sexta-feira, 3 de março de 2017

"Europa '51" - Rossellini mistura marxismo e cristianismo para defender a criação de uma sociedade justa e igualitária! - Marcos Doniseti!

"Europa '51" - Rossellini mistura marxismo e cristianismo para defender a criação de uma sociedade justa e igualitária! - Marcos Doniseti!
Ingrid Bergman estrela o clássico 'Europe 51', de Roberto Rossellini. Sua brilhante atuação foi reconhecida, recebendo vários prêmios importantes pela mesma.  

Roberto Rossellini foi um dos mais importantes cineastas italianos, tendo realizado vários clássicos do Cinema ('Alemanha, Ano Zero', 'Stromboli, 'Roma, Cidade Aberta'). 


"Europa '51" é mais um da lista de grandes filmes de autoria de Rossellini, no qual ele dirigiu a bela e talentosa sueca Ingrid Bergman, com a qual ele era casado (que gerou a também bonita e talentosa atriz Isabella Rossellini). 

Grande parte dos cineastas italianos do Pós-Guerra eram, de alguma, ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), mas Rossellini não era um deles. 

Embora ele tenha sido, junto com outros importantes cineastas (Luchino Visconti, Giuseppe De Santis), um dos criadores do Neo-Realismo italiano, Rossellini nunca foi filiado ou ligado, de alguma maneira, ao PCI, embora nutrisse (como se percebe por este "Europa '51") ideais socialistas, mas que eram inspirados no Cristianismo. Inclusive, antes deste filme, Rossellini havia dirigido um filme a respeito da vida de São Francisco de Assis, um cristão que dedicou a sua vida a ajudar aos mais pobres. 

Percebe-se a presença, no filme, de muitos elementos do Neo-Realismo, pois o mesmo mostra as imensas desigualdades sociais, a pobreza e a miséria que ainda persistiam na Itália do início da década de 1950. 
Durante a Guerra, Irene e Michel estiveram muito próximos. Mas após o final da mesma, a mãe se afastou do filho, que sofreu muito com isso. Entre outros cineastas importantes, ela trabalhou com Hitchcock, Rossellini, Jean Renoir e Ingmar Bergman.

A época de maior crescimento econômico da Itália (o chamado 'Milagre Econômico') iria se desenrolar a partir do final da década de 1950, principalmente nos anos 1960, quando toda a economia europeia e mundial cresceu rapidamente. 


A trama do filme se desenvolve em torno da bela esposa de um embaixador, Irene (de origem sueca), que vive no luxo e na riqueza, preocupando-se muito mais com os jantares e recepções dos amigos ricos dela e do marido do que em dar atenção ao filho (Michel), que ainda é uma criança.

Durante a Segunda Guerra Mundial ela viveu, junto com o filho, na Inglaterra, enquanto o marido (George) se dedicou a lutar no conflito. 

Com isso, Irene e Michel desenvolveram uma relação muito próxima, fazendo com que o garoto se tornasse muito dependente da presença da mãe.

Porém, após o fim da guerra, George foi enviado para a Itália, como embaixador, e a vida de jantares e recepções fez com que ela deixasse de dar a mesma atenção para Michel, que fazia de tudo para chamar a atenção da mãe. Mas isso não funcionou e, desesperado, o garoto acabou por se jogar da escada, provocando a própria morte. 

Irene fica desolada com o fato e recusa-se a sair da cama ou mesmo a se alimentar corretamente. Um dos seus melhores amigos (Andrea, um jornalista que é um simpatizante do PCI e que sempre foi apaixonado por Irene) tenta ajudá-la, pois ela demonstra não ter mais vontade alguma de continuar vivendo.
George tenta ajudar Irene, após a morte do filho, mas ela não demonstra mais vontade alguma de viver.

Andrea tenta amenizar o sofrimento de Irene e fala para ela que a morte de Michel foi provocada pelos horrores da sociedade, pelo medo, pelos bombardeios, enfimn, pela Guerra. Neste mesma conversa que tem com Irene, Andrea comenta a respeito de uma família muito pobre que possui um filho doente, mas que não tem o dinheiro necessário para comprar o remédio para o menino. 


Irene, que havia acabado de perder um filho, se propõe a comprar o remédio para o menino (Bruno) e ela fica bastante emocionada pela maneira bonita com que a família do garoto agradeceu pela ajuda dela. 

Desta maneira, Irene descobre um motivo para continuar vivendo, ou seja, ela passa a se dedicar a ajudar aos pobres e miseráveis italianos, que vivem na periferia de Roma, em condições muito precárias, amontoando-se muitas vezes em um único comodo, vivendo em verdadeiros cortiços. 

Eles até possuem acesso a energia e água, mas muitos são desempregados, outros vivem de trabalhos temporários e mal remunerados e, é claro, alguns deles apelam para a delinquência ou para a prostituição como um meio de sobreviver.

Irene passa a viver em função disso, de ajudar as pessoas mais necessitadas, mal permanecendo dentro de sua casa. Ela nem se preocupa mais com os jantares, recepções, idas ao teatro, dos quais tanto gostava anteriormente, sendo que mal dava atenção ao filho em função disso. 
Irene não dá mais atenção para o filho, preocupando-se mais com os jantares e idas ao teatro. Depois, ela reconhecerá que tinha sido egoísta e mesquinha. 

Ela reconhece, inclusive, que antigamente ela era mesquinha e egoísta. Irene diz para Andrea que não entende o motivo dos miseráveis se conformarem com a sua situação e ele responde que o dever de pessoas como eles (mais esclarecidas) seria justamente o de acordá-los, de dar-lhes uma consciência. Ou uma esperança, diz Irene, ao que Andrea responde 'consciência, consciência'. 


Essa ideia de que seria possível 'dar uma consciência' para os mais pobres que se conformam, aparentemente, com a sua situação não deixa de ser objeto de crítica, mas essa era a visão de muitos revolucionários ou comunistas naquela época. Andrea chega a emprestar livros e jornais esquerdistas para Irene. 

Inclusive, Irene é questionada pela própria mãe a respeito disso, que a adverte de que os comunistas foram todos presos nos EUA, o que é uma clara referência ao Macarthismo que vigorava no país naquela época. Irene diz que a mãe não deveria se preocupar, pois ela está apenas procurando por 'alguma coisa', ou seja, por algo que lhe proporcione vontade de continuar vivendo. 

Obs1: Esta afirmação da mãe de Irene é uma referência a respeito do senador Joseph McCarthy, que foi um notório anti-comunista histérico que comandou uma comissão no Congresso dos EUA e que perseguia todas as pessoas que defendiam ideias progressistas. Até mesmo Charles Chaplin foi perseguido, o que o levou a ir embora do país. McCarthy caiu em desgraça quando acusou funcionários do Pentágono e do Departamento de Estado de serem comunistas. Com isso, a sua comissão foi encerrada e ele acabou esquecido e morreu no ostracismo, alguns anos depois.
Andrea, um simpatizante do PCI, e que sempre foi apaixonado por Irene, procura ajudá-la e vai ser o responsável por fazer com que ela se interesse em ajudar aos pobres e miseráveis italianos. Andrea defende a construção de um paraíso terreno, no qual os trabalhadores sejam livres, mas para Irene isso é insuficiente, pois ela quer um paraíso que inclua a todos, vivos e mortos, pois somente assim o filho que ela perdeu (Michel) participará do mesmo. 

É claro que George também não gostou dessa abrupta mudança de comportamento por parte da sua bela, inteligente e elegante esposa e passa a suspeitar que Irene possa estar tendo um caso com Andrea, que embora seja um amigo da família, não é bem visto por ser um comunista. 


Obs2: Em vários momentos do filme fala-se na possibilidade de estourar uma guerra e que Irene poderia ser enviada para um campo de concentração em função disso. Isso é uma referência à 'Guerra Fria' entre EUA e URSS, que começou em 1947. Ela gerou a divisão da Alemanha em dois países (Ocidental e Oriental) e a divisão da Europa em dois blocos (capitalista, liderado pelos EUA; socialista, liderado pela URSS). Com a Guerra Fria também tivemos a criação da OTAN e do Pacto de Varsóvia. 

Em uma conversa com Andrea, Irene comenta que ajudou uma família que era liderada por uma mulher que possuía três filhos próprios e outros três que ela adotou. Irene conseguiu um emprego para ela, mas no primeiro dia ela não foi trabalhar e Irene a substituiu. Essa experiência deixou Irene chocada, pois as condições de trabalho dos operários eram muito ruins. 

O ambiente da fábrica era muito barulhento e o trabalho era bastante perigoso. Com isso, ela pôde ter uma ideia melhor da exploração e das condições de trabalho dos operários industriais, e ela diz para Andrea que, agora, ela compreende porque eles acabavam votando no PCI. 
A família Galli, que recebeu a ajuda de Irene, agradece à mesma. A simplicidade dos pobres italianos conquista Irene, que passa a dedicar a sua vida para ajudá-los, deixando o marido e abandonando a sua antiga vida de luxo e ostentação em função disso. 

Nesta conversa, Andrea disse para Irene que no futuro os trabalhadores serão os donos da vida, que a humanidade desfrutará de um grande progresso e que viverá no paraíso (ele está referindo-se ao Comunismo, é claro), mas Irene não se mostra tão certa disso. 


Irene vai ao cinema e vê a exibição de um documentário que exalta o desenvolvimento econômico e industrial, mas depois da experiência horrível que ela teve na fábrica, ela não está tão certa de que o futuro será tão glorioso. 

Em um outro momento do filme, um dos moradores da periferia, que conversou com Irene, lhe disse que 'o trabalho enobrece o homem'. 

Mas em função desta experiência na fábrica, Irene diz para Andrea que os trabalhadores são escravos acorrentados, mas ele retruca, dizendo que ela viu o trabalho no qual o ser humano é explorado e que no futuro tudo será bem melhor, com menos injustiça. 

Irene fala que isso poderá até acontecer, mas ela diz que o trabalho é um castigo, uma punição, tal como está na Bíblia, e que somente quando as pessoas tiverem consciência disso é que poderá existir menos injustiça, que elas poderão se unir e superar a situação na qual vivem.
A bela e elegante Irene teve a oportunidade de trabalhar, por apenas um dia, em uma fábrica. A experiência a deixou chocada. Com isso, ela passou a dizer que não seria possível construir uma sociedade justa e harmoniosa com esse tipo de organização do trabalho, que brutaliza e desumaniza os operários, aos quais ela chama de 'escravos acorrentados'. 

Assim, vemos no filme de Rossellini diferentes concepções sobre o trabalho humano sendo apresentadas. Para o pobre morador da periferia o trabalho é sinônimo de nobreza, para Andrea ele é um instrumento de libertação do trabalhador e para Irene o trabalho é castigo, punição. 


Depois disso, Irene vai à Igreja e, no caminho de volta, ela encontra uma prostituta, levando-a para a casa dela. Ela adoece, Irene chama um médico, mas ela acaba morrendo, fazendo com que Irene sofra. Assim, ela se identifica com a situação de pobreza e de miséria dos trabalhadores, dos explorados, e chega a abandonar ao marido para colaborar com os mesmos. 

Além disso, ela orienta a fuga do jovem filho de uma das famílias que ela ajudou e que cometera um crime. Ela diz que ele deve procurar a Polícia e se entregar. Ele o faz, mas ela acaba sendo interrogada em função disso. Apesar do marido conseguir que o nome dela não seja divulgado pela imprensa, Irene é levada para uma instituição psiquiátrica, na qual é obrigada a conviver com inúmeras mulheres que possuem graves problemas mentais, o que não é o caso dela, é claro.

Depois de alguns meses no hospital ela passa por uma avaliação, onde ela diz que ajuda aos mais pobres por sentir amor por eles e não por ser comunista ou cristã. 
O compromisso de Irene em ajudar aos mais pobres levou a que o seus familiares passassem a pensar que ela estava completamente louca, submetendo-a a exames que pudessem comprovar isso.

Ela diz que o mal nasce do fato de que não se dá todo o amor aos que mais necessitam dele. 


Irene diz que deve-se amar as pessoas 'como elas são e ajudá-los 
como podemos', pois 'Deus nos criou assim'. Ela diz que, no passado, foi egoísta e que, agora, procura dar aos outros todo o amor que tem, mas que não pertence a ela. 

Irene também diz que deve-se viver em plenitude de amor por todos e o que importa é que os homens e o mundo sejam salvos. 

Até o Padre que é enviado para conversar com ela percebe que o sentimento que ela tem pelos mais pobres é fruto de um sentimento cristão verdadeiro, de querer abrir mão de tudo para se doar aos outros, o que deixa ao próprio surpreso e assustado, pois a sociedade capitalista não permite que esse tipo de comportamento seja tolerado. E quem age assim acaba sendo considerado como louco (a).

Irene é interrogada pelo juiz, para o qual diz que não deseja voltar a viver junto com o seu marido, pois isso não salvaria nem a ela mesma e tampouco aos outros. De certa maneira, toda essa doação de Irene aos miseráveis é resultado do sentimento de culpa que carrega pela morte do filho, que foi provocada pela fato dela tê-lo, praticamente, abandonado. 

Em função disso, Irene continua presa no hospital e as pessoas necessitadas as quais ela ajudou, e que a visitam, passam a dizer que ela é uma verdadeira Santa.
Para os pobres que Irene ajudava ela não tinha nada de louca, mas era uma verdadeira Santa. 

Informações Adicionais:


Título: Europa '51;
Diretor: Roberto Rossellini;
Roteiro: R.Rossellini; Sandro De Feo; Mario Pannunzio; Ivo Perilli; Brunello Rondi;
Ano de Produção: 1952; País de Produção: Itália;
Duração: 118 minutos;
Gênero: Drama;
Música: Renzo Rossellini; Fotografia: Aldo Tonti;
Elenco: Ingrid Bergman (Irene Girard); Alexander Knox (George Girard); Ettore Gianinni (Andrea Casatti); Sandro Franchina (Michel); Giulietta Masina (Mãe das 6 crianças); Teresa Pellati (Ines); Marcella Rovena (Sra. Puglisi); Tina Perna (Cesira); Giancarlo Vigorelli (Juíz). 
Prêmios: Melhor Atriz para Ingrid Bergman (Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália) em 1953;
Melhor Atriz para Ingrid Bergman no Festival de Veneza de 1952. 
Prêmio Internacional no Festival de Veneza de 1952 para Roberto Rossellini. 

Vídeo - Trecho do filme: 

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