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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas?

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas? - Marcos Doniseti! 
Francis F. Coppola e Martin Scorsese fizeram duras críticas aos filmes da Marvel. 
Dois dos grandes cineastas contemporâneos, Martin Scorsese e Francis F. Coppola, fizeram duras críticas aos filmes da Marvel, como as de que eles não seriam Cinema de verdade e que também seriam desprezíveis, sendo filmes para parques de diversões. Scorsese deixou claro que respeita os profissionais que trabalham nestes filmes, mas afirmou que os mesmos não são Cinema, de fato. 
Isso desencadeou uma grande polêmica envolvendo os fãs destas filmes e, também, aqueles que não os apreciam.

Existem uma série de motivos pelos quais podemos criticar os filmes da Marvel e abaixo irei relacionar e comentar a respeito de alguns deles, que entendo que são bastante relevantes.

Fazer justiça com as próprias mãos e os Salvadores da Pátria!

Em primeiro lugar, tais filmes defendem a ideia de que se pode fazer justiça com as próprias mãos, aprovando uma 'Privatização da Justiça', na qual alguns ‘Super-Heróis’ formam um verdadeiro 'Esquadrão da Morte' constituído por seres superpoderosos.

Nestes filmes também está implícita a ideia de que problemas complexos poderão ser resolvidos por ‘Salvadores da Pátria’ e de maneira simplista.

Então, você quer impedir imigrantes de entrar ilegalmente em seu país? Construa um muro e tudo será resolvido. Mas é claro que isso não resolverá coisa alguma. Isso é a típica proposta feita para enganar trouxa. E quem a formulou sabe de tudo isso, é claro. Afinal, oportunistas rasteiros e amorais, neste mundo, é o que não faltam.

Obs: Mas parece que essa época está terminando, como deixam claro os protestos no Equador, Chile, Líbano, Barcelona, a queda de Matteo Salvini na Itália e o resultado de algumas eleições recentes (Parlamento Europeu, Canadá, Dinamarca, Argentina, etc). Trump, por sua vez, é rejeitado por 57% da população dos EUA, segundo uma recente pesquisa que foi divulgada pela CNN, e 50% aprovam o seu Impeachment.
Martin Scorsese e Robert De Niro em 'O Touro Indomável', um dos grandes clássicos do cineasta ítalo-estadunidense.

Novos nomes?

Nestes filmes também não temos nenhum diretor, roteirista, ator ou atriz que tenha sido revelado pelos mesmos, que estejam em início de carreira e que podemos dizer que irá deixar a sua marca na história do Cinema.

Os filmes da Marvel são feitos por diretores e atores/atrizes já consagrados ou com carreira consolidada, como são os casos de Robert Downey Jr, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, entre outros. Não são novos rostos, novos nomes, que estão se destacando agora.

Se tiver algum novo nome, então o mesmo será a exceção.

Se pesquisarmos sobre a história do Cinema veremos que todos os  grandes movimentos cinematográficos da história revelaram novos nomes (Policial Noir, Realismo Poético Francês, Neorrealismo Italiano, Nova Hollywood). Todos eles revelaram diretores, roteiristas, diretores de fotografia, atores, atrizes que marcaram época.

Exemplos: A Nouvelle Vague revelou novos diretores (as), tais como Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette, Rohmer, Malle, Varda, Resnais, e também novos atores/atrizes, como Anna Karina, Jean-Pierre Léaud, Jean-Paul Belmondo, Jean-Claude Brialy, Marie-France Pisier, entre outros.

O Neorrealismo Italiano revelou nomes Fellini, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Mario Monicelli, Aldo Fabrizi, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, Lucia Bosé, entre outros.
Bruno Ganz, ator suíço, e Dennis Hopper, ator estadunidense, foram dois grandes talentos revelados, respectivamente, pelo Cinema Novo Alemão e pelo movimento 'Nova Hollywood'. E os filmes da Marvel revelaram alguém?

Qual é a finalidade destes filmes da Marvel?

Outro problema destes filmes da Marvel é que eles mostram que a empresa desistiu de fazer Arte. Ela faz sempre a mesma coisa, padronizada e pasteurizada, se repetindo filme após filme. É um festival de mesmice e de padronização.

Afinal, quem é que tenta, nestes filmes, fazer algo novo, diferente, o que é essencial para a existência do Cinema e da própria Arte?

Mas os filmes da Marvel não são apenas para adolescentes, pois existe um grande número de adultos que podemos dizer que são infantilizados e que gostam dos mesmos, estando convencidos de que eles são ‘puro cinema’.

Esse público não quer profundidade, nada muito complexo, preferindo o raso, o rasteiro, o simples, o menos complicado. Esse público quer o ‘Jornal Nacional’ em forma de filmes. É uma parcela do público que não quer pensar, mas que deseja que pense por ele. São filmes para os Hommers Simpsons deste mundo.

E o Cinema não é só para fazer rir ou chorar, para ser produzido como mero escapismo, mas também para fazer pensar, questionar, nos levando a refletir sobre nossas vidas, nossos valores e também sobre o mundo em que vivemos.

Porém, fazer filmes mais simples, que se limitam a fazer as pessoas darem algumas risadas ou que as levem a chorar é muito mais lucrativo.

Esse negócio de querer pensar e questionar não dá lucro, mesmo, então é melhor deixar para lá…
Filmes da Marvel são Cinema? São Arte? São relevantes? O debate esquentou.

Monopólio de mercado!

Por que os filmes da Marvel são os mais criticados?

Oras, porque são eles que monopolizam as salas, o que impede que as pessoas tenham acesso a outros gêneros de filmes. Se eles ocupassem apenas um nicho do mercado ninguém se importaria muito com eles. Mas eles monopolizaram o mercado e isso é péssimo para a criação cinematográfica.

Antigamente as salas comerciais exibiam filmes de Bergman, Truffaut, Godard, Fellini e eles faziam sucesso, sim. Agora esse gênero de filmes está restrito ao circuito alternativo, que tem poucas e pequenas salas (tipo o Belas Artes e o Reserva Cultural Itaú, em São Paulo) e que estão concentradas em grandes cidades.

Hoje os cinemas só exibem Marvel ou assemelhados. É um festival de mesmice e um monopólio que deveria, sim, ser proibido, por meio de uma legislação que obrigasse a exibição de um certo número de filmes, por um determinado número de semanas, para as produções alternativas, para os chamados ‘Filmes de Arte’, com outras propostas cinematográficas, que vão muito além dos blockbusters.

Alguns falam em livre mercado, mas a existência de um monopólio é a própria negação deste livre mercado. Livre mercado significa ter acesso a todos os tipos de produção, com as pessoas tendo a chance de assistir a filmes de baixo orçamento e de perfil mais autoral. Mas isso não acontece e o mesmo ocorre justamente porque o monopólio da Marvel destruiu o livre mercado.

Isso é como se ao irmos a um restaurante somente nos fosse oferecido arroz com feijão para comer. É claro que você poderá gostar, pois o arroz e o feijão irá saciar a sua fome, mas você nunca saberá se existem comidas melhores, pois é apenas arroz com feijão que tem para comer ali e você não conhece outras comidas.
'Blade Runner', de Ridley Scott, foi uma ficção científica inovadora e que influenciou muitos filmes e cineastas, ficando claro a sua importância para o Cinema.

Filmes para divertir e entreter o público sempre existiram, mas…!

Não sou contra filmes que nos entretenha, que nos prendam a atenção. Esse gênero de filmes sempre existiu, desde os primórdios do Cinema e sempre tiveram o seu público. Mas eles compartilhavam o mercado com outros gêneros de filmes, que tinham outras propostas cinematográficas. 

O problema dos filmes da Marvel é que muitos espectadores ficam restritos a apenas esse tipo de filme e não tem acesso ou rejeitam outros gêneros, de outros cineastas, se fechando para outro tipo de cinema, que também nos faça pensar e questionar, indo muito além do mero ‘rir ou chorar’.

E isso aconteceu porque as pessoas vão ao Cinema e é somente isso que exibem, filmes estritamente comerciais, impedindo que as pessoas tenham acesso a outros tipos de filmes.

E daí eu pergunto: Será que muitas pessoas assistem aos filmes da Marvel porque não estão lhes oferecendo algo diferente? Será que essa produção de melhor nível não poderia ter um público maior caso esses filmes fossem oferecidos para as pessoas? Penso que sim.

Filmes da Marvel e Mélies: Uma comparação ridícula!

Também vi alguns fãs dos filmes da Marvel comparar os mesmos com os filmes do 
Georges Mélies, um dos primeiros criadores do Cinema. Não há como comparar filmes da Marvel com Mélies. Isso é ridículo. Mélies foi um inovador, um revolucionário, que mudou muitas coisas no Cinema, que ousou criar algo novo.

Assim, ele está muito mais próximo das obras de cineastas como Scorsese, Coppola, Orson Welles, Rossellini, Godard, Fellini, que também foram cineastas inovadores.
Francesco Rosi, Luchino Visconti e Federico Fellini: Três grandes cineastas italianos que deram uma inegável contribuição para o Cinema.

Além disso, falar que se assiste aos filmes da Marvel porque simplesmente gosta dos mesmos não é válido em um debate. Afinal, gosto pessoal não conta como critério de avaliação de uma obra, seja um filme, livro, peça de teatro, música. A

Alguém pode até gostar dos filmes da Marvel e dizer que continuarão assistindo aos mesmos, mas não venham me dizer que eles são tão bons quanto os filmes de Scorsese, Fellini, Truffaut, Bergman, Kieslowski, Coppola ou de Kurosawa. Fazer essa comparação seria algo totalmente ridículo.

Além disso, os filmes da Marvel, inovam em que? Em convencer as pessoas de que fazer justiça com as próprias mãos é certo e que existem salvadores da pátria que irão resolver todos os nossos problemas com os seus superpoderes? Isso é patético.

Isso é infantilismo puro, é muita mediocridade intelectual, o que é resultado da recusa em pensar, em questionar.

Pedido de Socorro: Para quem, mesmo?

Já vi também alguns afirmarem que os filmes da Marvel revelariam um pedido de socorro.

Sim, com certeza. É verdade. Concordo com isso.

Mas o problema é que eles estão pedindo socorro para aquilo que não existe, ou seja, para pessoas superpoderosas que teriam soluções mágicas para todos os problemas.

Assim, o nível do debate é rebaixado para o menor nível possível, para o menor denominador comum. Um grande número de alemães, nos anos 1930, desesperados com a miséria em que viviam, também pediram por socorro. E pediram para quem?
Jean-Paul Belmondo e a belíssima e talentosa Jean Seberg, em cena de 'Acossado', clássico de Godard que revolucionou o Cinema mundial.

Para o Hitler e para os Nazistas que, aliás, também eram muito populares em outros países (Brasil, EUA, França...).

Deu no que deu…

Os alemães aprenderam a lição, sem dúvida alguma, e fazem questão de não esquecer o erro que cometeram, sendo que atualmente eles procuram mostrar isso para a população do país, para as novas gerações, mas vejam o preço que tiveram que pagar por isso. Será que as pessoas irão cometer o mesmo erro novamente? 

Logo, quanto mais simplista, estúpida e medíocre for uma proposta para a resolução dos problemas que a humanidade enfrenta, maior será a chance de que a mesma terá sucesso momentâneo, e de que um grande número de pessoas terminará por gostar e aprovar estas propostas. Mas elas não irão resolver coisa alguma e o final da história será catastrófico.

Para se constatar isso, atualmente, basta ver a história do ‘Muro do Trump’, que não resolverá coisa alguma a respeito do problema da presença dos imigrantes ilegais nos EUA, mas que muitos acreditaram que poderia ser a solução para o mesmo e votaram nele. Mas esse muro não resolverá coisa alguma. Nunca foi solução e nunca será.

Portanto, esses filmes refletem um pedido de socorro, sim, mas eles são resultados de um inegável processo de empobrecimento político, social e cultural que ocorreu em nossas sociedades nos últimos tempos. Estão pedindo por socorro do jeito errado e para as pessoas erradas.

Hitler e Trump que o digam…

Ataques a Coppola e Scorsese!

Também já vi alguns ‘marveletes’ (os fãs dos filmes da Marvel, é claro) atacarem a obra de Coppola e de Scorsese em função das críticas, corretas e fundamentadas, que eles fizeram aos filmes da Marvel, o que revela a pobre formação cinematográfica destas pessoas que os criticam.
Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant e Krzysztof Kieslowski foram os protagonistas de um dos maiores clássicos contemporâneos, que foi 'Trois Couleurs - Red' (A Fraternidade é Vermelha). Kieslowski é autor de uma belíssima obra que nos leva a refletir a respeito de inúmeras questões (políticas, sociais, existenciais).

Scorsese e Coppola tem uma obra vasta, rica e diversificada. Eles nunca se limitaram a fazer um único gênero de filme, sempre evitaram de ficar se repetindo.

Eles fizeram dramas, comédias, policiais, suspense/terror. Sua contribuição ao Cinema é inegável. 

Não concordar com as críticas deles aos filmes da Marvel é um direito das pessoas, mas daí a atacar a obra deles em função disso é uma verdadeira piada. É aquela velha história de sempre: Como tais pessoas não tem argumentos para rebater as críticas, então ela atacam as pessoas que as fizeram, tentando desqualificá-las.

É sério que vocês querem desqualificar Coppola e Scorsese, como se eles não soubessem nada sobre Cinema? Brincou, né?

Resumindo!

Portanto, entendo que os filmes da Marvel possuem os seguintes elementos!

- São um verdadeiro festival de mesmice e de padronização;

- Refletem e difundem valores reacionários;

- Divulgam soluções simplistas e medíocres para problemas complexos;

- Apelam para um público que não conhece a riqueza e a diversidade da linguagem 
cinematográfica, que vai muito além de fazer ‘rir ou chorar’;

- Não dão contribuição alguma para o Cinema enquanto forma de Arte;

- Exercem um monopólio odioso no mercado. 

Logo, entendo que Coppola e Scorsese estão absolutamente corretos em suas críticas a estes filmes.
 'A Classe Operária Vai ao Paraíso', clássico de Elio Petri, é um filme que vai muito além de meramente 'fazer rir ou chorar' e que reflete sobre a realidade de pessoas reais, de carne e osso, ou seja, trabalhadores de uma indústria que são explorados pelos capitalistas. 

Links:
As críticas aos filmes da Marvel:


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento!

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento! - Marcos Doniseti!

Imagens de 10 filmes clássicos da Nouvelle Vague: 'Nas Garras do Vício' (Chabrol); 'Acossado' (JL Godard); 'Os Incompreendidos' (F.Truffaut); 'Hiroshima, meu Amor' (A.Resnais); 'Lola' (J.Demy); 'Jules et Jim' (F.Truffaut); 'Adeus, Philippine' (J.Rozier); 'Cléo das 5 às 7' (A.Varda); 'O Desprezo' (JL Godard) e 'Minha Noite com Ela' (E.Rohmer).

Os antecedentes da Nouvelle Vague!

A Nouvelle Vague foi, com certeza, o mais revolucionário movimento cinematográfico da história. 

Embora muitos considerem que a origem do movimento, no Cinema, sejam os dois primeiros longas-metragens de Claude Chabrol ('Nas Garras do Vício' e 'Os Primos', de 1958 e 1959, respectivamente) e o primeiro de François Truffaut ('Os Incompreendidos', de 1959), antes destes longas nós tivemos a realização de alguns curtas e de alguns médias-metragens pelos criadores do movimento.

Estes foram cinco críticos e teóricos de cinema da 'Cahiers du Cinéma' e que ficaram conhecidos como os 'Jovens Turcos': Éric Rohmer, François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. 

Estas produções de Godard, Truffaut, Rivette e Rohmer (Chabrol nunca fez curta, estreando direto com um longa-metragem) foram realizadas antes deles começarem a produzir os longas-metragens pelos quais ficariam famosos e que foram responsáveis por deixar os seus nomes imortalizados na história do Cinema. 

Apesar de serem produções da década de 1950, quase todas podem ser encontradas, na Internet. Muitas estão disponíveis no Youtube, em versões com e sem legendas em português. Outros curtas e médias contam com legendas em espanhol, francês e inglês, principalmente. 

Vale a pena pesquisar e assistir estes curtas e médias-metragens, que mostram algumas das principais características que estariam presentes nas obras que estes talentosos e inovadores cineastas construíram posteriormente. 

Assim, em 'Les Mistons' ('Os Pivetes'; 1957) já temos a presença de todos os principais elementos que marcariam a fantástica obra de François Truffaut: 

- O fascínio pelas mulheres;

- O sentimento de inferioridade dos homens em relação às mulheres;

- O fetiche;

- A fatalidade do relacionamento amoroso, que sempre termina mal.

Obs: No final do texto eu publiquei os links para quem desejar assistir aos filmes. 

E também é bom citar, na arte da escrita, que alguns textos foram muito importantes para a ascensão da Nouvelle Vague, incluindo o artigo de Alexandre Astruc prevendo o futuro nascimento de um cinema autoral e, logo, da Nouvelle Vague. O texto foi publicado em Março de 1948 (ver link abaixo) na revista "L'Ecran française" e se intitulou 'O Nascimento de uma nova vanguarda: A Câmera-Stylo'. 

Além disso, o texto 'Por uma nova tendência do cinema francês', de Truffaut, publicado na 'Cahiers du Cinéma' em Janeiro de 1954, também é de grande importância, pois criticava o cinema chamado de 'tradição de qualidade' francês e que se caracterizava pelo conservadorismo, pela mesmice e por desprezar o uso dos recursos específicos do cinema. 

Na época em que os 'Jovens Turcos' eram críticos e teóriclos da 'Cahiers', Truffaut era quem comandava as críticas ao conservador e padronizado cinema francês, assumindo a linha de frente nesta batalha, embora ele o fizesse com total respaldo dos demais membros do grupo (Chabrol, Rivette, Rohmer e Godard). 
Maria Lysandre em uma cena de 'Une Femme Coquette' (1955), primeiro curta de ficção dirigido por Godard.

Nas origens da Nouvelle Vague: Curtas e Médias-Metragens!

Jean-Luc Godard!


Opération Béton (1954; 20 minutos; 35 mm): 

É um documentário sobre a construção de uma barragem, em Grand-Dixence, que foi realizado em 1954. Godard vendeu o mesmo para a empresa responsável pela obra, e o dinheiro obtido com a venda lhe permitiu sobreviver por mais dois anos e também possibilitou que ele filmasse o curta seguinte (Une Femme Coquette).

Une Femme Coquette (1955; 10 minutos; 16 mm): 

Este foi o primeiro curta ficcional de Godard, ainda realizado no formato de 16 mm, no qual ele fez tudo: escreveu o roteiro, dirigiu e foi o responsável pela fotografia. 

Ele foi realizado em Genebra, sendo baseado em um conto de Guy de Maupassant ('The Signal', que também inspirou seu longa 'Masculine Féminine', de 1966), e mostra uma mulher (interpretada por Maria Lysandre) que se disfarça de prostituta para seduzir os homens. O filme foi considerado perdido por muitos anos, mas acabou sendo encontrado, felizmente. 

Charlotte et Véronique, ou Tons les garçons S'appellent Patrick (1957; 19 minutos; 35 mm): 

Este foi o primeiro curta-metragem de ficção em 35 mm que foi realizado por Godard. 

Charlotte é interpretada por Anne Colette, por quem Godard estava apaixonado na época e a quem ele gostaria de ter dado o papel de Patricia em 'Acossado' (1959). Nicole Berger interpreta Véronique.

No curta, um jovem conquistador (Patrick), interpretado por Jean-Claude Brialy (ator muito presente nos filmes da Nouvelle Vague), marca encontros com duas jovens (Charlotte e Véronique) e, depois, também se encontra com uma terceira. O curta é repleto de referências cinematográficas, antecipando uma característica que estaria sempre presente na obra de Godard. 

Une Histoire d'Eau (Godard e Truffaut; 1958; 12 minutos; 35 mm): 

Jean-Claude Brialy e Caroline Dim participam deste curta-metragem que é resultado de uma colaboração entre Truffaut e Godard. As filmagens foram feitas por Truffaut e mostravam uma gigantesca inundação que ocorreu na região de Paris, mas ele não as finalizou. Depois, Godard pediu para terminar o curta e Truffaut concordou. 

Assim, Godard montou, sonorizou e comentou as imagens feitas por Truffaut. Godard também fez a dublagem de Jean-Claude Brialy. No roteiro temos inúmeras referências literárias, cinematográficas e pictóricas, característica que estaria presente em toda a fantástica carreira de Godard. 

Charlotte et son Jules  (1958; 13 minutos; 35 mm): 

Godard escreveu o roteiro, os diálogos, dirigiu e comentou este curta. 

Este curta antecipa a sequência central de 'Acossado'. 

Nele, vemos o jovem Jules (interpretado por Jean-Paul Belmondo) fazer um longo monólogo em um quarto de hotel, criticando sua namorada (Charlotte) que havia decidido deixá-lo para namorar outro jovem que lhe prometera uma carreira no cinema. Enquanto isso, Charlotte (interpretada por Anne Colette) fica ouvindo o longo discurso de Jules.

Godard gostou tanto da atuação de Belmondo (que foi dublado pelo próprio Godard) que o avisou de que quando ele dirigisse o seu primeiro longa-metragem, Belmondo estaria no mesmo. Belmondo não acreditou muito, na época, mas em 1959 foi chamado por Godard para trabalhar em 'Acossado', que o transformou imediatamente numa estrela do cinema francês. 
'Les Mistons' (Os Pivetes): Cena com Gérard Blain e Bernadette Lafont (que eram casados). O curta-metragem dirigido por Truffaut, em 1957, já antecipava todos os principais temas da sua vasta e fundamental obra cinematográfica.

François Truffaut!


Une Visite (Uma Visita; 1954; 16 mm): Este é o primeiro curta-metragem de Truffaut, sendo um filme mudo com apenas oito minutos de duração, que o realizou no final de 1954. 

As filmagens duraram apenas cinco dias. Jacques Rivette foi o responsável pelo enquadramento e pela fotografia, enquanto um amigo de Truffaut, Robert Lachenay,  assumiu as funções de produtor e assistente.

A história é bem simples: Um jovem procura um quarto para alugar em um apartamento, telefona para a proprietária, que é uma jovem que mora sozinha. 

O cunhado da jovem locatária vai até o local, levando a sua neta, para ficar ali durante o final de semana. Ele tenta flertar com a jovem, mas não consegue nada. Daí, o inquilino também flerta com a dona do apartamento, mas também é rechaçado, levando-o a ir embora do local. 

O resultado final desagradou Truffaut, que o considerou muito amadorístico, levando-o a retomar a atividade como crítico e a estudar melhor os segredos dos grandes mestres do Cinema; 

Les Mistons (Os Pivetes; 1957; 18 minutos): Curta que foi baseado em uma novela de autoria de Maurice Pons. A história gira em torno de um grupo de adolescentes que fica infernizando um casal de namorados (Gérard e Bernadette), que são interpretados por Gérard Blain e Bernadette Lafont, que eram casados naquela época. As filmagens duraram cinco semanas e a primeira exibição do curta ocorreu em 17/11/1957. 

Une Histoire d'Eau (1958): Ver comentário acima, no item sobre Godard. 
Cena de 'Le Coup du Berger', curta-metragem de Jacques Rivette, de 1956.

Jacques Rivette!


Aux Quatre Coins (1949; 20 minutos): 

Segundo um comentário que li na Internet, este é um filme silencioso que estimula o espectador a imaginar a sua própria história. 

Le Quadrille (A Quadrilha; 1950; 40 minutos): 

Quatro pessoas sentadas (duas mulheres e dois homens) ao redor de uma mesa e que ficam se olhando. Depois de dez minutos elas começam a ir embora e ficam apenas um homem (Godard) e uma garota. 

Le Divertissement (A Diversão; 1952; 42 minutos): 

Vários personagens em busca de um romance. E neste média-metragem também temos a presença de Jean-Claude Brialy. Aliás, é impressionante a quantidade de filmes desta época da Nouvelle Vague dos quais ele participou. 

Le Coup du Berger (O Truque do Pastor; 1956; 28 minutos): 

Uma mulher casada ganha um presente do amante e tenta enganar o seu marido, mas este mostra que de bobo não tem nada. 

O filme conta com as participações de Truffaut, Chabrol, Godard e de Jacques Doniol-Valcroze, que eram todos críticos da 'Cahiers du Cinéma'. E o Jean-Claude Brialy está presente em mais um filme deste período. 

Cena de 'La Sonate à Kreutzer', que é um média-metragem, de 1956. Ele foi dirigido por Éric Rohmer.

Éric Rohmer!

Journal d'um Scélérat (1950): Uma adaptação livre de uma obra de Erich von Stroheim ('Folies de Femmes'). 

Bérénice (1954; 22 minutos; 16 mm): Filme baseado em obra de Edgar Alla Poe e que mostra um homem obcecado pelos dentes de sua noiva. O filme foi realizado na casa de André Bazin por Rivette, que também fez a edição do filme.

La Sonate à Kreutzer (1956; 50 minutos; 16mm): Filme baseado em um livro de Tolstoi, que foi produzido por Godard, e que trata de uma mulher casada que se apaixona por outro homem, o que irá provocar um sério conflito entre os dois. 

As cenas foram filmadas nos escritórios da 'Cahiers du Cinéma' e nelas vemos André Bazin e quatro dos cinco integrantes dos Jovens Turcos da Cahiers: Rohmer, Truffaut, Chabrol e Godard (faltou apenas o Rivette). O filme conta com a participação de Jean-Claude Brialy.

Véronique et son Cancre (1958; 18 minutos): Mãe contrata uma jovem (interpretada por Nicole Berger) para ensinar Francês e Matemática ao seu filho, que era um aluno preguiçoso (significado da expressão 'cancre' em francês). Mas a tentativa não dá muito certo. 

Présentation ou Charlotte et son Steak (1960; 12 minutos): Charlotte (Stephanie Audran) e Walter (Jean-Luc Godard) são namorados. Ele apresenta Clara (Anna Karina) para a namorada, a fim de provocar ciúmes na mesma. Eles se despedem de Clara e vão até a casa de Charlotte, que prepara um bife para ambos, enquanto tentam resolver a situação gerada por Clara. 

Obs: Dos cinco críticos da Cahiers du Cinéma que criaram a Nouvelle Vague, Claude Chabrol foi o único que não dirigiu nenhum curta ou média-metragem. Ele estreou direto com um longa, que foi o 'Le Beau Berger' (Nas Garras do Vício), que foi filmado entre o final de 1957 e o início de 1958, mas cujo lançamento atrasou, ocorrendo apenas em Janeiro de 1959.
'Une Histoire d'Eau': Jean-Claude Brialy e Caroline Dim atuaram neste filme em que Godard e Truffaut colaboraram diretamente. Truffaut fez as filmagens e Godard finalizou o curta, que havia sido abandonado por Truffaut.

Curtas e Médias-Metragens no Youtube!

Aux Quatre Coins (Jacques Rivette; 1949):


Le Quadrille (Jacques Rivette; 1950; 39 minutos)!


Le Divertissement (Jacques Rivette; 1952; 41 minutos)!


Opération Béton - Jean-Luc Godard (1954; 17 minutos):


Une Femme Coquette  - JL Godard (Uma Mulher Faceira; 1955; 10 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=S_bkx3Tu4k8&t=63s

La Sonate à Kreutzer - Éric Rohmer (A Sonata de Kreutzer; 1956; 42 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=xEmMabF_IKI

Le Coupe du Berger (Jacques Rivette; 1956; 28 minutos)!


Les Mistons - F.Truffaut (Os Pivetes; 1957; 18 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=CTxnUPnkcVk

Charlotte et Véronique - Tous les garçons s'appellent Patrick - JL Godard - (Charlotte e Véronique - Todo os rapazes se chamam Patrick; 1957; 19 minutos; 35mm; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=iNYGjBhkKTQ&t=109s
Biografia de François Truffaut foi uma das fontes de informação que usei para escrever esse texto. Livro excelente e que é fundamental para os admiradores da Nouvelle Vague.

Une histoire d'Eau - JL Godard e F. Truffaut (Uma História da Água; 1958; 12 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=-4lRTdgkpBI

Véronique et son Cancre - Éric Rohmer (Véronique eseu filho preguiçoso; 1958; 18 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=4aWEKPByLzc

Charlotte et son Jules - JL Godard (Charlotte e seu Namorado; 1958; 13 minutos; 35 mm):

https://www.youtube.com/watch?v=8pp0Z5AsinU&t=229s  (legenda em italiano);

https://www.youtube.com/watch?v=ADRb_r09TFg  (legenda em Francês);

Charlotte et son Steak - Éric Rohmer (Charlotte e seu Bife; 1960; 9:30 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=4DB0Cwlpu44
'A Nouvelle Vague e Godard', de Michel Marie, é um livro essencial para se entender a origem do movimento. E o autor ainda disseca o clássico 'Acossado'.


Links com Textos sobre a Nouvelle Vague! 

A Nouvelle Vague na época em que fazia 50 anos:

https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,em-cena-a-nouvelle-vague-de-godard-e-truffaut,557154

'Une Femme Coquette' - Filme raro de Godard reaparece na íntegra:

https://www.revistaprosaversoearte.com/une-femme-coquette-um-filme-raro-de-jean-luc-godard-reaparece-na-integra/

'Cahiers du Cinéma': Jean Seberg (em foto de 'Acossado') na capa da revista, na edição de Janeiro de 1960 (de número 103).

Lista de 10 filmes essenciais da Nouvelle Vague:

http://listasde10.blogspot.com/2010/07/10-filmes-da-nouvelle-vague.html

Alexandre Astruc escreveu o texto que antecipou a criação da Nouvelle Vague:

http://popeseries.blogspot.com/2019/01/alexandre-astruc-escreveu-o-texto-que_26.html

'Les Mistons' - O curta-metragem de Truffaut que antecipou toda a sua obra:

https://codigocine.com/les-mistons-truffaut/

Texto de Truffaut - Uma certa tendência do cinema francês:

https://designvisualuff.files.wordpress.com/2011/08/franccca7ois-truffaut-uma-certa-tendecc82ncia-do-cinema-francecc82s1.pdf

'Cinefilia', livro do jornalista e historiador Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França, entre 1944 e 1968. Baecque também escreveu as biografias de Godard, Truffaut e da 'Cahiers du Cinéma'.

Texto sobre 'Le Coup du Berger':

https://www.cineclubdecaen.com/realisat/rivette/coupduberger.htm

Texto sobre curtas-metragens de Jacques Rivette:

http://www.kinoforum.org.br/curtas/2017/filme/52006/aos-quatro-cantos

Matéria com relação de todas as matérias publicadas na 'Cahiers du Cinéma' entre 1951-1964:

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quinta-feira, 30 de maio de 2019

'Acossado': Uma foto e uma história sobre o revolucionário filme de Godard!

'Acossado': Uma foto e uma história sobre o revolucionário filme de Godard! - Marcos Doniseti!
Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg ouvem Godard na época das filmagens de 'Acossado'. A expressão deles diz tudo sobre o que Godard estava fazendo. Eles sequer imaginavam que estavam participando de um dos mais revolucionários filmes da história do Cinema mundial.


Nessa foto, aparentemente o Godard está explicando para Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg o que ele queria que eles fizessem em 'Acossado'.

Mas a impressão que a imagem passa é que Belmondo e Seberg estão pensando algo como 'Onde é que eu fui amarrar o meu burrinho? Esse Godard é maluco...'.

Como eu faço para abandonar esse filme doido feito por esse louco?'.

Bem, foi isso mesmo que eles pensaram durante as filmagens.

Em sua autobiografia (Mil Vidas valem mais do que Uma), Belmondo conta que ele e Seberg estranharam muito o método de trabalho de Godard, que reescrevia o roteiro diariamente e entregava o mesmo, com as cenas e diálogos, para os dois pouco tempo antes de começar a filmar.

Belmondo conta, em seu livro, que um dia o Godard chegou para ele e disse 'na próxima cena você vai entrar naquele restaurante' e o Belmondo perguntou 'e faço o que?'. Godard respondeu 'O que você quiser'...

Godard fazia isso porque ele queria uma interpretação que fosse a mais natural e realista possível.

Mas quem trabalhava desta maneira, naquela época?

Ninguém, é claro.

Então, Belmondo e Seberg concluíram que o Godard era louco, que o filme era maluco e que o mesmo seria um gigantesco fracasso.

Mas como eles já haviam assinado contrato, decidiram fazer o filme mesmo assim. 
Jean-Paul Belmondo escreveu uma ótima autobiografia, na qual temos um capítulo inteiro dedicado à sua participação em 'Acossado'.

A agente de Belmondo fez de tudo para que ele desistisse do filme, dizendo que o mesmo iria destruir a sua carreira, que nunca mais ele seria chamado para fazer um filme.

Mas ele permaneceu até o fim das filmagens, que duraram 21 dias, entre Agosto e Setembro de 1959.

E Belmondo conta que quando o filme estreou em Paris, em Março de 1960, ele pediu para que a sua então esposa fosse assistir a 'Acossado' e observasse a reação do público. Ele dizia que isso determinaria o sucesso ou o fracasso do filme.

Daí, quando ela chegou da exibição com um sorriso imenso e contou o que tinha ouvido do público, ele sabia que 'Acossado' seria um grande sucesso.

E no dia seguinte o seu telefone não parava mais de tocar, tanto que teve mudar o número do mesmo, de tantas eram as propostas de trabalho que Belmondo passou a receber, com cachês imensos, muito maiores do que aquele que ganhou para fazer 
'Acossado'.

E Belmondo também conta que Godard convidou Jean Seberg porque tinha uma paixão secreta por ela e que pensava em se aproximar dela durante as filmagens.

Mas nada aconteceu. 

Esse Godard...