sábado, 1 de abril de 2017

‘In Nome Della Legge’ – Homenageando o ‘Western’, Pietro Germi denuncia as ações da Máfia siciliana em clássico do Neo-Realismo! - Marcos Doniseti!

‘In Nome Della Legge' – Homenageando o ‘Western’, Pietro Germi denuncia as ações da Máfia siciliana em clássico do Neo-Realismo! - Marcos Doniseti!
'In Nome Della Legge' (Em Nome da Lei), de Pietro Germi, é um filme que mistura influências do Neo-Realismo e do Western. Ele influenciou o chamado 'Western Spaghetti' e também o Cinema Político Italiano dos anos 1960/1970.
Pietro Germi foi um dos mais importantes cineastas do Neo-Realismo italiano, dirigindo vários clássicos que são identificados com esse importante e influente ‘movimento cinematográfico’, como foram os casos de ‘Il Camino della Speranza’ e deste ‘In Nome Della Legge’ (1949). 

O belo filme ‘Il Camino della Speranza’ é uma produção de 1950, que já foi comentada aqui no blog e que o próprio Germi considera como sendo o seu melhor filme.

Ele também dirigiu, posteriormente, algumas das melhores comédias italianas, tornando-se um dos principais diretores do gênero, ao lado de Ettore Scola e de Mario Monicelli (que é um dos roteiristas de ‘In Nome Della Legge’). 

A história do filme gira em torno das ações de um novo e jovem juiz (Guido Schiavi, com 26 anos) que é transferido para a cidade de Capodarso, na Sicília, onde a ‘Justiça’ e as ‘Leis’ são feitas pela Máfia e pelos poderosos locais e as determinações dos Tribunais são ignoradas.

O filme começa com a saída do juiz anterior (Pisani), todo feliz por se livrar daquele ambiente em que a sua autoridade era inexistente, e a chegada de Guido à cidade.

Guido é recebido com olhares de desconfiança por parte da população local e mal pisa na cidade ele já é avisado sobre o fato de que o juiz anterior respeitava as ‘tradições e costumes’ locais, ou seja, a Justiça e a Polícia não faziam nada, deixando que a Máfia tomasse conta de tudo, incluindo a punição contra eventuais criminosos. Até mesmo o seu assistente vive lhe dizendo isso. 
Mal chega à cidade de Capodarso, na Sicília, e o juiz Guido já enfrenta o seu primeiro crime. 'In Nome Della Legge' gerou um intenso debate sobre os limites do Neo-Realismo. 
Isso acontece ao mesmo tempo em que a Justiça também ignora os abusos e ilegalidades cometidos pelos Capitalistas locais, principalmente da parte de um poderoso Barão, que é aliado da Máfia. Este Barão também é o proprietário de uma mina, que mantém fechada, impedindo que a população local tenha trabalho. E quem se revolta contra essa situação acaba sendo perseguido e morto pela Máfia. 

Nestas circunstâncias, a miserável população de trabalhadores locais sente-se totalmente impotente, abandonada e amedrontada, não tendo a quem recorrer para lutar contra as violências de que é vítima, pois sabe que Justiça, Polícia e Governo nada farão por ela. 

Logo, as principais instituições públicas locais simplesmente não funcionam, caracterizando uma situação de total privatização e terceirização das atribuições do Estado. 

Obs1: Os neoliberais iriam adorar viver em uma sociedade com essas características.

Já no início do filme vemos um assalto, que mostra como as coisas funcionam por ali, e que ocorre em uma paisagem selvagem que lembra claramente a dos filmes de Western estadunidenses (e a música que toca nesta cena, e durante o filme, também faz essa referência): Dois ladrões comuns roubam duas mulas e matam o transportador, pois este havia sido reconhecido por um dos ladrões. 
O juiz Guido e Teresa (esposa do Barão Lo Vasto) sentem uma forte atração e se apaixonam, mas os conflitos que ocorrem na cidade irão dificultar o romance deles. 
O problema é que as mulas pertencem a um poderoso Barão local, que não liga a mínima para a morte do seu funcionário e se importa apenas em querer as mulas de volta. Ele quer fazer isso por meios legais, aguardando pela chegada do novo juiz (Guido), mas o chefão local da Máfia manda dois capangas para convencê-lo de que ele pode resolver o problema.

Assim, o Barão sequer precisa se preocupar em denunciar o roubo à Polícia, pois dois capangas do poderoso líder mafioso da cidade (Turi Passalacqua), de quem o Barão é amigo, irão se encarregar de ‘fazer Justiça’. 

Com isso, um dos ladrões (Aleo) acaba sendo morto por um dos capangas (Messana) e o outro (Vanni Vetriolo) foge da cidade antes que vire ‘presunto’ também. 

Porém, o novo e jovem juiz não quer saber de ver a Máfia controlando as ações na cidade e demonstra uma grande vontade de trabalhar já no seu primeiro dia, o que deixa o seu assistente e um advogado (que trabalha para o Barão) preocupados. 

Guido é advertido pelo seu assistente de que ali existem ‘tradições e costumes’ que precisam ser respeitados, ou seja, os crimes não precisam ser investigados e os criminosos são justiçados pela Máfia, que é quem mantém a ‘lei e a ordem’ no local. 
O poderoso Barão Lo Vasto é um dos que se recusa a obedecer a Justiça e por isso entrará em conflito com o juiz Guido. 
É claro que ele sabe do poder que a Máfia exerce no local (Guido é siciliano), mas isso não o intimida. E no fim das contas é a Polícia quem recupera as mulas para o Barão. 

Mas a primeira providência de Guido é justamente mandar reabrir os casos antigos que ficaram sem uma decisão final. Ele demonstra uma imensa vontade de ‘botar ordem na casa’ e de aplicar a Lei na cidade, o que irá lhe criar problemas e conflitos com os poderosos locais, é claro. 

Guido ficará conhecendo o poderoso Barão que, numa linguagem mais empolada, lhe diz a mesma coisa, ou seja, ali a Justiça e as Leis não existem e ele tem que se adaptar a esta situação, deixando que a Máfia e os Barões controlem tudo. 

Inclusive, durante o julgamento de um caso de briga entre dois trabalhadores, Guido toma conhecimento do fato de que o Barão mandou fechar uma mina local, deixando uma grande parte dos trabalhadores da cidade sem trabalho e passando fome. 

O Barão, porém, joga a responsabilidade para a sua esposa (Teresa), uma bela mulher que atrai a atenção de Guido, dizendo que ela é a proprietária da mina, embora ele seja o administrador da mesma. 
O líder mafioso Turi Passalacqua, que se considera um 'homem de honra', é quem controla tudo na cidade, decidindo quem vive e quem morre. Mas com a chegada do juiz Guido esse cenário começará a se modificar. 
E a mina continuou fechada, mesmo depois que o Tribunal determinou a reabertura da mesma, pois a decisão da Justiça não foi colocada em prática pelo juiz anterior, temeroso de ter que enfrentar os poderosos da cidade. 

Assim, o filme de Pietro Germi acaba se tornando uma corajosa, realista e vigorosa denúncia contra os imensos poderes e atividades criminosas da Máfia e dos Grandes Proprietários na Sicília. 

Mesmo com todas as advertências que recebe (do Barão, do seu assistente, de Teresa) o juiz Guido dá continuidade ao processo judicial da mina e decide fazer uma investigação sobre as condições em que a mesma se encontra, com o objetivo de reabrir a mesma. 

E os mineiros ficam eufóricos com o fato de que eles ganharam o processo e pressionam Guido para que ele determine a imediata reabertura da mina, independente da situação em que a mesma se encontre, o que legalmente não pode ser feito. 

Isso faz com que a popularidade de Guido aumente bastante e todos na cidade passam a trata-lo com respeito e deferência. 
Os trabalhadores ficaram sabendo que ganharam o processo para reabrir a mina e recuperar os seus empregos. Eles vão até a residência do juiz Guido para que possam começar a trabalhar imediatamente. Mostrar a realidade do povo italiano era um dos principais aspectos do Neo-Realismo.  
Desesperado com a derrota no processo, o Barão, que deseja manter a mina fechada, tenta subornar Guido, que rejeita tal tentativa. 

Além disso, temos também uma trama secundária, envolvendo Guido e Teresa (esposa do Barão), que acabam se apaixonando. Ela procura sempre advertir Guido dos perigos e riscos que o mesmo corre ao enfrentar o Barão e a Máfia. 

O envolvimento romântico dos dois acaba sendo descoberto pelo Barão, que também ameaça divulgar o caso para tentar desmoralizar Guido, mas este não recua da sua decisão de mandar reabrir a mina. 

Desta maneira, logo depois de recusar o suborno, Guido acaba levando um tiro de um capanga do Barão, mas sobrevive ao mesmo.

O ladrão foragido, Vanni Vetriolo, chegou a agradecer Guido por ter libertado os seus pais da prisão, mas logo depois ele acaba sendo assassinado por ordens do mafioso Passalacqua. Guido faz uma investigação para descobrir quem havia sido o responsável pela morte de Vetriolo e descobre que um dos capangas do líder mafioso era o assassino. 

Guido manda prender o capanga, fato este que leva Passalacqua e seus ajudantes a tomar a decisão de matar Guido, bem como o jovem Paolino, ajudante do juiz, pois este é que entregou o capanga para o mesmo. 
O assassinato de Paolino leva o juiz Guido a permanecer na cidade, para poder continuar a combater os crimes em Capodarso. 
Enquanto isso, outro dos capangas do mafioso Passalacqua, Ciccio Messana, se interessa pela jovem Bastianneda, embora seja a mãe dela quem deseja ter um relacionamento com ele. Porém, a jovem não quer saber do violento capanga e tem um romance com Paolino, ajudante do juiz Guido. 

Paolino e Bastianneda planejam se casar e para evitar que ela venha a ser esposa de Messana, os dois passam uma noite juntos, fato este que se torna público. Assim, a mãe teria que concordar com o casamento dos dois e desistiria de entregar a filha para Messana. Mas é claro que este não irá aceitar o fato e dará o troco. 

Os poderosos locais decidem enviar uma carta para Roma, a capital italiana, reclamando junto ao Governo da atuação de Guido, dizendo que este seria incapaz de exercer as suas atividades. 

Na verdade, o que eles não aceitam é que os seus abusos e ilegalidades sejam investigados e punidos. Um procurador de Palermo (principal cidade siciliana) é enviado para Capodarso a fim de avisar Guido de que ele será transferido para outra cidade. 
Teresa sonhava em ir embora, junto com Guido, mas isso não será possível. 
Mas um pouco antes de Guido ir embora da cidade, junto com Teresa, ele é avisado pelo comissário de Polícia de que Paolino havia sido assassinado por Messana. 

No fim, é o assassinato de Paolino por Messana (por razões sentimentais) que fará com que o juiz permaneça na cidade (Capodarso), desistindo de ir embora com Teresa, a bonita, solitária e infeliz esposa do Barão. Teresa não hesitaria em ir embora, até porque o insensível Barão não demonstra interesse algum pela esposa e nem pelo fato dela tocar piano. Ela é mais um troféu que ele gosta de exibir para os outros, mas a trata com total desprezo e indiferença. 

Guido convoca toda a população para uma reunião pública e denuncia a todos dizendo que ninguém o apoiara na sua luta para que as leis fossem respeitadas no local. Ele diz que todos os moradores da cidade, de certa maneira, ajudaram a matar Paolino, na medida em que ou eles procuraram atrapalhar ou então não o ajudaram em nada no sentido de fazer com que as Leis sejam respeitadas na cidade. 

E o líder mafioso da cidade (Passalacqua), que havia entrado em conflito com Guido em vários momentos, decide aceitar a Lei do Estado, submetendo-se à autoridade de Guido, ou seja, da Justiça. Com isso, o líder mafioso entrega Messana para Guido, a fim de que o mesmo seja julgado e condenado pelo assassinato de Paolino. 
Guido discursa para a população, dizendo que não recebeu apoio suficiente para fazer o seu trabalho. Nos filmes do Neo-Realismo, a multidão assume um papel bastante ativo, o que acontece em vários momentos deste clássico de Germi. 
Obs2: Talvez essa iniciativa de Passalacqua seja aquele caso de ‘entregar os anéis, para não perder os dedos’. Assim, o líder mafioso abre mão de alguns dos seus poderes, mas em compensação ele poderá continuar agindo em defesa dos seus interesses sem ser incomodado pela Justiça. 

Logo, é mostrado, no final do filme, que ocorre um acordo entre a Máfia e o Estado. 

De fato, no Pós-Guerra, depois que o governo italiano passou a ser controlado pelo PDC (Partido Democrata-Cristão), a partir de Julho de 1948, a Máfia passou a apoiar o governo do país, que também tinha o apoio da Igreja Católica, do governo dos EUA e da burguesia italiana (industriais, banqueiros, latifundiários). 

Foi essa ampla aliança política que manteve o controle político da Itália, até que a operação ‘Mãos Limpas’ expôs o lado sujo do sistema, promovendo a sua virtual 
destruição. 

Obs3: Até mesmo o governo dos EUA foi obrigado a negociar com a Máfia siciliana quando da invasão da ilha pelas tropas dos Aliados, em Julho de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Assim, Guido decide permanecer na cidade e Teresa chora, pois sabe que, agora, a sua chance de ir embora não existe mais e ela terá que continuar vivendo com o Barão. 

Fim.
No fim, o juiz Guido consegue fazer valer a autoridade do Estado, à qual até mesmo a Máfia se submete. Mas parece que os mafiosos italianos não gostaram do filme, pois dizem que um 'homem de honra' jamais faria isso.

Informações Adicionais:


Título: In Nome Della Legge (Em Nome da Lei);
Diretor: Pietro Germi;
Roteiro: Pietro Germi; F.Fellini; Mario Monicelli; Tullio Pinelli; Giuseppe Mangione; Baseado no romance ‘Piccola Pretura’, de Giuseppe Guido Lo Schiavo;
Ano de Produção: 1949; País de Produção: Itália;
Duração: 97 minutos; Gênero: Drama;
Música: Carlo Rustichelli; 
Fotografia: Leonida Barboni;
Elenco: Massimo Girotti (Juiz Guido Schiavi); Charles Vanel (Turi Passalacqua); Jone Salinas (Baronesa Teresa); Camillo Mastrocinque (Barão Lo Vastro); Saro Urzi (Policial Grifo); Umberto Spadaro (Advogado Faraglia); Nadia Niver (Bastianedda); Ignazio Balsamo (Francesco Messana); Carmelo Olivero (Dom Peppino); Nanda De Santis (Lorenzina La Scaniota); Turi Pandolfini (Don Fifi). 
Parece uma cena de filme de 'Western'? Sem dúvida. O gênero foi homenageado por Pietro Germi em seu clássico 'In Nome Della Legge'. A paisagem siciliana está intimamente relacionada a história que é contada no filme. Essa ligação entre paisagem e a trama é outra característica importante dos filmes Neo-Realistas. 

Links:

Festival de Cinema homenageia Pietro Germi:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,festival-de-cinema-italiano-no-mis-homenageia-o-ator-pietro-germi,1595541

'In Nome Della Legge': Neo-Realismo? (por Fernando Mascarello):

https://core.ac.uk/download/pdf/25531165.pdf

O Neo-Realismo Italiano:

http://diariocinefiloclasico.blogspot.com.br/2015/04/neorrealismo-italiano-1943-1952-italian.html

Vídeo - Trecho do Filme: 

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