terça-feira, 13 de setembro de 2016

'Le Petit Soldat' (Godard): Ideologia, eu quero uma para viver! - Marcos Doniseti!

'Le Petit Soldat' (Godard): Ideologia, eu quero uma para viver! - Marcos Doniseti!
 'Para mim o tempo da ação acabou. Envelheci. Começa o tempo da reflexão'. Em um rápido movimento de câmera, o protagonista (Bruno) faz tal afirmação, mostrando que essa reflexão era urgente, não podendo ser feita de forma calma e tranquila. Assim começa 'Le Petit Soldat', filme clássico de Jean-Luc Godard. 
Este é o segundo filme de Godard e que foi realizado logo após ele fazer a obra-prima 'Acossado'. Mas em função do tema que ele abordou (a Guerra da Argélia) o mesmo foi censurado por três anos e a sua liberação ocorreu apenas em Janeiro de 1963, quando a Guerra de Independência da Argélia já havia terminado, após os argelinos conquistarem a sua liberdade, o que ocorreu em Julho de 1962. 

A Argélia foi uma colônia francesa, que havia sido conquistada pela França em 1830, o que deu um início precoce à nova era do Neocolonialismo, que vai atingir o seu auge entre 1880-1900, período no qual toda a África (e a Ásia também) acabou conquistada pelas grandes potências capitalistas industriais europeias.

França e Grã-Bretanha criaram os maiores e mais ricos impérios neocoloniais da época e eles somente foram desmantelados após a Segunda Guerra Mundial. Como parte deste processo de Descolonização, que se desenvolveu no Pós-Guerra, na Ásia e na África, inúmeros países africanos e asiáticos conquistaram a sua Independência.

Em alguns casos, o processo foi menos traumático (ou seja, menos violento) e passou por negociações entre os governos dos Impérios e os líderes que comandavam a luta pela Independência  destas Colônias (o que foi o caso da Índia, que se tornou independente já em 1947).
Livro 'A Condição Humana', de André Malraux. Bruno é uma pessoa em busca de um ideal. Ele diz que Malraux , Drieu la Rochelle e outros da mesma geração acreditavam em ideais e que, agora, isso não existe mais. 
Mas em muitos outros casos, a descolonização foi bastante violenta, com guerras brutais sendo travadas por muitos anos, o que foi o caso da Guerra do Vietnã (1945-1975), e da Guerra da Argélia (1954-1962).

Obs1: Aliás, recomendo que assistam a um outro filme, clássico, a respeito desta guerra, que é 'A Batalha de Argel' (1966), do cineasta italiano Gillo Pontecorvo. Ele mostra como essa guerra se desenvolveu, na qual tivemos milhares de casos de mortos, feridos, torturas e de atentados terroristas, atos estes que foram praticados por ambos os lados do conflito, é claro. Afinal, era uma Guerra. O filme é tão bom que até o Pentágono o exibe para os seus funcionários. 

A história do filme de Godard se desenvolve em torno de um fotógrafo e agente secreto (Bruno Forestier) que desertou do Exército francês e que faz parte de uma organização paramilitar secreta de extrema-direita, o 'Departamento Francês de Informação' (DFI; claramente inspirada na OAS, 'Organização do Exército Secreto'), que luta contra o movimento de libertação nacional argelino (FLN). A trama do filme se passa em Maio de 1958, momento em que a guerra na Argélia, que se iniciara em 1954, e que terminaria apenas em 1962, ganhava em intensidade e no qual a França mergulhou em uma grave crise política.

Obs2: Em Maio de 1958 ocorreu uma tentativa de Golpe de Estado, por parte de generais franceses que lutavam para manter a Argélia como uma colônia francesa. Eles se rebelaram contra as negociações que o governo francês fazia com a FLN. Charles De Gaulle subiu ao poder com o apoio destes generais, mas depois se afastou dos mesmos, passando a negociar a independência argelina com a mesma FLN, o que acabou acontecendo em Julho de 1962. Por este motivo a OAS tentou assassinar De Gaulle em várias oportunidades. Nesta época, a França estava perdendo as suas principais colônias na Ásia e na África: A Indochina, em 1954, a Túnísia e o Marrocos, em 1956, foram regiões que conquistaram a sua independência na década de 1950. Assim, a França era uma potência em crise, vivendo a sua fase descendente. Mas nem todos os franceses aceitavam o fato. 
Hugh foi o responsável por apresentar Bruno à jovem e bela Veronica, uma simpatizante da FLN argelina. Hugh apostou US$ 50 com Bruno, dizendo que este se apaixonaria por Veronica em poucos minutos. Bruno pagou Hugh, reconhecendo que perdeu a aposta.
Bruno recebe a missão de ir para a Suíça (Genebra), onde terá que assassinar um radialista, Palivoda, que faz ataques à Guerra que a França promove na Argélia. Em função de vários vacilos e empecilhos, porém, Bruno não conseguirá executar tal tarefa, o que irá lhe gerar inúmeros problemas.

Na Suíça, ele irá conhecer uma bela jovem, Veronica, de origem dinamarquesa, pela qual irá se apaixonar e com quem terá um intenso romance, e que também está envolvida na Guerra da Argélia, pois ela trabalha para a FLN (Frente de Libertação Nacional), organização revolucionária que luta pela independência da nação argelina.

Obs3: Veronica é interpretada por Anna Karina (a principal Musa da Nouvelle Vague francesa) que, aqui, fazia o seu primeiro trabalho com Godard. Inclusive, eles foram casados por vários anos, período no qual ela foi a protagonista dos seus principais filmes, tais como: 'Uma Mulher é Uma Mulher' (1961), 'Viver a Vida' (1962), 'Pierrot Le Fou' (1964), 'Alphaville' (1965),  'Bande À Part' (1965; sobre o qual eu já escrevi aqui no blog) e 'Made in USA' (1966).

No filme, a Suíça é apresentada como um país que, embora neutro, era um território no qual inúmeras organizações revolucionárias, extremistas e serviços secretos atuavam intensamente.
Cena que mostra Genebra, cidade suíça onde se desenvolve a maior parte da trama deste clássico filme de Godard. 'Le Petit Soldat' trata da Guerra da Argélia e da busca por um ideal pelo qual valha a pena lutar ou viver. O filme foi censurado por três anos na França, tendo sido liberado apenas em 1963.
É bom ressaltar que, embora tenha nascido na França, Godard passou grande parte da sua vida na Suíça e, por isso, ele é considerado como sendo um franco-suíço. Aliás, o próprio Godard faz uma ponta no filme, numa cena que se passa numa estação ferroviária e na qual Bruno está decifrando um código que foi enviado pelos membros do DFI.

Quando chega à Genebra, Bruno toma conhecimento, ao ler o jornal, de um atentado terrorista que acabou de acontecer (enquanto ele lê o jornal, Veronica passa ao seu lado, mas ele não a vê) e no qual a vítima foi um Professor (Lachenal) que simpatizava com a FLN e que foi morto por terroristas franceses (do DFI).

Bruno percebe que foi a organização (DFI) da qual é integrante que cometeu o crime e diz que seus líderes estão completamente loucos. Tal acontecimento faz com que ele entre em crise e passe a se questionar se o que ele faz, afinal, está certo. Assim, ele faz planos para desertar da organização, indo embora da Europa, com destino ao... Brasil.

No filme, também veremos inúmeras citações culturais por parte de Godard. A primeira delas é quando Bruno cita Louis Aragon, poeta e cineasta francês marxista: "Maio indolor. Junho, apunhalado' (referência ao Golpe dos generais franceses? Ou seria a respeito da invasão da França pelos alemães, em Maio/Junho de 1940?). 
Notícia do jornal 'La Suisse' informando que um professor (Lachenal) que simpatizava com a FLN argelina foi assassinado. A DFI, organização da qual Bruno fazia parte, foi a responsável pelo atentado, o que o levou a questionar se estava fazendo a coisa certa. 
Logo depois, de dentro de um carro, Bruno fotografa um casal de jovens namorados e ao lado vemos um cartaz onde se lê 'Amai-vos uns aos outros'... Mais adiante, no filme, veremos citações a respeito de Paul Klee, Giradoux, La Fontaine, Velázquez, Renoir e Camus.

Já no primeiro filme de Godard ('Acossado'), vimos um verdadeiro festival de carros, de todas as marcas e modelos, e agora o mesmo acontece em 'Le Petit Soldat'. 

Outros cineastas europeus da época também passaram a mostrar essa nova paisagem urbana, repleta de automóveis, pois foi apenas a partir do final da década de 1950 que o automóvel se massificou no Velho Mundo, algo que já havia acontecido nos EUA na década de 1920.

Mas as turbulências pelas quais a Europa passou na primeira metade do século XX (a devastação provocada por duas Grandes Guerras europeias, a Grande Depressão, inúmeras Guerras Civis e Revoluções) fizeram com que isso demorasse a acontecer no Velho Mundo.

Em 'Le Petit Soldat', muitos dos fatos mais importantes acontecem com o envolvimento de automóveis: 
Bruno diz para Veronica que ela havia tocado no seu braço e que, quando isso acontecia, isso resultava em um ato de amor. Logo depois, ela toca no braço dele...
A) As tentativas de Bruno de matar Palivoda são feitas de dentro de um carro; 

B) Bruno está dentro de um carro quando descobre que um ex-deputado que fez parte da 'República de Vichy' financia a DFI; 

C) A fotografia do casal de namorados foi tirada quando Bruno estava dentro de um automóvel; 

D) A vez em que falou que Veronica e ele deveriam fazer amor porque ela havia tocado no braço dele se dá em frente a uma loja com a marca Renault afixada no vidro; 

E) O uso do carro de Bruno, pelos agentes da DFI, para colocar a Polícia no seu encalço.

Godard diz que o céu de Genebra lembra uma pintura de Paul Klee, pintor suíço que será citado várias vezes no filme. E ele pergunta 'De onde vem? Onde está? Para onde vai?', questionamentos típicos do Existencialismo, que exerceu uma grande influência sobre a intelectualidade e, claro, sobre muitos cineastas europeus (Michelangelo Antonioni, por exemplo) nos anos 1950/1960, em especial.
Albert Camus: O personagem Bruno teria sido  inspirado neste importante intelectual francês, que nasceu na Argélia. E existe até uma certa semelhança física entre Albert Camus e Michel Subor. 
Um amigo, Hugh, comenta com Bruno a respeito de Veronica, uma garota dinamarquesa (que é a verdadeira nacionalidade de Anna Karina), e que gostaria de ser fotografada por ele, Bruno. Hugh diz que este iria gostar de fazer amor com ela. Bruno diz que só faz amor por quem está apaixonado, mas o amigo lhe diz que cinco minutos serão suficientes para que ele se apaixone por Veronica. E é claro que isso irá acontecer... Bruno e o amigo até fazem uma aposta quanto a isso, no valor de US$ 50.

Quando viu Veronica pela primeira vez, Bruno concluiu que ela parecia que tinha acabado de sair de uma obra de Giradoux (romancista francês do período do Entre-Guerras). Hugh chama Veronica e eles vão andar de carro. Bruno dirige o carro, Veronica fica no meio, e Hugh fica no lado direito, cena semelhante a uma outra que veríamos também em 'Bande À Part'.

Bruno despede-se de Veronica, mas antes ele paga a aposta para o amigo, Hugh, reconhecendo que se apaixonou pela bela jovem. Ele combina de marcar a sessão fotográfica com ela para o dia seguinte, e depois vai decifrar o código que recebeu de um fotógrafo que trabalha para a organização extremista da qual ele é membro (DFI).
Bruno e Veronica se apaixonam e começam um romance marcado por muitas discussões filosóficas, políticas e artísticas.
No trem, rumo a Lausanne, Bruno diz que até aquele momento tem tido uma vida desprovida de ideais e se questiona se o futuro será igual. Na viagem, um passageiro conta uma piada sobre inteligência a outro, enquanto uma mulher cita La Fontaine.

Bruno se pergunta se Veronica tinha os olhos cinza-Velázquez ou cinza-Renoir. São as referências culturais, que são sempre numerosas nos filmes de Godard. Ao descer do trem, ele irá se encontrar, dentro de um automóvel, com Jacques e Paul, ambos membros importantes da DFI, e fala que sua organização é financiada por um ex-deputado que apoiou o governo colaboracionista do Marechal Pétain, a 'República de Vichy', durante a Segunda Guerra Mundial, que foi aliada da Alemanha Nazista.

Jacques (que é um veterano da guerra na Indochina, de onde os franceses foram expulsos em 1954, e que tem uma longa trajetória de assassinatos) lê um trecho de um livro de Jean Cocteau, 'Thomas, o Impostor', onde se diz que realidade e ficção são uma só coisa. Bruno fala que quer levar Veronica para o Brasil, comprar três quadros de Modiglianis e montar uma galeria de pintura.

Jacques diz que Bruno recebeu a missão de matar Palivoda, que apresenta um programa em uma emissora de rádio de Genebra e que simpatiza com a luta da FLN argelina, mas ele diz que não quer fazer isso. Ele fica sabendo que foi escolhido para a missão para saber se tem medo, mas Bruno fala que não quer cometer o crime porque não tem vontade. Afinal, ele é uma pessoa em crise, que não acredita mais no que faz.
Bruno se prepara para assassinar Palivoda, por ordens da organização de extrema-direita da qual faz parte (DFI), mas não consegue. Ele não acredita mais no que está fazendo. 
Porém, Bruno é ameaçado: Se não cumprir a sua missão, ele será devolvido à França, onde será levado para uma prisão militar. Mesmo assim, Bruno faz a saudação dos republicanos espanhóis, que lutaram contra Franco e contra os nazi-fascistas que apoiaram o General golpista, e vai embora. Ele telefona para o Consulado do Brasil, pois quer obter dois vistos, para ele e Veronica, abandonando de vez a luta política na qual está envolvido e na qual ele não acredita mais.

Bruno passeia pela noite de Zurique, onde "o céu estrelado evoca emoções, sendo duro e misterioso ao mesmo tempo, à imagem do ser humano e do que está além dele". Logo depois, vemos a imagem de Veronica... Eles se veem, mas fingem que isso não aconteceu. Bruno é seguido e procura despistá-los. Bruno diz 'Agora tudo está calmo. O inimigo do homem descansa'. Na verdade, os seus inimigos estão lhe perseguindo, caindo numa contradição entre o que é mostrado e o que é dito. 

A noite termina...

Na manhã seguinte, Bruno vai encontrar Veronica, para a sessão de fotografia, e vê Paul no carro, em frente ao hotel onde ela se hospedou. Paul tem uma foto de Veronica, o que não é um bom sinal, e vai embora sem responder a Bruno o que fazia ali. Assim, a perseguição feita pelos membros da DFI está dando resultados, pois eles já sabem onde Veronica e Bruno estão morando e como é a aparência dela. 

Durante a sessão, Bruno diz, para Veronica, que "Quando se fotografa um rosto, se fotografa a alma que está atrás dele'. E ao vê-la, ele diz que ela tinha olhos cinza-Velázquez. E Bruno também diz que 'A fotografia é a verdade. E o Cinema é a verdade, 24 vezes por segundo'.
A partir de um triângulo, um quadrado e um círculo, Veronica e Bruno tinham que completar os desenhos. Ela fez um homem e uma mulher. Bruno, por sua vez, escreveu 'Te Quero'.
Enquanto a fotografa, Bruno faz inúmeras perguntas para Veronica: sobre seus pais, porque ela está em Genebra, se ela acredita na liberdade, qual é a sua nacionalidade, se ela gosta de tomar banho, sobre a morte, se é cortejada em Genebra, se tem irmãos...

Bruno diz que seu pai foi fuzilado no dia da Libertação da França (25/08/1944) e que o mesmo era amigo de Pierre Drieu la Rochelle (este foi um escritor brilhante, mas que simpatizou com o Nazismo, tendo sido também um feroz anti-semita). Bruno fala que 'Não importa como os outros o vejam, mas como se vê a si mesmo'.

Naquela que é uma das cenas mais bonitas do filme, Bruno desenha um triângulo, um quadrado e um círculo e pede para Veronica completar. Ela desenha um homem e uma mulher. Bruno, por sua vez, escreve 'Te Quero'. Eles saem à noite e Bruno diz que Veronica considerava Gauguin um pinto melhor do que Van Gogh, mas ele diz que ela está equivocada. Mais referências culturais aí... 

Paul e Jacques, vendo que Bruno abandonou a DFI e que não vai cumprir a missão para a qual foi designado, roubam o seu carro e o usam para bater em outro veículo, a fim de colocar a Polícia atrás dele. como forma de pressioná-lo a cumprir com a missão que lhe foi determinada pela organização.

Enquanto passeiam, Bruno fala para Veronica que ela somente deveria lhe dar o braço se tivesse a intenção de fazer amor com ele... E ela lhe dá o braço... 
Paul e Bruno (no banco de trás). Este último tem a missão de eliminar um radialista, Palivoda, que ataca a guerra colonial que a França promove contra os argelinos. 
No quarto do hotel, vemos o livro de André Malraux, 'A Condição Humana', uma série de fotografias com cenas de guerra e destruição, enquanto Bruno cita uma frase de um romance do escritor francês Georges Bernanos ('Crianças Humilhadas', de 1948): 'Entramos na guerra como na escola de nossa infância'.

Obs4: Outro aspecto do filme de Godard são as marcas famosas que aparecem no mesmo: Total (empresa de petróleo francesa), Esso, Renault, Pontiac. 

Como a Polícia suíça ameaçou devolvê-lo à França, Bruno aceitou cumprir a missão que a DFI lhe designara: assassinar Palivoda. Porém, apesar de fazer várias tentativas (várias delas dentro de um automóvel), Bruno não conseguirá executar a sua missão, devido a vários vacilos e alguns imprevistos, e irá desertar novamente, desta vez, em definitivo, da DFI.

Enquanto persegue Palivoda, este acaba se encontrando com um membro da FLN, que fica sabendo da perseguição de que o radialista é vítima. Bruno avisa Veronica de que irá fugir para o Brasil. Ele pede que ela lhe diga algumas mentiras e ela fala que não está triste por ele ir embora, que não está apaixonada por ele, que não irá se encontrar com ele no Brasil e que não o beijará ternamente.

Bruno é levado pelos árabes da FLN para um cativeiro e passa por um longa sessão de torturas (queimaduras, afogamento, choques elétricos). Bruno não responde às perguntas que lhe fazem, simplesmente porque não tinha vontade, ou seja, pelo mesmo motivo que o levou a não matar Palivoda. Bruno é alguém que não possui mais nenhum ideal e que não quer mais participar de nenhuma luta ou organização. 

Ele quer apenas fugir com Veronica e ser feliz ao lado dela.
Durante a sessão de fotografia, Bruno submete Veronica a um verdadeiro interrogatório a respeito da sua vida pessoal. Em suas conversas, eles falam sobre política, arte, música, literatura, ideologias. Ambos estão em busca de uma razão para viver. 
Os integrantes da FLN mostram fotos de dois membros da DFI, Alfred e Etienne Latouche, que eles mataram porque se recusaram a lhes passar informações. Os membros da FLN leem alguns livros revolucionários (Lênin, Mao Tsé-Tung) e tentam doutrinar Bruno, denunciando os crimes e torturas que os franceses cometem contra os argelinos (eles citam o caso do amante de Djamila. uma integrante do movimento que está junto com eles no cativeiro) mas isso não funciona, pois Bruno não acredita em mais absolutamente nada. 

E o líder da FLN diz também que tudo em uma Revolução não há tarefas fáceis e tampouco métodos fáceis de luta, concluindo que tudo é válido em nome da Revolução e que a vitória é certa. O homem que deu um cãozinho de brinquedo para Veronica é membro da organização. No fim das contas, Bruno se atira pela janela e consegue fugir do cativeiro.

Bruno vai para o hotel, ficar com Veronica, e embora esta diga que é uma integrante do FLN, ela quer fugir com ele para o Brasil. E Paul e Jacques vão atrás dele. Veronica diz que ajuda a FLN porque eles lutam por um ideal, o que não acontece com os franceses, e que isso fará com os argelinos sejam os vitoriosos, o que de fato aconteceu.

Obs5: O filme de Godard é de 1960, enquanto que o fim da Guerra da Argélia ocorreu apenas em 1962. Na época em que 'Le Petit Soldat' foi realizado eram poucos os franceses que pensavam que os argelinos seriam vitoriosos. A ideia de que a França ainda era uma grande potência era algo em que muitos franceses acreditavam, embora isto não fosse mais verdadeiro.
Cena na qual Bruno está sendo torturado pelos integrantes da FLN. Citando Lênin, eles dizem que a Revolução exige a adoção de métodos de luta e a execução de tarefas nada fáceis. Os militares franceses institucionalizaram a prática da tortura na Guerra contra os argelinos e, depois, exportaram tais técnicas para os EUA e para a América Latina, onde foram largamente empregadas pelas Ditaduras Militares da região. Cenas como essa foram usadas como pretexto para que o filme fosse censurado por três anos. 
Assim, a fala de Veronica é correta, pois enquanto que os argelinos lutam pela libertação do seu país, os franceses querem apenas manter um império colonial, o que, já naquela época, não fazia nenhum sentido. Os impérios coloniais eram algo que pertencia ao passado, mas os franceses, com a sua história de grandes conquistas, recusavam-se a aceitar o fato.

Bruno diz que, naquele momento, todos odeiam os franceses (em função da guerra brutal que travavam na Argélia), mas diz que tem orgulho de ser francês, embora fale que é contra o nacionalismo. Para ele, o principal são as ideias e não os territórios. A produção cultural (filmes, música, poesia, arquitetura) é que deveria ser motivo de orgulho nacional para os povos e não a existência de impérios coloniais.

Ele diz também que não gosta dos árabes, em função dos desertos e deles serem 'preguiçosos'. Ele também fala que não gosta de Albert Camus, o que deve ser uma ironia de Godard, pois há muitos que dizem que o personagem Bruno lembra muito a personalidade do influente escritor existencialista de origem argelina, inclusive fisicamente.

Bruno diz que é um erro fazer guerras sem convicção e que não se sente irmão de ninguém, tal como dizia o Papa (João XXIII) e que não se sente obrigado a gostar de todos. 
A bela dinamarquesa Anna Karina era modelo antes de seguir a carreira cinematográfica. Ela tinha apenas 20 anos quando protagonizou 'Le Petit Soldat'. 
Bruno também cita Guitry (cineasta de origem russa que seguiu carreira na França entre as décadas de 1930 e 1950): 'já não sabemos onde amar'. Bruno também fala que as mulheres não deveriam passar de 25 anos, pois enquanto os homens ficam mais elegantes quando envelhecem, com as mulheres isso não acontece. E ele diz que é injusto para as mulheres que elas envelheçam.

Obs6: A julgar o que aconteceu com a beleza estonteante de inúmeras atrizes do Cinema mundial quando envelheceram, sou obrigado a concordar com ele. O tempo é cruel.

Bruno fala que há algo mais importante do que ter um ideal ou do que não ser vencido, mas ele não sabe o que é. Ele cita Lenin, que disse que 'A ética é a estética do futuro' e que isso reconcilia a Esquerda com a Direita.

Bruno fala que os jovens dos anos 1930 (André Malraux, Pierre Drieu la Rochelle, Louis Aragon) tinham uma Revolução, mas agora isso não acontece mais. Os espanhóis tem a Guerra Civil, mas os franceses não tem nada. 

Obs7: Os franceses virtualmente não lutaram contra a invasão do país pela Alemanha Nazista e a imensa maioria da população francesa apoiou a República de Vichy e colaborou com os alemães, inclusive no extermínio dos judeus. O escritor Georges Bernanos, citado por Godard no filme, ficou exilado no Brasil entre 1939-1945, pois sentiu vergonha diante da fraqueza dos franceses em relação ao regime nazista. 
A foto desta revista, com Jean Seberg, atriz que protagonizou 'Acossado' (o primeiro filme de Godard), aparece numa cena de 'Le Petit Soldat'. 
Bruno telefona para Jacques e sua conversa é gravada. Eles usam isso para entrar no apartamento de Veronica e a sequestram, levando-a para um chalé onde é brutalmente torturada, para que ela lhes informasse o endereço onde estavam os membros da FLN. Jacques chantageou Bruno, dizendo que só entregariam os falsos passaportes (dele e de Veronica), que permitiriam que eles viajassem para o Brasil, e a libertariam se ele matasse Palivoda.

Jacques se justifica dizendo que 'às vezes é preciso usar a força para abrir caminho com um punhal'.

Assim, Bruno matou Palivoda, mas somente depois disso é que ele ficou sabendo que Veronica já tinha sido assassinada pelos membros da DFI. Ele foge, mas diz que aprendeu a não ser amargo e que por isso está feliz.   

Fim.

Informações Adicionais:

Título: Le Petit Soldat (O Pequeno Soldado);
Diretor: Jean-Luc Godard;
Roteiro: Jean-Luc Godard;
Ano de Produção: 1960; País de Produção: França;
Duração: 84 minutos;
Gênero: Drama;
Elenco: Michel Subor (Bruno Forestier); Anna Karina (Veronica Dreyer); Henri-Jacques Huet (Jacques); Paul Beauvais (Paul); Lászlo Szabó ) Laszlo; Georges de Beauregard (Líder da FLN).
Música: Maurice Leroux;
Fotografia: Raoul Coutard.
Bruno e Veronica. O personagem dele é inspirado em Albert Camus e o nome Dreyer, de Veronica, é uma referência a um importante cineasta dinamarquês, Carl Theodor Dreyer. 
Links:

Informações sobre o filme:


Crise de Maio de 1958 na França:


França, a Guerra da Argélia e a Contra-Insurgência:

Imagem de um atentado terrorista que ocorreu em Argel em Abril de 1959. A Guerra da Argélia resultou na morte de mais de 1 milhão de pessoas, sendo que a imensa maioria das vítimas era de argelinos árabes.
A Independência da Argélia:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/35911/hoje+na+historia+1962+-+argelia+proclama+independencia+apos+132+anos+de+colonizacao+francesa.shtml

General francês revela como a França usou a tortura como arma de guerra contra os argelinos; Estratégia de Contra-Insurgência foi usada pelos EUA e por Ditaduras Militar da América Latina:


A tortura como arma de guerra:


Trailer do Filme:


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