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sexta-feira, 19 de julho de 2019

'Cahiers du Cinéma': Como foi a sua recepção para a 'Nouvelle Vague"!

'Cahiers du Cinéma': Como foi a sua recepção para a 'Nouvelle Vague'! - Marcos Doniseti!
Cenas de 10 filmes essenciais da Nouvelle Vague: "Nas Garras do Vício' (Chabrol); 'Acossado' (Godard); 'Os Incompreendidos' (Truffaut); 'Hiroshima, Meu Amor' (A. Resnais); 'Lola' (Jacques Demy); 'Jules e Jim' (Truffaut); 'Adeus Philippine' (Jacques Rozier'); 'Cléo das 5 às 7' (A. Varda); 'O Desprezo' (Godard) e 'Minha Noite com Ela' (Éric Rohmer). 


Muitas pessoas pensam que, pelo fato dos cineastas que criaram 'Nouvelle Vague' (Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette e Rohmer) terem sido críticos da revista ''Cahiers du Cinéma", a publicação sempre teria defendido o movimento, desde o início, quando Claude Chabrol, em 1958, filmou o primeiro longa-metragem da história da Nouvelle Vague, que foi "Le Beau Serge" ('Nas Garras do Vício'; 1958).

Mas não foi isso que aconteceu, por incrível que possa parecer. Nos primeiros anos da Nouvelle Vague a 'Cahiers du Cinéma' não defendia os filmes dos cineastas do movimento. Ela comentava os filmes, nas não defendia o movimento contra as críticas que eram feitas ao mesmo da parte de outras publicações, como a 'Positif'.

Isso não acontecia porque a equipe da revista tinha sido bastante modificada após a saída dos 'Jovens Turcos', que criaram a Nouvelle Vague, se tornaram cineastas e não colaboravam mais com a publicação.

Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette não estavam mais colaborando com a revista, pois as suas carreiras de cineastas tinham deslanchado e, desta maneira, eles realizavam filmes em sequência. Assim, nesta época em que a Nouvelle Vague estava começando, quem comandava a revista era o Eric Rohmer (cujo nome verdadeiro era Jean-Marie Maurice Schérer), que se recusava a assumir a defesa da Nouvelle Vague nas páginas da revista. 

A respeito da atuação da 'Cahiers', Rohmer disse o seguinte: "Nosso alvo é um público restrito, cuja ótica é a do museu... Se ainda não existem, no mundo, museus do cinema digno desse mundo, cabe a nós estabelecer suas fundações. Este é o objetivo mais claro da nossa luta, que esperamos travar, nos anos vindouros, de maneira mais ativa, mais precisa, mais circunstancial".
Claude Chabrol e Jean-Luc Godard no escritório da 'Cahiers du Cinéma', em 1959.

Traduzindo: A 'Cahiers' não iria assumir a defesa da Nouvelle Vague naquele momento, pois Rohmer entendia que ainda era muito cedo para se confirmar a qualidade das produções dos cineastas do movimento. Para Rohmer, seria necessário 'dar tempo ao tempo' até que as inegáveis virtudes dos filmes da Nouvelle Vague fossem reconhecidas para que, somente depois disso, a 'Cahiers' assumisse a defesa do movimento. 

Enquanto isso, os críticos franceses das outras publicações dedicadas ao Cinema eram extremamente hostis à Nouvelle Vague e, como a 'Cahiers' seguia a orientação de Rohmer, a publicação recusava-se a defender a Nouvelle Vague nos primeiros anos do movimento. 

Por isso mesmo é que o Rohmer acabou sendo retirado do comando da revista a partir de Agosto de 1962, que passou para um colegiado no qual a maioria dos integrantes era de críticos que defendiam a Nouvelle Vague. 

E a partir de 1963 a revista passará a ser comandada por Jacques Rivette, que imprimiu uma orientação totalmente diferente para a 'Cahiers', que passou a promover os inúmeros 'Cinemas Novos' que se desenvolviam pelo mundo afora,(Brasil, Canadá, Japão, Tchecoslováquia, Polônia, etc).

É bom que se diga que não era essa a intenção dos críticos que se rebelaram contra a orientação imposta por Rohmer à 'Cahiers'. A ideia inicial era fazer um acordo com Rohmer. 
Bernadette Lafont, Gérard Blain e Jean-Claude Brialy em cena do filme 'Le Beau Berger' ('Nas Garras do Vício'; 1958), que foi o primeiro longa-metragem de um cineasta da Nouvelle Vague.

Porém, a resistência de Rohmer a permitir que a 'Cahiers' assumisse a defesa da 'Nouvelle Vague' era tão grande que foi necessário organizar um verdadeiro 'complô' para retirar o mesmo do comando da revista. Esse 'complô' começou no início de Junho de 1962 e foi comandado por Doniol-Valcroze (que era o principal acionista da revista, seguido de Truffaut), Jacques Rivette, Pierre Kast eTruffaut. Logo depois, Godard se uniu ao grupo. 

Em um primeiro momento os líderes deste 'complô' tentaram convencer o então editor-chefe da 'Cahiers', por quem eles tinham um grande respeito e chamavam, carinhosamente, de 'Grande Momo', a mudar a orientação da revista, sem que fosse necessário tirar Rohmer do cargo, mas este resistiu fortemente a isso, pois entendia que a publicação estava melhor do que nunca. 

Desta maneira, Rohmer jogava para o futuro a possibilidade de se promover mudanças na linha editorial da 'Cahiers', que era definida por ele mesmo. 

Com isso, Doniol-Valcroze decidiu escrever um editorial que seria submetido aos outros quatro integrantes do movimento e que seria publicado na 'Cahiers' e no qual ele defenderia a mudança de orientação da linha editorial da revista. 

É bom que fique registrado que eles procuraram fazer isso enquanto reconheciam a importância de Rohmer para a publicação, elogiando, no editorial, o trabalho que ele havia feito no comando da 'Cahiers'. Desta maneira, em um primeiro momento, eles tentaram um entendimento com Rohmer. 

Mas o 'Manifesto dos Cinco', como ficou conhecido o editorial de Jacques Doniol-Valcroze, foi rejeitado por Rohmer, que recusou até mesmo publicar o texto na 'Cahiers'. Em função disso, Truffaut escreveu, em 5 de Julho, uma carta para Doniol-Valcroze, no qual resume o impasse em que a revista se encontrava e manifestava o desejo de se chegar a um acordo com Rohmer, mas ele confessava que não sabia como isso seria possível. 
Eric Rohmer e Truffaut durante as filmagens de 'La Chambre Verte', filme dirigido por Truffaut, em 1977.

Doniol-Valcroze, assim, volta a tentar convencer Rohmer da necessidade de se promover mudanças na orientação da 'Cahiers', usando de vários argumentos, como o de que a revista não deveria ter medo de "à nossa maneira, e ao nosso estilo, voltar à luta e não ter medo de com isso parecer defender nossos próprios bastiões".

Ele dizia que o objetivo dos cinco não era revolucionar a revista (leia-se: eles não queriam afastar Rohmer do comando), mas acrescentar algo, ou seja, a defesa da Nouvelle Vague por parte da publicação que, até aquele momento, atuava como se não tivesse nada a ver com o movimento, embora os criadores do mesmo tenham saído das páginas da 'Cahiers'.

No fim de Agosto de 1962, os cinco se reuniram e decidiram pressionar, de forma conjunta, ao teimoso Rohmer, que percebe que a direção do ventou mudou e decide fechar um acordo com os cinco. Desta maneira, ele decide permitir que a 'Cahiers' assuma a defesa da Nouvelle Vague.

Então, foi somente a partir de Agosto de 1962 é que a 'Cahiers' passou a defender abertamente a Nouvelle Vague, ou seja, quatro anos depois que o Chabrol tinha dirigido o primeiro longa-metragem da Nouvelle Vague ('Nas Garras do Vício'; 1958). 

Aliás, a Nouvelle Vague era violentamente atacada pelos críticos das inúmeras publicações francesas que eram dedicadas ao cinema (a 'Positif', por exemplo) naquela época.

A consagração dela viria anos mais tarde.  

Jean Seberg na capa da 'Cahiers', na edição de Janeiro de 1960, em cena de 'Acossado', primeiro longa-metragem de Godard que revolucionou a maneira de se fazer filmes.

Obs: Todas estas informações eu peguei no livro 'Cinefilia', de Antoine de Baecque (que também escreveu as biografias de Truffaut, Godard e a história da 'Cahiers'), no capítulo 9 do livro: "A passagem ao moderno: Como os Cahiers du Cinéma abalaram a cinefilia (1959-1966)", págs. 333 a 385.

Link:

Entrevista com Antoine de Baecque:
https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/cinefilia/

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento!

Nouvelle Vague: Os curtas e médias-metragens dos 'Jovens Turcos' da 'Cahiers du Cinéma' que anteciparam o movimento! - Marcos Doniseti!

Imagens de 10 filmes clássicos da Nouvelle Vague: 'Nas Garras do Vício' (Chabrol); 'Acossado' (JL Godard); 'Os Incompreendidos' (F.Truffaut); 'Hiroshima, meu Amor' (A.Resnais); 'Lola' (J.Demy); 'Jules et Jim' (F.Truffaut); 'Adeus, Philippine' (J.Rozier); 'Cléo das 5 às 7' (A.Varda); 'O Desprezo' (JL Godard) e 'Minha Noite com Ela' (E.Rohmer).

Os antecedentes da Nouvelle Vague!

A Nouvelle Vague foi, com certeza, o mais revolucionário movimento cinematográfico da história. 

Embora muitos considerem que a origem do movimento, no Cinema, sejam os dois primeiros longas-metragens de Claude Chabrol ('Nas Garras do Vício' e 'Os Primos', de 1958 e 1959, respectivamente) e o primeiro de François Truffaut ('Os Incompreendidos', de 1959), antes destes longas nós tivemos a realização de alguns curtas e de alguns médias-metragens pelos criadores do movimento.

Estes foram cinco críticos e teóricos de cinema da 'Cahiers du Cinéma' e que ficaram conhecidos como os 'Jovens Turcos': Éric Rohmer, François Truffaut, Claude Chabrol, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. 

Estas produções de Godard, Truffaut, Rivette e Rohmer (Chabrol nunca fez curta, estreando direto com um longa-metragem) foram realizadas antes deles começarem a produzir os longas-metragens pelos quais ficariam famosos e que foram responsáveis por deixar os seus nomes imortalizados na história do Cinema. 

Apesar de serem produções da década de 1950, quase todas podem ser encontradas, na Internet. Muitas estão disponíveis no Youtube, em versões com e sem legendas em português. Outros curtas e médias contam com legendas em espanhol, francês e inglês, principalmente. 

Vale a pena pesquisar e assistir estes curtas e médias-metragens, que mostram algumas das principais características que estariam presentes nas obras que estes talentosos e inovadores cineastas construíram posteriormente. 

Assim, em 'Les Mistons' ('Os Pivetes'; 1957) já temos a presença de todos os principais elementos que marcariam a fantástica obra de François Truffaut: 

- O fascínio pelas mulheres;

- O sentimento de inferioridade dos homens em relação às mulheres;

- O fetiche;

- A fatalidade do relacionamento amoroso, que sempre termina mal.

Obs: No final do texto eu publiquei os links para quem desejar assistir aos filmes. 

E também é bom citar, na arte da escrita, que alguns textos foram muito importantes para a ascensão da Nouvelle Vague, incluindo o artigo de Alexandre Astruc prevendo o futuro nascimento de um cinema autoral e, logo, da Nouvelle Vague. O texto foi publicado em Março de 1948 (ver link abaixo) na revista "L'Ecran française" e se intitulou 'O Nascimento de uma nova vanguarda: A Câmera-Stylo'. 

Além disso, o texto 'Por uma nova tendência do cinema francês', de Truffaut, publicado na 'Cahiers du Cinéma' em Janeiro de 1954, também é de grande importância, pois criticava o cinema chamado de 'tradição de qualidade' francês e que se caracterizava pelo conservadorismo, pela mesmice e por desprezar o uso dos recursos específicos do cinema. 

Na época em que os 'Jovens Turcos' eram críticos e teóriclos da 'Cahiers', Truffaut era quem comandava as críticas ao conservador e padronizado cinema francês, assumindo a linha de frente nesta batalha, embora ele o fizesse com total respaldo dos demais membros do grupo (Chabrol, Rivette, Rohmer e Godard). 
Maria Lysandre em uma cena de 'Une Femme Coquette' (1955), primeiro curta de ficção dirigido por Godard.

Nas origens da Nouvelle Vague: Curtas e Médias-Metragens!

Jean-Luc Godard!


Opération Béton (1954; 20 minutos; 35 mm): 

É um documentário sobre a construção de uma barragem, em Grand-Dixence, que foi realizado em 1954. Godard vendeu o mesmo para a empresa responsável pela obra, e o dinheiro obtido com a venda lhe permitiu sobreviver por mais dois anos e também possibilitou que ele filmasse o curta seguinte (Une Femme Coquette).

Une Femme Coquette (1955; 10 minutos; 16 mm): 

Este foi o primeiro curta ficcional de Godard, ainda realizado no formato de 16 mm, no qual ele fez tudo: escreveu o roteiro, dirigiu e foi o responsável pela fotografia. 

Ele foi realizado em Genebra, sendo baseado em um conto de Guy de Maupassant ('The Signal', que também inspirou seu longa 'Masculine Féminine', de 1966), e mostra uma mulher (interpretada por Maria Lysandre) que se disfarça de prostituta para seduzir os homens. O filme foi considerado perdido por muitos anos, mas acabou sendo encontrado, felizmente. 

Charlotte et Véronique, ou Tons les garçons S'appellent Patrick (1957; 19 minutos; 35 mm): 

Este foi o primeiro curta-metragem de ficção em 35 mm que foi realizado por Godard. 

Charlotte é interpretada por Anne Colette, por quem Godard estava apaixonado na época e a quem ele gostaria de ter dado o papel de Patricia em 'Acossado' (1959). Nicole Berger interpreta Véronique.

No curta, um jovem conquistador (Patrick), interpretado por Jean-Claude Brialy (ator muito presente nos filmes da Nouvelle Vague), marca encontros com duas jovens (Charlotte e Véronique) e, depois, também se encontra com uma terceira. O curta é repleto de referências cinematográficas, antecipando uma característica que estaria sempre presente na obra de Godard. 

Une Histoire d'Eau (Godard e Truffaut; 1958; 12 minutos; 35 mm): 

Jean-Claude Brialy e Caroline Dim participam deste curta-metragem que é resultado de uma colaboração entre Truffaut e Godard. As filmagens foram feitas por Truffaut e mostravam uma gigantesca inundação que ocorreu na região de Paris, mas ele não as finalizou. Depois, Godard pediu para terminar o curta e Truffaut concordou. 

Assim, Godard montou, sonorizou e comentou as imagens feitas por Truffaut. Godard também fez a dublagem de Jean-Claude Brialy. No roteiro temos inúmeras referências literárias, cinematográficas e pictóricas, característica que estaria presente em toda a fantástica carreira de Godard. 

Charlotte et son Jules  (1958; 13 minutos; 35 mm): 

Godard escreveu o roteiro, os diálogos, dirigiu e comentou este curta. 

Este curta antecipa a sequência central de 'Acossado'. 

Nele, vemos o jovem Jules (interpretado por Jean-Paul Belmondo) fazer um longo monólogo em um quarto de hotel, criticando sua namorada (Charlotte) que havia decidido deixá-lo para namorar outro jovem que lhe prometera uma carreira no cinema. Enquanto isso, Charlotte (interpretada por Anne Colette) fica ouvindo o longo discurso de Jules.

Godard gostou tanto da atuação de Belmondo (que foi dublado pelo próprio Godard) que o avisou de que quando ele dirigisse o seu primeiro longa-metragem, Belmondo estaria no mesmo. Belmondo não acreditou muito, na época, mas em 1959 foi chamado por Godard para trabalhar em 'Acossado', que o transformou imediatamente numa estrela do cinema francês. 
'Les Mistons' (Os Pivetes): Cena com Gérard Blain e Bernadette Lafont (que eram casados). O curta-metragem dirigido por Truffaut, em 1957, já antecipava todos os principais temas da sua vasta e fundamental obra cinematográfica.

François Truffaut!


Une Visite (Uma Visita; 1954; 16 mm): Este é o primeiro curta-metragem de Truffaut, sendo um filme mudo com apenas oito minutos de duração, que o realizou no final de 1954. 

As filmagens duraram apenas cinco dias. Jacques Rivette foi o responsável pelo enquadramento e pela fotografia, enquanto um amigo de Truffaut, Robert Lachenay,  assumiu as funções de produtor e assistente.

A história é bem simples: Um jovem procura um quarto para alugar em um apartamento, telefona para a proprietária, que é uma jovem que mora sozinha. 

O cunhado da jovem locatária vai até o local, levando a sua neta, para ficar ali durante o final de semana. Ele tenta flertar com a jovem, mas não consegue nada. Daí, o inquilino também flerta com a dona do apartamento, mas também é rechaçado, levando-o a ir embora do local. 

O resultado final desagradou Truffaut, que o considerou muito amadorístico, levando-o a retomar a atividade como crítico e a estudar melhor os segredos dos grandes mestres do Cinema; 

Les Mistons (Os Pivetes; 1957; 18 minutos): Curta que foi baseado em uma novela de autoria de Maurice Pons. A história gira em torno de um grupo de adolescentes que fica infernizando um casal de namorados (Gérard e Bernadette), que são interpretados por Gérard Blain e Bernadette Lafont, que eram casados naquela época. As filmagens duraram cinco semanas e a primeira exibição do curta ocorreu em 17/11/1957. 

Une Histoire d'Eau (1958): Ver comentário acima, no item sobre Godard. 
Cena de 'Le Coup du Berger', curta-metragem de Jacques Rivette, de 1956.

Jacques Rivette!


Aux Quatre Coins (1949; 20 minutos): 

Segundo um comentário que li na Internet, este é um filme silencioso que estimula o espectador a imaginar a sua própria história. 

Le Quadrille (A Quadrilha; 1950; 40 minutos): 

Quatro pessoas sentadas (duas mulheres e dois homens) ao redor de uma mesa e que ficam se olhando. Depois de dez minutos elas começam a ir embora e ficam apenas um homem (Godard) e uma garota. 

Le Divertissement (A Diversão; 1952; 42 minutos): 

Vários personagens em busca de um romance. E neste média-metragem também temos a presença de Jean-Claude Brialy. Aliás, é impressionante a quantidade de filmes desta época da Nouvelle Vague dos quais ele participou. 

Le Coup du Berger (O Truque do Pastor; 1956; 28 minutos): 

Uma mulher casada ganha um presente do amante e tenta enganar o seu marido, mas este mostra que de bobo não tem nada. 

O filme conta com as participações de Truffaut, Chabrol, Godard e de Jacques Doniol-Valcroze, que eram todos críticos da 'Cahiers du Cinéma'. E o Jean-Claude Brialy está presente em mais um filme deste período. 

Cena de 'La Sonate à Kreutzer', que é um média-metragem, de 1956. Ele foi dirigido por Éric Rohmer.

Éric Rohmer!

Journal d'um Scélérat (1950): Uma adaptação livre de uma obra de Erich von Stroheim ('Folies de Femmes'). 

Bérénice (1954; 22 minutos; 16 mm): Filme baseado em obra de Edgar Alla Poe e que mostra um homem obcecado pelos dentes de sua noiva. O filme foi realizado na casa de André Bazin por Rivette, que também fez a edição do filme.

La Sonate à Kreutzer (1956; 50 minutos; 16mm): Filme baseado em um livro de Tolstoi, que foi produzido por Godard, e que trata de uma mulher casada que se apaixona por outro homem, o que irá provocar um sério conflito entre os dois. 

As cenas foram filmadas nos escritórios da 'Cahiers du Cinéma' e nelas vemos André Bazin e quatro dos cinco integrantes dos Jovens Turcos da Cahiers: Rohmer, Truffaut, Chabrol e Godard (faltou apenas o Rivette). O filme conta com a participação de Jean-Claude Brialy.

Véronique et son Cancre (1958; 18 minutos): Mãe contrata uma jovem (interpretada por Nicole Berger) para ensinar Francês e Matemática ao seu filho, que era um aluno preguiçoso (significado da expressão 'cancre' em francês). Mas a tentativa não dá muito certo. 

Présentation ou Charlotte et son Steak (1960; 12 minutos): Charlotte (Stephanie Audran) e Walter (Jean-Luc Godard) são namorados. Ele apresenta Clara (Anna Karina) para a namorada, a fim de provocar ciúmes na mesma. Eles se despedem de Clara e vão até a casa de Charlotte, que prepara um bife para ambos, enquanto tentam resolver a situação gerada por Clara. 

Obs: Dos cinco críticos da Cahiers du Cinéma que criaram a Nouvelle Vague, Claude Chabrol foi o único que não dirigiu nenhum curta ou média-metragem. Ele estreou direto com um longa, que foi o 'Le Beau Berger' (Nas Garras do Vício), que foi filmado entre o final de 1957 e o início de 1958, mas cujo lançamento atrasou, ocorrendo apenas em Janeiro de 1959.
'Une Histoire d'Eau': Jean-Claude Brialy e Caroline Dim atuaram neste filme em que Godard e Truffaut colaboraram diretamente. Truffaut fez as filmagens e Godard finalizou o curta, que havia sido abandonado por Truffaut.

Curtas e Médias-Metragens no Youtube!

Aux Quatre Coins (Jacques Rivette; 1949):


Le Quadrille (Jacques Rivette; 1950; 39 minutos)!


Le Divertissement (Jacques Rivette; 1952; 41 minutos)!


Opération Béton - Jean-Luc Godard (1954; 17 minutos):


Une Femme Coquette  - JL Godard (Uma Mulher Faceira; 1955; 10 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=S_bkx3Tu4k8&t=63s

La Sonate à Kreutzer - Éric Rohmer (A Sonata de Kreutzer; 1956; 42 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=xEmMabF_IKI

Le Coupe du Berger (Jacques Rivette; 1956; 28 minutos)!


Les Mistons - F.Truffaut (Os Pivetes; 1957; 18 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=CTxnUPnkcVk

Charlotte et Véronique - Tous les garçons s'appellent Patrick - JL Godard - (Charlotte e Véronique - Todo os rapazes se chamam Patrick; 1957; 19 minutos; 35mm; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=iNYGjBhkKTQ&t=109s
Biografia de François Truffaut foi uma das fontes de informação que usei para escrever esse texto. Livro excelente e que é fundamental para os admiradores da Nouvelle Vague.

Une histoire d'Eau - JL Godard e F. Truffaut (Uma História da Água; 1958; 12 minutos; legenda em Francês):

https://www.youtube.com/watch?v=-4lRTdgkpBI

Véronique et son Cancre - Éric Rohmer (Véronique eseu filho preguiçoso; 1958; 18 minutos; legenda em Português):

https://www.youtube.com/watch?v=4aWEKPByLzc

Charlotte et son Jules - JL Godard (Charlotte e seu Namorado; 1958; 13 minutos; 35 mm):

https://www.youtube.com/watch?v=8pp0Z5AsinU&t=229s  (legenda em italiano);

https://www.youtube.com/watch?v=ADRb_r09TFg  (legenda em Francês);

Charlotte et son Steak - Éric Rohmer (Charlotte e seu Bife; 1960; 9:30 minutos; legenda em Espanhol):

https://www.youtube.com/watch?v=4DB0Cwlpu44
'A Nouvelle Vague e Godard', de Michel Marie, é um livro essencial para se entender a origem do movimento. E o autor ainda disseca o clássico 'Acossado'.


Links com Textos sobre a Nouvelle Vague! 

A Nouvelle Vague na época em que fazia 50 anos:

https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,em-cena-a-nouvelle-vague-de-godard-e-truffaut,557154

'Une Femme Coquette' - Filme raro de Godard reaparece na íntegra:

https://www.revistaprosaversoearte.com/une-femme-coquette-um-filme-raro-de-jean-luc-godard-reaparece-na-integra/

'Cahiers du Cinéma': Jean Seberg (em foto de 'Acossado') na capa da revista, na edição de Janeiro de 1960 (de número 103).

Lista de 10 filmes essenciais da Nouvelle Vague:

http://listasde10.blogspot.com/2010/07/10-filmes-da-nouvelle-vague.html

Alexandre Astruc escreveu o texto que antecipou a criação da Nouvelle Vague:

http://popeseries.blogspot.com/2019/01/alexandre-astruc-escreveu-o-texto-que_26.html

'Les Mistons' - O curta-metragem de Truffaut que antecipou toda a sua obra:

https://codigocine.com/les-mistons-truffaut/

Texto de Truffaut - Uma certa tendência do cinema francês:

https://designvisualuff.files.wordpress.com/2011/08/franccca7ois-truffaut-uma-certa-tendecc82ncia-do-cinema-francecc82s1.pdf

'Cinefilia', livro do jornalista e historiador Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França, entre 1944 e 1968. Baecque também escreveu as biografias de Godard, Truffaut e da 'Cahiers du Cinéma'.

Texto sobre 'Le Coup du Berger':

https://www.cineclubdecaen.com/realisat/rivette/coupduberger.htm

Texto sobre curtas-metragens de Jacques Rivette:

http://www.kinoforum.org.br/curtas/2017/filme/52006/aos-quatro-cantos

Matéria com relação de todas as matérias publicadas na 'Cahiers du Cinéma' entre 1951-1964:

http://www.revistainterludio.com.br/?p=7052

domingo, 9 de junho de 2019

'Cinefilia' - Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França entre 1944 e 1968! -

'Cinefilia' - Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França entre 1944 e 1968! - Marcos Doniseti!
Excepcional livro de Antoine de Baecque a respeito da importância da Cinefilia na França do Pós-Guerra.

No começo de 2019 eu li esse fantástico livro de autoria do Antoine de Baecque, jornalista e historiador francês que é o principal historiador de Godard, Truffaut, da Nouvelle Vague e da revista "Cahiers du Cinéma", publicação de onde saíram os criadores do mais revolucionário movimento cinematográfico da história.

Baecque, que já escreveu brilhantes biografias de Truffaut (junto com Serge Toubiana e que foi lançada no Brasil em 1998) e de Godard (ainda não foi lançada no Brasil), conta a história da Cinefilia francesa, a partir de 1944 quando, logo após a Libertação da França pelos Aliados ocidentais, o mercado francês foi inundado por centenas de filmes originários dos EUA (cuja exibição havia sido proibida durante a ocupação do país pelos alemães).

Além disso, o país passou a ter um grande número de cineclubes e de publicações dedicadas ao Cinema: Cahiers du Cinema, L'Écran français, Arts (Truffaut foi um grande colaborador da publicação), Positif, Revue du Cinéma, entre outras. E todas estas publicações foram criadas por cinéfilos. 

E a França ainda tinha a Cinemateca, criada e dirigida por Henri Langlois desde a sua fundação (em 1936) e cujo trabalho foi fundamental para a formação dos cinéfilos e de muitos críticos e cineastas franceses.


Godard sempre disse que a formação dos cineastas da Nouvelle Vague não se fez em faculdades de Cinema, mas na Cinemateca de Paris e nos cineclubes. Logo, a cinefilia teve uma importância fundamental naquele período. 

Baecque mostra que os cinéfilos não apenas assistiam aos filmes, mas debatiam intensamente sobre os mesmos e escreviam críticas. Todas estas atividades destes apaixonados pelo Cinema irão resultar na criação de inúmeras publicações ('Cahiers', 'Positif'...) e, depois, estes cinéfilos começaram a fazer filmes, o que vai resultar na criação da Nouvelle Vague. 

Nesta época, a opinião dos críticos era levada em consideração pelo público e se um filme fosse mal avaliado pela crítica isso afetava fortemente as bilheterias dos filmes.

É bom ressaltar que a própria Nouvelle Vague, no início, dividiu as opiniões, pois ela era fortemente atacada pelos críticos mais tradicionalistas, defensores do cinema de 'tradição de qualidade' existente no país, a qual os críticos chamados de 'Jovens Turcos' da Cahiers du Cinema (Truffaut, Chabrol, Rivette, Rohmer e Godard) queriam fazer picadinho.
Jean Rouch, Chabrol (segurando a placa) e Godard lideram manifestação defendendo o retorno de Henri Langlois ao comando da Cinemateca Francesa, que foi criada por ele em 1936.

O cinema francês dos anos 1950 (chamado de 'tradição de qualidade') era caracterizado pelo conservadorismo e pela padronização, ou seja, faziam-se sempre filmes com temas muito semelhantes, que eram dirigidos sempre pelos mesmos diretores, que eram escritos sempre pelos mesmos roteiristas e com os mesmos intérpretes. 

Truffaut, quando atuou como crítico (brilhante) do 'Cahiers du Cinéma', na década de 1950, criticou duramente ao cinema francês do período, que via em situação de estagnação criativa, liderando uma verdadeira batalha contra o mesmo, o que fazia com o total apoio dos outros críticos, chamados de 'Jovens Turcos', da 'Cahiers', incluindo Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer. 

Em seu livro, Baecque analisa a trajetória da Cinefilia francesa de 1944 até 1968, quando tivemos a chamada 'Batalha da Cinemateca', que foi resultado da demissão de Henri Langlois da direção da Cinemateca de Paris pelo governo de Charles De Gaulle (mas a decisão de demitir Langlois foi do ministro da Cultura, André Malraux).

A demissão de Langlois gerou uma forte reação dos cineastas e dos profissionais de Cinema franceses, que o viam como uma figura essencial para a sua formação cinematográfica. 

Afinal, a Cinemateca havia sido criada por Langlois ainda antes da Segunda Guerra Mundial e seu trabalho à frente da mesma foi fundamental para a formação dos cinéfilos e de muitos cineastas franceses, principalmente aqueles ligados à Nouvelle Vague. 

Não foi à toa, portanto, que Truffaut, Godard, Rivette, Jean Rouch e Jean-Pierre Léaud, entre outros, estivessem à frente do movimento, que acabou sendo vitorioso, para que Langlois fosse reconduzido ao comando da Cinemateca.

Tal movimento mobilizou cineastas consagrados do mundo inteiro (Hitchcock, Rossellini, Kurosawa, etc), sendo que muitos chegaram a proibir a exibição dos seus filmes na Cinemateca enquanto Langlois não voltasse ao comando da instituição que ele mesmo criou. 

E a 'Batalha da Cinemateca', que ocorreu entre Fevereiro e Abril de 1968 acabou antecipando em três meses a rebelião que tivemos durante o famoso Maio de 68, acabou sendo o ponto final desta história da Cinefilia francesa que Baecque conta neste livro fantástico. 

Portanto, o livro de Baecque é uma leitura imprescindível para quem deseja conhecer a história da cinefilia, da atividade crítica e do próprio cinema francês no Pós-Guerra.

Obs: Temos vários filmes que estão, de alguma maneira, relacionados ao assunto do livro de Baecque (a cinefilia, é claro), como 'Os Sonhadores', de Bernardo Bertolucci, 'Beijos Proibidos', de François Truffaut e "Les Sièges d'Alcazar" (1989), de Luc Moullet. 
Henri Langlois: Para o crítico Serge Toubiana, sem o trabalho de Langlois na Cinemateca a Nouvelle Vague jamais teria existido.

Links:

Entrevista com Serge Toubiana sobre a importância da Cinemateca de Paris, criada por Henri Langlois:

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2661,1.shl

Entrevista com Antoine de Baecque, sobre o seu livro:
https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/cinefilia/

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Uma pequena história sobre o início da 'Nouvelle Vague'!

Uma pequena história sobre o início da 'Nouvelle Vague'! - Marcos Doniseti!
Imagens de filmes clássicos da Nouvelle Vague.

Jacques Rivette foi o primeiro cineasta da Nouvelle Vague a dirigir um longa-metragem!

A Nouvelle Vague foi criada por um grupo de críticos originários da revista 'Cahiers du Cinéma' e que incluía Trufffaut, Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer. Nesta fase, em que eles atuavam como críticos de cinema, Truffaut era o nome mais combativo, popular e polêmico. 

Seu texto 'Uma certa tendência do cinema francês', publicado em Janeiro de 1954 na  edição de número 31 da 'Cahiers du Cinéma', balançou os alicerces da conservadora indústria cinematográfica do país, gerando um debate que durou muitos anos, sendo que o mesmo teve continuidade até a década de 1960, época em que os cineastas do movimento lançaram inúmeros filmes. Nos primeiros anos da "Nouvelle Vague" muitos críticos de cinema franceses torciam o nariz e atacavam duramente os filmes do movimento.

Rivette foi o pioneiro, entre os membros do movimento, a iniciar a produção de um longa-metragem ("Paris nos Pertence"), ainda em 1957, mas a falta de recursos impediu que o filme fosse concluído naquele ano. Antes dele, Éric Rohmer havia dirigido um média-metragem ("La sonate à Kreutzer", de 1956). 

Se isso tivesse acontecido, então "Paris nos Pertence" teria sido o primeiro longa-metragem de um cineasta do movimento a ser exibido comercialmente. Infelizmente, o filme de Rivette demorou muito para ser finalizado e acabou sedo lançado apenas em 1961, quando a "Nouvelle Vague" não era mais uma novidade e os nomes de Truffaut, Godard e Chabrol já eram conhecidos de todos e desfrutavam de um grande prestígio no cinema francês e mundial.
"A Nouvelle Vague e Godard", de Michel Marie, é um livro essencial para se entender o movimento e o primeiro longa-metragem de Godard.

Assim, foi Claude Chabrol quem dirigiu os dois primeiros longas-metragens da Nouvelle Vague, que foram 'Nas Garras do Vício' e 'Os Primos', sendo que ambos fizeram muito sucesso. Os dois filmes foram filmados em 1958 e acabaram sendo lançados em Janeiro e Março de 1959.

Logo depois, Truffaut lançou 'Os Incompreendidos', que é um filme com uma característica fortemente autobiográfica e que também fez um grande sucesso, com o jovem cineasta recebendo o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes de 1959. 

No mesmo festival, outro cineasta que se consagrou com o seu primeiro longa-metragem foi Alain Resnais, com o clássico "Hiroshima Mon Amour", também de 1959, que recebeu o prêmio de melhor filme da crítica francesa e que foi muito elogiado por Godard, Truffaut e Chabrol.

Com o sucesso destes três filmes, o prestígio de Truffaut e Chabrol cresceu
tanto que foi somente com a assinatura deles na produção e no roteiro de 'Acossado' que o Godard conseguiu dirigir o seu primeiro e atemporal longa-metragem.

Godard, até o verão de 1959 (quando "À Boute De Souffle" foi filmado), tinha realizado apenas um documentário, que foi 'Opération Béton' (1958), e quatro curtas-metragens, que foram "Une Femme Coquette" (1955), "Une Histoire d'Eau" (1958), "Charlotte et son Jules" (1958) e "Charlotte et Véronique, ou Tous les garçons s'appelent Patrick" (1959).
Livro "O Prazer dos Olhos" reúne inúmeras críticas e textos de autoria de François Truffaut.

Em "Charlotte et son Jules" (curta de 1958) nós tivemos a participação de Jean-Paul Belmondo e Godard gostou tanto da sua atuação, fortemente marcada por uma grande capacidade de improvisação, que ele avisou Belmondo de que quando fosse filmar o seu primeiro longa-metragem ele, Belmondo, seria convidado a trabalhar no mesmo. Mas, na edição final de 'Charlotte et son Jules' Belmondo acabou sendo dublado por outro ator. 

Belmondo disse, em sua autobiografia ("Mil Vidas valem mais do que Uma", lançada no Brasil pela L&PM Editores em 2018) que não levou muito a sério essa promessa do Godard, mas quando este conseguiu viabilizar a produção de 'Acossado', o mesmo foi chamado a interpretar o protagonista da história, um criminoso que pratica o roubo de um carro e mata um policial e que passa a ser perseguido por toda a Polícia francesa. 

A brilhante atuação de Belmondo em 'Acossado' o transformou instantaneamente em uma estrela de primeira grandeza do cinema francês e a partir dali não lhe faltaram mais propostas de trabalho. É justamente por isso que em seu livro Belmondo agradeceu a Godard, com o qual ele voltou a trabalhar em 'Une Femme est une Femme' (1961) e em 'Pierrot le Fou' (1965). 

Nesta época, Belmondo era um ator de talento que ainda procurava conquistar o seu espaço no cinema francês, que não facilitava muito o surgimento de novos rostos e tampouco de novos diretores e roteiristas. A indústria do cinema francês dos anos 50, pré-Nouvelle Vague, era bastante fechada e conservadora, o que levou os críticos da 'Cahiers' a fazer duras críticas à mesma, vindas principalmente de François Truffaut, que era o mais ácido crítico da 'Cahiers'. 
Godard e a belíssima Jean Seberg durante as filmagens de 'Acossado'. Belmondo disse, em sua autobiografia, que Godard tinham uma paixão secreta pela atriz e que a convidou para participar do filme em função disso.
O roteiro de 'Acossado': Quem é o autor?

O roteiro de "À Bout De Souffle" ("Acossado") foi baseado em uma história real, que envolveu um criminoso francês chamado Michel Portail que, em 1952, roubou um carro e matou um policial. Ele foi perseguido e preso pela polícia francesa durante um fim de semana que mobilizou toda a imprensa da França. No filme, o final da história de Michel foi modificada por Godard.

Porém, os produtores franceses estavam receosos de aplicar dinheiro em um longa-metragem que seria realizado por um diretor estreante (Godard, é claro), que nunca havia realizado um longa-metragem. Isso aconteceu porque após o grande sucesso inicial dos filmes de Truffaut e Chabrol nós tivemos a produção, na França, de inúmeros filmes dirigidos por cineastas estreantes e a imensa maioria deles fracassou comercialmente. 

Para conseguir convencer estes produtores (Georges de Beauregard, em especial), Truffaut e Chabrol decidiram ajudar o amigo Godard, o que era algo comum entre os cineastas do movimento que, nesta época, viviam ajudando uns aos outros quando os mesmos enfrentavam dificuldades para realizar os seus filmes.

Exemplo dessa colaboração é que nos primeiros filmes de Godard e Truffaut, cada um deles citava o filme do outro em suas obras. Em "Une femme est une Femme" (1961), de Godard, vemos várias referências á "Jules et Jim", que Truffaut estava filmando na época, contando até mesmo com uma pequena participação de Jeanne Moreau (protagonista de "Jules et Jim"). Nesta cena, Anna Karina pergunta para Jeanne Moreau como estavam Jules e Jim. 
Godard e Truffaut: Uma amizade de 20 anos acabou sendo rompida por questões políticas e ideológicas, mas no início da carreira eles colaboraram muito com o outro, ajudando-se mutuamente. 

Marie Dubois também fez uma pequena participação no mesmo filme de Godard, em que ela contracena com Anna Karina e na qual temos uma referência ao segundo filme dirigido por Truffaut, que foi "Atirem no Pianista" (1961), do qual Marie participou. 

Assim, graças a essa colaboração entre Godard e Truffaut, foi informado a Beauregard que o roteiro de "À Bout De Souffle" era de autoria de Truffaut e que Chabrol seria um consultor técnico do filme. Na verdade, isso foi feito apenas para conseguir convencer Beauregard e os outros produtores a bancar o filme de estreia do Godard e esse objetivo foi alcançado.

No entanto
, de fato, o roteiro de 'Acossado' foi escrito pelo próprio Godard, que o escrevia durante o café da manhã, filmando as cenas à tarde. Na verdade, o que Truffaut escreveu, antes, tinha sido apenas uma sinopse, com um resumo da história. O roteiro, com as cenas e diálogos, foi obra de Godard. Além disso, Chabrol nunca trabalhou como consultor técnico de Godard, sendo que jamais apareceu nas filmagens. 

Portanto, os nomes de Truffaut e Chabrol foram ligados à produção de "Acossado" como uma forma de dar um aval criativo, por meio do qual eles garantiam aos produtores que Godard era um ótimo diretor e que eles não perderiam dinheiro se investissem na produção do filme. 

E como o genial Godard sabia muito bem o que desejava fazer, o 'Filme Manifesto' (como diz Michel Marie em seu livro) "À Bout De Souffle" acabou se tornando um dos mais revolucionários e essenciais filmes da história do Cinema mundial.
Chabrol e Godard, dois dos grandes nomes da história do Cinema mundial. 
Links:

Inácio Araújo comenta livros de Bazin e Truffaut:


Inácio Araújo: 'Acossado' tirou as amarras do Cinema: