domingo, 10 de julho de 2016

'I Delfini' ('Os Delfins'): Uma história de amor que critica a burguesia e seus preconceitos contra os mais pobres! - Marcos Doniseti!

'I Delfini' ('Os Delfins'): Uma história de amor que critica a burguesia e seus preconceitos contra os mais pobres! - Marcos Doniseti!
'I Delfini' ('Os Delfins'), de Francesco Maselli, faz parte de uma trilogia na qual o diretor critica as atitudes, os valores e os preconceitos da burguesia. 'Gli Sbandati' ('Os Refugiados', de 1955) e 'Gli Indifferenti' ('Os Indiferentes', de 1964) completam a trilogia. 
'I Delfini' (1960) é um ótimo filme do diretor italiano Francesco Maselli, que dirigiu excelentes e polêmicos filmes em sua carreira, mas que nunca teve um reconhecimento popular tão significativo quanto o de outros diretores italianos consagrados (Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti, Ettore Scola, Mario Monicelli).

Junto com o excelente 'Gli Sbandati' ('Os Refugiados' - de 1955 - que, no Brasil, ganhou outro título, 'Abandonada') e o interessante, embora mais fraco, 'Gli Indifferenti' ('Os Indiferentes', de 1964), ele forma uma trilogia que trata de temas assemelhados, como a influência dos acontecimentos históricos e das classes sociais sobre os relacionamentos pessoais.


Nos três filmes temos a presença de duas belíssimas atrizes italianas: Lucia Bosé (Miss Itália 1947) atua, brilhantemente, em 'Gli Sbandati' e Claudia Cardinale tem o papel feminino principal em 'I Delfini' e 'Gli Indifferenti', também com ótimas atuações.


Nestas três obras de Francesco Maselli, vemos uma visão bastante crítica do diretor em relação à burguesia italiana, que colabora com o fascismo ('Gli Sbandati'), discrimina os segmentos mais pobres (proletários) da população ('I Delfini') e se aproveita de famílias decadentes e em dificuldades para enriquecer ainda mais e explorar social e sexualmente uma bela jovem (''Gli Indifferenti').

A bela e jovem proletária Fedora, interpretada pela belíssima Claudia Cardinale, sonha em ascender social e economicamente numa sociedade que é rigidamente dividida por classes sociais.
O filme começa com a narração feita por um 'delfin', ou seja, por um membro da rica burguesia de uma cidade do centro da Itália, Ancona, na qual as ruas, construções e palácios estão impregnadas de história, de tradição, de passado. Este personagem, Anselmo Foresi, é quem narra a história que ele vivenciou junto a outros membros da burguesia e do proletariado local durante uns poucos meses do Outono. 

Anselmo explica que há uma rígida divisão de classes na cidade, que é um microcosmo da Itália da época (1960) e que foi um período no qual o país se desenvolvia economicamente, vivendo o chamado 'boom econômico', que iria durar até 1973.

Assim, apesar do crescimento econômico, a Itália continuava rigidamente dividida entre as diferentes classes sociais.

De um lado, havia uma burguesia rica e arrogante, da qual faziam parte os irmãos Anselmo e Elsa Foresi, Marina - a ambiciosa namorada de Anselmo, que deseja acumular ainda mais riqueza - e o exibicionista e conquistador Alberto De Matteis. De outro lado, tínhamos um proletariado que melhorava de vida e ascendia social e economicamente naquele momento de prosperidade econômica. 

Este proletariado ascendente é representado no filme pelo médico Mario Corsi, e um outro segmento, mais pobre, da qual faz parte a jovem e bela Fedora, que é interpretada pela belíssima Claudia Cardinale, que usa da sua beleza para conseguir melhorar de vida. E também temos a representante de uma nobreza decadente (a falida Condessa Margherita Cherè), que somente guarda as aparências da grandeza de outrora, quando os seus antepassados fundaram a cidade.
Namorando com Alberto De Matteis, membro da Nobreza local, Fedora consegue pular o muro alto e invisível das desigualdades sociais e penetrar no mundo dos ricos. 
O filme começa numa fria noite de Novembro, com os jovens, elegantes e ricos burgueses curtindo a vida noturna da cidade e passeando com seus novos, belos e caros automóveis (Ferraris...). É uma autêntica 'burguesia ostentação'. Eles saem de um local, o 'Café Meletti', que é frequentado, exclusivamente, pelos ricos burgueses da cidade. 

E nessa mesma noite vemos Fedora, uma jovem, bela e solitária proletária que ficava, pela janela de sua casa, admirando os jovens burgueses e que sonhava em entrar para o mundo dos mesmos, desfrutando dos mesmos prazeres que eles: roupas caras, mansões, carros sofisticados, frequentando locais exclusivos dos mais ricos.

Mario Corsi, o médico que veio da classe operária, vai atender Marina, que bebeu de forma excessiva e está rindo de forma descontrolada. Quando perguntado sobre qual era o valor do atendimento, ele diz que não é nada, pois será pago pelo Estado, mostrando possuir uma dignidade e uma ética que estão ausentes na burguesia. 

Mario imediatamente chama a atenção de Margherita, a Condessa e dona da casa, que lhe oferece uma carona e diz que já sabe tudo a respeito dele. Ela o leva até um restaurante, que já está para fechar, e comenta a respeito dos frequentadores presentes, sobre os quais ela já sabe tudo, dizendo ainda, de maneira orgulhosa, que seus antepassados fundaram a cidade. 
Fedora, de origem proletária, e Ridolfi, envolvido em atividades ilegais, tentam penetrar no mundo da rica burguesia. Somente ela conseguirá, mas a um preço elevado. 
Mas, para Mario, aquele é um ambiente estranho e ele não sabe nada a respeito, é claro. Daí, chega Ridolfi, que é o líder dos negócios fora da lei que ocorrem na cidade, a qual todos recorrem, mas que ninguém faz questão de demonstrar que são seus amigos. Margherita é uma exceção, mas o motivo disso não é nada nobre e ficará claro mais adiante, no filme. 

Mario está morando, temporariamente na pensão da mãe de Fedora, que mostra conhecer bem os automóveis dos burgueses somente pelos ruídos dos mesmos, e por quem ele se sente atraído. Ela diz que sonha em ir embora para uma cidade grande, a fim de mudar de vida, pois ali há uma rígida divisão social, existindo um muro alto e invisível, entre a burguesia (os delfins, como eram chamados os antigos filhos primogênitos dos reis franceses) e o proletariado. 

A diferença é que a burguesia herdou a sua posição dominante na sociedade e na economia não em função de possuir um trono ou um título de nobreza (como é o caso da Condessa), mas pela riqueza acumulada, explorando o proletariado, é claro. 

Alberto recebe convidados para uma festa em sua mansão e pergunta, para Margherita, sobre Fedora, a qual ele viu junto com Mario. A Condessa diz que Mario aluga um quarto na casa de Fedora e Alberto comenta que espera que a jovem esteja incluída no preço do aluguel, como se a mesma estivesse à venda e pudesse ser comprada, como se ela fosse apenas uma mercadoria. 

Como dizia Karl Marx, no capitalismo, tudo é mercadoria. Afinal, para a burguesia, tudo tem um valor, certo?
Fedora é humilhada por Alberto, um rico esnobe, imoral e desprovido de quaisquer sentimentos verdadeiros por ela. 
Obs1: O diretor Francesco Maselli era marxista, sendo um membro atuante do PCI (Partido Comunista Italiano), daí a sua visão bastante crítica em relação à burguesia e que ele demonstra nesta trilogia ('Gli Sbandati', 'I Delfini' e 'Gli Indifferenti'). 

E a Condessa ironiza a afirmação de Alberto a respeito de comprar 'Fedora', dizendo que sempre gostou dos comentários 'espirituais' do mesmo. Depois, ambos fazem uma aposta, com Alberto falando que conseguirá afastar Fedora de Mario, que foram juntos à festa, deixando o caminho livre para que a Condessa fique com o médico (Mario).

Até mesmo o rico burguês Anselmo acaba sendo alvo de zombarias por parte do próprio pai, por ser muito intelectualizado (admirador de arte e de literatura) e que é extremamente crítico quando aos valores e comportamentos da burguesia. Ele entrará em conflito com o pai empresário e, também, com a namorada burguesa, Marina, em função disso, chegando a abandoná-la, mas no fim acabará nos braços da mesma e irá administrar as empresas da família, adaptando-se à situação. 

Como se percebe, os burgueses retratados no filme de Maselli são pessoas imorais e inteiramente desprovidas de qualquer espécie de ética. 

Durante a festa, Fedora e Mario ficam isolados, sem interagir com os demais, que são de outra classe social, enquanto que Anselmo fica entediado por ser diferente dos outros burgueses. Fedora acaba ficando na festa, enquanto que Mario vai embora, sozinho. E Alberto aproveita para cortejar e tentar seduzir Fedora, que tenta rejeitá-lo, mas que acaba cedendo, beijando-o intensamente. É o Don Juan em ação, querendo ganhar a aposta que fez com a Condessa. 
Momento do filme em que os amigos lavam a roupa suja em público, com várias verdades vindo à tona.
Quando Fedora retorna da festa, ela vê Mario fazendo a mala e se preparando para ir embora, devido ao fato dela não ter voltado junto com ele. Ele diz que a amava, de verdade, mas que ela, agora, está conseguindo pular o muro, ou seja, entrar no mundo dos 'Delfins', dos ricos burgueses. Afinal, ela se envolveu com Alberto De Matteis, que lhe telefonou várias vezes. 

Numa manhã de Domingo, os jovens ricos burgueses estão reunidos no 'Café Meletti', junto com Fedora, a nova integrante do grupo e que mantém um silêncio e que tem uma postura corporal que demonstram claramente um nítido sentimento de inferioridade em relação àqueles ricos burgueses, agindo como uma mera intrusa naquele mundo que lhe é totalmente estranho. 

Eles comentam sobre o fato de que Elsa recebe, frequentemente, flores de um admirador secreto, falam sobre o casamento de Guglielmo e Elsa e Alberto encontra Mario, ao qual provoca, perguntando porque ele está tão triste (refere-se, é claro, ao fato dele ter conquistado Fedora). Mario se irrita e ameaça agredí-lo e Alberto se propõe a brigar com o mesmo. 

Mas a Condessa chega, para conversar com Mario, e Alberto volta para o grupo de amigos. Depois, ela e Mario chegaram a ter um romance, de breve duração, pois Mario admite que não conseguiu esquecer de Fedora. Elsa, por sua vez, tem momentos de melancolia e de tristeza, mas sem que consiga explicar os motivos disso. E Anselmo vê a sua mãe chegando cedo, às 6 horas da manhã, depois de passar todo a noite fora de casa, com outro homem (Mattioli), traindo o marido de maneira explícita. Anselmo fica nervoso com isso, mas Elsa pergunta se ele ainda não conhece a mãe que possui.
O arrogante e imoral Alberto De Matteis exibe a sua futura esposa, como se ela fosse um troféu que ele acabou de conquistar.
O grupo de amigos vai até a estação ferroviária esperar pelo retorno de Marina, que ficou vários meses numa clínica de recuperação na Suíça e durante a espera eles entram em conflito, lavando a roupa suja em público: Anselmo estapeia a irmã, Elsa, por seu comportamento infantil; Anselmo também critica o comportamento exibicionista de Alberto e seu relacionamento com Fedora, que seria apenas parte de um jogo, não envolvendo nenhum sentimento entre eles; Elsa critica a Condessa, por esta ter se aproximado de Ridolfi, que é uma pessoa vulgar, não entendendo o motivo disso. 

Marina desce do trem, pergunta se está mudada e Anselmo a beija. Á beira-mar, junto com Marina, Anselmo fala, em sua narração, que nunca foi tão feliz como naquela tarde, quando decidiu largar tudo, abandonar aquela vida triste e melancólica, indo embora da Itália, junto com Marina. 

Porém, Marina fala que com 20 anos já é dona de 2 mil hectares de terra, de uma fábrica de tecidos, de terrenos à beira-mar... Ela informa que deseja ir morar, com ele, em Modena, pois comprou 30% das ações da indústria do pai de Anselmo. Mas este não gosta disso, pois diz que eles haviam combinado de romper com essa vida burguesa, para serem eles mesmos, rompendo com os valores da classe capitalista. 

Ela insiste para que fiquem juntos, mas Anselmo a abandona, decidindo ir embora sozinho, falando que ela pode ir embora para Modena.

Obs2: Gostei muito desta cena, na qual Gerard Blain e Ana Maria Ferrero tiveram uma ótima atuação. 
Marina e Anselmo, juntos, tomam decisões totalmente diferentes e acabam se separando. Ele anseia por sair desse mundo de aparências e vazio da burguesia, no qual é infeliz. Ele tentará fazer isso, mas será por pouco tempo. 
Enquanto, isso Alberto corre feito um alucinado em sua Ferrari, com Fedora ao seu lado, correndo riscos desnecessários, apenas para se exibir. A avaliação do seu comportamento, tipicamente narcisista, feita por Anselmo se revela mais acertada do que nunca. 

Depois de fazer amor com Alberto, ela diz que o mesmo nunca falou que a ama, ele dá risada, fazendo comentários depreciativos sobre os sentimentos, chegando a dizer para a namorada que não sabe do que ele gosta mais, se dela ou da Ferrari. 

Alberto ainda diz que a postura envergonhada dela é igual a de tantas outras mulheres que ele já conquistou. Sentindo-se desprezada, ela decide ir embora sozinha, mas ele fala que irá pedir por outra mulher, para ficar no lugar dela, adotando uma postura arrogante e de total desprezo por Fedora. Ela o questiona o motivo dele agir assim. 

Alberto fala que ela sabe que é assim que os relacionamentos são entre eles, totalmente vazios, sem quaisquer sentimentos envolvidos. E ele ainda joga na cara dela que todos na cidade viram eles saindo juntos e que se ela for abandonada, tal como o pai dela fez com a mãe, ela será menosprezada por todos. Ela abaixa a cabeça e fica em silêncio.

