sábado, 9 de setembro de 2017

'A Honra Perdida de Katharina Blum' mostra como a Mídia destrói a vida e a honra de inocentes! - Marcos Doniseti!

'A Honra Perdida de Katharina Blum' mostra como a Mídia destrói a vida e a honra de inocentes! - Marcos Doniseti!
'A Honra Perdida de Katharina Blum': Filme clássico de Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta é um dos mais representativos do 'Novo Cinema Alemão' e desnuda a sordidez e a desonestidade da mídia sensacionalista alemã em plena época da Guerra Fria.  
O Novo Cinema  Alemão!

Este é um dos mais brilhantes filmes já realizados a respeito do sensacionalismo, do caráter manipulador e da desonestidade da Mídia comercial. Ele foi dirigido por dois diretores (Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta) que fizeram parte do chamado 'Novo Cinema Alemão', cuja trajetória se iniciou em 1962, com a divulgação do 'Manifesto de Oberhausen', que lançou o movimento e que foi assinado por 26 jovens cineastas. 


Obs1: Já escrevi e publiquei aqui no blog um outro texto a respeito de tema muito semelhante ao do filme de Schlondorff/Von Trotta, que é 'Sbatti il Mostro in Prima Pagina' (de outro excepcional diretor, o italiano Marco Bellocchio). 

Tal como aconteceu com inúmeros outros movimentos cinematográficos mundo afora (o 'Cinema Novo' brasileiro, por exemplo), o movimento germânico foi muito influenciado pela 'Nouvelle Vague' francesa.

Os signatários do 'Manifesto' se propunham a produzir um novo cinema, criando uma nova linguagem, inovadora e bastante crítica em relação ao cinema comercial que era produzido até então no país mais rico e desenvolvido da Europa, mas cuja qualidade da produção cinematográfica estava muito longe de corresponder a essa riqueza material que a população do país desfrutava. Os filmes produzidos no país eram superficiais e sem qualquer qualidade artística relevante.
Alguns dos signatários do 'Manifesto de Oberhausen', assinado em 1962, que foi o ponto de partida para o desenvolvimento do 'Novo Cinema Alemão'.

O 'Manifesto de Oberhausen' dizia o seguinte:


"Manifesto de Oberhausen"!


"O colapso do cinema convencional alemão há muito tempo impede uma atitude intelectual e o rejeitamos em suas bases econômicas. 


O novo cinema tem, assim, a chance de vir à vida. 


Em anos recentes, curtas-metragens alemães, realizados por jovens autores, diretores e produtores, receberam inúmeros prêmios em festivais e atraíram à atenção de críticos de outros países. 


Esses filmes e o sucesso por eles alcançados demonstram que o futuro do cinema alemão está com aqueles que falam uma nova linguagem cinematográfica. 


Como em outros países, o curta-metragem na Alemanha tornou-se um espaço de aprendizado e uma área de experimentação para o filme de longa-metragem. 


Declaramos que nossa ambição é criar um novo filme de longa-metragem alemão. 


Este novo filme exige liberdade. Liberdade das convenções da realização cinematográfica. Liberdade das influências comerciais. Liberdade da dominação de interesses de grupo. 


Nós temos idéias intelectuais, estruturais e econômicas realistas sobre produção do Cinema Novo Alemão. Nós estamos prontos a correr os riscos econômicos. O velho cinema está morto. Nós acreditamos no novo cinema (Oberhausen, 28 de fevereiro de 1962).".
Rainer W. Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders foram os três grandes nomes que surgiram como resultado do desenvolvimento do 'Novo Cinema Alemão'. Seus filmes ganharam o mundo, sendo premiados em inúmeros festivais internacionais.

Entre os nomes que se tornaram mais conhecidos, nos anos 1970 e 1980, e que assinaram o 'Manifesto', nós tivemos Alexander Kluge e Edgar Reitz. Estes dois, juntos com Peter Schamoni, foram os únicos que assinaram o 'Manifesto' que conseguiram consolidar uma carreira de longo prazo. 


Mas os cineastas alemães que ficaram mais famosos, inclusive internacionalmente, e que também estavam associados a este processo de renovação do Cinema Alemão, mesmo sem que tenham assinado o 'Manifesto', foram Rainer W. Fassbinder, Werner Herzog, Wim Wenders e, em menor grau, Volker Schlondorff e Alexander Kluge.


Muitos dos filmes realizados por tais cineastas receberam inúmeros rêmios internacionais. Em 1966, por exemplo, Alexander Kluge (um dos que assinou o 'Manifesto') ganhou o 'Leão de Ouro' no Festival de Veneza com o filme 'Abschied von Gestern' ('Despedida de Ontem'). 


A realização das obras desta nova geração de cineastas foi possível graças a um esquema de financiamento e de produção independente, o que foi resultado do 'Manifesto'. Assim, foi criado o 'Kuratorium junger deutscher Film' (Comitê do Jovem Cinema Alemão) que viabilizou a produção de 20 longas-metragens em três anos e levou à criação de escolas de Cinema e de Cinematecas por todo o país. 


Desta maneira formou-se um público cada vez mais numeroso destas novas produções. 

Cena em que Ludwig furta um Porsche. Ele é um criminoso comum que a Polícia e a Mídia irão transformar em um revolucionário anarquista extremamente perigoso e violento. 

E também, na década de 1970, o cinema do país se beneficiou com a criação de um esquema de subsídios fornecidos pelo governo da então Alemanha Ocidental. Este criou um fundo de financiamento para o Cinema (Filmförderungsanstalt - FFA), que era financiado com a cobrança de um imposto sobre os ingressos de cinema vendidos no país. 


Além disso, um grupo de cineastas independentes (Wim Wenders e Peter Lilienthal, entre outros) organizou uma empresa que financiava novas produções, que foi a 'Filmverlag der Autoren' (foi criada em Frankfurt, no dia 23/04/1971). 


Com isso, o cinema alemão ganhou um grande impulso, conquistou um público cada vez maior, dentro e fora do país, e passou a ser bastante divulgado no mundo inteiro. 


Apesar do fato de que integravam um mesmo movimento de renovação da linguagem cinematográfica, cada diretor tinha o seu próprio jeito de trabalhar, não existindo uma unidade estética ou temática idêntica. 

Ludwig e Katharina ficaram apenas uma noite juntos, mas isso foi o suficiente para que eles se apaixonassem. Ambos serão vítimas das mentiras e manipulações feitas pela Polícia e pelo 'O Jornal'. 

A respeito disso, Wim Wenders declarou o seguinte: 


"O Novo Cinema Alemão não é uma categoria determinada, como o Neo-Realismo na Itália ou a Nouvelle Vague na França. Não há um estilo uniforme, nem histórias em comum.Tínhamos apenas em comum uma necessidade, a de fazer filmes, de começar de novo com a realização de filmes num país em que esta cultura foi interrompida durante anos. Os autores eram, logo no início, muito diversos, por isso respeitávamo-nos e éramos solidários. Esta solidariedade foi a fonte do Novo Cinema Alemão". 


Então, foi neste contexto que cineastas como os já citados Wenders, Fassbinder, Herzog, Schlondorff, Kluge, von Trotta, Reitz, entre outros, começaram a ter as suas obras exibidas, reconhecidas e premiadas pelo mundo afora. Com isso, os filmes criados por estes talentosos cineastas se tornaram o principal produto cultural de exportação da Alemanha. 


E sobre toda essa efervescência criativa que deu origem ao Novo Cinema Alemão, a crítica e historiadora de Cinema Lotte H. Eisner afirmou o seguinte em seu livro 'A Tela Demoníaca': 


"Herzog, Wim Wenders, Fassbinder, Hauff, Fleischmann, Kluge, Schroeter, Achternbusch e ainda muitos outros me convenceram de que os jovens alemães haviam ultrapassado as manifestações tão verborrágicas de Oberhausen e estavam aptos a fazer filmes interessantes. De onde vinha esse apogeu tão espontâneo? Então compreendi que os alemães sempre precisaram de uma certa exaltação e de um certo desespero que lhes dessem o ímpeto de se tornarem criadores. Isso se passara nos anos 20, quando uma guerra perdida, uma revolução abafada, os esfacelamentos de todos os valores devido a uma inflação inexorável puderam fazer surgir uma arte cinematográfica prodigiosa. (...) Esse mal-estar, o desprezo pelo Witschaftswunder (milagre econômico) artificial de uma sociedade de consumo reacionária e pelo materialismo que dela resulta. Causas bastante confusas, às quais se impõem, além do mais, a decepção que provocou o desvio da revolta de 1968 e criou esta desordem encarniçada, da qual os alemães sempre precisaram para fazer surgir aquele ardor indispensável que os torna criadores".

O comissário Beinzmenne interroga Katharina, no apartamento desta, a respeito do envolvimento dela com o foragido Ludwig. Ela não contará nada para os policiais, protegendo o homem que ama.

O sucesso internacional dos inúmeros filmes produzidos pelos novos cineastas da Alemanha permitiu que eles desfrutassem de uma ampla liberdade criativa. Sobre este assunto a crítica Laura Cánepa escreveu o seguinte:


"Tais condições (produção), em grande parte, refletiam o interesse do Estado em patrocinar filmes com base em um complexo sistema de subsídios e apoio financeiro direto, o que seria enriquecido depois pela parceria com a televisão. Esse sistema, que deu independência econômico em relação às bilheterias, permitiu-lhes trabalhar de maneira bastante pessoal e até idiossincrática, desenvolvendo trabalhos autorais e personas com status de grandes estrelas do cinema". 

'A Honra Perdida de Katharina Blum'!

 'A Honra Perdida de Katharina Blum' é um dos mais significativos filmes realizados na década de 1970 por um cineasta alemão, sendo que o mesmo faz uma dura e implacável crítica ao sensacionalismo de uma Mídia comercial desprovida de qualquer resquício de ética jornalística (ou de qualquer tipo de ética) e cujo único interesse era atrair público (leitores) e aumentar os seus lucros.   


A trama do filme gira em torno de uma jovem alemã (Katharina Blum) que se envolve romanticamente, por apenas uma noite (durante o Carnaval), com um homem (Ludwig Gotten) que é procurado pela Polícia por ter participado em uma série de assaltos a bancos. Ele já é procurado há cerca de um ano. 

A prisão de Katharina se transforma em um grande espetáculo midiático, mudando radicalmente a sua vida, que será exposta ao público de forma desonesta pela Polícia e pela Mídia. As inúmeras mentiras a transformarão em uma pessoa odiada por milhares de pessoas. É como dizia Goebbels: 'Repita uma mentira mil vezes e ela se transformará em uma verdade'. 

O filme não explica se tais atividades criminosas de Ludwig se destinam a financiar atividades políticas ou se ele é um criminoso comum (cabe ao espectador tirar as suas conclusões a respeito). Mas é em função do envolvimento de Katharina com o misterioso Ludwig que ela será investigada e interrogada pela Polícia alemã, que deseja saber em que grau em que ela conhece Ludwig. 


Katharina é uma empregada doméstica, uma cidadã comum, cujos patrões gostam e simpatizam com ela, que leva uma vida relativamente simples e materialmente não muito confortável, sem luxos, de tal maneira que ela tem que fazer um rígido controle do seu orçamento para ter que comprar (financiado) um apartamento e um carro. 


Ela também precisa pegar roupas emprestadas da sua patroa quando precisa participar de eventos sociais que contam com a participação de homens ricos. E o grande medo de Katharina, como ficamos sabendo durante as investigações e interrogatórios a que ela foi submetida pela Polícia, é a solidão na idade madura. 


Katharina também tem uma vida sentimental vazia, embora se relacione eventualmente com um professor universitário (Alois), com quem ela costuma se encontrar na casa de campo do mesmo. Ela tem, inclusive, a posse da chave do local. Ela não é apaixonada por Alois, mas o mesmo não pode ser dito a respeito deste, que assume que ama Katharina, embora seja casado.

Momento em que Katharina é conduzida para a viatura policial. A violência do Estado contra os cidadãos, bem como a violação dos seus direitos e liberdades, é um dos aspectos principais do excelente filme de Schlondorff/von Trotta. 

Katharina sente-se fortemente atraída por Ludwig (que corresponde ao sentimento) durante o curto período de tempo que passou com o mesmo (apenas uma noite), mas desconhece o lado supostamente 'criminoso' ou 'subversivo' dele, não fazendo ideia de que ele seja perseguido pela Polícia por suas atividades ilegais. 


Mas ele é vigiado pela Polícia o tempo inteiro, sendo que ele é filmado, fotografado e perseguido por carros com policiais. Até mesmo um agente policial é infiltrado no grupo de amigos com o qual Ludwig fica no Carnaval. E é neste momento que ele e Katharina irão se conhecer e começarão um breve romance. A atração entre eles é virtualmente imediata. Inclusive, Katharina leva Ludwig para o seu apartamento, onde passam uma noite de amor (que é apenas sugerida). 


Porém, Ludwig acaba confessando para Katharina que ele é perseguido pela Polícia e que precisa escapar do local, o que faz com a ajuda dela, é claro. Assim, quando a força policial chega ao apartamento dela, Ludwig já tinha fugido.  


Mas é a partir daí que a vida de Katharina irá se transformar em um verdadeiro inferno, pois além de ter a sua vida investigada pela Polícia, a mesma será devassada por um desonesto e manipulador jornalista (Werner Totges) que é funcionário de um jornal sensacionalista extremamente popular (chamado apenas de 'O Jornal') que foi baseado no 'Bild Zeitung'.

Os policiais que comandam a operação que resulta na destruição da dignidade e da honra de Katharina Blum e que pouco se importam com as consequências do que fazem. Isso lembra alguma coisa que está acontecendo no Brasil neste momento? 
Obs2: O 'Bild Zeitung' é um jornal alemão de baixo nível que, até o advento da Internet, vendia entre 4 e 5 milhões de exemplares diariamente. O mesmo contava com fotos imensas, textos curtos, fotos de mulheres seminuas e adorava fabricar histórias que atraíam o público, mesmo que elas fossem repletas de mentiras, falsidades e distorções. A ética jornalística passava longe do mesmo. Após o encerramento do filme, nos créditos, vemos um texto que associa claramente 'O Jornal' com o 'Bild Zeitung'. No filme de Schlondorff/von Trotta são denunciados todos os mecanismos pelos quais um jornalista desonesto, anti-ético e imoral (Totges) e um poderoso jornal diário tratam de, literalmente, inventar uma história fictícia, inteiramente falsa, mas que atrai o público e que ajuda a vender milhões de exemplares. 

É um verdadeiro 'Pacto de Sangue' que existe entre um jornal mentiroso e manipulador com os seus leitores, ansiosos por acompanhar a história da 'perigosa prostituta e terrorista' chamada Katharina Blum, que não é nem uma coisa (prostituta) e nem outra (terrorista). 


Para conseguir isso, Totges conta com a íntima colaboração da própria Polícia, cujo chefe da operação (Comissário Beinzmenne) é seu amigo e lhe dá total prioridade na transmissão de informações sobre o caso, colaborando intensamente com o sensacionalismo e a manipulação descarada que Totges e 'O Jornal' praticam.  

No filme, a posição do Policial (Beinzmenne, à direita) é sempre inferior, subserviente, à do jornalista manipulador (Totges), mostrando quem manda em quem. 

A Polícia e Totges também irão atribuir intenções políticas revolucionárias a Ludwig, como se ele fosse integrante de alguma organização extremista, mesmo sem jamais terem interrogado ou entrevistado o mesmo a respeito do assunto ou possuírem qualquer informação que comprove tal suspeita. E 'O Jornal' também dirá aos seus leitores que Katharina tem simpatias políticas esquerdistas, o que era outra mentira deslavada que se divulgava a respeito dela. 


Obs3: É bom ressaltar que o filme foi produzido em 1975, época em que a Alemanha ainda estava dividida em duas: Ocidental (Capitalista, submetida aos interesses dos EUA) e Oriental (Socialista, submetida aos interesses da União Soviética). O 'Bild', no qual o 'O Jornal' do filme foi inspirado, era um virulento jornal anti-comunista, o que influenciava o comportamento e a visão política e social dos seus milhões de leitores.


Assim, Katharina passará a receber mensagens (por carta e telefone) na qual era taxada de comunista, prostituta e outras ofensas de baixo nível, que ela fazia questão de ler, inclusive, embora isso a deixasse horrorizada. 


De certa maneira, essa campanha de desqualificação contra Katharina Blum que o filme mostra é uma política permanente da Grande Mídia comercial de baixo nível. 

Basta ver o que acontece no Brasil, atualmente, onde qualquer acusação falsa contra pessoas públicas, mesmo que totalmente desprovidas de provas, é usada para destruir a honra e a dignidade de inúmeras personalidades públicas. 
Katharina Blum, com uma expressão de preocupação, e um fundo vermelho. Esta é uma cena que lembra, claramente, 'A Fraternidade é Vermelha', de Kieslowski, onde Véronique (interpretada por Irène Jacob) tira uma foto muito semelhante. 

'O Jornal' também divulgará falsas informações a respeito do comportamento sexual de Katharina, mesmo sabendo que ela havia tido uma vida regrada. Totges mente de forma descarada para o 'O Jornal', dizendo que o ex-marido dela lhe havia afirmado que ela o tinha abandonado porque ela vivia de maneira modesta com um humilde trabalhador, sendo que o mesmo jamais teria condições de lhe comprar um Porsche. 


'O Jornal' também distorce completamente as afirmações feitas pelo patrão de Katharina (Hubert Blorna), que a havia elogiado. Em vez de publicar que ela era uma pessoa inteligente e razoável, como ele havia afirmado,'O Jornal' escreve que Hubert disse que ela era uma pessoa fria e calculista, sendo capaz de cometer qualquer crime. 


Assim, Katharina Blum é transformada, pela Polícia, por Totges e pelo 'O Jornal' em uma pessoa gananciosa, egoísta, imoral e que participa de organizações políticas extremistas, subversivas, com cujos integrantes (foragidos e investigados pela Polícia) ela se envolve e aos quais protege. 


Totges e 'O Jornal' também vão atribuir falsas declarações à própria mãe de Katharina e que se encontrava moribunda no hospital, limitando-se a repetir, indefinidamente, a mesma pergunta ('Porque? Porque?). Totges conseguiu entrar, sem autorização, na UTI do hospital e tentou conversar com a mãe de Katharina. Ele não consegue que ela diga coisa alguma, mas inventa uma falsa declaração, na qual a mãe condena as 'atividades' da filha e no qual ela dizia que não poderia esperar outra coisa de Katharina. 

Os patrões de Katharina (Hubert e Trude Blorna) reclamam com o policial (Hach) a respeito das mentiras e manipulações que 'O Jornal' divulga sobre Katharina, mas o agente da Lei ignora o que eles dizem.  

Assim, a Polícia, Totges e 'O Jornal' se unem para destruir a dignidade e a honra de uma trabalhadora comum e que vivia de forma simples, correta e honesta. Ela resistiu o quanto pôde a essa situação infernal em que a Polícia e, principalmente, o pseudo-jornalismo sensacionalista e anti-ético do 'O Jornal/Bild' a submeteu e isso acontece apenas porque contou com a ajuda dos seus patrões (Hubert e Trude Blorna). 


Em determinado momento, Katharina Blum questiona se o Estado nada pode fazer contra as mentiras e manipulações do 'O Jornal'. 
Na verdade o Estado (na figura da Polícia) participa deste processo e se beneficia com o mesmo.

Apesar de toda a perseguição e vigilância que ela sofre, Katharina não resiste e acaba telefonando para Ludwig, o que foi um grave erro, pois o seu telefone estava grampeado. Ela talvez tenha imaginado que vivia em um país liberal-democrático, no qual os direitos das pessoas eram inteiramente respeitados, mas não era bem assim. 


Tanto isso é verdade que quando seus tios foram reclamar com a Polícia a respeito das mentiras do 'O Jornal' sobre Katharina as suas reclamações foram totalmente ignoradas. 

Até mesmo a composição gráfica de 'O Jornal' é muito semelhante a do 'Bild Zeitung', no qual o mesmo foi baseado. Schlondorff/von Trotta deixaram bem claro a quem estavam criticando em seu filme. 

Obs4:
O filme foi realizado em uma época de forte repressão do Estado alemão contra um movimento guerrilheiro, o RAF ('Rote Armee Frtaktion' ou 'Fração do Exército Vermelho'), que teve uma significativa atuação no país durante alguns anos. O grupo foi criado em 1970 e se dissolveu em 1998. Fassbinder fez uma filme sobre o mesmo ('A Terceira Geração'), sobre o qual já escrevi um texto que publiquei aqui no blog. 


O catedrático (Alois) que visitava Katharina e que era apaixonado por ela, chega a pedir a Hubert (seu advogado e patrão dela) que a procure e a convença a tirar Ludwig da sua casa de campo. Ele não pode fazer isso porque provocaria um escândalo, que iria abalar o seu casamento e a sua vida profissional. Mas Hubert e Trude recusam-se a ajudá-lo. 

Apesar disso, a Polícia descobre onde Ludwig está, o que resulta na prisão do mesmo. 


É claro que o final dessa história será trágico, com a Katharina Blum dando o devido troco no canalha disfarçado de jornalista chamado Werner Totges. Com isso, ela também acaba sendo presa. 


No final, vemos um discurso inteiramente hipócrita do editor do 'O Jornal' em defesa da liberdade de imprensa. Liberdade em nome da qual Katharina Blum teve a sua honra e a sua vida destruídas.

Momento em que Katharina finalmente acerta as contas com o mentiroso, hipócrita, manipulador e desonesto 'jornalista' Werner Totges. 

Links:

Os 50 anos do 'Novo Cinema Alemão':

http://www.dw.com/pt-br/novo-cinema-alem%C3%A3o-comemora-50-anos/a-15787565

Novo Cinema Alemão:

http://woomagazine.com.br/historia-do-cinema-cinema-novo-alemao/

Wim Wenders e o Novo Cinema Alemão:

http://portal.anhembi.br/wp-content/uploads/dissertacoes/comunicacao/2008/dissertacao_ricardo_m.pdf 

O "Cinema Novo' brasileiro e suas relações com o 'Novo Cinema Alemão':

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq06019908.htm
O editor do 'O Jornal' faz um discurso, hipócrita e mentiroso, no qual usa da defesa da 'liberdade de imprensa' para justificar as mentiras, falsidades e distorções que a Mídia divulga e que resultam na destruição das vidas de pessoas inocentes. 

Informações Adicionais:


Título: Die Verlorene Ehre der Katharina Blum ('A Honra Perdida de Katharina Blum');

Diretor: Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta;
Roteiro: Volker Schlondorff e Margarethe von Trotta (baseado em livro de Heinrich Boll);
Ano de Produção: 1975; País de Produção: Alemanha;
Duração: 106 minutos; Gênero: Drama Político;
Música: Hans Werner Heinze; Fotografia: Jost Vacano;
Elenco: Angela Winkler (Katharina Blum); Dieter Laser (Werner Totges); Mario Adorf (Comissário Beinzmenne); Jurgen Prochnow (Ludwig Gotten); Heinz Bennent (Hubert Blorna); Hannelore Hoger (Trude Blorna); Rolf Becker (Hach); Harald Kulmann (Moeding); Karl Heinz Vosgerau (Alois Straubleder); 
Prêmios: Volker Schlondorff (Festival de San Sebastian de 1975).

Trecho do Filme: 

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