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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Dashiell Hammett: o escritor que levou o crime à rua!

Dashiell Hammett: o escritor que levou o crime à rua - por Albano Matos, do DN Artes



Quando morreu, na manhã de 10 de Janeiro de 1961, Dashiell Hammett já não publicava um livro desde 1934. Era respeitado nos meios liberais americanos, por ter enfrentado as acusações de "conspirador vermelho" do comité McCarthy (o que lhe valeu seis meses na prisão a limpar latrinas). Os seus herdeiros na literatura americana consideravam-no o "pai"do moderno romance policial e tentavam seguir-lhe o exemplo.

A sua obra (cinco romances e dezenas de pequenas histórias que publicou na revista Black Mask) está a ser reavaliada em vários países. Em França, uma editora, a Omnibus, acaba de reunir as 65 novelas num só volume, Coups de Feu dans la Nuit.

A grande importância de Hammett deriva sobretudo do facto de ele ter levado o crime (e a literatura que dele fazia o seu elemento central) dos salões em que os autores clássicos do género o tinham encerrado para as ruas, onde ele realmente acontecia na vida real. Do vaso veneziano para as valetas - como descreveria, mais tarde, Raymond Chandler, o outro autor fundamental do género. Devolveu o assassínio ao tipo de pessoas que o cometem por um motivo e não apenas para providenciar um cadáver.

Eram os tempos dos gangsters, da lei seca, da corrupção desenfreada nas entidades oficiais e nas grandes corporações. Hammett procedia a uma anatomia social do crime, em que o assassínio e o cadáver (o primeiro de muitos) com que iniciava a narrativa eram, muitas vezes, apenas o pretexto para descrever uma sociedade violenta, cínica e sem esperança.

Cínicos e sem esperança eram os seus protagonistas: o detective da Continental, primeiro, Sam Spade, depois. Este, que seria encarnado no cinema por Humphrey Bogart, era um homem desencantado, que abusava do tabaco e do álcool, de poucas (e medidas) palavras, frio e duro. O tipo de características necessárias para enfrentar os poderosos com que tinha de lidar sempre que um cadáver lhe saía ao caminho. Violento também, mas com as marcas da violência sofrida também a marcar-lhe o rosto e o corpo. E um código de honra inabalável.

A escrita de Hammett tinha a mesma marca: frases secas e curtas, nada de adjectivos, nem de digressões poéticas, nem de desvios "literários". A prosa tão descarnada como a realidade desses tempos duros. Essa era, aliás, a característica que mais o distinguia de Raymond Chandler, que um dia aspirara a ser poeta e cujo protagonista - Philip Marlowe - se servia mais do humor (um humor sacrcástico, é verdade) que dos punhos. Curiosamente, ambos seriam interpretados no cinema por Humphrey Bogart, apesar de Chandler afirmar que o intérprete ideal de Marlowe era Cary Grant.

A secura e o desencanto seduziram gerações de autores e de leitores. A ponto de um dos mais importantes cultivadores do género nas últimas décadas, o espanhol Manuel Vázquez Montalbán, ter afirmado que "Dashiell Hammett é tão importante para a história da literatura americana como Hemingway ou Faulkner". Nem mais.

Link:
http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1753164&seccao=Livros&page=-1

Ross Macdonald: A saga do detetive Lew Archer!

A saga do detetive Lew Archer, de Ross Macdonald - por Renato Pompeu, do Diário do Comércio


Ross Macdonald: Um dos melhores escritors do romance policial. 
Os fãs em geral de literatura policial mista de ação e psicologia e em particular do detetive californiano Lew Archer, criação do escritor Ross Macdonald, pseudônimo literário do americano criado no Canadá Kenneth Millar (1911-1983), vão achar precioso o volume Os Arquivos de Archer, recém-publicado no Brasil pela Novo Século, que reúne contos publicados em vida de Macdonald e inéditos achados depois de sua morte. 

Archer se transformou em Lew Harper no filme Harper, com Paul Newman, pois o ator achava que nomes começados com a letra H davam sorte, e foi Lew Millar em uma série de televisão, além de propriamente Lew Archer em outras séries.

O nome Lew Archer é uma dupla homenagem a escritores que Macdonald apreciava: o Lew vem de Lew Wallace, criador do célebre personagem corredor de biga no antigo Império Romano, Ben-Hur. E o Archer lembra Miles Archer, sócio do detetive particular Sam Spade, este o principal personagem do famoso romance O Falcão Maltês, do escritor Dashiell Hammett. 
Como o próprio Macdonald, Archer é rebento de uma família californiana disfuncional, desfeita pelo abandono do pai e marido. No caso do detetive, isso o transforma num adolescente perturbado, que se torna um pequeno delinquente, mas é regenerado pela influência de um policial veterano. 

O próprio Archer se torna policial, em Long Beach, na Califórnia, mas se revolta com tanta corrupção que testemunha entre seus colegas e acaba sendo demitido. Na Segunda Guerra Mundial, serve como agente de contraespionagem do Exército dos Estados Unidos.
Tornado detetive particular, Archer atua nos chamados subúrbios em expansão então, nos anos 1950, no Sul da Califórnia, equivalentes aos chamados condomínios no Brasil, ou a bairros como Alphaville. 

Em termos de ficção policial, o criador Ross Macdonald e a criatura Lew Archer se inserem na longa transição efetuada a partir da primeira tradição do gênero, baseada no raciocínio lógico, dedutivo e indutivo, em que cérebros geniais como Sherlock Holmes, de Conan Doyle, e Hercule Poirot e Miss Marple, de Agatha Christie, deslindam tramas a partir de pistas, a tradição de textos literários policiais intelectualizados tipicamente ingleses, para a segunda tradição do gênero.
Nesta segunda tradição, com o gênero policial tornado tipicamente americano, o essencial são as ações físicas dos detetives durante suas investigações, particularmente procurando indivíduos desaparecidos ou objetos preciosos sumidos, muitas vezes envolvidos em lutas corporais violentas e em tiroteios. 

Tudo isso, porém, é finamente temperado por análises psicológicas mais ou menos profundas. Essa tradição foi iniciada por Dashiell Hammett e desenvolvida pelo famoso autor Raymond Chandler, em especial em seu personagem Philip Marlowe, que foi a primeira inspiração de Ross Macdonald.
Mas Lew Archer representa o ponto culminante dessa segunda corrente da literatura policial. Particularmente ele se caracteriza por se envolver em problemas das famílias que o procuram, normalmente para tentar localizar um filho ou uma filha que desapareceu e que talvez tenha morrido , possivelmente por assassínio. Archer muitas vezes descobre segredos de família que a grande maioria dos seus membros sequer sabia que existiam.
Como o próprio Archer, e como o próprio autor Macdonald, muitas vezes ele se depara, entre seus clientes, com famílias desajustadas pelo abandono de um cônjuge.
Depois de Lew Archer, a literatura policial americana passaria dessa fase "realista e psicológica", para uma fase "naturalista e brutal", que se especializaria em descrição nua e crua de cenas sanguinolentas ou de cadáveres muito machucados, como nos livros de Michaell Spillane. 

Em seguida viria a fase atual, mais visível nas séries de televisão, em que os antigos detetives particulares são substituídos pelas forças regulares da polícia, dando-se ênfase ao desenvolvimento tecnológico de seus laboratórios científicos e periciais tão avançados, e aos conflitos emocionais de investigadores, vítimas, assassinos e pessoas em volta.
Assim, se há pessoas nostálgicas da antiga fase intelectualizada da literatura policial, em que o principal é o raciocínio, há também pessoas que sentem saudades de detetives como Lew Archer, um homem de olhos azuis, triste, beberrão, sempre com saudades de sua ex-mulher Sue, e que bate perna em busca de pistas e de pessoas desaparecidas, que se envolve com os dramas sentimentais e familiares de seus clientes e do círculo de pessoas que os rodeia. 

Para esses leitores, Os Arquivos de Archer são um prato cheio.
Link:

Raymond Chandler: O Mestre do Romance Policial Noir!

RAYMOND CHANDLER - por Mayrant Gallo, do blog 'Infiltrados'



Se Dashiel Hammett criou o relato policial noir, foi no entanto Raymond Chandler quem lhe conferiu prestígio literário e artístico. 

Mesmo os leitores que não apreciam a literatura policial respeitam-no, como respeitam Georges Simenon, Patricia Highsmith, James M. Cain e David Goodis, autores que, apesar de sua opção pelo relato policial, não se limitaram às amarras do gênero. 

Como se cumprissem à risca uma hipotética cartilha ditada por Edgar Allan Poe ou Pablo Picasso, fizeram arte com a matéria que escolheram: impuseram-se um estilo, uma linguagem, uma dicção, de modo que, ao lermos o texto de um, sabemos que não estamos lendo o texto de nenhum outro. 

E não interessa se o entrecho policial é ou não é relevante; o que importa é como cada um desses escritores, a começar por Hammett, estrutura e molda suas histórias, e o efeito que extrai delas e que, durante a leitura, migra para a sensibilidade do leitor, que, assim, apreende um pouco mais da realidade à sua volta, sempre um enigma.

Nascido em Chicago em 1888, Raymond Chandler estudou na Inglaterra, França e Alemanha. Teve uma formação clássica, e isso muito colaborou para que ele deslocasse para o gênero policial uma linguagem que poderia, muito bem, estar a serviço de outro ramo da arte literária. 

Depois de saltar de uma para outra profissão (foi professor, revisor, soldado das forças canadense e britânica, contador, redator, executivo de uma empresa de petróleo e detetive particular, o que lhe conferiu larga experiência de vida e a desenvoltura necessária à sua representação realista do mundo), Chandler se estabeleceu na California, palco de seus contos e romances. 

Escreveu: O sono eterno (1939), O longo adeus (1953), Adeus minha adorada (1940), A irmãzinha (1949), A dama do lago (1943), Janela para a morte (1942), Playback (1958), dezenas de contos, espalhados por várias coletâneas, e Amor e morte em Poodle Springs, que deixou inacabado e foi concluído por Robert B. Parker. 

Também foi roteirista de Hollywood. Todos os seus romances foram levados ao cinema, tornando-se grandes clássicos do gênero noir.

Seu personagem Philip Marlowe, protagonista de seus romances, entrou para a galeria dos grandes detetives, ao lado do comissário Maigret, do padre Brown, de Sherlock Holmes, Hercule Poirot e Dupin.

Em 1956, com a morte da esposa, Chandler entregou-se ao álcool, o que certamente contribuiu para a sua morte, aos 71 anos, em 1959. Era, porém, um escritor admirado e respeitado, nos EUA e no mundo, e não apenas como autor de romances e contos policiais.

 




domingo, 29 de janeiro de 2012

Descobrindo David Goodis!

Descobrindo David Goodis - por Luiz Rebinski Junior, do Digestivo Cultural




Com certa frequência a literatura traz boas novas. De tempo em tempo dou de cara com determinados autores que não conhecia, me apaixono e entro com tudo na obra do escritor. Vou a sebos e livrarias, compro tudo que posso do autor e vou pra casa me entorpecer com a "descoberta". Isso aconteceu recentemente com Raymond Carver, Harry Kemelman e João Gilberto Noll.

Esse é um dos grandes baratos da literatura. Quando tudo parece monótono e repetitivo, de repente, sem ser avisado, você leva um soco no estômago. Um livro com quarenta, cinquenta anos te faz cair na real, te mostra como você é babaca por achar que não vai mais encontrar nada que te emocione e que faça você terminar logo suas atividades só pra voltar a um livro que ficou na metade. Isso é ótimo porque te deixa ciente da própria mediocridade e mostra a força da história da literatura. Mas também porque é um ótimo indício de que você ainda está vivo para a literatura, não se cansou dela e ainda se emociona, é capaz de se inebriar com um livro.

Isso tudo pra dizer que acabo de me apaixonar novamente. Desta vez por um autor norte-americano que fez fama escrevendo livrinhos noir sobre a decadência do trabalhador americano. David Goodis é o nome dele. Goodis ficou na sombra de nomes mais famosos do romance policial, como Raymond Chandler e Dashiel Hammett. Um lugar propício para um escritor que tinha como matéria-prima os vencidos que transitavam lentamente na escuridão dos portos, que se escondiam de seu destino na névoa viciante dos bares mais mal frequentados.

Na orelha de um de seus livros, Goodis revela como encarava a literatura: "No começo eu queria escrever de modo solene e só abordar os grandes problemas, mas logo aprendi que o problema mais importante era comer, então eu me conformei em escrever o que os editores queriam". E assim Goodis se tornou um escritor de revistas pulp, aqueles magazines baratos que faziam sucesso até a primeira metade do século XX nos Estados Unidos. 

Escrevia qualquer coisa que lhe rendesse dinheiro e assim se tornou, por um período, roteirista de Hollywood. Queria ser Hemingway, mas acabou tendo um fim mais parecido com o de Fitzgerald. Morreu em decorrência de ferimentos recebidos em uma briga de rua, aos 49 anos. Exatamente como os brigões e arruaceiros que engrossam o caldo de sua literatura.

Goodis escreveu contos e novelas, mas são os seus romances que lhe deram certa notoriedade. O mais conhecido deles, certamente, é Atire no pianista (L&PM, 2005, 224 págs.), que foi filmado por Truffaut em 1960. É, de longe, o filme mais experimental do mestre da Nouvelle Vague. Um filme muito parecido, por sinal, com a estreia de Godard, Acossado, que tem roteiro do próprio Truffaut. Em ambos os filmes a câmera corre rápido, há cortes abruptos e a narrativa não é linear. Truffaut, depois desse filme, nunca mais seria tão experimental no modo de filmar, deixou esse papel para o colega e, mais tarde, desafeto Godard.

No livro de Goodis, Eddie, um pianista de taverna, é envolvido em uma trama obscura quando resolve ajudar um irmão picareta a escapar de dois mafiosos. O livro começa com uma perseguição veloz e empolgante, com Turley, o irmão do pianista, sendo cassado como rato entre as caixas de cerveja do bar de Harriet, onde Eddie toca, pelos bandidões Morris e Feather.

Eddie, assim como vários outros personagens de Goodis, é um tipo de fracassado que já perdeu totalmente a esperança: tem um ar resignado que não lhe deixa fazer mais do que aquilo que já está acostumado. Não quer mais nada da vida, não espera compaixão, muito menos amor, de ninguém. Está plenamente satisfeito com sua condição, por pior que seja. 

Mas essa desesperança tem explicação. Eddie outrora era Edward Webster Lynn, um promissor concertista de Nova York que vê sua carreira desmoronar quando descobre que sua mulher, Teresa, vendeu o próprio corpo em troca de um contrato com um famoso agenciador de pianistas. A carreira de Edward deslancha com o contrato, mas sua vida acaba. A mulher, envergonhada com o que fez, comete suicídio. Edward então cai na vida, vira Eddie, o pianista de pocilgas, e tenta esquecer não só o passado, mas também o presente.

O mais incrível na literatura de Goodis é que ele consegue empreender uma linguagem poética mesmo sendo simples e bastante direto em seu texto, como no trecho em que narra o suicídio da mulher: "Edward fez meia-volta, atravessou a sala correndo, e entrou no dormitório. Teresa estava no parapeito da janela. Ele pulou para frente e tentou agarrá-la, mas nada havia para agarrar. Havia apenas o ar frio que entrava pela janela". 


Goodis se utiliza do passado negro de Eddie para dar mais credibilidade ao estoicismo do personagem. Eddie é um homem acabado, que não pensa muito antes de tomar uma decisão. Qualquer coisa que lhe aconteça será algo "inevitável".

Goodis usou recurso parecido em outro romance. Em A garota de Cassidy (L&PM, 2006, 224 págs.), o personagem central, Jim Cassidy, é um ex-piloto de avião que desiste da profissão e torna-se estivador após se envolver em um acidente aéreo. Mesmo não sendo culpado pelo acidente, é atormentado pela consciência e resolve fugir. Os personagens de Goodis estão quase sempre em fuga. Seja do passado ou do presente. E o melhor paliativo que encontram é a bebida. Os livros de Goodis são altamente alcoólicos, o uísque verte das páginas como uma fonte de água mineral.

Goodis é daqueles autores que não te deixam em paz até que você se liberte por completo dele. Para isso, é preciso chegar à última linha do livro. Li A garota de Cassidy em meio a uma gripe forte, daquelas que te deixam anuviado. Quando largava o livro e adormecia, era comum sonhar com Cassidy. Via-o em sua fuga, imaginava-o bebendo no Lundy's Place e me sentia deprimido quando despertava. Não sei se estou supervalorizando Goodis, só sei que a literatura dele me pegou em cheio, me atordoou.

Quando se procura sobre Goodis, é comum encontrar textos que o relacionam com Bukowski. Esqueça! Não há nada de similar. Personagens beberrões encontramos em toda literatura, não só na americana. Os personagens de Goodis têm uma força diferente dos de Bukowski. Suas personalidades são mais rijas, são pessoas intransponíveis, mesmo que façam parte da ala dos vencidos, dos fracos. Os personagens de Bukowski são muito mais caricatos, nos convencem de outra forma.

As tramas de Goodis também não seguem a cartilha de autores clássicos do romance policial. 

A trama, em seus livros, é importante, claro, há sempre aquele suspense pairando no ar, mas não é nunca um quebra-cabeça. A trama está sempre a serviço do personagem, nunca o contrário. Quando se termina um livro de Goodis, lembramos de Cassidy, Eddie ou Hart, o personagem de Sexta-feira negra. A história vem acoplada ao personagem. Por isso que o adjetivo "noir" é muito mais apropriado do que o termo "policial" quando se fala em David Goodis. As tramas do escritor são mais muito mais negras do que policialescas.

David Goodis escreveu dezenove livros. Apenas quatro foram publicados por aqui (Atire no pianista, A lua na sarjeta, A garota de Cassidy e Sexta-feira negra), todos pela L&PM. Em um país em que Henry Chinaski se deu tão bem, os beberrões malditos de Goodis certamente mereciam melhor sorte.

 
Para ir além








Curitiba, 24/3/2010

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Romance Policial Noir deixa um 'longo rastro de sangue no meio literário'!

Um Longo Rastro de Sangue No Meio Literário  - por Douglas Cometti, do Scream $ Yell, 10/06/2003, 



Mesmo com um começo modesto, em revistas feitas do mais vagabundo papel, o romance policial cresceu e se firmou como um dos mais populares gêneros literários do século XX e, ao que tudo indica, vai atravessar o próximo século da mesma forma que passou pelo primeiro, enfrentando de bandidos sádicos e inescrupulosos a críticos e intelectuais que insistem e em tratá-lo como subproduto cultural.
 
Surgido no começo do século XX, o romance policial ou, como muitos preferem, romance noir, sempre ocupou um lugar menor no meio literário. Considerado pela elite intelectual, desde seu surgimento, como lixo cultural, literatura barata, desprovida de elementos que levassem à reflexão do indivíduo, criada apenas para o consumo rápido e distração de pessoas "incultas", esse tipo de ficção, ainda hoje, perambula pelos guetos da história, lugar esse, aliás, que sempre lhe foi muito familiar.
 
Muitas vezes confundido com romance de espionagem, terror ou mistério e chamado genericamente de 'Pulp Fiction', o noir se difere dos demais gêneros graças a uma série de regras de estilo que, ao mesmo tempo, lhe impõe restrições e o tornam inconfundível. O escritor Marcos Reis, certa vez, definiu bem os limites do noir ao observar que basta se colocar o interesse de um país na trama para esta se tornar uma história de espionagem; se algo sobrenatural permeia a narrativa então temos uma história de mistério.



Quanto ao termo Pulp Fiction, este se refere mais ao tipo de papel usado para impressão de livros baratos, do que a um estilo propriamente dito, e ai entram até as açucaradas histórias de Sabrina e Julia. O tema tratado pelo noir é, invariavelmente, o mundo do crime, com seus guetos sujos, habitados por seres execráveis, detetives violentos e policiais decadentes, tipos femininos ambíguos, enfim, um apanhado de personagens imorais envolvidos em tramas complexas, num ambiente realista e sombrio.
 
Há quem defenda Conan Doyle como primeiro escritor policial da história. O criador de Sherlock Holmes, ao menos, definiu algumas diretrizes para o gênero, mas uma rápida comparação entre o pomposo detetive britânico e figuras como Sam Spade, de Dashiell Hammett e Philip Marlowe, de Raymond Chandler, nos mostra a distância entre esses personagens e os mundos, ou submundos, nos quais os mesmos atuavam. 

Sherlock Holmes era um aristocrata, extremamente inteligente e culto, que desvendava seus casos de forma sutil, mesmo em uma Londres sombria e misteriosa. 
 
Já o tipo de detetive que consolidou o noir possui características que estão mais para defeitos que qualidades, e são esses defeitos que os tornam atraentes ao público. Numa edição nacional de "O Falcão Maltês", publicada pela Editora Abril Cultural, em 1984, foi incluído o seguinte subtítulo: Sam Spade: um detetive durão e amoral. 

Isso nos da uma pista do tipo de personagem que vamos encontrar ao longo da história.
 
O gênero, tal como é conhecido hoje, teve, sua mais provável origem, com o escritor Dashiell Hammett. São dele os primeiros contos publicados a partir de 1922, pela revista "Black Mask", revista esta, que se tornou o principal veículo de divulgação do romance policial e abrigou, não só Hammett, mas uma considerável parcela de escritores que não encontravam lugar nas editoras da época. 

Os contos do detetive anônimo, que trabalhava para Continental Agency, baseada em San Francisco, foram os primeiros a se tornar conhecidos do público e dar origem à expressão “Hard-boiled”, utilizada por críticos para definir os tipos rudes criados pelo escritor.

Mais do que simples peculiaridade, a violência nos romances policiais estava ligada ao clima da época de seu surgimento, um pós-guerra, onde o crime organizado crescia a olhos vistos nas grandes cidades americanas. 

Também foi a violência, uma das responsáveis pela marginalização do gênero aos olhos da elite cultural daquele momento, e pelo seu sucesso entre as classes baixas. O início do noir vem na esteira da alfabetização em massa nos EUA e da popularização da imprensa. Isso, de certa forma, contribuiu para uma outra característica, grande parte das histórias policiais eram contos, originalmente publicados em revistas baratas, como a já citada Black Mask e posteriormente editados em livros.
 
Um dos feitos de Dashiel Hammet, que foi seguido à risca por seus predecessores, foi ter a percepção de criar personagens que gerasse identificação com o tipo médio americano.

Logo o que temos em suas histórias, são detetives particulares a beira do fracasso, duros e corroídos pelo tempo e pelas desventuras da profissão, quase alcoólatras e, geralmente, violentos, mas sempre conservando um certo charme e uma capacidade incrível de tomar para si o controle da situação, por mais adversa que fosse. 

Personagens assim eram sucesso garantido em uma sociedade machista, que tinha a figura masculina como mola propulsora para o progresso. Personagens com uma obstinação romântica pela justiça, incorruptíveis (nem sempre), sem uma formação erudita, mas pragmáticos, com experiência adquirida nas ruas.
 
Seguindo o raciocínio machista, o papel ocupado pelas mulheres nesse tipo de ficção  possui conotações diferentes, muitas vezes opostas, ao do tipo masculino. O estereotipo da fragilidade feminina é explorado ao máximo pelo gênero com nuances que vão da total inocência ao puro maquiavelismo, dando origem à figura da mulher fatal. Elas são o fio condutor de muitas histórias. Dois bons exemplos são "O Falcão Maltes" e "O Destino Bate à Sua Porta", clássicos irrefutáveis da literatura noir, onde as mulheres são as responsáveis pelas reviravoltas na trama e aparecem como o calcanhar de Aquiles dos protagonistas. 
 
Os escritores de romance policial também sempre se preocuparam com a forma como descreviam lugares e situações. Nada pode escapar ao leitor e, ao mesmo tempo, não é permitido devaneios ou pensamentos intermináveis. Tão importante quanto a trama, o ritmo da mesma define uma boa obra policial. Para completar, a criatividade e peculiaridade de cada escritor confere a originalidade de seus personagens, como maneira de falar, cacoetes, vícios e fraquezas. 



O uso da linguagem coloquial, com boa dose de gírias, é outra marca do noir.
 
Essa estrutura, na qual nasceu e se desenvolveu o romance policial, chamou a atenção dos estúdios de cinema americanos, que se deparavam com roteiros praticamente prontos. Em pouco tempo um novo nicho foi conquistado, das páginas de revistas vagabundas para o cinema, consolidando o gênero, mesmo que ainda visto de soslaio por muita gente. Ai brilharam figuras como o galã Humphrey Bogart e o esquisito Peter Lorre, este último feito sob medida para o romance policial devido sua origens no cinema expressionista alemão e ao seu tipo físico peculiar.
 
Desde de sua consolidação no começo do século XX, até os dias de hoje, a ficção policial passou por várias alterações em seu contexto, adequando-se a cada época e provando sua consistência e longevidade. A literatura noir ganhou admiradores e representantes de peso fora do eixo Estados Unidos – Inglaterra, sua fama de subgênero foi, até certo ponto, redimida e, ainda hoje, o policial desempenha um importante papel na tarefa de arrebanhar novos adeptos ao hábito da leitura. De Dashiell Hammett a James Ellroy muita coisa mudou, o mundo do crime mudou, os detetives mudaram, mas não sumiram. Seus principais cronistas também não.
 
*Imagem de abertura - Homenagem a Dashiel Hammet - Oléo sobre tela, 92 x 73 cm, 1982. (Miquél Vita)

Link:

http://www.screamyell.com.br/literatura/noir.htm