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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

'Le Stagioni del Nostro Amore" - Influenciado por Antonioni, Florestano Vancini mostra as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana do Pós-Guerra!

'Le Stagioni del Nostro Amore" - Influenciado por Antonioni, Florestano Vancini mostra as desilusões da intelectualidade de Esquerda italiana do Pós-Guerra! - Marcos Doniseti!
'Le Stagioni del Nostro Amore' (Enquanto Durou o Nosso Amor; Florestano Vancini; 1966) foi um dos vários filmes que retrataram a crise que a Esquerda italiana, especialmente aquela que era ligada ao PCI, enfrentou  na primeira metade da década de 1960.

'Le Stagioni del Nostro Amore' (As Estações do Nosso Amor)!

Este é um belo filme do período áureo do cinema italiano e que foi dirigido por Florestano Vancini. Ele foi um dos últimos filmes do ciclo do chamado 'Pós-Neorrealismo', que durou de 1955 a 1967. E também é um dos melhores filmes desta safra. 

O protagonista do filme é Vittorio Borghi (que é interpretado pelo brilhante Enrico Maria Salerno) e a história se desenvolve em meados da década de 1960, vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Vittorio é um jornalista italiano de quarenta anos que lutou na Resistência (foi um Partigiano, um guerrilheiro) e que sempre foi ligado ao PCI (Partido Comunista Italiano). Vittorio foi colaborador, por muitos anos, do jornal do PCI ("L'Unità"), para o qual escreveu inúmeros artigos. Seu pai (Mario Borghi), já falecido, também foi um corajoso militante socialista que também lutou contra o regime fascista de Mussolini.

Mas agora, aos 40 anos, Vittorio mergulhou em um momento de grave crise existencial, pois ele perdeu todas as suas referências: políticas, ideológicas, familiares, pessoais e amorosas. Vittorio procura refletir sobre as causas desta situação e vai buscar pelas respostas em seu próprio passado.
Enrico Maria Salerno, um dos melhores atores italianos, interpreta Vittorio Borghi, um intelectual ligado ao PCI, que lutou na Resistência, mas que em meados da década de 1960 enfrenta uma crise existencial. Assim, ele faz uma viagem ao passado a fim de tentar compreender quando foi que isso começou.

A crise existencial que Vittorio enfrenta é desencadeada pelo fim de um intenso romance com uma bela jovem (Elena) que é interpretada pela lindíssima e talentosa atriz francesa Jacqueline Sassard, que encerrou a sua carreira precocemente, em 1969, pois ela optou por uma tranquila vida familiar depois que se casou.

A bela Elena (que tem cerca de 20-25 anos) engravidou de Vittorio e deseja que ele abandone a sua família para viver com ela, mas ele não age desta maneira, o que a leva a romper o relacionamento.

Assim, Vittorio procura fazer uma reflexão a respeito de uma vida cuja melhor parte está no passado, quando ele era feliz, otimista, mas foi quando tomou as decisões que o levaram a essa situação de crise existencial.

Desta maneira, Vittorio volta para a sua cidade natal (Mântua, localizada na região da Lombardia, que fica próxima de Milão), onde reencontra seus velhos amigos (da época da Resistência e do PCI), encontra antigos comunistas que foram amigos de seu pai e revê um antigo amor, uma bela existencialista (Francesca), que é interpretada por Ainouk Aimée.
Jacqueline Sassard e Enrico Maria Salerno em uma bela cena de amor deste clássico de Florestano Vancini.

Vittorio e Francesca eram apaixonados e chegaram a namorar na juventude, mas ela escolheu se casar com um rico burguês, pois não via nenhuma perspectiva de ter uma vida confortável ao lado de Vittorio. Agora ela também é infeliz, apesar de manter as (boas) aparências, pois está sempre elegante.

Os amigos de Vittorio da época da Resistência também mudaram e se adaptaram aos novos tempos, de uma Itália que se manteve capitalista e que, na época em que o filme foi realizado, vivia a fase final de um longo período de rápido crescimento econômico que havia começado por volta de 1954/1955.

Obs: A crise econômica italiana começaria apenas em 1967 e se agravaria a partir de 1968, quando começou um longo período de conflitos políticos, econômicos e sociais, que irá terminar apenas por volta de 1980/1981. Estes anos foram os chamados 'Anni di Piombo' (Anos de Chumbo), época em que os grupos extremistas (de Direita e de Esquerda) abalaram a Itália com inúmeros atentados terroristas, assassinados e conflitos de rua. Neste período da história italiana, morreram cerca de 2 mil pessoas vítimas da violência política.

Assim, um antigo comunista (Olindo Civinini) virou um comerciante que vende roupas para os burgueses da cidade  (e que tem em Francesca uma das suas principais clientes) e um ex-Partigiano (Tancredi) casou, formou família e virou um simples guarda noturno. Logo, Vittotio constata que os ideais socialistas e revolucionários da época da Resistência ficaram no passado.
Quando retorna para a sua cidade natal (Pádua, no norte da Itália) Vittorio reencontra uma antiga paixão da juventude, a bela Francesca.

Vittorio descobre que até mesmo um intelectual que pertence ao PCI (Leonardo Varzi) e de quem ele é amigo desde a adolescência, que sempre foi dotado de grande energia política e capacidade analítica, e por quem Vittorio sempre nutriu um grande respeito e admiração, está vivendo um período conturbado, embora o mesmo ainda manifeste a sua crença nos ideais comunistas.

Mas o próprio Vittorio mudou profundamente: Ele está desapontado, não acredita mais nos ideais pelos quais lutou durante e depois da Guerra e da Resistência. Logo, infeliz e ferido em seus sentimentos, ele não consegue encontrar um ponto de contato com aqueles que estiveram próximos a ele em sua juventude.

A peregrinação aos lugares do passado, onde procura as raízes da crise existencial que enfrenta, terminará em um salão de danças público ao largo do Rio Pó, onde um grupo de adolescentes conseguiu fazer funcionar uma jukebox e dançam de forma alegre, enérgica e despreocupada, apresentando uma postura festiva perante a vida.

São outros jovens, que não fazem a menor ideia de quem seja Vittorio, ou seja, não há que estabeleça uma conexão entre a velha guarda revolucionária do PCI com os jovens dos anos 1960. 

Vittorio volta para Mântua, sua cidade natal, e se encontra com Francesca, com quem teve um romance no passado, mas que não deu certo, pois ela o desprezou para se casa com um burguês bem mais endinheirado do que ela. 

Logo, o filme já indica claramente para uma ruptura geracional que ficaria bastante evidente nos últimos anos daquela década explosiva. Estes jovens ainda desfrutam de uma vida feliz e também preservam o seu otimismo perante a vida, tal como aconteceu com o próprio Vittorio em sua juventude. E a explosão emocional dele no final reflete o contraste entre o seu desespero e a energia daqueles jovens. 

O filme de Vancini é claramente influenciado pela obra inovadora do genial Michelangelo Antonioni. 

Assim, temos uma conexão bem evidente entre os sentimentos do protagonista (Vittorio), o clima gelado do inverno do norte da Itália e a fotografia do filme, em um branco estourado, o que é uma evidência clara dessa influência. 

Afinal, essa conexão entre os elementos da paisagem e o estado espiritual dos protagonistas sempre foi um aspecto importante da obra de Antonioni.
Um belo desenho mostrando Elena e Vittorio.

Informações Adicionais! 

Título: Le Stagioni del Nostro Amore (Enquanto Durou o Nosso Amor);
Diretor: Florestano Vancini;
Roteiro: Florestano Vancini; Elio Bartolini;
Ano de Produção: 1966;
País de Produção: Itália;
Duração: 101 minutos;
Música: Carlos Rustichelli; 
Fotografia: Dario Di Palma;
Elenco: Enrico Maria Salerno (Vittorio Borghi); Jacqueline Sassard (Elena); Anouk Aimée (Francesca); Gian Maria Volonté (Leonardo Varzi); Gastone Moschin (Carlo/Tancredi).
Prêmio FIPRESCI (Federação da Crítica Internacional) no Festival de Cinema de Berlim de 1966.
Golden Goblet de Melhor Ator para Enrico Maria Salerno, na Itália, em 1966.

A belíssima Jacqueline Sassard, que interpreta Elena, a jovem que se envolve com Vittorio. O fim do relacionamento deles leva Vittorio a entrar em uma crise existencial, passando a questionar tudo o que fez em sua vida. 

domingo, 12 de junho de 2016

"La Lunga Notte del '43" mostra uma história de amor e uma chacina fascista na época da luta contra Hitler e Mussolini!

"La Lunga Notte del '43" mostra uma história de amor e uma chacina fascista na época da luta contra Hitler e Mussolini! - Marcos Doniseti!
Florestano Vancini: Cineasta italiano bastante talentoso e que, injustamente, não desfruta do prestígio e popularidade que merecia, dirigiu este excelente filme, que conta uma história baseada em fatos reais, sobre um massacre cometido pelos Fascistas em Ferrara (norte da Itália), em Novembro de 1943. 
Este ótimo filme de Florestano Vancini é relativamente desconhecido do grande público, como acontece, de forma injusta, com a obra deste grande cineasta italiano. 

Tal como aconteceu com outro genial cineasta italiano, Valério Zurlini, está mais do que na hora de se dar o devido reconhecimento à fantástica obra de Vancini. E um dos seus melhores filmes é justamente este que irei comentar neste texto ("La Lunga Notte del '43"), que foi o seu primeiro longa-metragem, que lhe deu até um prêmio no Festival de Veneza de 1960.

O filme é baseado em um livro, de autoria de Giorgio Bassani, que trata de um massacre real que ocorreu em Ferrara (cidade do norte da Itália, localizada na região da Emília-Romagna, cuja capita é Bolonha) na época da Segunda Guerra Mundial, durante a existência da chamada 'República Social Italiana' ou 'República de Saló'. O roteiro do filme é de autoria do próprio Vancini, de Pier Paolo Pasolini e de Ennio De Concini. 

Cabe ressaltar a belíssima fotografia desta obra, que tem tudo a ver com o ambiente de repressão, brutalidade e violência do regime fascista, dando muito destaque aos nevoeiros que cobrem a cidade de Ferrara no final do ano (os fatos se desenvolvem nos meses de Novembro e Dezembro de 1943), bem como a fantástica trilha sonora, de Carlo Rustichelli. 

O fato que serviu de inspiração para o livro de Bassani e, também, para o filme de Vancini, ocorreu em Novembro de 1943, durante a curta existência da chamada 'República Social Italiana' (também conhecida como 'República de Saló'), quando um grupo de pessoas, todas burguesas, e que integravam a Resistência, foram mortas em um local público, em frente a um castelo, por soldados fascistas. 

No filme de Vancini, porém, essa história se intercala com uma bela história de amor, e que acaba sendo inviabilizada justamente em função dos acontecimentos políticos da época. 
A história do filme se desenvolve em Ferrara, norte da Itália, em Novembro/Dezembro de 1943, na época em que se instalou, na região, um regime fascista fantoche da Alemanha Nazista. 
Quando os aliados invadiram e ocuparam a Sicília, em Jullho de 1943, o governo italiano depôs Mussolini do seu cargo e o prendeu. Em Setembro do mesmo ano, logo após o governo italiano passar para o lado dos Aliados, os alemães invadiram Roma e ocuparam toda a região centro e norte da Itália. Dias depois da invasão alemã, e por ordens diretas de Hitler, o ditador fascista italiano foi libertado da prisão por um comando nazista e foi levado para a Alemanha. 

Daí, os alemães criaram a chamada 'República Social Italiana'. Este era um regime fantoche 'liderado' por Benito Mussolini e que foi criado pelos nazistas em Setembro de 1943. Tal regime durou até 29/04/1945, tendo sido dissolvido quatro dias após Mussolini e sua amante, Clara Petacci, terem sido mortos por guerrilheiros membros da Resistência. 

O filme de Vancini, em seus primeiros momentos, traça, com o uso de imagens reais, um breve panorama histórico que vai da ascensão de Mussolini ao poder, em Outubro de 1922, passando pela invasão aliada do país, a assinatura do Armistício entre o novo governo italiano, comandado pelo General Badoglio, e os Aliados, até a criação da subsequente RSI.

O filme começa mostrando a cidade de Ferrara, coberta por um denso nevoeiro, o que não deixa de ser uma alusão ao fato da região ainda estar sob o domínio nazi-fascista. E o primeiro personagem a aparecer é Pino Barilari, um ex-integrante do movimento Fascista e que chegou a participar da 'Marcha Sobre Roma', que foi um Golpe de Estado que ocorreu em Outubro de 1922 e que levou Benito Mussolini ao comando do governo italiano. 
A jovem e bela Anna Barilari, cujo marido é praticamente uma criança da qual ela cuida, fazendo com que ela tenha uma vida sentimental inteiramente vazia e infeliz.
Pino ficou doente (sífilis) e somente consegue andar com o apoio de muletas, levando-o a ficar o dia inteiro deitado na cama ou, quando está acordado, a ficar olhando pela janela, momentos nos quais aproveita para provocar os que passam por ali. Porém, esta sua postura de bisbilhoteiro acabará tendo uma certa importância na trama do filme. 

Ele também é casado com uma bela e atraente mulher, Anna, que é interpretada por Belinda Lee, uma das mais lindas atrizes da sua época e que morreu muito jovem, em um acidente de automóvel, aos 25 anos. 

Pino confia plenamente em Anna, tanto que a estimula a ir ao Cinema, a fim de poder se divertir um pouco. Ele sugere que ela vá assistir uma adaptação de 'O Leão de Damasco', livro de autoria de um escritor italiano (Emilio Salgari) ou então 'Violette nei Capelli', um filme italiano de 1925. Ela sugere que ele também saia, para se divertir, mas fica claro que Pino se envergonha da sua condição. 

Porém, na sua ida ao cinema, em um momento em que o filme é interrompido devido a um alerta de bombardeio, Anna acaba reconhecendo e encontrando um antigo amor, Franco Villani, com o qual namorou antes de se casar com Pino, quatro anos antes. E fica claro que a atração entre ambos ainda existe. 
Depois de terem namorado na juventude, Anna e Franco voltam a se encontrar, em Ferrara, para onde ele fugiu depois que desertou após o colapso do regime fascista no Sul da Itália, devido à invasão dos Aliados, que ocorreu em Julho de 1943.  
Franco diz para Anna que foi para Ferrara depois que escapou de Avellino, no dia 08 de Setembro (data em que a Itália declarou guerra aos países do Eixo e em que Hitler mandou invadir Roma e todo o norte da Itália). Logo, ele é um desertor. E Franco fala que os desertores são presos e enviados para a Alemanha. Eles conversam sobre a época em que estudaram juntos e ela diz que foram tolos, sugerindo que jamais deveriam ter se separado.  

Na sequência, vemos Carlo Aretusi, líder fascista de Ferrara, numa conversa com outros líderes fascistas. Eles reclamam que o governo fascista fez acordos e concessões demais para poder governar a Itália, pregando um regime fascista mais 'puro' e violento.

Obs1: Isso realmente aconteceu. Mussolini, apesar de toda a sua retórica demagógica, supostamente anti-elitista, aliou-se às elites italianas tradicionais para ter condições de governar a Itália. A repressão mais brutal e violenta do seu governo se dirigiu às forças mais esquerdistas (socialistas, comunistas, anarquistas) e ao movimeto operário, que era fortemente inflluenciado por tais ideias. No início, os judeus não eram perseguidos e milhares deles chegaram a integrar o Partido Nacional Fascista e a ocupar importantes cargos públicos no regime fascista. Mas quando Mussolini se aliou a Hitler, em 1939, transformando o Eixo Roma-Berlim em uma aliança militar, a perseguição se abateu duramente sobre os judeus italianos, fato este que é mostrado no clássico filme de Vancini. 
A triste, bela e jovem Anna passa a sair, sozinha, todas as noites, para se encontrar com Franco, com quem ela desfruta de uma felicidade que jamais teve ao lado do seu marido. 
Por onde anda, Anna é cumprimentada e admirada por outros homens, inclusive por Carlo, que afirma que irá 'visitá-la' um dia desses e eles discutem se ela seria ou não fiel ao marido, fazendo piadas e rindo com a situação do casal, devido à doença de Pino.

Na farmácia da qual é a proprietária, junto com Pino, Anna é claramente cortejada por Luigi, que se propõe a ficar até mais tarde, para ajudá-la, apesar do toque de recolher. Ela recebe um telefonema de Franco, que a convida para um encontro, e tenta disfarçar, mas fica nítido que Luigi percebe que há algo mais naquela conversa. 

Em um jantar na casa de Franco, percebe-se que o pai dele, Attílio, é um ativista que participa de reuniões da Resistência e que o filho também é um crítico do regime fascista, tanto que desertou. 

Em conversa com a esposa, a bela Anna, Pino cita a revista 'Cinema'.Tal publicação realmente existiu e foi uma criação do regime fascista, sendo que era dirigida por Vittorio Mussolini, o filho do Duce. Em sua fala, Pino faz uma série de críticas ao cinema italiano do período fascista, preferindo elogiar o cinema produzido nos EUA. 

Obs2: A revista 'Cinema' foi de grande importância para a história do cinema italiano, pois contava com a colaboração de alguns dos principais cineastas italianos do pós-Guerra, como Vittorio de Sica, Roberto Rossellini e Michelangelo Antonioni. Luchino Visconti também chegou a escrever alguns textos para a revista. Tal grupo formava uma espécie de 'nicho esquerdista' dentro da publicação. 
Carlo Aretusi é o líder fascista dos 'Camisas Negras' e é conhecido como 'tragédia, desastre, aflição', devido à maneira muito violenta com a qual trata os desertores e opositores do regime fascista. 
Esse grupo defendia que o cinema produzido na Itália deveria ter um tom mais realista e já nesta época, de plena vigência do regime fascista, chegou-se a produzir filmes em cenários reais, com o uso de atores amadores e usando-se dialetos das regiões em que eram produzidos, antecipando, assim, aquelas que foram algumas das principais características do Neo-Realismo.

Enquanto tenta ler uma revista, Anna ouve, no rádio, um diálogo de uma radionovela, na qual um casal que se ama faz planos para o futuro, de se casarem, de ter filhos, para que desfrutem de uma vida feliz juntos, tudo aquilo que ela não tem na vida com Pino. E isso a leva a pensar no telefonema que recebeu de Franco, que volta a lhe telefonar. Ela resiste a se encontrar com ele, mas acaba concordando, ficando juntos pela primeira vez em muitos anos. No dia seguinte, ele vai à farmácia e avisa que irá lhe telefonar novamente. 

Com isso, eles se encontram em uma área rural, com um denso nevoeiro ao fundo (afinal, eles estão em pleno regime fascista), às margens do rio Pó, naquela que é a mais bela sequência amorosa de todo o filme, onde vemos os dois se beijando, sorrindo, brincando e dando risadas. Anna diz para Franco que não abandona o marido doente em função de um sentimento de ternura que tem pelo mesmo, mas que gostaria de ficar com ele, Franco, depois que a guerra terminasse. 

Na rua em que Pino e Anna moram, onde acontecem todas as principais ações políticas do filme, vemos os 'Camisas Negras' fascistas perseguindo e prendendo algumas pessoas, sendo que um dos perseguidos é protegido por Anna, sendo que Luigi diz que ela não deveria fazer isso. Anna telefona para a casa de Franco, para avisá-lo sobre as prisões que estão sendo feitas no local, a fim de que ele tome cuidado. 
Revista 'Cinema', publicada durante o regime fascista e que foi dirigida por Vittorio Mussolini, filho do Duce. Vários diretores importantes do cinema italiano, neo-realistas, foram colaboradores da publicação, embora formassem um núcleo de Esquerda dentro da mesma. 
O líder fascista de Ferrara, Carlo Aretusi, defende que se use de uma forte repressão contra os desertores e membros da Resistência, pois isso seria necessário para se garantir a vitória do Fascismo. Carlo Aretusi comenta com seu subordinado a respeito da 'traição do 25 de Julho', dia em que o Grande Conselho Fascista tirou Mussolini do seu cargo e o prendeu. 

E Aretusi cumprimenta Pino, que observa tudo da janela, e também crítica Mario Bolognesi (comissário federal fascista de Ferrara), que não passaria de um burocrata fascista que não seria suficientemente duro com os opositores e desertores, dizendo que tipos como ele são 'a ruína da Itália'. 

Anna liga para Franco e se encontra com o mesmo em uma Igreja, na qual implora para que ele não saia mais às ruas, em função do aumento da repressão promovido pelos fascistas, mesmo que não possa mais vê-lo, com o que ele concorda. 

Mas, Franco sugere que ela passe a vê-lo à noite, quando Pino está dormindo, aproveitando-se do fato de que ela tem autorização para não obedecer ao toque de recolher e de que eles moram próximos. Anna se lamenta de não ter ficado junto com Franco quando eles eram livres, sendo que, agora, é obrigada a se encontrar com o mesmo de forma secreta, o que é algo humilhante para ela. 

Vincenzi mata Bolognesi, por ordens do próprio Aretusi, e o fato é usado pelo regime fascista para desencadear uma nova campanha de repressão contra os opositores, o que foi percebido por Pino, deixando-o muito preocupado, quando este ouviu a notícia pelo rádio. O assassinato leva à prisão e execução de 11 membros da Resistência de Ferrara, incluindo Attílio, o pai de Franco. 

Obs3: É importante ressaltar que todas as notícias, na época, eram divulgadas por meio do rádio, que era o principal veículo de comunicação do período. O uso do rádio, do Cinema, da imprensa, de imagens e de uma propaganda intensa sempre foi uma das principais características dos principais regimes ditatoriais (stalinismo, nazismo, fascismo, entre outros) do século 20. Getúlio Vargas fez o mesmo no Brasil, durante a Ditadura do 'Estado Novo' (1937-1945), criando o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). 
O Fascismo exaltava a guerra e a violência, defendendo a eliminação física dos seus inimigos políticos e ideológicos, principalmente dos esquerdistas. A brutalidade do regime fascista está muito bem demonstrada neste belo filme de Florestano Vancini, no qual um antigo integrante do movimento (Pino Barilari) se desencanta inteiramente com o mesmo. 
Anna liga para Franco e combinam de se encontrarem após as 22hs. Pino lhe diz que a pessoa que matou Bolognesi teve muita audácia e que a morte do comissário levou os fascistas a ficarem com medo, fazendo com que eles ficassem mais perigosos. 

Anna vai ao encontro de Franco e justamente neste momento os 'Camisas Negras' fascistas passam perto dela, que se esconde, mas mesmo assim ela vai até a casa do amante. 

Anna fala para Franco que se lamenta pela vida que leva, sendo que ainda tem 26 anos, e diz que cuida do marido como se o mesmo ainda fosse uma criança, mostrando todo o vazio sentimental e existencial da sua vida, dizendo que está cansada de tudo isso  se desesperando ao pensar que viverá, desta maneira, para sempre. 

Ela anseia pelo fim da guerra, para que possa mudar radicalmente a sua vida, vivendo ao lado dele, Franco. Este fala que a ama e que em breve haverá paz, pois os Aliados estão chegando a Roma, dizendo que tudo irá mudar e que, naquele momento, eles devem apenas pensar em sobreviver. Anna diz que é somente com ele que ela consegue ser feliz. 

Mas justamente na noite mais feliz de ambos, Franco e Anna, os fascistas vão até a casa de Franco e levam o pai deste, o advogado Attílio Villani, preso. Junto com mais alguns membros da Resistência (alguns burgueses e judeus), eles acabam sendo executados na calçada, bem em frente à janela da casa de Pino, que vê tudo acontecer e que sofre em função do acontecido. Ele é, claramente, um fascista arrependido, que apoiou Mussolini no passado mas que, agora, ao ver os crimes fascistas sendo cometidos em frente à sua casa, percebe que se equivocou ao ter feito parte do movimento. 

Anna retorna para casa e vê os corpos das vítimas em frente da mesma. 
Esta é a mais bela, romântica e emocionante cena deste excepcional filme que é 'La Lunga Notte del '43". Em nenhum outro momento Franco e Anna foram tão felizes. Mas a brutalidade fascista irá impedir que eles possam ficar juntos.
Pino também viu Anna retornando para casa de manhã, percebendo que ela havia ficado a noite inteira fora de casa. No fim, ela confessa que está apaixonada por outro, Franco, e pergunta se ele irá contar a respeito do massacre a que acabou de testemunhar. 

E Carlo Aretusi é avisado por um subordinado de que Pino viu tudo. 

Depois de ver o Fascismo (o movimento do qual fez parte na sua juventude) cometer tantos crimes e de descobrir que Anna, sua amada esposa, lhe traía, Pino torna-se um verdadeiro morto-vivo, sequer reagindo às perguntas e afirmações, feitas aos gritos, por Anna sobre as mortes e a respeito do caso que ela tinha com Franco. 

Quando Anna vai à casa deste, no caminho ela vê mais pessoas sendo agredidas e presas pelos 'Camisas Negras' fascistas, pelo fato de se recusarem à lutar pelo regime moribundo da República Social Italiana. Ela vê a irmã de Franco sendo levada para a casa de um amigo por um padre e os segue. 

Franco está recebendo ajuda para poder se exilar na Suíça, antes que também venha a ter o mesmo destino de seu pai, cuja morte deixou a sua mãe inconsolável, levando-a também a falecer. Mas o filho deste amigo da família de Franco, Gilberto, defende que se lute contra o fascismo. 

Anna cria coragem e vai falar com Franco, dizendo para este que Pino viu tudo o que aconteceu, que ele já sabe do caso de ambos e que ela também sabe quem foi o responsável pelo crime, fazendo isso na expectativa de que, agora, eles poderão vir a ficar juntos. Ela diz que está sofrendo pelo que aconteceu, esperando confortá-lo, mas Franco fala que ela não tem nada a ver com o que aconteceu com a família dele e decide se separar definitivamente de Anna, deixando-a inconsolável. 

É como se a morte do pai e o sofrimento de sua família o tivessem transformado numa pessoa fria, desprovida de sentimentos, decidindo reprimir o que sente por Anna. Ou ainda, talvez ele tenha ficado com medo de que Anna também viesse a ter um fim trágico e, por isso, decidiu terminar seu relacionamento com ela em função disso. 
Da sua janela, Pino Barilari vê desfilar toda a violência e brutalidade dos fascistas, movimento do qual ele fez parte e com o qual se desencantou inteiramente. 
É o fascismo cometendo os seus crimes e atrocidades e impedindo que as pessoas pudessem se amar e ser felizes. 

Daí, logo depois, Carlo Aterusi tomará a iniciativa de ir até a casa de Pino, a fim de relembrar os velhos tempos em que ambos militavam no movimento fascista, do qual Pino acabou se afastando, e também para avisá-lo de que o mesmo deve ficar em silêncio a respeito das execuções que viu. Na conversa, ficamos sabendo que foi em função do envolvimento com prostitutas que Pino ficou doente e acabou praticamente imobilizado. E Carlo vai embora tendo a certeza de que Pino não dirá nada a ninguém. Mas este sofre por sua fraqueza, que não é apenas física, mas espiritual. 

Enquanto isso, começa a tocar uma popular canção fascista: 'Vincere, Vincere, Vincere' (Vencer, Vencer, Vencer), cuja letra é bastante agressiva, que exalta a violência, defendendo a luta permanente, mesmo que se tenha que morrer para obter a vitória. Vemos também, numa parede, a incrição 'Morte aos Traidores'. 

E muitos 'Camisas Negras' e fascistas vão a uma manifestação em memória de Mario Bolognesi, sem saber, é claro, que o responsável pela morte do líder fascista local foi outro fascista, Carlo Aretusi. 

E a belíssima Anna vai até a farmácia, próxima ao local do comício fascista, e vê o momento em que Aretusi sai de sua casa e cumprimenta Pino, percebendo que eles haviam feito um acordo. Com isso, ela decide ir embora, definitivamente, abandonando Pino. E Luigi, seu funcionário, confessa que sempre havia sido apaixonado por ela, implorando para que ela não vá. E Pino vê tudo isso acontecer e chora. 
Momento em que os 11 defensores da liberdade, que participavam da Resistência, foram mortos pelos fascistas. Este fato realmente aconteceu e ainda hoje os mortos na noite de 14 para 15 de Novembro de 1943 são homenageados. 
Enquanto isso, no comício fascista, ouvimos um discurso em que se fala que a Ferrara purificada representa um alerta para toda a Itália e que esta deve ser aterrorizada.

Depois, vemos uma imagem inédita no filme, mostrando a mesma cidade de Ferrara, mas sem o nevoeiro e o clima soturno e sombrio que estiveram presentes durante quase todo o filme. A imagem é de uma Ferrara ensolarada, pois agora a história se passa muitos anos depois dos acontecimentos que vimos, o regime fascista ficou no passado e a Itália se tornou um país com um sistema liberal-representativo. A época é o final dos anos 1950 e início dos 1960, quando a Itália (bem como todos os países capitalistas desenvolvidos) vivia uma era de prosperidade econômica, que somente terminou com o "Choque do Petróleo", em Outubro de 1973. 

E daí vemos os integrantes de uma família descer de um carro. Trata-se de Franco, sua esposa e seu filho, que fala apenas francês, pois o garoto cresceu na Suíça. Ele vai ao local onde seu pai foi morto pelos fascistas, contando a história para a esposa, dizendo que ele e os outros dez foram fuzilados no dia 15/12/1943, por volta das quatro horas da madrugada. 

Ele vai até a antiga farmácia Barilari e tenta obter informações a respeito de Anna, mas somente fica sabendo que Pino morreu pouco antes do final da Guerra. 

Assim, ficamos sem saber qual foi o destino da jovem, triste e bela Anna.
Anna encontra os corpos dos mortos na calçada, localizada em frente à sua residência. Pino viu tudo acontecer, mas também descobriu, ao vê-la chegar tão tarde em casa, que ela estava tendo um caso com outro homem. 
Franco também encontra Carlos Aretusi, que o cumprimenta de forma animada, perguntando-lhe sobre seu pai (que ele mesmo mandou matar) e por sua família. 

Depois, quando vai embora, sua esposa lhe pergunta quem era aquele. E Franco responde que era uma espécie de 'hierarca fascista' e que o mesmo tornou-se uma figura importante para a 'República de Saló' (como também ficou conhecida a 'República Social Italiana') e que o mesmo era apenas 'um pobre homem, que nunca fez nada de errado'.

E depois vemos uma placa homenageando os membros da Resistência que, naquele dia, 15/12/1943, foram mortos por terem lutado em defesa da liberdade, incluindo o nome de Attílio Villani. 

Fim. 
Anna, cabisbaixa, sozinha e totalmente desolada depois que Franco a abandonou. No fim, o filme termina sem que saibamos o que foi que aconteceu com ela. 
Obs4: Esse comentário final de Franco, a respeito de Carlo, talvez tenha sido a maneira pela qual o diretor, Florestano Vancini, encontrou de mostrar que os antigos fascistas (e também nazistas) já haviam sido reabilitados e reintegrados à sociedade dos países ocidentais no pós-Guerra. 

Afinal, muitos dos antigos membros dos partidos e regimes nazi-fascistas acabaram ocupando cargos importantes nos governos do Ocidente no pós-guerra. Até porque, o mundo vivia a era da Guerra Fria e eles, nazi-fascistas, tinham o conhecimento e a técnica necessária para lutar contra os comunistas. 

Assim, eles tinham se tornado bastante úteis na nova ordem internacional que surgiu ao final da Segunda Guerra Mundial. Logo, não havia mais motivos para ficar lembrando dos crimes e atrocidades que eles haviam cometido. 

Ou então, Franco agiu desta maneira, como que perdoando Carlo, porque ele não lutou contra os fascistas, preferindo fugir para outro país (a Suíça) e que isso, talvez, pese em sua consciência. Assim, ao agir desta maneira, Franco estaria tentando perdoar a ele mesmo. 
Muitos anos depois, Franco volta para Ferrara e reencontra Carlo, o carniceiro fascista e assassino do seu pai. Mas ele diz que o mesmo era apenas 'um pobre homem, que não fez mal algum...'.
Informações Adicionais:

Título: La Lunga Notte del '43 ('A Noite do Massacre');
Diretor: Florestano Vancini;
Roteiro: De autoria de Florestano Vancini, Pier Paolo Pasolini e Ennio De Concini, que foi baseado no conto "Una Notte del '43", que faz parte do livro 'Cinque Storie Ferraresi', de autoria de Giorgio Bassani, adaptado por Florestano Vancini;
Gêneros: Drama, Romance, Político;
Duração: 101 minutos;
Ano de Produção: 1960; País de Produção: Itália;
Elenco: Belinda Lee (Anna Barilari); Gabriele Ferzetti (Franco Villani); Enrico Maria Salerno (Pino Barilari); Gino Cervi (Carlo Aretusi); Nerio Bernardi (Attilio Villani); Rafaela Carrà (Ines, irmã de Franco); Andrea Checchi (Luigi, o farmacêutico); Carlo Di Maggio (Mario Bolognesi); Loris Bazzocchi (Vincenzi); Isa Querio (esposa de Attilio), Alice Clements (Blanche Villani, esposa de Franco);
Prêmios: Melhor primeiro trabalho (Opera Prima) do Festival de Veneza de 1960.

Trailer do Filme: 

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Informações sobre o filme: 

http://www.imdb.com/title/tt0054039/?ref_=ttawd_awd_tt

Texto: Luchino Visconti e a Itália dos anos 1940:

http://www.contracampo.com.br/68/viscontiitalia.htm

Texto de Luiz Carlos Merten sobre a obra de Florestano Vancini:

http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-carlos-merten/requiescant/