quarta-feira, 14 de novembro de 2018

'Campane a Martello': Luigi Zampa faz homenagem às mulheres italianas e defende o predomínio do interesse coletivo sobre o individual! - Marcos Doniseti!

'Campane a Martello': Luigi Zampa faz homenagem às mulheres italianas e defende o predomínio do interesse coletivo sobre o individual! - Marcos Doniseti!
Luigi Zampa mostra o quanto as mulheres italianas sofreram com as consequências da Segunda Guerra Mundial, durante a qual muitas delas foram forçadas a se prostituir para poder sobreviver, devido à destruição e a miséria provocada pelo envolvimento da Itália no conflito. 
Contexto histórico!

Este é um belo e sensível filme de Luigi Zampa, que foi um dos principais diretores italianos ligados ao Neo-Realismo cinematográfico italiano, embora ele não desfrute da mesma fama de outros cineastas consagrados, como são os casos de Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que constituem, de certa maneira, a 'Santíssima Trindade' do Neo-Realismo. 

O roteiro do filme de Zampa é de autoria de Piero Tellini, que também escreveu roteiros para alguns importantes filmes Neo-Realistas, incluindo 'Il Bandito' e 'Il Delitto di Giovanni Episcopo' (que foram dirigidos por Alberto Lattuada) e 'Vivere in Pace' e 'Angelina, a Honorável', sendo que estes dois últimos foram dirigidos pelo mesmo Luigi Zampa.

A trama de 'Campane a Martello' (Toquem os Sinos) se desenvolve após o final da Segunda Guerra Mundial, quando os soldados dos EUA que foram lutar na Itália estão retornando ao seu país, depois de lutarem durante 21 meses, entre Julho de 1943 e Abril de 1945, em território italiano contra as forças do Nazi-Fascismo.

A Itália desta época é uma país muito pobre, com um povo que passa fome e vive na miséria, o que é resultado do fracasso econômico do regime Fascista e das derrotas humilhantes sofridas na guerra, durante a qual o território e o povo italianos sofreram intensos bombardeios e foram palco e vítimas de violentos combates. 
Mulheres italianas se despedem dos soldados dos EUA no porto de Livorno. Muitas delas se prostituíram e engravidaram durante a guerra. 

E o que vemos é um país devastado, com muitas cidades em ruínas, a área rural destruída (os camponeses foram vítimas das 'requisições' de alimentos feitas pelo soldados), milhares de mulheres italianas foram estupradas (inclusive por soldados das Forças Aliadas), havia muitos desempregados, crianças abandonadas, fome, miséria, elevada criminalidade e prostituição em grande escala. 


No início do filme, vemos o porto da cidade de Livorno sendo recuperado, com muitos barris no local, pois a região produz vinho e o mesmo é exportado, o que mostra um início de recuperação da economia italiana, mas que ainda está longe de beneficiar à população. Mas enquanto o navio italiano ancorado no porto está em ruínas, o navio dos EUA que levam os soldados ianques de volta para a sua terra natal é 'novo em folha'.

De fato, a recuperação econômica e a reconstrução da Itália, mesmo, ainda irá demorar alguns anos para que pudesse ser concluída, o que irá acontecer por volta de 1953/1954, cinco anos após a produção de 'Campane a Martello', graças aos recursos enviados pelos EUA por meio do Plano Marshall. 

A trama do filme!

A protagonista da história é uma bonita jovem (Agostina Bortoloci), que é interpretada pela bela Gina Lollobrigida (ainda em início de carreira; este foi o seu terceiro filme), originária da cidade de Isola d'Ischia (que é uma ilha localizada na província de Nápoles, no sul da Itália). 
Jornal italiano 'Il Tempo' anuncia o retorno dos soldados dos EUA para a sua terra natal, logo após a derrota do Nazi-Fascismo na Europa. 

Antes da Segunda Guerra Mundial começar a bela Agostina era uma empregada doméstica, mas que durante o conflito viveu em Livorno (localizada na região da Toscana, norte da Itália, próxima a Florença), período durante o qual ela praticou a mais 'antiga das profissões': a prostituição. Seus principais clientes (bem como de muitas outras mulheres italianas daquela época) foram os soldados dos EUA que lutaram no país.


Aliás, logo no início do filme vemos a notícia nos jornais do retorno destes soldados para o seu país natal e as mulheres italianas, com as quais eles se relacionaram durante a sua estadia na terra de Leonardo da Vinci, foram ao porto se despedir dos mesmos. 

Estes soldados ianques eram bem abastecidos de dólares e produtos que eram desejados pelos italianos (alimentos e cigarros, por exemplo, que foram usados como se fosse dinheiro na Europa dominada pelos Aliados) e tinham um elevado poder de compra na empobrecida e miserável Itália da época da Segunda Guerra Mundial (1940-1945), conflito no qual as Forças Armadas italianas sofreram sucessivas e humilhantes derrotas. 

Assim, não saía caro para os militares ianques o envolvimento com mulheres italianas para as quais a prostituição acabou sendo a única alternativa para sobreviver em meio ao caso e à miséria gerada pela Guerra em que Mussolini jogou o país, em Junho de 1940. 
Agostina e outras prostitutas foram expulsas de Livorno e são obrigadas a retornar para as suas cidades de origem. 

Em uma carta que escreveu para a sua esposa, durante a invasão da Sicília, em Julho de 1943, o general George S. Patton, que comandou as tropas dos EUA na invasão da ilha, disse que com uma lata de feijão já era possível convencer uma mulher da ilha a se prostituir, tal a miséria que existia ali. E no seu diário, Patton escreveu o seguinte: "A gente deste país é a mais carente e esquecida por Deus que já vi". 


Obs1: As afirmações feitas por Patton, em sua carta e no seu diário, foram retiradas do livro 'A Segunda Guerra Mundial', de Antony Beevor (página 555). 

As humilhantes derrotas sofridas pelas Forças Armadas italianas acabaram por mostrar ao povo italiano o quanto o regime de Mussolini era frágil e havia se imposto com base em mentiras descaradas, como a de que iria fazer da Itália um novo Império Romano, transformando-a numa potência mundial que seria respeitada e temida por outras nações. 

As derrotas fragorosas sofridas pela Itália na Guerra (no Norte da África, na Grécia) deixaram claro para o povo italiano o quanto ele havia sido enganado e iludido pelo regime Fascista.  

No caso da trama do filme vimos que após o final da guerra o governo decidiu expulsar, para as suas cidades de origem, todas as prostitutas que não eram originárias da região em que estavam, sendo que Agostina foi uma delas. Ela tentou convencer o funcionário dos Carabinieiri (a Polícia italiana) a não fazer isso, mas ele se manteve inflexível, e ela ficou sem opção, a não ser retornar para a sua cidade natal, na ilha de Ischia. 
Loretta (interpretada por Yvonne Sanson, atriz grega que fez carreira na Itália) e Agostina chegam a Ischia, para onde vão em busca do dinheiro que esta última enviou para que o pároco Don Giuseppe guardasse. O que ela não sabe é que Don Andrea, o novo padre, gastou todo o seu dinheiro na montagem de um orfanato para 20 crianças. 

Agostina volta para Ischia junto com outra amiga de profissão (Australia) que fica sabendo que a amiga fez uma boa poupança durante todos aqueles anos, mas que não depositou o dinheiro em um banco. Agostina mandou todo o dinheiro para um padre de Ischia (Don Giuseppe), pedindo que o mesmo guardasse o dinheiro que havia enviado (eram quase 1.500.000 Liras).


Em função disso, quando chega em Ischia, os moradores da cidade pensam que Agostina é uma mulher rica, de uma família abastada e respeitável, sendo tratada como tal pelos habitantes locais quando chegou à cidade. 

Porém, ao desembarcar em Ischia e procurar pelo padre (Don Giuseppe) a quem tinha enviado todo o dinheiro que havia acumulado, Agostina ficou sabendo que ele havia morrido (com 92 anos) e que o novo pároco (Don Andrea) havia gasto tudo para construir um orfanato no qual abrigou 20 crianças e cujas mães eram mulheres que haviam sido engravidadas por soldados aliados durante a Guerra, mas que foram abandonadas pelas mães, que não tinham condições de criar as crianças. 

Desta maneira, Agostina fica totalmente desapontada, pois ela e a sua melhor amiga (Loretta/Australia) planejavam usar o dinheiro acumulado para abrir uma loja, o que lhes permitiria abandonar a prostituição, transformando-se em comerciantes respeitáveis na Itália do Pós-Guerra. 
Agostina e Loretta olham para as crianças do orfanato e estranham o motivo delas serem tão admiradas pelas mesmas. 

Mas como o padre, Don Andrea, usara o dinheiro para construir o orfanato, os planos das duas foram por água abaixo, sendo que durante boa parte do filme vemos várias situações em que elas demonstram, claramente, a sua frustração pelo que havia acontecido. Inicialmente, elas chegam a querer manter distância das crianças que chamam Agostina de 'Mamãe' e somente no final é que elas vão se dar conta da importância do orfanato para aquelas crianças abandonadas. 


E os moradores de Ischia, incluindo os seus habitantes de maior prestígio (prefeito, comandante da Polícia, empresários locais), não cansam de bajular Agostina, pensando que ela era uma mulher muito rica e pensando que poderiam arrancar mais dinheiro dela para seus projetos. 

E o ex-noivo de Agostina, um soldado chamado Marco, acaba retornando para Ischia para se encontrar com a mesma. Marco diz que deseja ir para Nápoles e se casar com ela, mas Agostina fala que não o merece, pelo seu passado, a respeito do qual ela não comenta absolutamente nada, escondendo que viveu como prostituta durante quatro anos (1941-1945). Marco insiste e diz que irá esperar por ela, em Nápoles, sendo que Agostina, depois de pensar em voltar a viver da prostituição, acaba concordando.

No entanto, em um determinado momento, Agostina terá uma conversado reveladora com Don Andrea, na qual este demonstra que sabia, sim, que o dinheiro que ele usara para construir o orfanato não era da Igreja, mas dela, Agostina. Mas ele pensara que Agostina era rica e que tal dinheiro não iria lhe fazer falta alguma. 

Porém, o choque maior que Don Andrea sofre é descobrir como Agostina havia acumulado tais recursos, fazendo com que o padre fique doente. E depois ele irá tentar ressarcir Agostina e, para isso, tenta convencer o prefeito da cidade a lhe dar o dinheiro necessário para poder pagar a ex-prostituta. 

E com o objetivo de pressionar o governante local, Don Andrea manda tocar os sinos da Igreja (daí o nome do filme...), reúne o povo em frente ao local e fala para todos os moradores de Ischia que sem o dinheiro da prefeitura ele não terá como manter o orfanato em funcionamento. E para deixar isso bem claro, Don Andrea fecha o orfanato, colocando as crianças na escadaria da Igreja, local em que elas ficam durante uma noite inteira. 
As crianças do orfanato olham para a 'Mama Agostina' pela primeira vez. As crianças eram filhas de mães italianas e de soldados de vários países (EUA, Inglaterra, Alemanha, Filipinas...). Don Andrea faz uma brincadeira, dizendo que os soldados não 'negaram fogo' quando se relacionaram com as mulheres italianas...

Tal atitude, no entanto, é atacada pelo prefeito e pelos poderosos locais, que pouco se importam com a situação das crianças e pensam apenas em seus próprios interesses.


Isso acontece porque o prefeito da cidade está reservando o dinheiro do governo para a construção de um monumento (ao custo de 700 mil liras) que é considerado prioritário por ele, mas que não irá beneficiar a população em absolutamente nada.Toda esta situação acaba deixando a população da cidade indignada e o prefeito, fortemente pressionado pelos moradores, mesmo que a contragosto, acaba cedendo e doa os recursos necessários (700 mil Liras) para manter o orfanato em funcionamento. 

Mas a revolta popular fica ainda mais intensa quando as pessoas descobrem que Don Andrea tinha escondido de todos que ele irá, de fato, usar o dinheiro da prefeitura para ressarcir Agostina. Com isso, a população se volta contra Agostina e Don Andrea. 

No final, apesar de Loretta falar que poderão retomar o dinheiro, ameaçando até processar Don Andrea, Agostina acaba desistindo da ideia de recuperar o seu dinheiro, pois ela percebe que ajudar aquelas vinte crianças é mais importante do que abrir a sua loja e enriquecer, e decide ir embora, para Nápoles, onde continuará a sua luta em busca de uma vida digna, junto com Marco. 

Enquanto isso, Don Andrea acaba falecendo, devido aos problemas de saúde que são resultado do tempo em que ficou preso em um campo de concentração na Alemanha. O comandante da Polícia recusa-se a ficar com as 700 mil Liras e os demais líderes da cidade (prefeito, empresários) acabam fazendo a mesma coisa. Assim, a Igreja fica com o dinheiro e pode manter as crianças no orfanato. 
Don Andrea fala para Agostina e Loretta a respeito dos gastos que tiveram para construir o orfanato para as 20 crianças. Ele gastou todo o dinheiro que ela enviou para o padre anterior, Don Giuseppe, já falecido. Merece destaque a brilhante atuação de Eduardo De Filippo no papel de Don Andrea. 

Tema do filme: Interesse Individual X Interesse Coletivo!


Desta maneira, vemos que os principais assuntos deste belo filme de Luigi Zampa são a condenação do egoísmo e do individualismo, bem como a possibilidade de redenção dos italianos por meio do predomínio do interesse coletivo sobre o individual na tarefa de construir a Itália do Pós-Guerra. 

O egoísmo, inicialmente, é de Agostina e de Australia, que ficam inconsoláveis com o fato do dinheiro da primeira ter sido usado para construir o orfanato, mostrando pouca preocupação com o destino daquelas vinte crianças abandonadas que foram beneficiadas pela obra. 

E depois vemos o egoísmo do padre (Don Andrea), que usou o dinheiro de Agostina, mesmo sabendo que o mesmo não pertencia à Igreja, para construir o orfanato. Ele não se preocupou com o fato de que ela estava sendo  fortemente prejudicada, para não dizer roubada, mesmo. 

O prefeito também também deixa claro que também possui essa mesma postura individualista, pois pensa apenas em fazer uma obra que irá beneficiá-lo politicamente, demonstrando também seu desprezo pela situação da crianças do orfanato. 

E também fica claro o egoísmo da população local que, inicialmente, defendia o uso do dinheiro da prefeitura para manter o orfanato funcionando (mas que usa seu próprio dinheiro para ir ao cinema) e que mudou de ideia quando as pessoas ficaram sabendo que Don Andrea iria ressarcir Agostina, pouco se importando com o fato de que o dinheiro dela foi usado, sem a sua autorização, para a construção do orfanato.
Um rico empresário faz um discurso elogiando a capacidade de iniciativa individual, o espírito empreendedor, que permitiu que Agostina (uma prostituta) fosse embora da cidade e acumulasse riqueza. Já o trabalhador diz que ela é uma legítima representante da classe operária. E o prefeito diz que ela foi bem sucedida devido à sua espiritualidade, procurando agradar aos fiéis da cidade. Somente no final é que eles irão descobrir qual foi a maneira pela qual ela acumulou tanto dinheiro. 

E a maneira como Zampa conclui o seu filme, que possui um tom levemente satírico que aponta para o fato de que a reconstrução da Itália no Pós-Guerra, depois de muitos anos de crise econômica (Grande Depressão dos anos 1930), guerra e miséria, iria exigir uma postura diferente por parte dos italianos, que teriam de abrir mão daquilo que é totalmente supérfluo (exemplo: a prefeitura construir uma obra apenas para fortalecer politicamente os governantes).


No lugar dessas obras inúteis, os Zampa deixa claro que os italianos deveriam passar a investir naquilo que fosse prioritário para melhorar as condições de vida da população, como seria a construção de orfanatos, creches e escolas para dar abrigo e oportunidades de estudo a milhares de crianças abandonadas, que existiam em grande número na Itália, Alemanha e em toda a Europa ao final da Segunda Guerra Mundial.

E a sequência final mostra Agostina se emocionando com a homenagem sincera que as crianças do orfanato lhe fizeram. Assim, ela percebe que fez a escolha certa ao abrir mão do dinheiro, permitindo que o orfanato pudesse continuar funcionando. E até os adultos da cidade (prefeito, comandante da Polícia) terminam por homenageá-la no momento em que ela embarca para Nápoles.  

Logo, neste ótimo filme dirigido por Zampa e roteirizado por Tellini, fica clara a condenação do individualismo burguês e da ganância pessoal (ou seja, do que chamamos atualmente de Capitalismo Neoliberal) e a defesa do predomínio dos interesses coletivos, defendendo a ideia de que deve-se dar total prioridade para a necessidade de se resolver os principais problemas sociais e econômicos que a Itália possuía naquele momento e que já enumerei aqui. 

Obs2: O tom de sátira que está presente em alguns momentos deste filme de Luigi Zampa foi novamente utilizado em outro excelente filme que foi dirigido por ele, que foi o 'Gli Anni Rugenti' (1962), que ridiculariza o Fascismo do início ao fim. Este filme também já foi analisado por mim aqui no blog. De certa maneira, Zampa foi um dos diretores que antecipou o imenso sucesso, de alcance mundial, das comédias italianas dos anos 1950, 1960 e 1970. Os geniais diretores Pietro Germi, Dino Risi, Mario Monicelli e Ettore Scola foram alguns dos principais nomes. 
O padre de Ischia (Don Andrea) convoca o povo e avisa que terá que fechar o orfanato por falta de recursos e cobra que o Prefeito ceda as 700 mil Liras, que estão destinados para construir o 'monumento à vitória', para o orfanato em vez de construir um monumento inútil. 

Luigi Zampa, o Neo-Realismo e a redenção do povo italiano no Pós-Guerra!


Esta visão, essencialmente socialista, que é defendida por Luigi Zampa e Piero Tellini em 'Campane a Martello', pode não ser do agrado de muitos (principalmente dos neoliberais), mas é perfeitamente coerente com as ideias que eram defendidas pelos cineastas e roteiristas ligados ao Neo-Realismo italiano, que mostraram, corajosamente, quais eram os principais problemas que afligiam o povo italiano naquele momento e que a solução para os mesmos estava na construção de uma sociedade justa e igualitária. 

Somente assim é que o povo italiano poderia se redimir dos vinte anos em que o país foi dominado pelo regime Fascista liderado por Mussolini. Aliás, este subiu ao poder em Outubro de 1922 e foi derrubado em Julho de 1943. Logo, Mussollini governou a Itália por 20 anos e 9 meses. E quantas crianças temos no orfanato? Vinte. É como se para cada ano de domínio fascista, tivéssemos uma criança abandonada. 

Logo, cada uma destas crianças órfãs representa um ano de governo fascista e cuidar delas, no Pós-Guerra, simboliza a redenção não apenas de Agostina (que abriu mão de receber o dinheiro de volta), mas de todo o povo italiano, que deu um apoio significativo ao governo de Mussolini durante muitos anos e que, portanto, ajudou a colocar a Itália na catastrófica situação em que a mesma se encontrava após o final da Segunda Guerra Mundial. 

Aliás, o próprio Zampa já havia tratado, de forma corajosa, desse assunto em seu filme imediatamente anterior, que foi 'Anni Difficili', que foi produzido em 1948, um ano antes de 'Campane a Martello'. 
As 20 crianças (uma para cada ano de governo Fascista liderado por Mussolini) passam a noite na escadaria da Igreja.

Portanto, a obra de Zampa é coerente com a sua visão de mundo e 'Campane a Martello' é um belo exemplar da mesma. E também vimos, neste filme, algumas das principais características do Neo-Realismo, tais como: 


A) O uso de atores não-profissionais (moradores de Ischia atuaram no filme); 
B) A filmagem em locações naturais;
C) Mostrar na tela do cinema aspectos importantes da realidade econômica e social da Itália da época, caso da prostituição e das crianças abandonadas;
D) A pobreza da região e do povo, bem como as desigualdades sociais, aparecem com destaque no filme;
E) A crítica aos valores individualistas e egoístas da burguesia.  

Entre as novidades, temos a presença de duas belas atrizes protagonizando o filme (Yvone Sanson e Gina Lollobrigida), o que também será feito por outros cineastas Neo-Realistas (o que foi o caso de Giuseppe De Santis, com Silvana Mangano em 'Riso Amaro', que já analisei aqui no blog).  

Obs3: A respeito do tema das crianças abandonadas e menores infratores na Europa do Pós-Guerra, temos outros ótimos filmes Neo-Realistas que trataram do assunto, tais como: Sciuscià (Vítimas da Tormenta, de Vittorio De Sica, de 1946), 'Alemanha Ano Zero' (de Roberto Rossellini, de 1948) e 'Proibito Rubare' (Luigi Comencini, de 1948). Os dois primeiros filmes já foram analisado por mim aqui no blog. 


As crianças do orfanato vão se despedir da 'Mama Agostina', que desistiu de recuperar o dinheiro que Don Andrea usou para criar o orfanato, deixando as 700 mil Liras para a Igreja manter o orfanato funcionando. 

Informações Adicionais!

Título: Campane a Martello (Toquem os Sinos);
Direitor: Luigi Zampa;
Roteiro: Piero Tellini;
Ano de Produção: 1949; País de Produção: Itália;
Duração: 85 minutos; Gênero: Drama;
Música: Nino Rota; Fotografia: Carlo Montuori;
Assistentes de Direção: Mauro Bolognini; Giuseppe Colizzi;
Elenco: Gina Lollobrigida (Agostina Bortoloci); Yvonne Sanson (Loretta/Australia); Carlo Romano (O Marechal); Clelia Matania (Bianca); Eduardo De Filippo (Don Andrea); Carlo Giustini (Marco); Ada Colangeli (Francesca), Carlo Pisacane (Filippo, o sacristão), Agostino Salvietti (Prefeito); Salvatore Arcidiacono (Farmacêutico); Vittoria Febbi (Connie). 

Links:

Informações sobre 'Campane a Martello':

https://www.imdb.com/title/tt0042303/?ref_=nv_sr_2

Texto sobre o filme 'Sciucià' (Vítimas da Tormenta), de Vittorio De Sica:

http://popeseries.blogspot.com/2017/03/sciuscia-vitimas-da-tormenta-mostra-as.html
Agostina fica emocionada e chora com as homenagens que recebe quando vai embora para Nápoles. 
Texto sobre o filme 'Alemanha Ano Zero', de Roberto Rossellini:

http://popeseries.blogspot.com/2018/08/alemanha-ano-zero-rossellini-mostra.html

Texto sobre o filme 'Gli Anni Ruggenti':

http://popeseries.blogspot.com/2017/05/gli-anni-ruggenti-luigi-zampa-fez.html

Texto sobre o filme 'Riso Amaro' (Arroz Amargo):

http://popeseries.blogspot.com/2017/03/riso-amaro-arroz-amargo-um-classico-do.html

Trecho do Filme:

domingo, 28 de outubro de 2018

'Arquivo X' e a pergunta mais importante sobre a essência da série: Afinal, porque o frango atravessou a estrada?

'Arquivo X' e a pergunta mais importante sobre a essência da série: Afinal, porque o frango atravessou a estrada?
Mulder e Scully em 'Minha Luta 1' (10X01). 

Mulder: O frango atravessou a estrada contra a sua vontade. Ele foi sequestrado por militares a serviço do Sindicato e dos Alienígenas que desejam exterminar as atuais raças de frangos. Esse frango foi submetido a testes de hibridação genética para criar uma nova raça de frangos, muito mais evoluída do que as existentes. Temos que denunciar essas planos malignos para o mundo. As pessoas tem o direito de conhecer a Verdade. 


Scully: Como assim, frango, Mulder? Você já fez os testes e avaliações científicas necessários para saber se era mesmo um frango? Você acredita em tudo, Mulder, sem questionar nada, até em frangos que atravessam a estrada. Eles usarão o frango contra você, Mulder. Mulder, você é louco.

Krycek: Frango? Olha, eu tenho uma ótima galinha aqui. Vamos fazer uma troca e nos tornaremos grandes amigos.

Skinner: Mulder, estou te avisando: Se você insistir nessa história do frango as consequências serão drásticas e eu não poderei ajudar nem você e nem a Scully. Todos nós recebemos ordens de alguém. Considere-se avisado.

Canceroso: Não existe frango nenhum. Isso é maluquice do Mulder.  

Pistoleiros Solitários: Os frangos são usados pelo governo para nos vigiar e nos controlar o tempo inteiro. Nos olhos dos frangos temos câmeras minúsculas que filmam e gravam tudo o que os frangos vêem. Os olhos dos frangos estão conectados a uma central informatizada que é controlada pelo CIA e pela NSA. Por isso que nunca comemos frangos. Todos os frangos são espiões a serviço do Governo. 
Mulder e Skinner em 'Minha Luta 1' (10X01).

Garganta Profunda: Sr. Mulder, estou numa posição de poder que me permite saber tudo o que os frangos estão fazendo e tenho livre acesso para entrar em qualquer galinheiro do país. Mas somente vou te passar as informações sobre os frangos que forem do meu interesse. 


X: Mas que frango, Sr. Mulder? O Sr. entra em contato comigo nas horas mais impróprias, nos colocando em situação de grande perigo. O meu predecessor morreu porque te passou informações demais sobre os frangos. Eu não cometerei o mesmo erro (e entrega um calhamaço cheio de informações sobre os frangos para o Mulder...). 

Donnie Pfaster: Esse frango usa shampoo?

O Instigador (Robert P. Modell): Se quiser eu posso fazer esse frango passar a acreditar que é um elefante...

John Barnett (O Homem que não queria morrer): Eu voouuu peeeggaaaarrrr esseee fraaaangoooo...

Evas (Projeto Litchfield): Nós não fizemos nada de mais contra esse frango. Essa é a nossa natureza. Fomos criadas assim. Ninguém nos contou. Apenas sabíamos. 

Boggs (O Vidente): Eu posso entrar em contato com as almas de todos os frangos que já morreram, Scully. Eu tenho uma mensagem do além vinda diretamente do frango que você tinha, e do qual tanto gostava, e que acabou de morrer, o que te deixou tão triste. O Mulder não acredita em mim, mas você acredita. 
Eugene Victor Tooms foi um dos principais vilões da história de 'Arquivo X'. 
O Incendiário: Eu vou torraaaarrr esse frango... hahahaha...

Reverendo Calvin Hartley (O Homem dos Milagres): Senhoras e Senhores, estamos hoje aqui reunidos, nesse Templo do Senhor, para testemunhar mais um milagre do meu amado filho, Samuel: Ele irá ressuscitar esse frango. Tenham fé e orem. 


Roland Fuller (Roland): Os frangos morrem. Não voltam mais. 

Albert Hosteen: Um frango morre apenas quando todos os outros frangos já não se lembram dele. 

Augustus Cole (Sem Dormir): Esse frango não dorme há 24 anos. Os cientistas o submeteram a cirurgias e experiências de erradicação do sono e a vida dele virou um inferno. Irei livrá-lo deste sofrimento. 

Duane Barry: Eu troquei esse frango por mim. Eles o levaram. Nunca mais irão levar Duane Barry.

Harry Cokely (Irresistível): Eu vou matar esse frango, irmãzinha...

Samantha Mulder (clone de 'A Colônia'/'Fim de Jogo'): Esse frango é um clone. Aquele outro frango é que você precisa salvar, Mulder. 
Canceroso é o grande vilão da história de 'Arquivo X'. 
Jim Rose (A Fraude): A quinta emenda da nossa amada Constituição diz... cocoricóoooo...

Charlie (Os Calusari): Mamãe, eu quero aquele frango. Eu quero aquele frango, mamãe. 


Homem Bem-Vestido: Os frangos fazem parte de um consórcio com interesses globais que tem o poder de prever o futuro de todos os frangos. E a melhor maneira de fazer isso é inventando esse futuro. 

Clyde Bruckman: Em uma outra realidade esse frango nunca atravessou a estrada. Assim, nesse outro mundo essa pergunta nunca foi feita. E a invasão de Granada nunca aconteceu. 

Reggie Something: Não é um frango. Nunca foi. É um ganso. Vocês não se lembram disso porque as suas memórias foram apagadas pelo Dr. They.

Erika Price: Nosso plano, Sr. Mulder, é levar todos os frangos para um simulador, para que continuem a existir em um mundo virtual, onde eles irão viver para sempre. Será uma coisa maravilhosa.  
Scully e a agente Einstein em cena de 'Minha Luta 2' (10X06). 

Tad O'Malley: Esse frango comanda a mais terrível conspiração da história da humanidade, mas eu irei denunciar os seus planos malignos. Vejam tudo a respeito em 'The Truth Squad'. 


Doggett: Monica, eu não posso acreditar que esse frango exista, pois isso significa que eu jamais fiz tudo o que podia para salvar o pintinho que eu tanto amava. 

Monica: Se eu acredito que esse frango existe? Digamos que eu tenho a mente aberta e admito que os frangos possam realmente existir. 


Kersh: Mulder e Scully, se vocês voltarem aqui para me falar novamente a respeito deste frango eu irei expulsá-los do FBI. Estamos entendidos? 

Brad Follmer: Monica, esse frango é invenção do John Doggett. Esqueça dele e beije-me. 

Robert Comer: Esse frango precisa morrer, pois existe uma profecia que diz que se o mesmo crescer ele será usado para exterminar a humanidade.
William em cena de 'Minha Luta 4' (11X10). 
William ('filho' de Mulder e Scully): Esse frango quer me usar para levar adiante os seus planos malignos. Prefiro morrer do que ser usado deste jeito. 

Billy Miles (supersoldado): Os frangos são bons. Eles estão aqui para nos salvar. 


Agente Einstein: Miller, você é maluco se acredita na existência de frangos. Eu não quero sofrer o mesmo que a agente Scully sofre por ter que aguentar as ideias pseudo-científicas do Mulder. 

Agente Miller: Agente Mulder, é um grande prazer conhecê-lo, sou um grande admirador seu e gostaria muito de aprender com você tudo que sabe a respeito dos frangos e de outros fenômenos sobrenaturais e inexplicáveis. 

Garganta Profunda: Sr. Mulder, os frangos estão aqui há muito, muito tempo. 

Chris Carter: O Frango Está Lá Fora!
Monica Reyes conversa com Scully em 'Minha Luta 2' (10X06).

Abertura da série:

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

'Il Cappotto': Lattuada fez um clássico sobre o desprezo das elites dominantes pelo cidadão comum! - Marcos Doniseti!

'Il Cappotto' ('O Sobretudo'): Lattuada fez um clássico sobre o desprezo das elites dominantes pelo cidadão comum! - Marcos Doniseti!
'Il Cappotto': Para muitos este é o melhor filme de Alberto Lattuada, diretor bastante identificado com o Neo-Realismo. Ele dirigiu outros filmes importantes, tais como 'Il Bandito', 'Senza Pietà', 'Anna' e 'Luci del Varietà' (com Fellini). 
A trajetória crítica e comercial de 'Il Cappotto'!

'Il Cappotto' é um dos melhores filmes italianos da década de 1950, sem dúvida alguma, e foi muito elogiado já na época do seu lançamento. O escritor italiano Alberto Moravia disse que este é o melhor filme de Lattuada, sendo bem dosado, compacto, sem vazio e bem narrado. 


Já o crítico de cinema italiano Giuseppe Turroni disse que 'Il Cappotto' é um filme que cativa, meio amargo, repleto de sentidos eróticos, que possui uma música triste, uma fotografia maravilhosa e que é marcado por um noção de tempo e de memória excepcionais. O catálogo Bolaffi disse que o filme de Lattuada é um filme muito delicado, repleto de 'poesia tenra e melancólica'. 

E o cineasta Mario Camerini disse que 'Il Cappotto' foi um dos primeiros filmes italianos de autor a libertar-se completamente do modo neo-realista que, na época da produção deste filme, estava passando por um processo de deterioração. 

Obs1: De fato, o início dos anos 1950 é um momento em que o cinema Neo-Realista não estava mais em seu auge, que se deu entre 1943-1948, porém ainda exercia influência na produção cinematográfica italiana, mas já incorporando novos elementos em suas produções: humor, misticismo, belas atrizes, produções mais elaboradas, melhor acabadas. Isso aconteceu muito em função da repressão promovida pelo conservador governo italiano contra os cineastas Neo-Realistas, a partir de 1948, e da abertura do mercado italiano para as produções de Hollywood. Assim, os diretores e roteiristas Neo-Realistas começaram a promover mudanças em suas obras, incorporando outros elementos, mas sem abandonar totalmente a influência do Neo-Realismo. Em seu livro 'O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano', Mariarosaria Fabbris diz que, segundo Alfonso Canziani, as produções Neo-Realistas se estenderam até 1955. 
Carmine usando o seu sobretudo velho, gasto e rasgado. 

Na época em que o filme foi lançado, o jornal milanês 'Corriere della Sera' (um dos principais da Itália) considerou que o filme de Lattuada é o mais compacto e tem que ser discutido, sendo também uma obra na qual o cineasta conseguiu reunir características de dois estilos diferentes de filmar: a caligrafia e o realismo. 


Obs2: O 'Caligrafismo' foi uma corrente do cinema italiano, dos anos 1940, cujas obras eram marcadas por uma estética muito formalizada e pela recusa dos temas do cotidiano, dando preferência aos temas históricos, principalmente os do século XIX e da chamada 'Belle Époque', motivo pelo qual havia muitos elementos decorativos nos mesmos: bordados, rendas, chapéus altos e espelhos. 

Obs3: O filme que é considerado como o mais representativo do 'Caligrafismo' é 'Malombra', de Mario Soldati, de 1942. Alguns críticos também enxergam uma influência dessa vertente em filmes de Mauro Bolognini e, até, de Luchino Visconti (seriam os casos de 'Senso' e de 'Il Gattopardo'). Logo, os filmes ligados ao 'Caligrafismo' tomam um rumo totalmente oposto ao do Neo-Realismo italiano, ao qual Lattuada era ligado inicialmente. 

O célebre crítico francês Georges Sadoul, autor de uma monumental obra sobre a história do cinema mundial, disse que 'Il Cappotto' é uma bela adaptação do livro de Gógol e que é perfeitamente interpretado por Rascel, cuja atuação se refere à melhor tradição chapliniana, sendo que a refinada encenação nunca tem o mérito de perder a contemporaneidade e o calor humano. 
Um idoso pobre pede a um burocrata do governo informações a respeito da sua pensão, mas é ignorado. 

E o jornal belga 'La Flandre Libérale' disse que Lattuada criou uma obra-prima, afirmando ainda que o estilo de Gógol, mesmo italianizado, foi preservado no filme que a atuação de Rascel é prodigiosa, sendo quase um novo Chaplin. E os jornais ingleses ('The Times' e 'Daily Telegraph', por exemplo) também elogiaram muito o filme de Lattuada. 


'Il Cappotto' também fez bastante sucesso comercial na época do seu lançamento, sendo que foi um dos filmes mais assistidos na Itália em 1952, ficando em 15o. lugar em arrecadação naquele ano. Posteriormente, ele fez uma carreira bem sucedida no exterior, sendo muito bem recebido pelo público no Festival de Cannes (onde foi exibido pela primeira vez, em Maio de 1953) e também quando foi exibido no Reino Unido e na Bélgica. 

Atualmente, este belo filme já é considerado como sendo um verdadeiro clássico, bem como é, para muitos, a obra-prima do cineasta Alberto Lattuada. Em uma lista de 80 filmes Neo-Realistas do IMDB, o rating do filme de Lattuada o coloca em um honroso 16o. lugar. 

O filme é baseado no livro 'O Capote', do escritor ucraniano/russo Nikolai Gógol, que foi publicado em 1942. Lattuada explicou a escolha do livro de Gógol porque o mesmo trata de valores universais (tirania e cegueira burocrática) e que são válidos para qualquer parte do mundo e para qualquer época. 
O Prefeito (no centro), o secretário-geral (à esquerda) e Carmine (à direita). 
A obra literária se passa na Rússia do século XIX mas, no filme, os acontecimentos do livro foram transpostos para a Itália do século XX (na cidade de Pavia, que se localiza na região da Lombardia, norte da Itália, próxima de Milão), porém não fica claro qual é a época exata em que a trama se desenvolve na obra de Lattuada. A história se desenvolve na Itália dos anos 1930, época do regime fascista liderado por Mussolini.

A trama do filme!


Resumidamente, o filme mostra a vida de Carmine De Carmine, que é um pobre, humilde e solitário funcionário público italiano e que trabalha para a Prefeitura de Pavia. 

Ele é tratado com total e absoluto desprezo pelos seus superiores, principalmente pelo governante da cidade (Il Sindaco) e pelo secretário-geral do município (principal assessor do Prefeito), até porque está sempre muito mal vestido, pois não tem dinheiro para comprar roupas de melhor qualidade, sendo que está sempre usando um sobretudo velho, gasto e rasgado.

Carmine também é apaixonado, platonicamente, por Caterina, uma bela e elegante mulher que é amante do Prefeito, que é elitista, corrupto e infiel. Mas é claro que ele, pobre e que está sempre mal vestido, é ignorado por ela, que chega a lhe dar uma esmola quando cruza com ele, sem olhar, em um momento no qual ele a admirava pelas ruas de Pavia, cidade em que se desenvolve a história do filme.
O Prefeito apresenta seu projeto de grandes obras, que beneficiam apenas aos grandes empresários, ignorando as necessidades da população. 
O pobre Carmine mora em uma pensão, que mais se parece com um cortiço, e como ele trabalha na prefeitura, o mesmo é visto pelos demais moradores do local como alguém que poderia levar as suas reivindicações aos governantes, mas é claro que isso não acontece, pois Carmine é um pobre coitado que é totalmente ignorado e desprezado pelos ricos e poderosos da cidade (burocratas, prefeito e empresários).

O prefeito, seus assessores e os principais empresários da cidade não ligam a mínima para as necessidades da população e se preocupam apenas em fazer obras e festas que servirão apenas para que possam aparecer com uma imagem positiva perante o povo e para poder desviar dinheiro público. Eles fazem tudo isso em seu próprio benefício e repassam a conta para a população, por meio do aumento dos impostos. 

O próprio Carmine é um funcionário público que mal sabe ler e escrever, mas que é mantido no cargo que ocupa apenas por ser obediente e disciplinado, fazendo tudo o que lhe é determinado, mesmo que faça o seu trabalho de forma que não agrada aos seus superiores. 

Ele mal consegue escrever e ler corretamente a ata de uma reunião do Prefeito com assessores e empresários e a forma como o faz acaba por ser uma espécie de denúncia bem humorada e indireta do desprezo que os mesmos demonstram pela população, nesta que é uma das melhores e mais irônicas cenas do filme. 
Carmine lendo a ata que escreveu a respeito da reunião entre o Prefeito e os empresários da cidade. 
Isso leva o secretário-geral a querer demitir Carmine, mas quando este conta para o mesmo que ouviu uma conversa altamente comprometedora, relacionada ao pagamento de subornos, que envolvia o secretário-geral da prefeitura, empresários e um jornalista, ele acaba sendo mantido no cargo e ainda ganha um bônus pelo trabalho realizado, o que é uma maneira de mantê-lo calado a respeito do que tinha ouvido. 

O dinheiro do bônus e da esmola que recebeu de Caterina são suficientes, no entanto, para que o pobre e humilde Carmine tenha condições de, pelo menos, pagar a entrada de um novo sobretudo, que era o seu grande sonho, pois imaginava que, desta maneira, andando de maneira elegante, ele acabaria por conquistar o respeito das pessoas. Este sobretudo é feito por um alfaiate e, depois que fica pronto, o mesmo vira motivo de orgulho para Carmine, que passa a desfilar com ele em todos os locais.

Apesar do sobretudo que comprou, ele continua tão pobre quanto antes e, em uma noite, ao voltar para a pensão, quando estava chovendo, ele não tinha sequer um guarda-chuva e, usando da sua esperteza natural, foi pegando carona com outras pessoas, até que chegou ao local em que morava. Esta foi a maneira que ele usou para impedir que o seu sobretudo ficasse molhado. 

Graças ao sobretudo novo e bonito, ele chega a participar, até mesmo, de uma festa de Ano-Novo na casa do secretário-geral e que reúne a elite da cidade (prefeito, empresários, burocratas) e na qual ele fuma e bebe bastante e consegue realizar o velho sonho de dançar com a sua paixão platônica, a bela Caterina. 
Carmine admira a beleza de Caterina, que o ignora totalmente. 
Na festa, a bela Caterina, inclusive, acaba por simpatizar com a inocência e a simplicidade de Carmine, para irritação do Prefeito, que não perde uma única oportunidade de demonstrar o seu completo desprezo pelos cidadãos comuns, do qual Carmine é a principal representação neste belo filme de Lattuada. Carmine também chega a ler uma carta, dos moradores miseráveis da pensão em que morava, com as reivindicações deste, o que deixa o Prefeito ainda mais furioso. 

Porém, toda esta felicidade durou pouco tempo e quando voltava da festa de Ano-Novo, sozinho, para a pensão, ele teve o bonito sobretudo roubado por um ladrão. Em um primeiro momento, ele apela para um vigia noturno, que não dá a mínima para o pedido de ajuda de Carmine. 

Depois disso, ele vai até o gabinete do Prefeito, a quem implora que o ajude a encontrar o sobretudo, entrando em contato com a Polícia, para fazer com que esta encontrasse o ladrão e recuperar o seu sobretudo. Mas ele é, novamente, humilhado pelo manda-chuva da cidade, que não liga a mínima para o seu pedido e que o manda embora do local.

Logo, Carmine fica desesperado e passa a se comportar de maneira irracional, sofrendo um colapso nervoso e acaba por vir a falecer. Isso acontece porque, afinal, a perda do sobretudo não foi, de fato, uma perda de natureza exclusivamente material (devido ao prejuízo financeiro que ele sofreu), mas principalmente de caráter simbólico, pois o bonito sobretudo que havia comprado representava o seu passaporte para a respeitabilidade, para ser notado e aceito pelas outras pessoas.
Carmine fica todo orgulhoso quando veste o seu novo e bonito sobretudo que, para ele, é um sinal de respeitabilidade. 
Assim aconteceu, por exemplo, com a bela Caterina, que o ignorava totalmente antes dele comprar o sobretudo e que até aceitou dançar com ele na festa de Ano-Novo quando Carmine possuía o mesmo. 

E depois disso, quando o Prefeito (autoritário, arrogante e elitista) organizou a grande festa que desejava, a fim de impressionar um ilustre visitante na cidade, o funeral de Carmine acabou por atrapalhar e prejudicar o evento realizado pelo desonesto governante. E o visitante ilustre que se entediava com o discurso do Prefeito acabou demonstrando respeito pelo falecimento de Carmine, cujo corpo era levado por uma carroça, o que interrompeu o discurso hipócrita do adúltero e corrupto governante local.

Porém, Carmine não desapareceu da história, pois o seu espírito começa a aparecer em situações que deixam o prefeito e os poderosos da cidade assustados, tirando os botões dos sobretudos dos mesmos, gerando brigas e confusões entre os moradores da cidade.  

Em um outro momento, quando o Prefeito foi visitar Caterina, o falecido Carmine fazia barulhos, o que deixou o mesmo sem saber o que estava acontecendo, estragando o encontro do corrupto governante com a sua bela amante. E no fim, quando o Prefeito voltava sozinho para casa, Carmine lhe apareceu (como se fosse um fantasma), exigindo justiça, que ele mudasse o seu comportamento em relação às pessoas. 
O prefeito da cidade na festa de Ano-Novo do secretário-geral. Ele era casado mas tinha um caso com a bela Caterina.

E assim, finalmente, o corrupto e autoritário governante, que sempre havia tratado o humilde funcionário com total desprezo, acabou reconhecendo que estava errado na sua maneira de agir e prometeu que iria mudar radicalmente a sua forma de se comportar, passando a deixar de lado as grandes obras, que beneficiam apenas aos grandes capitalistas, e passando a priorizar as necessidades do povo. 


Assim, ele diz que passará a se preocupar em atender as reivindicações da população e a tratar as pessoas com respeito, o que deixa o falecido Carmine contente. 

Roteiro, influências e atuação de Rascel!

Existem várias versões a respeito de quem escreveu o roteiro de 'Il Cappotto'. Lattuada disse que o autor do mesmo foi Luigi Malerba e que Leonardo Sinisgalli e Giorgio Prosperi também contribuíram com a sua elaboração. Mas um dos produtores do filme (Giordano Corsi) disse que o roteiro foi escrito por Giorgio Prosperi e que os nomes de Zavattini e de Sinisgalli foram acrescentados para aumentar o prestígio da produção. 

Neste filme de Lattuada fica clara a influência dos Filmes Noir, pois muitas das cenas são ambientadas a noite e temos a história de um crime na trama (o roubo do sobretudo de Carmine).
Carmine dança com a bela Caterina, realizando um sonho, o que somente foi possível devido ao fato de ter comprado um elegante sobretudo, que o tornou uma pessoa respeitável aos outros dos outros. 

E ainda temos a excepcional atuação de Renato Rascel, cuja interpretação foi considerada 'chapliniana' por muitos críticos de cinema. Seu personagem, claramente, lembra o Carlitos do genial Chaplin. O brilhante trabalho de Rascel, inclusive, lhe rendeu o prêmio de melhor ator por parte dos críticos de cinema italianos em 1953. Uma curiosidade é que, na época da produção do filme, Rascel realmente realmente teve um sobretudo roubado. 


Aliás, a brilhante atuação de Rascel foi uma grande surpresa para muitos jornalistas e críticos, pois ele estava habituado a trabalhar em produções mais leves e ninguém esperava que ele fosse capaz de realizar uma interpretação tão excepcional quanto a que fez neste belo filme de Lattuada. 

As cenas filmadas em interiores foram realizadas nos estúdios da 'Titanus', enquanto que as cenas externas foram inteiramente filmadas em Pavia. Uma curiosidade é que as cenas externas tinham que ter a presença de neve, mas naquele ano (1952) não nevou na cidade, o que obrigou os produtos a fazer uso de toneladas de neve artificial. 

A produtora responsável pelo filme (Faro Film, de Messina) era nova, tendo sido fundada em 1950 por alguns fãs de Cinema e havia se especializado em documentários, com os quais conseguiu um bom lucro. Com isso, ela se arriscou em produzir 'Il Cappoto'. Mas depois deste filme de Lattuada ela produziu apenas mais quatro filmes entre 1953 e 1960.

Um dos motivos que levou a 'Faro Film' a produzir 'Il Cappotto' é que o diretor Alberto Lattuada vinha de um sucesso comercial recente, que foi 'Anna', produção de 1951 e que teve Silvana Mangano como protagonista. 
O Prefeito conversa com o espírito de Carmine e reconhece que sua forma de governar e de agir com a população está totalmente errada. Ele promete para Carmine que irá mudar. 

Informações Adicionais!


Título: Il Cappotto (O Sobretudo);
Diretor: Alberto Lattuada;
Roteiro: Alberto Lattuada, Giorgio Prosperi, Cesare Zavattini, Giordano Corsi, Luigi Malerba, Enzo Curreli e Leonardo Sinisgalli; Baseado no livro 'O Capote', de Nikolai Gógol;
Música: Felice Lattuada; Fotografia: Mario Montuori;
Duração: 102 minutos; Gênero: Drama Social;
Ano de Produção: 1952; País de Produção: Itália;
Elenco: Renato Rascel (Carmine De Carmine); Giulio Stival (Prefeito); Ettore Mattia (Secretário-Geral); Yvonne Sanson (Caterina, amante do Prefeito); Giulio Cali (alfaiate); Silvio Bangolini (vendedor ambulante); Antonella Lualdi (Vittoria, filha do Prefeito); Sandro Somaré (namorado de Vittoria); Claudio Ermelli (o fotógrafo);
Prêmios: Renato Rascel ganhou a 'Fita de Prata' de Melhor Ator do Sindicato Nacional de Críticos de Cinema da Itália de 1953.

Informações sobre o filme:

https://it.wikipedia.org/wiki/Il_cappotto_(film)

https://www.imdb.com/title/tt0044474/?ref_=ttfc_fc_tt
Créditos finais do belo e poético filme de Alberto Lattuada. 

Trailer do Filme: