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sábado, 15 de abril de 2017

'Milagre em Milão': De Sica mostra o esgotamento da proposta original do Neo-Realismo e o triunfo do Liberalismo burguês na Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!

'Milagre em Milão': De Sica mostra o esgotamento da proposta original do Neo-Realismo e o triunfo do Liberalismo burguês na Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti! 
'Miracolo a Milano', de Vittorio De Sica, mostra que os valores burgueses passaram a predominar na Itália do Pós-Guerra. 
As origens do Neo-Realismo Cinematográfico Italiano!

O diretor deste ‘Milagre em Milão’, Vittorio De Sica, foi um dos criadores do Neo-Realismo italiano e junto com Roberto Rossellini e Luchino Visconti ele foi integrante de uma espécie de ‘Santíssima Trindade’ deste que foi um dos mais importantes e influentes ‘movimentos’ cinematográficos da história. 

Obs1: O roteirista Cesare Zavattini também é considerado uma das figuras centrais do Neo-Realismo, sendo o seu mais importante teórico.

O ponto de partida do Neo-Realismo foi o filme ‘Ossessione’ (que já foi comentado aqui no blog), uma produção de 1943, ou seja, ele foi realizado já nos estertores do regime Fascista de Mussolini, que foi derrubado em Julho de 1943, quando os Aliados (EUA e Grã-Bretanha) iniciaram a invasão da Itália. 

‘Ossessione’ foi dirigido por Luchino Visconti e se baseou em uma romance policial ‘Noir’ de autoria de James M. Cain (O Destino Bate à Sua Porta), embora isso não tenha sido informado pelo cineasta italiano, temeroso de ser censurado pelo regime fascista. 

Afinal, o romance de Cain era um retrato duro e pessimista da sociedade estadunidense da época da Grande Depressão e mostrava que a ascensão social não era possível naquele momento, a não ser por meio de atividades criminosas. 
Totó foi encontrado à beira de um rio, em meio à uma plantação de couves. Será que ele é um 'Moisés' moderno que levará os deserdados para a Terra Prometida? 
Inclusive, quando Vittorio Mussolini, o filho mais velho do Duce que era um entusiasta e apaixonado pelo Cinema, assistiu ‘Ossessione’ ele disse ‘Esta não é a Itália’, pois o filme mostrava um retrato muito realista da pobreza e do atraso da sociedade italiana do período. 

Em ‘Ossessione’, as mulheres italianas também foram retratadas de forma totalmente diferente da versão idealizada pelo Fascismo. No filme de Visconti elas tomavam a iniciativa, possuíam amantes, praticavam a prostituição, participavam de crimes e enfrentavam os homens sem medo algum e de forma pública. 

Nos anos seguintes à produção de ‘Ossessione’ tivemos a realização de uma série de filmes Neo-Realistas, que se tornaram verdadeiros clássicos do Cinema italiano e mundial, tais como ‘Roma, Cidade Aberta’ e ‘Alemanha, Ano Zero’ (ambos de Roberto Rossellini), ‘Ladrões de Bicicleta’ e ‘Vítimas da Tormenta’ (de Vittorio de Sica), ‘A Terra Treme’ (Luchino Visconti), ‘O Caminho da Esperança’ (Pietro Germi) e ‘Arroz Amargo’ (Giuseppe De Santis). 

É bom ressaltar que o Neo-Realismo se desenvolveu devido à existência de um ambiente político e social altamente favorável, quando a Itália possuía um governo de ‘União Nacional’. 
Totó, logo depois de ter saído do orfanato, onde ficou por vários anos, após a morte de Lolotta. 
Este era formado pelos representantes dos vários segmentos políticos e sociais que lutaram contra o Nazi-Fascismo (liberais, conservadores, democrata-cristãos, socialistas, comunistas). 

Neste momento, existiam muitas esperanças de que a Itália pudesse caminhar na direção de algum tipo de Socialismo, pois os partidos Socialista e Comunista, somados, conquistaram 40% dos votos na primeira eleição democrática que foi realizada no país, em 1946. 

Com isso, os cineastas do país desfrutaram de ampla liberdade criativa e puderam mostrar, em seus filmes, a realidade de pobreza, miséria, fome, exploração, desemprego, criminalidade e desigualdades sociais que caracterizavam a Itália do imediato Pós-Guerra.

Mas a partir de 1948 o cenário político e cultural europeu e italiano passou por grandes mudanças, que representaram um claro retrocesso em relação à situação imediatamente anterior, pois tivemos o início da Guerra Fria entre EUA e URSS. 
Desta maneira, os governos de ‘União Nacional’ que existiam em vários países (Itália, França, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia) chegaram ao fim. 
A comunidade que os sem teto construíram em um terreno abandonado da periferia de Milão.
Nos países do Leste Europeu tivemos a subida ao poder de governantes ligados aos interesses da URSS stalinista, enquanto que no Ocidente tivemos a ascensão de governos conservadores e direitistas, inteiramente comprometidos com os interesses dos EUA. Isso resultou na divisão da Europa no Pós-Guerra em dois blocos: Capitalista, liderado pelos EUA; Socialista, liderado pela URSS.

Tal fenômeno aconteceu mesmo que na França os Socialistas e Comunistas somassem, juntos, mais de 50% dos votos e na Itália esse percentual dos dois partidos chegasse a 40%. 

No entanto, em 1948, na Itália, uma nova eleição deu ao PDC (Partido Democrata-Cristão) uma grande votação (48,5%), obtida graças ao apoio maciço da Igreja Católica, da Máfia, da Burguesia italiana (industriais, banqueiros, latifundiários) e do governo dos EUA (incluindo a CIA, que injetou milhões de dólares na campanha da PDC).

E o novo governo conservador do PDC passou a criticar e a censurar os filmes Neo-Realistas, afirmando que os mesmos mostravam uma imagem muito negativa da Itália. Inclusive, censores a serviço da Igreja Católica passaram a controlar a produção cinematográfica italiana, desestimulando a produção de filmes Neo-Realistas.
Totó tenta ensinar algo para a miserável população da comunidade, que os sem teto criaram, até mesmo na hora de dar nome às 'ruas'.
Para o governo do PDC os filmes Neo-Realistas eram obra de cineastas ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), o que é apenas parcialmente verdadeiro. Afinal, vários diretores ligados ao Neo-Realismo nunca tiveram qualquer conexão com os Comunistas italianos (casos de Roberto Rossellini e de Pietro Germi). 

Até mesmo o clássico ‘Ladrões de Bicicleta’ chegou a ter o seu visto de exportação negado pelo conservador governo italiano. Mesmo assim ele chegou a fazer muito sucesso no exterior e conquistou o Oscar de Melhor Filme estrangeiro em 1951. 

Para tirar espaço dos filmes Neo-Realistas, o governo do PDC também estimulou a importação de filmes de Hollywood, que mostravam uma visão idealizada da realidade, e não exigia que um percentual mínimo de filmes italianos fosse exibido nas salas comerciais, tal como determinava a lei da época.

É neste contexto que os cineastas ligados ao Neo-Realismo passaram a realizar filmes com um teor de crítica social mais ameno, passando a se utilizar do humor, da comédia, ou explorando a beleza física de atrizes como Silvana Mangano (‘Arroz Amargo’) e Lucia Bosé ‘(Páscoa de Sangue) em suas produções. Estes dois filmes, aliás, foram dirigidos por Giuseppe De Santis, um dos criadores do Neo-Realismo. 
Totó organiza a vida da população na comunidade dos sem teto. 
Essa nova postura dos cineastas Neo-Realistas deu origem ao que se convencionou chamar de ‘Neo-Realismo Rosa’, que gerou filmes que combinavam a comédia com uma crítica social mais amena. Um ótimo exemplo disso é ‘Le Ragazze di Piazza di Spagna’, de Luciano Emmer (que já foi comentado aqui no blog).

A trama do filme!

E até mesmo cineastas como Vittorio De Sica passaram a fazer isso, o que se comprova por este ótimo ‘Milagre em Milão’. A história do filme gira em torno de um conflito envolvendo a posse de uma propriedade na periferia de Milão, na qual se descobriu água e petróleo. 

A propriedade havia sido ocupada por algumas centenas de miseráveis sem teto que são liderados por um jovem bom e ingênuo chamado Totó. 

Este gostava de dar ‘Bom Dia’ para cumprimentar a todos, incluindo pessoas que ele não conhecia, sendo que era considerado um ‘retardado’ em função disso.

Totó havia sido encontrado, ainda bebê, por uma mulher idosa em meio a sua plantação de couve (qualquer referência a Moisés não é mera coincidência). Ela cuidou dele, que se tornou uma criança amável, mas morreu quando ele ainda era muito novo. Com isso, Totó foi levado a um orfanato, de onde saiu quando completou 18 anos. 
Totó ajuda as pessoas, de todas as maneiras. Seu espírito solidário contagia os moradores. 
Ele sai com uma pequena maleta e uns poucos objetos, mas ela é furtada por um morador miserável das redondezas. Totó o persegue e concorda em lhe dar a maleta, tornando-se amigo do pobre ladrão. Este o convida para morar em seu barraco. E junto com outros miseráveis eles vão ocupar uma propriedade abandonada, onde criam a sua comunidade. 

Totó tenta organizar o local, dando nome às ruas (cujos nomes têm um caráter educativo) e determinando onde cada um iria morar. 

Os moradores do local criam um forte senso de coletividade, lutando e colaborando entre si, com a exceção de apenas um morador, que age de forma individualista e que considera os moradores dali como sendo um bando de vagabundos. Mas, apesar disso, ali temos todos os tipos de pessoas: generosas, arrogantes, ambiciosas. 

Enquanto isso, Totó procura ajudar a todos, tentando amenizar o sofrimento dos seus moradores e procurando espalhar otimismo e esperança entre eles. Ele consegue impedir, inclusive, que um dos moradores chegue a cometer suicídio.

Porém, ao descobrirem água e, depois, petróleo na localidade, isso acaba por atiçar o interesse do Sr. Mobbi, um rico capitalista da cidade, que acaba comprando a propriedade. 
O capitalista comanda a força policial que tenta expulsar os sem teto do terreno que ocupam. Qualquer semelhança com a situação atual não é mera coincidência. 
Em sua primeira visita ao local, o capitalista Mobbi se compromete a manter os moradores no lugar, agindo como se fosse igual aos mesmos. Afinal, todos eles possuem cinco dedos, não importando se eles são ricos ou pobres.

Porém, não muito tempo depois, o mesmo Mobbi decide pedir ao governo que expulse os moradores da propriedade. E a Polícia se mobiliza para isso. Totó e uma comissão de moradores vai conversar com Mobbi, que os trata muito bem e os convence de que eles irão continuar morando no mesmo lugar. Mas enquanto conversa com os mesmos, a Polícia já está sendo mobilizada para expulsar os sem teto da propriedade. 

Assim, quando chegam à propriedade, Totó e os demais percebem que foram enganados por Mobbi, que manda a Polícia reprimir e expulsar os sem teto do local. Afinal, no Capitalismo, o Estado está a serviço da Burguesia, certo?

Mesmo assim, os moradores decidem enfrentar a Polícia, que arremessa bombas de gás e joga água sobre os sem-teto.

Obs2: Qualquer semelhança com as operações de retirada de moradores sem-teto nas cidades brasileiras não é mera coincidência, embora no Brasil as ações de despejo sejam bem mais brutais e violentas do que essa que é mostrada em ‘Milagre em Milão’.
A falecida mãe de Totó entrega uma 'pomba mágica' para o mesmo. E essa 'pomba' transformará em realidade os desejos dos sem teto.
Neste momento, os moradores recebem uma inesperada ajuda espiritual, vinda da falecida mãe adotiva de Totó. Ela entrega uma espécie de ‘Pomba Mágica’ para Totó, sendo que a mesma tem o poder de atender a todos os desejos do jovem. 

Assim, quando a Polícia joga água nos moradores, Totó pede por guarda-chuvas e todos ali passam a possuir os mesmos. Ele também usa deste poder para transformar um Policial em General, fazendo com que este desistisse de obrigar os moradores a sair da propriedade. Quando os oficiais tentam ordenar um ataque contra os moradores, Totó faz com que eles cantem com uma voz bem aguda, expondo os mesmos ao ridículo.

Quando os sem teto percebem quais são os poderes de Totó, no entanto, eles demonstram possuir apenas preocupações de caráter individualista, pensando apenas em seus desejos e necessidades estritamente pessoais e de caráter material. 

Desta maneira, uma moradora pede por belas roupas, outros querem ficar milionários (ou seja, virar capitalistas) e pedem milhões de Liras, outro pede para aumentar de tamanho, outros pedem por eletrodomésticos (uma enceradeira, por exemplo, embora o piso dos barracos seja de madeira ou terra). 

Assim, nenhum dos sem teto pensa em pedir um título de propriedade que os transformasse em donos do local. Nenhum dos seus pedidos é feito pensando nos interesses da comunidade. 
Quando a Polícia joga água sobre os moradores, Totó usa a 'pomba mágica' para dar guarda-chuvas para todos. 
Esta foi uma maneira que Vittorio De Sica encontrou de mostrar que embora os sem teto estejam lutando coletivamente, eles possuem uma mentalidade individualista, tipicamente capitalista. 

Logo, eles são trabalhadores miseráveis, mas já assimilaram as ideias, os valores e o comportamento da Burguesia, pensando apenas em seus próprios interesses. Eles deixaram de pensar e de agir coletivamente. 

O Capitalismo triunfou e o Socialismo fracassou, pelo menos na Itália, essa é a mensagem deste belo e clássico filme de Vittorio De Sica. 

Outra interpretação para isso, talvez seja que esta foi uma maneira que De Sica usou para criticar o fato de que, após 1947, o público italiano não se interessava mais em assistir às produções Neo-Realistas, preferindo assistir aos filmes de Hollywood, que atraíam um público imenso para as salas de cinema. E com isso os valores capitalistas e individualistas do ‘American Way of Life’ acabaram se impondo na Itália. 

Afinal, como diziam Lênin e Mussolini, ‘o Cinema é a arte mais forte’ e poderia influenciar o modo de pensar e de agir das pessoas, ainda mais numa época em que a Televisão ainda não existia (período Entreguerras) ou estava engatinhando (Pós-Guerra).  
O policial tenta dar a ordem de ataque, mas não consegue, pois Totó usou a 'pomba mágica' para fazê-lo cantar.
Enquanto isso, os locais que ainda exibiam os filmes Neo-Realistas ficavam às moscas, sendo frequentados por um pequeno numero de pessoas, pois os mesmos insistiam em mostrar a realidade miserável e os problemas da Itália daquela época, o que era condenado pelo governo conservador do PDC. Um dos principais líderes da Democracia-Cristã chegou a dizer que 'roupa suja se lava em casa', como uma forma de condenar os filmes Neorrealistas. 

Já as produções de Hollywood mostravam um mundo de luxo e fantasia, a vida dos ricos, tal como acontecia na era fascista, que produziu um grande número de filmes do estilo chamado de ‘Telefone Bianchi’ (telefone branco, que era a cor dos telefones da burguesia italiana). 

Assim, passou a existir um total contraste entre as produções Neo-Realistas e o gosto dominante do povo italiano, ocorrendo uma verdadeira ruptura entre eles. E é justamente isso que parece ter sido objeto de crítica por parte de Vittorio De Sica nesta produção. 

É como se, em ‘Milagre em Milão’, De Sica estivesse antecipando, em algumas décadas, aquela famosa frase do carnavalesco Joãozinho Trinta: ‘O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual’. 

Essa mudança no gosto do público italiano, que abandonou os filmes Neo-Realistas, junto com a política de censura e perseguição que estes passaram a sofrer, mostram que o projeto Neo-Realista de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, ou seja, Socialista, acabou fracassando. 
Quando os sem teto se reúnem para fazer pedidos para Totó, eles somente pedem  coisas para eles mesmos. Ninguém pensa no interesse coletivo. Essa é a forma que De Sica encontrou para mostrar que os valores individuais já tinham se tornado dominantes na Itália.  
Logo, junto com a derrota política e eleitoral dos Socialistas e, em especial, dos Comunistas (PCI), tivemos o esvaziamento e o esgotamento do Neo-Realismo. Afinal, havia uma forte conexão entre ambos (PCI e Neo-Realismo). 

E isso abriu caminho para o surgimento do ‘Neo-Realismo Rosa’ e para produções que até mostravam a exploração e a pobreza existentes na Itália, mas que valorizavam o humor e ou exaltavam muito mais a beleza das atrizes do que os problemas sociais da Itália, como já foi comentado aqui. 

Em ‘Milagro em Milão’, De Sica acabou também por sugerir que dentro dos estreitos limites do Capitalismo Liberal que se impõem ao país a partir de 1948 simplesmente não haveria soluções para os principais problemas que afetavam o povo italiano. Tal ideia também estará presente em seu filme posterior, o belíssimo ‘Umberto D’. 

As soluções, portanto, somente poderiam vir do Céu, de algum poder Divino. Mesmo assim, De Sica finaliza o seu filme com uma mensagem de esperança, o que é uma característica marcante da sua obra. 

Obs3: Quando vemos os sem teto viajando em direção ao Céu, em vassouras, vemos de onde Spielberg tirou aquela famosa cena do filme ‘E.T.’, que foi um dos seus maiores sucessos. 
Os sem teto viajam, em suas vassouras, rumo ao Céu. Qualquer semelhança com a cena de 'E.T', de Spielberg, não é mera coincidência. 
Informações Adicionais!

Título: ‘Milagro a Milano’ (Milagre em Milão);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Mario Chiari, Adolfo Franci, Suso Cecchi D'Amico; Baseado em livro de Cesare Zavattini; 
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1950;
Gênero: Comédia Dramática; Duração: 97 minutos;
Fotografia: G.R. Aldo;
Música: Alessandro Cicognini; 
Elenco: Francesco Golisano (Totó); Paolo Stoppa (Rappi); Guglielmo Barnabò (Mobbi); Emma Grammatica (Lolotta, mãe adotiva de Totó); Brunella Bobo (Edvige); Arturo Bragaglia (Alfredo); Erminio Spalla (Gaetano).
Prêmios: Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1951. 

Vídeo - Trecho do filme:



sábado, 10 de setembro de 2016

'La Romana' mistura Neo-Realismo, Policial Noir e Existencialismo para mostrar as fraquezas humanas na época da Itália fascista! - Marcos Doniseti!

'La Romana' mistura Neo-Realismo, Policial Noir e Existencialismo para mostrar as fraquezas humanas na época da Itália fascista! - Marcos Doniseti!
Poster de 'La Romana', um belo filme de Luigi Zampa, diretor que começou como um cineasta Neo-Realista, mas que acompanhou as mudanças pelas quais a Itália passou no Pós-Guerra e incluiu elementos existencialistas em sua obra. 
'La Romana' e as suas características principais!

Este belo filme de Luigi Zampa é baseado no romance 'La Romana', de Alberto Moravia, escritor cujas obras foram levadas em grande numero às telas do Cinema. 

Neste filme, percebe-se claramente a influência do Neo-Realismo, pois as desigualdades sociais, a pobreza, as injustiças e a impossibilidade de ascender social e economicamente por meio do trabalho honesto estão presentes no mesmo. O filme de Luigi Zampa também tem uma história que envolve situações de crime e mistério, bem como uma trilha sonora e uma fotografia que são típicas de um filme Policial Noir, cuja influência é bem nítida. 

Além disso, o filme também mostra o lado interior dos personagens, com suas angústias, tristezas, sentimentos de melancolia e desejos insatisfeitos, possuindo claros elementos existencialistas. Este é um fenômeno que estava se tornando comum no cinema italiano do período (década de 1950). 

Vários cineastas começaram a se afastar do Neo-Realismo, que foi a escola cinematográfica na qual quase todo os cineastas italianos do Pós-Guerra se formou, e a introduzir em seus filmes aspectos existencialistas, voltado para ilustrar o interior dos personagens, mostrando seus sentimentos, emoções, angústias e desejos. 
 A mãe de Adriana quer usar a beleza da filha para sair da pobreza na qual vivem, mas ela não contava com o que estava por vir. 
Um exemplo disso foi Michelangelo Antonioni. Seu filme 'Il Grido' ('O Grito', 1957) também fez uso desta mistura de elementos distintos, neo-realistas e existencialistas. Esta mudança que ocorreu no Cinema italiano dos anos 1950 se deu em função de um certo esgotamento da fórmula Neo-Realista, mas também ocorreu porque a sociedade italiana estava passando por mudanças. 

A partir da metade dos anos 1950 começou um processo de crescimento econômico que foi, progressivamente, reduzindo a pobreza e a miséria no país. E a década de 1960, em especial, ficou conhecida como a época do 'milagre econômico' italiano. E tais mudanças acabaram se refletindo na produção cinematográfica italiana do período. 

Os protagonistas do filme são símbolos de poder (Astarita), mentira (Gino), violência (Sonzogno), fraqueza moral (Gino), materialismo (Gisella). E a violência, o militarismo, a imoralidade e o autoritarismo do regime fascista também estão presentes. No filme vemos que quem se opõe ao Fascismo é perseguido, preso e torturado, a oposição é proibida, tudo é censurado, fazer política é, como diz Adriana (interpretada pela bela e sensual Gina Lollobrigida), muito perigoso. 

O clima do filme é sombrio, nebuloso, Noir, e as cenas de uma Roma nublada, noturna, chuvosa reforçam esses elementos deste clássico filme de Luigi Zampa.
A bela Gina Lollobrigida foi uma das atrizes de maior sucesso do cinema italiano e europeu no Pós-Guerra. 
A trama do filme!

No filme, vemos que a mãe de Adriana, cansada de viver na pobreza e desolada por ver que a filha tomou um caminho que não desejava, acaba entrando em crise e passa a não ter mais qualquer vontade de continuar vivendo. Mas, de certa maneira, ela é responsável pelo rumo que a vida da filha tomou, na medida em que estimulou a mesma a viver em função de sua beleza. E foi isso que Adriana fez. 

A história do filme é contada por Adriana Silenzi e se desenvolve na Itália, em 1935, durante o regime fascista de Mussolini. Adriana é a personagem central do filme e mora junto com a sua mãe, desfrutando de uma vida muito pobre. 

Adriana conhece um chofer, Gino Molinari, por quem se apaixona e com quem deseja se casar, mas com quem acabará tendo uma grande frustração. Adriana também se envolve, embora não o deseje, com um poderoso e rico líder fascista (Astarita), que se apaixona intensamente por ela, mas com quem ela não quer ter qualquer envolvimento, embora recorra a ajuda dele sempre que necessário. 

E depois surge um outro homem em sua vida, com quem tem um romance intenso e por quem ela se apaixona, que é Mino. Este é um militante político antifascista (Mino Diodati) que é perseguido, preso, interrogado e que termina por falar tudo o que sabe sobre os companheiros, pois ele não consegue resistir a ameaça de ser torturado. Ele entrará em crise existencial em função disso, passando a odiar a si mesmo. Seu final será trágico. 
Adriana chega a ficar noiva de Gino, sem saber que este já era casado e tinha uma filha.
A mãe de Adriana quer usar da beleza da filha como um instrumento de ascensão social e tenta convencer a mesma a se casar com um homem rico, mesmo que não tivesse sentimento algum por ele. Enquanto isso não acontece, ela leva a filha para posar nua para um pintor, que fica encantado com a beleza da jovem e tenta seduzi-la, mas que é rejeitado pela mesma. 

No local, Adriana conhece outra mulher, Gisella, que também trabalha com o mesmo pintor. Gisella e Adriana ficam amigas e ela terá uma participação importante nos rumos que a vida de Adriana irá tomar. Após vários dia de trabalho, Adriana conhece um chofer, Gino Molinari, por quem acaba se apaixonando. Ele tenta enganá-la, dizendo ser um comerciante, mas ela percebe que ele é apenas um chofer, que trabalha para uma família muito rica. 

Ela sonha em ter uma casa, se casar e em ter filhos, o que era exatamente o que o regime fascista de Mussolini esperava das mulheres, desejando que elas fossem 'belas, recatadas e do lar' e que tivessem muitos filhos, a fim de engrandecer a Itália que, na propaganda feita pelo regime Fascista, voltaria a ser tão poderosa quando na época do Império Romano.

O romance deles fica cada vez mais sério e intenso, até que um dia Adriana chega em casa e diz para a mãe que havia ficado noiva de Gino. Mas ela fica enfurecida quando a filha lhe diz que o noivo é um simples chofer e não um homem rico. A mãe quase agride Adriana, porque esta ficou noiva de um 'morto de fome' e manda que não o leve para casa. Mas a filha desobedece a mãe e leva Gino para conhecê-la. 
Até mesmo o pintor para quem Adriana posava diariamente sentiu-se fortemente atraído pela bela jovem, mas ela o rejeitou.
A mãe de Adriana é grosseira com Gino, depois que este disse que o fato da noiva posar nua para um pintor diariamente é algo imoral, mas a filha disse que o ama muito. 

Gisella sai com um homem rico, chamado Riccardo, e um dia ela leva o Dr. Astarita, um rico e poderoso líder fascista, para conhecer Adriana. Gisella tenta convencer Adriana a ter um caso com Astarita, que já é casado mas que se apaixona perdidamente pela bela jovem, mas Adriana diz que já é noiva de Gino e resiste à ideia. Gino leva Adriana para conhecer a gigantesca e luxuosa mansão dos patrões, deixando-a envergonhada porque ela vive na pobreza. E eles fazem amor, que foi a verdadeira razão para item até a mansão... 

Assim, o filme mostra que o regime Fascista de Mussolini não combateu as imensas desigualdades sociais existentes na Itália, muito pelo contrário, o seu governo se aliou à Burguesia e promoveu uma brutal repressão contra o movimento operário do país. Logo, os trabalhadores continuaram vivendo na pobreza, enquanto que a Burguesia continuou tão rica quanto antes. 

Adriana retorna para casa muito tarde da noite e mãe a espera, percebendo que ela e Gino haviam tido relações e diz que agora tem certeza de que ele jamais se casará com a filha, pois já conseguiu o que desejava. Depois desta conversa, Gisella tenta convencer Adriana a se encontrar com Astarita, que não se importa que ela se case com Gino, desde que eles possam ficar juntos. 
A bela e sensual Adriana fazia com que os homens se apaixonassem perdidamente por ela, mas nenhum deles conseguiu fazer com que ela fosse realmente feliz.
Como se percebe, a moralidade defendida pelos fascistas era mais um discurso, uma fachada, do que algo concreto. A moral era pública, mas os vícios eram privados. 
Gisella despreza Gino, dizendo que ele, um mero chofer, terá a sorte de se casar com a belíssima Adriana, sendo que ele merecia apenas uma empregada. Gino dá o troco, fazendo um comentário depreciativo sobre Gisella e sugere, para Adriana, que a amiga desta é uma prostituta e que é em função disso que ela está sempre bem vestida. Adriana promete se afastar de Gisella, mas não cumpre a promessa. 

Gisella convida Adriana para um passeio e Astarita vai junto. Durante a conversa, ele diz que mandou segui-la e fala que sabe tudo a respeito dela. 

Eles vão a um restaurante, onde bebem, comem, conversam, dançam e acabam se relacionando sexualmente. Depois, Astarita dá uma certa quantidade de dinheiro para Adriana. Esta vai até a Igreja e confessa ao padre que traiu ao seu noivo, mas que ainda assim quer ser uma boa mulher. O padre lhe diz que ela deve casar o quanto antes, rezar muito e que nunca mais deverá ver o 'outro homem' (Astarita). 

Adriana vai falar com Gino sobre o casamento e este lhe garante irão se casar e morar juntos. Quando ela volta para casa, a mãe lhe entrega uma carta de Astarita, ao qual ela irá encontrar. Ele diz que a ama e a convida para morar com ele, dizendo que lhe dará tudo: vestidos, jóias. Astarita também lhe diz que Gino, seu noivo, já é casado e tem uma filha. 
Astarita, poderoso líder Fascista, era casado, mas também se apaixonou perdidamente por Adriana, com quem desejava viver. Assim, a imoralidade dos fascistas ficava exposta. 
Adriana fica desolada e diz para Gisella que deseja ser uma mulher livre e a amiga pergunta se ela quer fazer disso 'o seu trabalho', ou seja, se ela quer se tornar uma prostituta, dizendo que conhece alguém muito 'fino e distinto' que ela poderá conhecer. E Adriana aceita a oferta. 

Adriana, quando chega em casa, deixa cair a carteira com todo o dinheiro e a mãe percebe que a filha, agora, está se prostituindo. E a mãe diz para a filha que não tem mais vontade de continuar vivendo e chora. Adriana vai para o quarto e também chora. 

Adriana encontra Gino na casa da patroa do mesmo e ali ela fala que sabe que ele é casado (a esposa se chama Antonietta) e que tem uma filha (Maria). Gino diz que mentiu porque amava Adriana e que havia perdido a cabeça (tal como acontecia, também, com Astarita). Adriana também leva um porta jóias embora da mansão, sem que Gino saiba, e lhe diz que eles não irão mais se encontrar. Gino vai até a casa dela para recuperar o objeto e ela fala que, agora, é prostituta e que também se tornou uma ladra e que isso aconteceu por culpa dele. 

Em uma noite, Gisella e Adriana conhecem dois homens (Giancarlo e Mino). Giancarlo e Gisella ficam juntos em um bar (que fica ao lado do Coliseu), enquanto que Adriana e Mino vão caminhar, juntos, pela noite de Roma. Ela fala para Mino que os homens com quem se encontra não se interessam em conhecê-la melhor e que se envergonham de sair com ela, mas Mino diz que isso não acontece com ele e que ele não é impaciente.
Adriana e Mino mal se conheceram e imediatamente sentiram uma forte atração. Ele foi o único que realmente a respeitou e a valorizou, apaixonando-se por ela. 
Adriana sente-se fortemente atraída por Mino, mas este diz que não gosta de aventuras e que não a ama. Ela vai embora sozinha para casa, depois que tentou levá-lo junto e não conseguiu. Com isso, Adriana fica triste e deprimida por vários dias, pensando no motivo que teria levado Mino a recusá-la, acreditando que isso aconteceu pelo fato dela ser uma prostituta. 

Depois, Gino a convida para um encontro, no qual está Zonzogno, um brutamontes, com quem ele se desentende. Gino entrega uma quantia em dinheiro para Adriana e que ele obteve vendendo o porta jóias que ela havia roubado. Ele conseguiu culpar a empregada pelo roubo e a mesma acabou presa. Adriana o chama de canallha por isso, mas Gino a persegue e acaba sendo agredido por Sonzogno, que vai embora com Adriana, para a casa desta. 

Adriana e Sonzogno ficam juntos apenas por alguns dias e este último já a pede em casamento, mas ela pede um tempo para pensar. Com ela, é sempre assim: os homens estão sempre perdendo a cabeça por causa dela. A única exceção, aparentemente, é Mino, mas na verdade este esconde um segredo de Adriana e é o motivo pelo qual ele não quis se envolver com ela. 

Porém, Sonzogno confessa que matou o proprietário de uma joalheria quando tentou vender o porta jóias que ela havia roubado e que corre o risco de vir a ser preso. Ele entrega o porta jóias para Adriana, mas esta fica com medo dele ao saber do assassinato que o mesmo cometeu. 
Uma bela cena do filme clássico de Luigi Zampa, diretor que começou no Neo-Realismo italiano. 
Enquanto isso, Sonzogno teme que ela o denuncie para a Polícia, mas ela diz que não fará isso. E ela decide devolver o porta jóias, pedindo ajuda ao Padre. Assim, o roubo do porta jóias por Adriana desencadeou uma sucessão de acontecimentos: 

A) Gino não o devolveu, mas preferiu vendê-lo, o que provocou a prisão da empregada, que foi considerada culpada pelo roubo; 

B) Sonzogno tentou repassar o porta jóias para o dono da joalheria, que ofereceu pouco pelo mesmo, o que o levou a matar o proprietário;

C) Adriana entrega o porta jóias para o Padre, explica a situação da empregada, que está presa, e pede que ele devolva o objeto para a patroa e que liberte a empregada, que é inocente. 

E Mino reaparece na casa de Adriana, que fica muito feliz de revê-lo. Ele está ali para lhe pedir um favor, que é guardar um pacote com propaganda contra o governo Fascista. Mas ele diz que isso é apenas um pretexto para poder revê-la, pois não deixou de pensar nela desde que a encontrou pela primeira vez. 

Ela diz que, agora, está feliz com Mino, mas o ativismo político dele leva a que a Polícia vá até a sua casa, atrás de material de propaganda que está escondido, mas que Adriana jogou fora antes que fosse encontrado. 
Mino é o único homem que Adriana realmente amou, mas ela o conheceu tarde demais. Ele é um idealista e ativista político que luta contra o Fascismo, mas que se revela um fraco quando é interrogado por Astarita, líder da polícia secreta fascista. 
Procurado por todos os lugares pela Polícia, Mino vai (junto com Adriana) para a casa de campo de um Fascista, Giancarlo, de quem ele foi amigo, até que a Política os afastou. Mino diz para Adriana que gostaria de ter 'nascido outro, qualquer outro'. 

Assim, ele não se sente feliz.

Enquanto isso, Adriana lhe diz que gostaria de ser como ele, ou seja, de ter nascido em uma família rica, com uma boa educação, morar em uma bela casa, passar os verões no mar ou na montanha, bem como se casar com um homem que a amasse e tivesse filhos. 

Eles voltam para Roma depois de uma semana e ela pede que Mino vá para a casa de Tommaso, um dos militantes políticos, onde ficará seguro. Voltando para casa, no bonde ela encontra Sonzogno, o que a deixa assustada. Este percebe que há uma ligação entre ela e Mino e a segue. Ela tenta se livrar dele, mas Sonzogno diz que está sendo seguido e suspeita que ela possa tê-lo denunciado à Polícia.

Adriana consegue sair de sua casa e vai até a casa de Tommaso, para ver se encontra Mino, mas este saiu para promover uma ação política, que foi a de jogar panfletos anti-fascistas em uma sala de cinema junto com Tulio. No cinema, os espectadores assistem a um filme que mostra um desfile dos 'Camisas Negras' fascistas. Tulio e Tommaso conseguiram escapar, enquanto que Mino acaba sendo preso quando tentava fugir do local. 
Adriana e os homens de sua vida. Cada um deles representa um arquétipo: Gino é o mentiroso (figura 1), Astarita é o poderoso (figura 2), Gino é o fraco (figura 3) e Carlo é o violento (figura 4). Adriana não será feliz com nenhum deles.
Desesperada, Adriana procura pela ajuda de Astarita, sabendo que ele ainda gosta dela. Ele que diz que não sabe nada a respeito da situação de Mino, mas que irá procurar ajudá-lo. Com isso, Mino acaba sendo libertado, mas ele volta tendo ódio de si mesmo, pois entregou as informações sobre os seus companheiros durante o interrogatório, mesmo sem que tenha sido torturado para isso. 

Mino entrará em um séria crise existencial em função disso, dizendo que não tem mais nenhuma razão para continuar vivendo. Mino diz que se sente como se já estivesse morto, enquanto que Adriana diz que ele deve esquecer o que aconteceu. 

Ela diz que também já se sentiu assim, querendo ser outra pessoa, sendo infeliz e sentindo-se desesperada e envergonhada. Porém, Mino decide ir embora. Antes, porém, ele fica sabendo que ela está grávida e que terá um filho seu. 

Adriana decide pedir, novamente, a ajuda de Astarita, a fim de conseguir o conteúdo do interrogatório de Mino. Astarita vai até a casa de Adriana, e lhe diz que não há nenhum documento com o conteúdo do interrogatório de Mino. 

Antes, Astarita encontrou Sonzogno, que invadiu a casa dela, acusando-a de tê-lo denunciado e a ameaçava por isso. Astarita esbofeteia Sonzogno, que vai embora, e diz para Adriana que a ama, mas essa responde que ama Mino e que espera um filho do mesmo. Astarita diz 'Maldito o dia em que te encontrei! Maldito o dia em que nasci!'.
Set de filmagem de 'La Romana', que foi baseado em livro de mesmo nome de Alberto Moravia, que foi um dos roteiristas do filme.
Frustrado, Astarita vai embora. E Mino fala que espera que o filho deles não tenha que dizer tais coisas futuramente. Mino informa Adriana que Sonzogno seguiu Astarita. Ela e Mino vão atrás, para tentar avisar Astarita, mas Sonzogno espera pelo líder fascista e o segue, matando-o na sequência. Sonzogno tenta fugir, mas acaba sendo morto pela Polícia. 

Mino vai embora e Adriana sofre com isso. Ela fica trancafiada em seu quarto, acariciando o paletó de Mino, enquanto se recusa a comer qualquer coisa. Mino envia uma carta de despedida para Adriana, onde deixa claro que irá cometer suicídio, pois não consegue mais conviver com a sua traição aos companheiros. 

Adriana chora. Ela vai até a Igreja e ora, pedindo a Madonna que salve a vida do homem que ama, prometendo que não irá mais vê-lo e que não será de outro homem enquanto viver.

Adriana é chamada para reconhecer o corpo de Mino e vê que ele está morto. Ela chora e diz para Tulio e Tommaso que eles não correm mais nenhum perigo, pois Astarita e Mino morreram e não há uma transcrição do interrogatório a que ele foi submetido. Tommaso diz que sempre pensará bem dele, que foi um bom rapaz. 

Ela vai embora, sozinha, e, em uma narração, diz que se o filho que irá nascer for um menino irá se chamar Mino e que se for uma menina se chamará Letícia, pois deseja que a filha, diferente dela, tenha uma vida alegre e feliz.

Fim. 
Adriana reza por Mino, prometendo que se ele estivesse vivo abriria mão de vê-lo novamente. Mas o seu desejo não se realizou. 
Informações Adicionais!

Título: 'La Romana' ('A Romana');
Diretor: Luigi Zampa;
Roteiro: Alberto Moravia, Giorgio Bassani, Luigi Zampa e Ennio Flajano; Adaptado do livro 'La Romana' (de Alberto Moravia); 
Ano de Produção: 1954; Países de Produção: Itália e França;
Duração: 88 minutos;
Fotografia: Enzo Serafin.
Música: Franco Mannino e Enzo Masetti.
Elenco: Gina Lollobrigida (Adriana Silenzi); Daniel Gélin (Mino); Franco Fabrizi (Gino Molinari); Raymond Pellegrin (Astarita); Xenia Valderi (Gisella); Renato Tontini (Carlo Sonzogno); Pina Piovani (Mãe de Adriana); Gino Buzzanca (Riccardo); Mariano Bottino (Tommaso); Mario Addobbati (Tullio); Gianni Di Benedetto (Pintor), Ricardo Garrone (Giancarlo).

Link:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0047427/?ref_=fn_al_tt_1

Trecho do Filme:

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Dashiell Hammett: o escritor que levou o crime à rua!

Dashiell Hammett: o escritor que levou o crime à rua - por Albano Matos, do DN Artes



Quando morreu, na manhã de 10 de Janeiro de 1961, Dashiell Hammett já não publicava um livro desde 1934. Era respeitado nos meios liberais americanos, por ter enfrentado as acusações de "conspirador vermelho" do comité McCarthy (o que lhe valeu seis meses na prisão a limpar latrinas). Os seus herdeiros na literatura americana consideravam-no o "pai"do moderno romance policial e tentavam seguir-lhe o exemplo.

A sua obra (cinco romances e dezenas de pequenas histórias que publicou na revista Black Mask) está a ser reavaliada em vários países. Em França, uma editora, a Omnibus, acaba de reunir as 65 novelas num só volume, Coups de Feu dans la Nuit.

A grande importância de Hammett deriva sobretudo do facto de ele ter levado o crime (e a literatura que dele fazia o seu elemento central) dos salões em que os autores clássicos do género o tinham encerrado para as ruas, onde ele realmente acontecia na vida real. Do vaso veneziano para as valetas - como descreveria, mais tarde, Raymond Chandler, o outro autor fundamental do género. Devolveu o assassínio ao tipo de pessoas que o cometem por um motivo e não apenas para providenciar um cadáver.

Eram os tempos dos gangsters, da lei seca, da corrupção desenfreada nas entidades oficiais e nas grandes corporações. Hammett procedia a uma anatomia social do crime, em que o assassínio e o cadáver (o primeiro de muitos) com que iniciava a narrativa eram, muitas vezes, apenas o pretexto para descrever uma sociedade violenta, cínica e sem esperança.

Cínicos e sem esperança eram os seus protagonistas: o detective da Continental, primeiro, Sam Spade, depois. Este, que seria encarnado no cinema por Humphrey Bogart, era um homem desencantado, que abusava do tabaco e do álcool, de poucas (e medidas) palavras, frio e duro. O tipo de características necessárias para enfrentar os poderosos com que tinha de lidar sempre que um cadáver lhe saía ao caminho. Violento também, mas com as marcas da violência sofrida também a marcar-lhe o rosto e o corpo. E um código de honra inabalável.

A escrita de Hammett tinha a mesma marca: frases secas e curtas, nada de adjectivos, nem de digressões poéticas, nem de desvios "literários". A prosa tão descarnada como a realidade desses tempos duros. Essa era, aliás, a característica que mais o distinguia de Raymond Chandler, que um dia aspirara a ser poeta e cujo protagonista - Philip Marlowe - se servia mais do humor (um humor sacrcástico, é verdade) que dos punhos. Curiosamente, ambos seriam interpretados no cinema por Humphrey Bogart, apesar de Chandler afirmar que o intérprete ideal de Marlowe era Cary Grant.

A secura e o desencanto seduziram gerações de autores e de leitores. A ponto de um dos mais importantes cultivadores do género nas últimas décadas, o espanhol Manuel Vázquez Montalbán, ter afirmado que "Dashiell Hammett é tão importante para a história da literatura americana como Hemingway ou Faulkner". Nem mais.

Link:
http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1753164&seccao=Livros&page=-1