domingo, 12 de março de 2017

‘Ladrões de Bicicleta’ – Vittorio De Sica mostra, de forma bela e poética, a miséria da Itália do Pós-Guerra em um clássico do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!

‘Ladrões de Bicicleta’ – Vittorio De Sica mostra, de forma bela e poética, a miséria da Itália do Pós-Guerra em um clássico do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!
'Ladrões de Bicicleta', uma obra-prima neo-realista de Vittorio De Sica, é um dos grandes clássicos da história do Cinema italiano e mundial. 
Vittorio De Sica foi um dos principais diretores do Neo-Realismo italiano, que se consagrou como um dos mais importantes movimentos da história do Cinema, exercendo uma grande influência sobre a produção cinematográfica de todo o planeta (Brasil, Leste Europeu, Japão). No Brasil, por exemplo, o Neo-Realismo gerou a criação do chamado ‘Cinema Novo’, do qual Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos foram alguns dos principais nomes. 

‘Ladrões de Bicicleta’ é, sem dúvida alguma, um dos principais filmes do Neo-Realismo, sendo uma obra bela, sensível e poética, tendo conquistado o Oscar de Melhor Filme estrangeiro em 1950. 

Nele, estão presentes todas as principais características deste importante movimento: 

A) O uso de atores não profissionais (é o caso dos atores que interpretam Antonio, Maria e Bruno); 

B) As locações feitas nas ruas e campos (até porque os estúdios cinematográficos foram usados para ajudar desabrigados); 

C) O baixo orçamento das produções; 

D) A recusa em usar de efeitos visuais e a utilização de diálogos simples; 

E) A denúncia da pobreza e da miséria na qual a grande maioria do povo italiano vivia nesta época (logo após o final da Segunda Guerra Mundial), mostrando tudo o que caracterizava o país (desemprego, fome, miséria, falta de moradias, serviços públicos precários, prostituição); 

F) O uso das línguas faladas nas diferentes cidades e regiões italianas. 
Antonio consegue um emprego de colador de cartazes, mas ele precisa de uma bicicleta para fazer o trabalho. Muitos queriam o emprego, mostrando que a oferta de vagas não atendia a procura. 
O auge do Neo-Realismo se deu entre 1943 e 1948, que foi justamente o período no qual se desenvolveu a luta contra o Fascismo. Foi nessa época que os comunistas, socialistas, liberais e democrata-cristãos italianos lutaram juntos, de armas na mão, para derrubar o governo de Mussolini e expulsar os alemães da Itália, o que aconteceu em Abril de 1945, bem como para garantir a construção de uma sociedade livre e democrática no Pós-Guerra. 

Após a invasão do Sul italiano pelos Aliados, no início de Julho de 1943, e a derrubada do governo de Mussolini pelos próprios membros do Grande Conselho Fascista (que ocorreu no final de Julho de 1943), os nazistas alemães invadiram e ocuparam o Norte e o Centro da Itália, onde eles criaram a chamada ‘República de Saló’, que existiu entre Setembro de 1943 e Abril de 1945. 

Mussolini era, formalmente, o líder deste Governo, mas o mesmo nunca passou de um regime fantoche que era inteiramente controlado pelos nazistas alemães. Mussolini, nesta época, já vivia em profunda depressão e não governava coisa alguma. 

Nesta época, dos dois lados da Europa, naquelas regiões que foram ocupadas por tropas soviéticas (Leste Europeu) e por tropas dos EUA, França e Grã-Bretanha (Europa Ocidental), foram formados governos de ‘União Nacional’, que eram integrados por representantes da Burguesia, das Classes Médias e dos Trabalhadores. 

Porém, a partir de 1947/48 o cenário político europeu e italiano se modificou radicalmente, ocorrendo uma divisão entre as forças políticas e sociais que haviam lutado contra o Nazi-Fascismo. 
Antonio e a sua esposa (Maria) precisam retirar água de um poço para abastecer a sua casa. A infra-estrutura das cidades italianas estava em situação bastante precária em função da destruição provocada pela Guerra, principalmente nas cidades do Centro e do Norte italiano.
Isso desencadeou a Guerra Fria entre os dois blocos (soviético e americano), dividindo o Velho Mundo, o que acabou se refletindo dentro de cada país que havia sido libertado do domínio Nazi-Fascista (Itália, França, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria) pelos países Aliados (URSS, EUA, Grã-Bretanha), gerando o fim dos governos de ‘União Nacional’. 

Com isso, os comunistas e socialistas foram expulsos do governo de ‘União Nacional’ italiano que havia sido formado logo após o final da Segunda Guerra.

Assim, a Itália passou a ser governada por uma coalizão de forças políticas e sociais conservadoras, liderada pelo PDC (Partido Democrata Cristão), e que contava com o apoio da Igreja Católica, dos industriais, dos banqueiros, dos latifundiários, do governo dos EUA e, também, da Máfia. 

E foi justamente neste período que o Neo-Realismo passou a ser perseguido pelo governo italiano, que começou a censurar e a dificultar a produção dos filmes realizados pelos cineastas neo-realistas, que mostravam uma Itália (pobre e atrasada) que o governo conservador desejava esconder. Essa perseguição contra o Neo-Realismo acabou gerando a sua decadência junto ao grande público.

Essa perseguição aconteceu, também, muito em função do fato de que a grande maioria dos cineastas neo-realistas era, também, ligada ao PCI (Partido Comunista Italiano), que havia sido expulso do governo do país.
Antonio e Maria sonham com uma vida melhor, depois que Antonio comprou a bicicleta que lhe permitirá trabalhar como um colador de cartazes. 
Nos filmes neo-realistas, estes cineastas tratavam de temas que incomodavam fortemente aos governantes italianos conservadores (burgueses) do Pós-48, tais como: O fascismo, o desemprego e o subemprego urbanos, as consequências da Guerra, a prostituição, a falta de moradias, os problemas sociais na área rural e no atrasado e pobre Sul da Itália, a delinquência, a situação das mulheres, a migração campo-cidade e a emigração para outros países (França, por exemplo). 

Para levar tal política conservadora adiante, o governo italiano também passou a estimular a importação de filmes de Hollywood, que não tinham qualquer ligação com a realidade do povo italiano, fazendo com que os filmes neo-realistas perdessem a maior parte do seu público. 

Nesta época, a reconstrução da Itália e da Europa Ocidental ainda estava em andamento, sendo que a mesma somente foi possível devido ao ‘Plano Marshall’ que os EUA adotaram a partir de 1948. A reconstrução da Europa Ocidental havia começado logo após o final da Segunda Guerra, mas ela estava sendo financiada por dinheiro emprestado pelos EUA. 

No entanto, a dívida acumulada pelos governos europeus cresceu tanto que, no início de 1947, a reconstrução foi interrompida, o que gerou um aumento significativo do descontentamento popular.
A felicidade estampada nos rostos de Antonio e do filho (Bruno) quando o pai sai para trabalhar, levando a tão sonhada e desejada bicicleta. 
Com medo de que isso levasse Socialistas e Comunistas ao poder na França, Itália, Grécia e em outros países europeus, os EUA decidiram criar o ‘Plano Marshall’, em 1947, a fim de permitir a reconstrução europeia por meio da doação de recursos pelo governo ianque, sendo que 30% destes recursos foram usados na aquisição de produtos agrícolas e industriais dos EUA, contribuindo para a continuidade do crescimento da economia estadunidense no Pós-Guerra. 

Com a adoção do ‘Plano Marshall’, que funcionou entre 1948 e 1953, os governos de inúmeros países europeus ocidentais (Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Bélgica, Holanda) receberam uma grande ajuda financeira do governo dos EUA, sendo que ela chegou a representar até 12% do PIB anual destes países. Estes recursos foram usados, prioritariamente, para reconstruir e recuperar as indústrias, fazendas, ferrovias e a infra-estrutura urbana do Velho Mundo. 

Além de permitir a reconstrução das nações da Europa Ocidental, o ‘Plano Marshall’ colaborou decisivamente para que as mesmas permanecessem como aliadas dos EUA no Pós-Guerra. Tais nações também passaram a fazer parte da OTAN (aliança militar controlada pelos EUA). 

O projeto de integração da economia europeia no Pós-Guerra também começou por inspiração dos EUA e tinha finalidades políticas, procurando integrar as economias de França e Alemanha de tal forma que eles nunca mais pensariam em guerrear novamente. Isso deu origem à Comunidade Europeia, em 1956, que é a matriz da atual União Europeia. 
Antonio e Bruno, felizes, pois agora o pai tem um emprego que irá melhorar as condições de vida da família. Na época, os serviços de transporte coletivo eram muito ruins, não atendendo à demanda. Com isso, a bicicleta tornou-se essencial para que as pessoas pudessem se deslocar pelas cidades, bem como para conseguir um emprego e estudar. 
Assim, os países capitalistas europeus ocidentais integraram-se plenamente ao bloco político-militar liderado pelos EUA, enquanto que a URSS fazia o mesmo com os países do bloco soviético do chamado ‘Leste Europeu’ (que passaram a fazer parte do Comecon e do Pacto de Varsóvia).

Até mesmo as mais antigas Ditaduras europeias da época (Francisco Franco, na Espanha, e Antonio Salazar, em Portugal) acabaram aliando-se aos EUA no Pós-Guerra, sendo que, principalmente no caso da Espanha, tivemos grandes investimentos feitos por empresas dos EUA e o país tornou-se um importante centro turístico internacional, viabilizando a longa duração do regime ditatorial franquista, que somente foi derrubado em 1975. 

Com a criação do ‘Plano Marshall’ e da OTAN, as Guerras da Coréia e do Vietnã e o rápido crescimento das economias capitalistas desenvolvidas no Pós-Guerra (fenômeno que se desenvolveu entre 1948 e 1973), as populações da Europa Ocidental também puderam desfrutar de um amplo conjunto de direitos e benefícios sociais, trabalhistas e previdenciários, dando origem ao que se chamou de ‘Welfare State’ (Estado de Bem-Estar Social). 

Na época em que se desenvolve a trama do filme (1948), no entanto, o Plano Marshall mal havia se iniciado, grande parte do Velho Mundo ainda precisava ser reconstruída e a fome, o desemprego e a miséria grassavam pela Europa. 
O primeiro cartaz que Antonio colou foi o do filme 'Gilda', com Rita Hayworth, que mostrava uma vida de luxo, riqueza e ostentação, contrastando inteiramente com a miséria que grassava na Itália na mesma época.
E a Itália era o mais miserável destes países, com elevados índices de desemprego, muita fome, miséria, falta de moradias e prostituição em grande escala. 

Nesta época, as cidades italianas e europeias ainda contavam com sistemas de transportes coletivos muito precários, o que fica muito evidente no clássico filme de Vittorio De Sica. 

Assim, uma grande parte da população das cidades italianas e europeias ainda usava de bicicletas para se locomover pelas mesmas, seja para trabalhar, estudar ou para assistir a um jogo de futebol, pois os bondes não eram suficientes para atender a toda a demanda e viviam superlotados, o que é mostrado no filme.

Portanto, possuir uma bicicleta era algo extremamente importante para os trabalhadores italianos, neste momento, pois sem a mesma ficaria impossível se locomover pelas áreas urbanas em longas distâncias, bem como seria extremamente difícil conseguir um emprego. 

A história do filme se desenvolve em torno da vida de um miserável trabalhador (Antonio Ricci), de Roma, que consegue um emprego de colador de cartazes, mas que somente poderá trabalhar caso venha a adquirir uma bicicleta. Muitos outros trabalhadores desempregados querem aquele emprego, mas Antonio é escolhido por afirmar que possui uma bicicleta. Ele não a possui, mas com a ajuda da esposa, Antonio vende alguns lençóis e, desta maneira, consegue o dinheiro necessário para comprar a bicicleta. Logo, o seu emprego está garantido. 
O jovem e o seu cúmplice agem de forma combinada para roubar a bicicleta de Antonio. 
O operário (Antonio), a esposa (Maria) e o filho (Bruno) ficam muito contentes, é claro, pois agora o orçamento familiar irá aumentar bastante. A bela cena em que Antonio veste o uniforme que usará em seu trabalho mostra toda a alegria dos membros da família, que agora confiam que as suas vidas irão melhorar. 

É interessante também notar como o operário (Antonio Ricci) não desgruda da bicicleta, chegando a carregar a mesma até o local de trabalho, mostrando a importância da mesma, como se fosse um tesouro. Afinal, a sobrevivência da sua família dependia daquela simples bicicleta. 

Mas já no primeiro dia de trabalho a bicicleta é roubada por um jovem delinquente, que conta com a ajuda de um homem mais velho, que irá levar o operário para um destino totalmente diferente daquele que o jovem ladrão tomou após o roubo. 

Obs1: Em ‘Ladrões de Bicicleta’, Vittorio De Sica faz uma crítica direta às grandes produções de Hollywood, que dominavam o mercado mundial com filmes que contavam histórias de ostentação e riqueza e que criaram a figura do ‘star system’, a estrela de Cinema, que as pessoas no mundo inteiro idolatravam e com quem desejavam se parecer. O primeiro cartaz que Antonio está colando no muro é o do filme ‘Gilda’ (produção de 1946), no qual vemos Rita Hayworth, que era uma das grandes estrelas de Hollywood naquela época. É flagrante o contraste entre o luxo mostrado em ‘Gilda’ e a miséria em que o povo italiano vivia nessa época e que é retratada brilhantemente por De Sica em ‘Ladrões de Bicicleta’. Apesar dessa crítica, o filme do cineasta italiano acabou ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1948/49. 
Bruno mal sabe usar os talheres. Atrás vemos uma família burguesa abastada comendo e bebendo à vontade. O filme mostra que as desigualdades sociais eram imensas na Itália nos primeiros anos do Pós-Guerra.
Desesperados, o operário e o filho saem pela cidade, a fim de encontrar a bicicleta roubada e, no dia seguinte, junto com alguns amigos, eles chegam a visitar um mercado paralelo de comércio de bicicletas, para ver se encontram a mesma. Mas isso não acontece. 

Depois, andando pela cidade, eles chegam a ver o jovem ladrão conversando com um homem bem mais velho, que é perseguido e interrogado pelo operário e seu filho, mas que consegue desaparecer da vista de ambos. 

Nesta busca desesperada para encontrar a bicicleta, temos um momento em que inúmeros operários miseráveis estão em uma Igreja, assistindo a uma missa, mas fica mais do que evidente de que eles estão ali apenas porque haverá distribuição de sopa gratuita posteriormente. Logo, eles rezam apenas porque desejam se alimentar e não por sua fé. 

Em outro momento, Antonio e Bruno decidem esquecer um pouco das agruras, dos problemas e da miséria em que vivem, e entram em um restaurante, no qual bebem vinho e comem um lanche. Durante o almoço, Bruno fica observando um garoto, de família rica, que come e bebe à vontade, invejando a fartura da qual o mesmo desfruta. 
Antonio encontra o jovem miserável que roubou a sua bicicleta, mas ele não conseguirá recuperá-la. 
Mas o garoto rico olha para Bruno com desprezo, ignorando as tentativas do filho do operário de se comunicar com ele, o que não deixa de ser uma forma de mostrar as imensas desigualdades sociais e o preconceito elitista existente na sociedade italiana nesta época, situação esta que ainda existe pelo mundo afora. 

Porém, logo depois, Antonio e Bruno terão que voltar à realidade. 

E o desespero com a perspectiva de continuar naquela vida miserável leva a que Antonio tente roubar uma bicicleta, mas ele não é um ladrão e não tem qualquer experiência nessa atividade, sendo perseguido e preso pelo dono da mesma. E o filho, Bruno, chora quando descobre o que o pai havia feito e ao vê-lo sendo humilhado e agredido. 

Porém, o operário e o garoto não desistem da busca pela bicicleta (afinal, a sobrevivência da família e a esperança de uma vida melhor dependem disso) e acabam encontrando o jovem ladrão na região em que este mora e, apesar de pressioná-lo e de buscar um policial, que entrou na casa do ladrão para averiguar se a mesma estava lá, a bicicleta não foi encontrada. 

Hostilizados pelos vizinhos e por amigos do jovem ladrão, e sem encontrar a tão desejada bicicleta (que deve ter sido vendida, é claro), pai e filho caminham, em meio à multidão. 

Como eles irão reagir a essa situação? Não sabemos, pois o final do filme deixa margem a inúmeras interpretações. 
Pai e filho choram e vão embora, de mãos dadas, depois de tentar recuperar a bicicleta e não conseguir. O clássico filme de De Sica está repleto de cenas tocantes, belas e emocionantes. 

Informações Adicionais:


Título: ‘Ladri di Biciclette’ (‘Ladrões de Bicicleta’);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Vittorio De Sica; Cesare Zavattini; Gerardi Guerrieri; Oreste Biancoli; Adolfo Franci; Suso Cecchi D’Amico;
Ano de Produção: 1948; País de Produção: Itália;
Duração: 91 minutos; Gênero: Drama;
Música: Alessandro Cicognini; Fotografia: Carlo Montuori;
Elenco: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci); Enzo Staiola (Bruno); Lianella Carell (Maria, esposa de Ricci); Gino Saltamerenda (Baiocco); 
Prêmios: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1950; 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1950; 
Prêmio BAFTA de Melhor Filme de 1950;
Melhor Filme Europeu de 1951;
Prêmio Especial do Júri do Festival de Locarno de 1949.

Vídeo  - Trailer do Filme: 

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