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domingo, 29 de janeiro de 2012

Descobrindo David Goodis!

Descobrindo David Goodis - por Luiz Rebinski Junior, do Digestivo Cultural




Com certa frequência a literatura traz boas novas. De tempo em tempo dou de cara com determinados autores que não conhecia, me apaixono e entro com tudo na obra do escritor. Vou a sebos e livrarias, compro tudo que posso do autor e vou pra casa me entorpecer com a "descoberta". Isso aconteceu recentemente com Raymond Carver, Harry Kemelman e João Gilberto Noll.

Esse é um dos grandes baratos da literatura. Quando tudo parece monótono e repetitivo, de repente, sem ser avisado, você leva um soco no estômago. Um livro com quarenta, cinquenta anos te faz cair na real, te mostra como você é babaca por achar que não vai mais encontrar nada que te emocione e que faça você terminar logo suas atividades só pra voltar a um livro que ficou na metade. Isso é ótimo porque te deixa ciente da própria mediocridade e mostra a força da história da literatura. Mas também porque é um ótimo indício de que você ainda está vivo para a literatura, não se cansou dela e ainda se emociona, é capaz de se inebriar com um livro.

Isso tudo pra dizer que acabo de me apaixonar novamente. Desta vez por um autor norte-americano que fez fama escrevendo livrinhos noir sobre a decadência do trabalhador americano. David Goodis é o nome dele. Goodis ficou na sombra de nomes mais famosos do romance policial, como Raymond Chandler e Dashiel Hammett. Um lugar propício para um escritor que tinha como matéria-prima os vencidos que transitavam lentamente na escuridão dos portos, que se escondiam de seu destino na névoa viciante dos bares mais mal frequentados.

Na orelha de um de seus livros, Goodis revela como encarava a literatura: "No começo eu queria escrever de modo solene e só abordar os grandes problemas, mas logo aprendi que o problema mais importante era comer, então eu me conformei em escrever o que os editores queriam". E assim Goodis se tornou um escritor de revistas pulp, aqueles magazines baratos que faziam sucesso até a primeira metade do século XX nos Estados Unidos. 

Escrevia qualquer coisa que lhe rendesse dinheiro e assim se tornou, por um período, roteirista de Hollywood. Queria ser Hemingway, mas acabou tendo um fim mais parecido com o de Fitzgerald. Morreu em decorrência de ferimentos recebidos em uma briga de rua, aos 49 anos. Exatamente como os brigões e arruaceiros que engrossam o caldo de sua literatura.

Goodis escreveu contos e novelas, mas são os seus romances que lhe deram certa notoriedade. O mais conhecido deles, certamente, é Atire no pianista (L&PM, 2005, 224 págs.), que foi filmado por Truffaut em 1960. É, de longe, o filme mais experimental do mestre da Nouvelle Vague. Um filme muito parecido, por sinal, com a estreia de Godard, Acossado, que tem roteiro do próprio Truffaut. Em ambos os filmes a câmera corre rápido, há cortes abruptos e a narrativa não é linear. Truffaut, depois desse filme, nunca mais seria tão experimental no modo de filmar, deixou esse papel para o colega e, mais tarde, desafeto Godard.

No livro de Goodis, Eddie, um pianista de taverna, é envolvido em uma trama obscura quando resolve ajudar um irmão picareta a escapar de dois mafiosos. O livro começa com uma perseguição veloz e empolgante, com Turley, o irmão do pianista, sendo cassado como rato entre as caixas de cerveja do bar de Harriet, onde Eddie toca, pelos bandidões Morris e Feather.

Eddie, assim como vários outros personagens de Goodis, é um tipo de fracassado que já perdeu totalmente a esperança: tem um ar resignado que não lhe deixa fazer mais do que aquilo que já está acostumado. Não quer mais nada da vida, não espera compaixão, muito menos amor, de ninguém. Está plenamente satisfeito com sua condição, por pior que seja. 

Mas essa desesperança tem explicação. Eddie outrora era Edward Webster Lynn, um promissor concertista de Nova York que vê sua carreira desmoronar quando descobre que sua mulher, Teresa, vendeu o próprio corpo em troca de um contrato com um famoso agenciador de pianistas. A carreira de Edward deslancha com o contrato, mas sua vida acaba. A mulher, envergonhada com o que fez, comete suicídio. Edward então cai na vida, vira Eddie, o pianista de pocilgas, e tenta esquecer não só o passado, mas também o presente.

O mais incrível na literatura de Goodis é que ele consegue empreender uma linguagem poética mesmo sendo simples e bastante direto em seu texto, como no trecho em que narra o suicídio da mulher: "Edward fez meia-volta, atravessou a sala correndo, e entrou no dormitório. Teresa estava no parapeito da janela. Ele pulou para frente e tentou agarrá-la, mas nada havia para agarrar. Havia apenas o ar frio que entrava pela janela". 


Goodis se utiliza do passado negro de Eddie para dar mais credibilidade ao estoicismo do personagem. Eddie é um homem acabado, que não pensa muito antes de tomar uma decisão. Qualquer coisa que lhe aconteça será algo "inevitável".

Goodis usou recurso parecido em outro romance. Em A garota de Cassidy (L&PM, 2006, 224 págs.), o personagem central, Jim Cassidy, é um ex-piloto de avião que desiste da profissão e torna-se estivador após se envolver em um acidente aéreo. Mesmo não sendo culpado pelo acidente, é atormentado pela consciência e resolve fugir. Os personagens de Goodis estão quase sempre em fuga. Seja do passado ou do presente. E o melhor paliativo que encontram é a bebida. Os livros de Goodis são altamente alcoólicos, o uísque verte das páginas como uma fonte de água mineral.

Goodis é daqueles autores que não te deixam em paz até que você se liberte por completo dele. Para isso, é preciso chegar à última linha do livro. Li A garota de Cassidy em meio a uma gripe forte, daquelas que te deixam anuviado. Quando largava o livro e adormecia, era comum sonhar com Cassidy. Via-o em sua fuga, imaginava-o bebendo no Lundy's Place e me sentia deprimido quando despertava. Não sei se estou supervalorizando Goodis, só sei que a literatura dele me pegou em cheio, me atordoou.

Quando se procura sobre Goodis, é comum encontrar textos que o relacionam com Bukowski. Esqueça! Não há nada de similar. Personagens beberrões encontramos em toda literatura, não só na americana. Os personagens de Goodis têm uma força diferente dos de Bukowski. Suas personalidades são mais rijas, são pessoas intransponíveis, mesmo que façam parte da ala dos vencidos, dos fracos. Os personagens de Bukowski são muito mais caricatos, nos convencem de outra forma.

As tramas de Goodis também não seguem a cartilha de autores clássicos do romance policial. 

A trama, em seus livros, é importante, claro, há sempre aquele suspense pairando no ar, mas não é nunca um quebra-cabeça. A trama está sempre a serviço do personagem, nunca o contrário. Quando se termina um livro de Goodis, lembramos de Cassidy, Eddie ou Hart, o personagem de Sexta-feira negra. A história vem acoplada ao personagem. Por isso que o adjetivo "noir" é muito mais apropriado do que o termo "policial" quando se fala em David Goodis. As tramas do escritor são mais muito mais negras do que policialescas.

David Goodis escreveu dezenove livros. Apenas quatro foram publicados por aqui (Atire no pianista, A lua na sarjeta, A garota de Cassidy e Sexta-feira negra), todos pela L&PM. Em um país em que Henry Chinaski se deu tão bem, os beberrões malditos de Goodis certamente mereciam melhor sorte.

 
Para ir além








Curitiba, 24/3/2010

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Romance Policial Noir deixa um 'longo rastro de sangue no meio literário'!

Um Longo Rastro de Sangue No Meio Literário  - por Douglas Cometti, do Scream $ Yell, 10/06/2003, 



Mesmo com um começo modesto, em revistas feitas do mais vagabundo papel, o romance policial cresceu e se firmou como um dos mais populares gêneros literários do século XX e, ao que tudo indica, vai atravessar o próximo século da mesma forma que passou pelo primeiro, enfrentando de bandidos sádicos e inescrupulosos a críticos e intelectuais que insistem e em tratá-lo como subproduto cultural.
 
Surgido no começo do século XX, o romance policial ou, como muitos preferem, romance noir, sempre ocupou um lugar menor no meio literário. Considerado pela elite intelectual, desde seu surgimento, como lixo cultural, literatura barata, desprovida de elementos que levassem à reflexão do indivíduo, criada apenas para o consumo rápido e distração de pessoas "incultas", esse tipo de ficção, ainda hoje, perambula pelos guetos da história, lugar esse, aliás, que sempre lhe foi muito familiar.
 
Muitas vezes confundido com romance de espionagem, terror ou mistério e chamado genericamente de 'Pulp Fiction', o noir se difere dos demais gêneros graças a uma série de regras de estilo que, ao mesmo tempo, lhe impõe restrições e o tornam inconfundível. O escritor Marcos Reis, certa vez, definiu bem os limites do noir ao observar que basta se colocar o interesse de um país na trama para esta se tornar uma história de espionagem; se algo sobrenatural permeia a narrativa então temos uma história de mistério.



Quanto ao termo Pulp Fiction, este se refere mais ao tipo de papel usado para impressão de livros baratos, do que a um estilo propriamente dito, e ai entram até as açucaradas histórias de Sabrina e Julia. O tema tratado pelo noir é, invariavelmente, o mundo do crime, com seus guetos sujos, habitados por seres execráveis, detetives violentos e policiais decadentes, tipos femininos ambíguos, enfim, um apanhado de personagens imorais envolvidos em tramas complexas, num ambiente realista e sombrio.
 
Há quem defenda Conan Doyle como primeiro escritor policial da história. O criador de Sherlock Holmes, ao menos, definiu algumas diretrizes para o gênero, mas uma rápida comparação entre o pomposo detetive britânico e figuras como Sam Spade, de Dashiell Hammett e Philip Marlowe, de Raymond Chandler, nos mostra a distância entre esses personagens e os mundos, ou submundos, nos quais os mesmos atuavam. 

Sherlock Holmes era um aristocrata, extremamente inteligente e culto, que desvendava seus casos de forma sutil, mesmo em uma Londres sombria e misteriosa. 
 
Já o tipo de detetive que consolidou o noir possui características que estão mais para defeitos que qualidades, e são esses defeitos que os tornam atraentes ao público. Numa edição nacional de "O Falcão Maltês", publicada pela Editora Abril Cultural, em 1984, foi incluído o seguinte subtítulo: Sam Spade: um detetive durão e amoral. 

Isso nos da uma pista do tipo de personagem que vamos encontrar ao longo da história.
 
O gênero, tal como é conhecido hoje, teve, sua mais provável origem, com o escritor Dashiell Hammett. São dele os primeiros contos publicados a partir de 1922, pela revista "Black Mask", revista esta, que se tornou o principal veículo de divulgação do romance policial e abrigou, não só Hammett, mas uma considerável parcela de escritores que não encontravam lugar nas editoras da época. 

Os contos do detetive anônimo, que trabalhava para Continental Agency, baseada em San Francisco, foram os primeiros a se tornar conhecidos do público e dar origem à expressão “Hard-boiled”, utilizada por críticos para definir os tipos rudes criados pelo escritor.

Mais do que simples peculiaridade, a violência nos romances policiais estava ligada ao clima da época de seu surgimento, um pós-guerra, onde o crime organizado crescia a olhos vistos nas grandes cidades americanas. 

Também foi a violência, uma das responsáveis pela marginalização do gênero aos olhos da elite cultural daquele momento, e pelo seu sucesso entre as classes baixas. O início do noir vem na esteira da alfabetização em massa nos EUA e da popularização da imprensa. Isso, de certa forma, contribuiu para uma outra característica, grande parte das histórias policiais eram contos, originalmente publicados em revistas baratas, como a já citada Black Mask e posteriormente editados em livros.
 
Um dos feitos de Dashiel Hammet, que foi seguido à risca por seus predecessores, foi ter a percepção de criar personagens que gerasse identificação com o tipo médio americano.

Logo o que temos em suas histórias, são detetives particulares a beira do fracasso, duros e corroídos pelo tempo e pelas desventuras da profissão, quase alcoólatras e, geralmente, violentos, mas sempre conservando um certo charme e uma capacidade incrível de tomar para si o controle da situação, por mais adversa que fosse. 

Personagens assim eram sucesso garantido em uma sociedade machista, que tinha a figura masculina como mola propulsora para o progresso. Personagens com uma obstinação romântica pela justiça, incorruptíveis (nem sempre), sem uma formação erudita, mas pragmáticos, com experiência adquirida nas ruas.
 
Seguindo o raciocínio machista, o papel ocupado pelas mulheres nesse tipo de ficção  possui conotações diferentes, muitas vezes opostas, ao do tipo masculino. O estereotipo da fragilidade feminina é explorado ao máximo pelo gênero com nuances que vão da total inocência ao puro maquiavelismo, dando origem à figura da mulher fatal. Elas são o fio condutor de muitas histórias. Dois bons exemplos são "O Falcão Maltes" e "O Destino Bate à Sua Porta", clássicos irrefutáveis da literatura noir, onde as mulheres são as responsáveis pelas reviravoltas na trama e aparecem como o calcanhar de Aquiles dos protagonistas. 
 
Os escritores de romance policial também sempre se preocuparam com a forma como descreviam lugares e situações. Nada pode escapar ao leitor e, ao mesmo tempo, não é permitido devaneios ou pensamentos intermináveis. Tão importante quanto a trama, o ritmo da mesma define uma boa obra policial. Para completar, a criatividade e peculiaridade de cada escritor confere a originalidade de seus personagens, como maneira de falar, cacoetes, vícios e fraquezas. 



O uso da linguagem coloquial, com boa dose de gírias, é outra marca do noir.
 
Essa estrutura, na qual nasceu e se desenvolveu o romance policial, chamou a atenção dos estúdios de cinema americanos, que se deparavam com roteiros praticamente prontos. Em pouco tempo um novo nicho foi conquistado, das páginas de revistas vagabundas para o cinema, consolidando o gênero, mesmo que ainda visto de soslaio por muita gente. Ai brilharam figuras como o galã Humphrey Bogart e o esquisito Peter Lorre, este último feito sob medida para o romance policial devido sua origens no cinema expressionista alemão e ao seu tipo físico peculiar.
 
Desde de sua consolidação no começo do século XX, até os dias de hoje, a ficção policial passou por várias alterações em seu contexto, adequando-se a cada época e provando sua consistência e longevidade. A literatura noir ganhou admiradores e representantes de peso fora do eixo Estados Unidos – Inglaterra, sua fama de subgênero foi, até certo ponto, redimida e, ainda hoje, o policial desempenha um importante papel na tarefa de arrebanhar novos adeptos ao hábito da leitura. De Dashiell Hammett a James Ellroy muita coisa mudou, o mundo do crime mudou, os detetives mudaram, mas não sumiram. Seus principais cronistas também não.
 
*Imagem de abertura - Homenagem a Dashiel Hammet - Oléo sobre tela, 92 x 73 cm, 1982. (Miquél Vita)

Link:

http://www.screamyell.com.br/literatura/noir.htm