domingo, 25 de setembro de 2016

'Slnko V Sieti' (O Sol em uma Rede): O filme de Stefan Uher que deu início à Nouvelle Vague Tchecoslovaca! - Marcos Doniseti!

'Slnko V Sieti' (O Sol em uma Rede): O filme de Stefan Uher que deu início à Nouvelle Vague Tchecoslovaca! - Marcos Doniseti!
'Slnko V Sieti', do cineasta eslovaco Stefan Uher, é considerado o marco inicial da 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca' dos anos 1960.
Este é um belíssimo filme de Stefan Uher e que deu o pontapé inicial à chamada 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca', que foi um dos mais relevantes e significativos movimento cinematográficos, revelando novos e importantes cineastas como Milos Forman (tcheco), Vera Chytilová (tcheca), Jaromil Jires (eslovaco) e Jirí Menzel (tcheco), Juraj Jakubisco (eslovaco) e Jan Nemec (tcheco), Juraj Herz (eslovaco), Ján Kádar (eslovaco). 

O filme mostra que temos inúmeras maneiras diferentes de enxergar a realidade: por meio de aparelhos de TV (vemos um verdadeiro oceano de antenas de TV em Brastilava, capital da Eslováquia), de uma câmera fotográfica, de um pedaço de vidro esfumaçado, de reflexos de imagens do espelho, sendo que estas podem ser inversas ou reversas. 

Ou então poderemos não vê-la, porque uma das personagens é cega e, com isso, ela somente consegue 'ver' a realidade por meio das descrições que são feitas a ela por seus dois filhos: Milo, o mais jovem, e Bela, a jovem namorada de Fajták. E tais descrições nunca são fiéis á realidade, o que não deixa de ser um maneira de se criticar a mídia, que é uma intermediária entre a realidade e as pessoas. 

No filme, os personagens ficam ansiosos, na expectativa de um eclipse, no qual a Lua irá bloquear a luz do Sol, algo que somente voltará a acontecer depois de 120 anos, mas as pessoas ficam preocupadas porque não sabem se as nuvens irão bloquear a visão do mesmo. 
As crianças anseiam pela chegada do Sol e quando ele aparece, elas vão se colocar sob os seus raios. Uher talvez estivesse querendo dizer que elas é que lutariam pela liberdade no futuro. 
Obs1: Talvez essa observação seja uma maneira de Uher criticar a censura, muito ativa na Tchecoslováquia da época, que poderia acabar proibindo a exibição do seu filme, que é bastante crítico com a sociedade e o governo, embora tais críticas não sejam feitas de forma explícita, até para que, assim, fosse possível burlar a censura. Essa é uma situação comum quando se vive sob um regime autoritário. Chico Buarque teve que usar de um pseudônimo (Julinho da Adelaide) para tentar evitar que as suas músicas fossem censuradas pela Ditadura Militar. 

Nesta sua obra, Stefan Uher também faz uma série de críticas à situação da Tchecoslováquia (da Eslováquia, em especial), apontando principalmente para a estagnação (política, cultural, social) que atingia o país no início da década de 1960. 

A Eslováquia era a parte mais pobre e atrasada do país, possuindo uma economia rural e agrária, em contraste com uma República Tcheca mais industrializada, rica, cosmopolita e urbanizada. 

Neste sentido, o filme é muito mais voltado para a realidade da Eslováquia do que da parte Tcheca propriamente dita desse país que, em 1993, acabou se dividindo de forma pacífica, sem conflitos. E a realidade que Uher mostra não é das mais atraentes: pais que descuidam dos filhos, uma vida urbana que não oferece muitas opções aos jovens, ameaça militar (aviões militares cruzam os céus em vários momentos), o trabalho voluntário, e muito desgastante, nas fazendas coletivas. 
Fajták e Bela: O relacionamento deles era marcado pela frieza, ausência de diálogo e de contato físico. 
Em contraste com essa dura crítica ao atraso do país, temos uma trilha sonora moderna, ao som de Rock'n'Roll e de Twist (Chubby Checker tem a clássica canção 'Let's Twist Again' executada em um momento do filme). 

Outro aspecto importante deste 'O Sol em uma Rede' que foi uma das principais contribuições feitas por Uher e pela 'Nova Onda Tchecoslovaca' foi que estes filmes levaram a vida das pessoas comuns para as telas do Cinema. 

A história do filme gira em torno de um jovem fotógrafo amador (Fajták, chamado de Fajolo por sua namorada, Bela) que passa os dias no topo do edifício de apartamentos junto com Bela. Mas o relacionamento entre os dois é frio, distante, e mediado por um aparelho de rádio. 

Fajták recusa-se a conversar com Bela, preferindo ouvir música no rádio. Não há nenhum contato físico entre eles. Em nenhum momento eles se beijam, por exemplo. E em um momento no qual eles discutem, Bela arremessa e quebra o aparelho de radio de Fajták, dizendo que ele nunca conversava com ela, com eles limitando-se a ficar ouvindo músicas.
Fajták vai trabalhar na fazenda coletiva, como voluntário, e ali ele conhece a jovem, bonita e liberal Jana, com quem terá um romance. 
O filme também mostra inúmeros personagens que ficam presos ao passado e que se recusam a caminhar para a frente, rejeitando as mudanças. 

Um dos personagens que se recusa a ir para a frente é o avô de Bela, o camponês (Blazej), que se recusa a usar as novas máquinas e prefere trabalhar com o seu velho instrumento manual. Temos ainda um velho pescador, que usa há muitos anos uma mesma velha e gasta rede de pescar (e que vive sendo remendada), mesmo que, com isso, ele e a sua esposa continuem vivendo no mesmo barraco de madeira. 