O comportamento de Alberto torna bem claro o seu total desprezo pela origem pobre de Fedora, bem como a sua total falta de caráter ou de sentimentos, chegando até a se gabar disso. 

Em sua narração, Anselmo diz que não se espantou quando ficou sabendo do desencanto de Fedora com Alberto e que via o relacionamento deles como sendo um grande erro, e que também não ficou surpreso quando Fedora decidiu continuar com Alberto, mesmo sendo humilhada por este, pois tal atitude não era incomum naquela cidade. 
Mario e Fedora se amam, mas uma série de obstáculos (sociais e familiares) irá dificultar o seu relacionamento. 
E Anselmo se prepara para sair de casa, indo morar, temporariamente, na casa da Condessa, enquanto planejava ir embora, em definitivo. Seu pai tenta convencê-lo a ficar, mas eles discutem a respeito da origem suspeita da fortuna do pai, que herdara tudo de um amigo judeu, na época em que foi levado para a Alemanha. Anselmo sabia, também, que sua irmã, Elsa, iria sentir muito a sua ausência, pois não teria mais com quem conversar a respeito dos momentos de tristeza e melancolia que a atingiam com frequência. 

Anselmo, já na casa da Condessa, tenta beijá-la, mas ela o rejeita, dizendo que aquilo não será bom para nenhum dos dois, sendo que ela admite que ainda não esqueceu de Mario. A Condessa também questiona Anselmo sobre o motivo dele ainda não ter ido embora. 

Anselmo explica que ali, em Ancona, ele carrega uma marca de nascença, que está relacionado ao fato de pertencer a uma certa família e de ser de uma determinada classe social e que isso o impede de se relacionar com as pessoas, pois elas não o vêem como ele é, realmente. É o muro alto e invisível sobre qual a Fedora falou no início...

Anselmo também diz que gostaria de ter mais forças e coragem para romper com tudo, mas que sequer possui dinheiro para ir embora. E a Condessa admite que possui dívidas com Ridolfi, mas que irá resolver isso oferecendo a mão dela e a sua posição social para o seu credor, casando-se com ele. 
Momento em que Mario e Fedora estão prestes a se beijar...
Ela informa Anselmo que Ridolfi é apaixonado por Elsa, a quem sempre envia flores, e que ele usará o casamento para entrar no restrito círculo social elitista do qual ela, Anselmo, Alberto e Elsa são membros. Anselmo fica preocupado com a reação de Elsa e vai atrás dela, que está junto com Ridolfi. Este fala que não se casará com a Condessa. Anselmo se envolve em um leve acidente de carro e decide permanecer na cidade, colocando um fim ao seu ato de rebeldia. Ele volta a viver com a sua família, passando os dias em um tédio absoluto, sem nada para fazer. 

Obs2: No quarto de Anselmo, vemos uma reprodução de 'Guernica', o famoso quadro de Pablo Picasso a respeito do massacre cometido por aviões da Alemanha Nazista contra a população dessa pequena cidade espanhola, em Abril de 1937, durante a Guerra Civil que assolou esse país entre 1936-1939 e que terminou com a vitória de Francisco Franco, que contou com o decisivo apoio de Hitler e Mussolini. 

Anselmo também fica sabendo, por meio da Condessa, que Fedora está grávida de Alberto, mas ela não o ama e, em função disso, está decidida a terminar o relacionamento com o mesmo, que é pressionado pela mãe, por sua vez, a se casar com a jovem e bela proletária, a fim de evitar um escândalo na cidade. 

Mas Alberto também não deseja se casar e pensa em dar dinheiro para se livrar de Fedora e do filho, mas acaba concordando com a ideia do casamento, planejando se transformar um jovem e sério industrial, com as suas amantes, é claro, mas agindo de maneira discreta, a fim de evitar escândalos.

O cinismo, a falta de ética e de moral de Alberto De Matteis são inacreditáveis, embora sejam bem realistas.
Quando se tratava de beijar Alberto, que a desprezava, Fedora resistia...
E a Condessa decide dar uma festa de despedida, pois está indo para o México, convidando aos amigos para a mesma. Enquanto eles dançam.  Fedora e Mario trocam olhares intensos, o que leva Alberto a ficar muito irritado, fazendo com que tente forçar Fedora a beijá-lo. Ela se recusa e ele a estimula a beijar Mario. Estes trocam um beijo apaixonado, típico de quem se ama intensamente. Alberto se irrita e começa a brigar com Mario. Este se despede da Condessa e vai embora. 

E no final da festa, os participantes descobrem a razão da sua saída da cidade: Ela está falida e quase todos os móveis e bens da casa foram vendidos ou embargados, a fim de pagar as dívidas que acumulou com Ridolfi e com outras empresas. Assim, a Condessa acaba sendo desmascarada, pois é pobre e, logo, enganou a todos. Ela os expulsa da casa e eles vão embora, enquanto que Mario e Fedora passam a noite juntos, conversando pelas ruas de Ancona. 

Ele tenta convencê-la a ficarem juntos, mas ela diz que mudou, que não sabe mais o que é certo ou errado, falam em casamento. Eles combinam de se encontrarem no 'Café Meletti', o preferido dos ricos burgueses, no horário de almoço, e ele diz que irão entrar no local de forma altiva. Mas quando ela chega em casa e vê a mãe chorando, dizendo que não resistirá a outro escândalo, Fedora pede que ela não chore, enquanto ela mesma começa a chorar. 

Nesta cena, percebe-se que Fedora tomou uma decisão, e que a mesma não irá agradar a Mario e nem a ela mesma. Quando ela vai ao 'Café Meletti', com uma expressão triste, e Mario se levanta para recebê-la, ela o ignora e vai na direção de Alberto e dos amigos. Guglielmo e Elsa falam sobre seu casamento e ela pergunta se Ridolfi ouviu. Este diz 'O mundo é vosso', referindo-se à burguesia, é claro, que por mais imoral e anti-ética que seja consegue se manter como a classe dominante na sociedade. 

E Anselmo conclui a sua narração perguntando o que foi que mudou neles durante aquele Inverno, mas não tem uma resposta para isso. Ele fala que Alberto e Fedora, bem como Guglielmo e Elsa, já se casaram e que, agora, ele e Marina irão fazer o mesmo, dentro de uma semana. Ele se pergunta se, antes, eles não estavam vivos e que, agora, eles cederam. Ele diz que o seu casamento seguirá a tradição e que às 8 horas ele deverá estar na fábrica.

Assim, tudo continua como antes em Ancona...

Fim. 
No fim, a Condessa é humilhada por seus amigos ricos, quando estes descobrem que ela está falida e, de fato, é pobre. 
Informações Adicionais:

Título: I Delfini ('Os Delfins');
Diretor: Francesco Maselli;
Roteiro: Ennio De Concini, Francesco Maselli, Alberto Moravia e Ageo Savioli;
Fotografia: Gianni Di Venanzo; 
Trilha Sonora: Giovanni Fusco;
Ano de Produção: 1960; País de Produção: Itália;
Duração: 100 minutos;
Elenco: Claudia Cardinale (Fedora); Tomas Milian (Alberto De Matteis); Gerard Blain (Anselmo Foresi); Anna Maria Ferrero (Marina Castelfranco); Sergio Fantoni (Mario Corsi); Betsy Blair (Condessa Margherita Cherè); Enzo Garinei (Guglielmo Bodoni); Nora Bellinzaghi (Mãe de Fedora); Antonella Lualdi (Elsa Foresi); Claudio Gora (Ridolfi); Giulio Tomei (Mattioli); Germana Paolieir (Mãe de Anselmo e Elsa Foresi).


Links: Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0053756/?ref_=fn_al_tt_1

O que é mercadoria, para Karl Marx?:

http://midiacidada.org/o-que-e-mercadoria-para-marx/

Trecho do filme: 

domingo, 3 de julho de 2016

'Gli Sbandati' ('Os Refugiados') é um belo filme sobre o amor, a guerra e as diferenças de classe na Itália fascista! - Marcos Doniseti!

'Gli Sbandati' ('Os Refugiados') é um belo filme sobre o amor, a guerra e as diferenças de classe na Itália fascista! - Marcos Doniseti! 
'Gli Sbandati' ('Os Refugiados'; 1955) foi o primeiro longa-metragem da carreira de Francesco Maselli, que conta uma história de amor em meio a Segunda Guerra Mundial. As diferenças de classe tornam tudo mais difícil no relacionamento entre Andrea e Lucia (brilhantemente interpretada pela belíssima atriz, e ex-miss Itália de 1947, Lucia Bosé).

A produção de Gli Sbandati!

"Gli Sbandati" foi o primeiro (e excelente) filme do diretor italiano Francesco Maselli, que tinha formação neorrealista e que, na época em que o dirigiu tinha apenas 26 anos. Cinco anos depois, Maselli fez um outro excelente filme, que foi 'Il Delfini' ('Os Delfins', de 1960), no qual contou com a participação de outra lindíssima atriz (Claudia Cardinale). 

Em 'Il Delfini' também tivemos o desenvolvimento de uma trama a respeito de um tema que já havia aparecido em 'Gli Sbandati', que é o fato das desigualdades sociais dificultarem e até impossibilitarem as histórias de amor entre as pessoas em função da hegemonia dos valores da burguesia na sociedade. 

Esse tema, inclusive, também voltaria a ser trabalhado por Maselli em 'Gli Indifferenti' ('Os Indiferentes', produzido em 1964), onde novamente o diretor trabalhou com a belíssima Claudia Cardinale, mas cujo resultado final não foi tão bom quanto o dos dois filmes anteriores. 

Então, de certa maneira
, estes três filmes de Maselli estão conectados em suas histórias e formam uma espécie de 'Trilogia dos Valores Burgueses'. 

Antes deste belo 'Gli Sbandati' o cineasta Francesco Maselli tinha dirigido vários documentários, realizados entre 1949 e 1954, e também havia trabalhado como assistente de Michelangelo Antonioni (em Cronaca di um Amore, em 1950, e em La Signora Senza Camelie, em 1953), de Luciano Emmer (Le Ragazze di Piazza di Spagna, 1952) e de Luchino Visconti em um segmento do filme Siamo Donne ('Nós, as Mulheres', 1953) e também na condição de assistente.

A Condessa Luisa e Ferruccio apoiam os Nazi-Fascistas e agem em favor dos mesmos. Assim, por meio destes personagens, o diretor Maselli mostra que uma parte da Burguesia italiana manteve o seu apoio ao Nazi-Fascismo mesmo depois que a Itália foi invadida pelos Aliados (comandados pelos EUA e pela Grã-Bretanha).

Estes trabalhos anteriores dos quais ele participou mostram claramente que a formação de Maselli como cineasta se deu na 'escola' do Neorrealismo cinematográfico italiano, do qual estes três brilhantes cineastas também foram integrantes. E a influência do Neorrealismo é bem evidente neste clássico filme. 

Aliás, Luchino Visconti ajudou (financeiramente) a produzir 'Gli Sbandati', cuja realização foi dificultada, na época, em função da censura e perseguição que era promovida pelo governo conservador do Partido Democrata-Cristão contra os filmes que eram realizados por diretores Neorrealistas, que eram quase todos ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano). 

O PCI era o principal partido de oposição e também foi o segundo maior partido italiano entre 1948 e 1991, quando se dissolveu, de maneira incompreensível, pois ainda era muito bem votado, sendo que alcançou os 27,6% dos votos em sua última eleição, para o Parlamento Europeu, em 1989, mantendo a sua condição de segundo maior partido do país. Apesar disso, os cineastas ligados ao PCI nunca foram bem vistos pelo governo direitista italiano. 


E este era justamente o caso de Francesco Maselli que, em seus filmes, fazia duras críticas à Burguesia italiana devido ao fato de que a mesma, durante muito tempo, apoiou o regime Fascista liderado por Benito Mussolini, que beneficiou imensamente aos Grandes capitalistas do pais. Em função disso o filme contou com um orçamento bastante limitado e isso explica o fato de que ele tenha uma duração de apenas 75 minutos, embora a história fosse muito boa e permitia que o filme durasse muito mais.

O regime Fascista liderado por Mussolini reprimiu brutalmente o movimento operário e arrochou os salários dos trabalhadores, o que fez com que o povo italiano continuasse vivendo na pobreza. Os problemas sociais continuaram existindo, incluindo  o desemprego, a criminalidade, fome, miséria, o que se combinava com a corrupção e ineficiência do regime Fascista.

E também é interessante notar que a protagonista de Gli Sbandati é a belíssima Lucia Bosé, que tinha 24 anos quando participou deste filme, que também havia atuado em três destes filmes nos quais Maselli trabalhou (os dois que foram dirigidos por Antonioni e o de Luciano Emmer). 
 Andrea, integrante da nobreza capitalista italiana, se apaixona pela jovem, bela e sensual Lucia, de origem proletária. O fato de pertencerem a classes sociais distintas irá dificultar o relacionamento deles. 

O contexto histórico!

A história do filme se desenvolve durante a Segunda Guerra Mundial, durante o Verão de 1943 (Junho-Setembro), num momento em que a Itália está sendo invadida pelas forças militares dos Aliados (lideradas pelos EUA e Grã-Bretanha). Com isso, nos meses subsequentes, uma área crescente do território italiano (o Sul e a maior parte da região Central) acabou caindo sob o domínio das forças Aliadas.

Obs1: O Brasil criou a FEB (Força Expedicionária Brasileira), enviando 25 mil soldados para lutar na Itália, sob o comando do Exército dos EUA. O fato do país ter lutado contra as ditaduras Nazi-Fascistas de Hitler e Mussolini na Europa contribuiu bastante para que a ditadura do 'Estado Novo' fosse derrubada em 1945. 

A Itália era uma aliada da Alemanha Nazista desde que entrara na Guerra, em 10/06/1940, sendo que era muito bombardeada pelos Aliados em função disso. A invasão aliada da Sicília começou em 10/07/1943 e resultou na derrubada da ditadura Fascista e na prisão de Mussolini, o que ocorreu em 25 de Julho de 1943. E o novo governo do país (liderado pelo Marechal Badoglio) decidiu assinar (em 08 de Setembro de 1943) um armistício e passar para o lado dos aliados.

É bom ressaltar que tivemos a participação, no elenco do filme, de vários futuros diretores de cinema, como são os casos de Giuliano Montaldo (que fez 'Giordano Bruno', produção de 1973, e 'Sacco e Vanzetti', de 1971) e de Jean-Pierre Mocky (que interpreta Andrea). Eriprando Visconti, um dos roteiristas do filme de Maselli, também se tornou diretor posteriormente. 
A belíssima Lucia Bosé interpreta Lucia, uma jovem proletária que se envolve romanticamente com Andrea, que é um rico membro da Nobreza Capitalista de Milão. 
Obs2: A bela fotografia do filme, de autoria de Gianni Di Vennanzo, realça o clima meio que fantasmagórico da região, com suas fortes neblinas, localizadas no Vale do Rio Pó, o que reflete também o clima político e social, nebuloso, de indefinição política e ideológica, que caracterizava a Itália nos meses iniciais após a invasão do país pelos Aliados.  

Porém, na região Norte do país, tivemos a invasão promovida pelos alemães, que libertaram Mussolini e implantaram a chamada 'República Social Italiana', também conhecida por 'República de Saló' (nome da cidade que foi escolhida para ser a capital da RSI), que foi um governo Fascista fantoche que era inteiramente dominado pela Alemanha Nazista.

Mussolini não mandava nada neste governo, sendo mantido, literalmente, em prisão domiciliar pelos nazistas alemães, que tomavam todas as decisões. 
Carlo, Andrea e Lucia. O primeiro era um amigo de Andrea e que rejeitava o Fascismo. Enquanto isso, Andrea e Lucia tentavam levar um relacionamento que era marcado pelas fortes diferenças classistas. 


Neste período, a rica cidade de Milão, uma das mais industrializadas do norte da Itália, estava sob domínio Nazi-Fascista e era constantemente bombardeada pelos Aliados. Isso fez com que a família de uma Condessa (Luisa), que é simpatizante do Nazi-Fascismo, buscasse refúgio na sua propriedade rural, que fica numa pequena e isolada vila (Malga), localizada nas proximidades de Milão.

Nesta região, as comunicações telefônicas com a grande e rica cidade industrial estão interrompidas e a população local não fica sabendo praticamente nada sobre o que está acontecendo no país. As informações chegam por meio do rádio, mas elas são vagas e genéricas, sem entrar em detalhes sobre o que, afinal, está ocorrendo na Itália.

Obs3: O filme mostra, muito bem, o quanto os italianos ainda estavam divididos, em termos classistas, neste momento da Segunda Guerra Mundial, sendo que uma parte da elite italiana ainda simpatizava com o Nazi-Fascismo e colaborava com o mesmo, enquanto que as camadas populares já estavam intensamente envolvidas com a Resistência anti-fascista. Não é à toa, portanto, que é a proletária Lucia quem vai pedir a colaboração do nobre capitalista Andrea para que o mesmo ajude os soldados italianos que fogem dos nazistas alemães, enquanto que o nobre burguês Ferruccio vai dedurá-los para os governantes fascistas da vila e a Condessa irá pedir a ajuda dos alemães. 

Andrea e Lucia voltaram a se ver depois que ela foi pedir a ajuda dele para proteger os soldados italianos fugitivos. E o romance entre eles recomeçou. 

A trama do filme!

A guerra na região norte, na qual os Fascistas continuam sendo aliados dos Nazistas, faz com que um número crescente de pessoas fuja do conflito, deslocando-se para as regiões mais afastadas, longe dos locais em que a guerra se desenvolve, como é o caso da pequena vila na qual transcorre a história do filme. 

Nesta vila, algumas famílias locais acabam por dar abrigo às famílias de refugiados, que fogem da guerra, permitindo que vivam temporariamente no lugar. Uma destas famílias de refugiados é a da belíssima Lucia, de origem proletária, que acaba sendo abrigada por uma família da nobreza capitalista local, liderada pela Condessa Luisa. 

Embora a Condessa Luisa (proprietária de indústrias, ou seja, é uma nobre capitalista) desaprovasse a ideia de abrigar os refugiados, seu jovem filho, Andrea (de 20 anos), acaba por aceitar que Lucia (interpretada pela lindíssima atriz Lucia Bosè) e seus parentes fiquem em sua propriedade.

Em pouco tempo, o jovem Andrea começa a demonstrar um forte interesse pela belíssima Lucia, apaixonando-se pela mesma, o que o leva a abandonar a sua namorada de perfil mais burguês.

Porém, as diferenças de classe social fazem com que Andrea se afaste da jovem Lucia, uma sensual e linda proletária, que trabalhava em uma empresa que fabricava caixas, fato este que era motivo de desprezo para um membro da nobreza capitalista, como era o caso dele, Andrea. Esse desprezo levou Lucia e lhe dar uma bela lição de moral, dizendo que graças ao dinheiro que ganhava com aquele trabalho ela ajudava a sua família. 


Na parede, ao fundo, vemos três palavras que compunham o slogan do regime Fascista, que é "Acreditar. Obedecer. Combater". Porém, as sucessivas e humilhantes derrotas sofridas pelas Forças Armadas italianas desmoralizaram completamente o Fascismo e derrubaram a popularidade que, antes da Itália se envolver na Guerra, Mussolini ainda desfrutava.  

Andrea, apesar de inegável paixão por Lucia, não consegue admitir o que sente pela jovem e bela proletária, nem para a sua mãe e tampouco para os seus amigos mais próximos (Carlo e Ferruccio). Carlo é filho de um líder fascista, mas não é adepto da ideologia do pai e, de fato, critica fortemente o Fascismo e se integra à luta da Resistência italiana contra o governo ditatorial de Mussolini. Ele diz que o Fascismo destruiu a Itália e que a nova geração, da qual ele faz parte, é que terá que reconstruir o país.

Outro amigo de Andrea é o esnobe Ferruccio, que é amigo e bajulador da Condessa Luisa e é filho de um nobre que luta na Cavalaria italiana na Croácia, uma nação aliada dos países do Eixo, principalmente da Alemanha Nazista. Na Croácia existiu um violentíssimo movimento de Extrema-Direita, que foi a Utashe, que promoveu massacres horrendos contra os outros povos da então Iugoslávia, principalmente contra os Sérvios. Tais massacres nunca foram esquecidos e contribuíram para que sérvios e croatas se enfrentassem em uma guerra brutal, que se desenvolveu entre 1995-1995.

Andrea até chega a convidar Lucia para ir até a sua casa, a fim de 'ouvir as notícias da Rádio Londres' (que transmitia informações sob a perspectiva dos Aliados, o que era proibido pelo regime Fascista), mas acabou por dispensá-la, humilhando-a perante todos, o que fez com que ela se afastasse inteiramente dele por um bom período de tempo. 

E mesmo depois disso, quando voltou a encontrá-la, ao ser questionado por Lucia sobre o motivo que o havia levado a agir daquela maneira, ele assumiu que isso acontecia em função das diferenças de classe que existia entre eles. Isso faz com que Lucia se afaste dele novamente, recusando-se a encontrá-lo.

Andrea sofre intensamente em função do fato de não conseguir superar as restrições sociais (classistas) e familiares, visto que a sua mãe, uma Condessa, repudia o seu relacionamento com uma jovem proletária. 
Atores Marco Guglielmi (esquerda), Franco Lantieri (centro) e Fernando Birri (direita) interpretam soldados italianos fugitivos que recebem a ajuda de Andrea. Mas a mãe deste, a condessa Luisa, é uma aliada dos Nazi-Fascistas.

Porém, um fato que está diretamente ligado à Guerra irá mudar o relacionamento entre ambos. Na época, muitos soldados italianos estavam desertando, recusando-se a lutar ao lado dos alemães (Milão estava sob o governo da República fascista - chamada de República de Saló - dominada pelos nazistas). E aqueles italianos desertores que eram feitos prisioneiros pelos alemães eram levados, em ferrovias, para a Alemanha. 

Obs4: Essa prisão de soldados italianos que eram levados para a Alemanha nazista aconteceu após o governo do Marechal Badoglio ter passado para o lado dos Aliados, decisão que foi tomada em 08 de Setembro de 1943. 

Um grupo desses desertores conseguiu, porém, fugir do trem que os levava para a Alemanha e se espalhou justamente pela região da vila onde estavam Andrea, Lucia e seus familiares. Vários dos soldados foram mortos ao tentar fugir e um deles acaba se ferindo, necessitando urgentemente de atendimento médico. 

Com isso, Lucia vai até a casa de Andrea, a fim de pedir a sua ajuda. Ele concorda e manda levar o soldado fugitivo ferido para a sua casa. Junto, vão outros soldados fugitivos, que discutem a respeito do que deveriam fazer. A maioria deles decide tentar fugir do local, embora um deles tenha decidido voltar para a sua cidade de origem, a fim de ficar com a sua família. 

Ferruccio, o irônico, reacionário e brincalhão membro da nobreza, tal como a Condessa Luisa, é contra a permanência dos soldados na casa, discute com Andrea e vai até a prefeitura informar os governantes fascistas sobre a presença dos soldados fugitivos no local.
  Francesco Maselli: Um talentoso diretor italiano que era ligado ao PCI. Ele é considerado o último grande diretor Neorrealista italiano vivo.   
Mas o soldado que havia decidido retornar para a sua família viu Ferruccio sair da prefeitura, concluindo que o mesmo tinha contado aos governantes fascistas sobre a presença dos soldados fugitivos na casa de Andrea, levando-o a voltar para o local e informar os demais. Sabendo do fato, Carlo e Lucia também decidem ir embora, a fim de fugir dos Nazi-Fascistas, sendo que Andrea estava decidido a ir junto com eles. 

Um pouco antes dos três saírem, no entanto, chega a condessa Luisa, junto com um oficial alemão. Este ordena aos soldados que poupem a casa dela e que vão atrás dos soldados fugitivos. A condessa implora e acaba convencendo o filho, Andrea, a ir embora, com ela, para a Suíça, lembrando-o das suas responsabilidades com a família, acom s empresas desta, bem como com a classe social a que ele pertence. 

Lucia olha para Andrea, com um olhar sofrido, e chora, naquela que é a mais bela cena do filme, pois mesmo sem que Andrea diga nada, ela percebe que ele a está abandonando.

Obs5: Quando o filme foi exibido no Festival de Veneza de 1955, a cena de Lucia Bosé, chorando, fez o público aplaudí-la em pé. Consta que ela somente não ganhou o prêmio de melhor atriz devido ao fato de ter sido dublada no filme, embora seja de nacionalidade italiana. 

Logo depois, vemos Andrea no carro, indo embora com a mãe, enquanto ele ouve, desesperado e chorando, os tiros que matam Lucia. E daí vemos um soldado alemão virando o corpo dela, com o pé, já sem vida. Fim.
A bela Lucia chora quando vê que Andrea não irá embora com ela, preferindo ficar com a mãe e, assim, que pede que ele continue com a família, a fim de poder administrar as empresas da mesma. Assim, Andrea acaba escolhendo os interesses classistas em vez do amor por Lucia. 

Informações Adicionais!

Título: Gli Sbandati (Os Fugitivos ou Os Refugiados; traduzido no Brasil, de forma equivocada, como 'Abandonada');
Diretor: Francesco Maselli;
Roteiro: Francesco Maselli, Eriprando Visconti e Ageo Saviolli;
Duração: 75 minutos;
Ano de Produção: 1955; 
Países de Produção: Itália e França;
Elenco: Lucia Bosé (Lucia); Jean-Pierre Mocky (Andrea); Leonardo Botta (Ferruccio); Anthony Steffen (Carlo); Isa Miranda (Condessa Luisa); Giuliano Montaldo (Soldado fugitivo, originário da Toscana); Ivy Nicholson (namorada de Andrea); Franco Lantieri (soldado fugitivo, originário do Veneto); Mario Girotti/Terence Hill (soldado ferido). 
Prêmio: Diretor Mais Promissor no Festival de Veneza de 1955.

Link: Informações sobre o filme: 

http://www.imdb.com/title/tt0048585/?ref_=fn_al_tt_3

Votação do PCI nas eleições italianas (1921 a 1991):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Comunista_Italiano

Trailer do filme:

terça-feira, 28 de junho de 2016

"La Notte Brava" mostra a noite selvagem de jovens proletários em busca de vida e sonhos na Roma do 'milagre econômico'! - Marcos Doniseti!

"La Notte Brava" mostra a noite selvagem de jovens proletários em busca de vida e sonhos na Roma do 'milagre econômico'! - Marcos Doniseti! 
"La Notte Brava" (1959): Filme de Mauro Bolognini conta uma história cujo roteiro foi escrito por Pasolini e mostra a 'vida louca vida' dos jovens italianos no final da década de 1950.
O filme 'La Notte Brava' ('A Noite Selvagem') é, com certeza, um dos melhores deste ótimo cineasta italiano, Mauro Bolognini, que dirigiu outros filmes muito bons, como 'La Giornata Balorda' (1960), 'La Viaccia' (1961) e 'Senilità' (1962). 

Como se percebe, os seus melhores filmes foram todos realizados nos anos 1960, na Era de Ouro do Cinema italiano. 

O roteiro do filme foi baseado em um pequeno livro de Pier Paolo Pasolini, 'Ragazzi di Vita' ('Meninos da Vida'), que também escreveu o roteiro, junto com Jacques-Laurent Bost. A fotografia, a trilha sonora, o excelente roteiro e a ótima atuação dos atores são alguns dos destaques deste excelente filme de Mauro Bolognini. 

A trama do filme!

A história do filme é relativamente simples e trata de um grupo de três amigos de origem humilde e proletária (Ruggero, Scintillone e Gino Bellabella) que saem pela noite de Roma a fim de desfrutar da vida com a máxima intensidade. E é claro que eles irão passar por inúmeras situações perigosas e emocionantes, até porque nenhum deles trabalha e vivem todos de pequenos roubos, revendendo o produto dos mesmos para receptadores. 

E assim eles irão se envolver com prostitutas, receptadores, três jovens amigos, típicos 'rebeldes sem causa' que fazem parte da rica burguesia romana, bem como frequentadores abastados e mais velhos de sofisticados night clubs, entre muitos mais que vivem e desfrutam da vida noturna da capital da Bota. 
Gino (dirigindo o carro), Supplizia e Ruggero aproveitam uma parte do sonho que a vida noturna de Roma de 1960 oferece. 
A trama do filme se desenvolve numa época, 1959/60, em que a Itália estava vivendo o seu 'boom econômico', que atravessaria toda a década de 1960, chegando até 1973, quando foi interrompido pelo primeiro 'Choque do Petróleo'. Entre 1951-63 o PIB italiano cresceu à media anual de 5,8% e entre 1964-73 a expansão foi de 5% ao ano, em média. 

Assim, a Itália, bem como todo o Ocidente capitalista, viveu aquele período que foi definido pelo historiador britânico Eric Hobsbawm como a 'Era de Ouro' do Capitalismo, que durou da adoção do Plano Marshall (1948) até o primeiro 'Choque do Petróleo' (1973), ou seja, 25 anos. 

Além do 'Plano Marshall', a criação da OTAN, a Guerra da Coréia, a criação do MCE (Mercado Comum Europeu) e a Guerra do Vietnã também contribuíram fortemente para que tivéssemos esse longo processo de crescimento econômico do mundo capitalista desenvolvido, incluindo a Itália. 

Tal expansão transformou radicalmente o cenário econômico, social e cultural da Itália, que passou da condição de um país predominantemente atrasado, pobre e rural para a condição de uma das grandes potências industriais do mundo, chegando a integrar o G-7. 

Mas na época em que o filme foi produzido (1959) ainda se mostra um resquício das desigualdades sociais e da pobreza que existia na Itália e que aumentou bastante em função do envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial. Nesta, a Itália entrou na Guerra ao lado da Alemanha Nazista (Junho de 1940) e passou para o lado dos Aliados em Julho de 1943, após derrubar o ditador Mussolini. Mas somente em Abril de 1945 é que os nazistas foram expulsos do país em caráter definitivo. 
Gino, Ruggero e Scintillone discutem a respeito de como irão se desfazer das armas que roubaram, pois enfrentam dificuldades para conseguir vendê-las. 
A aventura começa com dois dos três amigos, Scintillone e Ruggero, que procuram por duas prostitutas (Anna e Supplizia), que pretendem usar como um disfarce para poder repassar o produto do seu roubo. Acompanhados das mesmas, eles vão até a casa de um receptador de produtos roubados, Mosciarella, mas o mesmo não se compromete a comprar nada da dupla naquele momento, pois a sua esposa acabou de falecer (e ele tem que, pelo menos, fingir que está triste com a morte da mesma, como o faz na cara-dura). 

No funeral, porém, eles conhecem outro vigarista, Gino 'Bellabella' (sobrinho de Mosciarella) que se apresenta como alguém que poderá levá-los a comprar os 'produtos' que a dupla roubou (armas) e que, desta maneira, se junta à dupla. Porém, Gino fracassa, já que o seu comprador não tem dinheiro para nada. 

Mas uma das garotas, Anna, fala que conhece alguém que poderá comprar os produtos do roubo e os leva até a casa de um 'surdo-mudo' que, naquele momento, se faz acompanhar de outra prostituta, Nicolleta. Eles conseguem vender as armas (por 100 mil Liras) e ficam de dividir o dinheiro entre si posteriormente. Além disso, o trio de marginais combina de se divertir com as garotas e, depois, pegar o dinheiro, e largá-las no meio do mato, abandonando-as. 

Mas ao levar as três belas garotas (Anna, Supplizia e Nicoletta) para um passeio no meio de uma mata, eles acabam tendo o dinheiro roubado por uma delas. Embora eles voltem ao local (a avenida Lungotevere, local onde as prostitutas se reúnem à espera dos clientes) onde as pegaram (Anna e Supplizia). Mas é claro que eles não vão encontrá-las ali tão cedo. 
Supplizia e Anna, no banco de trás. Se pudessem, elas teriam uma outra vida, sem que fosse necessário se prostituir. Mas o 'milagre econômico' e a riqueza não são para todos. 
Próximo ao local, eles vêem um belo carro, 'dando sopa', e se aproximam do mesmo para tentar roubar uma câmera que está dentro do mesmo, mas os três amigos burgueses acabam chegando antes que o roubo acontecesse e os seis 'marmanjos' iniciam uma briga ali mesmo. 

Porém, ao ouvir a sirene de um carro da Polícia, entram todos no carro, combinando de irem até um local isolado para dar continuidade à briga. Moretto, o dono do carro, diz que valentões como Ruggero, Gino e Scintillone agradam muito a ele e aos amigos, sugerindo que preferem ter relações com homens e não com mulheres. 

Diálogos e situações como essa não surpreendem quando se sabe que o roteiro do filme foi escrito por Pasolini e que o mesmo foi baseado em um romance de sua autoria. 

Num local da periferia de Roma, a pobreza italiana volta a dar as caras, e três adolescentes vivem de pegar qualquer coisa de valor que possa, depois, ser revendida. No caso, era uma parte da asa de um avião inglês da época da Segunda Guerra Mundial que os garotos roubaram de um depósito para, depois, vender a um ferro-velho. O burguês rico, Moretto, dá mil liras para cada um dos meninos e eles vão embora. E a briga entre os jovens acaba sendo cancelada e eles decidem curtir a noite juntos. 

Depois, eles acabam indo a um bar, onde brigam com alguns dos presentes, de forma gratuita, apenas para extravasar as emoções e usar um pouco da adrenalina. 

Mais adiante, eles acabam, acidentalmente, encontrando Nicoletta e cobram a devolução do dinheiro, que ela diz que não está com ela, pois foi deixada para trás por Anna e Supplizia. Como represália, eles jogam alguns baldes de água nela e vão embora. Depois, doam sangue em uma praça. 
O diretor Mauro Bolognini, a bela atriz Elsa Martinelli (Anna) e Pasolini nos sets de filmagem de 'La Notte Brava'. 
Os seis jovens com excesso de adrenalina acabam indo para a casa de Moretto, onde ficam ouvindo música, comem, bebem e ficam entendiados, sendo que há uma troca de olhares um tanto quanto insinuante entre o dono da casa e Scintillone, depois que este pediu dinheiro emprestado a Moretto. O filme, evidentemente, não mostra, mas 'fica no ar' a hipótese de que Scintillone teria prestado algum tipo de favor sexual a Moretto em troca daquele dinheiro que lhe foi 'emprestado'. 

Enquanto isso, Ruggero resolver passear pela mansão e acaba encontrando uma belíssima jovem, Laura. Esta é interpretada pela jovem, loira e linda atriz francesa Mylène Demongeot, uma das mais belas atrizes da história do Cinema e que transpira uma impressionante, e absolutamente natural, sensualidade nesta bonita sequência do filme. Laura literalmente enfeitiça e seduz Ruggero (que demonstra invejar a riqueza na qual ela vive), que não resiste aos encantos da jovem e bela blondie. 

E para melhorar ainda mais esta bela sequência, Laura também demonstra possuir um irresistível ar de mistério, pois ficamos sem saber, de fato, se ela se chama, mesmo, Laura, ou se ela é irmã, prima, namorada ou apenas uma amiga de Moretto.

E mesmo sem que saibam qualquer coisa a respeito um do outro, eles acabam trocando beijos, abraços e carícias. Depois de um certo período de tempo, vemos Ruggero sair do quarto, enquanto ajeita as suas roupas, deixando claro que a noite entre ele e a linda, sensual e loira Laura foi bem quente. 
Na mansão de Achille Moretto, o trio de jovens proletários desfruta um pouco da vida de sonhos e riqueza da burguesia italiana. 
Assim, o filme, mesmo sem mostrar nenhuma cena de sexo, acaba deixando bem claro que estes jovens estão sabendo desfrutar da vida, sim, cada um do seu próprio jeito. 

E Gino Bellabella empurra Ruggero, correndo, gritando para que saiam dali imediatamente, pois ele conseguiu roubar uma carteira cheia de dinheiro de um dos jovens burgueses. Já fora da mansão, há uma discussão entre os três jovens ladrões, sobre como se dará a divisão do dinheiro. E com isso, Ruggero e Gino brigam. A carteira cai no chão e quando Ruggero olha, após derrubar Gino, e vê que Scintillone pegou a carteira com o dinheiro e foi embora de táxi. 

São os jovens pobres proletários brigando pelas migalhas que tiraram dos ricos... É evidente que para a família de Moretto aquele dinheiro não fará nenhuma falta. 

Desigualdades, pobreza, marginalidade, prostituição, roubos, adrenalina, aventura, sonhos, sexo... É a realidade italiana da época do 'milagre econômico' sendo exibida nas telas do Cinema e alcançando um grande sucesso, comercial e de crítica. Este é um período de ouro, em que a arte e a vida alimentavam-se mutuamente. 

Excelentes filmes, verdadeiros clássicos, eram lançados todos os anos por cineastas geniais como Mauro Bolognini, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Valerio Zurlini, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola, Mario Monicelli, Francesco Rosi, Dino Risi, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica, Marco Bellocchio, Bernardo Bertolucci e Luchino Visconti. 
A bela e misteriosa Laura enfeitiça e seduz Ruggero, que não resiste aos encantos dessa jovem sexy, linda e loira.
Eram verdadeiros artistas, que produziram o melhor Cinema do mundo durante, no mínimo, 20 anos consecutivos. 


Essas diferenças de classe e a maneira como isso afeta as relações entre as pessoas são um tema presente no cinema italiano desta época , bem como a ascensão econômica e social de parte da população, mas sem que isso tenha eliminado as desigualdades sociais e a pobreza no país. 

Scintillone vai até a periferia de Roma e conversa com uma mulher, para quem pergunta a respeito de Rossana. A mulher sugere que esta começou a se prostituir, mas Scintillone não se surpreende com o fato, encarando-o com uma certa naturalidade, pois sabe da pobreza em que ela vive. 

Scintillone procura por Rossana e a encontra com Eliseo, namorado dela. Dança com ela e a convida para sair pela noite de Roma, a fim de curtir a vida, de desfrutar um pouco daquilo com que eles tanto sonham e que somente os ricaços e bem nascidos tem acesso. Ela aceita e eles combinam de sair depois que ela se livrar de Eliseo. 

Enquanto isso, Ruggero pega uma carona de moto para ir atrás de Scintillone, a fim de recuperar o dinheiro que Gino havia roubado. 
Scintillone, jovem marginal proletário que vive de pequenos roubos, oferece uma noite de sonhos para Rossana, uma bela jovem, também proletária, e que já está começando a se prostituir para poder melhorar de vida.
Scintillone e Rossana começam a curtir a noite de Roma e vão a um local frequentado por ricaços, onde são esnobados e expulsos, tratados como se fossem lixos, pois são de uma classe social 'inferior'. Ele quer ficar, porque diz que tem dinheiro. Mas ele não entende que ali não é um local apenas para quem tem dinheiro, mas para quem tem 'berço', 'família', 'um nome a zelar'. Ele arruma confusão e acaba sendo preso pela Polícia. Daí, Ruggero chega e fica com o dinheiro que Scintillone havia roubado de Gino. 

Ruggero convida Rossana a fim de sair para curtir a vida juntos. Afinal, ele também quer a sua parte do sonho. Assim, ele a leva para dançar e depois para um restaurante caro, que já está fechando, totalmente vazio, mas ele paga para comer e ouvir música, vivendo aquela noite como se ambos fossem ricos. Eles dançam e sabem que aquela realidade não irá durar e que no dia seguinte eles estarão de volta à pobreza e à vida dura de sempre. Mas eles não se preocupam com isso e querem aproveitar cada momento, nem que isso aconteça apenas uma vez por ano. 

Eles voltam para casa, Ruggero paga o táxi e joga fora a última nota de mil liras que havia sobrado daquela noite de sonho que vivenciou. 

Fim.
Depois da prisão de Scintillone, será a vez de Ruggero e Rossana aproveitarem, juntos, da agitada vita noturna de Roma. Mas eles sabem que no dia seguinte voltarão à dura vida de sempre. 
Informações Adicionais:

Título: La Notte Brava ('A Noite Selvagem'; no Brasil, o filme foi traduzido como 'A Longa Noite de Loucuras'); 
Diretor: Mauro Bolognini;
Roteiro: Pier Paolo Pasolini e Jacques-Laurent Bost (baseado em um romance de Pier Paolo Pasolini, 'Ragazzi di Vita' - 'Meninos da Vida');
Duração: 91 minutos;
Ano de Produção: 1959;
País de Produção: Itália e França;
Música: Piero Piccioni;
Fotografia: Armando Nannuzzi;
Elenco: Rossana Schiaffino (Rossana); Elsa Martinelli (Anna); Laurent Terzieff (Ruggero); Jean-Claude Brialy (Scintillone); Anna Maria Ferrero (Nicoletta); Franco Interlenghi (Gino Bellabella); Tomas Milian (Achille Moretto); Antonella Lualdi (Supplizia); Mylène Demongeot (Laura); Maurizio Conti (Pepito); Piero Palmisano (Surdo-Mudo); Franco Balducci (Eliseo); Mario Meniconi (Mosciarella); Marcella Valeri (Mãe de Rossana). 
Prêmio: Melhor história original do Sindicato Nacional de Críticos de Cinema da Itália em 1960.

Link: Informações sobre o filme: 

http://www.imdb.com/title/tt0051469/?ref_=fn_al_tt_1

Trailer do Filme: