sábado, 25 de março de 2017

'Stromboli’ – Rossellini usa de temas neo-realistas e religiosos para fazer filme sobre Ingrid Bergman e a Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!

'Stromboli’ – Rossellini usa de temas neo-realistas e religiosos para fazer filme sobre Ingrid Bergman e a Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!
Clássico de Rossellini, 'Stromboli' mistura religião e neo-realismo para mostrar as dificuldades que Ingrid Bergman enfrentou quando foi viver com ele na Itália. 
‘Stromboli’ e a vida de Ingrid Bergman!

‘Stromboli’ foi o primeiro filme italiano que teve a participação da já famosa e consagrada atriz sueca Ingrid Bergman e no qual ela foi dirigida pelo seu futuro marido, Roberto Rossellini, com quem, aliás, ela já tinha um romance quando participou do filme.  

A maneira pela qual eles iniciaram o romance gerou um grande escândalo midiático na época, inclusive na liberal Suécia, onde a imprensa fez críticas muito duras ao fato dela ter abandonado marido e filha para poder iniciar o romance com Rossellini. 

Aliás, Rossellini também era casado e abandonou a esposa para viver com Ingrid. Inclusive, Ingrid (que ainda não havia se divorciado do seu marido) engravidou de Rossellini justamente na época em que ‘Stromboli’ estava sendo filmado. 

Há uma cena no filme na qual a sua personagem (Karen) diz que estava grávida de Mario, o seu marido no filme, o que deve ser uma referência à sua gravidez na vida real. 

Com a ida de Ingrid para a Itália, Hollywood perdeu uma das suas principais estrelas, que era uma fonte de grandes lucros para os estúdios. E a imprensa dos EUA também criticou duramente Ingrid Bergman pela sua atitude de ir para a Itália e viver com Rossellini, com quem ela acabou se casando e gerando três filhos, incluindo a bela e talentosa atriz Isabella Rossellini. 
Karen conheceu o soldado Antonio quando vivia em um campo de refugiados na Sicília. O filme é baseado em uma história que aconteceu com Rossellini. 
Nesta época, Ingrid chegou a ser chamada de ‘demônio’ e ‘corrompida’ por sua atitude. 

De certa maneira, a história de ‘Stromboli’ está intimamente relacionada com os fatos da vida pessoal de Ingrid Bergman. Esta saiu de um país rico (EUA), onde era uma das grandes estrelas de Hollywood, e vai morar em um dos países mais pobres da Europa naquele momento, que era justamente a Itália. 

Na Itália, Ingrid também terá que se adaptar a uma realidade completamente diferente, passando a viver em um país no qual tínhamos uma Igreja Católica extremamente conservadora e que exercia uma grande influência sobre as políticas adotadas pelo governo do país, que era, desde 1948, comandado pelo Partido Democrata-Cristão (intimamente relacionado com a Igreja Católica). Até a política cinematográfica italiana era controlada pela Igreja Católica. 

A Igreja Católica chegou a ter o direito, inclusive, de censurar os filmes que eram produzidos no país, o que atingiu em cheio a produção dos cineastas neo-realistas. 
Karen tentou obter autorização do Cônsul argentino para ir morar no país sul-americano, mas isso foi negado. E Ingrid Bergman dá mais um show de interpretação neste belo filme de Rossellini. 
O governo de ‘União Nacional’ e o Neo-Realismo!

Os filmes do Neo-Realismo eram vistos, pela Igreja Católica, como sendo amorais e ligados ao ideário comunista. De fato, vários cineastas neo-realistas eram ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), embora os seus filmes também tenham sofrido críticas por parte de pessoas que integravam o partido. 

Para os conservadores, os filmes neo-realistas acabavam sendo excessivamente críticos em relação à realidade italiana, enquanto que para os críticos do PCI eles eram vistos como sendo moderados e pequeno-burgueses. 

O nascimento, ascensão e auge do Neo-Realismo se deu entre 1943 e 1947, quando as principais forças políticas e sociais italianas (comunistas, socialistas, liberais, conservadores, católicos) se uniram para lutar contra o Nazi-Fascismo. 

A invasão e ocupação do Sul da Itália pelos Aliados, a partir de Julho de 1943, a derrubada do governo de Mussolini (no mesmo mês), o fato do novo governo italiano ter se passado para o lado dos Aliados e de ter declarado guerra à Alemanha Nazista, a criação e instalação da chamada ‘República de Saló’ (regime fascista fantoche que era controlado pelos Nazistas alemães e que dominou o Norte da Itália até o final de Abril de 1945) e a derrota final de Mussolini são os principais fatos deste período da história italiana.  

Obs1: Estes fatos foram reunidos em outro clássico filme neo-realista (‘Paisà’, de 1946), que também foi dirigido por Rossellini. 
Karen chega à ilha de Stromboli. Logo atrás vem o faroleiro local, com quem ela tentará fazer amizade. 
E com a derrota definitiva do Nazi-Fascismo, em Abril/Maio de 1945, as forças políticas que lutaram contra o mesmo se uniram para formar um governo de ‘União Nacional’, tal como havia acontecido em outros países que haviam sido libertados da dominação nazista pelos Aliados (EUA, Grã-Bretanha, URSS). E o mesmo aconteceu na França, Hungria, Tchecoslováquia, entre outros. 

Essa política, que resultou na instalação de governos de ‘União Nacional’ na Europa foi resultado de um acordo político mais amplo, que envolvia os países vencedores da Segunda Guerra Mundial: EUA, Grã-Bretanha e URSS, que tentaram manter, no Pós-Guerra, a aliança que havia sido vitoriosa na Segunda Guerra Mundial. 

Mas as inúmeras diferenças (políticas, ideológicas) existentes entre as três grandes potências inviabilizou essa tentativa, que entrará em colapso em 1947-1948. 

Foi neste momento histórico (1945-1947), de existência de um governo de ‘União Nacional’, em que os cineastas e roteiristas italianos desfrutaram de ampla liberdade criativa, no qual floresceu o Neo-Realismo. Logo, não há como separar o surgimento e desenvolvimento do Neo-Realismo do contexto político e social da época. Eles estão intimamente relacionados. 

Afinal, o governo de ‘União Nacional’ italiano era bastante plural e democrático e permitiu ampla liberdade de criação no país. 

Foi neste contexto que cineastas extremamente talentosos como Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, entre muitos outros, produziram inúmeros filmes clássicos neo-realistas e que mostravam toda a realidade de pobreza, miséria, violência, atraso e injustiça do país. 
Karen vive de forma totalmente solitária na ilha de Stromboli, onde não existe nada: água tratada, energia elétrica, museu, teatro, cinema, restaurante. Ela não apenas mudou de lugar, mas voltou no tempo. 
Os filmes neo-realistas fizeram um grande sucesso no início, principalmente no período 1945-1947, que foi justamente a época em que tivemos o governo de ‘União Nacional’, que foi bastante aberto, liberal e progressista, como eu já afirmei aqui.

Mas, a partir de 1948, quando um governo direitista e conservador (comandado pelo PDC) passou a liderar o país, os filmes produzidos nos EUA tiveram tratamento privilegiado por parte do governo italiano, passando a dominar inteiramente o mercado do país.

Assim, os filmes neo-realistas começaram a perder público para as produções de Hollywood, que mostravam uma vida idealizada e que não tinham qualquer conexão com a realidade econômica e social de pobreza e miséria do povo italiano. 

A política cinematográfica italiana passou a ser controlada pelo PDC e, com isso, muitos filmes neo-realistas sofreram cortes e até foram proibidos de serem exportados (o que foi o caso, até, de ‘Ladrões de Bicicleta’, de Vittorio De Sica), pois mostravam uma imagem do país que era considerada  fortemente negativa pelo governo conservador italiano.

Até o Festival de Veneza sofreu interferência do governo direitista italiano, que obrigou os jurados (que foram subornados) do mesmo a não premiar o filme ‘Sedução da Carne’, de Luchino Visconti (que se declarava marxista), em 1954. 

Obs2: Esta última informação foi retirada do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosaria Fabris, presente no livro ‘História do Cinema Mundial’, de Fernando Mascarello (org.).
Karen chora, desesperada com a tristeza e solidão em que vivia na ilha de Stromboli. 
Os filmes italianos também deixaram de receber verbas oficiais (o que acontecia em inúmeros outros países europeus) e o circuito comercial passou a ser controlado por estrangeiros. Até mesmo a lei que determinava que um percentual mínimo de filmes italianos que deveriam ser exibidos comercialmente não foi respeitada pelo governo democrata-cristão. 

Desta maneira, o Neo-Realismo teve o seu auge no período que vai de 1945-1947, quando os cineastas italianos desfrutaram de uma ampla liberdade de criação que foi propiciada pelo governo de ‘União Nacional’. 

Com o fim desta ‘União Nacional’ e a ascensão de um novo governo, conservador e direitista, as condições que permitiram o surgimento e expansão do Neo-Realismo deixaram de existir.

Tudo isso aconteceu porque o governo direitista italiano não tolerava o fato de que as produções neo-realistas mostravam os graves problemas econômicos e sociais que o país enfrentava naquele momento: desemprego elevado, pobreza, miséria, fome, trabalho infantil, prostituição, analfabetismo, criminalidade.   

Obs3: Tal governo (liderado pelo PDC) deterá a hegemonia política na Itália até 1990, quando ocorreu a chamada ‘Operação Mãos Limpas’, que destruiu o sistema político italiano tradicional, levando ao fechamento do PDC, do Partido Socialista e de mais alguns outros. Os principais líderes políticos do país acabaram presos ou aposentados. 
Karen conversa com o padre da ilha, inconformada com a vida tediosa e melancólica que tem no local. 
Logo, quando a situação política italiana se modificou radicalmente e as condições históricas que permitiram o desenvolvimento do Neo-Realismo deixaram de existir, o mesmo entrou em crise e perdeu espaço no circuito comercial italiano.

Mesmo assim, alguns cineastas italianos ainda continuaram usando de temas originários do Neo-Realismo (pobreza, desigualdades sociais, baixos salários, abandono das periferias urbanas, exploração dos trabalhadores), mas fizeram isso em filmes mais leves, de humor, o que deu origem ao termo ‘Neo-Realismo Rosa’. 
Este foi o caso, por exemplo, de ‘Le Ragazze di Piazza di Spagna’ (de Luciano Emmer), ótima comédia que já foi comentada aqui no blog, e ‘Pão, Amor e Fantasia’ (de Luigi Comencini).  

‘Stromboli’ e o Neo-Realismo!

Em ‘Stromboli’ temos a presença de alguns dos principais elementos do Neo-Realismo: 

A) Uso de atores não profissionais: Com a óbvia exceção de Ingrid, não havia outro ator ou atriz propriamente dito no filme; eram todos moradores da ilha de Stromboli;

B) Filmagens feitas em locações naturais, na ilha vulcânica de Stromboli, localizada nas proximidades da Sicília; 

C) Uso das técnicas de documentário e de filmes reais (caso da erupção vulcânica e da pescaria de atum);

D) Problemas econômicos e sociais sendo exibidos claramente, como o isolamento, a miséria e o baixo nível educacional e cultural dos moradores da ilha. 
Karen e o faroleiro dão risada juntos, motivo pelo qual os conservadores moradores da ilha passaram a desprezá-la. O mesmo aconteceu com Ingrid Bergman quando abandonou marido e filha para ir viver com Roberto Rossellini na Itália. 
Obs4: É bom ressaltar que quando se comenta sobre a questão educacional e cultural dos moradores da ilha que são mostrados no filme, estou me referindo ao fato de que ali não havia nenhuma escola, museu, teatro, cinema ou biblioteca, por exemplo. E a falta de perspectivas levava a que muitos moradores fossem embora do Sul italiano, indo para o Norte da Itália ou para outros países. Outros filmes neo-realistas trataram deste assunto, aliás, o que é o caso de ‘O Caminho da Esperança’ (de Pietro Germi; o filme já foi comentado aqui no blog). Mas os moradores da ilha não eram burros, muito pelo contrário. Eles sabiam muito bem como fazer para viver num ambiente isolado e que oferecia difíceis condições de sobrevivência, como era o caso daquela ilha vulcânica. Muitas pessoas esquecem que diploma não é atestado de inteligência e que esta independe de se possuir um diploma ou não. 

A trama do filme se desenvolve em torno de Karen Bjornsen, que é uma bela, educada e altiva refugiada lituana, que se envolveu com um oficial alemão durante a Guerra (assim, ela teria colaborado com os nazistas, que ocuparam e invadiram a Lituânia). Karen tem origem nórdica, burguesa e sua formação é racional, iluminista. 

Ela acaba indo parar na Itália, onde fica em um campo de refugiados na Sicília, vivendo com pessoas das mais variadas origens. 

Muitos destes refugiados conseguem ir embora para outros países, mas não é o caso de Karen, que tentou ir para a Argentina, mas que teve o seu pedido recusado pelo Cônsul do país. Para sair do local, ela acaba aceitando se casar com um soldado italiano (Antonio), sendo que mal o conhecia. 
Antonio agride Karen, pois suspeitava da sua traição, que não aconteceu. 
Obs5: A história do filme é baseada num fato que ocorreu com Rossellini. Ele conheceu uma mulher originária da Letônia que estava em um campo de refugiados localizado ao norte de Roma e que, junto com outras mulheres, originárias de vários países (Iugoslávia, Polônia, Hungria, Grécia, Lituânia, Romênia, Letônia), vagavam pela Europa, passando por vários campos, nos quais elas sofriam com a fome, estupros e trabalhos forçados. Rossellini chegou a conversar com a mulher quando a viu pela primeira vez, mas quando voltou ao local para revê-la ele ficou sabendo que ela havia se casado com um soldado italiano e que tinha ido viver com o mesmo em uma ilha do sul da Itália. Rossellini imaginou como seria a vida dessa mulher. Ele contou essa história para Ingrid Bergman, em uma carta na qual respondeu para a atriz sueca, que havia lhe escrito demonstrando interesse em trabalhar com Rossellini depois que assistiu ‘Roma, Cidade Aberta’ e ‘Paisà’. Essa informação foi retirada do livro ‘O Cinema de De Sica, Rossellini, Visconti, Antonioni, Fellini’, de Roberto de Castro Neves (Rio de Janeiro, Editora Mauad X, 2012, páginas 80-81).

Antonio leva Karen para uma isolada e miserável ilha vulcânica (Stromboli) localizada ao norte da Sicília e que é habitada por simples e rudes pescadores iguais a ele. Na ilha, não existe energia elétrica, água tratada ou qualquer conforto típico do século XX (e nem do XIX, XVIII, XVII...). O local é uma simples aldeia de pescadores que, literalmente, parou no tempo.

E é claro que Karen, que é uma mulher inteligente, culta, educada, que está habituada a viver em ambientes urbanos diversificados e sofisticados, e que possui personalidade forte, não irá se adaptar a esta vida tão simples e rústica junto a pescadores rudes e em um ambiente, natural e social, abertamente hostil a pessoas que possuem as suas características. 
Antonio e Karen vão à Igreja, onde todos os moradores olham para ela com desprezo, por considerarem que ela traiu ao marido, o que é mentira. 
Até fisicamente ela é totalmente diferente das mulheres da ilha: Ela é alta, bonita, com um belo corpo, orgulhosa e vaidosa, enquanto as mulheres da ilha já sofreram bastante os efeitos da ação do tempo e da natureza: São baixas, atarracadas, com a pele enrugada, nunca frequentaram uma escola e também possuem uma visão bem simples e modesta da vida. 

E é claro que todas essas diferenças irão gerar conflitos entre Karen e as mulheres da ilha. 

Com isso, quando ela percebe quais são as características do local no qual foi morar, Karen fica desesperada e implora para que Antonio a leve embora dali, mas ele se recusa a lhe dar ouvidos. Ele simplesmente não consegue entender os motivos para que Karen queira ir embora. A comunicação entre eles também é difícil porque ela não domina muito bem o italiano e Mario não domina o inglês. 

Obs6: As dificuldades de comunicação entre as pessoas, especialmente entre homens e mulheres, será um tema fundamental dos clássicos filmes de outro brilhante cineasta italiano que também começou no Neo-Realismo: Michelangelo Antonioni. 

E com isso começa uma verdadeira ‘via crucis’ de Karen na ilha, levando-a a passar por momentos de grande sofrimento e a se sentir inteiramente solitária. Karen fica sozinha, dentro de casa, sem fazer absolutamente nada. 
Com a erupção vulcânica, os moradores da ilha buscam refúgio nos barcos dos pescadores. Logo, eles salvavam a vida das pessoas duas vezes: permitindo que pescassem e quando o vulcão entrava em ação.
Não há uma amiga, ou amigo, sequer com quem ela pudesse conversar ou sair, um livro para ler e, é claro, nenhum teatro, bar, cinema, restaurante ou museu que pudesse frequentar. Ela nem toma conhecimento do que está acontecendo na Itália e no Mundo, vivendo em situação de total isolamento. 

Em um determinado momento, desesperada, ela sai andando, a esmo, pela ilha (ela estava literalmente perdida em um labirinto) e chega a tentar conversar com uma criança de poucos anos de idade. E é claro que não consegue.

É evidente, também, que os valores e costumes da bela, urbana e sofisticada Karen são totalmente diferentes daqueles dos moradores da ilha. Ela começa, por exemplo, a querer enfeitar a sua casa, deixando-a mais bonita, e acaba sendo acusada pelas mulheres da ilha de não ser modesta. Ela também quer usar roupas melhores, mas sequer uma loja da ‘C & A’ existe no local. Assim fica difícil... 

Assim, Karen passa a ser hostilizada pelos moradores da ilha. Ela até tenta explicar para os mesmos que eles são diferentes, mas isso não resolve coisa alguma. 

Obs7: Podemos comparar esta situação que Karen enfrenta no filme com a ida de Ingrid Bergman para a Itália, que era um dos países mais pobres e conservadores da Europa e onde ela também sofrerá duras críticas e passou por um grande sofrimento em função disso. Ingrid declarou que chegou a pensar em abandonar o Cinema em função dos duros ataques que sofreu neste período de sua vida, quando se envolveu romanticamente com Rossellini em circunstâncias que as pessoas não aceitaram. 
A pesca parecia ser bastante violenta aos olhos de Karen, mas era uma questão de sobrevivência para os moradores da ilha. 
É bom que se diga que o fato de Karen ser discriminada pelos simples e rudes moradores da ilha não significa que eles sejam burros. 

Os moradores de Stromboli sabem tudo sobre pescaria e a respeito de qual é a melhor maneira de viver em um ambiente duro, inóspito e violento. Eles sabem, por exemplo, exatamente como devem proceder no momento em que ocorre uma erupção vulcânica e dominam inteiramente as técnicas de pescaria. 

Enquanto isso, Karen (a personagem de Ingrid), fica desesperada quando a erupção acontece e ela acaba seguindo os moradores neste momento, saindo da ilha e indo para os barcos, onde estavam protegidos das pedras vulcânicas que eram arremetidas contra a ilha. 

E quando ela vê os pescadores capturando os peixes (atuns) com as suas redes e arpões ela também fica horrorizada, pois não está acostumada com aquela situação que, para ela, parece ser extremamente violenta. 
Karen tenta ir embora da ilha, sozinha, atravessando para o outro lado da mesma, mas ela terá que passar pelo cume do vulcão para conseguir.
Mas para os pescadores e moradores da ilha aquilo faz parte da vida, já há muitas gerações, e eles sabem que a sobrevivência de todos ali depende das pescarias serem bem sucedidas. Sem isso, eles morreriam de fome. Então, o que pode parecer violento para Karen, é uma questão de luta pela sobrevivência para os moradores da ilha. 

Karen fica desesperada, também, porque o marido trabalha demais e não lhe dá a devida atenção, ou seja, não tem relações sexuais com ela. E também não deveria ser fácil para ela se relacionar com um marido que chega a casa cheirando a água do mar e peixe. Com isso, ela chega a tentar seduzir o padre e o homem responsável pelo farol da ilha. Isso é que é desespero...

Em outro momento, ela estava andando na beira do mar e acabou sendo vista, por muitos moradores da ilha, dando risada ao lado de outro homem. Em função deste fato, Antonio passou a ser chamado de ‘chifrudo’ pelos moradores da ilha, o que o fez agredir Karen. 

Mas, com todos os problemas, preconceitos, solidão, desespero que enfrenta, Karen decide ir embora da ilha, sem a ajuda de ninguém, a pé. 
Karen, desesperada, chora com as dificuldades que enfrenta na travessia pelo cume do vulcão. Ela não quer apenas sair da ilha, mas mudar de vida e atingir a redenção. 
No entanto, para fazer isso ela terá que ir até o outro lado da ilha, onde espera ser levada embora em um barco a motor e isso exige que ela atravesse o cume do vulcão. Ela fará isso em um momento no qual ele está expelindo uma fumaça intensa e bastante quente. Ela passa mal, chora, sofre, pensa em desistir. 

No fim, desesperada, ela passa por um surto religioso e apela para que Deus a ajude (se é que Ele existe, diz Karen). Ela pede a Deus por ‘compreensão, força e coragem’. 

Karen adormece e, quando acorda, ela percebe que a ajuda divina, pela qual implorou, chegou. E com isso ela olha em volta e vê um cenário que considera maravilhoso. 

E o final do filme fica em aberto, pois não ficamos sabendo se Karen foi embora da ilha ou não. 

Obs8: Apesar de ser considerado um dos principais cineastas do Neo-Realismo, Roberto Rossellini nunca foi ligado ao PCI. De fato, na época do governo de Mussolini, ele chegou a dirigir filmes de propaganda fascista e foi amigo de Vittorio Mussolini, filho do ‘Duce’, que era o diretor da revista ‘Cinema’, da qual Rossellini e Michelangelo Antonioni, entre outros, foram colaboradores. O misticismo e a religião estão muito presentes em vários dos seus principais filmes, caso deste ‘Stromboli’ e de ‘Europa 51’ (que já foi comentado aqui no blog). 
Karen não sabia se Deus existia mas, no fim, ela pede pela ajuda divina para superar as dificuldades que enfrenta em sua vida.
Informações Adicionais!

Título: ‘Stromboli, Terra di Dio’;
Diretor: Roberto Rossellini;
Roteiro: Sergio Amidei; Roberto Rossellini; Renzo Cesana; Gian Paolo Callegari; Art Cohn; Félix Morlión; 
Ano de Produção: 1950; 
País de Produção: Itália;
Duração: 100 minutos; 
Gênero: Drama;
Música: Renzo Rossellini;
Fotografia: Otello Martelli;
Elenco: Ingrid Bergman (Karen Bjornsen); Mario Vitale (Antonio); Renzo Cesana (Padre); Angelo Molino (criança). 

Vídeo - Trecho do Filme: 

domingo, 19 de março de 2017

‘Sciuscià’ (Vítimas da Tormenta) mostra as consequências da Segunda Guerra Mundial para as crianças e adolescentes italianos! – Marcos Doniseti!

'Sciuscià’ (Vítimas da Tormenta) mostra as consequências da Segunda Guerra Mundial para as crianças e adolescentes italianos! – Marcos Doniseti!
'Vítimas da Tormenta' (Vittorio De Sica; 1946) é um dos principais clássicos neo-realistas e mostra a vida de exploração, miséria, sonhos e delinquência de muitos adolescentes italianos após o final da Segunda Guerra Mundial.
O Neorrealismo Italiano!

Vittorio De Sica foi um dos principais cineastas do Neo-Realismo, formando com Roberto Rossellini e Luchino Visconti uma espécie de ‘Santíssima Trindade’ deste ‘movimento’ cinematográfico, que se tornou um dos mais importantes e influentes da história. 

A ‘Nouvelle Vague’ francesa, o ‘Cinema Novo’ brasileiro e o Cinema Iraniano estão entre os principais movimentos que foram bastante influenciados pelo Neo-Realismo italiano. 

No capítulo 8 do ótimo livro ‘História do Cinema Mundial’ (organizado por Fernando Mascarello; Editora Papirus; Ano 2000), Mariarosaria Fabris explica e analisa o que foi o Neo-Realismo e também faz uma divisão dos temas que foram tratados nos filmes produzidos pelos cineastas Neo-Realistas e as categorias nas quais eles estão inseridos, que são os seguintes:

A) O Fascismo, a Guerra e as suas consequências; 

B) A questão meridional (do Sul da Itália) e os problemas sociais no campo; 
Pasquale (à esquerda) e Giuseppe são dois adolescentes que ganham a vida engraxando sapatos nas ruas de Roma. 
C) O desemprego e o subemprego urbanos; 

D) O abandono dos jovens e idosos; 

E) A condição da mulher; 

F) A indagação psicológica e a relação do homem com a Religião; 

G) A retomada dos temas do Antifascismo e da Guerra; 

H) A elegia populista e a diluição da temática social; 

I) A superação do Neo-Realismo.

O clássico ‘Vítimas da Tormenta’, que foi realizado em 1946, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, pode ser inserido em duas destas categorias, que são o ‘fascismo, a guerra e as suas consequências’ e o ‘abandono dos jovens e idosos’. 
O dinheiro que Giuseppe ganhava engraxando sapatos era fundamental para que a família pudesse se manter. 
Afinal, este belo filme de Vittorio De Sica trata das consequências da Segunda Guerra Mundial para as crianças e adolescentes italianos, pois milhares deles ficaram órfãos e passaram a viver em situação de miséria em função do conflito.

Outros filmes Neorrealistas que também se relacionam com este assunto são 'Proibito Rubare' (Luigi Comencini; 1948) e 'Campane a Martello' (Luigi Zampa; 1949).  

A trama do filme!

A história do filme se desenvolve em torno de dois adolescentes (Pasquale e Giuseppe) que vivem de engraxar sapatos em Roma. Pasquale é órfão de guerra e vive na casa de Giuseppe (antes ele dormia em um elevador, mas acabou sendo proibido de fazer isso). 

Uma parte do dinheiro que ganha com esse trabalho eles dão para a família de Giuseppe, ajudando a sustentar a mesma, enquanto que a outra parte eles guardam, pois sonham em comprar um cavalo (cujo nome é Bersagliere, que se parece mais com um potro), o que eles acabarão fazendo. 

Porém, eles não tinham todo o dinheiro necessário para fazer isso. Mas eles serão usados e manipulados por um grupo de ‘golpistas’, do qual o irmão mais velho de Giuseppe fazia parte. Esse grupo convence os dois garotos a vender cobertores americanos para uma cartomante. 
Giuseppe e Pasquale acabam sendo manipulados por golpistas, incluindo o irmão mais velho de Giuseppe, sendo usados em atividades ilegais.
Porém, logo depois que a venda foi efetuada, os membros do grupo aparecem na casa da cartomante e agem como se fossem policiais, acusando a mulher de comprar mercadoria roubada. Eles confiscam os cobertores e mandam os garotos embora. 

É bom esclarecer que Giuseppe e Pasquale não sabiam desse plano, sendo que eles foram convencidos a vender os cobertores em troca de uma comissão (de 300 Liras). 

Posteriormente, no entanto, a cartomante fez a denúncia para a Polícia, gerando a prisão de Pasquale e Giuseppe. 

Mas como eles não confessaram a participação dos adultos nesse plano, a fim de proteger o irmão de Giuseppe, os dois acabaram sendo levados para uma espécie de ‘Febem’ italiana, onde passaram a conviver com centenas de menores infratores e que haviam se envolvido nos mais variados crimes: assaltos à mão armada, roubos, furtos, assassinatos. 
Giuseppe e Pasquale vendem cobertores para uma cartomante, desconhecendo o fato de que estão sendo usados por golpistas. 
Na ‘Febem’, eles são separados e são colocados em celas separadas (são cinco em cada cela), permitindo que eles façam novas amizades e estabeleçam alianças dentro do local. 

Pasquale, por sinal, entrará em conflito com outro adolescente (Arcangeli), que havia sido preso por assalto à mão armada, o que fazia dele um líder respeitado lá dentro. E esse conflito desencadeará uma sucessão de acontecimentos que, por sua vez, levará a um final trágico.  

Os menores, muito espertos, sabem negociar com os ‘mestres’, ou seja, com os funcionários da ‘Febem’ que são encarregados de manter a ordem e a disciplina no local. Exemplo disso é que eles conseguem fumar no lugar, embora isso seja proibido. Mas para isso eles são obrigados a oferecer cigarros aos funcionários que, em troca, lhes fornecem os fósforos. 

E os ‘mestres’ também são especialistas em confiscar (ou seja, em roubar) uma parte daquilo que as famílias dos menores mandam para eles (alimentos, em especial). E é claro que, na ‘Febem’, há também aqueles menores que colaboram com os administradores, em troca de receber um tratamento melhor por parte dos mesmos. 
Giuseppe e Pasquale acabam sendo presos, mas recusam-se a dizer quem os usou para aquela atividade ilegal. 
Os outros menores sabem quem são estes traidores e estão sempre provocando os mesmos. E muitos dos menores sequer recebem as visitas dos familiares, que não se importam com o que eles estão sofrendo na instituição. 

No entanto, a amizade entre Pasquale e Giuseppe ficará abalada quando, ao pensar que o amigo estaria sendo espancado, Pasquale acabou dizendo os nomes dos adultos que os manipularam. A mãe de Giuseppe o visita na ‘Febem’ e o repreende por ter entregado o nome do irmão, levando a que o filho descubra que foi Pasquale 
que o entregou. 

Com isso, Giuseppe e Pasquale se afastam, tornando-se inimigos, sendo que este segundo passará a ser visto como traidor pelos demais menores da instituição. 
Alguns amigos em comum tentam reaproxima-los, mas isso não acontecerá.

Também teremos um confronto entre Pasquale e outro adolescente, que quase acaba morrendo quando é atingido pelo ex-amigo de Giuseppe (embora este tenha torcido pelo mesmo durante a briga). Desta maneira, Pasquale será levado para a solitária. 

No fim, os menores aproveitam-se da exibição de alguns filmes no pátio para organizar e promover uma fuga. Giuseppe foge com mais quatro garotos, mas Pasquale diz para os ‘mestres’ que sabe para onde os fugitivos foram. Ele os leva até a fazenda onde está o cavalo que ele e Giuseppe compraram e também acaba aproveitando para fugir. 
Giuseppe é colocado em uma cela diferente daquela em que seu amigo Pasquale ficou, separando os dois. 
Pasquale encontra Giuseppe e termina por ataca-lo, provocando um final trágico.

Assim, neste belo e clássico filme de Vittorio De Sica vemos a tragédia humana que representou o Fascismo e a Segunda Guerra Mundial para a Itália (afinal, foi Mussolini quem conduziu a Itália à Guerra), em especial para as crianças e adolescentes.

Afinal, uma geração inteira de crianças, adolescentes e jovens acabou pagando um preço elevado pelos crimes de adultos extremistas e fanáticos. 

Também é possível notar a facilidade com que Vittorio De Sica trabalhava com crianças e adolescentes. Não é à toa que, dois anos depois, ele iria dirigir outro clássico, que foi ‘Ladri di Biciclete’ (vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1950), filme no qual uma criança (Enzo Staiola, que interpretou Bruno) teve um papel importante. 

‘Vítimas da Tormenta’ também acabou influenciando outros cineastas, que posteriormente também dirigiram filmes a respeito de assunto semelhante, como foi o caso de ‘Os Esquecidos’ (de Luís Bunuel) e ‘Pixote – A Lei do Mais Fraco’ (de Hector Babenco).
No final, Pasquale vai atrás de Giuseppe, por quem se sentiu traído. E o final do confronto será trágico. 
Informações Adicionais!

Título: Sciuscià (Vítimas da Tormenta);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Cesare Zavattini; Sergio Amidei; Adolfo Franci; Cesare Giulio Viola;
Ano de Produção: 1946; 
País de Produção: Itália;
Duração: 88 minutos; 
Gênero: Drama;
Música: Alessandro Cicognini; 
Fotografia: Anchise Brizzi;
Elenco: Franco Interlenghi (Pasquale Maggi); Rinaldo Smordoni (Giuseppe Filipucci); Annielo Mele (Raffaele); Bruno Ortenzi (Arcangeli); Emílio Cigoli (Staffera).
Prêmios: Oscar Honorário em 1948.
Melhor Diretor para Vittorio De Sica (Sindicato Nacional de Jornalistas Cinematográficos da Itália). 
Vídeo - Trailer do filme:

sábado, 18 de março de 2017

'Le Départ': Influenciado pela ‘Nouvelle Vague’ e pelo ‘Noir’, Skolimowski critica o materialismo capitalista do Ocidente! – Marcos Doniseti!

'Le Départ': Influenciado pela ‘Nouvelle Vague’ e pelo ‘Noir’, Skolimowski critica o materialismo capitalista do Ocidente! – Marcos Doniseti!
'Le Départ' recebeu o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim em 1967. 
Jerzy Skolimowski foi um dos principais diretores poloneses do Pós-Guerra, junto com Andrzej Wajda, Roman Polanski e, depois, Krzysztof Kieslowski.

Ele surgiu nos anos 1960 com uma série de filmes, uma trilogia, sobre uma realidade meio cinzenta que caracterizava a Polônia da época, sendo que as suas obras da fase polonesa chamaram a atenção de cineastas como Godard. 

No entanto, em função do seu filme anterior ter sido censurado pelo governo polonês, que o considerou como sendo anticomunista, Skolimowski decidiu sair do país e continuou a sua carreira cinematográfica no Ocidente.

‘Le Départ’, que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1967, foi o seu 
primeiro filme produzido no ‘Ocidente’, tendo sido realizado na Bélgica, sendo que Bruxelas foi escolhida para as locações. A fotografia do filme fez com que a capital belga se parecesse com a Varsóvia dos filmes da fase polonesa de Skolimowski.

Obs1: Bruxelas é a atual sede da União Europeia. 

E o compositor polonês Krzysztof T. Komeda, um apaixonado por Jazz, ao qual divulgou intensamente na Polônia, foi o responsável pela bonita (e jazzística, é claro) trilha sonora do filme. 

Komeda compôs uma bela trilha sonora. Ele também compôs a música de vários filmes de Roman Polanski, outro grande cineasta polonês. E a bela fotografia em preto e branco de Willy Kurant realça os tons cinzentos de Bruxelas. 
Marc em um Porsche, pelas ruas escuras de Bruxelas. O 'Filme Noir' está presente neste ótimo filme de Skolimowski. 
Skolimowski dirige um filme que critica o materialismo ocidental e que também trata de qual escolha ele deveria fazer em sua vida de cineasta. E a história do filme também se conecta com o comportamento rebelde da juventude da época.

O filme se desenvolve em torno de Marc, brilhantemente interpretado por Jean-Pierre Léaud, ator preferido de Truffaut e que havia acabado de trabalhar em ‘Masculino-Feminino’ de Godard.

Marc é um empregado de um salão de cabeleireiro, mas que fica inquieto com a vida triste e tediosa que leva. 

Marc fica indeciso entre dois caminhos possíveis: Ele deve procurar sair daquela vida acomodada de cabeleireiro e seguir uma vida em torno de seus sonhos e fantasias, que se manifestam em sua paixão por carros e velocidade (que é claramente uma maneira dele de promover a afirmação da sua masculinidade), ou deve dar continuidade ao romance que acabara de iniciar com a jovem e bela Michele, por quem se apaixona, mas com quem acabará tendo uma vida mais convencional, embora possa até a vir ser feliz ao lado dela. 

Obs2: Tal como o personagem Marc sonhava com uma vida plena de emoções ao correr com Porsches em corridas, o próprio Skolimowski talvez imaginasse que ao sair da Polônia ele teria total liberdade de criação. Mas se na Polônia a ideologia limitava essa liberdade, no mundo capitalista ocidental é a busca pelo lucro que exerce essa função. 
Os carros são verdadeiros protagonistas deste premiado filme de Skolimowski, representando os sonhos, desejos e fantasias que Marc tinha de ter uma vida cheia de emoções e aventuras.
Michele, é claro, percebe a indecisão de Marc, que valoriza mais os carros do que ela mesma (pelo menos no início), mas que mesmo assim não o abandona. 

Esse dilema não estava restrito a Marc, o protagonista de ‘Le Départ’, mas atingia grande parte da juventude dos anos 1960, que se rebelava contra os padrões e valores dominantes da autoritária e repressiva sociedade da época, mas que não conseguia romper inteiramente com os mesmos. 

Neste aspecto, lembro-me de uma cena do filme sobre o antológico festival de ‘Woodstock’ na qual os jovens que compareceram ao mesmo telefonavam para seus pais, a fim de avisá-los de que estava tudo bem com eles ou então para pedir dinheiro. Assim, eles se rebelavam contra a sociedade, mas sem romper inteiramente com as instituições dominantes, caso da família, por exemplo.

Sob outra perspectiva, essa indecisão de Marc talvez reflita a situação do próprio Skolimowski, que no ano de 1966 sai da Polônia e passa a filmar no Ocidente. Com isso, ele passou a se deparar com outro tipo de censura, diferente da existente na Polônia (de caráter mais ideológico), que é aquela imposta pela necessidade dos filmes produzidos no Ocidente terem a obrigação de serem lucrativos.  
Marc sonha em disputar um rally, pilotando um Porsche, procurando buscar algo em sua vida que lhe proporcione emoções que não tem no sua cotidiano de simples cabeleireiro. A presença intensa de automóveis durante todo o filme denuncia o excessivo materialismo da sociedade ocidental, que substitui uma vida plena de emoções e de sentido pelo consumismo, que supostamente faria as pessoas felizes, o que não acontece, é claro.
Assim, qual deve ser a escolha de Skolimowski? Filmar aquilo que ele deseja, expressando o que existe em seu interior, fazendo filmes para ele mesmo, ou produzir filmes mais comerciais, visando recuperar os investimentos feitos nos mesmos pelos produtores? 

Skolimowski irá oscilar, em suas produções ocidentais, e ele admitiu, em uma entrevista que os seus piores filmes foram justamente aqueles nos quais ele priorizou os lucros dos investidores. 

A trama de ‘Le Départ’ começa com Marc ‘pegando emprestado’, à noite, um Porsche que pertence ao dono do salão no qual ele trabalha como cabeleireiro. Isso gera belas cenas noturnas com Marc dirigindo carro pelas ruas e avenidas de Bruxelas. 
Marc deseja participar de uma corrida no domingo seguinte e ele quer usar um 
Porsche para poder participar da mesma. 

Mas ele fica sabendo que o seu empregador irá usar o Porsche naquele final de semana. Marc fica desesperado e decide usar de várias estratégias para poder participar da corrida de qualquer maneira. 
Michele e Marc se apaixonam, mas ele tem outras paixões, que são os carros, a velocidade e os Porsches. O materialismo do Ocidente capitalista é objeto de crítica por parte de Skolimowski neste belo filme. 
Ele apela para uma falsa tentativa de compra de um Porsche, enrolando o vendedor, dizendo que ele é empregado de um Marajá (que é um amigo disfarçado), chegando a usar de uma inexistente língua oriental para 'traduzir' o que o 'Marajá' fala. Ele quer ficar com o veículo durante o final de semana, fazendo uma espécie de ‘test drive’, mas ele abusa tanto do veículo, na ânsia de se preparar para a corrida, que os freios ficam com problemas. Daí ele devolve o veículo para a concessionária, sem que o vendedor jamais tenha desconfiado de que havia sido enganado.

Neste período, ele chegou a travar uma corrida particular em uma rodovia contra um piloto profissional (Paul Frére), a quem ele chega a pedir dicas que possam ajuda-lo a vencer a prova. 

Posteriormente, Marc tenta conseguir o dinheiro necessário para ter condições de alugar um Porsche (são 15.000 francos) e, assim, poder participar da competição. A paixão pelos carros e pelas corridas de velocidade acaba sendo uma maneira que 
Marc encontra para sublimar a sua energia sexual. 

No filme, também fica bastante evidente uma crítica de Skolimowski contra o consumismo do Ocidente, estimulando as pessoas a comprarem os seus carros, pois somente assim elas poderão ser felizes. Os gigantescos outdoors com pessoas sorridentes dentro dos carros são um sinal claro disso. 
Marc conhece a bela Michele e isso mostra que existe, sim, uma alternativa feliz para a vida fantasiosa (em torno de corridas e Porsches) e que está fora do alcance deste simples cabeleireiro. 
Mas em uma das vezes nas quais ele saiu para entregar uma peruca a uma mulher, Marc acabou conhecendo uma bela e encantadora jovem, Michele, por quem ele acaba se apaixonando. 

Ele é dono de uma simples motoneta e tenta conquista-la mesmo assim, chegando a persegui-la quando ela preferiu usar o bonde. Assim, no início, ela não demonstra interesse por Marc, mas a insistência dele foi recompensada e ela aceitou andar com ele em seu modesto veículo. 

Eles começam a passear juntos por Bruxelas, visitando um desfile de moda e um salão do automóvel. Nesta sequência, vemos aquela que é a mais bela cena do filme, quando Marc e Michele ficam em partes separadas de um carro que está partido ao meio, momento no qual eles trocam olhares apaixonados. Eles se amam, mas esse amor ainda não foi consumado. 

Afinal, resta saber o que é prioridade para o jovem Marc (ele tem apenas 19 anos): Os veículos ou as mulheres? Participar das corridas ou ficar ao lado dela? O Porsche ou Michele? É isso que Marc terá que descobrir.

Marc terá que optar entre continuar correndo atrás de seus sonhos e fantasias, por mais distantes que eles estejam, e viver aquela vida simples, acomodada e desprovida de emoções que ele experimenta até aquele momento. A paixão pelos carros velozes e pelas competições é que dá um pouco de emoção e sentido para a sua vida tediosa. 

Mas agora surgiu a jovem e bela Michele em sua vida e as dúvidas irão começar a atormentá-lo. 
Michele fica triste quando percebe que Marc dá mais importância aos Porsches do que para o romance deles. 
Obs3: Neste sentido, existe uma proximidade de ‘Le Départ’ com ‘Blow-Up’, de Antonioni, que também foi realizado em 1967. Em ‘Blow-Up’ temos um fotógrafo britânico bem sucedido que também vive de forma entediante e que procura se envolver com algo mais, que lhe permita desfrutar de momentos emocionantes, que o façam sair, mesmo que por breves momentos, daquela vida chata. No caso do filme de Antonioni, trata-se da descoberta e posterior investigação de um assassinato. 

Logo, agora existe uma alternativa para Marc, que é desfrutar de uma vida feliz ao lado da bela Michele. Assim, ele terá que fazer uma escolha. E embora ele seja alguém que se rebela contra as convenções sociais e as instituições autoritárias, ele não deseja romper com as mesmas, mas apenas ser independente enquanto faz parte das mesmas.

No início, porém, as dúvidas assaltam a mente de Marc, que vai da melancolia à euforia em poucos segundos e que grita de um momento para o outro. Algo parecido ocorre com o seu comportamento. No salão ele tem que se submeter aos caprichos das mulheres, mas fora do mesmo ele procura afirmar a sua masculinidade por meio de sua obsessão pelos carros velozes e pelas corridas. 

Essa ligação entre sua paixão pelos carros e por Michele é tão forte que ele acaba falando que a ama dentro do porta-malas de um Cadillac. Ele também diz que foi o primeiro homem que conseguiu namorar a bela Michelle mesmo possuindo uma simples moto.
A belíssima Michele, que balançou o coração de Marc, fazendo com que refletisse sobre a vida que gostaria de ter.
Ele havia se escondido ali, no porta-malas, junto com Michele, porque queria pegar algumas peças no salão, a fim de poder vender as mesmas e conseguir os 15.000 francos para que pudesse alugar o Porsche e participar da corrida. 

No salão temos uma das mais belas cenas do filme, quando eles ficam dentro de um carro, mas que está separado em duas metades. Aos poucos, as metades vão se aproximando, até que elas se unem. É claro que isso se refere ao fato de que eles se apaixonaram. Enquanto isso, toca uma bela canção de amor, que é interpretada por Christine Legrand. 

Depois, eles saem do salão e vão andar na moto de Marc. Neste momento, vemos a belíssima Michele, de perfil, com o rosto ao vento, sorrindo, nesta que é a mais bela cena do filme.

Marc quer vender o que for necessário para poder reunir os 15.000 francos. E Michele o ajuda, vendendo algumas coisas suas também. Eles também vendem um grande espelho e andam com ele pela cidade, enquanto brincam e sorriem. 

Com isso, Marc consegue reunir dinheiro suficiente para alugar o Porsche e participar da corrida, mas ele não tem a idade mínima para isso (que é de 23 anos, sendo que Marc tem 19). 
Michele fica triste e desanimada devido à indecisão de Marc quanto ao destino de ambos.
Depois de gritar muito com Michele, que inicialmente adota uma postura submissa em relação a Marc, ela consegue encontrar um Porsche aberto. Eles o 'pegam emprestado', mas ao ver que há um pequeno cão no carro, ele o deixa para trás. 

Enquanto tudo isso acontecia, ao mesmo tempo, o envolvimento entre eles foi se desenvolvendo e se tornando cada vez mais intenso à medida que conviviam. 

Depois, Marc e Michele vão para o salão no qual ele trabalha, momento no qual ele chora, porque percebe que o seu sonho de correr com um Porsche não irá se realizar. 

Mas logo depois o seu patrão chega e deixa o Porsche na garagem. Marc pega o mesmo 'emprestado', deixando um bilhete avisando ao seu empregador, para poder usá-lo no rali.


Depois disso, eles vão para um hotel, no qual teremos a parte final do filme. 

Nesta bela sequência final, Marc demonstra a sua dúvida em relação a que rumo tomar em sua vida. Enquanto isso, ela espera que Marc tome a iniciativa, para que possam se amar, mas ele não o faz, porque ainda sonha com carros velozes, corridas e Porsches. Ele até pergunta o que pode ser mais importante do que isso. 

E é claro que este comportamento dele deixa Michele triste e angustiada. 
Marc fica em dúvida sobre qual o rumo que deveria tomar em sua vida. Somente quando está com a bela Michele é que Marc consegue esquecer a verdadeira obsessão que possui por carros velozes, corridas e Porsches.  
Ela finge dormir e, logo depois, assume o comando da situação, passando a dizer para ele o que fazer, o que era algo novo na relação deles. Michele começa a projetar fotografias suas, desde a época em que ela era um bebê, enquanto vai relatando os fatos da sua vida. Ela dorme com o projetor ligado e Marc beija a mão de Michele. 

Ele fica pensativo, pois terá que escolher qual o rumo que dará à sua vida. Afinal, se ele escolher os carros, os Porsches e as corridas, ele ficará sozinho. 

Mas se ele optar por amar a bela Michele, então Marc terá que desistir dos carros, das corridas e dos Porsches, deixando para trás os seus sonhos e fantasias de antigamente. 

Desta maneira, este é um filme que trata do amadurecimento de um jovem, que precisa escolher qual será o seu destino. 

E o que Marc fez no final foi... 
No final, Marc decidiu o rumo que a sua vida irá tomar.
Informações Adicionais:

Título: Le Départ (A Partida);
Diretor: Jerzy Skolimowski;
Roteiro: Jersy Skolimowski e Andrzej Kostenko;
Ano de Produção: 1967; País de Produção: Bélgica;
Duração: 89 minutos; Gênero: Romance; Drama;
Música: Krzysztof Komeda;
Fotografia: Willy Kurant;
Elenco: Jean-Pierre Léaud (Marc); Catherine-Isabelle Duport (Michèle); Paul Frère (Paul Frère). 
Prêmio: Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim de 1967. 

Vídeo - Trecho do Filme em que toca a música interpretada por Christiane Legrand: