sábado, 9 de setembro de 2017

'A Honra Perdida de Katharina Blum' mostra como a Mídia destrói a vida e a honra de inocentes! - Marcos Doniseti!

'A Honra Perdida de Katharina Blum' mostra como a Mídia destrói a vida e a honra de inocentes! - Marcos Doniseti!
'A Honra Perdida de Katharina Blum': Filme clássico de Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta é um dos mais representativos do 'Novo Cinema Alemão' e desnuda a sordidez e a desonestidade da mídia sensacionalista alemã em plena época da Guerra Fria.  
O Novo Cinema  Alemão!

Este é um dos mais brilhantes filmes já realizados a respeito do sensacionalismo, do caráter manipulador e da desonestidade da Mídia comercial. Ele foi dirigido por dois diretores (Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta) que fizeram parte do chamado 'Novo Cinema Alemão', cuja trajetória se iniciou em 1962, com a divulgação do 'Manifesto de Oberhausen', que lançou o movimento e que foi assinado por 26 jovens cineastas. 


Obs1: Já escrevi e publiquei aqui no blog um outro texto a respeito de tema muito semelhante ao do filme de Schlondorff/Von Trotta, que é 'Sbatti il Mostro in Prima Pagina' (de outro excepcional diretor, o italiano Marco Bellocchio). 

Tal como aconteceu com inúmeros outros movimentos cinematográficos mundo afora (o 'Cinema Novo' brasileiro, por exemplo), o movimento germânico foi muito influenciado pela 'Nouvelle Vague' francesa.

Os signatários do 'Manifesto' se propunham a produzir um novo cinema, criando uma nova linguagem, inovadora e bastante crítica em relação ao cinema comercial que era produzido até então no país mais rico e desenvolvido da Europa, mas cuja qualidade da produção cinematográfica estava muito longe de corresponder a essa riqueza material que a população do país desfrutava. Os filmes produzidos no país eram superficiais e sem qualquer qualidade artística relevante.
Alguns dos signatários do 'Manifesto de Oberhausen', assinado em 1962, que foi o ponto de partida para o desenvolvimento do 'Novo Cinema Alemão'.

O 'Manifesto de Oberhausen' dizia o seguinte:


"Manifesto de Oberhausen"!


"O colapso do cinema convencional alemão há muito tempo impede uma atitude intelectual e o rejeitamos em suas bases econômicas. 


O novo cinema tem, assim, a chance de vir à vida. 


Em anos recentes, curtas-metragens alemães, realizados por jovens autores, diretores e produtores, receberam inúmeros prêmios em festivais e atraíram à atenção de críticos de outros países. 


Esses filmes e o sucesso por eles alcançados demonstram que o futuro do cinema alemão está com aqueles que falam uma nova linguagem cinematográfica. 


Como em outros países, o curta-metragem na Alemanha tornou-se um espaço de aprendizado e uma área de experimentação para o filme de longa-metragem. 


Declaramos que nossa ambição é criar um novo filme de longa-metragem alemão. 


Este novo filme exige liberdade. Liberdade das convenções da realização cinematográfica. Liberdade das influências comerciais. Liberdade da dominação de interesses de grupo. 


Nós temos idéias intelectuais, estruturais e econômicas realistas sobre produção do Cinema Novo Alemão. Nós estamos prontos a correr os riscos econômicos. O velho cinema está morto. Nós acreditamos no novo cinema (Oberhausen, 28 de fevereiro de 1962).".
Rainer W. Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders foram os três grandes nomes que surgiram como resultado do desenvolvimento do 'Novo Cinema Alemão'. Seus filmes ganharam o mundo, sendo premiados em inúmeros festivais internacionais.

Entre os nomes que se tornaram mais conhecidos, nos anos 1970 e 1980, e que assinaram o 'Manifesto', nós tivemos Alexander Kluge e Edgar Reitz. Estes dois, juntos com Peter Schamoni, foram os únicos que assinaram o 'Manifesto' que conseguiram consolidar uma carreira de longo prazo. 


Mas os cineastas alemães que ficaram mais famosos, inclusive internacionalmente, e que também estavam associados a este processo de renovação do Cinema Alemão, mesmo sem que tenham assinado o 'Manifesto', foram Rainer W. Fassbinder, Werner Herzog, Wim Wenders e, em menor grau, Volker Schlondorff e Alexander Kluge.


Muitos dos filmes realizados por tais cineastas receberam inúmeros rêmios internacionais. Em 1966, por exemplo, Alexander Kluge (um dos que assinou o 'Manifesto') ganhou o 'Leão de Ouro' no Festival de Veneza com o filme 'Abschied von Gestern' ('Despedida de Ontem'). 


A realização das obras desta nova geração de cineastas foi possível graças a um esquema de financiamento e de produção independente, o que foi resultado do 'Manifesto'. Assim, foi criado o 'Kuratorium junger deutscher Film' (Comitê do Jovem Cinema Alemão) que viabilizou a produção de 20 longas-metragens em três anos e levou à criação de escolas de Cinema e de Cinematecas por todo o país. 


Desta maneira formou-se um público cada vez mais numeroso destas novas produções. 

Cena em que Ludwig furta um Porsche. Ele é um criminoso comum que a Polícia e a Mídia irão transformar em um revolucionário anarquista extremamente perigoso e violento. 

E também, na década de 1970, o cinema do país se beneficiou com a criação de um esquema de subsídios fornecidos pelo governo da então Alemanha Ocidental. Este criou um fundo de financiamento para o Cinema (Filmförderungsanstalt - FFA), que era financiado com a cobrança de um imposto sobre os ingressos de cinema vendidos no país. 


Além disso, um grupo de cineastas independentes (Wim Wenders e Peter Lilienthal, entre outros) organizou uma empresa que financiava novas produções, que foi a 'Filmverlag der Autoren' (foi criada em Frankfurt, no dia 23/04/1971). 


Com isso, o cinema alemão ganhou um grande impulso, conquistou um público cada vez maior, dentro e fora do país, e passou a ser bastante divulgado no mundo inteiro. 


Apesar do fato de que integravam um mesmo movimento de renovação da linguagem cinematográfica, cada diretor tinha o seu próprio jeito de trabalhar, não existindo uma unidade estética ou temática idêntica. 

Ludwig e Katharina ficaram apenas uma noite juntos, mas isso foi o suficiente para que eles se apaixonassem. Ambos serão vítimas das mentiras e manipulações feitas pela Polícia e pelo 'O Jornal'. 

A respeito disso, Wim Wenders declarou o seguinte: 


"O Novo Cinema Alemão não é uma categoria determinada, como o Neo-Realismo na Itália ou a Nouvelle Vague na França. Não há um estilo uniforme, nem histórias em comum.Tínhamos apenas em comum uma necessidade, a de fazer filmes, de começar de novo com a realização de filmes num país em que esta cultura foi interrompida durante anos. Os autores eram, logo no início, muito diversos, por isso respeitávamo-nos e éramos solidários. Esta solidariedade foi a fonte do Novo Cinema Alemão". 


Então, foi neste contexto que cineastas como os já citados Wenders, Fassbinder, Herzog, Schlondorff, Kluge, von Trotta, Reitz, entre outros, começaram a ter as suas obras exibidas, reconhecidas e premiadas pelo mundo afora. Com isso, os filmes criados por estes talentosos cineastas se tornaram o principal produto cultural de exportação da Alemanha. 


E sobre toda essa efervescência criativa que deu origem ao Novo Cinema Alemão, a crítica e historiadora de Cinema Lotte H. Eisner afirmou o seguinte em seu livro 'A Tela Demoníaca': 


"Herzog, Wim Wenders, Fassbinder, Hauff, Fleischmann, Kluge, Schroeter, Achternbusch e ainda muitos outros me convenceram de que os jovens alemães haviam ultrapassado as manifestações tão verborrágicas de Oberhausen e estavam aptos a fazer filmes interessantes. De onde vinha esse apogeu tão espontâneo? Então compreendi que os alemães sempre precisaram de uma certa exaltação e de um certo desespero que lhes dessem o ímpeto de se tornarem criadores. Isso se passara nos anos 20, quando uma guerra perdida, uma revolução abafada, os esfacelamentos de todos os valores devido a uma inflação inexorável puderam fazer surgir uma arte cinematográfica prodigiosa. (...) Esse mal-estar, o desprezo pelo Witschaftswunder (milagre econômico) artificial de uma sociedade de consumo reacionária e pelo materialismo que dela resulta. Causas bastante confusas, às quais se impõem, além do mais, a decepção que provocou o desvio da revolta de 1968 e criou esta desordem encarniçada, da qual os alemães sempre precisaram para fazer surgir aquele ardor indispensável que os torna criadores".

O comissário Beinzmenne interroga Katharina, no apartamento desta, a respeito do envolvimento dela com o foragido Ludwig. Ela não contará nada para os policiais, protegendo o homem que ama.

O sucesso internacional dos inúmeros filmes produzidos pelos novos cineastas da Alemanha permitiu que eles desfrutassem de uma ampla liberdade criativa. Sobre este assunto a crítica Laura Cánepa escreveu o seguinte:


"Tais condições (produção), em grande parte, refletiam o interesse do Estado em patrocinar filmes com base em um complexo sistema de subsídios e apoio financeiro direto, o que seria enriquecido depois pela parceria com a televisão. Esse sistema, que deu independência econômico em relação às bilheterias, permitiu-lhes trabalhar de maneira bastante pessoal e até idiossincrática, desenvolvendo trabalhos autorais e personas com status de grandes estrelas do cinema". 

'A Honra Perdida de Katharina Blum'!

 'A Honra Perdida de Katharina Blum' é um dos mais significativos filmes realizados na década de 1970 por um cineasta alemão, sendo que o mesmo faz uma dura e implacável crítica ao sensacionalismo de uma Mídia comercial desprovida de qualquer resquício de ética jornalística (ou de qualquer tipo de ética) e cujo único interesse era atrair público (leitores) e aumentar os seus lucros.   


A trama do filme gira em torno de uma jovem alemã (Katharina Blum) que se envolve romanticamente, por apenas uma noite (durante o Carnaval), com um homem (Ludwig Gotten) que é procurado pela Polícia por ter participado em uma série de assaltos a bancos. Ele já é procurado há cerca de um ano. 

A prisão de Katharina se transforma em um grande espetáculo midiático, mudando radicalmente a sua vida, que será exposta ao público de forma desonesta pela Polícia e pela Mídia. As inúmeras mentiras a transformarão em uma pessoa odiada por milhares de pessoas. É como dizia Goebbels: 'Repita uma mentira mil vezes e ela se transformará em uma verdade'. 

O filme não explica se tais atividades criminosas de Ludwig se destinam a financiar atividades políticas ou se ele é um criminoso comum (cabe ao espectador tirar as suas conclusões a respeito). Mas é em função do envolvimento de Katharina com o misterioso Ludwig que ela será investigada e interrogada pela Polícia alemã, que deseja saber em que grau em que ela conhece Ludwig. 


Katharina é uma empregada doméstica, uma cidadã comum, cujos patrões gostam e simpatizam com ela, que leva uma vida relativamente simples e materialmente não muito confortável, sem luxos, de tal maneira que ela tem que fazer um rígido controle do seu orçamento para ter que comprar (financiado) um apartamento e um carro. 


Ela também precisa pegar roupas emprestadas da sua patroa quando precisa participar de eventos sociais que contam com a participação de homens ricos. E o grande medo de Katharina, como ficamos sabendo durante as investigações e interrogatórios a que ela foi submetida pela Polícia, é a solidão na idade madura. 


Katharina também tem uma vida sentimental vazia, embora se relacione eventualmente com um professor universitário (Alois), com quem ela costuma se encontrar na casa de campo do mesmo. Ela tem, inclusive, a posse da chave do local. Ela não é apaixonada por Alois, mas o mesmo não pode ser dito a respeito deste, que assume que ama Katharina, embora seja casado.

Momento em que Katharina é conduzida para a viatura policial. A violência do Estado contra os cidadãos, bem como a violação dos seus direitos e liberdades, é um dos aspectos principais do excelente filme de Schlondorff/von Trotta. 

Katharina sente-se fortemente atraída por Ludwig (que corresponde ao sentimento) durante o curto período de tempo que passou com o mesmo (apenas uma noite), mas desconhece o lado supostamente 'criminoso' ou 'subversivo' dele, não fazendo ideia de que ele seja perseguido pela Polícia por suas atividades ilegais. 


Mas ele é vigiado pela Polícia o tempo inteiro, sendo que ele é filmado, fotografado e perseguido por carros com policiais. Até mesmo um agente policial é infiltrado no grupo de amigos com o qual Ludwig fica no Carnaval. E é neste momento que ele e Katharina irão se conhecer e começarão um breve romance. A atração entre eles é virtualmente imediata. Inclusive, Katharina leva Ludwig para o seu apartamento, onde passam uma noite de amor (que é apenas sugerida). 


Porém, Ludwig acaba confessando para Katharina que ele é perseguido pela Polícia e que precisa escapar do local, o que faz com a ajuda dela, é claro. Assim, quando a força policial chega ao apartamento dela, Ludwig já tinha fugido.  


Mas é a partir daí que a vida de Katharina irá se transformar em um verdadeiro inferno, pois além de ter a sua vida investigada pela Polícia, a mesma será devassada por um desonesto e manipulador jornalista (Werner Totges) que é funcionário de um jornal sensacionalista extremamente popular (chamado apenas de 'O Jornal') que foi baseado no 'Bild Zeitung'.

Os policiais que comandam a operação que resulta na destruição da dignidade e da honra de Katharina Blum e que pouco se importam com as consequências do que fazem. Isso lembra alguma coisa que está acontecendo no Brasil neste momento? 
Obs2: O 'Bild Zeitung' é um jornal alemão de baixo nível que, até o advento da Internet, vendia entre 4 e 5 milhões de exemplares diariamente. O mesmo contava com fotos imensas, textos curtos, fotos de mulheres seminuas e adorava fabricar histórias que atraíam o público, mesmo que elas fossem repletas de mentiras, falsidades e distorções. A ética jornalística passava longe do mesmo. Após o encerramento do filme, nos créditos, vemos um texto que associa claramente 'O Jornal' com o 'Bild Zeitung'. No filme de Schlondorff/von Trotta são denunciados todos os mecanismos pelos quais um jornalista desonesto, anti-ético e imoral (Totges) e um poderoso jornal diário tratam de, literalmente, inventar uma história fictícia, inteiramente falsa, mas que atrai o público e que ajuda a vender milhões de exemplares. 

É um verdadeiro 'Pacto de Sangue' que existe entre um jornal mentiroso e manipulador com os seus leitores, ansiosos por acompanhar a história da 'perigosa prostituta e terrorista' chamada Katharina Blum, que não é nem uma coisa (prostituta) e nem outra (terrorista). 


Para conseguir isso, Totges conta com a íntima colaboração da própria Polícia, cujo chefe da operação (Comissário Beinzmenne) é seu amigo e lhe dá total prioridade na transmissão de informações sobre o caso, colaborando intensamente com o sensacionalismo e a manipulação descarada que Totges e 'O Jornal' praticam.  

No filme, a posição do Policial (Beinzmenne, à direita) é sempre inferior, subserviente, à do jornalista manipulador (Totges), mostrando quem manda em quem. 

A Polícia e Totges também irão atribuir intenções políticas revolucionárias a Ludwig, como se ele fosse integrante de alguma organização extremista, mesmo sem jamais terem interrogado ou entrevistado o mesmo a respeito do assunto ou possuírem qualquer informação que comprove tal suspeita. E 'O Jornal' também dirá aos seus leitores que Katharina tem simpatias políticas esquerdistas, o que era outra mentira deslavada que se divulgava a respeito dela. 


Obs3: É bom ressaltar que o filme foi produzido em 1975, época em que a Alemanha ainda estava dividida em duas: Ocidental (Capitalista, submetida aos interesses dos EUA) e Oriental (Socialista, submetida aos interesses da União Soviética). O 'Bild', no qual o 'O Jornal' do filme foi inspirado, era um virulento jornal anti-comunista, o que influenciava o comportamento e a visão política e social dos seus milhões de leitores.


Assim, Katharina passará a receber mensagens (por carta e telefone) na qual era taxada de comunista, prostituta e outras ofensas de baixo nível, que ela fazia questão de ler, inclusive, embora isso a deixasse horrorizada. 


De certa maneira, essa campanha de desqualificação contra Katharina Blum que o filme mostra é uma política permanente da Grande Mídia comercial de baixo nível. 

Basta ver o que acontece no Brasil, atualmente, onde qualquer acusação falsa contra pessoas públicas, mesmo que totalmente desprovidas de provas, é usada para destruir a honra e a dignidade de inúmeras personalidades públicas. 
Katharina Blum, com uma expressão de preocupação, e um fundo vermelho. Esta é uma cena que lembra, claramente, 'A Fraternidade é Vermelha', de Kieslowski, onde Véronique (interpretada por Irène Jacob) tira uma foto muito semelhante. 

'O Jornal' também divulgará falsas informações a respeito do comportamento sexual de Katharina, mesmo sabendo que ela havia tido uma vida regrada. Totges mente de forma descarada para o 'O Jornal', dizendo que o ex-marido dela lhe havia afirmado que ela o tinha abandonado porque ela vivia de maneira modesta com um humilde trabalhador, sendo que o mesmo jamais teria condições de lhe comprar um Porsche. 


'O Jornal' também distorce completamente as afirmações feitas pelo patrão de Katharina (Hubert Blorna), que a havia elogiado. Em vez de publicar que ela era uma pessoa inteligente e razoável, como ele havia afirmado,'O Jornal' escreve que Hubert disse que ela era uma pessoa fria e calculista, sendo capaz de cometer qualquer crime. 


Assim, Katharina Blum é transformada, pela Polícia, por Totges e pelo 'O Jornal' em uma pessoa gananciosa, egoísta, imoral e que participa de organizações políticas extremistas, subversivas, com cujos integrantes (foragidos e investigados pela Polícia) ela se envolve e aos quais protege. 


Totges e 'O Jornal' também vão atribuir falsas declarações à própria mãe de Katharina e que se encontrava moribunda no hospital, limitando-se a repetir, indefinidamente, a mesma pergunta ('Porque? Porque?). Totges conseguiu entrar, sem autorização, na UTI do hospital e tentou conversar com a mãe de Katharina. Ele não consegue que ela diga coisa alguma, mas inventa uma falsa declaração, na qual a mãe condena as 'atividades' da filha e no qual ela dizia que não poderia esperar outra coisa de Katharina. 

Os patrões de Katharina (Hubert e Trude Blorna) reclamam com o policial (Hach) a respeito das mentiras e manipulações que 'O Jornal' divulga sobre Katharina, mas o agente da Lei ignora o que eles dizem.  

Assim, a Polícia, Totges e 'O Jornal' se unem para destruir a dignidade e a honra de uma trabalhadora comum e que vivia de forma simples, correta e honesta. Ela resistiu o quanto pôde a essa situação infernal em que a Polícia e, principalmente, o pseudo-jornalismo sensacionalista e anti-ético do 'O Jornal/Bild' a submeteu e isso acontece apenas porque contou com a ajuda dos seus patrões (Hubert e Trude Blorna). 


Em determinado momento, Katharina Blum questiona se o Estado nada pode fazer contra as mentiras e manipulações do 'O Jornal'. 
Na verdade o Estado (na figura da Polícia) participa deste processo e se beneficia com o mesmo.

Apesar de toda a perseguição e vigilância que ela sofre, Katharina não resiste e acaba telefonando para Ludwig, o que foi um grave erro, pois o seu telefone estava grampeado. Ela talvez tenha imaginado que vivia em um país liberal-democrático, no qual os direitos das pessoas eram inteiramente respeitados, mas não era bem assim. 


Tanto isso é verdade que quando seus tios foram reclamar com a Polícia a respeito das mentiras do 'O Jornal' sobre Katharina as suas reclamações foram totalmente ignoradas. 

Até mesmo a composição gráfica de 'O Jornal' é muito semelhante a do 'Bild Zeitung', no qual o mesmo foi baseado. Schlondorff/von Trotta deixaram bem claro a quem estavam criticando em seu filme. 

Obs4:
O filme foi realizado em uma época de forte repressão do Estado alemão contra um movimento guerrilheiro, o RAF ('Rote Armee Frtaktion' ou 'Fração do Exército Vermelho'), que teve uma significativa atuação no país durante alguns anos. O grupo foi criado em 1970 e se dissolveu em 1998. Fassbinder fez uma filme sobre o mesmo ('A Terceira Geração'), sobre o qual já escrevi um texto que publiquei aqui no blog. 


O catedrático (Alois) que visitava Katharina e que era apaixonado por ela, chega a pedir a Hubert (seu advogado e patrão dela) que a procure e a convença a tirar Ludwig da sua casa de campo. Ele não pode fazer isso porque provocaria um escândalo, que iria abalar o seu casamento e a sua vida profissional. Mas Hubert e Trude recusam-se a ajudá-lo. 

Apesar disso, a Polícia descobre onde Ludwig está, o que resulta na prisão do mesmo. 


É claro que o final dessa história será trágico, com a Katharina Blum dando o devido troco no canalha disfarçado de jornalista chamado Werner Totges. Com isso, ela também acaba sendo presa. 


No final, vemos um discurso inteiramente hipócrita do editor do 'O Jornal' em defesa da liberdade de imprensa. Liberdade em nome da qual Katharina Blum teve a sua honra e a sua vida destruídas.

Momento em que Katharina finalmente acerta as contas com o mentiroso, hipócrita, manipulador e desonesto 'jornalista' Werner Totges. 

Links:

Os 50 anos do 'Novo Cinema Alemão':

http://www.dw.com/pt-br/novo-cinema-alem%C3%A3o-comemora-50-anos/a-15787565

Novo Cinema Alemão:

http://woomagazine.com.br/historia-do-cinema-cinema-novo-alemao/

Wim Wenders e o Novo Cinema Alemão:

http://portal.anhembi.br/wp-content/uploads/dissertacoes/comunicacao/2008/dissertacao_ricardo_m.pdf 

O "Cinema Novo' brasileiro e suas relações com o 'Novo Cinema Alemão':

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq06019908.htm
O editor do 'O Jornal' faz um discurso, hipócrita e mentiroso, no qual usa da defesa da 'liberdade de imprensa' para justificar as mentiras, falsidades e distorções que a Mídia divulga e que resultam na destruição das vidas de pessoas inocentes. 

Informações Adicionais:


Título: Die Verlorene Ehre der Katharina Blum ('A Honra Perdida de Katharina Blum');

Diretor: Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta;
Roteiro: Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta (baseado em livro de Heinrich Boll);
Ano de Produção: 1975; País de Produção: Alemanha;
Duração: 106 minutos; Gênero: Drama Político;
Música: Hans Werner Heinze; Fotografia: Jost Vacano;
Elenco: Angela Winkler (Katharina Blum); Dieter Laser (Werner Totges); Mario Adorf (Comissário Beinzmenne); Jurgen Prochnow (Ludwig Gotten); Heinz Bennent (Hubert Blorna); Hannelore Hoger (Trude Blorna); Rolf Becker (Hach); Harald Kulmann (Moeding); Karl Heinz Vosgerau (Alois Straubleder); 
Prêmios: Volker Schlondorff (Festival de San Sebastian de 1975).

Trecho do Filme: 

sábado, 2 de setembro de 2017

'Não Amarás' - Kieslowski: A punição do 'pecado' por meio de uma bela, sensível e trágica história de amor! - Marcos Doniseti!

'Não Amarás' - Kieslowski: A punição do 'pecado' por meio de uma bela, sensível e trágica história de amor! - Marcos Doniseti!
'Não Amarás' recebeu vários prêmios internacionais e, junto com o 'Decálogo' e 'Não Matarás', tornou Kieslowski um cineasta respeitado e reconhecido no mundo inteiro. 

Kieslowski foi um dos principais e mais importantes cineastas europeus e da história do Cinema mundial. 
Já escrevi e publiquei vários textos a respeito de alguns dos seus principais filmes ('Sorte Cega', 'Sem Fim', 'A Dupla Vida de Véronique') e volto a fazer isso, sendo que agora escrevo sobre um dos seus mais belos filmes: 'Não Amarás'. 

Este filme é derivado de uma produção feita para a TV polonesa em 1988/89, que foi a monumental 'Decálogo', que tinha nos Dez Mandamentos bíblicos o seu ponto de partida. Kieslowski dirigiu dez médias-metragens, sendo que cada um deles era inspirado em um Mandamento. 'Não Amarás' é derivado do sexto mandamento ('Não Cometerás Adultério'). 

Os dez filmes tinham cerca de 58/60 minutos de duração cada um e neles o genial Kieslowski procurava refletir sobre a condição humana no mundo moderno, mostrando situações nas quais ficava evidente o quanto é difícil para as pessoas viver de acordo com os princípios e valores que os Dez Mandamentos determinam. 
'A Liberdade é Azul'? Não... É 'Não Amarás'. Kieslowski usava dos mesmos elementos em vários filmes, mas em contextos diferentes e com significados distintos. 

Foi graças ao sucesso e imensa repercussão internacional do 'Decálogo' que o incansável Kieslowski foi convidado para trabalhar na França, associando-se ao produtor franco-romeno Marin Karmitz (proprietário da produtora MK2), que passou a financiar e a produzir os filmes do genial cineasta polonês. Na França, Kieslowski dirigiu os clássicos imortais 'A Dupla Vida de Véronique' e a 'Trilogia das Cores' (‘Blue’, ‘Blanc’ e ‘Rouge’). 


E dois médias-metragens do 'Decálogo' foram transformados em longas-metragens por Kieslowski, dando origem a este 'Não Amarás' e ao também excepcional 'Não Matarás' (sobre a pena de morte). 

Ambos os longas foram lançados, inclusive, antes da exibição do 'Decálogo' na TV polonesa e conquistaram vários prêmios internacionais. 

No caso de 'Não Amarás', Kieslowski alterou o final quando decidiu realizar este longa-metragem e isso foi feito a pedido da atriz que interpreta Magda, que desejava um final um pouco mais otimista para o filme. Pessoalmente, gosto mais do final do filme feito para o Cinema do que daquele que ele escolheu para a sua versão televisiva. 
O solitário e tímido Tomek furta a luneta que usará para espionar Magda. Assim, apesar do seu amor por Magda ser caracterizado pela pureza e pela idealização da mesma, Tomek também comete alguns pecados em nome deste sentimento (ele violou o sétimo mandamento: 'Não Furtar') e também será punido por isso. 

Entendo que o final feito para o Cinema tem mais a 'cara' das produções deste fantástico cineasta polonês, embora o próprio Kieslowski imaginasse sempre muitos finais distintos para as suas produções. Este era um dos principais motivos pelos quais ele participava de todo o processo de montagem do filme, pois Kieslowski nunca sabia, de antemão, qual o final que iria escolher. 


As histórias dos dez episódios do 'Decálogo' se passam todas em um complexo de edifícios de apartamentos de Varsóvia, sendo que os protagonistas dos filmes feitos para a TV polonesa sempre acabavam fazendo pequenas aparições em outros episódios. 

O cenário deste belíssimo 'Não Amarás' é o mesmo local do 'Decálogo'. A diferença entre as duas produções é que o longa-metragem tem aproximadamente 25 minutos de duração a mais do que o filme feito para a TV.

A trama do filme gira em torno de um jovem (Tomek, com 19 anos), que trabalha nos Correios, e de uma bela e madura mulher (Magda), por quem Tomek desenvolve um amor intenso. 
Tomek trabalhando na agência dos Correios. Ao fundo vemos um quadro de uma mulher que se parece com um anjo e que lembra Magda, que é objeto do amor (puro e idealizado) do jovem tímido. Ele mandava falsos avisos para Magda apenas para ter a chance de vê-la tão próxima.

A primeira cena do filme já é uma antecipação do final, mostrando um braço enfaixado e uma mão tentando tocar no mesmo, mas sendo impedida por outra mão. 


Não vemos, porém, a quem pertencem as duas mãos e vemos que o braço é de um jovem (Tomek).

Tomek sempre coloca o relógio para despertar as 20hs30, pois este é o horário em que Magda chega ao seu apartamento, que se localiza em um prédio frontal àquele em que Tomek reside. O jovem funcionário dos Correios fica todas as noites observando Magda, com o uso de uma luneta, que ele roubou de uma loja. 

No momento do roubo, inclusive, vemos que Tomek quebrou o vidro de uma loja e os pequenos pedaços do mesmo eram todos azuis. Em 'Blue' ('A Liberdade é Azul') a protagonista (Julie Vignon, interpretada por Juliete Binoche) tem um lustre no mesmo tom de azul, sendo que o mesmo é a única peça da sua vida passada (anterior ao acidente) que ela preservou. Kieslowski fazia muito isso em suas obras, usando de elementos que já haviam aparecido em filmes anteriores, mas usando-os em outro contexto e com significados diferentes. 
Nos Correios, Tomek admira a mulher que tanto ama, mas de quem não tem coragem de se aproximar. Ele procura, de várias maneiras, chamar a atenção da sua bela vizinha.  

Anteriormente, era o seu amigo (Marcin), que foi para a Síria, quem espionava a bela mulher, com o uso de binóculos, sendo que o mesmo fez isso durante um ano. 
Tomek vive com a mãe do amigo, que gosta dele, pois assim ela não fica sozinha, já que o filho nunca fica muito tempo por ali e está sempre viajando para outros países. 

Em outro momento, a mãe de Marcin pergunta para Tomek se ele já se envolveu com alguma mulher e ele diz que não. Ela fala que embora as meninas beijem qualquer um o que elas gostam mesmo é de um homem que as trate com carinho. 

Tomek nota que Magda é uma mulher que não se prende a um único homem e que sempre recebe vários amantes em seu apartamento, o que o deixa com ciúmes e o faz sofrer. Para evitar que ela tenha relações sexuais com um destes homens, ele avisa aos funcionários da companhia de gás que há um vazamento no local, o que estraga a noite de prazer de Magda. 

Ele também tem o hábito de telefonar para Magda, mas sem dizer nada, o que a deixa irritada. 
O apartamento em que Tomek mora é branco. A cor branca representa o caráter puro, honesto e idealizado do amor que sente por Magda, que vive na luxúria e no pecado.  

Apesar do forte sentimento que tem por Magda, o tímido Tomek não tem coragem de se aproximar dela a fim de revelar o que sente e prefere usar de algumas estratégias para ver se a bela Magda começa a notar o seu interesse. 


Tomek tenta atrair a atenção de Magda, por exemplo, enviando falsos avisos dos Correios de que ela teria dinheiro para receber. Daí, ela vai até o posto de atendimento do Correio e não tem nada. Ele também passa a entregar o leite (branco e puro, que simboliza o seu amor por ela) para a vizinhança, a fim de poder vê-la todos os dias. 

É interessante notar o uso das cores por parte de Kieslowski neste belíssimo filme, principalmente o branco e o vermelho. A cor branca representa o amor puro, enquanto que a cor vermelha representa uma vida desprovida de sentimentos, libertina, marcada pelo 'pecado', para usar uma terminologia cristã. E também é bom ressaltar que branco e vermelho são as cores da bandeira da Polônia. 

O leite derramado (branco...) passa a ter um importante significado no filme, tal como acontece quando Magda rompe um relacionamento e chora em função disso, derramando o leite sobre a mesa. Ela literalmente chora sobre o leite derramado, ou seja, em função do relacionamento que fracassou. 
No apartamento de Magda predomina a cor vermelha, que representa a vida sexual livre e descompromissada (libertina) que ela tem, ou seja, uma vida de luxúria e pecado, o que a separa e a diferencia radicalmente da vida casta que Tomek leva. No cinema de Kieslowski as janelas, vidros e esferas delimitam uma separação entre realidades distintas (como as de Magda e Tomek). Esse aspecto do seu Cinema também estará presente nos filmes da sua fase francesa. 

Enquanto isso, o pano que Tomek usa para cobrir a sua luneta é vermelho, pois ele o utiliza para ver Magda se relacionando sexualmente com outros homens (sobre um lençol vermelho...), momento este em que ela estaria 'pecando'. E o telefone de Magda também é vermelho. Como se percebe a cor vermelha está muito presente no apartamento dela e simboliza a vida sexualmente livre que ela desfruta. 
 

Depois que viu Magda chorando, Tomek perguntou para a mãe de Marcin porque as pessoas choram e ela diz que elas fazem isso porque estão sofrendo e porque não conseguem suportar a vida. Tomek pergunta o que se pode fazer para tolerar isso e ela diz, com outras palavras, que uma dor mais forte faz esquecer a outra, mais fraca. 

Depois disso, Tomek passa a usar uma faca e a colocar a mesma entre os dedos da mão, de forma cada vez mais rápida, até que acaba se cortando. Assim, ele colocou em prática o ensinamento da mãe de Marcin, para ver se a dor gerada pelo corte o faria sofrer menos em função do seu amor frustrado por Magda. 

Nota-se que ele fez isso usando do pano vermelho, pois é o comportamento 'libertino' e ‘pecaminoso’ de Magda que o faz sofrer daquela maneira. 
Momento em que Tomek diz para Magda que a ama. Ao fundo vemos a cor vermelha (de Magda) envolvendo a cor branca (de Tomek), representando a incompatibilidade entre eles, pois enquanto Tomek fala de um amor puro e sincero (de caráter nobre e mais espiritual e que abre mão até do sexo), Magda está voltada apenas para relacionamentos vazios e desprovidos de sentimentos, que buscam apenas o prazer sexual (de natureza puramente carnal). 

Quando Tomek enviou o falso aviso de dinheiro para Magda pela segunda vez isso acabou gerando uma grande confusão, pois ela quis conversar com a gerente em função do ocorrido e foi acusada de querer roubar dinheiro dos outros, deixando-a indignada. 


Com isso, ele sai correndo atrás dela e confessa que foi ele que enviou os falsos avisos e que costuma observá-la todas as noites, dizendo ainda que na noite anterior ela havia chorado. Magda reage de maneira indignada, chamando-o de tarado, mas ela fica confusa e não consegue entender a razão daquele comportamento de Tomek, que fica arrasado com a reação da mulher que ama.

E naquela mesma noite ela decide preparar uma vingança, convidando um dos seus amantes para ir até o seu apartamento, a fim de ter relações sexuais com o mesmo, com o objetivo de fazer Tomek sofrer com isso. E a cama em Magda irá se relacionar sexualmente tem um lençol vermelho por cima. 

O homem, ao ser avisado por Magda que era observado, vai até o edifício de Tomek, que sai à rua e é agredido pelo mesmo. 
O 'Anjo Branco' (personagem do 'Decálogo') faz uma expressão triste quando vê Tomek feliz porque irá se encontrar com Magda. Ele sabe que os acontecimentos futuros serão trágicos para o jovem e casto voyeur. Assim, Kieslowski mostra que tem 'alguma coisa lá em cima' (um mundo espiritual) e que o Tempo não é cronológico e nem linear. Tais elementos também estarão presentes em 'A Dupla Vida de Véronique' e na belíssima 'Trilogia das Cores'. 

Mesmo assim, na manhã seguinte, Tomek vai entregar o leite (ou seja, o seu amor, marcado pela pureza) para Magda e a mesma o convida para entrar, mas ele se recusa. Quando é questionado por Magda, Tomek confessa que a ama, mas ao mesmo tempo ele diz que não quer nada com ela (nem sair ou tampouco beijá-la ou fazer amor com ela), o que a deixa confusa. 


O amor de Tomek por Magda é puro, tanto quanto o leite que entrega todas as manhãs, e isso algo que ela ainda não consegue compreender. Ela o vê como sendo muito semelhante aos outros homens, que a desejam apenas para ter relações sexuais rápidas, vazias e desprovidas de sentimentos.  

E talvez o jovem Tomek evite uma aproximação maior, em um primeiro momento, porque provavelmente teme que o objeto do seu amor, a bela Magda, a mulher que ele idealiza e com a qual sonha todas as noites, não seja merecedora do sentimento que nutre por ela. 

Obs1: Na porta do apartamento de Magda é possível ver as cores azul, branca e vermelha, que são as cores da bandeira da França, país em que Kieslowski foi trabalhar depois que produziu o fantástico 'Decálogo'. Coincidência?
Na grande e moderna cidade (Varsóvia) o jovem e casto Tomek tem uma existência marcada pela tristeza, melancolia e solidão. No 'Decálogo', Kieslowski mostra como o ser humano tem imensas dificuldades para viver de acordo com princípios e valores morais mais rígidos, como aqueles estipulados pelos Dez Mandamentos. 

Depois de muito refletir (e sofrer também...), Tomek decide convidar Magda para sair e ela aceita, o que o deixa imensamente feliz. Ele sai correndo com o carrinho de leite, momento no qual cruza com um homem inteiramente vestido de branco, que é um personagem sem nome que apareceu em 9 dos 10 filmes do 'Decálogo'. Ele é uma espécie de Anjo, que nada diz e apenas observa os acontecimentos. As expressões (de tristeza e melancolia) que ele faz antecipam os acontecimentos que irão afetar o apaixonado Tomek. 


No encontro Tomek diz para Magda que a ama, mas ela fala que isso não existe. Ela também comenta sobre os casos que teve com outros homens. 

Tomek mostra as cartas de um ex-amante de Magda, que ele confiscou, impedindo que ela as recebesse, e que foram enviadas da Austrália. Tomek diz que simpatizava com este antigo amante e ela diz que também gostava do mesmo, mas que agora isso não importa mais. 

Assim, ela demonstra toda a sua frieza com relação ao fato, pois não havia sentimentos mais fortes envolvidos neste seu relacionamento anterior, tal como acontecia com todos os seus relacionamentos, que eram caracterizados apenas pela busca do prazer sexual. Para ela esse amante havia sido apenas mais um entre tantos outros. 
Magda toca o leite que derramou sobre a mesa. Será a partir deste momento que ela e Tomek começarão a se aproximar. Assim, a sua vida de luxúria e pecado, que não lhe trás nenhuma felicidade e pela qual ela será punida, começará a mudar radicalmente a partir do momento em que entrará em contato com o amor puro que Tomek sente por ela. E o jovem tímido também mudará radicalmente em função deste relacionamento. 

Magda demonstra surpresa com as atitudes de Tomek em relação a ela: confisco das cartas, envio de falsos avisos, espionagem com a luneta, entrega do leite. Isso comprova que ela nunca teve alguém que realmente a tivesse amado de verdade. Os homens se envolviam com ela apenas pelo prazer sexual e ela agia de maneira semelhante com os mesmos. 


Tomek também demonstra a sua total inexperiência com mulheres, confessando para Magda que nunca havia se envolvido com nenhuma. Ela mostra um casal em outra mesa, onde o namorado acaricia a mão da garota, como uma maneira de mostrar para ele como o jovem deveria agir no encontro.

Eles saem do café. O ônibus está parado no ponto. Ela diz que se conseguirem entrar no mesmo então os dois irão para o apartamento dela. Eles não conseguem entrar no ônibus, mas vão para o apartamento dela mesmo assim. No local, ela começa a seduzir Tomek, colocando as mãos deste em suas coxas. Tomek fica excitado e, mesmo usando calça, ele goza... Daí ela lhe diz que ‘Isso é o Amor’. 

É como se ela tivesse desferido uma bofetada em Tomek, que fica horrorizado com o que ela falou e sai correndo do local. A vida de liberal e 'pecaminosa' de Magda, bem como a sua postura de total indiferença em relação ao sentimento puro de amor que Tomek nutria por ela, entrou em conflito com os sentimentos do jovem casto e que a idealiza. 
O encontro entre Magda e Tomek, no qual ela lhe disse que o Amor não existe. Em função disso ela vive de forma livre, descompromissada, passando de um relacionamento vazio a outro. Mas ela pagará um preço por isso.  

Outra forma de mostrar esses mundos e sentimentos opostos que Tomek e Magda representam é que enquanto ele toma café quando espiona Magda, esta prefere o leite. Café-com-Leite são muito diferentes ('opostos') mas também se complementam. Mas nem sempre eles se misturam. Além disso, enquanto o quarto de Tomek está sempre imerso na escuridão, o apartamento de Magda está sempre iluminado. 


Assim, temos várias dualidades presentes neste belo, sensível e poético filme do genial Kieslowski: 

- escuridão/claridade; 
- cores branca/vermelha; 
- café/leite; 
- vida casta/vida de luxúria;
- amor puro/prazer sexual. 

Depois dessa imensa decepção que sofreu, Tomek chega ao seu apartamento e toma uma decisão radical, que é a de cometer suicídio, cortando os pulsos. Afinal, como disse a mãe de Marcin, somente uma dor mais forte pode fazer esquecer outra dor. E a decepção de Tomek com Magda, com todo o sofrimento que ela provocou, somente poderá ser curada por meio da sua morte. 

O sangue de Tomek (vermelho, é claro, a cor dos ‘pecados’ cometidos por Magda), escorre por uma bacia (branca, a cor que representa o amor puro de Tomek por Magda). Esta é a maneira pela qual ele procura se livrar da impureza, que é representada pela atitude de Magda, para quem o amor não existe e tudo se resume ao sexo. 

Em seu apartamento, Magda vê uma ambulância que leva o jovem Tomek para o hospital. Ela vai até o apartamento onde Tomek residia, levando o casaco que ele esquecera, para conversar com a mãe de Marcin, mas esta não a recebe muito bem, pois culpa Magda pelo que aconteceu a Tomek. 
'Isso é o Amor' diz Magda, para um Tomek que fica decepcionado quando descobre que a mulher que ele tanto ama não existe, sendo apenas uma libertina, pecadora e que se relaciona de maneira fria e vazia com os homens.

E Marcin diz para Magda que Tomek está no hospital, de onde sairá em duas semanas, mas fala que não é uma boa ideia que Magda vá visitar o mesmo. Porém, quando encontra o carteiro, Magda fica sabendo da verdade, ou seja, que Tomek tentou cometer suicídio devido ao fato de ter sofrido uma grande decepção amorosa. 

E é claro que ela sabe que é a responsável pelo que aconteceu. 

Com isso, Magda passa a se comportar de maneira semelhante à de Tomek, anteriormente, quando o mesmo a amava intensamente, invertendo os papéis. Ela espiona o apartamento dele e vai até os Correios verificar se Tomek já voltou a trabalhar, tentando encontrá-lo. 

Magda também vai até o apartamento da mãe de Marcin, a quem pergunta se ele já voltou do hospital. 

Quando ela vê que Tomek voltou, ela é autorizada a entrar no apartamento e vê o jovem deitado, dormindo, com o braço enfaixado. Ela tenta tocar o braço do jovem, mas a mãe de Marcin não permite que isso aconteça (é a cena de abertura do filme se repetindo...). 
Magda, triste e solitária, ao lado de um vidro com manchas vermelhas (a cor dos pecados que ela cometeu), que a separam do exterior (branco, a cor do amor de Tomek). Logo, ela é punida por seus pecados (uma vida de prazer e luxúria que é representada pela cor vermelha), que agora a impedem de ter contato com o mundo externo (branco e puro), ou seja, com o amor de Tomek. 

Magda usa a luneta de Tomek e observa o seu próprio apartamento e imagina e visualiza uma cena em que ela chora por Tomek, com o leite derramado sobre a mesa, enquanto ele aparece e a toca, como que a perdoando pelo que havia feito com ele anteriormente. 


Agora, Magda o ama tanto quanto ele a amou e deseja ficar junto de Tomek. 

Mas o leite já foi derramado...

Obs2: Como se percebe, Kieslowski não dá um final propriamente dito para o filme, deixando o mesmo em aberto, para que as pessoas construam o seu próprio final. Esta foi uma atitude que também foi adotada, posteriormente, pelo produtor Chris Carter na série ‘The X-Files’, na qual os episódios também terminavam sem que tivessem um final. No início, os executivos da Fox (que produz e exibe a série nos EUA) reclamavam muito  com C.Carter em função disso, mas depois eles perceberam que o mistério ajudou a série a se tornar um grande sucesso e nunca mais reclamaram. Será que Chris Carter foi influenciado por Kieslowski? 
A bela cena em que Magda (a pecadora) imagina que Tomek (o casto) poderá perdoá-la pela maneira que agiu com ele. E Kieslowski deixa em aberto se isso será possível ou não. E tal como ocorreu em outros filmes dele o final é levemente otimista. 
Obs3: A bela e triste trilha sonora, de autoria de Zbgniew Priesner, é outro destaque deste fabuloso filme de Kieslowski.

Informações Adicionais:


Título: Krótki film o Milosci ('Uma Breve História de Amor' ou 'Não Amarás');
Diretor: Krzysztof Kieslowski;
Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz; 
Ano de Produção: 1988; País de Produção: Polônia;
Duração: 83 minutos; Gênero: Drama; Romance;
Fotografia: Witold Adamek; Música: Zbigniew Preisner; 
Elenco: Grazyna Szapolowska (Magda); Olaf Lubaszenko (Tomek); Stefania Iwinska (Mãe de Marcin); Piotr Machalica (Roman); Artur Barcis (Anjo de Branco);
Prêmios: Melhor Filme no Festival Internacional de Chicado em 1989; 
Prêmio Especial do Júri no Festival de San Sebastian de 1988 (Espanha). 

Informações sobre o Filme:

http://www.imdb.com/title/tt0095467/?ref_=nv_sr_4

Trecho do Filme: