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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento!

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento! - Marcos Doniseti!

Imagens de 10 filmes clássicos da Nouvelle Vague: 'Nas Garras do Vício' (Chabrol); 'Acossado' (JL Godard); 'Os Incompreendidos' (F.Truffaut); 'Hiroshima, meu Amor' (A.Resnais); 'Lola' (J.Demy); 'Jules et Jim' (F.Truffaut); 'Adeus, Philippine' (J.Rozier); 'Cléo das 5 às 7' (A.Varda); 'O Desprezo' (JL Godard) e 'Minha Noite com Ela' (E.Rohmer).

Os antecedentes da Nouvelle Vague!

A Nouvelle Vague foi, com certeza, o mais revolucionário movimento cinematográfico da história. 

Embora muitos considerem que a origem do movimento, no Cinema, sejam os dois primeiros longas-metragens de Claude Chabrol ('Nas Garras do Vício' e 'Os Primos', de 1958 e 1959, respectivamente) e o primeiro de François Truffaut ('Os Incompreendidos', de 1959), antes destes longas nós tivemos a realização de alguns curtas e de alguns médias-metragens pelos criadores do movimento.

Estes foram cinco críticos e teóricos de cinema da 'Cahiers du Cinéma' e que ficaram conhecidos como os 'Jovens Turcos': Éric Rohmer, François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. 

Estas produções de Godard, Truffaut, Rivette e Rohmer (Chabrol nunca fez curta, estreando direto com um longa-metragem) foram realizadas antes deles começarem a produzir os longas-metragens pelos quais ficariam famosos e que foram responsáveis por deixar os seus nomes imortalizados na história do Cinema. 

Apesar de serem produções da década de 1950, quase todas podem ser encontradas, na Internet. Muitas estão disponíveis no Youtube, em versões com e sem legendas em português. Outros curtas e médias contam com legendas em espanhol, francês e inglês, principalmente. 

Vale a pena pesquisar e assistir estes curtas e médias-metragens, que mostram algumas das principais características que estariam presentes nas obras que estes talentosos e inovadores cineastas construíram posteriormente. 

Assim, em 'Les Mistons' ('Os Pivetes'; 1957) já temos a presença de todos os principais elementos que marcariam a fantástica obra de François Truffaut: 

- O fascínio pelas mulheres;

- O sentimento de inferioridade dos homens em relação às mulheres;

- O fetiche;

- A fatalidade do relacionamento amoroso, que sempre termina mal.

Obs: No final do texto eu publiquei os links para quem desejar assistir aos filmes. 

E também é bom citar, na arte da escrita, que alguns textos foram muito importantes para a ascensão da Nouvelle Vague, incluindo o artigo de Alexandre Astruc prevendo o futuro nascimento de um cinema autoral e, logo, da Nouvelle Vague. O texto foi publicado em Março de 1948 (ver link abaixo) na revista "L'Ecran française" e se intitulou 'O Nascimento de uma nova vanguarda: A Câmera-Stylo'. 

Além disso, o texto 'Por uma nova tendência do cinema francês', de Truffaut, publicado na 'Cahiers du Cinéma' em Janeiro de 1954, também é de grande importância, pois criticava o cinema chamado de 'tradição de qualidade' francês e que se caracterizava pelo conservadorismo, pela mesmice e por desprezar o uso dos recursos específicos do cinema. 

Na época em que os 'Jovens Turcos' eram críticos e teóriclos da 'Cahiers', Truffaut era quem comandava as críticas ao conservador e padronizado cinema francês, assumindo a linha de frente nesta batalha, embora ele o fizesse com total respaldo dos demais membros do grupo (Chabrol, Rivette, Rohmer e Godard). 
Maria Lysandre em uma cena de 'Une Femme Coquette' (1955), primeiro curta de ficção dirigido por Godard.

Nas origens da Nouvelle Vague: Curtas e Médias-Metragens!

Jean-Luc Godard!


Opération Béton (1954; 20 minutos; 35 mm): 

É um documentário sobre a construção de uma barragem, em Grand-Dixence, que foi realizado em 1954. Godard vendeu o mesmo para a empresa responsável pela obra, e o dinheiro obtido com a venda lhe permitiu sobreviver por mais dois anos e também possibilitou que ele filmasse o curta seguinte (Une Femme Coquette).

Une Femme Coquette (1955; 10 minutos; 16 mm): 

Este foi o primeiro curta ficcional de Godard, ainda realizado no formato de 16 mm, no qual ele fez tudo: escreveu o roteiro, dirigiu e foi o responsável pela fotografia. 

Ele foi realizado em Genebra, sendo baseado em um conto de Guy de Maupassant ('The Signal', que também inspirou seu longa 'Masculine Féminine', de 1966), e mostra uma mulher (interpretada por Maria Lysandre) que se disfarça de prostituta para seduzir os homens. O filme foi considerado perdido por muitos anos, mas acabou sendo encontrado, felizmente. 

Charlotte et Véronique, ou Tons les garçons S'appellent Patrick (1957; 19 minutos; 35 mm): 

Este foi o primeiro curta-metragem de ficção em 35 mm que foi realizado por Godard. 

Charlotte é interpretada por Anne Colette, por quem Godard estava apaixonado na época e a quem ele gostaria de ter dado o papel de Patricia em 'Acossado' (1959). Nicole Berger interpreta Véronique.

No curta, um jovem conquistador (Patrick), interpretado por Jean-Claude Brialy (ator muito presente nos filmes da Nouvelle Vague), marca encontros com duas jovens (Charlotte e Véronique) e, depois, também se encontra com uma terceira. O curta é repleto de referências cinematográficas, antecipando uma característica que estaria sempre presente na obra de Godard. 

Une Histoire d'Eau (Godard e Truffaut; 1958; 12 minutos; 35 mm): 

Jean-Claude Brialy e Caroline Dim participam deste curta-metragem que é resultado de uma colaboração entre Truffaut e Godard. As filmagens foram feitas por Truffaut e mostravam uma gigantesca inundação que ocorreu na região de Paris, mas ele não as finalizou. Depois, Godard pediu para terminar o curta e Truffaut concordou. 

Assim, Godard montou, sonorizou e comentou as imagens feitas por Truffaut. Godard também fez a dublagem de Jean-Claude Brialy. No roteiro temos inúmeras referências literárias, cinematográficas e pictóricas, característica que estaria presente em toda a fantástica carreira de Godard. 

Charlotte et son Jules  (1958; 13 minutos; 35 mm): 

Godard escreveu o roteiro, os diálogos, dirigiu e comentou este curta. 

Este curta antecipa a sequência central de 'Acossado'. 

Nele, vemos o jovem Jules (interpretado por Jean-Paul Belmondo) fazer um longo monólogo em um quarto de hotel, criticando sua namorada (Charlotte) que havia decidido deixá-lo para namorar outro jovem que lhe prometera uma carreira no cinema. Enquanto isso, Charlotte (interpretada por Anne Colette) fica ouvindo o longo discurso de Jules.

Godard gostou tanto da atuação de Belmondo (que foi dublado pelo próprio Godard) que o avisou de que quando ele dirigisse o seu primeiro longa-metragem, Belmondo estaria no mesmo. Belmondo não acreditou muito, na época, mas em 1959 foi chamado por Godard para trabalhar em 'Acossado', que o transformou imediatamente numa estrela do cinema francês. 
'Les Mistons' (Os Pivetes): Cena com Gérard Blain e Bernadette Lafont (que eram casados). O curta-metragem dirigido por Truffaut, em 1957, já antecipava todos os principais temas da sua vasta e fundamental obra cinematográfica.

François Truffaut!


Une Visite (Uma Visita; 1954; 16 mm): Este é o primeiro curta-metragem de Truffaut, sendo um filme mudo com apenas oito minutos de duração, que o realizou no final de 1954. 

As filmagens duraram apenas cinco dias. Jacques Rivette foi o responsável pelo enquadramento e pela fotografia, enquanto um amigo de Truffaut, Robert Lachenay,  assumiu as funções de produtor e assistente.

A história é bem simples: Um jovem procura um quarto para alugar em um apartamento, telefona para a proprietária, que é uma jovem que mora sozinha. 

O cunhado da jovem locatária vai até o local, levando a sua neta, para ficar ali durante o final de semana. Ele tenta flertar com a jovem, mas não consegue nada. Daí, o inquilino também flerta com a dona do apartamento, mas também é rechaçado, levando-o a ir embora do local. 

O resultado final desagradou Truffaut, que o considerou muito amadorístico, levando-o a retomar a atividade como crítico e a estudar melhor os segredos dos grandes mestres do Cinema; 

Les Mistons (Os Pivetes; 1957; 18 minutos): Curta que foi baseado em uma novela de autoria de Maurice Pons. A história gira em torno de um grupo de adolescentes que fica infernizando um casal de namorados (Gérard e Bernadette), que são interpretados por Gérard Blain e Bernadette Lafont, que eram casados naquela época. As filmagens duraram cinco semanas e a primeira exibição do curta ocorreu em 17/11/1957. 

Une Histoire d'Eau (1958): Ver comentário acima, no item sobre Godard. 
Cena de 'Le Coup du Berger', curta-metragem de Jacques Rivette, de 1956.

Jacques Rivette!


Aux Quatre Coins (1949; 20 minutos): 

Segundo um comentário que li na Internet, este é um filme silencioso que estimula o espectador a imaginar a sua própria história. 

Le Quadrille (A Quadrilha; 1950; 40 minutos): 

Quatro pessoas sentadas (duas mulheres e dois homens) ao redor de uma mesa e que ficam se olhando. Depois de dez minutos elas começam a ir embora e ficam apenas um homem (Godard) e uma garota. 

Le Divertissement (A Diversão; 1952; 42 minutos): 

Vários personagens em busca de um romance. E neste média-metragem também temos a presença de Jean-Claude Brialy. Aliás, é impressionante a quantidade de filmes desta época da Nouvelle Vague dos quais ele participou. 

Le Coup du Berger (O Truque do Pastor; 1956; 28 minutos): 

Uma mulher casada ganha um presente do amante e tenta enganar o seu marido, mas este mostra que de bobo não tem nada. 

O filme conta com as participações de Truffaut, Chabrol, Godard e de Jacques Doniol-Valcroze, que eram todos críticos da 'Cahiers du Cinéma'. E o Jean-Claude Brialy está presente em mais um filme deste período. 

Cena de 'La Sonate à Kreutzer', que é um média-metragem, de 1956. Ele foi dirigido por Éric Rohmer.

Éric Rohmer!

Journal d'um Scélérat (1950): Uma adaptação livre de uma obra de Erich von Stroheim ('Folies de Femmes'). 

Bérénice (1954; 22 minutos; 16 mm): Filme baseado em obra de Edgar Alla Poe e que mostra um homem obcecado pelos dentes de sua noiva. O filme foi realizado na casa de André Bazin por Rivette, que também fez a edição do filme.

La Sonate à Kreutzer (1956; 50 minutos; 16mm): Filme baseado em um livro de Tolstoi, que foi produzido por Godard, e que trata de uma mulher casada que se apaixona por outro homem, o que irá provocar um sério conflito entre os dois. 

As cenas foram filmadas nos escritórios da 'Cahiers du Cinéma' e nelas vemos André Bazin e quatro dos cinco integrantes dos Jovens Turcos da Cahiers: Rohmer, Truffaut, Chabrol e Godard (faltou apenas o Rivette). O filme conta com a participação de Jean-Claude Brialy.

Véronique et son Cancre (1958; 18 minutos): Mãe contrata uma jovem (interpretada por Nicole Berger) para ensinar Francês e Matemática ao seu filho, que era um aluno preguiçoso (significado da expressão 'cancre' em francês). Mas a tentativa não dá muito certo. 

Présentation ou Charlotte et son Steak (1960; 12 minutos): Charlotte (Stephanie Audran) e Walter (Jean-Luc Godard) são namorados. Ele apresenta Clara (Anna Karina) para a namorada, a fim de provocar ciúmes na mesma. Eles se despedem de Clara e vão até a casa de Charlotte, que prepara um bife para ambos, enquanto tentam resolver a situação gerada por Clara. 

Obs: Dos cinco críticos da Cahiers du Cinéma que criaram a Nouvelle Vague, Claude Chabrol foi o único que não dirigiu nenhum curta ou média-metragem. Ele estreou direto com um longa, que foi o 'Le Beau Berger' (Nas Garras do Vício), que foi filmado entre o final de 1957 e o início de 1958, mas cujo lançamento atrasou, ocorrendo apenas em Janeiro de 1959.
'Une Histoire d'Eau': Jean-Claude Brialy e Caroline Dim atuaram neste filme em que Godard e Truffaut colaboraram diretamente. Truffaut fez as filmagens e Godard finalizou o curta, que havia sido abandonado por Truffaut.

Curtas e Médias-Metragens no Youtube!

Aux Quatre Coins (Jacques Rivette; 1949):


Le Quadrille (Jacques Rivette; 1950; 39 minutos)!


Le Divertissement (Jacques Rivette; 1952; 41 minutos)!


Opération Béton - Jean-Luc Godard (1954; 17 minutos):


Une Femme Coquette  - JL Godard (Uma Mulher Faceira; 1955; 10 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=S_bkx3Tu4k8&t=63s

La Sonate à Kreutzer - Éric Rohmer (A Sonata de Kreutzer; 1956; 42 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=xEmMabF_IKI

Le Coupe du Berger (Jacques Rivette; 1956; 28 minutos)!


Les Mistons - F.Truffaut (Os Pivetes; 1957; 18 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=CTxnUPnkcVk

Charlotte et Véronique - Tous les garçons s'appellent Patrick - JL Godard - (Charlotte e Véronique - Todo os rapazes se chamam Patrick; 1957; 19 minutos; 35mm; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=iNYGjBhkKTQ&t=109s
Biografia de François Truffaut foi uma das fontes de informação que usei para escrever esse texto. Livro excelente e que é fundamental para os admiradores da Nouvelle Vague.

Une histoire d'Eau - JL Godard e F. Truffaut (Uma História da Água; 1958; 12 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=-4lRTdgkpBI

Véronique et son Cancre - Éric Rohmer (Véronique eseu filho preguiçoso; 1958; 18 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=4aWEKPByLzc

Charlotte et son Jules - JL Godard (Charlotte e seu Namorado; 1958; 13 minutos; 35 mm):

https://www.youtube.com/watch?v=8pp0Z5AsinU&t=229s  (legenda em italiano);

https://www.youtube.com/watch?v=ADRb_r09TFg  (legenda em Francês);

Charlotte et son Steak - Éric Rohmer (Charlotte e seu Bife; 1960; 9:30 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=4DB0Cwlpu44
'A Nouvelle Vague e Godard', de Michel Marie, é um livro essencial para se entender a origem do movimento. E o autor ainda disseca o clássico 'Acossado'.


Links com Textos sobre a Nouvelle Vague! 

A Nouvelle Vague na época em que fazia 50 anos:

https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,em-cena-a-nouvelle-vague-de-godard-e-truffaut,557154

'Une Femme Coquette' - Filme raro de Godard reaparece na íntegra:

https://www.revistaprosaversoearte.com/une-femme-coquette-um-filme-raro-de-jean-luc-godard-reaparece-na-integra/

'Cahiers du Cinéma': Jean Seberg (em foto de 'Acossado') na capa da revista, na edição de Janeiro de 1960 (de número 103).

Lista de 10 filmes essenciais da Nouvelle Vague:

http://listasde10.blogspot.com/2010/07/10-filmes-da-nouvelle-vague.html

Alexandre Astruc escreveu o texto que antecipou a criação da Nouvelle Vague:

http://popeseries.blogspot.com/2019/01/alexandre-astruc-escreveu-o-texto-que_26.html

'Les Mistons' - O curta-metragem de Truffaut que antecipou toda a sua obra:

https://codigocine.com/les-mistons-truffaut/

Texto de Truffaut - Uma certa tendência do cinema francês:

https://designvisualuff.files.wordpress.com/2011/08/franccca7ois-truffaut-uma-certa-tendecc82ncia-do-cinema-francecc82s1.pdf

'Cinefilia', livro do jornalista e historiador Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França, entre 1944 e 1968. Baecque também escreveu as biografias de Godard, Truffaut e da 'Cahiers du Cinéma'.

Texto sobre 'Le Coup du Berger':

https://www.cineclubdecaen.com/realisat/rivette/coupduberger.htm

Texto sobre curtas-metragens de Jacques Rivette:

http://www.kinoforum.org.br/curtas/2017/filme/52006/aos-quatro-cantos

Matéria com relação de todas as matérias publicadas na 'Cahiers du Cinéma' entre 1951-1964:

http://www.revistainterludio.com.br/?p=7052

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Uma pequena história sobre o início da 'Nouvelle Vague'!

Uma pequena história sobre o início da 'Nouvelle Vague'! - Marcos Doniseti!
Imagens de filmes clássicos da Nouvelle Vague.

Jacques Rivette foi o primeiro cineasta da Nouvelle Vague a dirigir um longa-metragem!

A Nouvelle Vague foi criada por um grupo de críticos originários da revista 'Cahiers du Cinéma' e que incluía Trufffaut, Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer. Nesta fase, em que eles atuavam como críticos de cinema, Truffaut era o nome mais combativo, popular e polêmico. 

Seu texto 'Uma certa tendência do cinema francês', publicado em Janeiro de 1954 na  edição de número 31 da 'Cahiers du Cinéma', balançou os alicerces da conservadora indústria cinematográfica do país, gerando um debate que durou muitos anos, sendo que o mesmo teve continuidade até a década de 1960, época em que os cineastas do movimento lançaram inúmeros filmes. Nos primeiros anos da "Nouvelle Vague" muitos críticos de cinema franceses torciam o nariz e atacavam duramente os filmes do movimento.

Rivette foi o pioneiro, entre os membros do movimento, a iniciar a produção de um longa-metragem ("Paris nos Pertence"), ainda em 1957, mas a falta de recursos impediu que o filme fosse concluído naquele ano. Antes dele, Éric Rohmer havia dirigido um média-metragem ("La sonate à Kreutzer", de 1956). 

Se isso tivesse acontecido, então "Paris nos Pertence" teria sido o primeiro longa-metragem de um cineasta do movimento a ser exibido comercialmente. Infelizmente, o filme de Rivette demorou muito para ser finalizado e acabou sedo lançado apenas em 1961, quando a "Nouvelle Vague" não era mais uma novidade e os nomes de Truffaut, Godard e Chabrol já eram conhecidos de todos e desfrutavam de um grande prestígio no cinema francês e mundial.
"A Nouvelle Vague e Godard", de Michel Marie, é um livro essencial para se entender o movimento e o primeiro longa-metragem de Godard.

Assim, foi Claude Chabrol quem dirigiu os dois primeiros longas-metragens da Nouvelle Vague, que foram 'Nas Garras do Vício' e 'Os Primos', sendo que ambos fizeram muito sucesso. Os dois filmes foram filmados em 1958 e acabaram sendo lançados em Janeiro e Março de 1959.

Logo depois, Truffaut lançou 'Os Incompreendidos', que é um filme com uma característica fortemente autobiográfica e que também fez um grande sucesso, com o jovem cineasta recebendo o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1959. 

No mesmo festival, outro cineasta que se consagrou com o seu primeiro longa-metragem foi Alain Resnais, com o clássico "Hiroshima Mon Amour", também de 1959, que recebeu o prêmio de melhor filme da crítica francesa e que foi muito elogiado por Godard, Truffaut e Chabrol.

Com o sucesso destes três filmes, o prestígio de Truffaut e Chabrol cresceu
tanto que foi somente com a assinatura deles na produção e no roteiro de 'Acossado' que o Godard conseguiu dirigir o seu primeiro e atemporal longa-metragem.

Godard, até o verão de 1959 (quando "À Boute De Souffle" foi filmado), tinha realizado apenas um documentário, que foi 'Opération Béton' (1958), e quatro curtas-metragens, que foram "Une Femme Coquette" (1955), "Une Histoire d'Eau" (1958), "Charlotte et son Jules" (1958) e "Charlotte et Véronique, ou Tous les garçons s'appelent Patrick" (1959).
Livro "O Prazer dos Olhos" reúne inúmeras críticas e textos de autoria de François Truffaut.

Em "Charlotte et son Jules" (curta de 1958) nós tivemos a participação de Jean-Paul Belmondo e Godard gostou tanto da sua atuação, fortemente marcada por uma grande capacidade de improvisação, que ele avisou Belmondo de que quando fosse filmar o seu primeiro longa-metragem ele, Belmondo, seria convidado a trabalhar no mesmo. Mas, na edição final de 'Charlotte et son Jules' Belmondo acabou sendo dublado por outro ator. 

Belmondo disse, em sua autobiografia ("Mil Vidas valem mais do que Uma", lançada no Brasil pela L&PM Editores em 2018) que não levou muito a sério essa promessa do Godard, mas quando este conseguiu viabilizar a produção de 'Acossado', o mesmo foi chamado a interpretar o protagonista da história, um criminoso que pratica o roubo de um carro e mata um policial e que passa a ser perseguido por toda a Polícia francesa. 

A brilhante atuação de Belmondo em 'Acossado' o transformou instantaneamente em uma estrela de primeira grandeza do cinema francês e a partir dali não lhe faltaram mais propostas de trabalho. É justamente por isso que em seu livro Belmondo agradeceu a Godard, com o qual ele voltou a trabalhar em 'Une Femme est une Femme' (1961) e em 'Pierrot le Fou' (1965). 

Nesta época, Belmondo era um ator de talento que ainda procurava conquistar o seu espaço no cinema francês, que não facilitava muito o surgimento de novos rostos e tampouco de novos diretores e roteiristas. A indústria do cinema francês dos anos 50, pré-Nouvelle Vague, era bastante fechada e conservadora, o que levou os críticos da 'Cahiers' a fazer duras críticas à mesma, vindas principalmente de François Truffaut, que era o mais ácido crítico da 'Cahiers'. 
Godard e a belíssima Jean Seberg durante as filmagens de 'Acossado'. Belmondo disse, em sua autobiografia, que Godard tinham uma paixão secreta pela atriz e que a convidou para participar do filme em função disso.
O roteiro de 'Acossado': Quem é o autor?

O roteiro de "À Bout De Souffle" ("Acossado") foi baseado em uma história real, que envolveu um criminoso francês chamado Michel Portail que, em 1952, roubou um carro e matou um policial. Ele foi perseguido e preso pela polícia francesa durante um fim de semana que mobilizou toda a imprensa da França. No filme, o final da história de Michel foi modificada por Godard.

Porém, os produtores franceses estavam receosos de aplicar dinheiro em um longa-metragem que seria realizado por um diretor estreante (Godard, é claro), que nunca havia realizado um longa-metragem. Isso aconteceu porque após o grande sucesso inicial dos filmes de Truffaut e Chabrol nós tivemos a produção, na França, de inúmeros filmes dirigidos por cineastas estreantes e a imensa maioria deles fracassou comercialmente. 

Para conseguir convencer estes produtores (Georges de Beauregard, em especial), Truffaut e Chabrol decidiram ajudar o amigo Godard, o que era algo comum entre os cineastas do movimento que, nesta época, viviam ajudando uns aos outros quando os mesmos enfrentavam dificuldades para realizar os seus filmes.

Exemplo dessa colaboração é que nos primeiros filmes de Godard e Truffaut, cada um deles citava o filme do outro em suas obras. Em "Une femme est une Femme" (1961), de Godard, vemos várias referências á "Jules et Jim", que Truffaut estava filmando na época, contando até mesmo com uma pequena participação de Jeanne Moreau (protagonista de "Jules et Jim"). Nesta cena, Anna Karina pergunta para Jeanne Moreau como estavam Jules e Jim. 
Godard e Truffaut: Uma amizade de 20 anos acabou sendo rompida por questões políticas e ideológicas, mas no início da carreira eles colaboraram muito com o outro, ajudando-se mutuamente. 

Marie Dubois também fez uma pequena participação no mesmo filme de Godard, em que ela contracena com Anna Karina e na qual temos uma referência ao segundo filme dirigido por Truffaut, que foi "Atirem no Pianista" (1961), do qual Marie participou. 

Assim, graças a essa colaboração entre Godard e Truffaut, foi informado a Beauregard que o roteiro de "À Bout De Souffle" era de autoria de Truffaut e que Chabrol seria um consultor técnico do filme. Na verdade, isso foi feito apenas para conseguir convencer Beauregard e os outros produtores a bancar o filme de estreia do Godard e esse objetivo foi alcançado.

No entanto
, de fato, o roteiro de 'Acossado' foi escrito pelo próprio Godard, que o escrevia durante o café da manhã, filmando as cenas à tarde. Na verdade, o que Truffaut escreveu, antes, tinha sido apenas uma sinopse, com um resumo da história. O roteiro, com as cenas e diálogos, foi obra de Godard. Além disso, Chabrol nunca trabalhou como consultor técnico de Godard, sendo que jamais apareceu nas filmagens. 

Portanto, os nomes de Truffaut e Chabrol foram ligados à produção de "Acossado" como uma forma de dar um aval criativo, por meio do qual eles garantiam aos produtores que Godard era um ótimo diretor e que eles não perderiam dinheiro se investissem na produção do filme. 

E como o genial Godard sabia muito bem o que desejava fazer, o 'Filme Manifesto' (como diz Michel Marie em seu livro) "À Bout De Souffle" acabou se tornando um dos mais revolucionários e essenciais filmes da história do Cinema mundial.
Chabrol e Godard, dois dos grandes nomes da história do Cinema mundial. 
Links:

Inácio Araújo comenta livros de Bazin e Truffaut:


Inácio Araújo: 'Acossado' tirou as amarras do Cinema: