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sábado, 21 de setembro de 2019

"Lola" mostra o olhar corrosivo de Fassbinder sobre o 'Milagre Econômico' alemão do Pós Guerra!

Lola mostra o olhar corrosivo de Fassbinder sobre o 'Milagre Econômico' alemão do Pós Guerra! - Marcos Doniseti!
'Lola' (1981) é o segundo filme da Trilogia de Fassbinder sobre o 'Milagre Econômico' alemão e mostra que a corrupção, a hipocrisia e a imoralidade também fizeram parte deste processo histórico.
Rainer W. Fassbinder foi um dos mais geniais e talentosos cineastas europeus do Pós Guerra, tendo integrado a segunda geração do ‘Novo Cinema Alemão’, que começou em 1962 quando tivemos a publicação do 'Manifesto de Oberhausen'.
Fassbinder, junto com Wim Wenders e Werner Herzog, constituiu o seu trio mais criativo, de maior sucesso comercial e também o mais premiado internacionalmente, embora o movimento tenha tido outros representantes que produziram uma obra excepcional, tais como Margarethe von Trotta, Volker Schlondorff e Alexander Kluge. 
Os filmes de Fassbinder contam a história da Alemanha no século XX, mostrando as crises do período do Entre Guerras e a ascensão do Nazismo (em ‘Berlin Alexanderplatz’), a Segunda Guerra Mundial (em ‘Lili Marlene’) e as mudanças pelas quais o país passou durante o Pós Guerra, destacando o 'Milagre Econômico' na consagrada ‘Trilogia da Alemanha Ocidental’.
‘Lola’ (1981) é o segundo filme desta ‘Trilogia’, que conta a história da Alemanha Ocidental no Pós Guerra e que começou com ‘O Casamento de Maria Braun’ (1978) e que foi concluída com ‘O Desespero de Veronika Voss’ (1982).

Armin-Mueller Stahl e Barbara Sukowa: Interpretações brilhantes neste clássico de Fassbinder, que também possui uma fotografia que reflete o clima de devassidão moral no qual os personagens vivem. 
Em ‘Lola’, o prefeito de uma pequena cidade da Alemanha Ocidental nomeia um novo diretor de planejamento urbano (von Bohm, magistralmente interpretado por Armin Mueller-Stahl), que é considerado íntegro, honesto, moralista e incorruptível.
Porém, von Bohm acabará se deparando com uma intensa atividade criminosa e corrupta que envolve a elite dominante local, que desvia recursos das obras públicas que são realizadas na cidade: o prefeito, jornalistas, empresários, funcionários públicos participam desse esquema de corrupção.
 
E tem algo mais que os une: Eles são clientes de um bordel que pertence a um dos principais membros desta elite cínica, imoral e corrupta (Schuckert, interpretado brilhantemente por Mario Adorf).
 
Os acontecimentos se desenvolvem em plena época do ‘Milagre Econômico’ alemão, cujo início coincide com o momento em que a Alemanha conquistou a sua primeira Copa do Mundo de Futebol, em 1954, na Suíça, após a reconstrução do país ter sido concluída. Essa reconstrução foi viabilizada pelo 'Plano Marshall', que foi financiado com dinheiro dos EUA e que vigorou entre 1948 e 1953. 
 
Gradualmente, o moralista von Bohm vai percebendo como é que as coisas funcionam naquela pequena cidade e ele decide enfrentar a elite corrupta da cidade, inviabilizando a construção de um grande conjunto habitacional, cuja concorrência é viciada e com a qual os membros da elite local irão se locupletar.
 
O grande ator Armin Mueller Stahl interpreta von Bohn, que tenta escapar ao esquema de corrupção que vigora na cidade onde assumiu a responsabilidade pelo planejamento urbano e, logo, pela realização de obras públicas.

No entanto, o triste e solitário von Bohm acaba se apaixonando por Lola (interpretada brilhantemente por Barbara Sukowa), uma bela e sensual mulher, que é mãe solteira e, também, é uma prostituta que trabalha no bordel que pertence a Schuckert, um dos mais ativos e corruptos membros da elite dominante local e que tem grandes interesses no setor de construção de obras públicas. 
O cínico Schuckert se especializa em subornar os funcionários envolvidos nestes projetos de construção, permitindo que frequentem o seu bordel e escolham as prostitutas de sua preferência. Essa paixão de von Bohm por Lola irá mudar o rumo da sua, até então, entediante vida e o levará a se envolver com a elite corrupta da cidade, além de promover a sua ruína ética e moral. 
A se destacar a belíssima fotografia, a bela e irônica trilha sonora, o roteiro extremamente crítico, corrosivo e sarcástico a respeito da Alemanha Ocidental, país que foi criado em 1949 quando as zonas de ocupação dos EUA, França e Grã-Bretanha foram unificadas pelos EUA, já como parte do novo ciclo histórico da Guerra Fria. 

Destaque-se, também, a brilhante interpretação de Barbara Sukowa, que graças à sua atuação conquistou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Munique, em 1981. 
 
Barbara Sukowa está perfeita no papel de Lola, que trabalha em uma boate que pertence a Schuckert (Mario Adorf), que faz parte da corrupta elite da cidade.
Informações Adicionais!

Título: Lola;
Diretor: Rainer Werner Fassbinder; 
Roteiro: R.W. Fassbinder, Pea Frohlich e Peter Marthesheimer;
País de Produção: Alemanha;
Ano de Produção: 1981;
Gênero: Drama;
Duração: 115 minutos; 
Música: Peer Raben e Freddy Quinn; 
Fotografia: Xaver Schwarzenberger;
Elenco: Barbara Sukowa (Lola); Armin-Mueller Stahl (Von Bohm); Mario Adorf (Schuckert); Mathias Fucks (Esslin); Karin Baal (Mãe de Lola); Elisabeth Volkmann (Gigi); Hark Bohm (Volker); Christine Kaufmann (Susi).
Prêmios: 
Melhor Atriz para Barbara Sukowa no Festival de Munique (1981). 
Melhor Atriz para Barbara Sukowa no Festival de Cinema Alemão (1982).
Melhor Ator para Armin-Mueller Stahl no Festival de Cinema Alemão (1982). 
 
A excepcional atriz Barbara Sukowa, que também atuou em 'Berlin Alexanderplatz', interpreta Lola, que ajudará a arruinar moralmente ao, até então, incorruptível von Bohm.

Trailer do Filme:


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

'Le Stagioni del Nostro Amore" - Influenciado por Antonioni, Florestano Vancini mostra as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana do Pós-Guerra!

'Le Stagioni del Nostro Amore" - Influenciado por Antonioni, Florestano Vancini mostra as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana do Pós-Guerra! - Marcos Doniseti!
'Le Stagioni del Nostro Amore' (Enquanto Durou o Nosso Amor; Florestano Vancini; 1966) foi um dos vários filmes que retrataram a crise que a Esquerda italiana, especialmente aquela que era ligada ao PCI, enfrentou  na primeira metade da década de 1960.

'Le Stagioni del Nostro Amore' (As Estações do Nosso Amor)!

Este é um belo filme do período áureo do cinema italiano e que foi dirigido por Florestano Vancini. Ele foi um dos últimos filmes do ciclo do chamado 'Pós-Neorrealismo', que durou de 1955 a 1967. E também é um dos melhores filmes desta safra. 

O protagonista do filme é Vittorio Borghi (que é interpretado pelo brilhante Enrico Maria Salerno) e a história se desenvolve em meados da década de 1960, vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Vittorio é um jornalista italiano de quarenta anos que lutou na Resistência (foi um Partigiano, um guerrilheiro) e que sempre foi ligado ao PCI (Partido Comunista Italiano). Vittorio foi colaborador, por muitos anos, do jornal do PCI ("L'Unità"), para o qual escreveu inúmeros artigos. Seu pai (Mario Borghi), já falecido, também foi um corajoso militante socialista que também lutou contra o regime fascista de Mussolini.

Mas agora, aos 40 anos, Vittorio mergulhou em um momento de grave crise existencial, pois ele perdeu todas as suas referências: políticas, ideológicas, familiares, pessoais e amorosas. Vittorio procura refletir sobre as causas desta situação e vai buscar pelas respostas em seu próprio passado.
Enrico Maria Salerno, um dos melhores atores italianos, interpreta Vittorio Borghi, um intelectual ligado ao PCI, que lutou na Resistência, mas que em meados da década de 1960 enfrenta uma crise existencial. Assim, ele faz uma viagem ao passado a fim de tentar compreender quando foi que isso começou.

A crise existencial que Vittorio enfrenta é desencadeada pelo fim de um intenso romance com uma bela jovem (Elena) que é interpretada pela lindíssima e talentosa atriz francesa Jacqueline Sassard, que encerrou a sua carreira precocemente, em 1969, pois ela optou por uma tranquila vida familiar depois que se casou.

A bela Elena (que tem cerca de 20-25 anos) engravidou de Vittorio e deseja que ele abandone a sua família para viver com ela, mas ele não age desta maneira, o que a leva a romper o relacionamento.

Assim, Vittorio procura fazer uma reflexão a respeito de uma vida cuja melhor parte está no passado, quando ele era feliz, otimista, mas foi quando tomou as decisões que o levaram a essa situação de crise existencial.

Desta maneira, Vittorio volta para a sua cidade natal (Mântua, localizada na região da Lombardia, que fica próxima de Milão), onde reencontra seus velhos amigos (da época da Resistência e do PCI), encontra antigos comunistas que foram amigos de seu pai e revê um antigo amor, uma bela existencialista (Francesca), que é interpretada por Ainouk Aimée.
Jacqueline Sassard e Enrico Maria Salerno em uma bela cena de amor deste clássico de Florestano Vancini.

Vittorio e Francesca eram apaixonados e chegaram a namorar na juventude, mas ela escolheu se casar com um rico burguês, pois não via nenhuma perspectiva de ter uma vida confortável ao lado de Vittorio. Agora ela também é infeliz, apesar de manter as (boas) aparências, pois está sempre elegante.

Os amigos de Vittorio da época da Resistência também mudaram e se adaptaram aos novos tempos, de uma Itália que se manteve capitalista e que, na época em que o filme foi realizado, vivia a fase final de um longo período de rápido crescimento econômico que havia começado por volta de 1954/1955.

Obs: A crise econômica italiana começaria apenas em 1967 e se agravaria a partir de 1968, quando começou um longo período de conflitos políticos, econômicos e sociais, que irá terminar apenas por volta de 1980/1981. Estes anos foram os chamados 'Anni di Piombo' (Anos de Chumbo), época em que os grupos extremistas (de Direita e de Esquerda) abalaram a Itália com inúmeros atentados terroristas, assassinados e conflitos de rua. Neste período da história italiana, morreram cerca de 2 mil pessoas vítimas da violência política.

Assim, um antigo comunista (Olindo Civinini) virou um comerciante que vende roupas para os burgueses da cidade  (e que tem em Francesca uma das suas principais clientes) e um ex-Partigiano (Tancredi) casou, formou família e virou um simples guarda noturno. Logo, Vittotio constata que os ideais socialistas e revolucionários da época da Resistência ficaram no passado.
Quando retorna para a sua cidade natal (Pádua, no norte da Itália) Vittorio reencontra uma antiga paixão da juventude, a bela Francesca.

Vittorio descobre que até mesmo um intelectual que pertence ao PCI (Leonardo Varzi) e de quem ele é amigo desde a adolescência, que sempre foi dotado de grande energia política e capacidade analítica, e por quem Vittorio sempre nutriu um grande respeito e admiração, está vivendo um período conturbado, embora o mesmo ainda manifeste a sua crença nos ideais comunistas.

Mas o próprio Vittorio mudou profundamente: Ele está desapontado, não acredita mais nos ideais pelos quais lutou durante e depois da Guerra e da Resistência. Logo, infeliz e ferido em seus sentimentos, ele não consegue encontrar um ponto de contato com aqueles que estiveram próximos a ele em sua juventude.

A peregrinação aos lugares do passado, onde procura as raízes da crise existencial que enfrenta, terminará em um salão de danças público ao largo do Rio Pó, onde um grupo de adolescentes conseguiu fazer funcionar uma jukebox e dançam de forma alegre, enérgica e despreocupada, apresentando uma postura festiva perante a vida.

São outros jovens, que não fazem a menor ideia de quem seja Vittorio, ou seja, não há que estabeleça uma conexão entre a velha guarda revolucionária do PCI com os jovens dos anos 1960. 

Vittorio volta para Mântua, sua cidade natal, e se encontra com Francesca, com quem teve um romance no passado, mas que não deu certo, pois ela o desprezou para se casa com um burguês bem mais endinheirado do que ela. 

Logo, o filme já indica claramente para uma ruptura geracional que ficaria bastante evidente nos últimos anos daquela década explosiva. Estes jovens ainda desfrutam de uma vida feliz e também preservam o seu otimismo perante a vida, tal como aconteceu com o próprio Vittorio em sua juventude. E a explosão emocional dele no final reflete o contraste entre o seu desespero e a energia daqueles jovens. 

O filme de Vancini é claramente influenciado pela obra inovadora do genial Michelangelo Antonioni. 

Assim, temos uma conexão bem evidente entre os sentimentos do protagonista (Vittorio), o clima gelado do inverno do norte da Itália e a fotografia do filme, em um branco estourado, o que é uma evidência clara dessa influência. 

Afinal, essa conexão entre os elementos da paisagem e o estado espiritual dos protagonistas sempre foi um aspecto importante da obra de Antonioni.
Um belo desenho mostrando Elena e Vittorio.

Informações Adicionais! 

Título: Le Stagioni del Nostro Amore (Enquanto Durou o Nosso Amor);
Diretor: Florestano Vancini;
Roteiro: Florestano Vancini; Elio Bartolini;
Ano de Produção: 1966;
País de Produção: Itália;
Duração: 101 minutos;
Música: Carlos Rustichelli; 
Fotografia: Dario Di Palma;
Elenco: Enrico Maria Salerno (Vittorio Borghi); Jacqueline Sassard (Elena); Anouk Aimée (Francesca); Gian Maria Volonté (Leonardo Varzi); Gastone Moschin (Carlo/Tancredi).
Prêmio FIPRESCI (Federação da Crítica Internacional) no Festival de Cinema de Berlim de 1966.
Golden Goblet de Melhor Ator para Enrico Maria Salerno, na Itália, em 1966.

A belíssima Jacqueline Sassard, que interpreta Elena, a jovem que se envolve com Vittorio. O fim do relacionamento deles leva Vittorio a entrar em uma crise existencial, passando a questionar tudo o que fez em sua vida. 

domingo, 9 de junho de 2019

'Cinefilia' - Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França entre 1944 e 1968! -

'Cinefilia' - Antoine de Baecque conta a história da Cinefilia na França entre 1944 e 1968! - Marcos Doniseti!
Excepcional livro de Antoine de Baecque a respeito da importância da Cinefilia na França do Pós-Guerra.

No começo de 2019 eu li esse fantástico livro de autoria do Antoine de Baecque, jornalista e historiador francês que é o principal historiador de Godard, Truffaut, da Nouvelle Vague e da revista "Cahiers du Cinéma", publicação de onde saíram os criadores do mais revolucionário movimento cinematográfico da história.

Baecque, que já escreveu brilhantes biografias de Truffaut (junto com Serge Toubiana e que foi lançada no Brasil em 1998) e de Godard (ainda não foi lançada no Brasil), conta a história da Cinefilia francesa, a partir de 1944 quando, logo após a Libertação da França pelos Aliados ocidentais, o mercado francês foi inundado por centenas de filmes originários dos EUA (cuja exibição havia sido proibida durante a ocupação do país pelos alemães).

Além disso, o país passou a ter um grande número de cineclubes e de publicações dedicadas ao Cinema: Cahiers du Cinema, L'Écran français, Arts (Truffaut foi um grande colaborador da publicação), Positif, Revue du Cinéma, entre outras. E todas estas publicações foram criadas por cinéfilos. 

E a França ainda tinha a Cinemateca, criada e dirigida por Henri Langlois desde a sua fundação (em 1936) e cujo trabalho foi fundamental para a formação dos cinéfilos e de muitos críticos e cineastas franceses.


Godard sempre disse que a formação dos cineastas da Nouvelle Vague não se fez em faculdades de Cinema, mas na Cinemateca de Paris e nos cineclubes. Logo, a cinefilia teve uma importância fundamental naquele período. 

Baecque mostra que os cinéfilos não apenas assistiam aos filmes, mas debatiam intensamente sobre os mesmos e escreviam críticas. Todas estas atividades destes apaixonados pelo Cinema irão resultar na criação de inúmeras publicações ('Cahiers', 'Positif'...) e, depois, estes cinéfilos começaram a fazer filmes, o que vai resultar na criação da Nouvelle Vague. 

Nesta época, a opinião dos críticos era levada em consideração pelo público e se um filme fosse mal avaliado pela crítica isso afetava fortemente as bilheterias dos filmes.

É bom ressaltar que a própria Nouvelle Vague, no início, dividiu as opiniões, pois ela era fortemente atacada pelos críticos mais tradicionalistas, defensores do cinema de 'tradição de qualidade' existente no país, a qual os críticos chamados de 'Jovens Turcos' da Cahiers du Cinema (Truffaut, Chabrol, Rivette, Rohmer e Godard) queriam fazer picadinho.
Jean Rouch, Chabrol (segurando a placa) e Godard lideram manifestação defendendo o retorno de Henri Langlois ao comando da Cinemateca Francesa, que foi criada por ele em 1936.

O cinema francês dos anos 1950 (chamado de 'tradição de qualidade') era caracterizado pelo conservadorismo e pela padronização, ou seja, faziam-se sempre filmes com temas muito semelhantes, que eram dirigidos sempre pelos mesmos diretores, que eram escritos sempre pelos mesmos roteiristas e com os mesmos intérpretes. 

Truffaut, quando atuou como crítico (brilhante) do 'Cahiers du Cinéma', na década de 1950, criticou duramente ao cinema francês do período, que via em situação de estagnação criativa, liderando uma verdadeira batalha contra o mesmo, o que fazia com o total apoio dos outros críticos, chamados de 'Jovens Turcos', da 'Cahiers', incluindo Godard, Chabrol, Rivette e Rohmer. 

Em seu livro, Baecque analisa a trajetória da Cinefilia francesa de 1944 até 1968, quando tivemos a chamada 'Batalha da Cinemateca', que foi resultado da demissão de Henri Langlois da direção da Cinemateca de Paris pelo governo de Charles De Gaulle (mas a decisão de demitir Langlois foi do ministro da Cultura, André Malraux).

A demissão de Langlois gerou uma forte reação dos cineastas e dos profissionais de Cinema franceses, que o viam como uma figura essencial para a sua formação cinematográfica. 

Afinal, a Cinemateca havia sido criada por Langlois ainda antes da Segunda Guerra Mundial e seu trabalho à frente da mesma foi fundamental para a formação dos cinéfilos e de muitos cineastas franceses, principalmente aqueles ligados à Nouvelle Vague. 

Não foi à toa, portanto, que Truffaut, Godard, Rivette, Jean Rouch e Jean-Pierre Léaud, entre outros, estivessem à frente do movimento, que acabou sendo vitorioso, para que Langlois fosse reconduzido ao comando da Cinemateca.

Tal movimento mobilizou cineastas consagrados do mundo inteiro (Hitchcock, Rossellini, Kurosawa, etc), sendo que muitos chegaram a proibir a exibição dos seus filmes na Cinemateca enquanto Langlois não voltasse ao comando da instituição que ele mesmo criou. 

E a 'Batalha da Cinemateca', que ocorreu entre Fevereiro e Abril de 1968 acabou antecipando em três meses a rebelião que tivemos durante o famoso Maio de 68, acabou sendo o ponto final desta história da Cinefilia francesa que Baecque conta neste livro fantástico. 

Portanto, o livro de Baecque é uma leitura imprescindível para quem deseja conhecer a história da cinefilia, da atividade crítica e do próprio cinema francês no Pós-Guerra.

Obs: Temos vários filmes que estão, de alguma maneira, relacionados ao assunto do livro de Baecque (a cinefilia, é claro), como 'Os Sonhadores', de Bernardo Bertolucci, 'Beijos Proibidos', de François Truffaut e "Les Sièges d'Alcazar" (1989), de Luc Moullet. 
Henri Langlois: Para o crítico Serge Toubiana, sem o trabalho de Langlois na Cinemateca a Nouvelle Vague jamais teria existido.

Links:

Entrevista com Serge Toubiana sobre a importância da Cinemateca de Paris, criada por Henri Langlois:

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2661,1.shl

Entrevista com Antoine de Baecque, sobre o seu livro:
https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/cinefilia/

quinta-feira, 25 de abril de 2019

'Il Caso Mattei': Francesco Rosi conta a história verídica do atentado que matou o líder italiano que desafiou o poder das 'Sete Irmãs'!

'Il Caso Mattei': Francesco Rosi conta a história verídica do atentado que matou o líder italiano que desafiou o poder das 'Sete Irmãs'! - Marcos Doniseti!
"Il Caso Mattei" (O Caso Mattei; Francesco Rosi; 1972): Este clássico filme dirigido por Francesco Rosi conta a história de Enrico Mattei, que foi o responsável por transformar uma falida empresa estatal italiana em uma das mais poderosas petrolíferas e holdings do mundo, desafiando o poderio das famosas 'Sete Irmãs'. 

O contexto histórico!

Enrico Mattei foi o mais poderoso dirigente do maior conglomerado industrial e econômico da Itália no Pós-Guerra, que foi a ENI (Ente Nazionali Idrocarburi).

A ENI foi uma empresa estatal que foi criada em Fevereiro de 1953 a partir das ruínas da AGIP, que era uma empresa petrolífera (também estatal) que havia sido criada por Benito Mussolini em 1926 mas que, durante o regime fascista, fracassou na tentativa de encontrar gás natural ou petróleo no território italiano. 

Porém, no Pós-Guerra,  o governo conservador do PDC (Partido Democrata-Cristão) queria liquidar a AGIP, fechando a empresa, devido às pressões dos políticos liberais, que eram contrários à atuação do Estado na economia e que viam a AGIP como sendo uma 'herança fascista'.

Mas o visionário Enrico Mattei convenceu o governo italiano de que a AGIP não deveria ser liquidada, muito pelo contrário, mas fortalecida. E foi exatamente isso que ele fez depois que obteve do governo do país o apoio político necessário para expandir e desenvolver a AGIP/ENI.

Assim, Matttei desenvolveu uma estratégia de longo prazo que transformou a ENI em uma das mais poderosas empresas petrolíferas do mundo e que, depois, passou a controlar inúmeras outras empresas (também estatais), transformando-se em uma imensa e poderosa holding, que também atuava em muitos setores: petroquímica, geração de energia, navegação, gás, projetos e engenharia, construção, etc. 

"L'Assassinio di Enrico Mattei" foi o livro que deu origem ao filme de Francesco Rosi. Ele é de autoria de Fúlvio Bellini e Alessandro Previdi, sendo que foi publicado em Janeiro de 1970, pouco mais de sete anos após o atentado que tirou a vida de Mattei, que ocorreu em 27/10/1962.

Porém, Mattei  também adotou uma política de obrigar a que todas as empresas da holding fossem lucrativas e competitivas. Sua política de promover imensos investimentos no setor industrial e de infraestrutura contribuiu imensamente para o desenvolvimento industrial e econômico da Itália no Pós-Guerra.

Enrico Mattei levou adiante a política de fechar acordos com governos de países árabes e muçulmanos possuidores de petróleo (Líbia, Argélia, Tunísia, Egito, Nigéria, etc) e de fazer acordos que previam uma divisão de lucros que era muito favorável aos mesmos, pois os governos detentores das reservas petrolíferas ficavam com 75% dos lucros, enquanto que a ENI ficava com os outros 25%.

Enquanto isso, as 'Sete Irmãs' que dominavam o mercado petrolífero global sempre ofereciam acordos nos quais os lucros eram divididos pela metade, com as petroleiras ficando com 50% dos mesmos e os governos dos países produtores ficando com os outros 50%.

Essa postura de Enrico Mattei, de conceder 75% dos lucros aos governos dos países produtores, fez com que a ENI se expandisse rapidamente entre os países do então chamado 'Terceiro Mundo'. 

Essa política adotada por Mattei também se beneficiou do processo de descolonização que ocorreu na África e na Ásia nas décadas de 1950 e 1960, que permitiu o surgimento de dezenas de novas nações independentes. 

Os governantes destes novos países ambicionavam desenvolver economicamente seus países e melhorar as condições de vida de suas populações. E para isso estes governos dos países precisavam de recursos (capital, tecnologia, trabalhadores qualificados) que muitos deles não possuíam. 

Enrico Mattei (o verdadeiro) cumprimenta Gamal Abdel Nasser, líder do Egito, que foi um dos países que assinou contrato para extração de petróleo com a ENI. Mattei defendia uma nova maneira de se relacionar com os países em desenvolvimento. 

No entanto, essa rápida expansão da ENI pelo mundo em desenvolvimento (que, na época, era chamado de 'Terceiro Mundo') representava um claro desafio ao domínio do mercado mundial de petróleo pelas famosas 'Sete Irmãs', que eram (estou usando os nomes atuais): Shell (anglo-holandesa), British Petroleum (britânica); Exxon, Chevron, Mobil, Texaco e Gulf (estas cinco eram todas dos EUA). Estas empresas, somadas, controlavam 85% do mercado mundial de petróleo. 

Desta maneira, EUA e Grã-Bretanha controlavam o mercado mundial de petróleo no Pós-Guerra, produto que era essencial (e que ainda é) para o desenvolvimento da economia capitalista globalizada. A ENI foi a empresa que desafiou esse domínio das 'Sete Irmãs', fato este que as deixou, no mínimo, profundamente irritadas.

E o responsável por isso foi Enrico Mattei, que acabou pagando com a própria vida por essa ousadia, sendo assassinado em 1962, quando o avião em que viajava de Catania (na Sicília) rumo a Milão acabou sendo sabotado, levando a queda do mesmo antes de aterrissar na pista do aeroporto da cidade. 

Além disso, Enrico Mattei também fez a ENI assinar acordos petrolíferos com a União Soviética, o que gerou fortes críticas do governos dos EUA, pois ainda estávamos vivendo a época da Guerra Fria. Não se pode esquecer, por exemplo, que o ano do assassinato de Enrico Mattei, que foi 1962, também foi aquele em que tivemos a famosa 'Crise dos Mísseis', em Cuba, que quase levou o mundo a uma devastadora guerra nuclear entre EUA e URSS. 
O fantástico ator Gian Maria Volonté interpreta Enrico Mattei. Nesta cena, ele esconde da esposa uma carta que continha ameaças de morte.

Este corajoso filme de Francesco Rosi (diretor de ideias socialistas, mas que nunca foi filiado a nenhum partido, embora fosse próximo do PCI), realizado em 1972, usa de um livro escrito na época para denunciar este crime. O livro se chama "L'Assassinio di Enrico Mattei".

Obs1: Os autores do livro usado por Francesco Rosi para realizar o seu belo filme são Fúlvio Bellini e Alessandro Previdi. Bellini foi um partigiano (guerrilheiro) que lutou contra o nazifascismo e no Pós-Guerra ele se tornou um autor voltado para temas da história italiana, escrevendo livros sobre a história do PCI (Partido Comunista Italiano), a respeito da queda do regime Fascista de Mussolini em Julho de 1943 e também sobre o sequestro e morte de Aldo Moro pelas 'Brigadas Vermelhas' em 1978. Previdi também foi um Partigiano e no Pós-Guerra ele se tornou jornalista, trabalhando em importantes jornais italianos. 

É bom que se diga que embora milhões de italianos, durante muitos anos, afirmassem que Mattei tinha sido assassinado, somente em 1997 é que a Procuradoria da cidade de Pavia (norte da Itália) comprovou o fato de que isso havia acontecido. Nas investigações realizadas foi realizada uma autópsia nos ossos do corpo de Mattei e descobriu-se a presença de traços de explosivos nos mesmos. 

Também foi provado que o agricultor que, na época afirmou que tinha visto o avião explodir em pleno ar (antes de atingir o solo, portanto) mudou, posteriormente, a sua versão quando prestou depoimento para a Justiça. 

Aliás, todas essas informações, que foram comprovadas em 1997, já apareciam neste corajoso filme dirigido por Francesco Rosi em 1972 e que, inclusive, participa do filme como diretor e personagem do mesmo.
Enrico Mattei fazia bom uso da Mídia para divulgar as suas realizações.

O Cinema Político Italiano!

Durante as décadas de 1960 e 1970 foram produzidos na Itália inúmeros filmes que procuravam retratar a realidade política e social do país. E para entender isso é necessário compreender o que aconteceu no país neste período.

Os primeiros anos da década de 1960 foram marcados pelo 'Boom' econômico, pela retomada das greves operárias e pelo início da participação do Partido Socialista Italiano no governo do país, que começou em 1963.

Mas o período que foi o mais conturbado politicamente foi aquele que tivemos entre os anos de 1968 e 1981. Em 1968 tivemos a emergência de um forte e organizado movimento estudantil que, tal como ocorreu na França, realizou inúmeras manifestações.

Nos anos seguintes as lutas dos estudantes e de segmentos da classe operária e da intelectualidade  italianas resultaram na criação de inúmeros movimentos de Extrema-Esquerda, tais como o 'Prima Linea', as 'Brigate Rosse' (Brigadas Vermelhas) e o 'Lotta Continua'. Este último chegou a ter cerca de 20 mil militantes, 
sendo bastante atuante.

Destes movimentos de Extrema-Esquerda o mais famoso foram as 'Brigadas Vermelhas', que foram as responsáveis pelo sequestro e morte de Aldo Moro  (um dos líderes principais do Partido Democrata-Cristão) em Abril de 1978.

A polícia vai até o local do acidente conversar com as pessoas a respeito das circunstâncias da queda do avião em que Mattei estava. 

Esta foi uma época em que a Itália foi palco de inúmeros conflitos políticos e sociais que eram travados entre forças extremistas, de Direita e de Esquerda, nas ruas das principais cidades italianas. Tais grupos extremistas usaram de muita violência, promovendo inúmeros atentados terroristas e assassinatos de inimigos políticos e ideológicos. Até mesmo jornalistas, editores e juízes eram vítimas dessa violência.

Estes anos entraram para a história italiana com o nome de 'Anni di Piombo' (Anos de Chumbo), período no qual morreram cerca de 2 mil pessoas, que foram vítimas da violência política do período.

O ponto de partida para essa onda de violência política foi o famoso atentado que ocorreu em uma agência bancária na Piazza Fontana (Praça Fontana), no dia 12/12/1969, em Milão, e que foi realizado pela Extrema-Direita. Esse atentado brutal resultou na morte de 17 pessoas. Outras 88 ficaram feridas. Além disso, ocorreram também alguns atentados, de menor porte, em Roma.

Na época, as investigações sobre o atentado de Milão foram manipuladas no sentido de se tentar culpar um grupo da Esquerda Anarquista como o responsável pelo atentado, mas posteriormente descobriu-se que foram grupos de Extrema-Direita, que envolviam Militares, Serviço Secreto, políticos direitistas, Neofascistas e a Máfia.

Tais atentados perpetrados pela Extrema-Direita faziam parte da chamada 'Estratégia de Tensão', que visava promover um processo de radicalização política e ideológica a fim de justificar um Golpe de Estado que implantasse uma Ditadura Militar na Itália. 

Tal estratégia já havia sido usada na Grécia, o que resultou em um Golpe de Estado 
em 1967.
Mattei procura pelo engenheiro Ferrari, que comandou uma pesquisa na época do regime fascista, mas que havia sido demitido da AGIP. Ele que afirmava que existia uma grande jazida de gás natural na região Vale do Rio Pó. Mattei o recontratou e a jazida foi encontrada. 

A intenção desses grupos extremistas de Direita era culpar os grupos de Extrema-Esquerda pelos atentados em Milão e Roma, usando os mesmos para levar o Golpe de Estado adiante, mas o plano acabou fracassando. Aliás, qualquer semelhança com outros Golpes semelhantes na história não é mera coincidência. Exemplo disso foi incêndio do Reichstag alemão, em 27/02/1933, que foi usado por Hitler como justificativa para implantar a Ditadura na Alemanha, dizendo que o mesmo fazia parte de um 'Golpe de Estado Comunista', o que era uma deslavada mentira.  

Obs2: O cineasta italiano Marco Tullio Giordana dirigiu um excelente filme a respeito da história do atentado na Piazza Fontana e que se chama 'Romanzo di una Strage'.

A Itália já possuía uma bela história de produzir filmes que retratassem a realidade do país e do seu povo desde a época do Neorrealismo, que se desenvolveu a partir de 1943, com a realização do filme 'Ossessione', de Luchino Visconti, e que se consolidou com o grande sucesso alcançado por 'Roma Città Aperta', de Roberto Rossellini, de 1945. 'Ladrões de Bicicleta', (1948) de Vittorio De Sica, foi outra produção neorrealista que obteve grande sucesso, chegando até a conquistar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1950 e o Globo de Ouro do mesmo ano.

Aliás, isso ajuda a explicar porque vários dos principais cineastas italianos que realizaram os filmes do ciclo do 'Cinema Político' tiveram a sua formação na época do Neorrealismo, o que foram os casos de Francesco Maselli,  Elio Petri e de Francesco Rosi (diretor deste 'Il Caso Mattei'), por exemplo. Eles trabalharam com vários dos principais diretores ligados ao Neorrealismo.
Operários italianos olham para o gás que é extraído do Vale do Rio Pó. Com a descoberta a região inicia um longo período de crescimento econômico.

Assim, Francesco Rosi trabalhou com Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Luigi Zampa e Luciano Emmer, seja na condição de roteirista ou como assistente de direção.

Entre os inúmeros filmes da época do ciclo do 'Cinema Político Italiano', nós tivemos:

- Os Delfins (Francesco Maselli; 1960);
- O Assassino (Elio Petri; 1961);
- Aquele que Sabe Viver (Dino Risi; 1962);
- As Mãos sobre a Cidade (Francesco Rosi; 1963);
- O Boom (Vittorio De Sica; 1963);
- Antes da Revolução (Bernardo Bertolucci; 1964);
- De Punhos Cerrados (Marco Bellocchio; 1965);
- Enquanto Durou o Nosso Amor (Florestano Vancini; 1966);
- Os Subversivos (Paolo e Vittorio Taviani; 1967);
- Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (Elio Petri; 1970);
- A Classe Operária vai ao Paraíso (Elio Petri; 1971);
- Mimi, o metalúrgico (Lina Wertmuller; 1972);
- O Monstro na Primeira Página (Marco Bellocchio; 1972);
- Golpe de Estado à Italiana (Mario Monicelli; 1973);
- Nós que nos amávamos Tanto (Mario Monicelli; 1974);
- Cadáveres llustres (Francesco Rosi; 1976);
- Eu Tenho Medo (Damiano Damiani; 1977).

Enrico Mattei sempre recebia muito bem os jornalistas a fim de divulgar as suas realizações à frente da AGIP/ENI.

A trama do filme! 

A história do filme já foi resumida aqui e a mesma trata do assassinato de Enrico Mattei por meio de um atentado terrorista que derrubou o avião no qual ele viajava. Mattei vivia sofrendo ameaças de morte e foi alertado de que o seu avião poderia ser sabotado, mas dizia que se realmente desejassem a sua morte, então não haveria como impedir que isso acontecesse.

Mattei era o dirigente da principal holding empresarial italiana (a ENI), de caráter estatal, que era a maior investidora da Itália, atuando em inúmeros setores produtivos. O mais importante setor em que a ENI atuava era o de petróleo.

O filme de Francesco Rosi começa mostrando o local em que ocorreu a queda do avião em que Mattei viajava, um pouco antes de chegar ao aeroporto de Milão (ele caiu nas proximidades de Pavia). Mattei vinha da Sicília e o filme de Rosi mostra que o avião em que o dirigente da ENI viajou foi sabotado, de maneira a que explodisse em pleno ar quando começasse a se preparar para fazer a aterrissagem.

Durante o filme vemos a Polícia interrogando os moradores da região em que o avião explodiu, o que resultou na morte de Mattei, de um jornalista da revista 'Time' e do piloto. Durante os interrogatórios realizados no local do atentado um camponês chegou a declarar que tinha visto o avião que levava Mattei explodir em pleno ar, deixando claro que havia ocorrido um atentado terrorista.

Mas, posteriormente, o mesmo camponês, quando prestou depoimento para a Justiça, apresentou uma versão diferente, dizendo que não tinha visto explosão alguma. Então, o filme de Mattei deixa aberta a possibilidade que o camponês teria sido ameaçado. 

Dirigente de uma das 'Sete Irmãs', que se sentiam bastante incomodadas pela política de Enrico Mattei de levar a ENI a assinar contratos de exploração de petróleo com países árabes (Líbia, Argélia, Tunísia).

Inclusive, quando a Justiça italiana comprovou (em 1997) que Mattei tinha morrido em um atentado terrorista a Procuradoria de Pavia (local onde o avião explodiu), que havia reaberto o caso, anunciou que iria processar o agricultor pelo fato dele ter modificado o seu depoimento, o que impediu que fosse comprovado que Mattei havia sido assassinado.

O filme mistura vários momentos históricos, começando já com a morte de Mattei e depois conta a história de como ele se tornou o presidente da AGIP e, mais adiante, da ENI e, mais tarde, como ele enfrentou, sem medo, o imenso poder das 'Sete Irmãs'.

Rosi mostra que Mattei teve que lutar intensamente, desde o início, para conseguir provar que a AGIP (e a futura ENI) era uma empresa viável e que valia a pena manter a mesma funcionando. Ele usa, inclusive, de depoimentos verdadeiros de dirigentes italianos da época de Mattei e o próprio Rosi chega a participar do filme, como alguém que está investigando a morte de Mattei.


Obs3: Aliás, ao pedir que um jornalista originário da Sicília (Mauro de Mauro, do jornal siciliano "L'Ora", que era próximo do PCI) investigasse, em Setembro de 1970, as circunstâncias da morte de Mattei, o mesmo acabou sendo assassinado, o que mostra que o caso do assassinato de Mattei, mesmo depois de tanto tempo (o filme é de 1972), ainda era um tema tabu e bastante perigoso para se mexer. O jornal "L'Ora" sempre foi conhecido por combater e denunciar os crimes da Máfia e sofreu vários ataques da organização.
No filme, Francesco Rosi promove um debate entre Enrico Mattei e um jornalista liberal, que se opunha à sua política de promover grandes investimentos produtivos por meio da ENI.

Mas para que isso acontecesse ele sabia que era necessário encontrar alguma fonte de riqueza que a AGIP pudesse explorar e que gerasse lucros e benefícios para a economia italiana. E foi assim que o persistente Mattei encontrou entre inúmeros documentos da empresa a comprovação de que isso seria possível. Ele leu relatórios elaborados por técnicos da empresa que diziam existir petróleo e gás natural no Vale do Rio Pó (norte da Itália). 

Mattei procura pelo engenheiro da AGIP que comandou a prospecção (engenheiro Ferrari) e que havia sido demitido junto com outros técnicos tempos antes, quando o governo italiano ainda demonstrava intensão de fechar a empresa. Mattei o encontra em Milão (em frente à Catedral da Cidade, na 'Piazza del Duomo' ou 'Praza da Catedral') e o questiona sobre a viabilidade daqueles estudos. 

Ferrari explica que os estudos foram elaborados de maneira rigorosa e, assim, Mattei decide viajar com ele até a região em que haviam sido encontrados indícios da existência de gás natural e petróleo. 

Mattei e Ferrari encontram uma região desolada, com os trabalhadores que antigamente eram empregados da AGIP estando inativos, desempregados, que passavam o tempo jogando cartas em um barracão. Ferrari afirma que a jazida de gás natural é enorme e, depois de comprovar a existência das mesmas, Mattei recontrata o técnico e os trabalhadores que haviam sido demitidos.
Mattei discurso para diretores de grandes empresas de petróleo, incluindo as 'Sete Irmãs', e reafirma a defesa das políticas que adotou à frente da ENI, para irritação do Cartel privado que controlava o mercado mundial de petróleo.

Com a descoberta de grandes reservas de gás, Mattei conseguirá um empréstimo bancário e unindo tais recursos com o apoio de importantes lideranças políticas do governo do Partido Democrata-Cristão ele consegue levar adiante o seu projeto de manter a AGIP funcionando. Em 1953 ele irá transformar a mesma AGIP na ENI, que se tornará uma das maiores holdings da Europa no Pós-Guerra, atuando em vários setores da economia italiana. 

E graças à descoberta do gás, que era explorado apenas pela AGIP (e pela futura ENI) a industrialização do norte da Itália passou a contar com uma importante fonte de energia, visto que a Itália sempre sofreu muito para se desenvolver a sua indústria e a sua economia justamente pelo fato de ser um país pobre em recursos naturais. 

Para defender a ENI e poder enfrentar os interesses das chamadas 'Sete Irmãs', Mattei contava sempre a história de um gatinho, débil e fraco (que simbolizava a ENI), que queria se alimentar, mas que era impedido pelas 'Setes Irmãs' (representadas por cães raivosos). 

O filme clássico de Rosi também mostra que Mattei era muito habilidoso no seu relacionamento com a imprensa, procurando usar a mesma para fazer uma ampla publicidade das realizações da AGIP/ENI. E mesmo quando os jornalistas criticavam a sua atuação e da empresa ele procurava conversar com os mesmos a fim de prestar esclarecimentos e informações.
Mattei levou o jornalista que o contestava até a Tunísia para ver pessoalmente os investimentos que eram feitos pela ENI no país africano.

Assim, temos no filme um jornalista (sem nome) que representa esse segmento da imprensa, defensora do Liberalismo econômico, e que era extremamente crítico com a atuação da ENI e acusava a empresa de usar verbas secretas e de excesso de intervenção na economia. Mattei diz, claramente, para o jornalista que o mesmo está defendendo tais interesses privados e não os da Itália. A ENI, diz Mattei, gera trabalho para 50 mil pessoas altamente qualificadas. 

Assim, em vez de arrumar confusão publicamente com esse jornalista, Mattei o convida para acompanhar como era a sua rotina de trabalho, levando-o até a visitar uma plataforma de petróleo da ENI, bem como os países árabes (Líbia, Argélia, Tunísia), com os quais a ENI havia assinado inúmeros contratos de produção (baseado na divisão 75%/25%). 

Estes países haviam descoberto grandes reservas de petróleo, mas não possuíam o capital, a tecnologia e nem os trabalhadores qualificados para fazer o trabalho de pesquisa e extração do petróleo. A ENI fornecia tudo isso. Desta maneira, a ENI irá ocupar um importante espaço no mercado petrolífero global que, antigamente, era exclusivo das 'Sete Irmãs', o que irá deixar as mesmas profundamente irritadas. 

Esse conflito com essas empresas, que atuavam como um gigantesco Cartel Privado, dividindo o controle do petróleo no mundo entre elas, é representado no filme por um diretor de uma destas empresas (é um personagem alto, cabelos brancos, pele extremamente clara e corpulento) e que não aceita nenhuma das ideias e políticas de Enrico Mattei. 
Gian Maria Volonté tem mais uma excelente atuação neste filme clássico do 'Cinema Político Italiano'. Nesta cena, Mattei é recebido com festa pelo povo da Sicília.

Desta maneira, Mattei acaba desenvolvendo uma política externa própria, que leva em consideração os interesses italianos, o que faz com que a ENI assine até mesmo contratos de compra de petróleo soviético, para profunda irritação dos EUA. 

Com esse imenso crescimento da ENI, dentro da própria Itália o engenheiro Enrico Mattei se torna uma importante liderança econômica e também política e é requisitado até mesmo para usar a empresa a fim de salvar empresas que estão correndo o risco de quebrar, gerando aumento do desemprego. 

E quando a ENI encontra reservas de gás natural na Sicília ele foi recebido na ilha como se fosse o verdadeiro governante da Itália, com festas públicas, passeatas, com a presença de milhares de pessoas e reuniões e jantares com as figuras mais poderosas da ilha. 

Embora o filme não diga exatamente quem teriam sido os responsáveis pela morte de Enrico Mattei, no mesmo é sugerido que tivemos participação do Serviço Secreto francês e da Máfia. 

Em 1997, como já afirmei, finalmente foi comprovado, pela Justiça italiana, que essa versão que o filme apresenta para a morte de Enrico Mattei é verdadeira. Porém, até agora não se sabe quem foram os responsáveis pelo atentado que o vitimou.
O cineasta Francesco Rosi (de boina e óculos escuros) aparece em algumas cenas do seu filme, incluindo esta, feita em uma lanchonete do aeroporto de Catania, de onde saiu o avião que levava Mattei para Milão e cuja queda provocou a sua morte. 

Informações Adicionais!

Título: Il Caso Mattei (O Caso Mattei);
Diretor: Francesco Rosi;
Roteiro: Francesco Rosi e Tonino Guerra; Baseado no livro "L'Assassinio di Enrico Mattei", de autoria de Fúlvio Bellini e Alessandro Previdi;
Ano de Produção: 1972;
País de Produção: Itália;
Gênero: Drama Político;
Duração: 110 minutos;
Música: Piero Piccioni;
Fotografia: Pasqualino De Santis;
Elenco: Gian Maria Volonté (Enrico Mattei);
Prêmios: Melhor Filme - Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1972.
Globo de Ouro (Itália) - Melhor Filme em 1973. 



Links:

Itália admite que Enrico Mattei morreu em um atentado terrorista:

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/11/22/mundo/9.html

Enrico Mattei, a AGIP e as Sete Irmãs:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cinema/Petrobras-um-filme-a-ser-revisto/59/32548

A história da ENI e seus conflitos com as 'Sete Irmãs':

https://jornalggn.com.br/historia/a-italia-contra-as-sete-irmas-do-petroleo-por-andre-araujo/

https://jornalggn.com.br/historia/eni-a-petroleira-italiana-da-guerra-fria/

Enrico Mattei e o jornalista McHale sorrindo, pouco antes da queda do avião que matou os dois. Com a morte de Mattei as 'Sete Irmãs' se livraram da pessoa que mais afetava negativamente aos seus interesses. 

Informações sobre o filme:

https://www.imdb.com/title/tt0068346/?ref_=ttfc_fc_tt

História do livro que deu origem ao filme:

http://www.archiviostorico.info/Rubriche/Librieriviste/recensioni4/assassinioEnricoMattei.htm