Fajták decide, por pressão de seu pai, trabalhar em uma fazenda coletiva durante as férias de verão, pois isso será bom para a sua reputação. No início, ele não queria ir, mas ao chegar ao campo ele entrará em contato com uma nova realidade e não irá querer mais voltar para a cidade. 

Assim, ele irá conhecer Jana, uma jovem bonita, com quem ele tem um romance, mas com a qual ele conversa, dá risada, beija, tudo aquilo que ele não fazia com Bela. Ele chega a jogar o rádio fora, dizendo que não precisavam daquilo, pois preferia conversar com Jana. Enquanto isso, em Brastilava, Bela tem um caso com Peto, um amigo de Fajták. 
Fajták e Jana juntos, no campo, se beijam. 
E na área rural, vemos os camponeses, velhos e cansados, com uma aparência bastante envelhecida, o que é resultado de muitos anos no campo, mas também a consequência da Segunda Guerra Mundial, quando os alemães invadiram a Eslováquia e impuseram um governo fantoche ao país, enquanto que a parte Tcheca foi ocupada e governada diretamente pelos nazistas. 

Em um momento do filme, Stana, a mãe cega de Bela, pensa que estava conversando com o marido, que não estava presente, e contou o motivo pelo qual ela ficou cega. Ela descobriu que estava sendo traída pelo marido e tentou o suicídio, tomando trinta pílulas. Ela sobreviveu, mas o casal escondeu a verdade dos filhos. E quem ouviu tudo isso foi a filha, Bela, que chorou e abraçou a mãe. 

E Fajták descobre que um camponês local, Blazej, é o avô de Bela. Ele expulsou o filho do campo devido a um conflito pela posse da terra. Quando ele retorna para a cidade e conta o fato para a família de Bela, Stana começa a se lembrar do tempo em que viveu no campo, quando já era uma pessoa solitária. 

Quando volta para Brastila, Fajták descobre que uma carta que ele havia enviado para Bela, tinha sido mostrada por ela para Peto. Com isso, ela o decepcionou e ele rompe com a antiga namorada, chamando-a de estúpida. 
Bela mostrou a carta de Fajták para outra pessoa e foi abandonada por ele em função disso.
Em uma narração, pergunta-se quem são os responsáveis pela situação do país. Mas não se dá uma resposta. A população eslovaca é mostrada como sendo acomodada, aceitando a situação existente e esperando que as mudanças aconteçam naturalmente. Uma cena no final mostra Stana, a mãe cega, sendo enganada pelos filhos, dizendo que ela está próxima do rio, mas isso é mentira. Eles fazem isso apenas para deixá-la feliz. 

Obs2: Esta cena lembra o filme 'Adeus, Lênin', quando um jovem conta para a mãe doente, uma antiga e convicta socialista, que a Alemanha Oriental triunfou sobre a Alemanha Ocidental e que toda a Alemanha havia se tornado socialista, a fim de fazer com que ela fique feliz e a sua situação de saúde não piore ainda mais. Ele é a unica forma de contato que ela tem com a realidade e ele se aproveita disso para fazê-la feliz. 

Bela diz para a mãe que ali é uma baía tranquila e que nada se move, que o Sol está na rede, mas que ele sairá dali. Ela claramente está se referindo ao país, no qual nada muda e onde não há liberdade, mas que esta virá. E mãe diz que, então, eles devem esperar sentados e em silêncio por isso, adotando uma postura acomodada, passiva e conformista.

Enquanto isso, Fajták pensa de maneira radicalmente diferente. Ele não quer esperar nada, por coisa alguma, mas ir atrás. Ele quer aprender a pescar, pois assim poderá 'pescar um Sol branco', ou seja, conquistar a liberdade. 
Stana, a mãe cega, pensa que as mudanças irão acontecer sem que seja necessário lutar por elas.
Logo, Fajták é o único personagem do filme que não adota uma postura acomodada e que está disposto a lutar por mudanças em seu país. E é claramente essa a mensagem que Stefan Uher mostrou em seu importante filme: Se você quer mudar a realidade, então não fique sentado, em silêncio, esperando, mas vá à luta. E isso não vale apenas para a Eslováquia, mas para qualquer país e para qualquer povo, em todas as épocas.  

Obs3: Temos várias narrações no filme (feitas por Fajták), bem como temos momentos no qual a imagem é congelada, mas as falas continuam. Assim, este importante filme de Stefah Uher inovou tanto no conteúdo trabalhado, como na forma narrativa utilizada. 

Stefan Uher fez assim um bonito filme, que causa um certo estranhamento na primeira vez em que se assiste ao mesmo, mas que soube criticar de forma bastante sutil e criativa o atraso e a estagnação do seu país (Eslováquia), bem como a acomodação de seu povo, a fim de que o Sol não continuasse mais preso em uma rede. 

Fim.
Fajták e Bela: Ele é o único personagem que tem um desejo de mudança e que está disposto a lutar por isso. Bela e os demais são acomodados e preferem ficar esperandos pelas mudanças. 
Informações Adicionais:

Título: SInko V Sieti (The Sun in a Net; O Sol em uma Rede);
Diretor: Stefan Uher;
Roteiro: Alfonz Bednár (adaptado do seu livro de mesmo nome);
Ano de Produção: 1962; País de Produção: Tchecoeslováquia;
Gênero: Drama;
Duração: 90 minutos;
Música: Ilja Zeljenka;
Fotografia: Stanislav Szomolányi;
Elenco: Marián Bielik (Fajták/Fajolo); Jana Beláková (Bela Blazejová); Olga Salagová (Jana); Adam Janco (Stohár Blazej, avô de Bela); Vladimir Malina (Pescador); Lubo Roman (Peto); Eliska Nosálová (Stana Blazejová, mãe de Bela); Andrej Vandlik (Ján Blazej, pai de Bela), Peter Lobotka (Milo, irmão de Bela).

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0176155/?ref_=ttfc_fc_tt

O Cinema Eslovaco dos 1970 revisitado:

http://sensesofcinema.com/2008/feature-articles/slovak-cinema-1970s/

A Nova Onda Tcheca - Lista de 15 filmes relevantes:

http://cineplot.com.br/index.php/2016/06/04/15-filmes-da-nouvelle-vague-tcheca-que/

Trecho do Filme: 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Filme: 'Pokolenie' ('Geração'): Andrzej Wajda mostra a luta do povo polonês contra a dominação nazista! - Marcos Doniseti!

Filme: 'Pokolenie' ('Geração'): Andrzej Wajda mostra a luta do povo polonês contra a dominação nazista! - Marcos Doniseti!
'Pokolenie': Filme de Andrzej Wajda mostra uma versão da luta dos poloneses contra o domínio nazista. Mas nem todos concordam com a mesma.
Andrzej Wajda é um dos principais cineastas que surgiram na Polônia e no chamado Leste Europeu no Pós-Guerra, ao lado de Krzysztof Kieslowski e Roman Polanski (Polônia), Milos Forman (Tchecoslováquia), Miklós Jancsó (Hungria), entre muitos outros.

Wajda fez parte de uma geração que se formou na 'Escola Nacional de Cinema de Lodz', uma verdadeira Universidade de Cinema, que forma diretores, atores, roteiristas e demais técnicos que trabalham na área.

Essa instituição foi criada em 1946 e foi estatizada pelo regime 'Socialista' polonês em 1950. E mesmo depois que isso aconteceu, os profissionais formados ali continuaram desfrutando de uma liberdade de criação que não existia em outros setores da sociedade polonesa. 

'Pokolenie' foi o primeiro longa-metragem de Wajda e o mesmo faz parte de uma trilogia, que também inclui 'Kanal' (1957) e 'Cinzas e Diamantes' (1958). Esta é a chamada 'Trilogia da Guerra' de Andrzej Wajda. Antes de 'Pokolenie', Wajda havia feito um curta metragem e dois documentários.
Burgueses poloneses e Nazistas juntos. Antes da invasão do país, pela Alemanha Nazista (Oeste) e pela URSS (Leste), a Polônia era uma Ditadura Militar de Direita e que já perseguia os Judeus. O Anti-Semitismo já era muito forte no país, muito antes de Hitler mandar invadir o mesmo, em 01/09/1939. 
Com este filme, considera-se que foi encerrada a era do 'Realismo Socialista' no cinema polonês e que ele também foi muito importante para a definição do que, posteriormente, ficou conhecido como a 'Escola Polonesa' de Cinema. 

Este filme permitiu que toda uma nova geração de talentosos profissionais de Cinema aparecesse, incluindo o próprio Wajda, mas também Roman Polanski (que interpreta Mundek, jovem integrante do grupo de Resistência que lutava contra a dominação nazista da Polônia), Jerzy Lipman (responsável pela Fotografia do filme e que trabalhou com Wajda em outros filmes, bem como com Roman Polanski) e atores que tiveram uma longa carreira no Cinema, tais como Tadeusz Lomnicki, Zbigniew Cybulski e Tadeusz Janczar.  

Wajda é um cineasta cuja história familiar se confunde com a da própria Polônia, pois o seu pai, Jakub Wajda, foi morto pelo NKVD (polícia secreta soviética antecessora da KGB) no episódio que ficou conhecido como 'Massacre de Katyn', no qual quase 22 mil oficiais militares poloneses foram mortos pelos soviéticos.  

O filme de Wajda sofre uma clara influência dos Filmes Noir e de Gângsters, como é o caso de 'Angels With Dirty Faces', 'The Roargin Twenties' e 'White Heat' ('Anjos de Cara Suja', 1938; 'Heróis Esquecidos', 1939, 'Fúria Sanguinária',1949; ambos com James Cagney). Outra influência presente neste filme de Wajda é a do Neo-Realismo, com a miséria e a exploração que os trabalhadores sofrem sendo mostrados no mesmo. 
A jovem e bonita Dorota recruta novos integrantes para a Gwardia Ludowa, movimento de Resistência formado pelos comunistas e que lutou contra a dominação nazista da Polônia depois que Hitler ordenou a invasão da URSS (22/06/1941). O Gwardia Ludowa realmente existiu (foi criado em Janeiro de 1942) e contou com um importante apoio do Exército Vermelho.
A trama do filme gira em torno dos jovens membros de vários grupos de Resistência que lutam contra os Nazistas. A líder de um dos grupos (Gwardia Ludowa) é a jovem Dorota. Inteligente, bonita, forte, determinada, articulada, ela exerce uma liderança incontestável sobre os demais integrantes, todos homens, incluindo Stach, com quem ela terá um bonita história de amor. 

Stach é um jovem operário, que vive sozinho com a mãe (uma mulher totalmente desiludida, que já não espera mais nada de bom da vida) numa favela de Varsóvia. 

Ele e mais dois amigos costumavam roubar carvão dos trens alemães que passavam por Varsóvia (fazendo uma espécie de 'roubo patriótico'), e que tinham o Leste como destino, até que em uma das tentativas um dos amigos de Stach foge (Kostek) e o outro acaba sendo morto (Zyzio) por um soldado alemão.

Depois disso, Stach começa a trabalhar em uma carpintaria, como um aprendiz, em meio a uma série de trabalhadores já adultos e veteranos. O proprietário e mais alguns trabalhadores da carpintaria também colaboram com a Resistência, formando uma célula do Armia Krajowa (movimento nacionalista) no lugar. Simultaneamente, a carpintaria é obrigada a atender às encomendas feitas pelos nazistas. Esta é uma forma de mostrar que, de alguma forma, a burguesia polonesa colaborava com os nazistas. 
Stach começa a trabalhar, como aprendiz, na carpintaria, na qual entrará em contato com Sekula, integrante do Gwardia Ludowa que o apresentará à bonita e determinada Dorota.
Na carpintaria, Stach é escalado para substituir Jasio, que foi promovido (agora ele é um trabalhador qualificado e assalariado), e cujo velho pai também trabalha ali (como um vigia noturno, mas que está perto de se aposentar). Na carpintaria, Stach conhece o integrante (Sekula) de um movimento de Resistência (Gwardia Ludowa) e da qual a líder naquela região é uma jovem bonita, inteligente e articulada, que é Dorota. 

O Camarada Sekula é um operário marxista, que integra o Guardia Ludowa (ou Guarda Popular), que é formado por comunistas, e que explica a essência da exploração capitalista (a extração de mais-valia) para o jovem Stach. Assim, junto com o trabalho ocorre um processo de conscientização da sua condição de trabalhador explorado. 

Sekula é o responsável por apresentar Stach a Dorota, líder da organização da Juventude do Gwardia Ludowa. Stach se une ao grupo liderado por ela e chega a prestar um juramento militar, começando a participar de ações de sabotagem contra os nazistas. E ele também irá se envolver romanticamente com a bonita jovem, com quem deixará de ser virgem. 

Assim, o filme de Wajda mostra também o momento de passagem da adolescência para a idade adulta. Stach deixa as brincadeiras adolescentes de lado (brincar com facas, roubar carvão) e começa a trabalhar, a conviver com adultos, entra para um movimento político de Resistência e tem o seu primeiro grande amor na vida (Dorota). 
Cena do filme mostra o Gueto de Varsóvia incendiado. Levante contra os Nazistas se deu quando mais de 300 mil dos seus 380 mil moradores já haviam sido levados para o campo de extermínio de Treblinka. Aqueles que ficaram ali decidiram morrer lutando. Levante demorou cerca de quatro meses para ser finalmente derrotado (começou em Janeiro e terminou em Maio de 1943). 
Em uma das cenas do filme vemos inúmeros corpos de poloneses pendurados em fios de energia e que foram mortos pelos nazistas pelo fato de participarem dos grupos de Resistência. A ordem de Hitler era que para cada alemão que fosse morto pelos poloneses, outros 100 poloneses deveriam ser mortos pelos nazistas, como forma de retaliação. 

E os poloneses também leem, com uma expressão de profunda tristeza, listas imensas com os nomes de compatriotas que morreram vítimas dos nazistas. E também vemos inúmeros poloneses que eram obrigados a fazer trabalhos forçados para os alemães, algo que era bastante comum nos países e territórios que a Alemanha Nazista conquistou. Hitler chegou a dizer que os povos eslavos somente serviam para isso mesmo. 

Tudo isso aumentava ainda mais o ódio que o povo polonês sentiam pelo nazistas, levando-os a continuar a luta na Resistência. 

Obs1: Durante a ocupação da Polônia pelos nazistas alemães, existiram vários grupos armados de Resistência que lutaram para expulsar os invasores. Os principais eram o Armia Krajowa (nacionalista, ligado ao governo polonês exilado em Londres e que tinha o apoio do governo britânico) e o Gwardia Ludowa (Guarda Popular, ligado ao Partido Comunista e que recebia apoio soviético) e que foi formado em Janeiro de 1942. O apoio do Exército Vermelho fez o Gwardia Ludowa crescer rapidamente, chegando a 3000 combatentes em pouco tempo, promovendo inúmeros atos de sabotagem e guerra de guerrilhas contra os nazistas alemães. 
Membros do Gwardia Ludowa: Jacek, Stach, Mundek, Dorota e Jasio. No centro (Mundek) vemos um ainda muito jovem Roman Polanski. 
No filme de Wajda, vemos que nacionalistas (Armia Krajowa) e comunistas (Gwardia Ludowa) eram movimentos políticos rivais, embora ambos lutassem contra a dominação nazista. 

Em uma das cenas, inclusive, quando dois integrantes do Armia Krajowa foram até a casa de Stach para recuperar uma arma que este havia roubado na carpintaria, os vizinhos, operários miseráveis como Stach e sua mãe, expulsaram os dois do local. Assim, o filme passa a ideia de que os operários estariam ao lado dos comunistas do Gwardia Ludowa. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, os dois movimentos (AK e GL) entraram em conflito e a vitória coube aos comunistas do Gwardia Ludowa, que tiveram o apoio decisivo de Stalin para implantar um governo comunista aliado da URSS no país, embora esta não fosse a vontade da maioria dos poloneses.

Obs2: Isso foi resultado de acordos fechados nas negociações feitas entre os Aliados (EUA, Grã-Bretanha e URSS) ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Este foi o chamado 'acordo das porcentagens', por meio da qual Churchill sugeriu a Stalin que a Europa fosse, no Pós-Guerra, dividida em esferas de influência. No Ocidente, a hegemonia seria da Grã-Bretanha e no Leste Europeu seria da URSS. E é claro que Stalin concordou com a ideia, pois interessava a ele ter governos aliados nos países que foram libertados da dominação nazista pelo Exército Vermelho.
Jasio luta e resiste até o fim. Vendo-se cercado pelos nazistas, ele preferiu se atirar do alto da escada a cair prisioneiro dos alemães que o perseguiam.
Em seu filme, Wajda também mostra que a Igreja Católica mantinha escolas para os jovens poloneses, mas que o ensino não tinha nenhuma relação com a luta do povo pela sua libertação do domínio nazista. E foi em um dos dias de aula que a jovem Dorota apareceu ali a fim de recrutar novos resistentes. Stach sentiu-se atraído pela jovem e pela ideia de lutar e vai procurar por ela posteriormente.  

Numa das vezes em que Stach e outros funcionários da carpintaria foram levar madeira para os alemães, ele foi agredido gratuitamente por um oficial nazista, acusado de um falso roubo. 

Obs3: Os nazistas alemães tinham um profundo desprezo pelos poloneses (povo ao qual consideravam inferior) e, após a invasão do país, Hitler determinou o extermínio de toda a elite intelectual polonesa: escritores, artistas, professores universitários, músicos. A ideia de Hitler era a de transformar o povo polonês em uma força de trabalho que faria apenas serviços pesados, ou seja, em escravos que trabalhariam para o Reich Nazista. Esse desprezo dos nazistas alemães pelos poloneses fica bem evidente no filme de Wajda. 

Em um dos dias de trabalho, Stach encontra uma arma num depósito da carpintaria (a mesma que os membros do AK foram buscar em sua casa), pega a mesma e a mostra aos outros membros do seu grupo (Jacek, Mundek, Jasio). Com a arma, eles decidem matar o oficial nazista (que acariciava as pernas de uma prostituta quando foi morto) que agrediu Stach, o que é feito por Jasio. 

Eles são repreendidos por Dorota pelo ato, pois o Gwardia Ludowa proíbe matar alguém que trabalhe próximo ao local onde os seus integrantes vivem.
O cineasta Andrzej Wajda, um dos mais talentosos da Polônia e do Leste Europeu que surgiu no Pós-Guerra. Ele se formou na Escola Nacional de Cinema de Lodz e ganhou vários prêmios importantes em sua carreira, incluindo um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.
Jasio resistia a participar do Gwardia Ludowa, pois se morresse o seu pai ficaria sozinho, mas acabou se integrando ao movimento. 

Obs4: Os nazistas alemães invadiram a Polônia em 01/09/1939, dando início à Segunda Guerra Mundial na Europa. Embora o Exército polonês tenha lutado com coragem e bravura, a derrota frente à poderosa máquina de guerra alemã, que usou da 'Blitzkrieg', foi inevitável. Depois da URSS, a Polônia foi o país que mais sofreu com a brutalidade nazista; 6 milhões de poloneses morreram durante a Guerra. 

Obs5: Antes da Segunda Guerra Mundial, a Polônia tinha a maior população judaica da Europa, somando cerca de 3,5 milhões de pessoas, o que representava 10% da população do país. Destes, 90% foram assassinados pelos nazistas (3.150.000). Somente a URSS teve um número maior de mortos (27 milhões) do que a Polônia entre os países invadidos pela Alemanha Nazista. E os principais campos de extermínio nazista foram instalados na Polônia: Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Belzec, Chelmno e Maidanek. 

Quando tem início o Levante do Gueto de Varsóvia, que começou em 1943, Sekula decidiu participar do mesmo (de fato, membros do AK e do GL foram para lá, lutar contra os nazistas). Com o massacre promovido pelos nazistas, que provocou a derrota do Levante, ele e mais alguns são resgatados pelos jovens membros do Gwardia Ludowa (Stach, Jasio, Jacek). 

Eles acabam sendo perseguidos por soldados nazistas, sendo que Jasio acaba cometendo suicídio, de forma corajosa e heroica, atirando-se de uma escada, a fim de não ser preso ou morto pelos alemães. 

Enquanto isso, Dorota e Stach passam, juntos, a sua última noite, na qual eles sonharam com um futuro melhor. Naquela noite, eles se amaram. Mas ela acabou sendo presa pela Gestapo e Stach não voltou mais a vê-la. 

No fim, ele se encontra com um novo grupo de jovens recrutas, que acabaram de entrar para o Gwardia Ludowa e que darão continuidade à luta da qual Dorota participou ativamente. E agora Stach será o líder destes jovens. 

Stach chora, pois sabe que nunca mais irá ver a bonita jovem que o recrutou para o movimento e pela qual ele se apaixonou.

Fim.
O jovem operário Stach chora a perda de Dorota, a jovem que o recrutou para a Resistência e pela qual ele se apaixonou. 
Obs6: É bom esclarecer que foram feitas críticas muito fortes à maneira como Andrzej Wajda conta a história da Resistência à dominação nazista na Polônia. O intelectual liberal Adam Michnik (que fez parte do 'Solidariedade') diz que o filme é, essencialmente, uma peça de propaganda do governo comunista polonês e que o mesmo distorce a forma como se deu a luta dos poloneses por sua libertação. Michnik diz que o filme de Wajda passa a ideia de que apenas os comunistas teriam tido um papel digno na Resistência, o que não seria verdade, na sua visão. Ele também diz que o filme de Wajda foi baseado em um livro de Bohdan Czeszko e que este transmite uma visão falsa sobre o tema. Debates sobre filmes relacionados a acontecimentos históricos são, de fato, polêmicos e intermináveis. 

Informações Adicionais:

Título: 'Pokolenie' ('Geração');
Diretor: Andrzej Wajda;
Roteiro: Bohdan Czeszko (baseado em seu romance autobiográfico);
Duração: 87 minutos; 
Ano de Produção: 1954; País de Produção: Polônia;
Fotografia: Jerzy Lipman;
Música: Andrzej Markowski;
Elenco: Tadeusz Lomnicki (Stach Mazur); Ursula Modrzynska (Dorota); Tadeusz Janczar (Jasio Krone); Janus Paluszkiewicz (Sekula); Ryszard Kotys (Jacek); Roman Polanski (Mundek); Ludwik Benoit (Grzesio); Zbigniew Cybulski (Kostek); Zygmunt Hobot (Abram); Jersy Krasowski (Wladek); Stanislaw Milski (Pai de Jasio); Zygmunt Zintel (Ziarno); Juliusz Roland (Kaczor); Hanna Skarzanka (Mãe de Stach); Janusz Sciwiarski (Chefe da Carpintaria); Kazimierz Wichniarz (Werkschutz), Ryszard Ber (Zyzio).
Membros da verdadeira Gwardia Ludowa, que lutou contra a dominação nazista da Polônia entre 1942 e 1945.  


Filme na íntegra (sem legendas):



domingo, 18 de setembro de 2016

'A Faca na Água': Conflito de gerações, críticas políticas e tensão sexual marcam a bela estreia de Polanski! - Marcos Doniseti!

'A Faca na Água': Conflito de gerações, críticas políticas e tensão sexual marcam a bela estreia de Polanski! - Marcos Doniseti!
"A Faca na Água" foi o primeiro longa-metragem de Roman Polanski. E já em seu primeiro filme o seu talento como cineasta foi devidamente reconhecido. Muitos o consideram como sendo um dos melhores filmes de estreia da história do Cinema. 
Roman Polanski formou-se na famosa 'Escola de Cinema de Lodz', que também revelou para o mundo cineastas como Andrzej Wajda, Krzysztof Kieslowski, Jerzy Skolomovski e Krzystof Zanussi, entre outros. Ela foi criada em 1946 e, apesar de ter passado para o controle do Estado polonês em 1950, os seus profissionais sempre desfrutaram de uma liberdade de criação sem paralelo nos demais países que adotaram o chamado 'Socialismo Real' no Pós-Guerra (Hungria, Romênia, Tchecoslováquia, Bulgária, Alemanha Oriental, Iugoslávia).

Polanski começou a sua carreira de cineasta realizando apenas curtas-metragens. 

Foram nove curtas, realizados entre 1955 e 1962, e que a julgar pelo excelente resultado alcançado neste seu primeiro longa metragem, serviram como uma excelente 'escola' para o seu amadurecimento como cineasta. E finalmente, depois de sete anos, ele dirigiu o seu primeiro longa, que é este clássico, uma pequena preciosidade, 'A Faca na Água'.

O filme tem uma belíssima fotografia em preto e branco, mas num tom fortemente cinzento, e uma bela trilha sonora, que foi composta pelo talentoso músico de Jazz polonês Krzysztof Komeda. E Polanski também faz um brilhante uso dos enquadramentos de câmera. sendo que em muitos deles os três personagens aparecem ao mesmo tempo, mas isso é feito de forma bastante variada. Um mestre, desde o início. 
Andrzej beija Krystyna, mas ela não reage, pois o amor entre eles já deixou de existir há muito tempo. 
Essa estreia de Polanski em longas metragens foi bastante elogiada e conta com apenas três personagens, sendo que praticamente o filme inteiro se passa em um único ambiente, que é um simples barco. Ele voltaria a fazer isso em outros filmes. 

A trama de 'A Faca na Água' é bem simples: Em um domingo, um casal bem sucedido (Andrzej e Krystina) sai para passear em seu pequeno barco e, no meio do caminho, encontra um jovem caroneiro (pobre, solitário, sem casa, sem família e, também, sem um nome), ao qual Andrzej quase atropelou e matou. Eles acabam convidando o jovem para o passeio de barco que irão fazer e o mesmo acaba aceitando, apesar de ter sido tratado com um certo desprezo pelo proprietário da embarcação. 

Aliás, já durante a viagem, de carro, que ele e Krystyna fazem até a marina, percebe-se que o marido é autoritário e gosta de se impor perante a sua bela e sensual esposa, pois enquanto ela dirige, ele mexe no volante em várias oportunidades, o que deixa a esposa irritada. Ela acaba abandonando a direção, fazendo com que ele tenha que dirijir até a marina. 
O caroneiro irá modificar radicalmente o domingo de Andrzej e de sua bela e sensual esposa, Krystyna.
Nota-se, também, que há bem pouco diálogo entre o casal, como se a paixão e o amor já não estivessem presentes no relacionamento deles há muito tempo. Inclusive, quando Andrzej beija a esposa, ela não reage. Fica claro que ela não o ama mais e o passeio é feito apenas para manter as aparências da vida de casal e para preencher o tempo. 

Durante o filme, pouco ficamos sabendo a respeito da vida pessoal dos protagonistas, mas o que é dito é suficiente para se perceber quais são as diferenças existentes entre eles em termos de classe social, idade e interesses na vida.

Do início ao fim do filme veremos um conflito, que irá crescer de intensidade, entre Andrzej e o jovem caroneiro. Este conflito se desenvolve, inicialmente, em função da diferença de idade entre os mesmos, caracterizando um nítido conflito de gerações entre os dois duelistas. Afinal, enquanto Andrzej é um homem adulto, maduro, com uma bela esposa, desfrutando de uma vida tranquila e estável, o jovem caroneiro é um aventureiro, solitário, que sai pelo mundo em busca de novas experiências de vida. 
Desde o início tivemos uma atração entre o jovem caroneiro e a bela Krystyna, que é infeliz no seu casamento, meramente de aparências, com Andrzej.
A presença de Krystina (que é interpretada pela bela Jolanta Ulemcka, atriz dotada de uma beleza natural que não se vê mais atualmente, quando vivemos em um mundo em que as mulheres abusam de exercícios, maquiagens, botox, cirurgias plásticas e silicones) acaba introduzindo um novo elemento no conflito entre os dois homens, pois fica evidente, para Andrzej, que o jovem caroneiro sente-se atraído por sua bela esposa (mas quem não se sentiria?). 

E com isso está criado o clima para que os dois homens comecem um verdadeiro duelo de egos, que aumentará de intensidade gradualmente e que chegará ao clímax no final. Assim, ao choque de gerações, soma-se o conflito gerado pelo desejo que ambos sentem pela mesma mulher. E é claro que eles irão procurar se exibir para ela, a fim de mantê-la sob o seu domínio (Andrzej) ou de vir a conquistá-la (jovem caroneiro). 

E neste conflito entre os dois homens, estes voltarão aos seus instintos mais primitivos, procurando demarcar territórios e se exibindo para a bela mulher, Krystyna, que acompanhava a tudo aquilo com indiferença, até que no final ela acaba deixando a passividade de lado e também toma a iniciativa, o que a levará a entrar em um forte conflito com o marido autoritário e, também, com o jovem caroneiro.  
A bela e sensual Krystyna acaba sendo disputada pelo seu marido e pelo jovem caroneiro, que travam um duelo entre si, mas durante a maior parte do tempo ela ficou indiferente a tudo. 
Aparentemente, nada acontece durante o filme. Mas o diabo mora nos detalhes e, de fato, tudo está acontecendo: as provocações, olhares, desafios, humilhações, demonstrações de perícia naquilo em que eles se destacam (Andrzej no domínio do barco; o jovem caroneiro no uso da faca que carrega consigo). 

Assim, desde o início o marido autoritário, Andrzej, tratou o jovem caroneiro com hostilidade, sendo que praticamente o empurrou para dentro do carro, falou que ele deveria dormir durante a viagem e o chamou de vagabundo. 

Mas, se é assim, qual o motivo dele ter oferecido carona e, também, tê-lo convidado para o passeio de barco? Isso acontece porque o jovem caroneiro é a novidade, é o que poderá acrescentar algo ao passeio que, sem a presença do jovem, seria chato e monótono, sem nada de interessante para fazer ou sobre o que conversar, pois o casal vive de aparências e o amor entre eles já não existe mais. 
Andrzej e o caroneiro disputam a atenção de Krystyna e entram numa disputa de egos que explodirá no final. 
No início, Andrzej procura demonstrar seus conhecimentos e habilidades no domínio do barco. E o jovem caroneiro faz o mesmo, mas com a sua faca, que ele leva para todos os lugares. Ele também se oferece para ajudar a levar o barco em meio a uma região pantanosa, sobe até o alto do mastro, tudo para demonstrar a sua masculinidade, como que dizendo 'eu não sou nenhum garoto'. E Andrzej também tentará se mostrar como alguém forte e vigoroso, apesar de ser bem mais velho. 

Aliás, esse festival de exibicionismo e de provocações é algo que ambos farão, durante todo o filme, até chegar o momento em que eles irão partir para as vias de fato. 

E é claro que Andrzej ri do jovem caroneiro quando este tenta demonstrar uma habilidade que não domina, como a de remar, fazendo com que o barco fique 'andando' em círculos. O caroneiro fica irritado e joga o remo no mar, gerando o primeiro conflito aberto entre ele e o casal. 
Durante o filme, Krystyna muda radicalmente: Em alguns momentos ela é fria, em outros ela é ardente. Ela possui uma personalidade que ora é dócil, ora é rebelde. E no final ela age mecanicamente. 
Quando começa a chover fortemente, eles descem para a pequena cabine e, ali, o jovem caroneiro olha para a mulher que está se enxugando, momento em que o seio dela fica visível. Ela diz para ele não olhar, mas quem disse que ele resiste? E o marido percebe e não gosta nenhum pouco disso. O clima entre eles está ficando cada vez mais tenso. 

A disputa entre os dois homens envolve atos bem simples, como encher colchão de ar, arremesso de facas, jogo de palitos (neste, Andrzej se gaba de ser virtualmente invencível). E a bela esposa, até este momento, ignora essa guerra de egos entre os dois homens. 

Logo depois, Krystina canta, para o jovem caroneiro, uma música que deixa claro que o amor entre ela e o marido não existe mais e que o relacionamento deles caiu na rotina já há muito tempo, algo que o desagrada, dizendo que aquela música 'é estúpida'. A letra diz 'A vida se desvaneceu, e o nosso amor se foi'. Interessante, nesta cena, são os olhares de soslaio que a bela Krystyna dá para o marido enquanto canta a música, como que dizendo 'isso é para você, sim'. 
Revista Time de 1963 coloca imagem do filme de Polanski na capa. A alta qualidade do Cinema produzido na Polônia conquistava muitos prêmios pelo mundo todo, o que levou o governo stalinista do país a ser mais tolerante, respeitando uma liberdade de criação que não era comum em tal sistema. Assim, críticas ao sistema comunista eram permitidas em tais filmes. 
Assim, como quase todo o filme se passa em um pequeno espaço, que é o barco, em um lago, isso colabora para o aumento progressivo da tensão sexual (entre a linda Krystyna e o caroneiro), bem como do conflito e da agressividade entre os dois homens. E tudo isso irá explodir no final. 

Andrzej passa a agir com o jovem caroneiro como se o mesmo fosse um funcionário subalterno e acaba jogando a faca do mesmo no mar. Com isso, eles finalmente brigam, fazendo com que o caroneiro caia ao mar. Andrzej e a esposa vão atrás dele, mas não o encontram, pois ele sabe nadar e desaparece. Eles brigam por isso e ela o acusa de ter afogado o caroneiro e o chama de palhaço e farsante. E Andrzej diz que se não fosse por ele, Krystina seria uma 'puta'. Ela diz que o odeia. Assim, Krystina enfrenta o marido autoritário, sem medo. 

Com isso, o conflito entre Andrzej e a esposa, que se insinuava desde o início do filme, também explodiu no final. 

Quando o marido vai embora, o jovem caroneiro retorna ao barco. E Krystina, que durante quase todo o filme adotou uma postura de indiferença, mostra que é uma mulher forte e independente, pois além de enfrentar o marido, ela também esbofeteou o caroneiro, por tê-los enganados, ela e o marido, a respeito do fato de que não saberia nadar. Ela também diz que o caroneiro é igual ao marido, mas com a metade da idade e o dobro de burrice. 
O Caroneiro não resiste e olha para a bela Krystyna. Andrzej não gosta nenhum pouco disso, é claro.
Krystyna e o caroneiro trocam impressões e somente aí é que ficamos sabendo algo mais a respeito deles. Ela tem uma boa vida, possuindo carro, um pequeno iate, uma casa grande, enquanto que ele vive num quarto junto com mais seis jovens. Essa é uma maneira nada sutil de Polanski denunciar as desigualdades sociais que existiam no país, onde a chamada 'nomenklatura' (burocracia) do Partido Comunista desfrutava de privilégios e de benefícios que eram inacessíveis à maioria dos poloneses. 

Assim, este excelente filme de Polanski pode ser interpretado, também, de uma outra forma, bem mais política e social.

Desta maneira, Andrzej representaria o regime stalinista polonês, autoritário e repressivo, com seus burocratas privilegiados, e que é odiado pelo povo, sendo que este é simbolizado por Krystyna. Esta (Krystyna/povo) adota uma postura aparentemente dócil, submetendo-se a Andrzej (ou seja, ao governo estabelecido do país), mas o detesta, de fato. 

Já o jovem caroneiro representaria o desejo de liberdade e democracia dos poloneses, mas este ainda seria um povo imaturo, que talvez não estivesse preparado para viver em liberdade. E talvez seja justamente por isso que Krystyna diz para o caroneiro que 'Você não é melhor do que ele... Ele foi como você. E você quer ser como ele. E você será, se tiver coragem'. 
Nos filmes produzidos na Polônia, na época do regime stalinista, críticas ao sistema político e social do país eram toleradas, pois a qualidade da produção cinematográfica era excelente e conquistava muitos prêmios internacionais, aumentando o prestígio do país.
Obs1: No livro 'Pós-Guerra: Uma história da Europa desde 1945', o historiador britânico Tony Judt diz que, quando os países do chamado 'Leste Europeu' adotaram o regime 'socialista', ainda existia, por parte de muitas pessoas nestes países (mais em alguns e menos em outros), uma expectativa positiva em relação ao novo sistema político e social. 

Este promoveria uma melhoria sensível nas condições de vida da população, ao mesmo tempo em que esta passaria a desfrutar de amplas liberdades, o que não aconteceu durante o período da ocupação nazista e nem antes desta, quando tais países (com a única exceção da Tchecoslováquia) possuíam governos ditatoriais. 

A melhoria material até que aconteceu, com os governos destes países oferecendo educação, saúde, pleno emprego, alimentação e moradia subsidiados pelos Estado, mas no aspecto das liberdades democráticas havia sérias restrições. 

Porém, o Cinema foi um dos setores que desfrutou de mais liberdade, pois os filmes produzidos nestes países (Polônia, Tchecoslováquia) eram de excelente qualidade e conquistavam muitos prêmios internacionais (Cannes, Oscar, etc). Por isso, os governos destes países foram mais tolerantes com as críticas, mais do que evidentes, que os extremamente talentosos cineastas faziam em suas obras.  

Tony Judt chega a dizer, em seu livro, que a população destes países não desejava o fim do Socialismo, mas queria desfrutar de Liberdades individuais e coletivas (expressão, opinião, manifestação, reunião, organização, imprensa), desejando conciliar as conquistas sociais do sistema com a democracia. 

Mas o caminho que estas nações seguiram depois das chamadas 'Revoluções Democráticas' de 1989/90 não foi o do Socialismo Democrático, tal como era o desejo da imensa maioria da população, mas o do Capitalismo Neoliberal (imposto pelos EUA, FMI e pela UE), o que gerou uma séria crise econômica e social em todos eles, que passaram por um brutal aumento do desemprego, da pobreza, da fome e da prostituição. 
Eu não sei se mais alguém notou, mas as belas e carnudas coxas da linda Krystyna apareceram com muito destaque durante todo o filme. Esse Polanski...
E depois de todo aquele desejo reprimido, por tanto tempo, Krystyna e o caroneiro finalmente se beijam e se amam. Depois, eles voltam para a marina e ele vai embora. Krystina encontra Andrzej, sem se falarem em um primeiro momento. É o mesmo silêncio constrangedor que vimos no início do filme.  

Durante a viagem de carro, ele diz que irão para a Polícia, a fim de comunicar o desaparecimento do caroneiro no lago, mas ela diz que o caroneiro voltou, está vivo e que ela o traiu Andrzej ao fazer amor com o mesmo. Andrzej fica em sérias dúvidas a respeito disso. 

Obs2: Incrível como a Krystyna muda durante o filme. No começo ela parece indiferente a tudo. Depois, ela demonstra ser romântica. Mais adiante ela se revela uma pessoa de personalidade forte, independente, que enfrenta o seu marido sem hesitar e esbofeteia o jovem caroneiro. E agora, na cena final, ela parece falar mecanicamente, sem emoção alguma, quase como se fosse uma espécie de androide. 

E a pedido dela, ele conclui a história de um marinheiro, dizendo que não fazia ideia em que ele havia se transformado. Claramente, Andrzej fala sobre si mesmo, depois de tudo o que lhe aconteceu naquele domingo. E ele não se decide a respeito de qual rumo irá tomar, não sabendo se ia para a casa ou para a Polícia. 

Fim.  
No final, Andrzej fica em dúvida sobre qual o rumo que deverá seguir.
Informações Adicionais: 

Título: Noz w Wodzie (A Faca na Água);
Diretor: Roman Polanski;
Roteiro: Roman Polanski; Jakub Goldberg; Jerzy Skolimowski;
Duração 90 minutos;
Ano de Produção: 1962; País de Produção: Polônia;
Elenco: Jolanta Umecka (Krystyna); Leon Niemczyk (Andrzej); Zygmunt Malanowicz (Caroneiro);
Música: Krzysztof Komeda;
Fotografia: Jerzy Lipman.

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0056291/?ref_=fn_al_tt_1

Escola Nacional de Cinema de Lodz:

http://iarochinski.blogspot.com.br/2007/09/melhor-escola-de-cinema-do-mundo.html

Trecho do Filme: