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quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas?

Filmes da Marvel: Por que as críticas que Scorsese e Coppola fizeram são corretas? - Marcos Doniseti! 
Francis F. Coppola e Martin Scorsese fizeram duras críticas aos filmes da Marvel. 
Dois dos grandes cineastas contemporâneos, Martin Scorsese e Francis F. Coppola, fizeram duras críticas aos filmes da Marvel, como as de que eles não seriam Cinema de verdade e que também seriam desprezíveis, sendo filmes para parques de diversões. Scorsese deixou claro que respeita os profissionais que trabalham nestes filmes, mas afirmou que os mesmos não são Cinema, de fato. 
Isso desencadeou uma grande polêmica envolvendo os fãs destas filmes e, também, aqueles que não os apreciam.

Existem uma série de motivos pelos quais podemos criticar os filmes da Marvel e abaixo irei relacionar e comentar a respeito de alguns deles, que entendo que são bastante relevantes.

Fazer justiça com as próprias mãos e os Salvadores da Pátria!

Em primeiro lugar, tais filmes defendem a ideia de que se pode fazer justiça com as próprias mãos, aprovando uma 'Privatização da Justiça', na qual alguns ‘Super-Heróis’ formam um verdadeiro 'Esquadrão da Morte' constituído por seres superpoderosos.

Nestes filmes também está implícita a ideia de que problemas complexos poderão ser resolvidos por ‘Salvadores da Pátria’ e de maneira simplista.

Então, você quer impedir imigrantes de entrar ilegalmente em seu país? Construa um muro e tudo será resolvido. Mas é claro que isso não resolverá coisa alguma. Isso é a típica proposta feita para enganar trouxa. E quem a formulou sabe de tudo isso, é claro. Afinal, oportunistas rasteiros e amorais, neste mundo, é o que não faltam.

Obs: Mas parece que essa época está terminando, como deixam claro os protestos no Equador, Chile, Líbano, Barcelona, a queda de Matteo Salvini na Itália e o resultado de algumas eleições recentes (Parlamento Europeu, Canadá, Dinamarca, Argentina, etc). Trump, por sua vez, é rejeitado por 57% da população dos EUA, segundo uma recente pesquisa que foi divulgada pela CNN, e 50% aprovam o seu Impeachment.
Martin Scorsese e Robert De Niro em 'O Touro Indomável', um dos grandes clássicos do cineasta ítalo-estadunidense.

Novos nomes?

Nestes filmes também não temos nenhum diretor, roteirista, ator ou atriz que tenha sido revelado pelos mesmos, que estejam em início de carreira e que podemos dizer que irá deixar a sua marca na história do Cinema.

Os filmes da Marvel são feitos por diretores e atores/atrizes já consagrados ou com carreira consolidada, como são os casos de Robert Downey Jr, Samuel L. Jackson, Scarlett Johansson, entre outros. Não são novos rostos, novos nomes, que estão se destacando agora.

Se tiver algum novo nome, então o mesmo será a exceção.

Se pesquisarmos sobre a história do Cinema veremos que todos os  grandes movimentos cinematográficos da história revelaram novos nomes (Policial Noir, Realismo Poético Francês, Neorrealismo Italiano, Nova Hollywood). Todos eles revelaram diretores, roteiristas, diretores de fotografia, atores, atrizes que marcaram época.

Exemplos: A Nouvelle Vague revelou novos diretores (as), tais como Godard, Truffaut, Chabrol, Rivette, Rohmer, Malle, Varda, Resnais, e também novos atores/atrizes, como Anna Karina, Jean-Pierre Léaud, Jean-Paul Belmondo, Jean-Claude Brialy, Marie-France Pisier, entre outros.

O Neorrealismo Italiano revelou nomes Fellini, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Mario Monicelli, Aldo Fabrizi, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, Lucia Bosé, entre outros.
Bruno Ganz, ator suíço, e Dennis Hopper, ator estadunidense, foram dois grandes talentos revelados, respectivamente, pelo Cinema Novo Alemão e pelo movimento 'Nova Hollywood'. E os filmes da Marvel revelaram alguém?

Qual é a finalidade destes filmes da Marvel?

Outro problema destes filmes da Marvel é que eles mostram que a empresa desistiu de fazer Arte. Ela faz sempre a mesma coisa, padronizada e pasteurizada, se repetindo filme após filme. É um festival de mesmice e de padronização.

Afinal, quem é que tenta, nestes filmes, fazer algo novo, diferente, o que é essencial para a existência do Cinema e da própria Arte?

Mas os filmes da Marvel não são apenas para adolescentes, pois existe um grande número de adultos que podemos dizer que são infantilizados e que gostam dos mesmos, estando convencidos de que eles são ‘puro cinema’.

Esse público não quer profundidade, nada muito complexo, preferindo o raso, o rasteiro, o simples, o menos complicado. Esse público quer o ‘Jornal Nacional’ em forma de filmes. É uma parcela do público que não quer pensar, mas que deseja que pense por ele. São filmes para os Hommers Simpsons deste mundo.

E o Cinema não é só para fazer rir ou chorar, para ser produzido como mero escapismo, mas também para fazer pensar, questionar, nos levando a refletir sobre nossas vidas, nossos valores e também sobre o mundo em que vivemos.

Porém, fazer filmes mais simples, que se limitam a fazer as pessoas darem algumas risadas ou que as levem a chorar é muito mais lucrativo.

Esse negócio de querer pensar e questionar não dá lucro, mesmo, então é melhor deixar para lá…
Filmes da Marvel são Cinema? São Arte? São relevantes? O debate esquentou.

Monopólio de mercado!

Por que os filmes da Marvel são os mais criticados?

Oras, porque são eles que monopolizam as salas, o que impede que as pessoas tenham acesso a outros gêneros de filmes. Se eles ocupassem apenas um nicho do mercado ninguém se importaria muito com eles. Mas eles monopolizaram o mercado e isso é péssimo para a criação cinematográfica.

Antigamente as salas comerciais exibiam filmes de Bergman, Truffaut, Godard, Fellini e eles faziam sucesso, sim. Agora esse gênero de filmes está restrito ao circuito alternativo, que tem poucas e pequenas salas (tipo o Belas Artes e o Reserva Cultural Itaú, em São Paulo) e que estão concentradas em grandes cidades.

Hoje os cinemas só exibem Marvel ou assemelhados. É um festival de mesmice e um monopólio que deveria, sim, ser proibido, por meio de uma legislação que obrigasse a exibição de um certo número de filmes, por um determinado número de semanas, para as produções alternativas, para os chamados ‘Filmes de Arte’, com outras propostas cinematográficas, que vão muito além dos blockbusters.

Alguns falam em livre mercado, mas a existência de um monopólio é a própria negação deste livre mercado. Livre mercado significa ter acesso a todos os tipos de produção, com as pessoas tendo a chance de assistir a filmes de baixo orçamento e de perfil mais autoral. Mas isso não acontece e o mesmo ocorre justamente porque o monopólio da Marvel destruiu o livre mercado.

Isso é como se ao irmos a um restaurante somente nos fosse oferecido arroz com feijão para comer. É claro que você poderá gostar, pois o arroz e o feijão irá saciar a sua fome, mas você nunca saberá se existem comidas melhores, pois é apenas arroz com feijão que tem para comer ali e você não conhece outras comidas.
'Blade Runner', de Ridley Scott, foi uma ficção científica inovadora e que influenciou muitos filmes e cineastas, ficando claro a sua importância para o Cinema.

Filmes para divertir e entreter o público sempre existiram, mas…!

Não sou contra filmes que nos entretenha, que nos prendam a atenção. Esse gênero de filmes sempre existiu, desde os primórdios do Cinema e sempre tiveram o seu público. Mas eles compartilhavam o mercado com outros gêneros de filmes, que tinham outras propostas cinematográficas. 

O problema dos filmes da Marvel é que muitos espectadores ficam restritos a apenas esse tipo de filme e não tem acesso ou rejeitam outros gêneros, de outros cineastas, se fechando para outro tipo de cinema, que também nos faça pensar e questionar, indo muito além do mero ‘rir ou chorar’.

E isso aconteceu porque as pessoas vão ao Cinema e é somente isso que exibem, filmes estritamente comerciais, impedindo que as pessoas tenham acesso a outros tipos de filmes.

E daí eu pergunto: Será que muitas pessoas assistem aos filmes da Marvel porque não estão lhes oferecendo algo diferente? Será que essa produção de melhor nível não poderia ter um público maior caso esses filmes fossem oferecidos para as pessoas? Penso que sim.

Filmes da Marvel e Mélies: Uma comparação ridícula!

Também vi alguns fãs dos filmes da Marvel comparar os mesmos com os filmes do 
Georges Mélies, um dos primeiros criadores do Cinema. Não há como comparar filmes da Marvel com Mélies. Isso é ridículo. Mélies foi um inovador, um revolucionário, que mudou muitas coisas no Cinema, que ousou criar algo novo.

Assim, ele está muito mais próximo das obras de cineastas como Scorsese, Coppola, Orson Welles, Rossellini, Godard, Fellini, que também foram cineastas inovadores.
Francesco Rosi, Luchino Visconti e Federico Fellini: Três grandes cineastas italianos que deram uma inegável contribuição para o Cinema.

Além disso, falar que se assiste aos filmes da Marvel porque simplesmente gosta dos mesmos não é válido em um debate. Afinal, gosto pessoal não conta como critério de avaliação de uma obra, seja um filme, livro, peça de teatro, música. A

Alguém pode até gostar dos filmes da Marvel e dizer que continuarão assistindo aos mesmos, mas não venham me dizer que eles são tão bons quanto os filmes de Scorsese, Fellini, Truffaut, Bergman, Kieslowski, Coppola ou de Kurosawa. Fazer essa comparação seria algo totalmente ridículo.

Além disso, os filmes da Marvel, inovam em que? Em convencer as pessoas de que fazer justiça com as próprias mãos é certo e que existem salvadores da pátria que irão resolver todos os nossos problemas com os seus superpoderes? Isso é patético.

Isso é infantilismo puro, é muita mediocridade intelectual, o que é resultado da recusa em pensar, em questionar.

Pedido de Socorro: Para quem, mesmo?

Já vi também alguns afirmarem que os filmes da Marvel revelariam um pedido de socorro.

Sim, com certeza. É verdade. Concordo com isso.

Mas o problema é que eles estão pedindo socorro para aquilo que não existe, ou seja, para pessoas superpoderosas que teriam soluções mágicas para todos os problemas.

Assim, o nível do debate é rebaixado para o menor nível possível, para o menor denominador comum. Um grande número de alemães, nos anos 1930, desesperados com a miséria em que viviam, também pediram por socorro. E pediram para quem?
Jean-Paul Belmondo e a belíssima e talentosa Jean Seberg, em cena de 'Acossado', clássico de Godard que revolucionou o Cinema mundial.

Para o Hitler e para os Nazistas que, aliás, também eram muito populares em outros países (Brasil, EUA, França...).

Deu no que deu…

Os alemães aprenderam a lição, sem dúvida alguma, e fazem questão de não esquecer o erro que cometeram, sendo que atualmente eles procuram mostrar isso para a população do país, para as novas gerações, mas vejam o preço que tiveram que pagar por isso. Será que as pessoas irão cometer o mesmo erro novamente? 

Logo, quanto mais simplista, estúpida e medíocre for uma proposta para a resolução dos problemas que a humanidade enfrenta, maior será a chance de que a mesma terá sucesso momentâneo, e de que um grande número de pessoas terminará por gostar e aprovar estas propostas. Mas elas não irão resolver coisa alguma e o final da história será catastrófico.

Para se constatar isso, atualmente, basta ver a história do ‘Muro do Trump’, que não resolverá coisa alguma a respeito do problema da presença dos imigrantes ilegais nos EUA, mas que muitos acreditaram que poderia ser a solução para o mesmo e votaram nele. Mas esse muro não resolverá coisa alguma. Nunca foi solução e nunca será.

Portanto, esses filmes refletem um pedido de socorro, sim, mas eles são resultados de um inegável processo de empobrecimento político, social e cultural que ocorreu em nossas sociedades nos últimos tempos. Estão pedindo por socorro do jeito errado e para as pessoas erradas.

Hitler e Trump que o digam…

Ataques a Coppola e Scorsese!

Também já vi alguns ‘marveletes’ (os fãs dos filmes da Marvel, é claro) atacarem a obra de Coppola e de Scorsese em função das críticas, corretas e fundamentadas, que eles fizeram aos filmes da Marvel, o que revela a pobre formação cinematográfica destas pessoas que os criticam.
Irène Jacob, Jean-Louis Trintignant e Krzysztof Kieslowski foram os protagonistas de um dos maiores clássicos contemporâneos, que foi 'Trois Couleurs - Red' (A Fraternidade é Vermelha). Kieslowski é autor de uma belíssima obra que nos leva a refletir a respeito de inúmeras questões (políticas, sociais, existenciais).

Scorsese e Coppola tem uma obra vasta, rica e diversificada. Eles nunca se limitaram a fazer um único gênero de filme, sempre evitaram de ficar se repetindo.

Eles fizeram dramas, comédias, policiais, suspense/terror. Sua contribuição ao Cinema é inegável. 

Não concordar com as críticas deles aos filmes da Marvel é um direito das pessoas, mas daí a atacar a obra deles em função disso é uma verdadeira piada. É aquela velha história de sempre: Como tais pessoas não tem argumentos para rebater as críticas, então ela atacam as pessoas que as fizeram, tentando desqualificá-las.

É sério que vocês querem desqualificar Coppola e Scorsese, como se eles não soubessem nada sobre Cinema? Brincou, né?

Resumindo!

Portanto, entendo que os filmes da Marvel possuem os seguintes elementos!

- São um verdadeiro festival de mesmice e de padronização;

- Refletem e difundem valores reacionários;

- Divulgam soluções simplistas e medíocres para problemas complexos;

- Apelam para um público que não conhece a riqueza e a diversidade da linguagem 
cinematográfica, que vai muito além de fazer ‘rir ou chorar’;

- Não dão contribuição alguma para o Cinema enquanto forma de Arte;

- Exercem um monopólio odioso no mercado. 

Logo, entendo que Coppola e Scorsese estão absolutamente corretos em suas críticas a estes filmes.
 'A Classe Operária Vai ao Paraíso', clássico de Elio Petri, é um filme que vai muito além de meramente 'fazer rir ou chorar' e que reflete sobre a realidade de pessoas reais, de carne e osso, ou seja, trabalhadores de uma indústria que são explorados pelos capitalistas. 

Links:
As críticas aos filmes da Marvel:


sexta-feira, 21 de abril de 2017

‘Páscoa Sangrenta’ – Giuseppe De Santis finaliza a ‘Trilogia da Terra’ sobre os conflitos sociais nas áreas rurais da Itália! – Marcos Doniseti!

‘Páscoa Sangrenta’ – Giuseppe De Santis finaliza a ‘Trilogia da Terra’ sobre os conflitos sociais nas áreas rurais da Itália! – Marcos Doniseti!
'Páscoa Sangrenta' (1950) forma, junto com 'Trágica Perseguição' (1947) e 'Arroz Amargo' (1949) a 'Trilogia da Terra' de Giuseppe De Santis, encerrando a mesma. 
O cineasta Giuseppe De Santis foi um dos pioneiros do Neo-Realismo italiano, junto com Luchino Visconti, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica. 

Em 1947, ele iniciou o que foi chamada de ‘Trilogia da Terra’, que engloba os filmes ‘Caccia Tragica’ (1947), ‘Riso Amaro’ (1949) e ‘Páscoa Sangrenta’ (1950). 

Segundo o próprio De Santis, o seu objetivo ao realizar a Trilogia era construir uma ‘épica nacional das camadas populares’, da qual estas seriam protagonistas e espectadoras ao mesmo tempo. 

Assim, De Santis tinha o objetivo de, com os seus filmes de temática popular, atingir o grande público, usando de uma linguagem cinematográfica que fosse acessível para as camadas populares. 

Embora ele fosse militante de Esquerda, De Santis ‘admirava a capacidade do cinema norte-americano de criar o espetáculo’, capacidade esta que ele adaptou ‘para debruçar-se sobre o mundo dos humilhados e ofendidos’.
Francesco (Ralf Vallone) e Lucia (Lucia Bosé) formam o par romântico de 'Páscoa Sangrenta'. 
Sobre este assunto, De Santis disse o seguinte: “Minha postura quanto ao realismo implica numa transfiguração da realidade. A arte não é a reprodução de meros documentos. Se nos contentarmos em colocar a câmera na rua ou entre paredes verdadeiras, só poderemos chegar a um realismo de todo exterior. Para mim, o realismo não exclui de modo algum a ficção, nem todos os meios classicamente cinematográficos”.

Obs1: Estas frases ditas por De Santis foram retiradas do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosafia Fabris, que consta do livro ‘História do Cinema Mundial’; Fernando Mascarello (org.).

Portanto, De Santis assume uma postura diferente daquela que era adotada por Rossellini, por exemplo, e usa em seus filmes de técnicas de produção mais sofisticadas, indo além de meramente mostrar a realidade, introduzindo elementos ficcionais nas histórias que desenvolve. 

Giuseppe De Santis faz dos seus filmes grandes produções, utilizando-se de atores e atrizes famosos, o que era uma mudança significativa em relação ao período inicial do Neo-Realismo, quando se valorizava os orçamentos baratos e o uso de pessoas comuns, que não eram atores, para trabalhar nas produções Neo-Realistas. 
O pastor Francesco e a sua família lutam para recuperar as ovelhas que foram roubadas pelo ganancioso e desonesto Bonfiglio. 
Isso já havia sido feito por Giuseppe De Santis em ‘Riso Amaro’, que inaugura a sua ‘Trilogia da Terra’ e que contou com a produção de Dino De Laurentis. 

De Laurentis era um importante produtor que também apreciava as grandes produções e contratou centenas de extras para trabalhar no filme e que conta com cenas dignas das grandes produções de Hollywood. ‘Riso Amaro’ (que já foi comentado aqui no blog) também tem a participação da jovem, bela e sensual Silvana Mangano como protagonista. 

‘Riso Amaro’ até mostra a exploração sofrida pelas empregadas temporárias que trabalhavam, durante 40 dias, na colheita do arroz do Vale do Pó, mas a personagem de Silvana Mangano, marcada por uma sensualidade explícita, é o centro das atenções. E o sucesso do filme a transformou num símbolo sexual e em uma estrela internacional. 

Aliás, a intenção de Giuseppe De Santis era utilizar, novamente, Silvana Mangano para ser a protagonista de ‘Páscoa Sangrenta’, mas a nova estrela do cinema italiano estava grávida, o que impossibilitou a sua participação no filme. 
Lucia desejava ficar junto com Francesco, mas os pais dela eram contra, pois ele era um camponês miserável. 
Porém, e de forma semelhante a ‘Riso Amaro’, o filme ‘Páscoa Sangrenta’ conta com outra bela atriz italiana no papel da protagonista, que é Lucia Bosé. 

Lucia Bosé havia sido eleita Miss Itália em 1947, quando tinha apenas 16 anos, derrotando Gina Lollobrigida e outras belas candidatas. Logo, ela protagonizou ‘Páscoa Sangrenta’ quando tinha apenas 19 anos de idade, a mesma idade de Silvana Mangano na época da produção de ‘Riso Amaro’. 

Lucia Bosé estreou no Cinema justamente em ‘Páscoa Sangrenta’ e a sua beleza extraordinária não esconde o fato de que ela ainda era uma atriz inexperiente.  

Nos filmes dos quais participou posteriormente ela evoluiu muito como atriz, interpretando personagens mais complexas e que exigiram um desempenho bem superior de sua parte. 

Lucia Bosé foi protagonista, por exemplo, de ‘Cronaca di um Amore’ (1950) e de ‘A Senhora das Camélias’ (1953), filmes nos quais ela foi dirigida por Michelangelo Antonioni. Ela também trabalhou com outros diretores consagrados, como Mauro Bolognini, Luciano Emmer, Luis Bunuel e Federico Fellini. 
Francesco é preso pela Polícia, acusado de ter roubado as ovelhas de Bonfiglio. 
Em ‘Páscoa Sangrenta’, Lucia Bosé interpreta Lucia Silvestri, a jovem e bela filha de um casal de camponeses miseráveis da região de Ciociara, que se localiza entre Roma e Nápoles. Ela é apaixonada por outro camponês, também miserável, que é Francesco Dominici (interpretado por Ralf Vallone), que também é apaixonado por Lucia.

Francesco serviu o Exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial e foi feito prisioneiro, retornando para a sua terra natal apenas quando o conflito terminou. 

Mas quando ele retorna para Ciociara, as suas ovelhas foram roubadas por um desonesto e ambicioso camponês local (Agostino Bonfiglio), que se aproveitou da confusão gerada pela Guerra. 

Bonfiglio age desta maneira porque deseja se tornar um grande proprietário, rico e poderoso. Para atingir esse objetivo, se necessário, ele faz uso de ameaças, violências, intimidações, roubos e se alia a um grande proprietário rural da região (Gaetano). Ele chega a mandar colocar fogo nas moradias dos pastores para amedrontá-los. 
Os pais de Lucia, camponeses miseráveis, obrigam Lucia a se casar com Bonfiglio, deixando-a imensamente triste.
Bonfiglio também deseja se casar com a belíssima Lucia, que não tem interesse algum por ele e que, na verdade, o despreza inteiramente. Porém, ele convence o pai e a mãe da jovem Lucia de que se ela aceitar a proposta de casamento ele irão desfrutar de uma vida bem melhor. 

Assim, Lucia acaba sendo convencida a aceitar a proposta de casamento de Bonfiglio. Porém, para evitar isso, ela e Francesco combinam de roubar as ovelhas de Bonfiglio, deixando-o na miséria.  

Mas o esperto e violento camponês não se faz de rogado e denuncia Francesco pelo roubo. Francesco diz que apenas pegou de volta as ovelhas que Bonfiglio lhe havia roubado e diz que Lucia foi testemunha do fato. Mesmo assim ele acaba sendo preso e é submetido a julgamento. 

Durante o julgamento, Francesco tem certeza de que Lucia irá testemunhar a seu favor, dizendo que viu Bonfiglio roubar as ovelhas de Francesco. Mas durante o julgamento os trabalhadores e camponeses da região foram devidamente preparados pelo advogado de Bonfiglio para que afirmassem que as ovelhas eram deste e não de Francesco. 

O advogado de Bonfiglio também é um grande proprietário rural na região e, para ele, é interessante fazer uma aliança com o ambicioso e desonesto proprietário a fim de poder controlar e explorar os pastores da região.
Lucia ficou arrasada quando descobriu que havia sido traída, antes mesmo do casamento, por um marido desonesto, mentiroso e violento.
As intimidações, ameaças e pressões feitas por Bonfiglio surtiram efeito e, no julgamento, Lucia negou ter visto o roubo das ovelhas pelo mesmo. Desta maneira, ela acabou se casando com o desprezível Bonfiglio por exigência dos seus pais. 

Porém, Lucia acabará ficando sozinha já no dia do casamento, pois a irmã de Francesco, uma bonita jovem de 17 anos, foi violentada por Bonfiglio e denunciou o fato perante os moradores da comunidade. 

Apesar de Bonfiglio ter tentado se defender, culpando a jovem pelo que havia acontecido, o mesmo acabou sendo desmoralizado e foi obrigado a viver com a jovem. 

Com isso, Francesco acabou sendo condenado a quatro anos de prisão, pois ele foi considerado culpado de ter roubado as ovelhas que a Justiça ‘confirmou’ que eram de Bonfiglio.  

Porém, alguns meses após o seu julgamento, condenação e prisão, Francesco conseguiu fugir. Quando Lucia fica sabendo disso, ela decide ir ao seu encontro, na esperança de ficar junto com o mesmo. 
Durante o julgamento de Francesco, Lucia foi obrigada, pelo seus pais, a ficar ao lado de Bonfiglio, o que a fez sofrer.
No entanto, inicialmente, ele a repudia, devido ao fato dela ter ficado a favor de Bonfiglio. Ela justifica isso dizendo que foi obrigada a agir daquela maneira por imposição de seus pais. No fim, eles acabam se entendendo, mas ela não gosta da ideia de que Francesco vá se vingar de Bonfiglio. 

Mas é claro que ele decidiu se vingar de Bonfiglio, procurando fazer justiça com as próprias mãos, e nem mesmo Lucia irá conseguir fazê-lo mudar de ideia. Francesco até chega a receber oferta de ajuda dos pastores de ovelha da região, que se propõe a ajuda-lo a prender Bonfiglio para que, posteriormente, o mesmo fosse entregue à Justiça. 

Entretanto, ele recusa tal oferta e decide ir atrás de Bonfiglio. Mas, há um elemento interessante neste filme, que é a presença do Estado como elemento que procura reprimir e controlar os conflitos sociais. A Polícia atua intensamente, o tempo inteiro, para evitar que a violência privada se imponha na região. Em uma cena o chefe da Polícia adverte Bonfiglio para que ele se comporte, agindo dentro da Lei, sem apelar para aquela história de fazer Justiça 'com as próprias mãos'.

Assim, percebe-se que existe uma tradição local de resolver as diferenças com o uso da violência. E isso explica porque Francesco quer se vingar de Bonfiglio de qualquer maneira. 
A belíssima Lucia Bosé fez, em 'Páscoa Sangrenta', a sua estreia no Cinema, com apenas 19 anos. Seu rosto é de uma beleza marcante e inesquecível. 
Mas o ganancioso, violento e desonesto Bonfiglio fica sabendo que Francesco quer vingança e avisa a Polícia, que vai atrás do fugitivo. Mesmo assim, Francesco consegue chegar até a propriedade de Bonfiglio, que foge. Mas este acaba sendo encontrado e encurralado por Francesco e, vendo-se sem saída, Bonfiglio acaba saltando para a morte em um despenhadeiro.  

E o filme tem um final feliz, com o Policial avisando Francesco que ele terá direito a um novo julgamento, no qual será absolvido. E Lucia e Francesco podem, finalmente, viver juntos e felizes. Aliás, finais felizes não eram uma característica que estivesse presente nos filmes Neo-Realistas no início do movimento. 

Portanto, o filme trata dos efeitos da Segunda Guerra Mundial sobre a vida da população, bem como dos conflitos sociais existentes na área rural italiana e as dificuldades e problemas enfrentados pelos pequenos proprietários, criadores de ovelhas, da região de Ciociara. 

Em ‘Páscoa Sangrenta’ também temos algumas coisas em comum com ‘Riso Amaro’ (1949), produção anterior de Giuseppe De Santis, que é a influência do cinema americano, uma história que trata da situação de pobreza e atraso de um segmento da população rural da Itália, a presença de centenas de extras, uma história de amor e de conflitos envolvendo uma protagonista muito bonita, jovem e sensual. 
Depois da fuga de Francesco, Lucia foi atrás dele, pois ainda o amava. 
Lucia Bosé fez a sua estreia no Cinema neste ‘Páscoa Sangrenta’ (1950), tal como ocorreu com Silvana Mangano em ‘Riso Amaro’ (1949). E da mesma maneira que aconteceu com Silvana Mangano, a bela e sensual Lucia Bosé também se tornou uma atriz de muito sucesso na Itália. 

Neste sentido, a ‘Trilogia da Terra’ de Giuseppe De Santis já apontava para uma mudança nas produções dos cineastas identificados com o Neo-Realismo. 

Tais produções foram censuradas e perseguidas pelo governo conservador do PDC e perderam a simpatia do grande público, que se voltou para os filmes originários de Hollywood, que foram estimulados pelo governo italiano. Isso acabou obrigando os cineastas Neo-Realistas a promoveu mudanças em suas obras. 

Eles continuaram mostrando os problemas sociais da Itália da época, mas eles fazem isso de forma a conectar os mesmos com elementos que atraíssem o público para as salas de cinema: 

A) Uma jovem, bela e sensual protagonista; 
B) Uma grande produção; 
C) A influência do Cinema dos EUA; 
D) A presença de atores famosos; 
E) Histórias de crime e amor; 
F) Finais felizes. 
Francesco e Lucia finalmente tem um momento de amor juntos, pelo qual tanto ansiavam. 
Assim, o Neo-Realismo passou por mudanças, que irão gerar, inclusive, o chamado ‘Neo-Realismo Rosa’, que usava da comédia e do humor para mostrar os problemas econômicos e sociais italianos. Isso fez com que as produções Neo-Realistas ficassem mais leves e acessíveis ao grande público. 

E até mesmo um dos criadores do ‘movimento’ Neo-Realista, o genial Vittorio De Sica, acabou fazendo isso, como se pode constatar em ‘Milagro a Milano’. 

Apesar do seu progressivo esgotamento e das mudanças pelas quais passou, o Neo-Realismo deixou uma marca indelével na produção cinematográfica mundial e a sua influência se fez exercer nas décadas seguintes, tal como é possível constatar no Cinema Novo Brasileiro, na Nouvelle Vague e no Cinema Iraniano.

Desta maneira, o Neo-Realismo deixou uma grande marca na história do Cinema Mundial. E por isso os filmes desse 'gênero' cinematográfico merecem sempre ser vistos e revistos. 
Francesco enfrenta Bonfiglio no duelo final. 
Informações Adicionais:

Título: Non c'è Pace Tra Gli Ulivi (Páscoa Sangrenta);
Diretor: Giuseppe De Santis;
Roteiro: Giuseppe De Santis, Gianni Puccini, Carlo Lizzani, Libero De Libero;
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1950;
Gênero: Drama; Duração: 98 minutos;
Fotografia: Piero Portalupi; Música: Goffredo Petrassi;
Elenco: Ralf Vallone (Francesco Dominici); Lucia Bosé (Lucia Silvestri); Maria Grazia Francia (Maria Grazia), Vincenzo Talarico (Advogado de Francesco), Folco Lulli (Agostino Bonfiglio), Piero Tordi (Gaetano Bertarelli, advogado de Bonfiglio), Attilio Torelli, Michele Riccardini, Dante Maggio (Salvatore Capuano).

Vídeo - Trecho do Filme:

domingo, 9 de abril de 2017

‘Ossessione’ – Baseado em romance Policial Noir, Visconti fez o primeiro filme Neorrealista! – Marcos Doniseti!

‘Ossessione’ – Baseado em romance Policial Noir, Visconti fez o primeiro filme Neorrealista! – Marcos Doniseti!
'Ossessione', filme de Luchino Visconti de 1943, é considerado o primeiro filme Neo-Realista. 
As origens do Neorrealismo Italiano!

Durante muitos anos desenvolveu-se um debate sobre qual teria sido a origem do Neo-Realismo italiano, que foi um dos mais influentes e importantes ‘movimentos’ cinematográficos da história. Martin Scorsese diz, no documentário ‘Viagem à Itália’, que este foi o mais importante movimento da história do Cinema. 

‘Roma, Cidade Aberta’ foi considerado pelos críticos, e por muitos anos, como sendo o marco inaugural do Neo-Realismo, mas nem Roberto Rossellini e Luchino Visconti concordavam com isso.

A respeito dessa polêmica, Visconti declarou o seguinte: 

“Por mais que se diga... "mas, já havia ‘O Navio-Hospitale’ ‘O Homem da Cruz’, de Rossellini, ou ‘Uomini sul Fondo’, de De Robertis", esses filmes, de fato, eram documentários. A meu ver, é absolutamente necessário deixar de lado os dois filmes de Rossellini que citei, porque eram fascistas, de propaganda fascista. De Sica ainda rodava filmes como ‘Teresa Venerdi’, ‘Un Garibaldino ai Convento’ e, pouco depois de ‘Obsessão’, realizou ‘A Culpa dos Pais’, que já seguia a mesma linha. [...] O termo "neo-realismo" nasceu com ‘Obsessão’.”.

Rossellini, por sua vez, afirmou o seguinte sobre as origens do Neo-Realismo: 

“Se o chamado neo-realismo se revelou ao mundo de forma mais impressionante através de ‘Roma, Cíttà Aperta’, cabe aos outros julgar. Eu vejo o nascimento do neo-realismo mais para lá: em primeiro lugar, em alguns documentários de guerra romanceados, nos quais também eu estou representado com ‘La Nave Bianca’; depois, nos verdadeiros filmes de ficção sobre a guerra, dos quais fui colaborador no roteiro, como ‘Luciano Serra Pilota’, ou realizador, como ‘L'uomo Âalla Croce’; por fim, e sobretudo, em certos filmes menores, como ‘Avanti cè Posto’,’L'ultima Carrozzella’ e ‘Campo de' Fiori’, em que a fórmula do neo-realismo, se assim o quisermos chamar, vem se compondo através das criações espontâneas dos atores: de Anna Magnani e de Aldo Fabrizi, particularmente.”.
Luchino Visconti era chamado de 'Conde Vermelho', pois apesar da sua origem aristocrática ele era um marxista declarado. Mas ele sempre preservou uma grande autonomia em relação ao PCI, ao qual era ligado. 
Obs1: As afirmações de Rossellini e Visconti sobre as origens do Neo-Realismo foram retiradas do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosaria Fabris, que está incluído no livro ‘História do Cinema Mundial’ (Fernando Mascarello; org.).

Foi o próprio montador de ‘Ossessione’, Mario Serandrei, o responsável por usar da expressão Neo-Realismo, pela primeira vez, para definir este filme de Visconti, que foi realizado em 1943 e que foi repudiado pelo regime Fascista, pois mostrava uma imagem bastante ‘negativa’ (ou melhor, realista) da Itália.

O regime Fascista, liderado por Mussolini, dava grande valor ao Cinema, que era a principal forma de entretenimento popular na era pré-Televisão. 

O ‘Duce’ Mussolini (um ex-socialista que, depois, tornou-se um líder da Extrema-Direita e inimigo mortal do Socialismo, o qual tentou exterminar, aliando-se a Hitler para atingir esse objetivo) considerava, tal como Lenin, que o Cinema era a mais poderosa das artes, principalmente no aspecto de influenciar as ideias e o comportamento das massas populares, o que era de grande importância para o regime fascista. 
Mussolini concordava com Lenin, que considerava o Cinema como sendo uma forma de arte de grande importância para influenciar as ideias e o comportamento da população. Por isso ele investiu na construção da Cinecittà, que produziu mais de 330 filmes entre 1937 e 1943.
Para poder concorrer com a hegemônica produção de Hollywood, que dominava o mercado italiano (e mundial, claro), Mussolini chegou a construir uma indústria cinematográfica italiana.

Para isso, ele construiu a famosa ‘Cinecittà’ (Cidade do Cinema), nos subúrbios de Roma, que era um conjunto de grandes estúdios cinematográficos. Ela foi inaugurada em 1937 e produziu mais de 330 filmes até 1943, quando a Itália foi invadida pelos Aliados (EUA e Grã-Bretanha) em Julho do mesmo ano. 

No mesmo mês e ano, Mussolini foi derrubado do governo e acabou sendo preso. E em Setembro de 1943 o novo governo italiano passou para o lado dos Aliados na Guerra, enquanto que os alemães invadiam o Norte e o Centro da Itália, onde criaram a chamada ‘República de Saló’. 

Esta foi um regime fantoche fascista, que formalmente era liderado por Mussolini (que havia sido libertado da prisão por um comando nazista liderado por um capitão da SS, Otto Skorzeny), mas que, na prática, era controlado pelos Nazistas alemães.
A revista 'Cinema' também foi criada pelo regime fascista de Mussolini. Seu diretor era Vittorio Mussolini, o filho mais velho do Duce. Nela se reuniu uma equipe de críticos que se propunha a renovar o cinema italiano e que, depois, fizeram parte do Neorrealismo, incluindo Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Giuseppe De Santis. 
Devido à forte presença militar alemã no Norte da Itália, este governo nazi-fascista somente foi derrubado nos dias finais de Abril de 1945, quando Mussolini foi capturado e enforcado pela Resistência. Isso aconteceu depois de uma brutal guerra civil que devastou a região e na qual a Resistência antifascista teve um papel fundamental, lutando ao lado das tropas Aliadas. 

Além da ‘Cinecittà’, o regime fascista também apoiou a criação de uma ‘Escola de Cinema’, chamada de ‘Centro Experimental de Cinematografia’, que começou a funcionar em 1939 e que formou inúmeros diretores, atores, atrizes, roteiristas e técnicos. 

Muitos destes profissionais tiveram um papel fundamental nas produções Neo-Realistas, bem como em todo o cinema italiano do Pós-Guerra. Michelangelo Antonioni foi um destes profissionais. 

E durante o governo de Mussolini também tivemos a criação da revista ‘Cinema’, que era publicada a cada quinze dias e que tinha Vittorio Mussolini (o filho mais velho do Duce) como diretor. 
Vittorio De Sica, Roberto Rosselini e Federico Fellini foram três dos principais nomes do cinema italiano e mundial. Os três estiveram, em algum momento de suas carreiras, ligados ao Neo-Realismo. 
No entanto, a maior parte dos filmes produzidos durante o regime Fascista eram puramente escapistas, mostrando a vida dos ricos, da burguesia italiana, não tendo qualquer semelhança com as condições de vida da imensa maioria dos italianos, que viviam na pobreza e na miséria. 

Estes filmes eram muito influenciados pela produção de Hollywood e eram chamados de ‘Telefone Bianchi’ (telefones brancos), pois branca era a cor dos telefones da burguesia, enquanto o povo italiano usava dos tradicionais telefones pretos. 

Na época do Fascismo, também eram realizadas muitas comédias leves e produções históricas. Alguns filmes até mostravam as paisagens naturais e o povo italiano (que são duas das principais características do Neo-Realismo), mas isso era feito de forma idealizada, como se a vida dos italianos fosse uma verdadeira maravilha. 

O único filme produzido na época do Fascismo que chegou a mostrar a realidade das periferias de Roma (com toda a sua pobreza e desemprego) foi ‘Ragazzo’, de Ivo Perilli. 
Gino Costa (interpretado por Massimo Girotti) vivia de forma errante, fazendo trabalhos temporários e mal remunerados, por toda a Itália. 
Em função disso, ou seja, de ser muito realista, o filme foi proibido pelo próprio Mussolini, que disse ‘Essas coisas não existem mais’, a respeito da pobreza e do desemprego que grassavam na Itália da época. 

Obs2: As informações sobre a proibição do filme ‘Ragazzo’ foram retiradas do livro ‘Mussolini’, de Pierre Milza, págs. 121-122, Editora Nova Fronteira. 

Obs3: Visconti era um Conde, filho de um Duque, sendo um membro da Nobreza, portanto. Ele viveu muitos anos na França, onde conheceu Jean Renoir, um dos expoentes do chamado ‘Realismo Poético Francês’, com quem trabalhou no filme ‘Une Partie de Campagne’. Neste seu ‘período francês’ Visconti se conectou ao PCF (Partido Comunista Francês). Retornando para a Itália, ele se ligou ao PCI (Partido Comunista Italiano), embora nunca tenha se filiado à legenda, ficando conhecido como o ‘Conde Vermelho’, devido ao seu marxismo declarado. Na Itália, Visconti passou a atuar na Resistência, chegando a ser preso pela Gestapo em 1943 (ele ficou três meses na prisão). Visconti também voltou a trabalhar com Jean Renoir, no filme ‘La Tosca’ e em 1940 ele passou a trabalhar na revista ‘Cinema’, dirigida por Vittorio Mussolini, o filho do ‘Duce’. ‘Ossessione’ foi o seu primeiro filme. Em uma entrevista de 1976 (ano em que veio a falecer) Visconti disse: “Prefiro contar as derrotas, descrever as almas solitárias, os destinos esmagados pela realidade”. Estas informações foram retiradas do livro ‘O Cinema de... De Sica, Rossellini, Visconti, Antonioni e Fellini’, de Roberto de Castro Neves (págs. 47-50; Ed. Mauad X, 2012). 
Bragana cobra Gino por este não ter pago a conta no restaurante. Para isso, Gino fará alguns serviços para Bragana, consertando o caminhão do mesmo. 
A trama do filme!

Vittorio Mussolini, o filho do ditador italiano, disse, a respeito de ‘Ossessione’, que ‘Esta não é a Itália’, já que a trama do filme mostrava um país e um povo empobrecidos e sem esperança de melhorar de vida por meio do trabalho duro e honesto.

Desemprego, fome, miséria, crime, prostituição e desesperança são algumas das características da Itália que são mostradas neste filme fundamental de Visconti. 

Então, isso explica os motivos que levaram o filho do ‘Duce’ a detestar o filme. 

O roteiro de ‘Ossessione’ é baseado no livro ‘O Destino Bate à Porta’, um clássico do romance policial Noir que foi escrito por James M. Cain, mas Visconti não mostrou isso no filme, o que criou complicações para a sua exibição nos EUA. 

Visconti fez algumas mudanças na trama, adaptando a mesma para a realidade italiana. 

Ele transferiu a ação dos EUA da época da Grande Depressão para a Itália de Mussolini (no início da década de 1940) e introduziu um novo personagem na história (Spagnolo, ao qual é sugerido ser um homossexual), o que estava ausente do livro. 
A bonita Giovanna sente-se atraída por Gino logo que o vê pela primeira vez. E ele corresponde ao interesse. 
Obs4: Luchino Visconti era homossexual assumido e vários dos seus principais filmes tratam do assunto, como é o caso de ‘Morte em Veneza’ e ‘Os Deuses Malditos’.

Visconti também introduziu uma nova personagem feminina na história (Anita), uma jovem bonita que desperta o interesse de Gino e por quem ela também se apaixona. 

Mas na essência, ou seja, a possibilidade de ascensão social e econômica apenas por meio de atividades criminosas e o final trágico, a história do filme é bastante fiel ao livro de James M. Cain.

Obs5: Em 1946, tivemos a produção da versão estadunidense do livro de James M. Cain, que recebeu o mesmo título do livro (O Destino Bate à Porta) e que foi dirigido por Tay Garnett. O papel feminino principal ficou com a belíssima Lana Turner. John Garfield fez o protagonista masculino, amante da personagem da sensual Lana Turner. 

No filme de Visconti, vemos Gino (interpretado por Massimo Girotti), que é um trabalhador errante e desempregado e que vive de fazer trabalhos eventuais enquanto viaja pelo país. 
Giovanna e Gino se aproveitam da ausência de Bragana para ficarem juntos. 
Gino acaba por se envolver romanticamente com Giovanna (interpretada por Clara Calamai), a bonita e sensual esposa do proprietário (Giuseppe Bragana) de um restaurante de beira de estrada que fica próximo de Ancona. 

Gino é tão miserável que sequer tem dinheiro suficiente para comprar uma passagem de trem e viaja, mesmo sem ter autorização para isso, nas caçambas de caminhões. 

Nem dinheiro para se alimentar ele possui. Inclusive, ele chegou a comer no restaurante de Giovanna e saiu sem pagar. Apesar disso, ele é honesto, recusando-se a virar um ladrão, vivendo de trabalhos temporários e mal remunerados. 

Obs6: Agora, com a aprovação das ‘reformas’ trabalhistas, previdenciária e da Terceirização generalizada, pelo governo Neoliberal de Temer, milhões de trabalhadores brasileiros, principalmente os de baixa qualificação, irão viver igual a Gino. 

E assim ele acaba chegando ao restaurante onde Giovanna trabalha, junto com o marido (Giuseppe). Gino mal entra no local e a atração entre ele e a mulher é imediata. Ele chegou a ver a bonita mulher sentada, em cima de uma mesa, balançando as suas belas pernas, uma cena que foi bastante ousada para a época. 
Giovanna é uma mulher casada, mas infeliz, pois ela nunca amou Bragana, o seu marido. 
Para poder pagar a refeição, Gino concorda em fazer alguns serviços para Giuseppe, consertando o hidrante e o caminhão do mesmo. E é neste momento que o romance entre ele e Giovanna engata uma quinta, sem que o marido desconfie de qualquer coisa. Giuseppe passa a confiar rapidamente em Gino pelo fato do mesmo ter feito os serviços combinados. 

Giovanna confessa, para Gino, que ela se casou com Giuseppe apenas porque vivia na miséria, entregando-se para os homens nas ruas, ou seja, ela era uma prostituta. Isso é dito indiretamente por ela, o que deve ter sido uma maneira de burlar a censura imposta pelo regime Fascista. 

Logo, o casamento com Giuseppe foi uma maneira que ela encontrou de sair daquela vida. Mas ela diz para Gino que, de fato, não tem nenhuma atração pelo marido e que sente repulsa pelo mesmo. 

Obs7: Inúmeros filmes neorrealistas mostram a prostituição na Itália neste período, pois esta era, muitas vezes, a única maneira pela qual uma mulher poderia ganhar algum dinheiro naquela época de grande miséria no país, principalmente nos primeiros anos do Pós-Guerra.
Gino e Giovanna tentaram ir embora, mas ela desistiu e permaneceu vivendo com Bragana. 
Gino e Giovanna querem ficar juntos, mas ele não consegue viver com ela enquanto essa permanecesse casada, até porque Giuseppe é ciumento e vigia a esposa. Eles tentam fugir, aproveitando-se da ausência temporária de Giuseppe, mas ela acaba desistindo. 

Com isso, Gino vai embora e embarca em um trem de forma clandestina. 

No trem, ele conhece Spagnolo, que paga a sua passagem, dizendo que é preciso que as pessoas se ajudem. E também é possível perceber que ele se sente atraído por Gino. Spagnolo tem esse apelido porque esteve na Espanha, o que é uma clara referência à Guerra Civil Espanhola (1936-1939). 

E fica bem claro, pelo seu discurso de querer ajudar aos demais, que Spagnolo é esquerdista e que lutou contra Franco na guerra espanhola. E também é sugerido que ele é homossexual, principalmente quando ele disse para Gino, mais adiante, que gostava de visitar o cais de Gênova, pois ali ele conseguia fazer muitos ‘amigos’. 

Eles ficam um tempo juntos, chegando a dormir no mesmo quarto de uma pensão, mas não há qualquer evidência de que eles tenham tido alguma relação sexual. Tudo fica no plano da sugestão. 
'Spagnolo' é um veterano da Guerra Civil Espanhola, na qual lutou contra Franco, e se torna amigo de Gino, ao qual ajudou sem sequer conhecê-lo. 
Gino sai de Ferrara e vai para Ancona, onde pensa em embarcar em um navio, indo embora dali, mas o seu amor por Giovanna impede que ele faça isso. 

Em Ancona ele participa de apresentações públicas de Spagnolo, mas no local ocorre também uma festival de canto lírico e Giuseppe Bragana participa do mesmo. 

Ele e Giovanna acabam encontrando Gino, que os acompanha na apresentação. 

É claro que isso faz com que Gino e Giovanna retomem o romance, sendo que ela quer aproveitar a situação para eliminar o marido e Gino acaba concordando. 

Aproveitando-se do fato de que Giuseppe havia bebido muito e era noite, no retorno para casa, Gino substitui o mesmo na direção do veículo. Na manhã seguinte o veículo aparece tombado numa ribanceira e Giuseppe está morto. Fica claro que o acidente foi forjado e que o marido de Giovanna foi assassinado por Gino.

Gino e Giovanna são interrogados pela Polícia e entram em contradição, o que leva o comissário a continuar com as investigações. E Gino passa a ser seguido por um Policial. 
Gino e Giovana são interrogados pela Polícia após a morte de Bragana, que ocorreu em circunstâncias suspeitas.  
Apesar do fato de que agora eles estão juntos, Gino sente-se muito mal com o fato de ter assassinado Giuseppe e briga constantemente com Giovanna. Por isso, ele diz que deseja ir embora, mas ela se recusa. 

Afinal, agora ela é a proprietária de um restaurante e ainda irá receber o dinheiro do Seguro, desfrutando de uma vida livre, tranquila e estável, o que é algo totalmente novo para ela. Ela decide movimentar o restaurante, contratando grupos musicais e organizando festas que lhe proporcionam um bom lucro. 

Desta maneira, Gino passa a brigar com Giovanna e a ficar bêbado constantemente. 

No dia da festa, Gino reencontra o Spagnolo, mas eles discutem, pois Gino não quer ir embora junto com o amigo e prefere ficar por ali mesmo. Assim, Gino está perdido. 

Ele não quer ir embora e nem ficar por ali. Ele sabe apenas o que não quer, mas ainda não descobriu o deseja. 
Gino conhece a jovem e bonita Anita. Eles também sentem uma atração mútua e se envolvem romanticamente, mas ele se recusa a ter relações com ela. Gino é um homem ético. 
A discussão termina com Gino agredindo Spagnolo, que toma a iniciativa de procurar a Polícia para contar o que sabe a respeito das circunstâncias da morte de Giuseppe. 

Gino e Giovanna vão à Seguradora, em Ferrara, pois Giuseppe havia feito um seguro de vida no valor de 50 mil Liras sem que Giovanna soubesse disso. Porém, Gino fica convencido de que Giovanna sabia do seguro de vida de Giuseppe e de que o teria usado para matar o marido e ficar com o dinheiro.

Nesta viagem para Ferrara, enquanto aguarda por Giovanna, Gino acaba conhecendo uma bonita e sensual jovem (Anita). Ela se apresenta como bailarina, mas na verdade é uma prostituta. A atração entre eles é imediata, mas ele evita de ter uma relação com a jovem, embora essa demonstre interesse. Ele não quer se aproveitar dela. 

Apesar de conhecer Anita há pouco tempo, Gino percebe que ela é generosa e conta tudo para a bela jovem: Seu romance com Giovanna, as circunstâncias do crime que cometeu. 
Anita fica desolada com o fato de Gino ter ido embora. 
Aliás, essa é uma característica de ‘Ossessione’, ou seja, tudo acontece rapidamente. 

Assim, as pessoas mal se conhecem e já estão se envolvendo. Foi assim com Gino e Giovanna e, também, com Gino e Anita. Giuseppe também passou a confiar rapidamente em Gino, depois dos serviços que ele fez. E o crime cometido por Gino também acontece sem que os detalhes do mesmo fossem mostrados. 

Gino também percebe que está sendo perseguido pela Polícia. Mesmo depois de ficar sabendo tudo o que ele fez, Anita continua gostando de Gino e decide ajuda-lo a fugir.

A esperta Giovanna viu os dois juntos e briga com Gino em público, sendo que este a esbofeteia duas vezes, o que chama a atenção das pessoas. Enquanto isso, Anita observa tudo. E o Policial que vigiava Gino vai atrás deste, que consegue fugir (com a ajuda de Anita) na caçamba de um caminhão.

Dois homens procuram a Polícia, para contar o que viram no dia do ‘acidente’, deixando claro para o Comissário que Giuseppe foi assassinado por Gino. 
Gino e Giovanna fogem da Polícia, que os perseguem, e sonham em viver juntos e serem felizes.
Gino volta para o restaurante, junto com Giovanna, e eles decidem ficar juntos e ir embora dali. Na viagem, no entanto, o carro em que estavam acaba caindo numa ribanceira depois que Gino tentou fazer uma ultrapassagem. 

Giovanna morre no acidente, Gino carrega o seu corpo (momento em que podemos ver as coxas e até uma parte da b...a de Clara Calamai) e o coloca na estrada, sentindo-se arrasado com a tragédia. O Policial diz ‘vamos’ para Gino, que chora. Ele sabe que a sua vida acabou. 

Assim, o final será trágico para todos os envolvidos na trama: Gino, Giovanna, Anita. Afinal, para os derrotados e perdedores que vivem em uma sociedade desigual e que não lhes permite alcançar os seus objetivos de forma honesta não podem existir finais felizes. 

Fim. 

Obs8: Em ‘Cronaca di un Amore’ (filme de 1950), que foi o primeiro longa-metragem de Michelangelo Antonioni, também temos a influência do Policial Noir, bem como uma história parecida com a de ‘Ossessione’. No filme de Antonioni, uma jovem e bela mulher (Paola, interpretada pela belíssima Lucia Bosé) e o amante (interpretado pelo mesmo Massimo Girotti de ‘Ossessione’) tentam se livrar do marido rico da mesma. A principal diferença em relação à ‘Ossessione’ é que a trama do filme de Antonioni já se desenvolve numa Itália diferente daquela que Visconti mostrou em seu filme, que é a do começo da década de 1940. Já em ‘Cronaca di un Amore’ o país passava pelo período de reconstrução (que foi possível graças ao ‘Plano Marshall’, que vigorou de 1948 a 1953). E no filme ‘Muerte de um Ciclista’ (de 1967 e que também já foi comentado no blog), o cineasta espanhol Javier A. Bardem também conta a história que envolve uma mulher casada e um amante que tentam esconder o crime que cometeram, enquanto mostra o caráter fortemente repressivo da ditadura de Franco. Em todos estes filmes temos algo em comum, que é o final triste e trágico. 
Gino tira Giovanna do carro, após o acidente. 
Informações Adicionais!

Titulo: ‘Ossessione’ (Obsessão);
Diretor: Luchino Visconti;
Roteiro: Luchino Visconti; Giuseppe De Santis; Gianni Puccini; Mario Alicata; Baseado no livro 'O Destino Bate à Porta', de James M. Cain;
Ano de Produção: 1943; 
País de Produção: Itália;
Gênero: Drama; 
Duração: 134 minutos;
Fotografia: Aldo Tonti; Música: Giuseppe Rosati;
Montagem: Mario Serandrei;
Elenco: Massimo Girotti (Gino Costa); Clara Calamai (Giovanna Bragana); Juan de Landa (Giuseppe Bragana); Michele Riccardini (Don Remigio); Elio Marcuzzo (Spagnolo); Dhia Cristiani (Anita); Vittorio Duse (agente da Polícia); Michele Sakara (garota).
O Policial, que vigiava e perseguia Gino, lhe diz 'Vamos'. A prisão o espera.