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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas?

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas? - Marcos Doniseti! 
Francis F. Coppola e Martin Scorsese fizeram duras críticas aos filmes da Marvel. 
Dois dos grandes cineastas contemporâneos, Martin Scorsese e Francis F. Coppola, fizeram duras críticas aos filmes da Marvel, como as de que eles não seriam Cinema de verdade e que também seriam desprezíveis, sendo filmes para parques de diversões. Scorsese deixou claro que respeita os profissionais que trabalham nestes filmes, mas afirmou que os mesmos não são Cinema, de fato. 
Isso desencadeou uma grande polêmica envolvendo os fãs destas filmes e, também, aqueles que não os apreciam.

Existem uma série de motivos pelos quais podemos criticar os filmes da Marvel e abaixo irei relacionar e comentar a respeito de alguns deles, que entendo que são bastante relevantes.

Fazer justiça com as próprias mãos e os Salvadores da Pátria!

Em primeiro lugar, tais filmes defendem a ideia de que se pode fazer justiça com as próprias mãos, aprovando uma 'Privatização da Justiça', na qual alguns ‘Super-Heróis’ formam um verdadeiro 'Esquadrão da Morte' constituído por seres superpoderosos.

Nestes filmes também está implícita a ideia de que problemas complexos poderão ser resolvidos por ‘Salvadores da Pátria’ e de maneira simplista.

Então, você quer impedir imigrantes de entrar ilegalmente em seu país? Construa um muro e tudo será resolvido. Mas é claro que isso não resolverá coisa alguma. Isso é a típica proposta feita para enganar trouxa. E quem a formulou sabe de tudo isso, é claro. Afinal, oportunistas rasteiros e amorais, neste mundo, é o que não faltam.

Obs: Mas parece que essa época está terminando, como deixam claro os protestos no Equador, Chile, Líbano, Barcelona, a queda de Matteo Salvini na Itália e o resultado de algumas eleições recentes (Parlamento Europeu, Canadá, Dinamarca, Argentina, etc). Trump, por sua vez, é rejeitado por 57% da população dos EUA, segundo uma recente pesquisa que foi divulgada pela CNN, e 50% aprovam o seu Impeachment.
Martin Scorsese e Robert De Niro em 'O Touro Indomável', um dos grandes clássicos do cineasta ítalo-estadunidense.

Novos nomes?

Nestes filmes também não temos nenhum diretor, roteirista, ator ou atriz que tenha sido revelado pelos mesmos, que estejam em início de carreira e que podemos dizer que irá deixar a sua marca na história do Cinema.

Os filmes da Marvel são feitos por diretores e atores/atrizes já consagrados ou com carreira consolidada, como são os casos de Robert Downey Jr, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, entre outros. Não são novos rostos, novos nomes, que estão se destacando agora.

Se tiver algum novo nome, então o mesmo será a exceção.

Se pesquisarmos sobre a história do Cinema veremos que todos os  grandes movimentos cinematográficos da história revelaram novos nomes (Policial Noir, Realismo Poético Francês, Neorrealismo Italiano, Nova Hollywood). Todos eles revelaram diretores, roteiristas, diretores de fotografia, atores, atrizes que marcaram época.

Exemplos: A Nouvelle Vague revelou novos diretores (as), tais como Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette, Rohmer, Malle, Varda, Resnais, e também novos atores/atrizes, como Anna Karina, Jean-Pierre Léaud, Jean-Paul Belmondo, Jean-Claude Brialy, Marie-France Pisier, entre outros.

O Neorrealismo Italiano revelou nomes Fellini, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Mario Monicelli, Aldo Fabrizi, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, Lucia Bosé, entre outros.
Bruno Ganz, ator suíço, e Dennis Hopper, ator estadunidense, foram dois grandes talentos revelados, respectivamente, pelo Cinema Novo Alemão e pelo movimento 'Nova Hollywood'. E os filmes da Marvel revelaram alguém?

Qual é a finalidade destes filmes da Marvel?

Outro problema destes filmes da Marvel é que eles mostram que a empresa desistiu de fazer Arte. Ela faz sempre a mesma coisa, padronizada e pasteurizada, se repetindo filme após filme. É um festival de mesmice e de padronização.

Afinal, quem é que tenta, nestes filmes, fazer algo novo, diferente, o que é essencial para a existência do Cinema e da própria Arte?

Mas os filmes da Marvel não são apenas para adolescentes, pois existe um grande número de adultos que podemos dizer que são infantilizados e que gostam dos mesmos, estando convencidos de que eles são ‘puro cinema’.

Esse público não quer profundidade, nada muito complexo, preferindo o raso, o rasteiro, o simples, o menos complicado. Esse público quer o ‘Jornal Nacional’ em forma de filmes. É uma parcela do público que não quer pensar, mas que deseja que pense por ele. São filmes para os Hommers Simpsons deste mundo.

E o Cinema não é só para fazer rir ou chorar, para ser produzido como mero escapismo, mas também para fazer pensar, questionar, nos levando a refletir sobre nossas vidas, nossos valores e também sobre o mundo em que vivemos.

Porém, fazer filmes mais simples, que se limitam a fazer as pessoas darem algumas risadas ou que as levem a chorar é muito mais lucrativo.

Esse negócio de querer pensar e questionar não dá lucro, mesmo, então é melhor deixar para lá…
Filmes da Marvel são Cinema? São Arte? São relevantes? O debate esquentou.

Monopólio de mercado!

Por que os filmes da Marvel são os mais criticados?

Oras, porque são eles que monopolizam as salas, o que impede que as pessoas tenham acesso a outros gêneros de filmes. Se eles ocupassem apenas um nicho do mercado ninguém se importaria muito com eles. Mas eles monopolizaram o mercado e isso é péssimo para a criação cinematográfica.

Antigamente as salas comerciais exibiam filmes de Bergman, Truffaut, Godard, Fellini e eles faziam sucesso, sim. Agora esse gênero de filmes está restrito ao circuito alternativo, que tem poucas e pequenas salas (tipo o Belas Artes e o Reserva Cultural Itaú, em São Paulo) e que estão concentradas em grandes cidades.

Hoje os cinemas só exibem Marvel ou assemelhados. É um festival de mesmice e um monopólio que deveria, sim, ser proibido, por meio de uma legislação que obrigasse a exibição de um certo número de filmes, por um determinado número de semanas, para as produções alternativas, para os chamados ‘Filmes de Arte’, com outras propostas cinematográficas, que vão muito além dos blockbusters.

Alguns falam em livre mercado, mas a existência de um monopólio é a própria negação deste livre mercado. Livre mercado significa ter acesso a todos os tipos de produção, com as pessoas tendo a chance de assistir a filmes de baixo orçamento e de perfil mais autoral. Mas isso não acontece e o mesmo ocorre justamente porque o monopólio da Marvel destruiu o livre mercado.

Isso é como se ao irmos a um restaurante somente nos fosse oferecido arroz com feijão para comer. É claro que você poderá gostar, pois o arroz e o feijão irá saciar a sua fome, mas você nunca saberá se existem comidas melhores, pois é apenas arroz com feijão que tem para comer ali e você não conhece outras comidas.
'Blade Runner', de Ridley Scott, foi uma ficção científica inovadora e que influenciou muitos filmes e cineastas, ficando claro a sua importância para o Cinema.

Filmes para divertir e entreter o público sempre existiram, mas…!

Não sou contra filmes que nos entretenha, que nos prendam a atenção. Esse gênero de filmes sempre existiu, desde os primórdios do Cinema e sempre tiveram o seu público. Mas eles compartilhavam o mercado com outros gêneros de filmes, que tinham outras propostas cinematográficas. 

O problema dos filmes da Marvel é que muitos espectadores ficam restritos a apenas esse tipo de filme e não tem acesso ou rejeitam outros gêneros, de outros cineastas, se fechando para outro tipo de cinema, que também nos faça pensar e questionar, indo muito além do mero ‘rir ou chorar’.

E isso aconteceu porque as pessoas vão ao Cinema e é somente isso que exibem, filmes estritamente comerciais, impedindo que as pessoas tenham acesso a outros tipos de filmes.

E daí eu pergunto: Será que muitas pessoas assistem aos filmes da Marvel porque não estão lhes oferecendo algo diferente? Será que essa produção de melhor nível não poderia ter um público maior caso esses filmes fossem oferecidos para as pessoas? Penso que sim.

Filmes da Marvel e Mélies: Uma comparação ridícula!

Também vi alguns fãs dos filmes da Marvel comparar os mesmos com os filmes do 
Georges Mélies, um dos primeiros criadores do Cinema. Não há como comparar filmes da Marvel com Mélies. Isso é ridículo. Mélies foi um inovador, um revolucionário, que mudou muitas coisas no Cinema, que ousou criar algo novo.

Assim, ele está muito mais próximo das obras de cineastas como Scorsese, Coppola, Orson Welles, Rossellini, Godard, Fellini, que também foram cineastas inovadores.
Francesco Rosi, Luchino Visconti e Federico Fellini: Três grandes cineastas italianos que deram uma inegável contribuição para o Cinema.

Além disso, falar que se assiste aos filmes da Marvel porque simplesmente gosta dos mesmos não é válido em um debate. Afinal, gosto pessoal não conta como critério de avaliação de uma obra, seja um filme, livro, peça de teatro, música. A

Alguém pode até gostar dos filmes da Marvel e dizer que continuarão assistindo aos mesmos, mas não venham me dizer que eles são tão bons quanto os filmes de Scorsese, Fellini, Truffaut, Bergman, Kieslowski, Coppola ou de Kurosawa. Fazer essa comparação seria algo totalmente ridículo.

Além disso, os filmes da Marvel, inovam em que? Em convencer as pessoas de que fazer justiça com as próprias mãos é certo e que existem salvadores da pátria que irão resolver todos os nossos problemas com os seus superpoderes? Isso é patético.

Isso é infantilismo puro, é muita mediocridade intelectual, o que é resultado da recusa em pensar, em questionar.

Pedido de Socorro: Para quem, mesmo?

Já vi também alguns afirmarem que os filmes da Marvel revelariam um pedido de socorro.

Sim, com certeza. É verdade. Concordo com isso.

Mas o problema é que eles estão pedindo socorro para aquilo que não existe, ou seja, para pessoas superpoderosas que teriam soluções mágicas para todos os problemas.

Assim, o nível do debate é rebaixado para o menor nível possível, para o menor denominador comum. Um grande número de alemães, nos anos 1930, desesperados com a miséria em que viviam, também pediram por socorro. E pediram para quem?
Jean-Paul Belmondo e a belíssima e talentosa Jean Seberg, em cena de 'Acossado', clássico de Godard que revolucionou o Cinema mundial.

Para o Hitler e para os Nazistas que, aliás, também eram muito populares em outros países (Brasil, EUA, França...).

Deu no que deu…

Os alemães aprenderam a lição, sem dúvida alguma, e fazem questão de não esquecer o erro que cometeram, sendo que atualmente eles procuram mostrar isso para a população do país, para as novas gerações, mas vejam o preço que tiveram que pagar por isso. Será que as pessoas irão cometer o mesmo erro novamente? 

Logo, quanto mais simplista, estúpida e medíocre for uma proposta para a resolução dos problemas que a humanidade enfrenta, maior será a chance de que a mesma terá sucesso momentâneo, e de que um grande número de pessoas terminará por gostar e aprovar estas propostas. Mas elas não irão resolver coisa alguma e o final da história será catastrófico.

Para se constatar isso, atualmente, basta ver a história do ‘Muro do Trump’, que não resolverá coisa alguma a respeito do problema da presença dos imigrantes ilegais nos EUA, mas que muitos acreditaram que poderia ser a solução para o mesmo e votaram nele. Mas esse muro não resolverá coisa alguma. Nunca foi solução e nunca será.

Portanto, esses filmes refletem um pedido de socorro, sim, mas eles são resultados de um inegável processo de empobrecimento político, social e cultural que ocorreu em nossas sociedades nos últimos tempos. Estão pedindo por socorro do jeito errado e para as pessoas erradas.

Hitler e Trump que o digam…

Ataques a Coppola e Scorsese!

Também já vi alguns ‘marveletes’ (os fãs dos filmes da Marvel, é claro) atacarem a obra de Coppola e de Scorsese em função das críticas, corretas e fundamentadas, que eles fizeram aos filmes da Marvel, o que revela a pobre formação cinematográfica destas pessoas que os criticam.
Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant e Krzysztof Kieslowski foram os protagonistas de um dos maiores clássicos contemporâneos, que foi 'Trois Couleurs - Red' (A Fraternidade é Vermelha). Kieslowski é autor de uma belíssima obra que nos leva a refletir a respeito de inúmeras questões (políticas, sociais, existenciais).

Scorsese e Coppola tem uma obra vasta, rica e diversificada. Eles nunca se limitaram a fazer um único gênero de filme, sempre evitaram de ficar se repetindo.

Eles fizeram dramas, comédias, policiais, suspense/terror. Sua contribuição ao Cinema é inegável. 

Não concordar com as críticas deles aos filmes da Marvel é um direito das pessoas, mas daí a atacar a obra deles em função disso é uma verdadeira piada. É aquela velha história de sempre: Como tais pessoas não tem argumentos para rebater as críticas, então ela atacam as pessoas que as fizeram, tentando desqualificá-las.

É sério que vocês querem desqualificar Coppola e Scorsese, como se eles não soubessem nada sobre Cinema? Brincou, né?

Resumindo!

Portanto, entendo que os filmes da Marvel possuem os seguintes elementos!

- São um verdadeiro festival de mesmice e de padronização;

- Refletem e difundem valores reacionários;

- Divulgam soluções simplistas e medíocres para problemas complexos;

- Apelam para um público que não conhece a riqueza e a diversidade da linguagem 
cinematográfica, que vai muito além de fazer ‘rir ou chorar’;

- Não dão contribuição alguma para o Cinema enquanto forma de Arte;

- Exercem um monopólio odioso no mercado. 

Logo, entendo que Coppola e Scorsese estão absolutamente corretos em suas críticas a estes filmes.
 'A Classe Operária Vai ao Paraíso', clássico de Elio Petri, é um filme que vai muito além de meramente 'fazer rir ou chorar' e que reflete sobre a realidade de pessoas reais, de carne e osso, ou seja, trabalhadores de uma indústria que são explorados pelos capitalistas. 

Links:
As críticas aos filmes da Marvel:


sexta-feira, 31 de agosto de 2018

'Senza Pietà' - Lattuada mostra como o Fascismo e a Guerra destruíram a vida de milhares de mulheres italianas e condena o racismo! - Marcos Doniseti!

'Senza Pietà' - Lattuada mostra como o Fascismo e a Guerra destruíram a vida de milhares de mulheres italianas e condena o racismo! - Marcos Doniseti!
'Senza Pietà': Este ótimo filme Neo-Realista de Alberto Lattuada mostra os efeitos da Segunda Guerra Mundial sobre a população italiana, as mulheres em especial, e também possui uma clara mensagem anti-racista. Federico Fellini participou da elaboração do roteiro. 

O contexto histórico do filme!


A Segunda Guerra Mundial promoveu uma gigantesca destruição pelo mundo inteiro, principalmente na Europa, Ásia e Norte da África. O número total de mortos chegou a 70 milhões, sendo 50 milhões de europeus (27 milhões de soviéticos). Na China morreram mais 15 milhões de pessoas, que foram vítimas dos crimes e atrocidades cometidas pelos japoneses. 

É bom ressaltar que, na época da Segunda Guerra Mundial, a entrada dos EUA no conflito, no continente europeu, resultou no envio de 2,5 milhões de soldados (estadunidenses, britânicos, canadenses, etc) para o Velho Mundo. E é claro que todos estes militares precisavam de alimentos, bebidas, uniformes, cigarros, etc. As Forças Armadas aliadas também levaram milhares de blindados, canhões, aviões, que precisavam ser reparados e abastecidos.

Então, os EUA (que foram o 'Arsenal das Democracias' na Segunda Guerra Mundial) construíram inúmeros depósitos e armazéns com grandes quantidades de produtos guardados. E um dos principais problemas que os Aliados enfrentaram foi o roubo e o desvio de muitos destes produtos (armas, combustíveis, alimentos, cigarros, bebidas, etc). E a trama de 'Senza Pietà' está relacionada justamente com tal fato. 

A história do filme está ligada com atividades criminosas de roubo e contrabando de grande parte destes produtos que os EUA levaram para a Europa na época da Segunda Guerra Mundial, sendo que a localização da trama é a Itália, onde as tropas Aliadas (dos EUA e da Grã-Bretanha, em especial) desembarcaram em Julho de 1943, invadindo a Sicília. Nos meses seguintes as tropas Aliadas foram avançando, expulsando os alemães e, em Junho de 1944, ocuparam Roma. 

Obs1: Fellini, um dos roteiristas do filme, era casado com Giuletta Masina desde 1943. E Carla del Poggio, por sua vez, era casada com o diretor, Alberto Lattuada, desde 1945. Lattuada disse que durante as filmagens os quatro formaram 'um quarteto de amigos inseparáveis'.'
Angela Borghi viaja, de forma clandestina, de Florença para Livorno, onde irá procurar pelo seu irmão (Carlo). 

A conquista do Norte da Itália, por sua vez, somente foi concluída em Abril de 1945, quando Mussolini foi capturado e fuzilado por integrantes da Resistência, levando ao fim da chamada 'República Social Italiana' (República de Saló), que era um governo fantoche controlado pelos nazistas alemães.  


Inúmeros filmes sobre Guerra foram produzidos durante a história, mas um grande número dos mesmos mostrou apenas as batalhas que ocorreram, não levando em consideração o que aconteceu com a população que ficou 'para trás', tentando levar uma vida normal, enquanto trabalhava para colaborar com o esforço de guerra. 

'Senza Pietà', por sua vez, é um filme de guerra onde não vemos nenhuma batalha, pois o que ele mostra são os efeitos da Segunda Guerra Mundial para as pessoas comuns, que ficaram em seus países, tentando levar a vida normalmente. 

Mas os bombardeios dos Aliados sobre as regiões que ainda eram controladas  pelos nazi-fascistas (caso da Toscana, onde se localizam Florença e Livorno) promoveram uma grande destruição e levaram milhares de pessoas a fugir das mesmas. 

E no caso de 'Senza Pietà', as mulheres são as protagonistas desta obra de Alberto Lattuada. Os efeitos catastróficos da Guerra sobre milhares de mulheres italianas são mostrados no filme: 

- Cidades destruídas; 
- Fuga de suas cidades; 
- Famílias destruídas, com a morte ou desaparecimento de seus membros (pais, mães, irmãos, maridos, namorados); 
- Desemprego; 
- Miséria;
- Prostituição. 
Angela e Marcella tornaram-se amigas, sendo que ambas tentavam fugir da vida que levavam. E a atuação das duas atrizes foi excelente. 

A trama do filme!


A personagem principal do filme é Angela Borghi (interpretada pela bela Carla Del Poggio, esposa do diretor Alberto Lattuada). Ela é uma refugiada que está saindo de Florença e volta, de trem (de maneira clandestina), para a sua cidade natal (Livorno), na qual espera encontrar o seu irmão (Carlo Borghi), ao qual não vê há vários anos, em função da Guerra. 

Na viagem de retorno, Angela assiste a um tiroteio envolvendo soldados dos EUA e alguns criminosos, que tentam roubar a carga do caminhão, no qual tínhamos produtos que estavam sendo transportados para Livorno. 

E o conflito ao qual Angela assistiu resultou na fuga de um dos criminosos que tentou roubar o caminhão e em um soldado afro-americano (Jerry Jackson) dos EUA ferido, mas que conseguiu subir no trem e que recebeu ajuda de Angela. 

Porém, Angela foi acusada, pelos militares dos EUA, de ser uma prostituta e por isso ela foi levada para um internato religioso onde estavam centenas de mulheres que também se envolveram nesse tipo de atividade. 

Algumas das internas namoravam soldados dos EUA estacionados em uma base militar nas proximidades e, com a ajuda deles, organizaram uma fuga. Angela foge junto com Marcella, que a leva para um local controlado por Pierluigi (um cafetão e contrabandista que era o 'dono' de Livorno). 

Obs2: Muitas crianças nasceram destes relacionamentos entre soldados dos EUA e a mulheres italianas na época da Segunda Guerra Mundial. 
Jerry e Angela se reencontram e desde o início eles se entenderam muito bem. E o negro Jerry se apaixona pela bela (e branca) jovem italiana, o que era um tema muito polêmico em 1948, quando o filme foi produzido. 

Posteriormente, Angela reencontrou Jerry quando foi procurar por Pierluigi, a fim de pedir ajuda do mesmo para poder encontrar o seu irmão desaparecido. Ela ficou sabendo, mais adiante, que o mesmo tinha trabalhado para Luigi e que havia morrido. 
Assim, solitária e sem outra opção, ela aceitou se encontrar com Jerry à noite. 

Eles saem juntos e se divertem bastante e, desta maneira, Jerry acaba se apaixonando por Angela. Esta simpatiza muito com Jerry e gosta da companhia dele, mas não corresponde à sua paixão. Porém, dali em diante eles estarão sempre juntos e sempre que isso acontece a felicidade de ambos é ilimitada. 

Então, fica a dúvida se ela realmente não o amava. 

Portanto, o filme mostra um assunto que, em 1945, era extremamente polêmico, para dizer o mínimo, que é o romance entre um homem negro e uma mulher branca. Logo, o filme transmite uma mensagem anti-racista explícita, o que foi intencional por parte do seu diretor, Alberto Lattuada, o que ele confirmou posteriormente.

Obs3: Para escrever o roteiro, e a pedido de Alberto Lattuada, os roteiristas Fellini e Pinelli visitaram a região na qual o filme seria rodado (Pinhal do Tombolo), a fim de conhecer a mesma, e para fazer isso eles se disfarçaram de vagabundos. E as filmagens transcorreram lentamente em função da presença de inúmeros grupos criminosos (com os quais foi necessário negociar) e de muitas prostitutas na região. Inclusive, a atriz Carla del Poggio foi confundida com uma delas. 
Pierluigi, de chapéu branco, comanda os negócios ilegais na região de Livorno (contrabando, prostituição).

Obs4:
A música do filme foi composta por Nino Rota e enquanto vemos os créditos de abertura a música que toca neste momento foi criada com base nos Spirituals dos afro-americanos.


Em uma das conversas com Angela, Jerry a informa de que muitos soldados procuram agradar as jovens italianas a fim de conseguir fazer sexo com elas (levando-as para sair, dando chocolate, etc), mas esclarece que este não é o objetivo dele. 

Isso faz com que Angela passe a simpatizar ainda mais com Jerry, pois ela se recusa a se tornar uma prostituta, sonhando em ter uma vida digna, desejando acumular dinheiro para montar uma papelaria. 

Porém, os planos de Angela vão por água abaixo quando Jerry, depois de ser convencido por Pierluigi, acaba se envolvendo no roubo de produtos do Exército dos EUA, pois ele queria juntar dinheiro para viver com ela, por quem se apaixonou, a fim de impedir que ela se voltasse para a prostituição. No entanto, ele acaba sendo preso em função disso. 

Assim, sozinha, sem família e sem ter a quem recorrer, Angela acaba indo exercer a mesma 'profissão' de milhares de outras mulheres italianas, ou seja, a prostituição, passando a ser explorada por Pierluigi. 

Portanto, o filme de Lattuada mostra quais foram os efeitos da Guerra para as mulheres italianas que viram as suas famílias serem destruídas pelo conflito e que, sem outra opção, acabaram se prostituindo a fim de conseguir sobreviver. 
Jerry e Angela, juntos, viveram uma noite muito feliz. 

Obs5:
A região da Toscana foi ocupada militarmente pelas forças Aliadas e, com isso, foram instaladas bases militares com milhares de soldados dos EUA na área. E muitos deles eram negros. E tais soldados, brancos e negros, desviavam grande parte dos produtos armazenados nas proximidades, vendendo-os para contrabandistas locais. E na região também existia tráfico de drogas e muita prostituição, como sempre acontece nas regiões em que temos a instalação de bases militares. Portanto, está mais do que justificada a abertura do filme, no qual vemos um texto que diz que o mesmo procura ser um 'testemunho da verdade'. Mostrar a realidade da Segunda Guerra Mundial e na qual o povo italiano vivia, na época, era o principal objetivo dos cineastas Neo-Realistas. 


Apesar de ser explorada por Pierluigi, o cafetão que domina as boates da região, Angela não tem medo de enfrentá-lo, o que chama a atenção do chefão. Pierluigi chega a lhe dizer que fica preocupado com ela quando não a vê, temendo que algo ruim aconteça para Angela. 

Pierluigi vai começar a vigiar os passos dela, como se estivesse com ciúmes, e no andamento do filme ficará claro que ele acabará se apaixonando por Angela. Esta, por sua vez, demonstra preocupação com as outras mulheres que trabalham como prostitutas e que são exploradas por Pierluigi. Ela implora para que ele ajude Dina, uma das prostitutas, mas o mesmo se recusa, e a mesma termina por cometer suicídio. 

Enquanto isso, Marcella se prepara para ir embora da Itália, pois ela conseguiu reunir dinheiro suficiente para viajar aos EUA, junto com um soldado (Jack) que desertou do Exército estadunidense. 

Obs6: No ano anterior à produção de 'Senza Pietà', um outro filme ('Paradiso Nero', dirigido Giorgio Ferroni) havia sido realizado na mesma região (Pinhal do Tombolo). E o ator John Kitzmiller, que interpretou o Jerry neste filme de Lattuada, participou do mesmo. 
Pierluigi é um 'chefão' impiedoso, que é capaz de matar qualquer pessoa, mas ele acaba se apaixonando por Angela, que é uma mulher de personalidade forte, sendo a única que tem coragem de enfrentá-lo. 

Esse era o sonho de muitas mulheres italianas, ou seja, abandonar aquela vida de exploração e de miséria em que estavam. Porém, não eram todas que conseguiam e algumas acabavam tendo o mesmo destino de Dina, ou seja, a morte. 


Angela reencontra Jerry, que conseguiu fugir da prisão militar, e conta que Pierluigi está indo comprar produtos de um capitão argentino de um navio, um contrabandista, no valor de quatro milhões de Liras (cerca de US$ 6.700). Jerry lhe diz que ele não é um ladrão, que sempre trabalhou, mas foi a vida que o levou a agir daquela maneira, dizendo que o mundo é mau. 

E depois que Angela chorou ao lhe dizer que não havia nascido para ter uma vida daquelas, como prostituta, vida esta que ela odiava, Jerry fala que eles devem ficar juntos para sempre, dizendo que eles devem ir embora para os EUA. Angela concorda, pois não tem mais ninguém no mundo que lhe deseje bem, apenas Jerry. 

Para que isso se torno possível, Jerry decide roubar Pierluigi, apesar de Angela implorar para que ele não faça isso, pois teme pela sua vida. Ele rouba o dinheiro e a encontra em uma igreja, perto da praia. 

Porém, Pierluigi e o capitão argentino vão até o local e Angela acaba morrendo ao se colocar na frente de Jerry quando um dos capangas de Pierluigi atirou no mesmo. 

Neste momento, quando Angela morre, Pierluigi abaixa a cabeça, triste com a morte da mulher pela qual se apaixonou. Jerry a leva embora, de caminhão, e joga o mesmo na ribanceira, morrendo junto com a mulher que amava, pois desejava ficar junto com ela para sempre, tal como lhe havia prometido. 

Assim, o filme transmite uma mensagem final triste e melancólico, numa época em que a maioria dos filmes procurava passar uma mensagem de esperança.

Obs7: O filme foi a décima primeira bilheteria na Itália e fez bastante sucesso na Europa, em países como França e Alemanha. Já nos EUA o romance entre um negro e uma branca não foi bem recebido. 
Jerry prometeu que ficaria junto, com Angela, para sempre. E cumpriu. 

Informações Adicionais:

Título: Senza Pietà (Sem Piedade);
Diretor: Alberto Lattuada;
Roteiro: Federico Fellini; Tullio Pinelli; Alberto Lattuada; 
Gênero: Drama; Guerra; Duração: 86 minutos;
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1948;
Música: Nino Rota; Fotografia: Aldo Tonti;
Elenco: Carla Del Poggio (Angela Borghi); John Kitzmiller (Jerry Jackson); Giuletta Masina (Marcella); Folco Lulli (Giacomo); Pierre Claudé (Pierluigi).
Prêmio: Giuletta Masina foi escolhida como Melhor Atriz Coadjuvante pelo Sindicato Nacional de Críticos Italianos.

Links:

Informações sobre o filme:

https://it.wikipedia.org/wiki/Senza_piet%C3%A0_(film_1948)

Informações sobre o filme no IMDB:

https://www.imdb.com/title/tt0040773/?ref_=nv_sr_1

Vídeo - Trecho do Filme: