terça-feira, 21 de novembro de 2017

'Las 13 Rosas': Filme conta a história do assassinato de 13 jovens mulheres inocentes pela Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!

'Las 13 Rosas': Filme conta a história do assassinato de 13 jovens mulheres inocentes pela Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!
'Las 13 Rosas' é um belo filme espanhol que conta a história do assassinato de 13 jovens mulheres que foram executadas pela Ditadura de Francisco Franco, logo após o final da Guerra Civil Espanhola, mesmo sendo inocentes das acusações que lhes fizeram. Das 13 jovens, 8 eram menores de idade. 

As 13 Rosas e a Guerra Civil Espanhola (1936-1939)!


Este belo filme espanhol (que é uma produção de 2007) mostra a história de um dos mais aterradores fatos da época em que o golpista reacionário Francisco Franco governou a Espanha (como um Ditador brutal e sem compaixão), período este que durou de 1939 a 1975, quando finalmente faleceu e foi fazer companhia, no Inferno, a outros criminosos do mesmo calibre (Hitler, Mussolini, Médici, Somoza, Trujillo...). 

A trama do filme gira em torno da vida e do trágico destino que tiveram 13 jovens mulheres, que integravam a Juventude Socialista Unificada, organização criada em Abril de 1936 por jovens militantes socialistas e comunistas, e que acabaram sendo falsamente acusadas por um crime (de participar de um complô para matar o Ditador Francisco Franco), sendo que elas foram condenadas à morte e executadas em função disso, mesmo sendo totalmente inocentes.  

A história delas está diretamente ligada aos principais acontecimentos que afetaram a Espanha na década de 1930, período no qual o país conviveu com intensas lutas políticas e sociais e que resultaram na Guerra Civil, que devastou o país por três anos. 

As causas desta Guerra são encontradas nas décadas anteriores ao conflito, principalmente no período que vai de 1873 a 1934, época em que a Espanha passou por um processo de modernização autoritária, que não veio acompanhada de melhoria nas condições de vida dos trabalhadores (operários, camponeses), muito pelo contrário, ela se fez às custas do aumento desta exploração. 
"Trece Rosas Rojas Y La Rosa 14": Livro de autoria de Carlos Fonseca sobre as '13 Rosas' no qual o filme se baseou.

Simultaneamente, a Espanha também não se democratizou, pois as suas elites capitalistas eram profundamente reacionárias e não aceitavam a participação dos trabalhadores e tampouco da classe média no governo. 


A Espanha possuía um governo elitista e retrógrado, sendo uma Monarquia profundamente autoritária e conservadora, que se baseava no poder repressivo do Exército, da Igreca Católica e no apoio da sua Burguesia para se manter no poder. 

A Espanha, embora fosse um país periférico, pobre e atrasado, no Velho Mundo naquela época, também sofreu os efeitos da expansão do Nazi-Fascismo e de regimes Ditatoriais de Direita Reacionária pela Europa, processo este que ocorreu na década de 1930. 

Entre os países que se tornaram Ditaduras de Extrema-Direita temos a Alemanha e a Itália, países em que tivemos a consolidação dos regimes Nazista (Hitler) e Fascista (Mussolini).

Foi neste contexto que, para combater o fortalecimento do Nazi-Fascismo, o governo da então URSS (liderado por Stalin) decidiu promover e estimular a criação das chamadas 'Frentes Populares' nos países capitalistas liberais-democráticos, com o objetivo de barrar a expansão da extrema-direita e dos nazi-fascistas pelo mundo. 

As 'Frentes Populares' reuniam foças políticas e sociais progressistas (socialistas, comunistas, anarquistas), republicanas e liberais-burguesas. 
Lista com o nome das '13 Rosas' que foram assassinadas pela brutal Ditadura Franquista. No Pós-Guerra nenhuma outra Ditadura cometeu tantos assassinatos quanto a de Franco na Europa. Uma das '13 Rosas', Julia Conesa, escreveu "Que mi nombre no se borre en la historia" (Que o meu nome não seja apagado pela história). 

O objetivo destas 'Frentes Populares' era combater e derrotar o Nazi-Fascismo nos países em que o mesmo estava se expandindo (Europa e América Latina). Tal política resultou em três significativas vitórias eleitorais, que aconteceram na França e na Espanha (ambas em 1936), bem como no Chile (1938). 


Obs1: O Chile foi o único país fora da Europa em que uma 'Frente Popular' foi vitoriosa em uma eleição democrática. Salvador Allende foi ministro da Saúde deste governo (entre 1939 e 1942), cujo Presidente foi Pedro Aguirre Cerda. 

No caso da Espanha, a vitória da 'Frente Popular' nas eleições de Fevereiro de 1936 não foi aceita pelas forças políticas e sociais reacionárias do país (Latifundiários, Industriais, Banqueiros, Igreja Católica, Exército, Classe Média). 

Com isso, uma ala do Exército ligada a tais segmentos sociais e que era liderada por Emílio Mola e por Francisco Franco tentou um Golpe de Estado a fim de derrubar o governo da 'Frente Popular'. Mas cerca de metade do Exército espanhol permaneceu leal ao governo eleito democraticamente da 'Frente Popular' (liderado pelo Presidente Manuel Azaña Dias). 

Desta maneira, com a divisão do Exército entre forças legalistas e golpistas, tivemos o início de uma Guerra Civil (que durou de Julho de 1936 a Março de 1939). Os Exércitos inimigos contavam com cerca de 800 mil soldados cada um. No brutal conflito morreram cerca de 500 mil pessoas.
Placa em homenagem às '13 Rosas' no Cemitério de Madrid. Elas lutaram em defesa do governo da 'Frente Popular', que havia sido eleito democraticamente em 1936. Mas as forças reacionárias da Espanha (Burguesia, Igreja Católica, Exército) não aceitaram a derrota eleitoral e promoveram um Golpe de Estado, que fracassou, mas que gerou uma Guerra Civil que durou quase 3 anos e na qual morreram cerca de 500 mil pessoas. 

Para a vitória de Franco foi de fundamental importância o grande apoio que o mesmo recebeu da Alemanha Nazista e da Itália Fascista, que enviaram muitos armamentos (aviões, tanques, etc) e tropas para as forças franquistas. A Itália fascista enviou 70 mil soldados para combater ao lado dos Nacionalistas de Franco, enquanto que Hitler enviou outros 10 mil. Depois, durante a Segunda Guerra Mundial, Franco retribuiu o apoio, enviando a chamada 'Divisão Azul' (com 40 mil soldados) para combater ao lado dos nazistas na invasão da União Soviética. 


Inclusive, é bom lembrar que o bombardeio da pequena cidade basca de Guernica (de 5 mil habitantes), que ocorreu em 26 de Abril de 1937, por aviões alemães da chamada 'Legião Condor', foi o que levou Pablo Picasso a pintar o seu mais do que famoso e consagrado quadro. No ataque morreram cerca de 1.600 pessoas.

Enquanto isso, o apoio soviético para as forças Republicanas revelou-se muito tímido, pois o governo de Stalin priorizava o estabelecimento de relações amistosas com os governos da França e da Grã-Bretanha, com os quais desejava fazer uma aliança a fim de combater os regimes de Hitler e Mussolini. 

Assim, Stalin não desejou interferir no conflito, em favor dos Republicanos, na mesma proporção em que Hitler e Mussolini o fizeram em benefício dos 'Nacionalistas' liderados por Franco. 

Apesar disso, ocorreu uma intensa mobilização internacional, inclusive com a criação das chamadas 'Brigadas Internacionais', por meio das quais cerca de 40 mil voluntários estrangeiros lutaram ao lado dos Republicanos, sendo que cerca de 10 mil brigadistas morreram em combate. 
Adolf Hitler e Francisco Franco: Sem o apoio dos governos fascista de Mussolini e nazista de Hitler, Franco jamais teria conseguido vencer a Guerra Civil Espanhola, que se tornou um conflito internacional graças à intervenção alemã e italiana. A Ditadura Franquista matou entre 2 e 5 milhões de pessoas em um país que, em 1940 (quando a foto foi tirada), tinha apenas 27 milhões de habitantes. 

Muitos intelectuais conhecidos fizeram parte destas Brigadas, incluindo George Orwell, que usou da sua experiência de combatente para escrever o livro 'Lutando na Espanha' (este serviu de base para o excelente filme 'Terra e Liberdade', de Ken Loach). André Malraux (que escreveu o livro 'A Esperança') e Simone Veil também pegaram em armas para lutar ao lado dos Republicanos.


No Pós-Guerra, a Ditadura de Franco se beneficiou com uma série de acordos fechados com os EUA. Tais acordos, fechados em 1953, fizeram com que o país recebesse muitos investimentos estrangeiros, levando a um período de rápido crescimento econômico. Mas as desigualdades sociais, o atraso econômico e a pobreza não foram superadas até o final da Ditadura Franquista, em 1975, com a morte de Franco.

A Ditaduta Franquista e as 13 Rosas!

Após a vitória de Franco, este implantou uma brutal e implacável Ditadura, que durou de 1936 a 1975, período durante o qual promoveu uma permanente perseguição contra aqueles que haviam lutado ao lado dos Republicanos (socialistas, comunistas, anarquistas). 

E as chamadas '13 Rosas' foram vítimas desta brutal Ditadura franquista. A história delas resultou em um livro, de autoria de Carlos Fonseca, que serviu de fonte para a produção deste belíssimo filme.

Como já afirmei, as '13 Rosas' eram jovens militantes da JSU (Juventude Socialista Unificada) que, após a vitória de Franco, foram perseguidas e presas pelo regime franquista. Elas foram falsamente acusadas de participar de um complô para assassinar Franco e acabaram sendo condenadas e executadas em função disso.

No início do filme, vemos duas jovens (Carmen e Virtudes), que são integrantes da JSU, discursando para pessoas em uma praça, de uma pequena cidade, tentando convencer as mesmas de vale a pena continuar lutando contra as forças franquistas, mesmo com as sucessivas derrotas que os Republicanos estão sofrendo nos campos de batalha. Mas uma das mulheres presentes as questiona, dizendo que estão cansados de tanta guerra e que desejam paz. 
Aqui vemos fotos de 10 das 13 jovens assassinadas pela Ditadura Franquista, que contou com forte apoio da Burguesia e da Igreja Católica espanholas. E com a assinatura de vários acordos com os EUA em 1953, a Ditadura genocida de Franco passou a ser uma aliada do Ocidente na luta contra o 'Comunismo', na época da 'Guerra Fria'. Assim, seus crimes e atrocidades foram ignorados pelos países do chamado 'Mundo Livre e Democrático'. 

É justamente neste momento que aparecem forças Republicanas derrotadas, batendo em retirada. Sem alternativa, elas decidem ir embora da cidade junto com as mesmas, indo para Madrid.


Assim, a Guerra Civil está chegando ao fim e as forças de Franco estão dominando toda a Espanha. E quando Franco se torna o novo ditador, será promovida uma brutal perseguição contra todos que lutaram ao lado dos Republicanos, incluindo as duas jovens (Carmen e Virtudes), que eram integrantes da JSU, é claro.

E quando as forças franquistas chegam à Madrid, todos os habitantes são obrigados a fazer a saudação fascista, mesmo que não tenham a menor simpatia por Franco e sua ideologia reacionária. E quem não fizesse a saudação fascista era agredido e humilhado, mostrando que o regime franquista seria extremamente violento. 

E também fica claro neste momento o apoio ostensivo da Igreja Católica para as forças franquistas, pois vemos um caminhão repleto de freiras com todas elas fazendo a saudação fascista. 

A Igreja Católica foi, durante toda a Ditadura Franquista, um dos principais sustentáculos do regime, sendo que ela tinha até mesmo o direito de escolher quais os livros que seriam usados nas escolas, bem como o de censurar a produção cultural do país. Inclusive, uma das '13 Rosas' foi presa por padres, quando tentava fugir da Polícia. 
Virtudes e Carmen fazem um discurso para a população de uma pequena cidade espanhola, estimulando a mesma a continuar lutando em defesa do governo democrático do país (da 'Frente Popular'). Mas as pessoas estavam cansadas da guerra, que foi brutal, e queriam Paz. Mas isso é o que os espanhóis nunca tiveram durante a brutal e genocida Ditadura Franquista (1939-1975).

Outra integrantes da JSU, que vive em Madrid trabalhando nos bondes, é Julia. Ela conhece um militar franquista (Perico), com quem irá começar a namorar. Mas é claro que esse namoro tem outras finalidades, que é o de obter informações para descobrir quais são as demais integrantes da JSU. 


Apesar da instalação da Ditadura franquista ter feito com milhões de espanhóis fugissem do país (grande parte foi para a França), outros milhares permaneceram na Espanha, tentando organizar uma Resistência contra a Ditadura de Franco. Por isso as integrantes da JSU passaram a ser vigiadas, presas e torturadas, sendo que muitas foram obrigadas a colaborar com a Polícia, sendo obrigadas a atrair as suas antigas companheiras para emboscadas policiais. 

Essa sobrevivência dos Republicanos em meio a Ditadura Franquista era possível porque existia uma espécie de rede subterrânea, clandestina, ligados aos mesmo, mas que era alvo de vigilância, perseguição e repressão brutal. Uma das que colaborava com a Resistência era a proprietária de uma pensão (chamada de 'Cubana'), que escondia os Republicanos nos quartos da mesma. 

Inclusive, a Ditadura de Franco estimulava as pessoas a dedurarem qualquer Republicano que tivesse lutado contra as suas forças militares durante a Guerra Civil. O Rádio e o Cinema (as mais importantes mídias da época) eram usados para fazer propaganda da Ditadura e estimular a delação por parte da população. E duas mulheres que davam abrigo a Juan, o militante do PCE, acabaram passando informações sobre ele para a Polícia. 
Grupos de freiras fazendo a saudação fascista em rua de Madrid: A Igreja Católica desfrutou de um imenso poder durante a Ditadura Franquista, fornecendo a base ideológica para a mesma. Ela podia censurar qualquer obra (filmes, livros, etc) e controlava a educação no país. E os padres atuavam como se fossem policiais. 

Assim, criava-se um clima de total controle sobre a população espanhola, que tinha que tomar muito cuidado com o que falava, tanto em caráter privado, como em público. Afinal, qualquer pessoa poderia ser um espião e dedo-duro franquista. E coitado de quem não gritasse 'Arriba Espanha' e não fizesse a saudação fascista. 


No filme, um dos combatentes Republicanos que é perseguido é Juan, que era ligado a um Sindicato e ao PCE (Partido Comunista Espanhol). Blanca (uma direitista civilizada, o que é uma raridade mesmo no mundo atual) e seu marido (Enrique Garcia, um músico) procuram ajudar Juan, dando-lhe dinheiro, para que o mesmo possa fugir. 

Mesmo em meio a essa situação de vigilância e repressão, as jovens militantes procuram ter uma vida normal... trabalhando, namorando. Virtudes namora Valentin, um combatente Republicano, e por isso eles precisam tomar cuidado quando se encontram. 

Mas essa tentativa de levar uma vida normal em meio à brutal Ditadura Franquista não irá durar muito tempo. 
Membros do Exército Franquista pressionavam a população para que a mesma fizesse a saudação fascista e gritasse 'Arriba Espanha'. Coitado de quem não o fizesse. 

Um dos militantes Republicanos que acabou sendo preso foi Teo. Ele foi brutalmente torturado, de tal maneira que acabou concordando em colaborar com a Polícia na missão de prender os antigos companheiros de luta. E Julia acaba tentando levar uma vida normal e, para isso, tenta se afastar das antigas militantes da JSU. 


Mas a bela Julia também acabará sendo presa, como inúmeras outras integrantes da JSU. E quando ela é torturada, o policial mostra para ela documentos e fotografias que, anteriormente, estava em poder delas. Como a Polícia as obteve? Por meio de Teo, que sabia onde eles se encontravam. 

Obs2: Nos primeiros anos da Ditadura Franquista foram efetuadas milhares de prisões e execuções de Republicanos. E milhares de prisioneiros acabaram sendo condenados à morte e executados, mesmo que as acusações contra eles fossem totalmente falsas, tal como aconteceu com as '13 Rosas'. 

O filme também mostra que a Guerra Civil fraturou a população espanhola, afastando familiares, jogando uns contra os outros. Enquanto alguns eram Franquistas, outros eram Republicanos. 

Obs3: Qualquer semelhança com o que está acontecendo no Brasil atualmente não é mera coincidência. 
Valentim, um soldado Republicano, e Virtudes (da JSU) se encontram no banco de uma praça. As 13 jovens tentavam conciliar a vida amorosa com a militância política, mas isso irá durar pouco tempo, pois serão presas e executadas. A Ditadura Franquista estimulava a delação entre a população, a fim de manter todos os espanhóis sob controle. 

Adelina, uma das jovens da JSU, é levada pelo pai para ser interrogada pela Polícia de livre e espontânea vontade, imaginando que nada aconteceria com a filha. Ledo engano. E Carmen acaba descobrindo que Teo é um traidor, depois que ele fez muitas perguntas a respeito dos demais integrantes da Resistência. 


Devido às informações que Teo forneceu para a Polícia, todos os integrantes da Resistência que ele conhecia vão sendo presos e torturados, incluindo Juan, que acaba cometendo suicídio. 

As jovens acabam sendo levadas para a prisão de Ventas, que tinha capacidade para 450 prisioneiras, mas que abrigava cerca de 4000, o que significa que elas dormiam no chão. E as prisioneiras criam laços de solidariedade, procurando se ajudar o tempo inteiro, bem como procurar passar alguns momentos de descontração, cantando músicas que criticavam as péssimas condições da prisão. 

A letra da canção diz:

"Prisão de Ventas, hotel maravilhoso; Aqui se come e vive no conforto; Não tem cama e nem tempo de repouso; Estar no inferno seria bem melhor; Telefones até nos banheiros; Um bloco de cimento no lugar de pão; Lentilha é nosso único alimento; Um prato ao dia e está bom; Um piso decorado é o que temos de colchão; E acordamos todo dia repletas de arranhão".

Espanhóis fazem a saudação fascista em uma sala de cinema. O Cinema e o Rádio eram formas de entretenimento muito populares e foram usados pela Ditadura Franquista para fazer a propaganda do regime, que usava e abusava de mentiras para enganar o povo espanhol.

Na prisão, elas também são obrigadas a participar de uma cerimônia onde cantam o hino de exaltação à 'nova' Espanha Franquista e tem que fazer a saudação fascista, mas é claro que isso é feito sem qualquer convicção da parte delas, que permanecem fiéis às suas ideias socialistas. 


As mulheres presas trocavam correspondência com os seus familiares. E as cartas que elas escreveram é que acabaram servido como fonte de informação a respeito da situação delas na prisão, o que permitiu escrever o livro que gerou este ótimo filme. Elas também recebiam visitas de parentes e familiares, mas eles somente podiam conversar por meio de grades que os mantinham afastados. 

Elas acabarão sendo acusadas de participar de um complô para matar o Ditador Francisco Franco, motivo pelo qual serão condenadas e fuziladas, dando origem à história e à lenda das '13 Rosas', que até hoje são anualmente homenageadas em Madrid. 

Elas foram estimuladas a escrever cartas pedindo clemência, mas é claro que isso era apenas uma simulação. Nunca existiu qualquer intenção da Ditadura Franquista de perdoar qualquer uma delas, pois a mesma tinha decidido eliminar fisicamente as pessoas que haviam lutado em defesa do governo da Frente Popular, motivo pelo qual entre 2 e 5 milhões de pessoas foram executadas durante o período da Ditadura de Franco (1939-1975). 

Este é um número absurdamente alto, sob qualquer prisma, pois a população da Espanha em 1940 era de cerca de 27 milhões de habitantes. 
Juan Canepa foi brutalmente torturado pela Polícia. E para não passar nenhuma informação ele preferiu cometer suicídio. 

O número exato de vitimas da Ditadura Franquista nunca será conhecido, pois vários milhões de pessoas foram executadas, mas nunca se fez qualquer tipo de registro a respeito das execuções. Nenhuma outra Ditadura eliminou tantas pessoas no Pós-Guerra na Europa. 


O filme mostra toda a tensão que as 13 jovens viveram nos dias anteriores à sua execução. A execução se deu em 05 de Agosto de 1939, em frente ao muro do Cemitério de Madrid. E na verdade, as '13 Rosas' deveriam ter sido 14, mas uma delas acabou sendo executada alguns meses depois, devido a um erro administrativo. 

Uma das '13 Rosas' (Blanca) era a única que não era ativista do PCE ou da JSU. Mas ela e o marido ajudavam os integrantes destas duas organizações e tinham amizades com os mesmos. Blanca, de fato, votava em partidos de Direita e sempre foi muito católica. Mesmo assim, ela foi executada pela Ditadura de Franco. 

Blanca escreveu uma carta de despedida para o seu filho, e um trecho da mesma diz:

"Meu querido, meu querido filho, nestes últimos momentos sua mãe está pensando em você. Morrerei de cabeça erguida, apenas por ter feito o bem. Você sabe muito bem, Quique. Só lhe peço que seja bom. Ame a todos e não guarde rancor daqueles que mataram seus pais. Jamais. As pessoas boas não guardam rancor. Você deve ser um bom homem, trabalhador. Enrique, nunca deixe apagar a lembrança de seus pais. Tenha certeza que fará a primeira comunhão, bem preparado. Seja guiado pela Religião, como eu fui. Por mim continuaria escrevendo, mas tenho que me despedir dos outros. Meu filho, meu filho... Até a eternidade. Receba depois de muitos beijos, um beijo eterno de sua mãe.".
Julia é levada presa. No caminhão está escrito 'Presos Rojos' (Presos Vermelhos ou Socialistas/Comunistas, é claro). 

Em Janeiro de 2004, Julián Fernández del Pozo escreveu um poema para as 13 Rosas:


"Homenaje a las Trece Rosas"

Madrid se viste de luto,
por trece rosas castizas,
trece vidas se cortaron,
siendo jóvenes, casi niñas.

Malditas sean las almas, 
de sus verdugos fascistas,
que con guadañas de odio, 
segaron sus cortas vidas.

España es vuestra madre, 
su cielo vuestra sonrisa.
sus campos tienen la sangre, 
de unas rosas, casi niñas.

El pueblo de Madrid os quiere,
ese pueblo que abomina,
de salvadores de patrias,
de rojos y de fascistas.

Madrid es patria de todos,
su nombre solo mancillan,
el odio de los caciques, 
cuya razón es la envidia.

Las rosaledas de parques,
de esta, nuestra España chica,
reflejarán vuestras caras,
vuestras sonrisas de niñas.

Benditas seáis mil veces,
benditas vuestras familias,
malditos los asesinos,
que nuestras rosas marchitan.
As 13 jovens sendo levadas para o julgamento. Mesmo sendo inocentes dos crimes pelos quais foram acusadas, elas acabaram sendo condenadas à morte. A maioria delas era menor de idade (tinham menos de 21 anos).

Informações Adicionais:

Título: Las 13 Rosas (As 13 Rosas); 
Diretor: Emílio Martínez Lázaro;
Roteiro: Emílio Martínez Lázaro; Pedro Costa e Ignacio Martínez de Pisón;
Gênero: Drama Político; Duração: 125 minutos;
País de Produção: Espanha; Ano de Produção: 2007;
Música: Roque Baños; Fotografia: José Luis Alcaine;
Elenco: Pilar López de Ayala (Blanca); Verónica Sánchez (Julia); Gabriella Pession (Adelina); Marta Etura (Virtudes); Nadia de Santiago (Carmen); Teresa Hurtado de Ory (Victoria); Bárbara Lennie (Dionisia); Alba Alonso (Ana); Celia Pastor (Martina); Silvia Mir (Carmen B.); Sara Martin (Pilar); María Cotiello (Elena); Miren Ibarguren (Joaquina); Carmen Cabrera (Luisa); Félix Gomes (Perico); Fran Perea (Teo); Enrico Lo Verso (Cánepa); José Manuel Cervino (Jacinto); Alberto Ferreiro (Valentín); Asier Etxeandia (Enrique); Benito Sagredo (Eutimio); Adriano Giannini (Fontenla); Úrsula Murayama (Cubana); Nacho Fernández (Quique García Brisac).
Prêmios: Goya (ano de 2008) de Melhor Fotografia; Melhor Ator Coadjuvante (José Manuel Cervino); Melhor Música Original (Roque Baños); Melhor Figurino (Lena Mossum).
Blanca, a direitista civilizada e católica fervorosa, se despede do filho. Ela não integrava a JSU e nem o PCE, mas ajudava militantes das duas organizações, motivo verdadeiro pelo qual foi executada.

Links:


A história das '13 Rosas Rojas':

http://www.buscameenelciclodelavida.com/2013/08/13-rosas-rojas.html

A Ditadura de Franco e o assassinato das 13 Rosas:

https://luizmuller.com/2015/08/05/5-de-agosto-de-2015-76-anos-do-assassinato-das-13-rosas-pelo-fascista-general-franco/

http://www.mujeresenlahistoria.com/2014/06/las-flores-arrancadas-las-trece-rosas.html

Documentário da TVE (Espanha) sobre as 13 Rosas:

https://www.youtube.com/watch?v=-7ZHSMCI0JI

Poesia em homenagem às 13 Rosas Rojas:

https://racionalizo.wordpress.com/2015/08/05/las-trece-rosas-as-treze-rosas/
As '13 Rosas', um pouco antes da execução. Elas foram condenadas à morte devido ao fato de que a Ditadura Franquista estava determinada a eliminar toda e qualquer oposição ao seu governo, mesmo que isso custasse a vida de milhões de inocentes. E o 'Ocidente Democrático', liderado pelos EUA, ignorava tudo isso, pois Franco era um aliado dos EUA e do Ocidente na época da 'Guerra Fria'. 

A formação da Frente Popular e o início da Guerra Civil Espanhola:


http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/9695/hoje+na+historia+1936++frente+popular+vence+eleicoes+espanholas.shtml

A Guerra Civil Espanhola:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/30062/hoje+na+historia+1936+-+glorioso+movimiento+e+o+golpe+que+deu+inicio+a+guerra+civil+na+espanha.shtml

1937: Guernica é bombardeada:

http://www.dw.com/pt-br/1937-guernica-é-bombardeada/a-800994

1937: Quadro de Picasso, 'Guernica' é exposto pela primeira vez:

http://www.dw.com/pt-br/1937-guernica-de-picasso-é-exposta-pela-primeira-vez/a-591174
'Guernica', o quadro atemporal de Picasso. Quando um oficial nazista lhe perguntou se ele, Picasso, é que havia feito o quadro, o genial pintor espanhol respondeu 'Não. Foram vocês'. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

'También la Lluvia' é um belo filme que mostra a luta vitoriosa do povo boliviano contra a privatização da água! - Marcos Doniseti!

'También la Lluvia' é um belo filme que mostra a luta vitoriosa do povo boliviano contra a privatização da água! - Marcos Doniseti!
'También la Lluvia': Um filme fantástico e imperdível, que mostra a luta vitoriosa do povo boliviano contra a privatização da água, que chegou até a impedir que a população usasse a água da chuva para uso próprio. Até a água da chuva foi privatizada, daí o título em espanhol (castelhano, de fato) 'También la Lluvia' (A Chuva Também). 
'También la Lluvia' é um dos melhores filmes políticos a que já assisti, sem dúvida, até hoje. E ele consegue ser político sem ser chato ou panfletário, muito pelo contrário. 

A trama filme se passa na Bolívia, sendo inteiramente baseado em uma história real, que entrou para a história com o nome de "Guerra da Água'. Esta aconteceu em Cochabamba, durante a época em que o país foi vítima das políticas neoliberais impostas pelos EUA e pelo FMI. 

No filme, vemos uma equipe de produção espanhola que vai até a Bolívia a fim de fazer um filme a respeito da chegada de Cristóvão Colombo à América (1492). O fato de que os índios com os quais Colombo estabeleceu contato eram das Antilhas e não da Bolívia não vem ao caso... 

O diretor do filme é Sebastián (Gael García Bernal) e o produtor do mesmo é Costa. Quando iniciam o trabalho de filmagem eles acabam se relacionando com os bolivianos de forma muito semelhante àquela que Colombo e os espanhóis o fizeram no final do século XV e nos séculos seguintes. 
Iciar Bollain, a diretora do filme 'También la Lluvia', trabalhou no filme 'Terra e Liberdade', de Ken Loach. 

Tal relação era marcada pela exploração da força de trabalho extremamente barata do país, que servia apenas para gerar lucros e riquezas para a Coroa espanhola e para a Burguesia metropolitana. 


Assim, o produtor Costa se gaba pelo fato de que pode contratar bolivianos para trabalhar como extras no filme pela módica quantia de US$ 2 diários. Sua preocupação limita-se a produzir o filme e em recuperar o investimento feito na produção do mesmo, tal como os espanhóis, portugueses e outros europeus que conquistaram e exploraram a América o fizeram por entre 300 e 400 anos. 

Logo, o filme de Iciar Bollain estabelece uma conexão direta entre a exploração colonial que vitimou a Bolívia e a América Latina durante mais de 300 anos e o processo de imposição de políticas neoliberais, que são uma espécie de atualização daquelas políticas coloniais. 

Afinal, a maior parte das empresas estatais (de energia, petróleo, telecomunicações, bancos, etc) e das riquezas naturais (petróleo, terras, minérios) dos países da América Latina foram compradas justamente por empresas multinacionais da Europa e dos EUA. 
Manifestação popular em apoio ao governo revolucionário de Victor Paz Estenssoro (MNR), em 1952, cujo governo promoveu a reforma agrária, nacionalizou importantes setores da economia e concedeu cidadania aos indígenas. 

A Revolução Nacionalista e Reformista de 1952 e o Governo Neoliberal de Paz Estenssoro (1985-1990)!


Como resultado das medidas que foram adotadas pelo governo de Victor Paz Estenssoro e, depois, de Hugo Banzer e Gonzalo S. de Lozada, tivemos um processo por meio qual as políticas neoliberais foram adotadas na Bolívia e que foram impostas por meio de políticas recessivas e repressivas. 

Isso resultou nas privatizações de praticamente todas as empresas públicas bolivianas, incluindo a empresa de abastecimento de água da cidade Cochabamba (SEMAPA), que acabou sendo comprada por uma empresa dos EUA (Bechtel). 

Tais políticas começaram a ser implementadas pelo governo de Estenssoro, um antigo líder político revolucionário que governou o país em quatro oportunidades, embora o seu segundo mandato tenha durado poucos meses (Agosto a Novembro de 1964), pois foi derrubado por um Golpe Militar muito parecido com o brasileiro do mesmo ano. 

Em 1952 ele foi o principal líder de uma Revolução que o transformou no principal líder político radical da América Latina, até que tivemos a Revolução Cubana, da qual emergiram Fidel Castro e Che Guevara como figuras mais populares, influentes e carismáticas do que Estenssoro. 

Estenssoro era o principal líder do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário).
Sebastián (Gael García Bernal) e Costa (Luís Tosar) verificam os bolivianos que desejam trabalhar no filme sobre Colombo. 'También la Lluvia' estabelece uma relação direta entre o antigo Colonialismo espanhol, dos séculos XV ao XIX, com o atual momento de expansão do Capitalismo Neoliberal pelo mundo. 

O governo revolucionário de Estenssoro (1952-1956) nacionalizou as minas de estanho, fez uma significativa reforma agrária e concedeu cidadania aos indígenas bolivianos, que representavam 80% da população. Seu governo contava com o apoio e a participação de forças operárias e de Esquerda, do COB (Central Operária Boliviana) e do trotskista 'Partido Operário Revolucionário'. 


Em 1985, Estenssoro voltou a se eleger Presidente, em um ambiente de profunda crise econômica e social, sendo que a Bolívia era assolada por altíssimas taxas de inflação, uma dívida externa imensa e elevados níveis de pobreza e de miséria. A expectativa, em função do seu passado político, é que Estenssoro adotaria políticas reformistas que beneficiariam a maioria da população. 

Mas não foi isso que aconteceu e no fim Estenssoro acabou adotando um programa econômico neoliberal que jamais teria sido aprovado pelos eleitores caso ele o tivesse defendido durante a campanha eleitoral. 

Assim, ainda antes de tomar posse, Estenssoro decidiu promover a adoção de políticas neoliberais radicais, que foram 'sugeridas' pelo FMI, por economistas neoliberais e pelo governo dos EUA. A ideia era impor uma 'terapia de choque' tão forte na economia que as pessoas ficariam atordoadas com as mudanças e, assim, não conseguiriam resistir à mesma. 
Bolivianos se candidatam a trabalhar como extras no filme sobre Colombo. A exploração da força de trabalho por colonizadores ou investidores externos caracterizam tanto o antigo Colonialismo, quanto o atual Neoliberalismo Global.  

Desta maneira, ele impôs um choque brutal na economia do país: arrocho salarial, abertura para produtos importados, privatizações, aumento de tarifas, fim dos subsídios aos alimentos, liberação dos preços, aumento de 300% no preço do combustível, cortes drásticos dos gastos públicos. 


Com isso, o custo social e econômico das medidas recaiu inteiramente sobre os trabalhadores e os mais pobres. 

Assim, os salários reais chegaram a diminuir 70% e a taxa de desemprego chegou a 30%. A renda dos camponeses bolivianos, em 1987, dois anos após a 'terapia de choque' ter sido adotada, era de US$ 140 anuais. Empregos de tempo integral e com direitos sociais e previdenciários foram substituídos por empregos precários, sem qualquer proteção. 

Tais medidas foram sugeridas por um economista estadunidense chamado Jeffrey Sachs, que sugeriu uma 'terapia de choque' para enterrar a hiperinflação no país (a inflação chegou a 14.000% em 1985), que havia sido gerada, principalmente, pela erradicação das plantações da folha de coca. 
Cena do filme sobre Colombo, mostrando os primeiros contatos entre os colonizadores espanhóis e os nativos 'indígenas'. A intensa exploração da força de trabalho e a promoção de massacres e ou repressão, estão presentes no antigo Colonialismo e no atual Neoliberalismo Globalizado. A violência usada por Paz Estenssoro, quando adotou as políticas neoliberais (em 1985), são um claro exemplo desta conexão. 

Até 1984, a economia da Bolívia era fortemente dependente do negócio da coca, que respondia por grande parte das exportações do país, mas a brutal repressão que o Exército promoveu contra as plantações de folha de coca (devido às pressões e exigências do governo de Ronald Reagan) gerou uma redução de 50% no valor das mesmas.


Isso levou a uma brutal desvalorização da moeda nacional e a uma explosão inflacionária, gerando um processo hiperinflacionário.

Para viabilizar tais medidas da 'terapia de choque', que acabaram sendo muito mais radicais do que o próprio Sachs defendia, Estenssoro manteve em segredo a elaboração das medidas, que eram ignoradas até mesmo pelos líderes do MNR. E para isso, ele também teve que dar as costas aos antigos movimentos sociais (sindicalistas, em especial) que o apoiaram desde a Revolução de 1952, bem como promoveu uma brutal repressão contra os mesmos. 

No fim, a adoção da 'terapia de choque' neoliberal levou a que centenas de milhares de bolivianos se voltassem para a plantação da folha de coca como meio de sobrevivência, apesar da forte repressão do governo à atividade. Em 1987, a exportação de drogas respondia por mais da metade das exportações do país. Foi isso que permitiu que os camponeses e o povo suportassem os efeitos sociais e econômicos brutais da 'terapia de choque'. 
Funcionários da Bechtel (empresa dos EUA) são expulsos por populares, pois queriam fechar os poços que a população havia cavado para poder captar a água da chuva e não depender mais da água fornecida pela empresa, que havia sofrido imensos reajustes. 

E para tornar possível tal 'terapia de choque', o governo de Estenssoro reprimiu brutalmente os movimentos sociais, que haviam promovido o início de uma greve geral e organizado inúmeras manifestações populares. Assim, Estenssoro chegou a decretar 'estado de sítio' e mandou o Exército reprimir as manifestações (qualquer semelhança com o governo de Temer não é mera coincidência). 


Estenssoro também proibiu qualquer manifestação ou passeata, e a Polícia passou a fazer batidas frequentes em universidades, sindicatos, estações de rádio, fábricas, bem como passou a atirar em manifestantes e grevistas. Assim, 1500 manifestantes foram presos, sendo que os 200 líderes sindicais mais importantes do país foram presos e levados para prisões remotas da Amazônia, onde ficaram totalmente isolados. E a libertação dos mesmos foi condicionada à não realização de greves e protestos por parte dos sindicatos. 

O 'estado de sítio' vigorou por 3 meses e, assim, a oposição política foi virtualmente banida na Bolívia que, na prática, virou uma Ditadura. 

O plano neoliberal radical que o governo de Estenssoro impôs à Bolívia mostrou que o mesmo somente poderia vingar se as liberdades democráticas fossem eliminadas e uma Ditadura fosse imposta ao país e seu povo. E assim foi feito. 
Daniel questiona o produtor espanhol (Costa) pelo fato de que o mesmo comemorou o fato de pagar apenas US$ 2 diários aos extras que trabalhavam no filme sobre Colombo. Depois, Costa acabou se desculpando por isso. 

Na década de 1990, um novo governo Neoliberal (de Gonzalo Sanchez de Lozada, que participou da implementação das políticas neoliberais do governo de Estenssoro) aprofundou as políticas favoráveis ao livre-mercado que Estenssoro havia imposto, de forma extremamente autoritária, promovendo a privatização desnacionalizante das principais estatais bolivianas (gás, ferrovias, petróleo, aviação, telecomunicações). 


A Guerra da Água!

A 'Guerra da Água' foi o nome que se deu a uma verdadeira rebelião popular que ocorreu em Cochabamba (terceira maior cidade boliviana, com cerca de 630 mil habitantes, localizada a leste da Cordilheira dos Andes). O conflito se desenvolveu durante todo o ano 2000 em Cochabamba, cidade que passa por um período de inverno extremamente seco. 

Na época, uma empresa multinacional dos EUA (Bechtel) comprou (em 1999) a empresa de tratamento de esgoto e abastecimento de água (SEMAPA). A privatização da empresa foi feita sob pressão do FMI e do Banco Mundial (dois organismos internacionais que são controlados pelos EUA e pela UE). 
Daniel lidera uma manifestação contra a privatização da água em Cochabamba. Sua participação intensa nas manifestações o levará a ser preso (junto com centenas de outros) pela Polícia. Afinal, num país Capitalista o Estado está a serviço dos interesses da Burguesia. 

Logo depois da aquisição da SEMAPA, a Bechtel elevou a tarifa de água em 100%, da noite para o dia. Isso desencadeou uma verdadeira insurreição popular na cidade, ainda mais depois que a empresa começou a tapar os poços que a população da cidade começou a cavar para guardar a água da chuva, pois o miserável povo boliviano não tinha dinheiro suficiente para pagar tão caro pela água.


Com isso, a população da cidade criou um órgão (Coordenador de Águas de Cochabamba) que passou a comandar as manifestações e protestos contra a medida tomada pela empresa dos EUA, que elevou os preços da tarifa de água com a conivência do governo boliviano. 

Gradualmente, as manifestações foram ganhando uma dimensão cada vez maior, mobilizando dezenas de milhares de pessoas, que eram violentamente reprimidas pela Polícia. 

Cochabamba se transformou, assim, em uma verdadeira praça de guerra. Mas a luta do povo da cidade foi mais do que recompensada, pois a empresa multinacional dos EUA (Bechtel) desistiu da concessão (que deveria durar 40 anos) e devolveu a empresa (SEMAPA) para o governo da cidade. 
Equipe de produção do filme sobre Colombo assiste, pela TV, aos conflitos que acontecem em Cochabamba, onde a Polícia reprime violentamente as manifestações populares. 

Logo, foi graças à união e luta povo de Cochabamba que foi possível derrotar aos interesses do Grande Capital, que desejava usar de um bem essencial à vida da população (a água) para lucrar cada vez mais às custas da miséria da imensa maioria da população.


Assim, a água voltou a pertencer à população da cidade.  

O filme sobre Colombo e o documentário sobre o mesmo: Filmes dentro do filme 'También la Lluvia'!

No filme, vemos o gradual e progressivo envolvimento da equipe de produção espanhola com os acontecimentos que ocorriam em Cochabamba, cidade na qual se realizavam as filmagens, que eram comandadas pelo diretor (Sebastián) e pelo produtor (Costa).

No início, a equipe de produção se concentrava apenas na realização do filme, pouco se importando com o que acontecia na cidade. Porém, a contratação de um jovem local (Daniel) para desempenhar um importante no filme acabou mudando toda a situação, pois ele também era um dos principais líderes das manifestações populares. 

Além disso, a jovem Maria, integrante da equipe de produção espanhola, que inicialmente estava fazendo um documentário sobre a realização do filme a respeito da chegada de Colombo, mudou o foco do seu trabalho e passou a filmar as manifestações populares que ocorrem na cidade contra a privatização e desnacionalização da água. 
População de Cochabamba bloqueou as principais ruas e avenidas da cidade. Conflito foi intenso entre Janeiro e Abril do ano 2000, quando finalmente a empresa Bechtel desistiu da concessão. 

Com isso, de forma gradual, os fatos que ocorriam na cidade acabaram afetando a produção do filme, pois a repressão do governo boliviano contra os manifestações foi bastante forte, transformando a cidade em uma verdadeira zona de guerra. Os manifestantes promoviam bloqueios de ruas e avenidas e reuniam um número cada vez maior de pessoas em seus protestos. 


Tudo isso acabou prejudicando a produção do filme, até porque o ator/líder (Daniel) acabou sendo preso pela Polícia. 

Para conseguir que o mesmo participasse de uma cena que era essencial para a realização do filme sobre a chegada de Colombo, o produtor (Costa) subornou o chefe de Polícia da cidade, permitindo que Daniel fosse liberado. Mas o acordo determinava que, após a realização da filmagem, Daniel voltaria a ser preso, o que gerou uma forte discussão entre Sebastián e Costa. 

A equipe de produção do filme sobre Colombo é recebida pelo governante da cidade, que é o responsável pela privatização dos servidos de água e esgoto. O mesmo usa de um discurso de total desprezo pelas manifestações populares, demonstrando claramente que defende os interesses da empresa ianque (Bechtel). 
Repressão policial contra as manifestações populares transformou Cochabamba em uma praça de guerra.

Assim, Sebastián e Costa vão se envolvendo cada vez mais com os acontecimentos e também com a família de Daniel, sendo que a esposa do mesmo (Teresa) pedindo a ajuda dos dois para encontrar a filha deles (Belén) e levá-la para um hospital, pois a garota tinha se ferido gravemente na manifestação.


O produtor (Costa), em especial, acaba se identificando com a luta do povo boliviano contra as medidas que a empresa multinacional havia tomado (aumento de tarifa e controle da água da chuva que caía nos poços) e contra a fortíssima repressão policial que se abateu contra os manifestantes. Logo, Costa irá ajudar Teresa, o que permitirá que esta encontre a filha (Belén) e leve a mesma para o hospital, salvando a vida da jovem.

Os membros da equipe espanhola finalmente conseguem sair da cidade, apesar de todo o caos em que a mesma mergulhara em função dos conflitos. E o produtor Costa recebe um presente de Daniel... um pouco de água.

Como afirmou Daniel no início do filme: Água é Vida!

Fim.
A cidade de Cochabamba, terceira maior da Bolívia, com cerca de 630 mil habitantes, onde tivemos a 'Guerra da Água'. 

Obs1:
O excepcional filme 'También la Lluvia' demonstra, de forma bem clara, o quanto um processo de privatização que atende apenas aos interesses do Grande Capital globalizado é extremamente prejudicial aos interesses da imensa maioria da população, principalmente dos trabalhadores e dos mais pobres. 


Neste sentido, o filme de Iciar Bollain é bastante didático sobre os efeitos da imposição das políticas neoliberais, privatizantes e desnacionalizantes, e deveria ser visto pela população brasileira pois, neste momento, o Brasil passa por um processo de implantação de um projeto Neoliberal e Entreguista (que foi derrotado em 4 eleições presidenciais consecutivas) que possui características semelhantes ao que foi imposto ao povo da cidade de Cochabamba. 

Informações Adicionais:

Título: También la Lluvia (A Chuva Também; Conflito das Águas);
Diretora: Iciar Bollain;
Roteiro: Paul Laverty;
País de Produção: Espanha; Duração: 103 minutos;
Ano de Produção: 2010; Gênero: Drama Político;
Música: Alberto Iglesias; Fotografia: Alex Catalán;
Elenco: Gael García Bernal (Sebastián); Luis Tosar (Costa); Juan Carlos Aduviri (Daniel/Atuey); Karra Elejalde (Antón/Colón); Raul Arévalo (Juan/Montesinos); Carlos Santos (Alberto/Las Casas); Cassandra Ciangherotti (Maria); Milena Soliz (Belén/Panuca); Leónidas Chiri (Teresa); Ezequiel Díaz (Bruno).
Prêmios: Melhor Filme Latino-Americano de 2011 (Ariel Awards, México); 
Festival de Berlim de 2011: Melhor Filme de Ficção da Mostra Panorama);
Goya Awards 2011: Melhor Ator Coadjuvante; Melhor Música Original; Melhor Direção de Produção.


Costa com a água que ganhou de presente de Daniel. 

Links:


Victor Paz Estenssoro:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2001/010607_estensoro.shtml

Água deve ser para os povos e não de empresa, diz líder da 'Guerra da Água':

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40513/agua+deve+ser+para+os+povos+e+nao+de+empresas+diz+lider+da+guerra+de+cochabamba.shtml

A privatização da água em Cochabamba:

https://www.ecodebate.com.br/2010/03/01/cochabamba-guerra-da-agua-completa-10-anos/

O que aconteceu na Bolívia (ano 2000) ocorre de forma ainda mais dura no Brasil:

https://www.brasildefato.com.br/2017/03/24/privatizacao-da-agua-o-que-aconteceu-na-bolivia-ocorre-aqui-com-maior-dureza/

Tese de Mestrado: A Guerra da Água em Cochabamba:

http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/view/3998

Bolívia - Breve histórico do Neoliberalismo:

http://operamundi.uol.com.br/blog/samuel/agora/bolivia-1995-breve-historico-do-neoliberalismo/
Manifestação popular na época da 'Guerra da Água', em Cochabamba.  

Trailer do Filme: