveriam ir muito além e, não apenas parar a produção por uma hora, mas promover uma greve.
Os operários na fábrica de tecidos de Turim, um local barulhento, sujo, onde aconteciam inúmeros acidentes de trabalho. A jornada de trabalho chegava a 14 horas diárias e o salário mal era suficiente para alimentar a família. A concentração de centenas, e até milhares, de trabalhadores em um único local foi uma das principais características da Segunda Revolução Industrial. 
Porém, ele avisa aos operários que eles devem planejar o movimento com cuidado, comprando (fiado) alimentos, carvão e os mantimentos necessários para que não passem necessidades durante o período em que a greve durar, pois a partir do momento em que os comerciantes ficarem sabendo que os operários estão em greve ninguém irá vender mais nada para eles.

Logo, a chegada do 'Professor', ou seja, do intelectual politicamente engajado e comprometido com a luta dos operários, contribuiu decisivamente para que os trabalhadores dessem um salto qualitativo nas suas formas de luta.

No entanto, é bom ressaltar que, neste momento, não havia nenhum sindicato ou associação organizando as lutas dos trabalhadores. Eles haviam improvisado apenas um 'Comitê de Greve', que foi formado por alguns dos principais operários.

Aliás, a discriminação contra as mulheres (que existia em todas as classes sociais naquela época) ficou evidente quando uma delas se propôs a fazer parte do 'Comitê' e um operário (Pautasso) disse que aquilo era um 'assunto sério' e que as mulheres não deveriam participar, no que foi retrucado prontamente por várias operárias, que disseram que se elas trabalhavam e participavam das lutas, então elas também tinham o direito de participar do 'Comitê'.

Desta forma, elas ‘falaram bonito’ e calaram Pautasso.

Portanto, fica evidente que os operários ainda se encontravam em um estágio embrionário de organização.
No meio de toda a miséria e das lutas políticas e sociais, a bonita Adele e o operário Bertone encontravam tempo para um romance. 
Obs2: Na maioria das vezes, nos países que se industrializavam, os operários criavam, inicialmente, algum tipo de associação de ajuda mútua e, somente depois, organizavam um sindicato para poder levar adiante as suas lutas por melhores salários, redução de jornada de trabalho, direito de voto, etc. Mas, neste caso mostrado por Monicelli, os operários não possuíam qualquer tipo de associação ou sindicato, o que ajuda a explicar porque a sua tentativa de parar a produção não funcionou, pois foi tudo feito de forma improvisada.

Uma realidade que os operários enfrentavam, nesta época, era o fato de que a imensa maioria deles era analfabeta. E para poder votar nas eleições italianas era necessário ser alfabetizado. Por isso, para poder votar, um grupo de operários começou a frequentar as aulas noturnas e gratuitas dadas por um Professor (o Professor Di Meo), de um Liceu (Ginásio) local, mas a maioria deles mal conseguia ficar com os olhos abertos, devido ao sono e ao cansaço, após um dia de trabalho de intermináveis 14 horas.

O humor clássico de Monicelli está presente em vários momentos do filme. Em uma das aulas, por exemplo, o Professor pediu a um operário (Barbero) que escrevesse uma frase na lousa, que os demais deveriam copiar, e o mesmo escreveu 'Morte ao Rei'. Quando o Professor Di Meo vê o que está escrito na lousa, ele diz que a frase era muito bonita e que compreendia o motivo de Barbero ter escrito a mesma, mas que era necessário ter mais estilo e disciplina ao escrever.

O professor Di Meo é um simpatizante das lutas operárias e irá contribuir com a greve, fazendo coleta entre os estudantes do Liceu no qual lecionava. Mas ele será demitido do Liceu em função disso.
Operários da fábrica de tecidos no horário de almoço. Eles tinham 30 minutos para almoçar. Mas se depender da Fiesp, os trabalhadores brasileiros não terão mais isso. Afinal, eles poderão trabalhar com uma das mãos e se alimentar com a outra... 
Obs3: A Itália era uma Monarquia Constitucional, desde que havia se unificado, em 1860 (o Rei era Vítor Emmanuel II). Apesar de termos eleições para o Parlamento, a imensa maioria dos parlamentares era ligada aos interesses dos Grandes Capitalistas e, assim, eles nada faziam para melhorar as condições de vida dos trabalhadores (operários e camponeses). A República foi instalada no país apenas em 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, devido a um plebiscito no qual o povo decidiu pela abolição da Monarquia.

Alguns operários tinham consciência da necessidade de estudar para se superar aquela situação de miséria. Exemplo disso é Omero, um adolescente que trabalha na fábrica e que também é analfabeto, e que chega a estapear o seu irmão mais novo, pois este frequenta a escola, mas não se dedica aos estudos. Ele deseja que o seu irmão tenha um futuro melhor do que o seu (que trabalha na fábrica em condições precárias), mas o mesmo também deseja trabalhar na fábrica, tal como fazia Homero. 

Assim, Monicelli mostra que é muito difícil quebrar o círculo vicioso da pobreza.

Uma das filhas de um dos operários encontrou uma ‘solução’ diferente para sair dessa pobreza extrema em que eles viviam, que foi a prostituição. Ela chegava, inclusive, a ridicularizar os pais e os demais operários, pois conseguia ter um padrão de vida bem melhor do que o deles. Mas a que preço...

Posteriormente, o 'Professor' Sinigaglia  chegou a lhe dizer que ele participava de todas as lutas dos operários justamente para que ela, ou qualquer outra mulher, não necessitasse se transformar em prostituta.

Depois disso, ela nunca mais conversou com ele.
O processo de unificação da Itália se desenvolveu durante 11 anos, entre 1859 e 1870, e foi possível devido à uma série de guerras lideradas pelos governantes burgueses do Piemonte, região altamente industrializada e onde se localiza a cidade de Turim. 
Mas vemos que outra mulher (Niobe) demonstrou interesse por Sinigaglia e eles terão um breve romance, que não irá durar muito, pois o 'Professor' dá prioridade para as suas atividades políticas, consideradas subversivas pelos patrões e pelo governo que, claramente, era controlado pelos Capitalistas.

Afinal, bastou o proprietário da indústria de tecidos (Luigi) dizer que o 'Professor' precisava ser preso (pois ele seria o grande responsável por ocorrer uma greve tão duradoura) que a Polícia foi imediatamente à procura dele a fim de prende-lo. Sinigaglia conseguiu fugir, pois um dos operários (Bertone), que o hostilizava no início de sua presença no local, mas que se tornou o seu melhor amigo posteriormente, o protegeu.

Obs4: A Itália, bem como vários outros países da Europa Ocidental (Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica, Suíça), vivia uma fase de acelerada industrialização nas últimas décadas do século XIX, como resultado da chamada 'Segunda Revolução Industrial', que se espalhou pelo mundo entre 1860-1920. Foi neste período que passamos a ter a produção de aço em grande escala, o desenvolvimento da energia elétrica e da indústria química, a invenção do automóvel e do cinema, o taylorismo e a produção em série. Surgiu, assim, o sistema taylorista-fordista de produção (viabilizando a produção em massa, padronizada, que reduziu os custos de produção e barateou os produtos, tornando-os mais acessíveis). Tal sistema de produção foi hegemônico durante quase todo o século XX.

Tais mudanças propiciaram a formação de grandes cartéis, trustes, monopólios e oligopólios nos principais setores da economia (aço, petróleo, sistema financeiro, ferrovias).
Operário de Bérgamo (Lombardia) levanta a mão na assembleia e apresenta uma proposta, mas ninguém entende o que ele fala, pois a língua de sua cidade natal é totalmente diferente daquela que era falada em Turim (Piemonte). 
Todas estas transformações enterraram a chamada economia de livre-mercado, pois a produção, distribuição e comercialização de riquezas passou a ser controlada por um reduzido número de gigantescas empresas, dando origem a muitas e novas empresas multinacionais.

Outra característica fundamental nesta fase de expansão do Capitalismo Industrial é a concentração de um número cada vez maior de operários em grandes unidades de produção (fábricas), que passaram a contar com centenas e até com milhares de funcionários em apenas um só local de trabalho.

Isso permitia uma maior exploração da força de trabalho pelos Capitalistas, sem dúvida alguma, mas também facilitava o processo de organização e de mobilização por parte dos trabalhadores.

Desta maneira, surgiu um forte e crescente movimento sindical nestes países que se industrializavam rapidamente. Este movimento sindical passou a organizar e a mobilizar milhões de trabalhadores em todos estes países, promovendo greves, protestos e manifestações.

Todo este processo de crescente capacidade de luta dos trabalhadores europeus resultou na criação da Primeira Internacional Socialista (Associação Internacional de Trabalhadores, que foi fundada em 1864 e que deixou de existir em 1876 devido, principalmente, às imensas divergências existentes entre os socialistas e os anarquistas), que contou com a participação de Karl Marx e de Mikhail Bakunin. Em 1889, foi criada a Segunda Internacional, atividade na qual Friedrich Engels teve uma participação bastante significativa. Ela irá durar até 1914, chegando ao fim em função do estouro da Primeira Guerra Mundial, que provocou o racha da organização.
O 'Professor' Sinigaglia é um intelectual socialista que participa de inúmeras manifestações, greves e protestos por toda a Itália. Ele já havia sido preso em Genova antes de ir para Turim.
Logo, os fatos mostrados por Monicelli em seu clássico filme se desenvolvem durante a existência da 'Segunda Internacional' (1889-1914), quando os trabalhadores dos mais diversos países procuraram unificar as suas lutas contra a exploração capitalista, que também já ocorria em escala mundial. O processo de Globalização Capitalista já estava a pleno vapor naquela época.

Na Alemanha (que se tornou a mais desenvolvida nação industrial europeia a partir de 1900, superando a Grã-Bretanha e a França), esse processo deu origem a um poderoso movimento sindical, bem como a um forte partido político (o SPD, Partido Social Democrata), que foi fundado em 1863 e que se tornou o maior do país já nas eleições parlamentares de 1912. E o SPD era votado, maciçamente, pelos operários alemães, cujas vidas giravam em torno das instituições e obras do partido (bares, clubes, jornais, livros, etc).

No caso da Itália, essa industrialização acelerada começou de forma atrasada, pois a unificação do país ocorreu apenas na década de 1860/1870.

A unificação italiana se deu após uma série de guerras vitoriosas que os italianos travaram (e nas quais eles contaram com um importante apoio do governo francês) contra a Áustria, cujo império multinacional abarcava várias regiões que, posteriormente, se uniriam à Itália (este é o caso dos Ducados de Parma, Modena e Toscana e da Lombardia, onde fica Milão).

A Áustria era (ao lado da Rússia) o mais reacionário dos Impérios europeus do período e procurava impedir o desenvolvimento das lutas democráticas e populares no continente, reprimindo as mesmas.
Como a greve dos operários da fábrica de tecidos durou muito tempo, os patrões contrataram 200 trabalhadores desempregados de uma cidade vizinha (Saluzzo) para substituir os grevistas. Isso gerou um conflito entre os dois grupos de trabalhadores e provocou a morte de Pautasso, um dos principais dos operários grevistas.  
Com a unificação, que foi concluída em 1870, a Itália se tornou uma Monarquia Constitucional, que era controlado pela Burguesia e na qual os trabalhadores (operários e camponeses) não desfrutavam de direitos políticos, sociais ou trabalhistas.

Assim, os trabalhadores italianos do período viviam em uma gritante e brutal miséria e, ainda, não tinham com quem reclamar, pois o governo liberal-burguês do país usava de violência brutal para reprimir as suas lutas e jamais atendia às suas reivindicações.

E mesmo com a unificação, a Itália ainda continuou dividida de várias maneiras. 

Assim, a língua que atualmente é conhecida como o 'italiano' era, na verdade, a língua falada originalmente pela elite da Toscana (cuja capital é Florença).

No entanto, nas demais regiões da Itália recentemente unificada, falavam-se línguas e dialetos muito diferentes, de tal forma que habitantes de uma mesma região, mas que viviam em cidades diferentes, não conseguiam se entender.

Em uma cena do filme, inclusive, vemos os operários da indústria de tecidos reunidos em assembleia para decidir a respeito da ação que iriam promover (e que resultou na opção pela greve) quando um deles fez um comentário que somente um dos presentes (Cesarina) conseguiu entender. Isso aconteceu porque tal operário era da região de Bérgamo (Lombardia), enquanto que Turim, que é a cidade onde se desenvolve a trama do filme, fica no Piemonte. E as línguas faladas nas duas regiões eram muito diferentes. 
Na época da greve os comerciantes não vendiam nada para os operários. O Exército passou a distribuir sopa para os mesmos. Mas quando os operários tentaram ocupar a fábrica de tecidos o mesmo Exército tratou de reprimi-los duramente, mostrando que o Governo estava ao lado dos Capitalistas. 
Na cena, inclusive, um dos operários, quando ouviu a frase do trabalhador de Bérgamo disse 'Não entendi m...a nenhuma'.

De fato, foi somente depois da Segunda Guerra Mundial, quando a população italiana foi alfabetizada e a televisão chegou às residências da população, que o italiano (ou seja, a língua falada pela elite da Toscana) tornou-se a língua mais falada em todo o país.

Além disso, as indústrias se instalaram quase que inteiramente na região norte do país, tal como acontece até os dias atuais, fazendo com que cidades como Turim e Milão concentrassem grande parte do proletariado industrial do italiano.

A FIAT, por exemplo, é originária de Turim.

E essa desigualdade no processo de desenvolvimento econômico da Itália (que passou a ter um Norte altamente industrializado e um Sul essencialmente agrário) vem desde o século XIX. Isso resultou em um grande processo de migração interna, com muitos italianos saindo do Sul do país para ir trabalhar e viver nas cidades industriais do Norte, o que é registrado no filme de Monicelli.

Aliás, no filme de Monicelli temos várias referências, também, ao fato de existir um preconceito mútuo entre os moradores das diferentes regiões italianas.
Um único operário da fábrica de tecidos, o miserável siciliano Salvatore, se apresentou para trabalhar, depois que o 'Comitê de Greve' o liberou, mas os patrões o mandaram embora. 
Em uma das cenas, o adolescente Homero diz para o filho de um operário originário da Sicília que o Piemonte estava cada vez pior devido à chegada de tantos sicilianos à região, ao que o garoto siciliano diz 'o meu pai falou que a Sicília piorou muito depois que vocês, piemonteses, foram para lá'.

Quando a greve começou, aliás, um dos operários (um siciliano chamado Salvatore Arro) pediu permissão ao 'Comitê' para não aderir ao movimento, pois ele precisava do dinheiro para alimentar a sua família, no que foi atendido.

Mas os demais operários grevistas não concordavam com isso e disseram que voltariam ao trabalho se ele fosse trabalhar. Com isso, Pautasso e mais alguns operários foram até a casa do operário siciliano para força-lo a aderir a greve, mas quando viram a miséria em que ele e a família vivia, eles desistiram e, depois, os operários fizeram uma coleta para ajudá-los.

Pautasso perguntou para Salvatore: 'Você vive aqui?' e o operário siciliano respondeu 'O que você esperava? Que eu vivia no Palácio Real?'.

No filme, também  vemos que os operários nutriam um claro temor pela autoridade dos capitalistas. Quando eles iam conversar com os diretores da empresa, eles o faziam de forma bastante tímida. Aliás, quem falou com mais ênfase na conversa com o diretor da empresa foi justamente a mulher (Cesarina), que se revelou a mais corajosa de todos.
Em uma assembleia na qual os operários estavam querendo voltar para o trabalho, Sinigaglia conseguiu convence-los a ocupar a fábrica, pois se abandonassem a luta, eles continuariam a viver na miséria e os burgueses seriam vitoriosos, dando continuidade à exploração dos trabalhadores.
Também percebemos no filme algumas das estratégias usadas pelos patrões para tentar dividir e enfraquecer o movimento grevista: desinformação (eles dizem que poderão resistir por anos de greve, o que é mentira), tentativa de subornar (de forma sutil) a um dos líderes do 'Comitê de Greve'.

Outra estratégia utilizada pelos Capitalistas foi a de levar 200 trabalhadores de uma cidade próxima (Saluzzo), que estavam desempregados, para trabalhar na fábrica de tecidos, fato este que desencadeou uma luta feroz entre os grevistas e os fura-greves desempregados.

E até mesmo neste momento, vemos o humor de Monicelli em ação, quando o 
Professor Sinigaglia trocava bordoadas com os desempregados de Saluzzo, ao mesmo tempo em que dizia para os mesmos que eles tinham que usar da razão e agir com tranquilidade.

Mas o conflito teve um final trágico, pois tivemos a morte de Pautasso. Isso, porém, fez o governo de Turim expulsar os trabalhadores de Saluzzo, motivo pelo qual Sinigaglia estimulou os operários a continuar em greve, o que irá acontecer.

Em outro momento bem humorado do filme, quando uma mulher (Niobe) que se interessou por Sinigaglia lhe perguntou porque ele era perseguido pela Polícia e se ele já tinha sido preso anteriormente, ele respondeu que sim e que isso aconteceu quando atravessava uma praça em Genova...
Operários grevistas se dirigem para a fábrica de tecidos, com a intenção de ocupar a mesma.
Nota-se, também, na época, a predominância de valores mais conservadores no aspecto comportamental dos operários italianos.

Isso fica claro na cena em que Bertone levou Adele para a sua residência e ela se escondeu, para não ser vista pela vizinha (que, se a visse com Bertone, iria espalhar que ela agia como uma p..a). E ela foi embora tão logo viu o Professor Sinigaglia no local, embora Bertone não soubesse da presença deste último em sua casa.

Esta hegemonia de valores conservadores (considerados burgueses) no comportamento dos operários era algo bastante comum não apenas na Itália, mas também era dominante nos países europeus industrializados daquela época.

Mesmo tendo se preparado para a greve, esta durou mais tempo do que se esperava e os operários das indústrias de tecidos passaram por dificuldades. A fome deles acaba sendo saciada pela distribuição de sopa por parte de uma unidade do Exército.

E o carvão que necessitavam eles conseguiam 'pegando emprestado' de cargas ferroviárias. O responsável pelas cargas fazia 'vistas grossas' para a ação dos operários que, assim, não morriam de fome e nem de frio.

O Professor começou a elaborar uma longa pauta de reivindicações, incluindo redução de jornada para 13 horas diárias,  seguro contra acidentes, greve remunerada... E Pautasso ironizou, dizendo que deveriam pedir, também, por 'café com conhaque'.
O Exército protege a fábrica de tecidos e se prepara para reprimir os operários grevistas, mostrando que está ao lado dos Capitalistas. 
Tal fato não deixa de ser uma crítica a Sinigaglia, que parecia estar querendo ir mais rápido com as lutas, sem levar em consideração qual é a real capacidade de luta dos operários.

Em um momento no qual os operários estavam dispostos a retornar para a fábrica, encerrando a greve, Sinigaglia foi até o local da assembleia e acabou convencendo os mesmos a mudar de atitude, dizendo que o salário deles era suficiente, que ninguém passaria fome, que não precisariam trabalhar 13 horas diárias, que os acidentes de trabalho iriam acabar. É claro que tudo isso é dito de forma irônica, para demonstrar que nada mudaria.

Logo, ao demonstrar que o retorno ao trabalho naquelas condições significaria a continuidade da vida miserável que levavam, bem como a continuidade da exploração que sofriam e que beneficiava apenas aos Capitalistas, Sinigaglia convenceu os operários a mudar de atitude.

O discurso de Sinigaglia é um dos melhores momentos do filme, sem dúvida alguma, e deve ter inspirado muitos trabalhadores a lutar por melhores condições de vida pelo mundo afora.

Com isso, os operários decidiram ocupar a fábrica. E isso resultou no uso das tropas do Exército contra os operários, o que provocou a morte do adolescente Homero. Tal fato acabou por levar ao fim da greve. E Sinigaglia foi preso.
Com a repressão promovida pelo Exército, um adolescente (Homero) acabou sendo assassinado, o que levou ao fim da Greve. Mas a luta dos operários continuou.
Bertone foi enviado para outra cidade (Lugano), onde um amigo de Sinigaglia o esperava, a fim de fortalecer a luta dos operários, enquanto que estes se mobilizavam para eleger Sinigaglia para o Parlamento, fato este que permitiria que ele fosse libertado.

Os operários voltaram ao trabalho e o portão se fechou, como se eles estivessem presos na fábrica. A exploração capitalista não acabou.

E a luta dos trabalhadores também não.

A luta continua!

Frases e Diálogos:

1) Niobe: Perguntei-lhe o que aconteceu em Genova;
Sinigaglia: Desculpe. Em Genova? Nada. Estava atravessando a Praça de Ferrari e um policial nos deteve.
Niobe: ‘Nos deteve’? Então você não estava sozinho.
Sinigaglia: Não, éramos cerca de uns trezentos.
Niobe: Trezentos? Você poderia começar por dizer que era uma manifestação.

2) Sinigaglia: A batalha é vencida por aquele que resiste uma hora a mais. 

Informações Adicionais:

Título: I Compagni (Os Companheiros);
Diretor: Mario Monicelli;
Roteiro: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli e Mario Monicelli;
Ano de Produção: 1963; Países de Produção: Itália, França e Iugoslávia;
Música: Carlo Rustichelli;
Fotografia: Giuseppe Rotunno;
Elenco: Marcello Mastroianni (Professor Sinigaglia); Renato Salvatori (Raoul Bertone); Gabriella Giorgelli (Adele); Folco Lulli (Pautasso); Bernard Blier (Martinetti); Annie Girardot (Niobe); Raffaella Carrá (Bianca); Franco Ciolli (Omero); Antonio di Silvio (Pietrino); François Périer (Professor Di Meo, do Liceu); Vittorio Sanipoli (Baudet); Mario Pisu (Engenheiro); Kenneth Kove (Luigi); Elvira Tonelli (Cesarina); Antonio Casamonica (Arro); Giampiero Albertini (Porro).

Links:

Inácio Araujo - 'Os Companheiros' mostra a aproximação entre intelectuais socialistas e os operários:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0201201116.htm

Luiz Carlos Merten - A busca da liberdade por Mario Monicelli:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-busca-da-liberdade-por-mario-monicelli-imp-,653714

Mario Monicelli - O Último Socialista:

http://www.minimaetmoralia.it/wp/mario-monicelli-ultimo-socialista/

A Primeira Internacional Socialista:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/6626/hoje+na+historia++1864+e+fundada+a+primeira+internacional+socialista.shtml

A Segunda Internacional Socialista:

http://www.historia.uff.br/nec/segunda-internacional-socialista-0

A história do SPD alemão:

http://www.dw.com/pt-br/em-150-anos-spd-evoluiu-de-movimento-oper%C3%A1rio-a-partido-do-estado-social/a-16827835

Vídeo - Trecho do Filme 'Os Companheiros': 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

'Sem Fim': Kieslowski mostra uma Polônia de luto na época da Lei Marcial e começa a transição para um cinema mais intimista! - Marcos Doniseti!

'Sem Fim': Kieslowski mostra uma Polônia de luto na época da Lei Marcial e começa a transição para um cinema mais intimista! - Marcos Doniseti!
'Bez Konca' ('Sem Fim'), de Kieslowski, é um belo e triste filme sobre a Polônia da época de Jaruzelski, quando a 'paz dos cemitérios' foi imposta ao país. 
Após a realização do seu excelente 'Sorte Cega', que foi produzido em 1981, mas que foi censurado pelo governo polonês e foi liberado apenas em 1987, Kieslowski filmou este sombrio, triste, pessimista e melancólico 'Sem Fim' (que é uma produção de 1985). 

Em 'Sorte Cega' ('Przypadek'), Kieslowski contava três histórias, sendo que cada uma delas apontava para os diferentes caminhos que a Polônia poderia seguir. 

Estas histórias sempre giravam em torno de um jovem estudante de medicina (Witek), que se tornava um membro do Partido Comunista (primeira história), membro do movimento de Resistência que lutava contra o governo do país (segunda história) e, na terceira história, ele era um médico apolítico que se preocupava apenas em trabalhar e em cuidar da sua família.

Obs1: Já escrevi e postei, aqui no blog, um texto a respeito de 'Sorte Cega' (ver link abaixo).

Assim, em 'Sorte Cega', Kieslowski deixava em aberto o caminho que a Polônia poderia seguir. Portanto, havia espaço para otimismo e esperança, embora o filme fizesse duras críticas ao regime 'comunista', mostrando a inexistência de qualquer sinal de idealismo por parte dos dirigentes do país. 'Sorte Cega' também já apontava para a possibilidade de que o governo polonês viesse a ser derrubado em função da crescente insatisfação popular que havia no país. 
Velas em um cemitério: Cena de abertura de 'Sem Fim': A Polônia da época da Lei Marcial (Dezembro de 1981 até Dezembro de 1982) vivia em uma 'Paz de Cemitérios'.
Um dos personagens de 'Sorte Cega' (Adam), dirigente do Partido Comunista, falava abertamente que o governo polonês era impopular e que o mesmo iria desmoronar em breve, mas que eles (os burocratas) acabariam tendo um papel importante no novo governo, a fim de ajudar a manter o país com um mínimo de estabilidade.

Os poloneses já haviam se rebelado em ocasiões anteriores (1956, 1970), momentos nos quais a insatisfação popular resultou em repressão, bem como na substituição dos antigos governantes por novos, mas que também eram membros do Partido Comunista. 

E a partir de 1980 tivemos a emergência, na Polônia, do 'Solidariedade', cujo principal líder foi Lech Walesa, que comandou o maior movimento popular que já havia acontecido em um país do bloco soviético desde a 'Primavera de Praga' (que mobilizou a população da Tchecoslováquia em 1968). 

Foi nesse contexto de fortes e intensas mobilizações que ocorriam na Polônia que 'Sorte Cega' foi realizado, em 1981, mas em função do Golpe de Estado que ocorreu em Dezembro do mesmo ano, que levou o General Jaruzelski ao comando do país, o filme de Kieslowski acabou sendo censurado, com a liberação acontecendo apenas em 1987. Neste ano, o governo polonês e os líderes do 'Solidariedade' passaram a dialogar com o objetivo de promover uma transição pacífica e negociada rumo à implantação de um governo liberal-democrático no país. 
Já falecido, Antek explica as circunstâncias da sua morte, enquanto sua esposa (Urszula) dorme. 
A Lei Marcial imposta pelo governo ditatorial de Jaruzelski resultou numa forte repressão contra o 'Solidariedade', levando à prisão de milhares de integrantes do movimento, bem como inviabilizou uma produção cultural e cinematográfica que fosse crítica em relação ao governo do país. 

Embora a Lei Marcial tivesse sido abolida já no final de 1982, a repressão por parte do governo polonês contra o 'Solidariedade' ainda era uma realidade e as pessoas ainda eram presas por manifestar a sua insatisfação, tendo que tomar cuidado até mesmo com as palavras que pronunciavam em público. Implantou-se no país uma verdadeira 'paz de cemitérios', que criou um clima de luto no país, tal como demonstra Kieslowski em 'Sem Fim'.

Assim, os poloneses não tinham qualquer expectativa de que a situação política, econômica, cultural e social do país pudesse vir a melhorar. E é este pessimismo que vemos, claramente, neste filme de Kieslowski, cujos acontecimentos se desenvolvem em 1982, quando a Lei Marcial ainda vigorava no país.

Segundo declarações do próprio Kieslowski, essa situação tornou impossível a produção de filmes durante vários anos, o que explica o fato de que apenas em 1985 é que ele voltou a produzir, realizando este 'Sem Fim', que foi realizado em um contexto de repressão e desesperança por parte dos poloneses e do próprio Kieslowski. Afinal, a liberalização política começaria apenas em 1987.
Urszula fez dois cafés, para ela e para Antek. Ela ficou inteiramente desolada após a morte do marido. 
E tudo isso ajuda a compreender porque a primeira cena do filme é a de um cemitério, que está na escuridão quase que total (a não ser por velas acesas), pois essa era a visão que Kieslowski (e a maioria dos poloneses) tinha de seu país naquele momento. 

De certa maneira, o 'Solidariedade' acaba sendo o protagonista do filme, sendo simbolizado no mesmo pela figura de um advogado (Antek), já falecido, que defendia militantes do movimento que haviam sido presos pelo governo do país quando acabou morrendo, repentinamente. E a primeira cena, das velas no cemitério, acaba sendo mostrada sob a perspectiva dele, Antek, que já está morto. 

Obs2: Em 'A Dupla Vida de Véronique' também vemos uma cena parecida, na qual a alma de Weronika vê as pessoas jogarem terra sobre o caixão na qual está o seu corpo. 

A partir deste momento ele continua aparecendo na trama, chegando a tentar orientar a sua bela esposa (Urszula) sobre como proceder para ajudar um dos militantes (Darek) que estava sendo defendido por ele. Kieslowski estaria dizendo, com isso, que o 'Solidariedade' pode ter sido duramente reprimido, mas que ele continua existindo, pois o mesmo representa o anseio de liberdade de todo o povo polonês. É como se o 'Solidariedade' pairasse sobre o país, tal como fazia a alma de Antek. 
Urszula abraça o filho adolescente (Jacek). Ambos sofrem com a morte de Antek.
Durante quase todo o filme Urszula é a única personagem que consegue enxergar o espírito de Antek, como se ela representasse a Polônia que foi sufocada pelo Golpe de Estado de Dezembro de 1981. Depois da morte de Antek, ela priorizou a vida familiar, dando atenção ao filho (Jacek) e ao seu trabalho como tradutora, procurando se afastar de qualquer forma de envolvimento político. 

Aliás, o livro que ela estava traduzindo era '1984, de George Orwell, que é justamente sobre uma brutal Ditadura que procura manter a população rigidamente sob o controle estatal.

Logo, qualquer semelhança com a Polônia de Jaruzelski não é mera coincidência...

Ela também percebe o quanto havia sido feliz com o seu marido e o sofrimento que a sua ausência lhe provoca é tanta que ela tenta apagá-lo da sua memória, apelando para a ajuda de um hipnotizador, mas isso não funciona e o espírito de Antek aparece justamente neste momento. 

Porém, a atuação de Antek como advogado do 'Solidariedade' irá inviabilizar os planos de Urszula, pois a esposa (Joanna) de um militante do movimento (Darek), que estava sendo defendido por seu falecido marido, irá procura-la, a fim de obter os documentos que Antek possui a respeito do processo. Com isso, ela acaba ajudando Joanna, terminando por indicar um veterano advogado (o Labrador) que foi professor de Antek, para defender Darek.
Antek continua aparecendo durante todo o filme, mesmo após a sua morte, pairando sobre a esposa, o filho... Ele é uma representação do 'Solidariedade', movimento político que uniu o povo polonês e que foi colocado na ilegalidade pela Ditadura liderada pelo General Jaruzelski. 
Mas este advogado mantém ótimas relações com os juízes poloneses e, mesmo assumindo o caso de Darek, ele não está nenhum pouco interessado em entrar em conflito com o aparato judicial do país e procura convencer Darek a contar versões totalmente diferentes daquilo que de fato aconteceu, a fim de que culpasse os outros por sua atuação política, mas ele se recusou e iniciou uma greve de fome.  

Já o advogado (Miecio), que trabalha como assistente e estagiário do Labrador, procurou convencer Darek a fazer algo totalmente diferente, estimulando-o a assumir a sua culpa, defendendo a justiça da sua causa. Com isso, dizia Miecio, a história de luta de Darek acabaria sendo motivo para que muitas pessoas se mobilizassem, apoiando a sua luta, mas ele também não tomará essa atitude.

Assim, enquanto o Labrador defendia que Darek adotasse uma postura pragmática, aberta a fechar acordos com o sistema vigente, o estagiário diz para ele adotar uma postura que é oposta, radicalizando totalmente a sua postura política. Mas ele não se identifica com nenhuma das duas posturas, pois a sua atividade política visava atingir a toda a sociedade e não apenas uma pequena minoria. 

Em outro momento, o Labrador tentou convencer Darek a fazer um acordo por meio do qual este assumiria a culpa por suas atividades políticas e, com isso, ele poderia ter a sua pena abreviada, sendo concedida a liberdade para que ele voltasse a viver com a sua família. E ele acabará aceitando. 
Joanna é esposa de Darek, membro do 'Solidariedade' e líder grevista que foi preso em função das suas atividades políticas. Ela pede a ajuda de Urszula, pois Antek era o advogado de defesa de seu marido. 

Com isso, no 
final, Darek (o militante do 'Solidariedade') também verá Antek, logo depois que ele foi absolvido num julgamento em que teve que abrir mão das suas convicções para conquistar a liberdade. É evidente que Antek está decepcionado com a atitude de Darek, fato este que demonstra a incapacidade do povo polonês de, naquele momento, lutar contra o governo ditatorial do país. 

A morte de Antek deixou Urszula desolada e ela acabou rejeitando a tentativa feita por um antigo amigo de ambos (Tomek) de querer ter um relacionamento com ela. 

Ela até aceitou ter uma relação, uma única vez, com um americano em troca de US$ 50, mas não conseguiu sentir prazer algum, fato este que a levou a dizer para Joanna que havia traído Antek, mas a amiga discorda, pois ele não vivia mais. 

Mas, Urszula diz, em vários momentos do filme, que ele ainda está presente. Ela percebe que a ausência de Antek não terá como ser preenchida por ninguém, da mesma forma que nenhum outro movimento político e social teria como tomar o lugar do 'Solidariedade'. Este era o único que expressava a vontade do povo polonês naquele momento. 
À direita, o veterano advogado conhecido como 'Labrador', que assume a defesa de Darek, conversa com um juiz que está próximo da aposentadoria. Em 'A Fraternidade é Vermelha' temos um personagem fundamental, o juiz Joseph Kern, que também se aposentou. 
Assim, a presença de Antek e a conexão que ele estabelece com Urszula deveria ser vista de forma simbólica, não tendo nada ver com algum tipo de manifestação espírita, representando o desejo do povo polonês de voltar a atuar e a se expressar livremente pelo 'Solidariedade', a fim de transformar a Polônia em uma nação democrática. 

Além de mostrar a realidade política e social polonesa da época (1982), 'Sorte Cega' já mostrava um Kieslowski preocupado com questões como a existência ou não do livre arbítrio, se existe um destino ou não, ou ainda se é o acaso que explica o que acontece em nossas vidas. Mas no filme ainda predominam as questões políticas e sociais. 

Mas, apesar do fato de que 'Sorte Cega' já mostrava que o cinema de Kieslowski caminhava para tomar novas direções, foi em 'Sem Fim' que o genial cineasta polonês começou a desenvolver uma ideia que estaria fortemente presente nos filmes que produziu em sua fase francesa ('A Dupla Vida de Véronique' e a 'Trilogia das Cores'), nos quais ele mostra que existem laços invisíveis unindo a todos e que as nossas ações afetam até mesmo pessoas que não conhecemos ou que não fazem parte da nossa vida. 

A ideia de que os mortos também estão conectados com os vivos também é esboçada em 'Sem Fim', embora isso seja aproveitado no filme com uma finalidade diferente daquela que veríamos em sua fase francesa. Em 'Sem Fim', tal elemento é usado para mostrar a necessidade de restabelecer os laços entre o povo polonês e o movimento político que o representava, que era o 'Solidariedade'.
Após a morte do marido, Urszula vê os arquivos de Antek e encontra fotografias do Papa João Paulo II (polonês) e de Lech Walesa, o principal líder do 'Solidariedade'. 
Em seus filmes produzidos na França, Kieslowski voltou a sua câmera para o interior dos seus personagens, deixando em segundo plano os aspectos políticos e sociais que, anteriormente, predominavam em suas obras. 

Isso já se torna bastante evidente no belíssimo 'A Dupla Vida de Véronique', quando as escolhas, sentimentos, angústias e desejos dos personagens são os temas dominantes deste belíssimo filme. E neste belo filme também vemos que aquilo que acontecia com Véronique afetava Weronika e o inverso também era verdade, mesmo quando uma delas já havia falecido. 

Outras ideias e elementos presentes em 'Sem Fim' foram, depois, usados por Kieslowski, de maneiras distintas, nas três obras clássicas que constituem a 'Trilogia das Cores'. 

Em 'Sem Fim' vemos um juiz que está perto da aposentadoria (o que lembra o juiz Joseph Kern de 'A Fraternidade é Vermelha'). Um dos advogados (o Labrador) está trabalhando em um caso de contrabando, o que remete a 'A Igualdade é Branca'. E ainda temos a cena do copo de café caindo da mão de Urszula, em 'Sem Fim', enquanto que em 'A Liberdade é Azul' a Julie está colocando um torrão de açúcar em seu café, quando ouve um flautista tocar uma música que lembra muito a composição na qual o seu marido estava trabalhando (a 'Canção para a Unificação da Europa'). 
Quando o carro (Fusca) de Urszula fica parado na rodovia, o mesmo é ultrapassado por um veículo que se envolveu em um acidente fatal logo depois. Isso é fruto do acaso? Ou seria obra do Destino? 
E não se pode esquecer que Urszula (de 'Sem Fim') e Julie (de 'A Liberdade é Azul') são viúvas, sendo que os seus maridos (Antek e Patrice, respectivamente) acabaram de falecer e de forma repentina. E nos dois filmes, elas tentam romper com o passado. 

Urszula tenta apagar Antek de sua memória por meio da hipnose, mas não consegue, enquanto que Julie procura se livrar de tudo o que faz com que ela se lembre de Patrice, afastando-se até mesmo dos amigos, livrando-se da sua obra musical, saindo de seu apartamento, vendendo tudo o que lhes pertencia.

Em ambos os casos, elas fracassam em suas tentativas. E no fim, ambas procuram restabelecer a conexão com os seus respectivos passados, mas de maneiras distintas, é claro. 

A principal diferença entre os dois filmes ('Sem Fim' e 'A Liberdade á Azul') é que, no caso de Urszula, as lembranças que a morte de seu marido lhe trouxe são uma maneira de se mostrar criticamente a realidade política e social da Polônia da época.

Enquanto isso, no caso de Julie, a morte de Patrice a leva a romper com o seu passado e a mergulhar em suas angústias e sofrimentos para que, no final, ela possa vislumbrar um pequeno sinal de esperança, ou seja, a história é voltada para o interior da personagem.

Logo, nos dois filmes, o 'modus operandi' de Kieslowski é semelhante. 
'Labrador' tenta convencer Darek a fazer um acordo com o governo, abrindo mão de suas convicções, mas ele resiste à ideia. 
E nos dois filmes o final aponta para um sentimento semelhante, mesmo que tímido, de esperança, de uma forma que Kieslowski parece acreditar que é possível encontrar uma saída, ou seja, uma solução para os problemas que a Polônia e Julie enfrentam.  

Com isso, de certa maneira, em 'Sem Fim' vemos o embrião dos longas-metragens que serão considerados as principais obras-primas de Kieslowski, que são os quatro filmes da sua fase francesa.  

Obs3: Essa tentativa das protagonistas femininas de 'Sem Fim' (Urszula) e de 'A Liberdade é Azul' (Julie) de romper com o seu passado, tentando apagar o mesmo, mas sem conseguir, também poderia ser utilizada para compreender a carreira cinematográfica do próprio Kieslowski, que saiu da Polônia para filmar na França. Com isso, ele promoveu uma mudança na sua obra, passando a priorizar a realidade interior dos personagens e deixando as questões políticas e sociais em segundo plano. Mas como vimos, mesmo fazendo essa tentativa, Kieslowski também não conseguiu romper com o seu passado e terminou por se utilizar, nos quatro filmes da sua fase francesa, de inúmeros elementos que já estavam presentes em suas produções polonesas. E os finais levemente felizes que tivemos nos filmes da 'Trilogia das Cores' talvez apontem para o fato de que Kieslowski ficou feliz com o resultado dos filmes que realizou. Os verdadeiros amantes do Cinema, com certeza, ficaram muito satisfeitos. 

E apesar do clima soturno, triste e melancólico que predomina em 'Sem Fim', ainda há lugar para ironias, como o fato de que a palavra 'Joy' (Alegria) está escrita na mochila de Jacek, o adolescente que é filho de Antek e Urszula. E tudo o que não existe na Polônia, nesta época, é justamente 'alegria'.  
Urszula se comunicava com o marido falecido, Antek, sendo que isso representa a conexão que ainda existia entre o povo polonês e o movimento que representava os seus interesses, o 'Solidariedade', mas que havia sido duramente reprimido pela Ditadura de Jaruzelski.
E a sequência final de 'Sem Fim', que é triste e trágica, aponta para uma saída, uma solução para os problemas que a Polônia enfrentava naquele momento, que seria restabelecer a unidade entre o país e o seu povo, vivendo de forma livre e democrática, com Antek (Solidariedade) e o Povo (Urszula) ficando juntos novamente. 

Portanto, pode-se interpretar o título '(Sem Fim') e o final do filme como sinais bastante evidentes de que a luta do povo polonês por sua liberdade iria continuar.  

Obs4: Este foi o primeiro filme em que Kieslowski trabalhou com o roteirista Krzysztof Piesiewicz e com Zbigniew Preisner (autor da trilha sonora). Os três continuaram a sua parceria nos filmes posteriores de Kieslowski, incluindo 'Não Matarás', 'Não Amarás', 'Decálogo', 'A Dupla Vida de Véronique', 'A Liberdade é Azul', 'A Igualdade é Branca' e 'A Fraternidade é Vermelha'. Coincidência ou não, este momento coincidiu com o auge da produção de Kieslowski.

Informações Adicionais:

Título: Bez Konca (Sem Fim);
Diretor: Krzysztof Kieslowski;
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz e Krzysztof Kieslowski;
Gênero: Drama Político-Social;
Duração: 109 minutos;
Ano de Produção; 1985; País de Produção; Polônia;
Fotografia: Jacek Petrycki;
Música: Zbigniew Preisner; 
Elenco: Grazyna Szapolowska (Urszula Zyro); Jerzy Radziwilowicz (Antek Zyro); Artur Barcis (Darek Stach); Maria Pakulnis (Joanna Stach); Aleksander Bardini (Advogado Labrador); Michal Bajor (Miecio, assistente de Labrador); Marek Kondrat (Tomek); Tadeusz Bradecki (Hipnotizador); Krzysztof Krzeminski (Jacek Zyro); Jerzy Kamas (Juiz Biedron); Jan Tesarz (Pai de Joanna); Danny Webb (Americano). 
No final, Urszula decide ir ao encontro de Antek. 

Links:


'Sorte Cega': Kieslowski fez um clássico sobre o destino da Polônia e do ser humano:

http://popeseries.blogspot.com.br/2016/12/filme-sorte-cega-kieslowski-fez-um.html

'A Dupla Vida de Véronique': Kieslowski fez uma obra-prima sobre vida, morte, destino, tragédia, acaso e livre-arbítrio:

http://popeseries.blogspot.com.br/2017/01/a-dupla-vida-de-veronique-kieslowski.html

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0086961/?ref_=nm_flmg_wr_15

Kieslowski: Outra Europa, outros filmes, outros públicos:

https://www.publico.pt/2015/12/05/culturaipsilon/noticia/kieslowski-1716160


Vídeo - Trailer do Filme: