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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

'Campane a Martello': Luigi Zampa faz homenagem às mulheres italianas e defende o predomínio do interesse coletivo sobre o individual! - Marcos Doniseti!

'Campane a Martello': Luigi Zampa faz homenagem às mulheres italianas e defende o predomínio do interesse coletivo sobre o individual! - Marcos Doniseti!
Luigi Zampa mostra o quanto as mulheres italianas sofreram com as consequências da Segunda Guerra Mundial, durante a qual muitas delas foram forçadas a se prostituir para poder sobreviver, devido à destruição e a miséria provocada pelo envolvimento da Itália no conflito. 
Contexto histórico!

Este é um belo e sensível filme de Luigi Zampa, que foi um dos principais diretores italianos ligados ao Neo-Realismo cinematográfico italiano, embora ele não desfrute da mesma fama de outros cineastas consagrados, como são os casos de Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que constituem, de certa maneira, a 'Santíssima Trindade' do Neo-Realismo. 

O roteiro do filme de Zampa é de autoria de Piero Tellini, que também escreveu roteiros para alguns importantes filmes Neo-Realistas, incluindo 'Il Bandito' e 'Il Delitto di Giovanni Episcopo' (que foram dirigidos por Alberto Lattuada) e 'Vivere in Pace' e 'Angelina, a Honorável', sendo que estes dois últimos foram dirigidos pelo mesmo Luigi Zampa.

A trama de 'Campane a Martello' (Toquem os Sinos) se desenvolve após o final da Segunda Guerra Mundial, quando os soldados dos EUA que foram lutar na Itália estão retornando ao seu país, depois de lutarem durante 21 meses, entre Julho de 1943 e Abril de 1945, em território italiano contra as forças do Nazi-Fascismo.

A Itália desta época é uma país muito pobre, com um povo que passa fome e vive na miséria, o que é resultado do fracasso econômico do regime Fascista e das derrotas humilhantes sofridas na guerra, durante a qual o território e o povo italianos sofreram intensos bombardeios e foram palco e vítimas de violentos combates. 
Mulheres italianas se despedem dos soldados dos EUA no porto de Livorno. Muitas delas se prostituíram e engravidaram durante a guerra. 

E o que vemos é um país devastado, com muitas cidades em ruínas, a área rural destruída (os camponeses foram vítimas das 'requisições' de alimentos feitas pelo soldados), milhares de mulheres italianas foram estupradas (inclusive por soldados das Forças Aliadas), havia muitos desempregados, crianças abandonadas, fome, miséria, elevada criminalidade e prostituição em grande escala. 


No início do filme, vemos o porto da cidade de Livorno sendo recuperado, com muitos barris no local, pois a região produz vinho e o mesmo é exportado, o que mostra um início de recuperação da economia italiana, mas que ainda está longe de beneficiar à população. Mas enquanto o navio italiano ancorado no porto está em ruínas, o navio dos EUA que levam os soldados ianques de volta para a sua terra natal é 'novo em folha'.

De fato, a recuperação econômica e a reconstrução da Itália, mesmo, ainda irá demorar alguns anos para que pudesse ser concluída, o que irá acontecer por volta de 1953/1954, cinco anos após a produção de 'Campane a Martello', graças aos recursos enviados pelos EUA por meio do Plano Marshall. 

A trama do filme!

A protagonista da história é uma bonita jovem (Agostina Bortoloci), que é interpretada pela bela Gina Lollobrigida (ainda em início de carreira; este foi o seu terceiro filme), originária da cidade de Isola d'Ischia (que é uma ilha localizada na província de Nápoles, no sul da Itália). 
Jornal italiano 'Il Tempo' anuncia o retorno dos soldados dos EUA para a sua terra natal, logo após a derrota do Nazi-Fascismo na Europa. 

Antes da Segunda Guerra Mundial começar a bela Agostina era uma empregada doméstica, mas que durante o conflito viveu em Livorno (localizada na região da Toscana, norte da Itália, próxima a Florença), período durante o qual ela praticou a mais 'antiga das profissões': a prostituição. Seus principais clientes (bem como de muitas outras mulheres italianas daquela época) foram os soldados dos EUA que lutaram no país.


Aliás, logo no início do filme vemos a notícia nos jornais do retorno destes soldados para o seu país natal e as mulheres italianas, com as quais eles se relacionaram durante a sua estadia na terra de Leonardo da Vinci, foram ao porto se despedir dos mesmos. 

Estes soldados ianques eram bem abastecidos de dólares e produtos que eram desejados pelos italianos (alimentos e cigarros, por exemplo, que foram usados como se fosse dinheiro na Europa dominada pelos Aliados) e tinham um elevado poder de compra na empobrecida e miserável Itália da época da Segunda Guerra Mundial (1940-1945), conflito no qual as Forças Armadas italianas sofreram sucessivas e humilhantes derrotas. 

Assim, não saía caro para os militares ianques o envolvimento com mulheres italianas para as quais a prostituição acabou sendo a única alternativa para sobreviver em meio ao caso e à miséria gerada pela Guerra em que Mussolini jogou o país, em Junho de 1940. 
Agostina e outras prostitutas foram expulsas de Livorno e são obrigadas a retornar para as suas cidades de origem. 

Em uma carta que escreveu para a sua esposa, durante a invasão da Sicília, em Julho de 1943, o general George S. Patton, que comandou as tropas dos EUA na invasão da ilha, disse que com uma lata de feijão já era possível convencer uma mulher da ilha a se prostituir, tal a miséria que existia ali. E no seu diário, Patton escreveu o seguinte: "A gente deste país é a mais carente e esquecida por Deus que já vi". 


Obs1: As afirmações feitas por Patton, em sua carta e no seu diário, foram retiradas do livro 'A Segunda Guerra Mundial', de Antony Beevor (página 555). 

As humilhantes derrotas sofridas pelas Forças Armadas italianas acabaram por mostrar ao povo italiano o quanto o regime de Mussolini era frágil e havia se imposto com base em mentiras descaradas, como a de que iria fazer da Itália um novo Império Romano, transformando-a numa potência mundial que seria respeitada e temida por outras nações. 

As derrotas fragorosas sofridas pela Itália na Guerra (no Norte da África, na Grécia) deixaram claro para o povo italiano o quanto ele havia sido enganado e iludido pelo regime Fascista.  

No caso da trama do filme vimos que após o final da guerra o governo decidiu expulsar, para as suas cidades de origem, todas as prostitutas que não eram originárias da região em que estavam, sendo que Agostina foi uma delas. Ela tentou convencer o funcionário dos Carabinieiri (a Polícia italiana) a não fazer isso, mas ele se manteve inflexível, e ela ficou sem opção, a não ser retornar para a sua cidade natal, na ilha de Ischia. 
Loretta (interpretada por Yvonne Sanson, atriz grega que fez carreira na Itália) e Agostina chegam a Ischia, para onde vão em busca do dinheiro que esta última enviou para que o pároco Don Giuseppe guardasse. O que ela não sabe é que Don Andrea, o novo padre, gastou todo o seu dinheiro na montagem de um orfanato para 20 crianças. 

Agostina volta para Ischia junto com outra amiga de profissão (Australia) que fica sabendo que a amiga fez uma boa poupança durante todos aqueles anos, mas que não depositou o dinheiro em um banco. Agostina mandou todo o dinheiro para um padre de Ischia (Don Giuseppe), pedindo que o mesmo guardasse o dinheiro que havia enviado (eram quase 1.500.000 Liras).


Em função disso, quando chega em Ischia, os moradores da cidade pensam que Agostina é uma mulher rica, de uma família abastada e respeitável, sendo tratada como tal pelos habitantes locais quando chegou à cidade. 

Porém, ao desembarcar em Ischia e procurar pelo padre (Don Giuseppe) a quem tinha enviado todo o dinheiro que havia acumulado, Agostina ficou sabendo que ele havia morrido (com 92 anos) e que o novo pároco (Don Andrea) havia gasto tudo para construir um orfanato no qual abrigou 20 crianças e cujas mães eram mulheres que haviam sido engravidadas por soldados aliados durante a Guerra, mas que foram abandonadas pelas mães, que não tinham condições de criar as crianças. 

Desta maneira, Agostina fica totalmente desapontada, pois ela e a sua melhor amiga (Loretta/Australia) planejavam usar o dinheiro acumulado para abrir uma loja, o que lhes permitiria abandonar a prostituição, transformando-se em comerciantes respeitáveis na Itália do Pós-Guerra. 
Agostina e Loretta olham para as crianças do orfanato e estranham o motivo delas serem tão admiradas pelas mesmas. 

Mas como o padre, Don Andrea, usara o dinheiro para construir o orfanato, os planos das duas foram por água abaixo, sendo que durante boa parte do filme vemos várias situações em que elas demonstram, claramente, a sua frustração pelo que havia acontecido. Inicialmente, elas chegam a querer manter distância das crianças que chamam Agostina de 'Mamãe' e somente no final é que elas vão se dar conta da importância do orfanato para aquelas crianças abandonadas. 


E os moradores de Ischia, incluindo os seus habitantes de maior prestígio (prefeito, comandante da Polícia, empresários locais), não cansam de bajular Agostina, pensando que ela era uma mulher muito rica e pensando que poderiam arrancar mais dinheiro dela para seus projetos. 

E o ex-noivo de Agostina, um soldado chamado Marco, acaba retornando para Ischia para se encontrar com a mesma. Marco diz que deseja ir para Nápoles e se casar com ela, mas Agostina fala que não o merece, pelo seu passado, a respeito do qual ela não comenta absolutamente nada, escondendo que viveu como prostituta durante quatro anos (1941-1945). Marco insiste e diz que irá esperar por ela, em Nápoles, sendo que Agostina, depois de pensar em voltar a viver da prostituição, acaba concordando.

No entanto, em um determinado momento, Agostina terá uma conversado reveladora com Don Andrea, na qual este demonstra que sabia, sim, que o dinheiro que ele usara para construir o orfanato não era da Igreja, mas dela, Agostina. Mas ele pensara que Agostina era rica e que tal dinheiro não iria lhe fazer falta alguma. 

Porém, o choque maior que Don Andrea sofre é descobrir como Agostina havia acumulado tais recursos, fazendo com que o padre fique doente. E depois ele irá tentar ressarcir Agostina e, para isso, tenta convencer o prefeito da cidade a lhe dar o dinheiro necessário para poder pagar a ex-prostituta. 

E com o objetivo de pressionar o governante local, Don Andrea manda tocar os sinos da Igreja (daí o nome do filme...), reúne o povo em frente ao local e fala para todos os moradores de Ischia que sem o dinheiro da prefeitura ele não terá como manter o orfanato em funcionamento. E para deixar isso bem claro, Don Andrea fecha o orfanato, colocando as crianças na escadaria da Igreja, local em que elas ficam durante uma noite inteira. 
As crianças do orfanato olham para a 'Mama Agostina' pela primeira vez. As crianças eram filhas de mães italianas e de soldados de vários países (EUA, Inglaterra, Alemanha, Filipinas...). Don Andrea faz uma brincadeira, dizendo que os soldados não 'negaram fogo' quando se relacionaram com as mulheres italianas...

Tal atitude, no entanto, é atacada pelo prefeito e pelos poderosos locais, que pouco se importam com a situação das crianças e pensam apenas em seus próprios interesses.


Isso acontece porque o prefeito da cidade está reservando o dinheiro do governo para a construção de um monumento (ao custo de 700 mil liras) que é considerado prioritário por ele, mas que não irá beneficiar a população em absolutamente nada.Toda esta situação acaba deixando a população da cidade indignada e o prefeito, fortemente pressionado pelos moradores, mesmo que a contragosto, acaba cedendo e doa os recursos necessários (700 mil Liras) para manter o orfanato em funcionamento. 

Mas a revolta popular fica ainda mais intensa quando as pessoas descobrem que Don Andrea tinha escondido de todos que ele irá, de fato, usar o dinheiro da prefeitura para ressarcir Agostina. Com isso, a população se volta contra Agostina e Don Andrea. 

No final, apesar de Loretta falar que poderão retomar o dinheiro, ameaçando até processar Don Andrea, Agostina acaba desistindo da ideia de recuperar o seu dinheiro, pois ela percebe que ajudar aquelas vinte crianças é mais importante do que abrir a sua loja e enriquecer, e decide ir embora, para Nápoles, onde continuará a sua luta em busca de uma vida digna, junto com Marco. 

Enquanto isso, Don Andrea acaba falecendo, devido aos problemas de saúde que são resultado do tempo em que ficou preso em um campo de concentração na Alemanha. O comandante da Polícia recusa-se a ficar com as 700 mil Liras e os demais líderes da cidade (prefeito, empresários) acabam fazendo a mesma coisa. Assim, a Igreja fica com o dinheiro e pode manter as crianças no orfanato. 
Don Andrea fala para Agostina e Loretta a respeito dos gastos que tiveram para construir o orfanato para as 20 crianças. Ele gastou todo o dinheiro que ela enviou para o padre anterior, Don Giuseppe, já falecido. Merece destaque a brilhante atuação de Eduardo De Filippo no papel de Don Andrea. 

Tema do filme: Interesse Individual X Interesse Coletivo!


Desta maneira, vemos que os principais assuntos deste belo filme de Luigi Zampa são a condenação do egoísmo e do individualismo, bem como a possibilidade de redenção dos italianos por meio do predomínio do interesse coletivo sobre o individual na tarefa de construir a Itália do Pós-Guerra. 

O egoísmo, inicialmente, é de Agostina e de Australia, que ficam inconsoláveis com o fato do dinheiro da primeira ter sido usado para construir o orfanato, mostrando pouca preocupação com o destino daquelas vinte crianças abandonadas que foram beneficiadas pela obra. 

E depois vemos o egoísmo do padre (Don Andrea), que usou o dinheiro de Agostina, mesmo sabendo que o mesmo não pertencia à Igreja, para construir o orfanato. Ele não se preocupou com o fato de que ela estava sendo  fortemente prejudicada, para não dizer roubada, mesmo. 

O prefeito também também deixa claro que também possui essa mesma postura individualista, pois pensa apenas em fazer uma obra que irá beneficiá-lo politicamente, demonstrando também seu desprezo pela situação da crianças do orfanato. 

E também fica claro o egoísmo da população local que, inicialmente, defendia o uso do dinheiro da prefeitura para manter o orfanato funcionando (mas que usa seu próprio dinheiro para ir ao cinema) e que mudou de ideia quando as pessoas ficaram sabendo que Don Andrea iria ressarcir Agostina, pouco se importando com o fato de que o dinheiro dela foi usado, sem a sua autorização, para a construção do orfanato.
Um rico empresário faz um discurso elogiando a capacidade de iniciativa individual, o espírito empreendedor, que permitiu que Agostina (uma prostituta) fosse embora da cidade e acumulasse riqueza. Já o trabalhador diz que ela é uma legítima representante da classe operária. E o prefeito diz que ela foi bem sucedida devido à sua espiritualidade, procurando agradar aos fiéis da cidade. Somente no final é que eles irão descobrir qual foi a maneira pela qual ela acumulou tanto dinheiro. 

E a maneira como Zampa conclui o seu filme, que possui um tom levemente satírico que aponta para o fato de que a reconstrução da Itália no Pós-Guerra, depois de muitos anos de crise econômica (Grande Depressão dos anos 1930), guerra e miséria, iria exigir uma postura diferente por parte dos italianos, que teriam de abrir mão daquilo que é totalmente supérfluo (exemplo: a prefeitura construir uma obra apenas para fortalecer politicamente os governantes).


No lugar dessas obras inúteis, os Zampa deixa claro que os italianos deveriam passar a investir naquilo que fosse prioritário para melhorar as condições de vida da população, como seria a construção de orfanatos, creches e escolas para dar abrigo e oportunidades de estudo a milhares de crianças abandonadas, que existiam em grande número na Itália, Alemanha e em toda a Europa ao final da Segunda Guerra Mundial.

E a sequência final mostra Agostina se emocionando com a homenagem sincera que as crianças do orfanato lhe fizeram. Assim, ela percebe que fez a escolha certa ao abrir mão do dinheiro, permitindo que o orfanato pudesse continuar funcionando. E até os adultos da cidade (prefeito, comandante da Polícia) terminam por homenageá-la no momento em que ela embarca para Nápoles.  

Logo, neste ótimo filme dirigido por Zampa e roteirizado por Tellini, fica clara a condenação do individualismo burguês e da ganância pessoal (ou seja, do que chamamos atualmente de Capitalismo Neoliberal) e a defesa do predomínio dos interesses coletivos, defendendo a ideia de que deve-se dar total prioridade para a necessidade de se resolver os principais problemas sociais e econômicos que a Itália possuía naquele momento e que já enumerei aqui. 

Obs2: O tom de sátira que está presente em alguns momentos deste filme de Luigi Zampa foi novamente utilizado em outro excelente filme que foi dirigido por ele, que foi o 'Gli Anni Rugenti' (1962), que ridiculariza o Fascismo do início ao fim. Este filme também já foi analisado por mim aqui no blog. De certa maneira, Zampa foi um dos diretores que antecipou o imenso sucesso, de alcance mundial, das comédias italianas dos anos 1950, 1960 e 1970. Os geniais diretores Pietro Germi, Dino Risi, Mario Monicelli e Ettore Scola foram alguns dos principais nomes. 
O padre de Ischia (Don Andrea) convoca o povo e avisa que terá que fechar o orfanato por falta de recursos e cobra que o Prefeito ceda as 700 mil Liras, que estão destinados para construir o 'monumento à vitória', para o orfanato em vez de construir um monumento inútil. 

Luigi Zampa, o Neo-Realismo e a redenção do povo italiano no Pós-Guerra!


Esta visão, essencialmente socialista, que é defendida por Luigi Zampa e Piero Tellini em 'Campane a Martello', pode não ser do agrado de muitos (principalmente dos neoliberais), mas é perfeitamente coerente com as ideias que eram defendidas pelos cineastas e roteiristas ligados ao Neo-Realismo italiano, que mostraram, corajosamente, quais eram os principais problemas que afligiam o povo italiano naquele momento e que a solução para os mesmos estava na construção de uma sociedade justa e igualitária. 

Somente assim é que o povo italiano poderia se redimir dos vinte anos em que o país foi dominado pelo regime Fascista liderado por Mussolini. Aliás, este subiu ao poder em Outubro de 1922 e foi derrubado em Julho de 1943. Logo, Mussollini governou a Itália por 20 anos e 9 meses. E quantas crianças temos no orfanato? Vinte. É como se para cada ano de domínio fascista, tivéssemos uma criança abandonada. 

Logo, cada uma destas crianças órfãs representa um ano de governo fascista e cuidar delas, no Pós-Guerra, simboliza a redenção não apenas de Agostina (que abriu mão de receber o dinheiro de volta), mas de todo o povo italiano, que deu um apoio significativo ao governo de Mussolini durante muitos anos e que, portanto, ajudou a colocar a Itália na catastrófica situação em que a mesma se encontrava após o final da Segunda Guerra Mundial. 

Aliás, o próprio Zampa já havia tratado, de forma corajosa, desse assunto em seu filme imediatamente anterior, que foi 'Anni Difficili', que foi produzido em 1948, um ano antes de 'Campane a Martello'. 
As 20 crianças (uma para cada ano de governo Fascista liderado por Mussolini) passam a noite na escadaria da Igreja.

Portanto, a obra de Zampa é coerente com a sua visão de mundo e 'Campane a Martello' é um belo exemplar da mesma. E também vimos, neste filme, algumas das principais características do Neo-Realismo, tais como: 


A) O uso de atores não-profissionais (moradores de Ischia atuaram no filme); 
B) A filmagem em locações naturais;
C) Mostrar na tela do cinema aspectos importantes da realidade econômica e social da Itália da época, caso da prostituição e das crianças abandonadas;
D) A pobreza da região e do povo, bem como as desigualdades sociais, aparecem com destaque no filme;
E) A crítica aos valores individualistas e egoístas da burguesia.  

Entre as novidades, temos a presença de duas belas atrizes protagonizando o filme (Yvone Sanson e Gina Lollobrigida), o que também será feito por outros cineastas Neo-Realistas (o que foi o caso de Giuseppe De Santis, com Silvana Mangano em 'Riso Amaro', que já analisei aqui no blog).  

Obs3: A respeito do tema das crianças abandonadas e menores infratores na Europa do Pós-Guerra, temos outros ótimos filmes Neo-Realistas que trataram do assunto, tais como: Sciuscià (Vítimas da Tormenta, de Vittorio De Sica, de 1946), 'Alemanha Ano Zero' (de Roberto Rossellini, de 1948) e 'Proibito Rubare' (Luigi Comencini, de 1948). Os dois primeiros filmes já foram analisado por mim aqui no blog. 


As crianças do orfanato vão se despedir da 'Mama Agostina', que desistiu de recuperar o dinheiro que Don Andrea usou para criar o orfanato, deixando as 700 mil Liras para a Igreja manter o orfanato funcionando. 

Informações Adicionais!

Título: Campane a Martello (Toquem os Sinos);
Direitor: Luigi Zampa;
Roteiro: Piero Tellini;
Ano de Produção: 1949; País de Produção: Itália;
Duração: 85 minutos; Gênero: Drama;
Música: Nino Rota; Fotografia: Carlo Montuori;
Assistentes de Direção: Mauro Bolognini; Giuseppe Colizzi;
Elenco: Gina Lollobrigida (Agostina Bortoloci); Yvonne Sanson (Loretta/Australia); Carlo Romano (O Marechal); Clelia Matania (Bianca); Eduardo De Filippo (Don Andrea); Carlo Giustini (Marco); Ada Colangeli (Francesca), Carlo Pisacane (Filippo, o sacristão), Agostino Salvietti (Prefeito); Salvatore Arcidiacono (Farmacêutico); Vittoria Febbi (Connie). 

Links:

Informações sobre 'Campane a Martello':

https://www.imdb.com/title/tt0042303/?ref_=nv_sr_2

Texto sobre o filme 'Sciucià' (Vítimas da Tormenta), de Vittorio De Sica:

http://popeseries.blogspot.com/2017/03/sciuscia-vitimas-da-tormenta-mostra-as.html
Agostina fica emocionada e chora com as homenagens que recebe quando vai embora para Nápoles. 
Texto sobre o filme 'Alemanha Ano Zero', de Roberto Rossellini:

http://popeseries.blogspot.com/2018/08/alemanha-ano-zero-rossellini-mostra.html

Texto sobre o filme 'Gli Anni Ruggenti':

http://popeseries.blogspot.com/2017/05/gli-anni-ruggenti-luigi-zampa-fez.html

Texto sobre o filme 'Riso Amaro' (Arroz Amargo):

http://popeseries.blogspot.com/2017/03/riso-amaro-arroz-amargo-um-classico-do.html

Trecho do Filme:

sexta-feira, 19 de maio de 2017

‘Vivere in Pace’: Luigi Zampa fez uma bela comédia Neo-Realista sobre os efeitos da Segunda Guerra para a população italiana! – Marcos Doniseti!

‘Vivere in Pace’: Luigi Zampa fez uma bela comédia Neo-Realista sobre os efeitos da Segunda Guerra para a população italiana! – Marcos Doniseti!
'Vivere in Pace' (1947): Luigi Zampa fez uma ótima comédia Neo-Realista, que recebeu vários e merecidos prêmios internacionais. O filme tem uma bela trilha sonora, de autoria de Nino Rota.
Luigi Zampa e o Neorrealismo Italiano!

Luigi Zampa foi um dos mais prolíficos e criativos cineastas italianos que foram, em algum momento de suas carreiras, ligados aos Neo-Realismo. 

Os seus primeiros filmes, que foram realizados logo após o final da Segunda Guerra Mundial, trataram dos efeitos do conflito sobre a população italiana. E um dos seus melhores trabalhos foi esta ótima comédia, um belíssimo filme que recebeu vários prêmios internacionais e de forma muito merecida. 

A história do filme se desenvolve durante a Segunda Guerra Mundial, na época em que os Aliados (EUA e Grã-Bretanha) haviam invadido o Sul da Itália (o que aconteceu no início de Julho de 1943) e já se aproximavam da região central do país. 

Nesta época, Mussolini foi afastado do governo, após ter sido derrubado pelos membros do Grande Conselho Fascista no dia 25/07/1943. Ele chegou a ser preso por ordens do novo governo italiano, mas uma operação comandada por um capitão da SS alemã (Otto Skorzeny) o libertou e o enviou para a Alemanha. 
Ronald e Joe são dois soldados dos EUA que fugiram de um campo de prisioneiros alemão. 
Depois disso, Mussolini passou a comandar um governo Fascista fantoche que se instalou nas regiões Norte e Centro da Itália. Tal governo entrou para a história com o nome de ‘República de Saló’ (Saló era a capital) e Mussolini era apenas o líder formal do mesmo, mas quem realmente o controlava eram os nazistas alemães.

Com as progressivas vitórias que foram sendo conquistada pelos Aliados, uma parte cada vez maior do território italiano foi saindo do controle nazi-fascista. Mesmo assim, a 'República de Saló' somente foi definitivamente destruída no final de Abril de 1945. 

Com isso, Mussolini foi executado pelos Partisans e seu corpo foi exposto, de cabeça para baixo, dependurado em frente a um posto de gasolina de Milão. 

A trama do filme!

A história do filme se passa inteiramente em um pequeno e isolado povoado, localizado em uma região montanhosa, do Centro da Itália, e que ainda permanecia sob o controle dos nazi-fascistas. Mas as forças Aliadas estavam, cada vez mais, se aproximando da região.
Tigna conversa com o secretário político fascista do povoado, para quem dá alguns 'presentes'. 
Apesar da Guerra, a população local continuou tocando a sua vida, procurando ficar totalmente afastada de qualquer coisa que se relacionasse ao brutal conflito.

Mesmo assim, os moradores do povoado não conseguirão impedir que a Guerra, de alguma maneira, acabasse por afetar as suas vidas, mesmo que fizessem de tudo para evitar que isso acontecesse. 

O principal nome do filme é o excepcional ator Aldo Fabrizi, de longa e brilhante trajetória no cinema italiano, e que também contribuiu para escrever o roteiro. E a bonita trilha sonora é de autoria do genial Nino Rota, muito famoso por suas inúmeras colaborações com Federico Fellini. 

Os protagonistas da trama são os membros de uma família de camponeses que é liderada por Tigna, que vive junto com a sua esposa (Corinna), dois sobrinhos (a bonita adolescente Silvia e o garoto Citto), um desertor do exército italiano (Franco) e o ‘Nonno’ (Avô), um veterano da Primeira Guerra Mundial. 

Em sua pequena propriedade eles cultivam alguns alimentos, criam galinhas, gado, porcos e cavalos.
Tigna e o Padre conversam sobre o que fazer em relação aos dois soldados que estão escondidos no estábulo da propriedade do camponês. 
Neste pequeno povoado da região central da Itália as pessoas nascem, vivem e morrem, procurando evitar ter qualquer envolvimento com os acontecimentos externos, vivendo a sua vida de forma tranquila e pacífica.

Mas as principais instituições e forças políticas e sociais estão presentes na localidade. 

Assim, no local temos uma Igreja (com o seu Padre, é claro) e um cemitério, um representante do governo Fascista (o Secretário Político), um médico socialista que é ligado à Resistência (os Partisans, guerrilheiros que lutavam contra os nazi-fascistas). 

No local, temos também a presença de um soldado da SS alemã (Hans) que cuida de um posto telefônico e de um depósito, bem como se encarrega de informar aos seus superiores qual é a situação existente no povoado. 

Obs1: Sempre que Hans aparecia em cena, começava a tocar um trecho do hino 
nacional alemão. E em um outro momento do filme ouvimos um trecho da trilha sonora de 'Roma, Cidade Aberta', filme do qual o brilhante ator Aldo Fabrizi participou. 
Silvia começa a gostar de Ronald e passa a se vestir melhor para conseguir conquistá-lo. 
Tudo isso acaba constituindo um microcosmo da Itália da época. 

Da mesma que os demais moradores do povoado, Tigna procura fazer com que a sua família fique alheia aos conflitos políticos e sociais que ocorrem na Itália neste momento, evitando que a mesma seja afetada pela Guerra e que ela sofra com as suas consequências. O que ele mais deseja, e fala isso para todos, é viver em paz. 

Assim, Tigna procura ter um bom relacionamento com todos: com o médico Socialista, com o Secretário Político fascista, com o membro da SS alemã e com o Padre. 


No momento em que Tigna faz a sua declaração de bens e a entrega para o secretário político, junto com a mesma ele também envia trigo e vinho, pagando uma espécie de suborno ao mesmo. Quando recebe a visita do membro da SS em sua propriedade ele também procura agradá-lo, lhe oferecendo vinho. Quando um membro da sua família fica doente, ele recorre ao médico Socialista. 

E assim o pacífico Tigna e a sua família conseguem ir tocando as suas vidas. Tigna é o tio generoso e de coração mole, que finge dar bronca nos dois sobrinhos, mas que na verdade os ajuda e os protege. Assim, ele leva comida para Silvia e Citto no quarto, enquanto diz para eles que ficarão sem poder jantar. 
Silvia sente-se atraída por Ronald.
Mas a situação começa a se modificar quando os Aliados começam a se aproximar da região central da Itália e dois soldados americanos (o branco Ronald e o negro Joe) fogem de um campo de prisioneiros alemão e aparecem no povoado. Joe está ferido e Ronald tem que cuidar do amigo. 

Eles acabam sendo descobertos por Silvia e Citto, que resolvem ajuda-los, por conta própria, sem dizer nada para o tio Tigna e para os demais. 

Silvia e Citto começam a roubar alimentos, tabaco, ovos, leite e até calças da casa de Tigna, a fim de ajudar os dois soldados. E o supersticioso ‘Nonno’ acredita que esses sumiços se devem à ação de ‘espíritos’. 

Mas ocorre uma tempestade na região e os dois soldados são levados, por Silvia e Citto, para o estábulo da propriedade. O barulho que fazem, no entanto, acaba por atrair a atenção de Tigna que, junto com o Nonno, o Padre e a esposa, vão até o local e descobrem a presença dos dois soldados. 

Corinna quer saber o que está acontecendo e o marido, Tigna, diz que é a vaca que está muito mal... 
A família de Tigna e os soldados fugitivos (Joe e Ronald) jantando juntos. 
Quando toma conhecimento da verdade, Corinna fica desesperada com a presença de um soldado negro no local, pois ouvira muitas histórias terríveis sobre os negros, enquanto que Tigna procura acalmá-la, dizendo que Joe não é negro, mas ‘só um pouquinho moreno’. 

Tigna e sua esposa temem que eles sejam punidos com a morte por estarem ajudando dois soldados inimigos que fugiram dos nazi-fascistas, mas ele decide que continuarão protegendo e abrigando a ambos, para o desespero de Corinna.

O ‘Nonno’, por sua vez, refere-se ao negro americano Joe como sendo ‘o etíope’, pois em 1935-1936 a Itália invadiu a Etiópia, transformando-a em uma colônia italiana, numa típica guerra colonial imperialista que transformou o ditador Benito Mussolini em uma figura extremamente popular na Itália. 

Obs2: O momento da vitória italiana sobre os etíopes foi a época em que Mussolini desfrutou de maior popularidade na Itália. Tal guerra foi extremamente brutal, teve características de ódio racial e nela os italianos fizeram uso intenso de gases venenosos (mesmo com os mesmos sendo proibidos pela Convenção de Genebra de 1919) e de bombas incendiárias. Os italianos também realizaram brutais bombardeios aéreos sobre a população civil etíope, que contaram com a participação de Vittorio e Bruno Mussolini, filhos do ‘Duce’ que pilotaram aviões durante o conflito. Estas informações foram retiradas do livro ‘O Papa e Mussolini’, de David I. Kertzer, pág. 251, Editora Intrínseca, 2017.
Tigna arma uma verdadeira festa dentro da sua casa, a fim de impedir que Hans descubra que Joe está escondido na mesma.
Obs3: Os bombardeios aéreos italianos, contra a população civil etíope, anteciparam em três anos o que os nazi-fascistas fizeram na ‘Guerra Civil Espanhola’ (1936-1939), como se comprova pelo bombardeio da pequena cidade basca de Guernica, que foi varrida do mapa por aviões alemães e italianos. Faltou apenas um Picasso etíope que retratasse essa violência, tal como aconteceu com Guernica. 

Obs4: Picasso morava em Paris já há muitos anos e quando a cidade se encontrava sob a ocupação alemã (1940-1944) ele se encontrou com um oficial alemão no Louvre. Este perguntou para Picasso se este é que havia feito ‘Guernica’, ao que o genial pintor espanhol retrucou ‘Não. Foram vocês’. 

Tigna também procura se informar com o secretário político fascista a respeito de alguma operação que se destine a descobrir a presença de soldados inimigos no povoado e consegue esconder do mesmo a presença de Ronald e Joe em sua propriedade. 

Enquanto isso, a jovem Silvia passa a se sentir atraída por Ronald, soldado americano que fala italiano e que é muito simpático ao tratar com a mesma. Ela passa a cuidar melhor da sua aparência, a fim de chamar a atenção de Ronald, o que vai gerar o ciúme de Franco, o italiano desertor que brinca com ela o tempo inteiro.
Joe e Hans saem pelas ruas do povoado, totalmente bêbados, e começam a gritar que 'a guerra terminou'.
Tudo estava indo bem, até que o soldado da SS alemã (Hans) foi até a residência de 
Tigna no momento em que Franco, Ronald e Joe se encontravam no local, jantando. Franco e Ronald escondem-se fora da casa e Joe é colocado em um quarto repleto de garrafas e barris de vinho, o que o levará a se embebedar. 

Hans acaba ficando horas no local, bebendo muito vinho, contando a história da participação da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, desde a invasão da Polônia, que ocorreu em 01/09/1939. Enquanto isso, Joe começa a fazer cada vez mais barulho no quarto em que foi escondido. 

Para evitar que Hans descobrisse a presença de Joe em sua casa, Tigna e os demais começam a beber junto com o soldado da SS, a cantar e a dançar. Mas o forte Joe acaba por quebrar a porta do quarto e fica ‘cara a cara’ com o nazista Hans. 

Porém, em vez de se enfrentarem, ambos começam a rir, a beber e a se abraçar. Eles ficam tão eufóricos que saem pelo povoado, inteiramente bêbados, no meio da noite, fazendo um barulho infernal, gritando que ‘a guerra terminou’. 
Tigna, o Padre, o Médico socialista e Franco decidem o que irão fazer quando Hans, o soldado da SS, acordar. 
Toda a população do povoado acaba acordando no meio da noite e fica eufórica, acreditando realmente que a guerra havia terminado. Os moradores saem de suas casas e começam a desfilar, a festejar, tocar música, saquear o armazém da SS, quando ouvem barulhos de explosões. E um deles pergunta se a guerra realmente havia terminado. 

Quando ficam sabendo que não, começam a devolver o que haviam roubado e voltam para as suas casas. Enquanto isso, Joe subiu em um pequeno cavalo e foi embora do povoado e o soldado da SS (Hans) desmaia no meio da rua, de tão bêbado que se encontrava.

Tigna e a sua família se preocupam com o iria acontecer depois que Hans acordasse. 

Temendo que ele se lembrasse de tudo o que havia ocorrido e informasse ao comando da SS, o pequeno camponês e seus familiares decidem ir embora do povoado e se esconder no meio do bosque. 
População do povoado abandonou o mesmo, esperando para saber como o soldado da SS iria reagir depois que acordasse da farra da noite anterior. 
E toda a população do povoado faz a mesma coisa. Apenas o Padre permaneceu no local, a fim de conversar com Hans quando ele acordasse. Se ele se lembrasse do que havia acontecido, o Padre tocaria o sino de um jeito (a morte), mas se ele não se lembrasse de nada, ele tocaria o sino de outra maneira (a glória). 

Quando acorda, Hans não se lembra de coisa alguma, mas depois ele consegue relembrar tudo o que havia acontecido, inclusive da presença de um soldado negro (Joe) na casa de Tigna. Por isso ele vai até a casa deste, mas antes recebe um telefonema avisando que os soldados alemães devem se retirar da região, pois 'os americanos' estão prestes a chegar ao local. 

Tigna permite que Hans pegue algumas roupas para se disfarçar de civil e, assim, poder voltar para a Alemanha, sonhando em se juntar à sua família e em retomar a sua vida. Mas aparece um grupo de soldados alemães e um destes executa Hans e atira em Tigna, que fica mortalmente ferido e acaba falecendo pouco tempo depois, quando estava em sua cama, acompanhado dos membros de sua família, de Franco, Ronald e Joe. 

Joe retorna ao povoado, levando um grupo de soldados americanos com ele e que são recebidos com festa pelos moradores. 
O generoso camponês Tigna falece e Corinna chora. 
Joe retorna ao povoado, levando um grupo de soldados americanos com ele e que são recebidos com festa pelos moradores. 

Ronald havia pensado em ficar junto com Silvia, pois ambos se sentiram atraídos, mas mudou de ideia depois que Tigna contou a história da mãe de Silvia, que foi embora com um jovem e que acabou sendo abandonado pelo mesmo e que acabou morrendo em função disso. 

Assim, Ronald e Joe vão embora e os moradores do povoado continuam a tocar as suas vidas, em paz. 

Fim.
Franco, Silvia e Corinna se despedem de Joe e Ronald.

Informações Adicionais!

Título: ‘Vivere in Pace’ (Viver em Paz);
Diretor: Luigi Zampa;
Roteiro: Piero Tellini, Suso Cecchi D’Amico, Luigi Zampa, Aldo Fabrizi;
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1947;
Gênero: Comédia; Duração: 87 minutos; 
Música: Nino Rota; Fotografia: Carlo Montuori; 
Elenco: Aldo Fabrizi (Tigna); Gar Moore (Ronald); Mirella Monti (Silvia); John Kitzmiller (Joe); Heinrich Bode (Hans); Ave Ninchi (Corinna); Ernesto Almirante (O Avô); Nando Bruno (Secretário Político); Aldo Silvani (Médico Socialista); Gino Cavalieri (Padre); Piero Palermini (Franco); Franco Serpilli (Citto); Arnoldo Foà (narrador).
Prêmios: 
Melhor Roteiro no Festival de Locarno de 1947. 
Melhor Filme Estrangeiro – Críticos de Cinema de Nova York (1947). 

Vídeo - Trecho do Filme:

sexta-feira, 12 de maio de 2017

'Gli Anni Ruggenti': Luigi Zampa fez sátira política na qual ridiculariza e expõem as mentiras do regime Fascista de Mussolini! - Marcos Doniseti!

'Gli Anni Ruggenti': Luigi Zampa fez sátira política na qual ridiculariza e expõem as mentiras do regime Fascista de Mussolini! - Marcos Doniseti!
'Gli Anni Ruggenti' ('Os Anos Felizes'; 1962): Um título irônico para um filme que é uma sátira corrosiva sobre a incompetência, corrupção, manipulação, mentiras, violência, injustiças e ineficiência do regime Fascista liderado por Benito Mussolini. 'Gli Anni Ruggenti' também é uma referência aos 'loucos anos 1920', época de grande crescimento econômico (1924-1929) e na qual se desfrutou de significativa liberdade comportamental, artística e cultural que antecedeu ao brutal regime fascista. 
Em 'Gli Anni Ruggenti' (‘Os Anos Felizes’) Luigi Zampa faz uma brilhante sátira política ao Fascismo, mostrando que o mesmo vivia muito em função da propaganda e que o governo liderado por Mussollini não resolveu nenhum dos principais problemas da Itália: pobreza, atraso econômico, incompetência, corrupção, ineficiência. 

Luigi Zampa foi um dos muitos diretores italianos que estiveram, em algum momento de suas trajetórias cinematográficas, ligados ao Neo-Realismo italiano. Ele era filho de um operário e o seu primeiro filme como diretor foi realizado em 1933. 

Zampa estudou no 'Centro Experimental de Cinematografia' (que foi criado em 1935), que foi responsável pela formação profissional de inúmeros atores e atrizes e cineastas italianos, como foi o caso de Michelangelo Antonioni. 

Sua obra é marcada pela produção de inúmeras sátiras políticas e de costumes que mostravam uma visão bastante crítica da sociedade e do regime fascista. E 'Anni Ruggenti' é um dos melhores exemplos disso.
Os líderes fascistas e representantes da elite da cidade ficam preocupados com a anunciada chegada de um 'hierarca' fascista à Puglia, que irá investigar a conduta dos governantes e líderes da cidade.
'Angelina, a Honorável', com Anna Magnani, foi o seu nono longa-metragem e fez um grande sucesso, tendo sido o quarto filme mais assistido nos cinemas italianos em 1947. Outro filme realizado no mesmo ano por Zampa ('Vivere in Pace') conquistou vários prêmios, incluindo o de Melhor Roteiro no Festival de Locarno de 1947 e o de Melhor Filme Estrangeiro dos críticos de Cinema de Nova York.

A trama de ‘Gli Anni Ruggenti’ gira em torno de uma viagem ‘imaginária’ de um hierarca fascista a uma pequena cidade da região de Puglia, no Sul da Itália, em Outubro de 1937.

O filme começa com a população da cidade assistindo (no cinema, é claro) a um filme de propaganda fascista, que mostrava Mussolini ajudando os agricultores e usando picaretas em obras públicas, passando para a população italiana a ideia de que seu governo era atuante e que procurava resolver os principais problemas do país. 

Mas é justamente este mito que Luigi Zampa irá procurar desmontar em seu filme. 
O corretor de seguros Omero chega à pequena cidade de Puglia. A sua presença irá desencadear uma grande confusão entre os desonestos e incompetentes líderes fascistas da cidade. 
Tudo começa quando o PNF (Partido Nacional Fascista) enviou um telegrama avisando aos governantes desta pequena cidade sulista de que um líder fascista (um hierarca) irá fazer uma visita de forma anônima à mesma com o objetivo de investigar as ações dos líderes fascistas locais e descobrir eventuais irregularidades que estivessem acontecendo. 

Isso deixa os líderes fascistas locais em estado de pânico, pois todos eles têm ‘culpa no cartório’.

Entre os principais líderes da cidade estão Salvatore Acquamano (pai da bela Elvira), Carmine Passante (secretário político local do PNF) e Nicola De Bellis. Estes ficam apavorados com a possibilidade de que o hierarca descubra as inúmeras irregularidades e falcatruas que eles cometeram na região, e que inclui o desvio de recursos públicos, contrabando, entre outros. 

Além disso, os líderes da cidade também guardam outros segredos, ligados às suas vidas pessoais, como a prática do adultério. Um deles (Nicola) é frequentemente traído pela esposa (Rosa), o que apenas ele ignora, e acaba se tornando motivo de chacota por parte dos demais, que o chamam de 'cornudo'. 
Na ânsia de agradar ao suposto 'hierarca' fascista (Omero), o secretário político fascista (Carmine) irá espalhar frases e fotografias que exaltam Mussolini e o regime Fascista.  
Como os líderes da cidade desconhecem quem seja o hierarca, eles tentam descobrir a identidade do mesmo, enviando uma pessoa para ir até o principal hotel da cidade, onde o mesmo se hospedou, a fim de saber quem é esse misterioso investigador. 

Eles ficam convencidos de que o nome deste hierarca é Omero Battifiori que acabou de chegar de Roma e que, no entanto, é apenas um simples corretor de seguros que foi para a cidade a fim de conseguir novos clientes. 

Para isso, Omero pede a ajuda de um funcionário do hotel, que fornece o nome de algumas das pessoas mais importantes da cidade. 

Mas os líderes locais, convencidos de que ele é o hierarca fascista, passam a acreditar que Omero pediu o nome deles a fim de fazer uma investigação que teria sido determinada pelo governo nacional. 

Quando Omero vai procurar por eles, o mesmo se apresenta como um simples corretor de seguros, mas os líderes fascistas acreditam que isso é apenas uma fachada da qual o ‘hierarca’ se utiliza para investigá-los. 
O governo fascista de Mussolini enviou cerca de 70 mil soldados para lutar na 'Guerra Civil Espanhola' (1936-1939), contribuindo decisivamente para a vitória de Franco. Eles não eram voluntários, mas convocados pelo regime Fascista. No total, morreram cerca de 4 mil italianos e outros 11 mil ficaram feridos nos campos de batalha espanhóis. 
Salvatore chega a suar abundantemente quando Omero começa a lhe fazer perguntas sobre as suas atividades profissionais e a respeito da sua renda pessoal. O seu ‘calcanhar de Aquiles’ são as obras do aeroporto local, que não saíram do papel, mesmo tendo recebido verbas para realizá-las. 

Na ânsia de agradar ao falso hierarca (Omero), os líderes da cidade procuram demonstrar que são verdadeiros fascistas, colocando fotografias imensas de Mussolini na parede, por exemplo. Eles também fazem de tudo para ‘maquiar’ a cidade. 

Assim, eles mandam esconder do ‘hierarca’ os bairros onde vive a população mais pobre, e também ordenam que a Polícia recolha os bêbados e mendigos da cidade para a prisão, enfim, procuram promover uma espécie de ‘embelezamento artificial’ da cidade. 

Os pobres reclamam que o bloqueio erguido pelos governantes da cidade para escondê-los do ‘hierarca’ irá dificultar a locomoção deles, pois terão que andar muito mais para poder sair e chegar às suas paupérrimas moradias, mas os líderes locais não ligam a mínima para isso. 
Elvira e Omero se envolvem romanticamente. Mas ela tem grandes ambições e não sabe que Omero é um simples corretor de seguros e não um poderoso 'hierarca' fascista. 
Os líderes fascistas também fazem de tudo para agradar ao falso hierarca, Omero, e imitam tudo o que ele faz e concordam com tudo o que ele diz, adotando comportamentos patéticos e ridículos.  

Eles aplaudem quando Omero faz isso, usam de picaretas quando ele faz o mesmo, o que gera várias situações cômicas. Eles também procuram obter informações, com o ‘hierarca’ Omero, a respeito de Mussolini, querendo saber se ele o vê com frequência. 

Os líderes da cidade também criam situações ridículas com o objetivo de convencer Omero de que a cidade está progredindo. Assim, eles levam dezenas de cabeças de gado (bois e vacas) de caminhão, de uma fazenda a outra da região, falando para o suposto hierarca que eram todas vacas leiteiras. 

A população também acaba sendo convocada para participar, de forma obrigatória, das manifestações e desfiles do dia 28 de Outubro (um feriado nacional criado por Mussolini), data em que se comemorava, na Itália fascista, a chamada 'Marcha Sobre Roma', que ocorreu em 28/10/1922, mas os camponeses recusam-se a deixar de trabalhar em função disso, gerando conflitos com a Polícia.  
O médico antifascista local descobre que Omero não é nenhum 'hierarca' fascista enviado pelo PNF para fiscalizar os governantes locais, mas um simples corretor de seguros. 
Alguns moradores da cidade também são mobilizados para lutar na 'Guerra Civil Espanhola', na qual o regime Fascista de Mussolini desempenhou um importante papel no apoio a um general golpista e reacionário, Francisco Franco, que promoveu um Golpe de Estado e iniciou uma Guerra Civil, em Julho de 1936, com o objetivo de derrubar o governo Republicano da 'Frente Popular' e que havia sido eleito democraticamente.

Obs1: A participação italiana na Guerra Civil Espanhola foi bastante significativa, sendo fundamental para a vitória alcançada por Franco. Mussolini enviou cerca de 70 mil soldados, 2 mil canhões, 10 mil metralhadoras, 250 mil fuzis e 90 navios de guerra para lutar ao lado dos golpistas reacionários liderados por Franco, que acabaram vitoriosos. 

Na cidade, no entanto, também existem muitas pessoas que são de oposição ao regime fascista, mas que não atuam politicamente. E por isso elas não são incomodadas pelos líderes locais, que os conhecem e que frequentam os mesmos locais que esses antifascistas. Um dos principais antifascistas é um médico, que também pensa que Omero é um hierarca fascista. 

Além disso, algumas pessoas fazem críticas abertas a Mussolini, como é o caso de uma mulher pobre e idosa, que diz que o ditador é um assassino e que o mesmo matou muitas pessoas. 
Elvira fica triste e chora ao saber que Omero não era o rico e poderoso 'hierarca' fascista que ela imaginava. 
Até mesmo a miserável população local também tenta obter de Omero alguns favores e benefícios, imaginando que ele poderá resolver os seus problemas de alimentação, moradia, entre outros. 

Omero, durante quase todo o tempo em que permanece na cidade, não se dá conta de que os líderes fascistas estão fazendo uma brutal confusão, acreditando que ele é um hierarca do PNF. Afinal, ele falou a verdade quando lhes disse, ao chegar à cidade, de que ele estava ali para vender seguros. 

Mas o que ocorre é que todas as iniciativas dos líderes locais, para o falso hierarca, se destinam a esconder o fato de que eles são pessoas meramente oportunistas, desonestas e corruptas, e de que não acreditam, de fato, nem no Fascismo e nem em Mussolini. Eles querem apenas ocupar os cargos mais importantes e utilizar os mesmos em proveito próprio. 

Desenvolver o país? Melhorar as condições de vida da população? Transformar a Itália em um país rico e poderoso, até mesmo em um Império, como defendia Mussolini? Nada disso importa para os incompetentes, desonestos e oportunistas líderes da cidade. 
Omero tenta convencer a bela Elvira a se casar com ele, mas ela deseja ter um marido rico e poderoso, um 'herói da pátria'. E Omero é um simples corretor de seguros... 
Enquanto tudo isso acontece, Omero acaba se envolvendo romanticamente com 
Elvira, a bonita filha do desonesto interventor Salvatore. Ela também pensa que ele é um influente hierarca fascista e sonha em se casar com o mesmo, pois vê nisso uma possibilidade de ascensão econômica e social, bem como de ir viver na capital do país (Roma, é claro). 

Elvira lhe diz que sonha em casar com um homem cheio de medalhas e que seja um herói da pátria. Por isso, Omero lhe pergunta, ironicamente, se ela deseja ter um marido ou um monumento à memória... 

Omero também é levado para instalações esportivas onde crianças e adolescentes são treinadas em várias modalidades. Em uma delas, Omero mostra que era um talentoso ginasta, o que deixa a todos impressionados, incluindo a bela Elvira. 

Somente no final dessa ótima sátira é que Omero irá perceber que o confundiram com um hierarca fascista e, naquela que deveria ser uma alegre e animada festa, que reúne a elite local, para comemorar o noivado dele com Elvira, o mesmo irá expor a desonestidade dos líderes da cidade, bem como deixará claro que ele é, sim, um mero corretor de seguros e não um poderoso hierarca fascista.

Omero acaba falando tudo isso (sob o efeito do álcool) para todos, resumindo tudo o que ele havia percebido enquanto permaneceu no local: corrupção, desonestidade, traição, mentiras, atraso, manipulação, miséria, oportunismo.
O verdadeiro 'hierarca' (líder) fascista chega à cidade e exalta as oportunistas e corruptas lideranças da cidade.  
Os líderes fascistas ficam furiosos com o funcionário (Salvério) que havia lhes dito que Omero era o hierarca fascista, mas eles ficam aliviados quando o verdadeiro hierarca aparece na cidade e os trata muito bem, dizendo que eles representam o que a Itália possui de melhor, sendo as 'forças vivas da Nação'. 

E Omero volta para Roma, de trem, levando junto uma carta de um miserável morador da cidade, que insiste com o falso hierarca para que ele entregue a mesma para Mussolini. Na carta, o morador pede para que Mussolini lhe dê uma casa decente para morar, demonstrando confiança de que o ditador irá atender ao seu pedido. 

E é claro que isso não irá acontecer. 

Assim, Luigi Zampa usa da comédia e da sátira para traçar um painel devastador a respeito da Itália Fascista, mostrando claramente que a mesma em nada se parecia com a propaganda maciça que Mussolini e seu governo faziam, pois o país era marcado por muita pobreza, atraso econômico, ineficiência, incompetência, oportunismo e corrupção. 
Omero lê a carta de um pobre morador da região de Puglia, que ingenuamente acredita que o 'Duce' irá lhe dar uma casa decente para morar. 

Informações Adicionais:

Título: 'Gli Anni Ruggenti' ('Os Anos Felizes')
Diretor: Luigi Zampa;
Roteiro: Luigi Zampa, Ettore Scola, Sergio Amidei, Vincenzo Talarico, Ruggero Maccari;
Ano de Produção: 1962; País de Produção: Itália;
Duração: 102 minutos; Gênero: Comédia Satírica;
Música: Piero Piccioni; Fotografia: Carlo Carlini;
Elenco: Nino Manfredi (Omero Battifiori); Gino Cervi (Salvatore Acquamano); Michèle Mercier (Elvira Acquamano); Gastone Moschin (Carmine Passante); Salvo Randone (Médico Antifascista); Angela Luce (Rosa De Bellis); Rosalia Maggio (Nunzia Acquamano); Giuseppe Ianigro (Nicola De Bellis); Linda Sini (Elsa); Mario Passante (comerciante fascista).
Prêmio: Melhor Filme no Festival de Locarno (Suíça) de 1962. 

Vídeo - Trecho do Filme: