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domingo, 13 de outubro de 2019

Antes dos Beatles: Godard filmou o Jefferson Airplane tocando no topo de um hotel em Nova York em Novembro de 1968!

Antes dos Beatles: Godard filmou o Jefferson Airplane tocando no topo de um hotel em Nova York em Novembro de 1968! - Marcos Doniseti!

Jean-Luc Godard, o cineasta que, segundo Bertolucci, iluminava o caminho para os outros cineastas, e o Jefferson Airplane, um dos principais grupos de Rock Psicodélico dos anos 1960.

Em um congelante dia 19 de Novembro de 1968 o grupo de Rock Psicodélico Jefferson Airplane, um dos mais populares da época, que tocou no festival de Woodstock, fez um show inédito na história do gênero musical em uma iniciativa que seria copiada pelos Beatles alguns meses depois, em 30/01/1969. 

O Jefferson Airplane tocou a música 'House at Pooneil Corners', de forma intensa, enérgica, distorcida e com o som em um volume muito forte, sobre o telhado do Hotel Schuyler, localizado na Rua 45, em Manhattan, em Nova York, mas é claro que a apresentação, que não foi autorizada por ninguém acabou sendo interrompida pela Polícia novaiorquina após cerca de 7 minutos de show.

E o mais incrível é que muitos não sabem que o cineasta que filmou esse show foi, simplesmente, o mais genial e inventivo cineasta originário da Nouvelle Vague, ou seja, Jean-Luc Godard. Na época, em Outubro de 1968, Godard foi para os EUA para trabalhar junto com dois cineastas estadunidenses que eram grandes admiradores seus: Richard Leacock e D.A. Pennebaker. 

Aliás, qual era o cineasta que, naquela época, não respeitava e admirava o trabalho do gênio francês? Como disse o cineasta italiano Bernardo Bertolucci, Godard era quem iluminava o caminho para os outros cineastas. Godard, Leacock e Pennebaker planejavam fazer um filme juntos, mas ele não foi finalizado. 

Além disso, Godard também participou de manifestações em Chicago na época em que tivemos o julgamento dos chamados 'Oito de Chicago', que haviam participado de protestos que resultaram em inúmeros conflitos com os policiais durante a convenção nacional do Partido Democrata naquele ano.

Godard filmando o Jefferson Airplane. Ele estava no escritório de Leacock e Pennebaker, localizado do outro lado da rua em que o grupo tocava.

Para o cineasta francês, o grupo de Rock Psicodélico Jefferson Airplane era o melhor exemplo da vanguarda revolucionária da juventude dos EUA naquela época, o que explica o seu interesse em trabalhar com o mesmo, fazendo essa filmagem ousada, inovadora e corajosa em Nova York. 

O filme no qual Godard trabalhou iria se chamar 'One A.M.' (One American Movie) e o mesmo fazia parte de um projeto concebido pelo cineasta francês, que procurava se aproximar da chamada 'Nova Esquerda' dos EUA. 

Quando foi aos EUA, em Outubro de 1968, Godard queria fazer um levantamento sobre essa nova geração de lutadores sociais e ativistas políticos, que repudiavam a política tradicional, bem como rejeitavam a lógica da 'Guerra Fria', ou seja, a divisão do mundo entre os blocos Capitalista (liderado pelos EUA) e Socialista (liderada pela URSS). 

Além de trabalhar com o Jefferson Airplane, o
filme concebido por Godard também previa a participação de vários dos principais líderes dos 'Black Panthers' (Panteras Negras) e da 'Nova Esquerda', incluindo Eldridge Cleaver, LeRoi Jones e Tom Hayden. 

Aliás, é bom ressaltar que Godard já havia incluído textos dos líderes dos 'Panteras Negras' em seu filme 'One Plus One'/'Sympathy for the Devil', que foi realizado naquele mesmo ano de 1968, e no qual tivemos uma relevante participação dos The Rolling Stones que, no filme, ensaiam os arranjos da música 'Sympathy for the Devil'. 

O Jefferson Airplane toca no topo do Hotel Schuyler, em Nova York, em uma congelante manhã do dia 19 de Novembro de 1968. Quase três meses depois os Beatles fizeram o mesmo, tocando no topo do edifício da gravadora Apple, em Londres.

Inclusive, o grupo de Rock britânico também chegou a gravar uma música (Street Fighting Man), que havia sido lançada na época das manifestações de Maio de 1968, na qual defendia os estudantes e as manifestações que agitaram a França, os EUA, a Itália e até mesmo países como o Brasil, o México, a Polônia e a Tchecoslováquia. 

Mas esse filme que Godard concebeu e que havia planejado realizar com Pennebaker e Leacock nunca foi finalizado. Somente alguns anos depois, em 1972, é que Pennebaker irá terminar o filme, no qual ele incluiu o show do Jefferson Airplane que havia sido filmado por Godard, e irá chamar o mesmo de "One P.M." (One Parallel Movie).

Para filmar esse show improvisado sobre o telhado de um hotel, que era um iniciativa inédita, e que antecedeu em pouco mais de dois meses ao show que os Beatles fizeram no telhado do edifício da sua gravadora (a Apple), em 30 de Janeiro de 1969, Godard ficou no escritório de Leacock-Pennbaker, que ficava em um edifício localizado no outro lado da rua, e filmou pela janela. 

Para fazer a filmagem, Godard dispensou os técnicos e operou ele mesmo a câmera. Inclusive, em determinado nós vemos Godard sinalizando da janela. No caso cineasta francês não era novidade nehuma filmar em condições tão precárias, pois em seus longas-metragens ele sempre trabalhou com uma equipe reduzida de técnicos e de assistentes. 

Durante o show, que ocorreu logo pela manhã (em um dia congelante), quando as pessoas estavam saindo para trabalhar, em um determinado momento a vocalista Grace Slick do Jefferson Airplane simplesmente gritou "Nova York, acordem seus fudidos! Música grátis! Façam alguma coisa! Amor livre!".


Anne Wiazemsky e Godard, em Nova York, na época das filmagens para 'One A. M.', que não foi finalizado.

E posteriormente, ao comentar a iniciativa, Grace Slick escreveu o seguinte: "Nós fizemos isso porque vimos que o custo de sair da cadeia seria menor do que o de contratar um publicitário".

Assim, fica claro que o show do Jefferson Airplane foi mais do que simplesmente tocar uma música como forma de despedida (como fizeram os Beatles dois meses depois), sendo que o mesmo seria incluído no filme planejado por Godard.

E este filme de Godard fazia parte de um projeto de propaganda e de divulgação que eram bastante típicos da época que e que visava divulgar as ideias e iniciativas da chamada 'Nova Esquerda' dos EUA, com a qual Godard tentava uma aproximação naquele momento de sua carreira, na qual ele havia promovido uma guinada radical após finalizar o seu clássico 'Weekend', em 1967. 

Quando Godard foi aos EUA, em Outubro de 1968, imaginava que uma Revolução estava prestes a começar nos EUA e ao perceber que ela não iria acontecer, o cineasta francês decidiu voltar para a França e por isso é que não concluiu o filme. 

É bom ressaltar que os anos de 1967-1968 foram de muita turbulência política e social nos EUA, ocorrendo uma série de fatos que abalaram a, até então, sólida e unificada estrutura política, econômica e social do país.


D. A. Pennebaker foi um cineasta que revolucionou a maneira de se fazer documentários, sendo um integrante do movimento chamado de 'Direct Cinema', que procurava filmar de uma forma bastante espontânea, tal como Godard também o fazia.

Assim, nestes anos ficou claro que o esforço militar na Guerra do Vietnã estava claramente naufragando. Em Janeiro de 1968 ocorreu a 'Ofensiva do Tet', uma grande ofensiva militar que foi realizada pelos Vietcongs, que mostrou para todos que os EUA jamais venceriam a guerra), com a Convenção Nacional do Partido Democrata daquele ano sendo marcada por intensos conflitos de rua, com o crescimento dos 'Panteras Negras', os assassinatos Martin Luther King Jr. e de Robert Kennedy.

Então, não é de se espantar que Godard imaginasse que os EUA estariam mergulhando em algum tipo de processo revolucionário.

Não se pode esquecer que, naquele período histórico, Godard mergulhou no Maoísmo e abandonou o chamado 'Cinema Autoral', o que irá leva-lo a criar, junto com Jean-Pierre Gorin, o 'Grupo Dziga Vertov', que procurou criar filmes de maneira coletiva e com finalidades políticas e revolucionárias. O Grupo Dziga Vertov irá existir até 1972, mesmo ano em que Pennebaker lançou o filme 'One P.M.'.

Logo, esse foi um período de atividades intensas por parte de Godard, que estava fortemente empenhado em um projeto de transformação revolucionária da sociedade e a iniciativa de filmar o Jefferson Airplane tocando sobre o telhado de um hotel de Nova York, em uma fria manhã de Novembro de 1968, fazia parte do mesmo.

Obs: Esse texto foi escrito com base em algumas informações que estão presentes nas matérias publicadas pelos sites 'Open Culture' e 'Dangerous Minds' (ver links abaixo), mas ele vai além das mesmas, contendo informações e comentários que não estão presentes nelas.

Bobby Seale e Huey Newton foram dois dos principais líderes dos 'Black Panthers'.

Links:

Open Culture - Jefferson toca sobre o telhado de um hotel de Nova York e é filmado por Jean-Luc Godard:
http://www.openculture.com/2012/02/jefferson_airplane_wakes_up_new_york_jean-luc_godard_captures_it_1968.html

Godard encontra o Jefferson Airplane:
https://dangerousminds.net/comments/when_jean_luc_godard_met_the_jefferson_airplane

Apresentação do Jefferson Airplane em Nova York em 01/11/1968:
https://www.youtube.com/watch?time_continue=111&v=WAJJE5Wo_OY

De onde os Beatles tiraram a ideia para tocar no telhado do edifício da Apple:
https://solobeatles.com/2014/10/08/did-the-beatles-get-the-idea-for-the-rooftop-concert-from-the-jefferson-airplane/

Vídeo com a íntegra da apresentação do Jefferson Airplane no topo do hotel Schuyler:


domingo, 14 de abril de 2019

Algumas curiosidades sobre a 'Nouvelle Vague': Bergman, Hitchcock, os Stones e 'Acossado'!

Algumas curiosidades sobre a 'Nouvelle Vague': Bergman, Hitchcock, os Stones e 'Acossado'! - Marcos Doniseti!
Harriet Anderson interpretou a primeira personagem feminina de perfil independente e que não era castigada no final.

'Monika e o Desejo' e a 'Nouvelle Vague'!

O filme 'Monika e o Desejo', de Ingmar Bergman, foi de grande importância para a Nouvelle Vague. 
A personagem Monika deste filme de  Ingmar Bergman, que é de 1953, foi a primeira personagem feminina que rompeu com o padrão vigente no cinema da época.
Até aquele momento as mulheres eram representadas, principalmente, como mães, esposas e donas-de-casa perfeitas, ou como 'femme fatale' que enganavam e manipulavam os homens, mas que eram punidas no final.
A Monika do filme de Ingmar Bergman foi a primeira personagem que enganou e manipulou os homens e que não foi punida no final.
Na época, isso não gerou grande repercussão, mas a situação mudou radicalmente com o advento da Nouvelle Vague, pois os cineastas do movimento (Godard, Truffaut..) usaram a personagem de Bergman como o modelo de representação feminina que passaram a usar em seus filmes.
Assim, a Patricia (de 'Acossado') e a Catherine  (de 'Jules et Jim') foram personagens que se basearam na Monika. Elas também enganaram os homens nestes dois filmes e não foram punidas no final.
E depois esse modelo de representação da mulher se espalhou pelo cinema mundial, graças à Nouvelle Vague.

Hitchcock X Nouvelle Vague!
A atriz Tippi Hedren interpreta Melanie Daniels em 'Os Pássaros', de Hitchcock.

Afinal, porque os pássaros atacam a personagem Melanie Daniels em 'The Birds', o clássico filme de Hitchcock que foi lançado em 1963 e foi baseado em uma história real?

Alguns dizem que a explicação é que Hitchcock não gostava de mulheres fortes e de espírito independente. 


Oras, é exatamente esse o perfil da Melanie Daniels, uma mulher que trabalha, ganha o seu próprio dinheiro, se interessa por um homem e toma a iniciativa de ir atrás dele, com o objetivo de conquistar o mesmo, fato este que desagrada a ex-namorada e a mãe do mesmo. 


Assim, talvez de forma não intencional, em 'The Birds' o cineasta inglês Hitchcock navegava na contramão dos filmes da Nouvelle Vague francesa, que divulgava justamente esse modelo de representação feminina, de mulher livre e independente, e que era inspirado na personagem Monika, do filme de Ingmar Bergman, 'Monika e o Desejo', de 1953.


Godard, Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg e 'Acossado'!
'Mil vidas valem mais do que Uma', autobiografia de Jean-Paul Belmondo, é um ótimo livro e nele temos um capítulo dedicado à sua participação em 'Acossado', o clássico atemporal de Godard que promoveu uma verdadeira revolução cinematográfica.

Quando Godard chamou Jean-Paul Belmondo (que tinha 26 anos de idade) para participar de 'Acossado' o mesmo ficou surpreso, embora o cineasta tivesse avisado que o convidaria para atuar quando dirigisse o seu primeiro longa-metragem. Godard havia trabalhado com Belmondo em um curta-metragem ('Charlotte et son Jules') que havia sido filmado em 1958 e que se passava em um pequeno quarto de hotel, cena que Godard, de certa maneira, retrabalhou em 'Acossado'.

As filmagens de "Acossado" se realizaram entre os dias 17 de Agosto e 21 de Setembro de 1959 (21 dias úteis) e filme teve um orçamento bastante reduzido, custando 1/3 do orçamento médio de um filme francês da época, que era de 150 milhões de francos.

No entanto, apesar da sua agente ter tentado convencer Belmondo a não participar de "Acossado", ele decide aceitar a oferta de trabalho, mesmo ganhando pouco para isso (apenas 400 mil francos antigos). Aliás, a agente dele tentou convencer o ator a abandonar as filmagens pois dizia que aquele seria um fracasso e iria destruir a carreira de Belmondo. 

Quanto à Jean Seberg, ela tinha apenas 20 anos na época das filmagens e foi contratada pelo valor de US$ 15 mil, o que equivalia a 1/6 do valor do orçamento total de 'Acossado'.

Livro "A Nouvelle Vague e Godard' é um livro fantástico, de autoria de Michel Marie, que conta a origem da Nouvelle Vague e disseca o filme-manifesto 'Acossado'.

Jean Seberg era casada com um jovem advogado francês (François Moreuil) que ajudou a convencer a Columbia (com quem Jean Seberg tinha contrato) a permitir a participação dela no primeiro longa-metragem de Godard. A empresa dos EUA assinou contrato com o produtor do filme, Georges de Beauregard, que produziu inúmeros filmes da Nouvelle Vague. 

Godard queria muito a participação de Jean Seberg em 'Acossado' pois, segundo Belmondo, ele teria uma paixão secreta pela mesma e via nisso a possibilidade de se aproximar dela. De acordo com o que Belmondo escreveu em sua autobiografia, Godard lhe disse o seguinte a respeito da jovem e bela atria: "O que amo nela é o mistério que exala. Podemos pedir para interpretar qualquer coisa com verossimilhança. Jean pode ser uma garça, um anjo, uma puta. Uma virgem retardada ou uma ninfomaníaca". 

E o fato de que, na época (1959), Jean Seberg estava morando em Paris e de que seus dois primeiros filmes, que foram dirigidos por Otto Preminger, não tinham feito sucesso, tornou mais fácil a sua contratação para trabalhar em 'Acossado'. 

O próprio Godard se empenhou bastante para que Jean Seberg viesse a ser contratada, chegando a enviar um telegrama de 12 páginas para a Columbia, a quem ofereceu metade dos benefícios mundiais do filme, a fim de convencer a empresa a permitir a participação dela em 'À Bout De Souffle'.

Durante as filmagens, Jean Seberg estranhou bastante os métodos de trabalho poucos ortodoxos de Godard, considerando que o filme era 'pouco sério' e 'amadorístico'. Ela chegou a pensar em abandonar as filmagens. Godard chegou a dizer, em uma carta para Pierre Braunberger, que "Jean Seberg está transtornada e que lamenta estar no filme". 

Embora o genial cineasta tivesse, sim, um plano de trabalho rigoroso e um roteiro detalhado, ele reescrevia as cenas e os diálogos no dia em que as filmagens seriam realizadas e entregava as mesmas para Belmondo e Seberg faltando pouco tempo para começar a filmar, pois queria que eles improvisassem bastante. 

Godard exigiu a presença de da jovem e belíssima Jean Seberg em 'Acossado'. Ela e Belmondo pensaram que o filme iria ser um fracasso, mas se enganaram totalmente. 

Belmondo também afirma que ele e Jean Seberg se entenderam muito bem e se divertiram como crianças e que ambos tinham dúvidas a respeito do que aconteceria com aquele 'filme maluco'. Ele diz que os dois tinham consciências das inúmeras transgressões do filme e estavam convencidos de que o mesmo seria um fracasso. 

Belmondo mostra, em seu livro, que procurou acompanhar o lançamento de 'Acossado', que ocorreu em 16/03/1960, e que pediu à sua esposa (Élodie) que fosse assistir ao filme e ficasse observando as reações do público, pois se o mesmo fosse bem recebido pelo público 'intelectualizado e esnobe 'de Paris o mesmo seria um sucesso. Na volta ela diz, para Belmondo, que todos estavam comentando a respeito do filme. 

No dia seguinte, outros conhecidos lhe informam a respeito da recepção do público, sendo um deles diz que o escritor e cineasta Jean Cocteau afirmou o seguinte: "Ele teve sucesso onde todos os outros falharam", referindo-se a Godard, além de elogiar muito a atuação de Belmondo. O sucesso do filme foi tão grande que, no dia seguinte à estreia, ele passou a receber inúmeras ofertas de trabalho, com cachês altíssimos. 

Belmondo diz que a obra-prima de Godard havia se transformado em seu cartão de visitas e que "Acossado" era uma 'nova categoria de filme', que o mesmo constituía uma verdadeira 'explosão libertadora' e que ele havia dinamitado as regras morais e cinematográficas. 

Belmondo também diz que a genialidade de Godard passou a ser reconhecida mesmo pelos outros cineastas e que o filme era 'um fenômeno, um filme impregnado de vida e que exerce influência sobre ela'. Ele conclui dizendo que 'Nada mais será igual depois de Acossado, cujo efeito é libertador, ao contrário do que o título sugere.".

Belmondo acertou em cheio. 

Godard, os Stones e uma 'rapidinha' durante as sessões de gravação de 'Sympathy for the Devil'!
Ótimo livro da atriz e ex-esposa de Godard e na qual temos um relato bastante interessante a respeito do trabalho que o cineasta francês fez com os The Rolling Stones em 1968 e que resultou no filme 'Sympathy for the Devil'/'One Plus One'.

Em plena ebulição do Maio de 1968 francês, Godard foi até a Inglaterra cumprir um contrato que havia assinado anteriormente com produtores ingleses e que previa a realização de um filme com os Beatles, mas John Lennon não se interessou e inviabilizou o projeto. 

Porém, novos produtores ingleses (Iain Quarrier e Michael Pearson) compraram o contrato e conseguiram convencer os The Rolling Stones a realizar o filme com Godard, de quem os Stones diziam ser fãs.

No entanto, o fato de ter que abandonar a França em meio à Greve Geral, que mobilizou mais de 10 milhões de trabalhadores e paralisou o país por várias semanas, irritou profundamente Godard, que disse para a sua esposa, a jovem atriz Anne Wiazemsky, que ele havia conhecido durante as filmagens de 'A Chinesa': "Ainda por cima, estamos traindo os operários em greve! Somos fura-greves! Sabe o que isso significa?". 

Mas, enquanto Godard se irritava com o fato de ter que abandonar a França naquele momento, Anne não escondia a excitação pelo fato de que iria conhecer os integrantes dos The Rolling Stones... Ela diz que, durante as sessões de gravação tirou muitas fotos e que ficou fascinada com tudo, principalmente com os sorrisos de Mick Jagger e, em especial, com o guitarrista Keiht Richards. Godard percebeu isso e disse para Anne "Você gostou desse Stone"...

Quando se conheceram, Godard, Mick Jagger e os Stones se entenderam perfeitamente, desde o início, combinando que um não iria interferir no trabalho do outro. Os Stones fariam o seu trabalho (que seria finalizar o arranjo da música 'Sympathy for the Devil') e Godard faria o seu. 

No estúdio de gravação, Godard mandou instalar um travelling que imitava uma espécie de oito no chão e os técnicos ingleses seguiam todas as instruções do cineasta francês. 

Em determinado momento, a sessão de gravação teve que ser interrompida pois Keith Richards e Anita Pallenberg, a bela namorada do guitarrista, foram para trás de um biombo. Com isso, os Stones pararam de tocar e Mick Jagger avisou Godard, dizendo "Estão fazendo amor, vamos esperar", ao que Godard respondeu "Então vamos esperar também"...

Links:

Keith Richars, Mick Jagger, Godard, Bill Wyman, Charlie Watts e Brian Jones sorrindo. O relacionamento entre o genial cineasta e o grupo foi excelente durante as filmagens.

Livro de Anne Wiazemsky:

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/godard-e-eu/

Charlotte et son Jules:

http://www.portalbrasileirodecinema.com.br/godard/filme-1959-charlotte-et-son-jules.php?indice=filmes&anos=1950

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

'Le Redoutable': Diretor mente, distorce os fatos e inventa fake news para atacar Godard! - Marcos Doniseti!

'Le Redoutable': Diretor mente, distorce os fatos e inventa fake news para atacar Godard! - Marcos Doniseti!

Michel Hazanavicius, diretor de 'Le Redoutable' ('O Formidável'), não se preocupou em transpor para o Cinema a visão de Anne Wiazemsky, autora do livro no qual o filme se baseou. A sua prioridade foi a de atacar e destruir a imagem pública do genial Godard. E para conseguir isso ele deixou de lado o livro de Anne, que não tinha esse objetivo. 

O filme de Hazanavicius e seu interminável festival de Fake News sobre Godard!

'Le Redoutable', o filme de Michel Hazanavicius sobre o genial cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard não é ruim, é péssimo, pois o mesmo é mentiroso e deturpa e falsifica a história que pretende contar, o que irei procurar demonstrar nesse texto. 

O diretor de 'Le Redoutable' diz que se baseou no livro que foi escrito pela ex-esposa de Godard, a atriz Anne Wiazemsky, chamado 'Um Ano Depois', e que foi lançado na França em 2015. No Brasil o livro foi lançado, em 2018, pela Editora Todavia. 

Na humilde opinião deste modesto blogueiro que vos escreve, quando um cineasta diz que seu filme é baseado em um livro específico (como é o caso deste filme) ele tem que permanecer fiel ao seu conteúdo, à cronologia dos acontecimentos e ao espírito do livro. Ele não tem o direito de mudar nada. 

Afinal, foi o próprio diretor de 'Le Redoutable'/'O Formidável' que afirmou: 'Li o livro de Anne Wiazemsky e achei que seria muito interessante contar aquela história' (ver abaixo o link para a matéria de Luiz Carlos Merten a respeito do filme no site do 'Estadão').

Portanto, Hazanavicius deixa claro que seu filme não é uma adaptação livre, que foi apenas inspirada no livro de Anne, mas é a transposição do livro para as telas do Cinema. 

Mas é justamente isso que não vemos no filme de Hazanavicius. 

O livro de Anne Wiazemsky (que é ótimo... recomendo a leitura) foi virtualmente ignorado pelo diretor Hazanavicius, embora ele tenha dito que se baseou no mesmo para fazer o seu filme. Porém, ele distorce os acontecimentos, conta outros pela metade e omite fatos importantes. E tudo isso foi feito para destruir a imagem pública de Godard. Qual o motivo disso? Inveja?

Ele simplesmente omitiu passagens importantes do livro de Anne e que mereciam estar no filme, distorceu totalmente outros momentos (contando apenas uma parte do que aconteceu ou mudando grande parte do relato contido no livro) e também inventou fatos que simplesmente não estão no livro da ex-esposa de Godard. 

Logo, o filme de Hazanavicius sobre Godard se baseia em três elementos fundamentais, que são: 1) Omissões; 2) Distorções; 3) Mentiras. 

Quem assiste ao filme percebe, claramente, que Hazanavicius fez um filme para atacar Godard, com o objetivo de destruir a imagem pública do revolucionário cineasta francês. Mas quando lemos o livro de Anne Wiazemsky não vemos a presença desse espírito rancoroso, vingativo ou destrutivo em relação à figura de Godard. 

Anne simplesmente relata como se desenvolveu o relacionamento dela com Godard naquele ambiente marcado por fortes conflitos políticos, ideológicos e sociais que atingiram a França e grande parte do mundo no período final dos anos 1960, principalmente em Maio de 1968. 

A interpretação de Louis Garrel, no papel de Godard, é um dos poucos pontos positivos em um filme bem feito tecnicamente, mas que é mentiroso e manipulador, pois distorce os fatos relatados por Anne Wiazemsky em seu ótimo livro. 

Ela também mostra que tais acontecimentos tiveram um forte impacto sobre Godard, levando-o a repensar totalmente o seu papel como cineasta e a rever a maneira como se relacionava com as pessoas, incluindo a sua esposa, Anne, e os seus antigos amigos. 

Em função dessas mudanças pelas quais está passando, Godard chegará até mesmo a romper com o seu velho amigo François Truffaut, amigo desde a época em que eles eram cinéfilos, na Paris do Pós Guerra, e antes mesmo de se tornarem críticos da 'Cahiers du Cinema'. Aliás, temos um breve relato desse rompimento no livro de Anne, mas o acontecimento sequer é citado no filme de Hazanavicius, apesar da sua imensa importância. 

Afinal, era uma amizade de longa data, de mais de 20 anos, que estava chegando ao fim. Logo, esse é o tipo de acontecimento que merecia, sim, estar em qualquer filme que deseja mostrar como foi a vida de Godard nos anos finais da década de 1960. 

Mas o diretor Hazanavicius conseguiu ignorar o fato em seu filme. Aliás, ele fará o mesmo com o filme que Godard realizou com os The Rolling Stones (One Plus One/Sympathy For the Devil, de 1968), que sequer é citado em 'Le Redoutable'/'O Formidável'. 


Stacy Martin interpreta Anne Wiazemsky em 'Le Redoutable', filme de Hazanavicius que se especializou em mentir e falsificar os fatos relatados por Anne em seu ótimo livro ('Um Ano Depois').   

Comparação entre livro e filme é fundamental!

Eu li várias críticas que foram escritas a respeito de 'Le Redoutable' (ver links abaixo) e em todas elas os autores pecam pelo simples fato de que não fizeram um trabalho que, no meu entendimento, seria fundamental para poder analisar a produção de Hazanavicius, que é comparar o conteúdo do livro com aquilo que vimos no filme. 


Todas as críticas se concentraram apenas no filme, como se o mesmo tivesse sido totalmente fiel ao livro no qual se baseou. E na verdade, quando fazemos essa comparação entre as duas mídias pode-se, claramente, concluir que o diretor ignorou grande parte do conteúdo do livro. 

As inúmeras distorções e manipulações feitas por Hazanavicius desqualificam inteiramente o seu filme, que acaba sendo apenas uma reles peça de ficção que não tem qualquer respeito pelo livro no qual o diretor diz que se baseou para produzi-lo e que se limita, de maneira agressiva, a tentar destruir a imagem pública de Godard, que é alguém bastante recluso, limitando-se a se manifestar por meio dos seus filmes. 

É isso que irei procurar demonstrar neste meu texto, mostrando as brutais diferenças entre o que está contido no livro de Anne Wiazemsky e o que foi mostrado no (manipulador e mentiroso) filme de Hazanavicius. E entendo que tenho plenas condições de fazer tal comparação porque assisti ao filme recentemente, ao mesmo tempo em que concluí a leitura do livro de Anne. 

Cena de 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil', filme que Godard fez em 1968 e que, em grande parte, mostra os The Rolling Stones gravando a sua clássica canção, que eles tocam em todos os seus shows até os dias atuais. Embora Anne faça um ótimo relato a respeito deste clássico filme de Godard em seu livro, Hazanavicius optou por ignorar o mesmo em seu filme mentiroso e manipulador. 

Aliás, quero sugerir que leiam o livro de Anne, que é ótimo, possuindo uma linguagem prazerosa e gostosa. É aquele tipo de livro que você começa a ler, não para mais e quando percebe o livro já acabou. 

Seu livro também passa uma ideia bem clara a respeito do contexto político da França da época (1967-1969), situação na qual se desenvolveu o relacionamento entre ela e Godard, que é narrado em seu livro, e que teve um impacto muito forte sobre o cineasta franco-suíço.  

E o livro mostra que esse relacionamento envolvia momentos de  intimidade, amor e carinho, como também de conflitos, tal como acontece em todos os relacionamentos amorosos. Outro elemento importante do livro de Anne é que fica claro que, tal como já afirmei, naquele momento, Godard passava por uma forte crise pessoal e política. 

Esse assunto aparece em vários momentos do livro escrito por Anne. 

Maio de 68!

O movimento de 'Maio de 68', que foi liderado pelos jovens estudantes e ao qual os operários franceses (liderados pela principal central sindical, a CGT, que era ligada ao Partido Comunista) se aliaram durante um certo momento, levou à realização de uma Greve Geral que paralisou a França por várias semanas. 

O país ficou totalmente paralisado, levando os postos de gasolina a ficar sem combustível, as fábricas foram ocupadas pelos operários, sendo que o sistema de transportes do país (trens, aviões) também parou de funcionar. 

E as manifestações diárias em Paris sempre terminavam com a Polícia reprimindo duramente às pessoas que participavam das mesmas, levando à explosão de bombas, carros incendiados, lojas quebradas, num cenário que transformou a 'Cidade Luz' em uma verdadeira praça de guerra.

Anne deixa claro no livro que isso a deixou (e grande parte dos franceses) horrorizada, pois desde o período do Pós Guerra que acontecimentos como esses não aconteciam na França.

Michèle Rosier e Bambam estavam entre alguns dos mais próximos amigos de Anne e Godard.

Aliás, uma observação interessante sobre esses conflitos é que, inicialmente, Anne diz que a maioria dos franceses ficou a favor dos estudantes quando eles passaram a ser violentamente reprimidos pela Policia.

Mas, em um segundo momento, quando apareceram 'estudantes' mascarados e que passaram a jogar 'coquetéis molotov' e pedras nos policiais e a usar de extrema violência nos atos, a população voltou-se contra os mesmos. 

Inclusive, no livro de Anne, fica claro que os manifestantes não sabiam quem era os tais 'estudantes' mascarados. Com isso, pode-se perfeitamente suspeitar que eles eram, de fato, agentes infiltrados pela Polícia, ou até pelo Serviço Secreto ou pelo Exército, para gerar violência e jogar a opinião pública contra as manifestações. E foi exatamente isso que aconteceu. 

Mas no filme de Hazanavicius essas suspeitas a respeito de uma possível infiltração de agentes secretos nos atos sequer são citadas. 

Independente de quem fossem os tais 'estudantes' mascarados, os acontecimentos de Maio de 68 levaram Godard a se questionar a respeito do caráter da sua obra cinematográfica e de qual deveria ser a sua missão naquele momento, na condição de intelectual e cineasta de Esquerda. 

Godard irá mergulhar inteiramente no movimento, participando intensamente das manifestações, o que leva Anne a se preocupar com a integridade física do cineasta, que era bastante agressivo e impulsivo nos atos dos quais participava.

Godard e Anne, juntos, no cinema. Eles se conheceram durante as filmagens de 'A Chinesa' (1967) e acabaram se apaixonando. Embora o filme de Hazanavicius tenha sido muito bem desenvolvido no aspecto formal, ele foi muito prejudicado pelas mentiras, omissões e distorções contidas no mesmo. 

É bom ressaltar que Maio de 68 foi um momento em que existiu, mesmo que por um breve período, a possibilidade de um triunfo de uma Revolução em um dos países mais ricos do mundo, que era integrante do G7, era um potência nuclear e que tinha um papel fundamental na estabilidade política e econômica de uma Europa que estava dividida em dois blocos, o Capitalista (liderado pelos EUA) e o Socialista (liderado pela URSS).  

Godard e sua crise pessoal, artística, política e ideológica!

No livro de Anne vemos que a crise que Godard enfrentava o levará a adotar uma postura radicalmente diferente em relação à realização dos seus filmes, bem como o levará a reavaliar tudo o que havia feito até aquele momento. 

Godard passa a desprezar todos os filmes que havia feito até então, o que inclui filmes fundamentais para a história do Cinema, tais como 'Acossado', 'O Desprezo', 'Pierrot le Fou', entre outros, e que são admirados por cineastas do mundo inteiro até os dias atuais.

Aliás, essa nova postura de Godard deixa os outros cineastas, que são seus amigos e ou admiradores (Bernardo Bertolucci, Philippe Garrel), totalmente indignados, pois eles veem no genial cineasta francês o grande responsável por iluminar o caminho de todos eles, pois o mesmo havia modificado radicalmente a forma de se fazer os filmes, libertando os cineastas de uma série de restrições. 

Bertolucci chega a dizer para Anne que 'Jean-Luc é um gênio, seria um crime se parasse de fazer filmes' (página 127 do livro 'Um Ano Depois'). 

Como foi muito bem ressaltado pelo crítico Inácio Araújo (da 'Folha'), Hazanavicius vampirizou a obra de Godard para fazer 'Le Redoutable', usando de recursos e técnicas cinematográficas que foram empregadas de forma inovadora pelo genial cineasta francês durante, principalmente, a década de 1960, que foi a sua fase mais criativa e influente. Nesta cena ele se refere ao brilhante filme 'Uma Mulher Casada' (1964). 

Godard não irá deixar de fazer filmes, mas ele irá mudar radicalmente a maneira de realizá-los, criando, junto com Jean-Pierre Gorin, um grupo (Dziga Vertov) que produzia os mesmos de forma coletiva e no qual a sua palavra tinha o mesmo da dos outros membros do projeto, mesmo que os demais não tivessem nenhum talento cinematográfico, enquanto que Godard o tinha de sobra. 

Godard entendia que a sua função, enquanto um intelectual que se pretendia ser também um revolucionário, era colocar o seu talento a serviço dos trabalhadores. 

Aliás, no filme 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil' (de 1968), em uma das cenas nas quais a personagem Eve Democracia (interpretada por Anne Wiazemsky) era bombardeada por perguntas, uma destas questionava justamente se para se tornar um revolucionário não seria necessário, antes, deixar de ser um intelectual. Eve Democracia disse que sim. E foi justamente isso que Godard fez quando ele passou a fazer parte do 'Groupe Dziga Vertov'.

Aliás, no filme de Hazanavicius não temos qualquer referência ao fato de Godard ter feito esse filme com os The Rolling Stones, embora Anne tenha feito observações e comentários bastante interessantes a respeito do mesmo em seu ótimo livro.

Anne, por exemplo, conta que o filme, na verdade, era para ter sido feito com os Beatles, mas John Lennon não se interessou (somente McCartney gostou da ideia de fazer um filme com Godard, do qual ele dizia ser um grande fã). Com isso, o contrato assinado por Godard foi vendido para outros produtores, que convenceram os Stones a aceitar filmar com o gênio francês. 

Godard participou intensamente das manifestações de Maio de 68, tendo sido fortemente afetado por elas, tanto no aspecto pessoal, quanto no artístico. Ele também participava das assembleias e de reuniões em seu apartamento, no qual ouvia os jovens ativistas da época, pelos quais ele nutria uma grande admiração e aos quais estava sempre disposto a ouvir. Godard dizia que tinha muito a aprender com os jovens. Enquanto isso, Anne afirmava exatamente o contrário, ou seja, que os jovens é que tinham que aprender com os mais velhos...

Aliás, um filme como 'One Plus One'/'Sympathy For the Devil' nunca mais será realizado, pois Godard desfrutou de uma ampla liberdade criativa, com os integrantes dos Stones deixando-o à vontade para filmar o que desejasse enquanto desenvolviam os arranjos desta canção que se tornou clássica e que o grupo toca em todos os seus shows até os dias atuais. 

Depois das tragédias que, no entanto, se abateram sobre os The Rolling Stones (morte de Brian Jones; Festival de Altamont) e sobre o mundo do Rock (mortes de Alan Wilson, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Marc Bolan) nunca mais um cineasta de talento passou a desfrutar da liberdade que Godard conseguiu dos Stones neste clássico filme/documentário.

O debate com Bertolucci e a nova visão de Godard sobre o Cinema!

Inclusive, neste aspecto, o filme de Hazanavicius conta uma história pela metade, o que é feito para denegrir a imagem de Godard, tal como acontece durante praticamente todo o filme.

No livro vemos que Godard foi convidado por Bertolucci para participar de um debate, em Roma, com estudantes, profissionais do cinema e estudiosos italianos a respeito da relação entre 'Cinema e engajamento político', incluindo o próprio Bernardo, Gianni Amico, entre outros. 

Neste debate, Godard ataca o que chama de 'concepção revisionista do Cinema' e chegou a dizer o seguinte: "Vomito nessa concepção romântica do cinema e da obra de arte em geral". 

Uma bandeira vermelha, Godard e Anne fugindo da Polícia, uma cena comum em Paris, em Maio de 68. Anne diz, em seu livro, que participava das manifestações muito mais para proteger Godard do que pelo fato de concordar com as ideias defendidas pelos manifestantes. Ela mesma admite que era vista apenas como uma jovem burguesa e alienada pela juventude revolucionária e contestadora da época. E olha que ela foi paquerada por um bom tempo por Daniel Cohn-Bendit, um dos principais líderes das manifestações estudantis.

E sobre os filmes que havia feito até aquele momento, Godard diz (para espanto de todos os presentes) que "Renego-os, assim como renego todos os meus outros filmes'. Bertolucci reage, chocado, dizendo que "Você não pode dizer isso, esses filmes iluminam nossos caminhos' (páginas 130 e 131 do livro de Anne Wiazemsky). 

Depois que o debate termina, Godard, Anne, Bertolucci, Paola (mulher de Bernardo, embora não fossem casados), Gianni e uma jovem foram para um restaurante, onde o debate continuou e ficou bastante intenso, levando o cineasta francês a abandonar o local por 15 minutos, ficando do lado de fora, sob uma forte chuva, e retornando logo depois.

Apesar da discussão, Anne conta que Godard reclamou com Bertolucci (a quem ele chama de irmão), pois este não foi atrás dele quando saiu do restaurante.

Anne encerra o seu relato dizendo que a noite terminou com todos dando gargalhadas daquele momento, conversando, rindo o tempo inteiro. Ela escreveu o seguinte: "Nossas risadas chegaram às mesas mais próximas e logo às de todo o restaurante. Jean-Luc continuava sendo aquele homem totalmente imprevisível" (páginas 131 a 134 do livro de Anne).

No entanto, no filme de Hazanavicius essa reconciliação final entre Godard e os demais (principalmente com Bertolucci, seu amigo e admirador) não aconteceu e a discussão entre eles ocorre em um local público (e não em um restaurante), em que Godard e Bertolucci trocam 'gentilezas' (vai se f...) e para por aí.

Assim, o filme de Hazanavicius conta apenas uma parte do que aconteceu e omite totalmente a maneira como esse debate, entre Godard e Bertolucci, terminou, com eles se reconciliando no final e com todos conversando e dando muitas risadas. 

Por que Hazanavicius omitiu essa parte da história? 

Oras, ele fez isso para mostrar a pior imagem possível de Godard. E ele fez isso mesmo depois que afirmou que desejava levar história do livro de Anne para as telas do Cinema. Mas ele contou apenas a parte que se encaixava perfeitamente com o seu objetivo, que é o de atacar Godard e destruir a imagem do revolucionário cineasta da Nouvelle Vague.

Bertolucci e Godard discutem em função das críticas que o cineasta francês fazia à maneira como os filmes eram realizados, repudiando até mesmo os clássicos que havia produzido ('Acossado', 'O Desprezo', 'Uma Mulher é uma Mulher'). O relato feito por Anne em seu livro mostra que a noite terminou muito bem, com eles conversando e dando muitas risadas. Mas essa parte não está presente no filme. 

Godard e Anne: Amor, Ciúme e Conflitos!

Também fica claro, no livro de Anne, que Godard também passa a adotar uma postura diferente no relacionamento com a sua jovem esposa (ele tinha o dobro da idade dela, praticamente). 

Godard era ciumento, autoritário, possessivo e vivia desejando que Anne sempre estivesse ao seu lado, mas isso era uma característica dos homens daquela época, que cresceram em uma sociedade com valores muito diferentes dos atuais, que era marcada pelo machismo e pela submissão das mulheres.

No entanto, este fato este é ignorado por Hazanavicius em seu filme, deixando de fazer a devida contextualização, o que é, claramente, uma maneira de agir na condição de um manipulador. 

Godard queria que Anne rejeitasse os convites para trabalhar em filmes de outros diretores para que pudesse estar sempre ao seu lado. Porém, mais para o final do livro de Anne, percebe-se que Godard começa a mudar o seu comportamento. 

Obs1: Esse comportamento de Godard tem relação com um fato envolvendo Anna Karina que, em 1961, quando foi trabalhar em um filme de outro cineasta acabou tendo um envolvimento amoroso com o jovem ator Jacques Perrin. Ele chegou a dizer para Godard que iria abandoná-lo para poder ficar com Perrin. Isso gerou uma forte discussão entre Godard e Anna Karina mas, posteriormente, eles acabaram se reconciliando, ficando juntos até dezembro de 1964, quando saiu o divórcio deles.

Desta maneira, enquanto Godard vai fazer um filme na Tchecoslováquia ('Pravda', 1970), Anne vai, na mesma época, filmar na Itália. Ele reclama do fato de que terá que ficar dois meses separados de Anne, mas acabou por aceitar a decisão dela. 

No livro também fica claro que a própria Anne se conformava, em outros momentos e situações, em se submeter à autoridade de Godard.

O verdadeiro Jean-Luc Godard filma as manifestações de Maio de 68, em Paris, ao lado de Anne, sua jovem esposa. Embora ela fosse da mesma geração dos jovens contestadores da época, ela não se identificava com os mesmos, sendo herdeira dos valores conservadores da sua família, de católicos tradicionalistas. Seu avô (François Mauriac) era um católico conservador, amigo de De Gaulle e que havia conquistado o Prêmio Nobel de Literatura. 

Desta maneira, e
m uma outra passagem do livro, ela conta para a sua melhor amiga (Michelle Rosier) que os cachês que recebia por trabalhar eram depositados em uma conta de Godard. Rosier a estimula a mudar essa situação e Anne diz que fará isso, mas no fim ela não faz nada, pois diz que aquilo era conveniente para ela. 

No livro, Anne diz o seguinte a respeito desta situação:

"Quando ficou sabendo que eu não tinha conta em banco nem talão de cheques e que Jean-Luc me dava quando eu pedia um pouco de 'dinheiro trocado', ela ficou horrorizada. 'Mas você trabalha, ganha a própria vida! Ele é que recebe seus pagamentos?'. 'Hã, acho que sim.' Ela me convenceu a mudar aquilo. Prometi que mudaria, mas não fiz nada: no fundo, aquilo me convinha" (páginas 120 e 121 do livro). 

Mas em momento algum essa postura mais acomodada e conformista de Anne, na sua relação com Godard, aparece no filme de Hazanavicius, o que serve para reforçar a visão fortemente negativa que o diretor procura passar a respeito de Jean-Luc.

Godard, Cournot e o Festival de Cannes!

Outra situação do livro que foi totalmente alterada pelo diretor a fim de transmitir uma imagem bastante negativa de Godard ocorre quando este e outros atores e cineastas (François Truffaut, Louis Malle, Jean-Pierre Leáud...) vão até Cannes para interromper o festival, o que acabam conseguindo, a fim de fortalecer a luta dos operários e dos estudantes que paralisavam a França naquele momento. 

No filme de Hazanavicius a viagem de volta a Paris foi marcada por uma forte discussão envolvendo Godard, Michèle e Cournot. Mas, segundo o livro de Anne, isso nunca aconteceu. 


Um dos amigos de Anne e Godard, o diretor Michel Cournot, fica frustrado com isso pois queria lançar o seu filme no festival, mas com o cancelamento do mesmo é claro que o lançamento acaba não acontecendo. Depois disso, eles voltam a Paris, numa longa viagem (800 quilômetros) de carro. 

No filme de Hazanavicius vemos que, durante a viagem, ocorre uma forte discussão entre Godard e Cournot (e da qual a Rosier também participa, contra Godard) em função do cancelamento do Festival de Cannes.

No filme, Godard chega até a atacar o motorista (Émile) que os levava de volta a Paris como sendo um 'camponês', pois o mesmo não teria um gosto mais sofisticado para apreciar Cinema, contentando-se em assistir filmes que o levassem a fugir da realidade. 

Assim, Hazanavicius tenta passar a imagem de um Godard hipócrita, que se dizia esquerdista e defensor dos direitos dos trabalhadores ao mesmo tempo em que atacava Émile como sendo um 'camponês' por seu gosto pouco sofisticado para o Cinema. 

O grande problema é que, no livro de Anne, essa discussão simplesmente não aconteceu. Em nenhum momento do livro temos um relato desse tipo. Essa discussão foi inventada por Hazanavicius. 

Esse momento do filme é uma descarada Fake News!

No livro de Anne, fica claro, inclusive, que Cournot e Godard evitaram de discutir a respeito do cancelamento do Festival de Cannes e do fato de que isso impediu que o filme dirigido por Cournot fosse lançado durante o mesmo.

No filme de Hazanavicius é mostrado como alguém que não tinha paciência para conversar com as pessoas que o reconheciam nas manifestações de Maio de 68. Mas, em seu livro, Anne diz exatamente o contrário, falando que Godard sempre parava para conversar, mesmo com pessoas que não conhecia. Essa foi mais uma manipulação feita por Hazanavicius com o objetivo de manchar a imagem de Godard. 

Assim, no livro 'Um Ano Depois', temos um relato sobre a viagem, no qual ela fala do momento em que eles se encontravam no apartamento de Gilles Deleuze, que voltaria a Paris junto com ela, Godard, Bambam (Jean-Pierre Bamberger, marido de Rosier), Cournot e o motorista que os conduzia (Émile), que diz o seguinte: 

"Dali a pouco iríamos jantar numa pizzaria perto da casa deles, mas naquele momento Gilles pedia mais informações sobre a interrupção do Festival de Cannes. Cournot e Jean-Luc foram evasivos. Um porque não havia sido um dos protagonistas, o outro por má vontade".

Logo, quando o assunto foi abordado pelos demais, Godard e Cournot evitaram de comentar a respeito. Outra coisa: Rosier não voltou com eles para a capital francesa. 

Ela ficou no sul da França, arrumando a casa, na qual eles ficaram por vários dias, e disse aos demais que daria um jeito de retornar mais tarde a Paris. Mas no filme de Hazanavicius ela não apenas volta com eles, de carro, como também discute fortemente com Godard, devido ao comportamento grosseiro deste com Cournot. 

Porém, nada disso aconteceu, segundo o livro de Anne. 

Portanto, o conflito entre Godard e Cournot (e de Godard com Rosier), que foi mostrado por Hazanavicius em seu filme, simplesmente não aconteceu. 

Esta é mais uma das intermináveis Fake News que vimos no filme de Hazanavicius.

Godard, Anne, Michele e Bambam reunidos na casa litorânea de Pierre Lazareff, jornalista conservador e que era aliado de De Gaulle. O simples fato de ficar na casa de Lazareff já desagradou bastante Godard, que também se irritou pelo fato de que Anne ficou ali, se bronzeando, enquanto ele lutava para interromper o Festival de Cannes de 1968. No livro, Anne disse que se arrependeu de não ter estado ao lado de Godard em Cannes. 

Vampirizando e deturpando tudo a respeito de Godard!


Como muito bem observou o Inácio Araújo, excelente crítico cinematográfico da 'Folha de S.Paulo', o diretor do filme fez uso de vários recursos cinematográficos que eram usados por Godard, vampirizando a obra do genial e revolucionário cineasta francês: frases escritas em muros (no filme de Hazanavicius ela é interminável, o que é uma forma de satirizar e deturpar a técnica usada por Godard); uso das cores da França em várias cenas; atores falando diretamente com o espectador. 

Mas o problema é que ele faz isso apenas para tentar ridicularizar Godard e não se preocupa em mostrar aos espectadores o contexto em que o cineasta fazia uso destas técnicas e métodos inovadores que utilizou para revolucionar o Cinema a partir de sua obra-prima, que é 'À Bout de Souffle' ('Acossado'). 

Hazanavicius, por exemplo, reproduz em seu filme uma fala do personagem Bruno Forestier (do clássico 'Le Petit Soldat'), na qual este critica os atores por fazerem exatamente o que os diretores mandavam, sem questionar nada. 

Obs2: 'Le Petit Soldat' foi o segundo filme de Godard, tendo sido realizado em 1960, mas ele foi lançado apenas em 1963, pois foi censurado devido ao assunto do qual tratava, que era a Guerra da Argélia, tema que dividiu a sociedade francesa, gerando uma grave crise política, militar e social no país. Até tentativas de Golpes de Estado e de assassinar Charles De Gaulle aconteceram naquela época, pois o presidente francês, Herói da Segunda Guerra Mundial, concordou em reconhecer a Independência do país africano. 

Godard já estava cansado de fazer o mesmo Cinema de sempre e acabou sendo muito influenciado por Jean-Pierre Gorin, um crítico e intelectual marxista que defendia a criação de um novo Cinema, de caráter revolucionário e que se identificava com o ideal maoísta. Juntos eles criaram o 'Groupe Dziga Vertov', que procurou modificar radicalmente a maneira de filmar. Assim, Godard tentava promover uma nova Revolução no Cinema. Mas o impacto dessa segunda tentativa foi bem menor do que a da primeira, que começou com 'Acossado'. 

Porém, o que não é mostrado no filme de Hazanavicius é que essa crítica era feita à forma de interpretação, sem espaço para o improviso, que era usada pelos atores e atrizes até aquele momento no Cinema. E quem conhece a maneira pela qual Godard realizava os seus filmes nos anos 1960 sabe perfeitamente que ele estimulava o improviso dos atores e atrizes nas cenas. 

Para isso, Godard se utilizava de vários recursos, sendo que um deles era o de entregar o roteiro, com as falas de cada ator ou atriz, poucos momentos antes da filmagem se realizar, concedendo ao atores e atrizes o máximo de liberdade para a improvisação. 

Godard fazia isso com o objetivo de conseguir uma interpretação que fosse a mais natural possível dos atores e atrizes com os quais ele trabalhava. Ele sempre rejeitou aquele tipo de interpretação mais empostada, de origem teatral. 

No livro autobiográfico 'Mil Vidas valem mais do que uma', o ator Jean-Paul Belmondo, que trabalhou com Godard em vários filmes, conta algumas passagens das filmagens de 'Acossado' que mostram muito bem qual era a maneira de Godard de trabalhar a atuação de cada um. 

Cena do clássico 'Le Petit Soldat', que foi o segundo longa-metragem de Godard, tendo sido filmado em 1960, mas que foi lançado apenas em 1963. Nesta cena o personagem Bruno Forestier criticava a postura dos atores e atrizes, que faziam tudo o que os diretores mandavam. Godard modificou radicalmente a forma de atuação em seus filmes, estimulando a improvisação por parte dos mesmos. Em 'Le Redoutable', Hazanavicius vampirizou essa cena, fazendo o Godard do seu filme repetir a fala de Forestier. 

Belmondo conta que em uma das cenas de 'Acossado' Godard lhe disse que ele teria que entrar em um bar e Belmondo perguntou 'E faço o quê?' e Godard respondeu 'O que você quiser'. Em outra cena, Godard lhe pediu para entrar em uma cabine telefônica. Belmondo perguntou 'E falo o quê?', ao que Godard respondeu 'O que você quiser'. 

E é claro que Belmondo adorou trabalhar com Godard, pois ele amava improvisar, sendo que fazia isso desde a época em que trabalhava no teatro francês, fato este que não era muito bem visto no ambiente tradicional do Conservatório, onde se formou. 

E o resultado final todos conhecem: 'Acossado' foi um grande sucesso e transformou Belmondo em um dos principais astros do cinema francês, que passou a ser requisitado para trabalhar com cineastas consagrados, incluindo François Truffaut, Vittorio De Sica, Jean-Pierre Melville, René Clément, Louis Malle, Claude Lelouch. 

Em seu livro, Belmondo também escreveu o seguinte: 'A obra-prima de Godard é o meu cartão de visitas'. Posteriormente, ele voltaria a trabalhar com Godard em 'Une Femme est une Femme' (1961) e em 'Pierrot le Fou' (1965).  

Uma curiosidade dita por Belmondo em seu excelente livro é que, para ele, Godard insistiu em contratar Jean Seberg para trabalhar em 'Acossado' porque nutria uma paixão secreta pela belíssima atriz e queria se aproximar dela durante as filmagens, embora fosse muito tímido. 

Obs3: Estas informações foram retiradas do capítulo 'E então, Godard', do livro autobiográfico de Jean-Paul Belmondo, págs. 127 a 140, L&PM Editores. 

O excelente livro de Jean-Paul Belmondo tem um capítulo dedicado a 'À Bout De Souffle' ('Acossado') e nele fica claro que Godard procurava fazer com que os atores e atrizes com os quais trabalhavam improvisassem sempre. Durante as filmagens, Belmondo e Jean Seberg concluíram que aquele era um filme 'maluco' e que iria fracassar, mas como eles já haviam assinado contrato não havia como desistir. Deu no que deu...


Porém, quem assiste ao filme de Hazanavicius sem conhecer esse método, usado por Godard, de trabalhar a interpretação dos atores e atrizes, pode chegar à uma conclusão equivocada, ou seja, a de que o genial cineasta da Nouvelle Vague era um carrasco com os atores e atrizes com os quais ele trabalhava.

Na verdade, ele criticava atores e atrizes que atuavam de forma mecânica, que se limitavam a repetir exatamente as falas do roteiro e sem fazer qualquer improviso.

Portanto, a crítica de Godard era feita contra essa forma mecânica de atuar e não aos atores e atrizes enquanto pessoas. Mas isso não fica claro no filme de Hazanavicius. Esta é mais uma história do filme que é contada de maneira apenas parcial e distorcida, tal como aconteceu com a discussão de Godard com Bertolucci, em Roma. 

Outro momento do filme em que Hazanavicius procura ridicularizar Godard e a chamada 'Geração de 68' se dá quando ele mostrou o cineasta, Anne, Bamban e Rosier lendo alguns livros superficiais, infantis até, quando estavam no sul da França e esperavam o momento de iniciar a viagem de volta a Paris. E no filme eles dormiam pouco tempo depois de começar a ler. 

No entanto, no livro de Anne é dito que Godard estava lendo 'O Banquete' (de Platão), enquanto que Anne lia 'Jules et Jim' (livro de Henri-Pierre Roché que foi adaptado por Truffaut em 1962, gerando uma das obras mais importantes do cineasta), Bamban (Jean-Pierre Bamberger) lia a correspondência de Gustave Flaubert e Michèle Rosier estava lendo um romance inglês que ainda não havia sido traduzido para o francês. 

Portanto, até mesmo no assunto das leituras feitas pelos protagonistas do filme o diretor Hazanavicius deturpou totalmente o conteúdo do livro de Anne, pois ele queria passar a ideia de que aqueles intelectuais dos anos 1960 eram uma fraude e que os mesmos não liam nada que prestasse.

O imenso ciúmes de Godard o levou a pensar que Anne o estava traindo, o que não acontecia, segundo o relato dela no livro. Porém, isso não impediu que ele tentasse cometer o suicídio, o que gerou o fim da relação. Anne diz que o fim do relacionamento foi bastante doloroso para ambos. 

Outro fato que é mostrado no filme de maneira totalmente deturpada em relação ao que está contido no livro de Anne Wiazemsky é a maneira como Godard e Anne se relacionavam com os jovens estudantes revolucionários daquela época. Embora o filme mostre Godard participando ativamente das manifestações e assembleias, a forma como isso se deu foi distorcida totalmente no filme. 

Desta maneira, no filme vemos Godard adotando uma postura arrogante e grosseira com as pessoas que o reconheciam nas manifestações de Maio de 68. Mas, no livro de Anne não existe um único fato que comprove esse comportamento de Godard. 

Na verdade, o que Anne diz é que, nas manifestações, Godard era reconhecido tanto por pessoas que o admiravam ('Então Godard é um dos nossos?', perguntavam, entusiasmadas), como por pessoas que diziam que ele era um impostor. E como Godard reagia nestas situações em que era hostilizado? Ela responde "Ele não notava nada e continuava filmando'.

Logo, em nenhum momento ela diz, em seu livro, que Godard teria sido grosseiro com alguém durante as manifestações, mesmo quando foi hostilizado.

Em uma passagem do livro, de fato, Anne diz exatamente o contrário do que é mostrado no filme: "Às vezes, encontrávamos amigos que trabalhavam no cinema e parávamos um pouco para trocar impressões, conversar. Jean-Luc tinha se tornado mais gentil, mais disponível: aquela multidão tão heterogênea o divertia" (página 54 do livro de Anne). 


Godard e Gorin tentaram promover uma revolução na forma de se produzir e realizar filmes, criando o 'Groupe Dziga Vertov'. Dessa fase saíram obras como 'Un Film Comme les Autres'', 'Pravda', 'British Sounds', 'O Vento do Leste', 'As Lutas ideológicas na Itália', 'Vladimir e Rosa' e 'Tudo Vai Bem'. Recentemente foi lançado um BluRay com cinco dos filmes produzidos nesta época. Será que existe alguma chance deste Bluray ser lançado no Brasil (ou o DVD, pelo menos)?

Portanto, essa história a respeito da grosseria de Godard com os manifestantes foi mais uma mentira inventada por Hazavinicius em seu filme, que está repleto de Fake News.  

Outra situação que foi deturpada em 'Le Redoutable'/'O Formidável' é uma em que Godard discutiu com um homem idoso em um restaurante pelo fato de que o mesmo criticou duramente os estudantes que estavam se manifestando pelas ruas da França, chamando-os de imbecis.

No filme, este senhor idoso é mostrado como se estivesse acompanhado de sua esposa, também idosa, mas no livro de Anne esta deixa claro que a companhia dele era uma mulher bem mais jovem e que a mesma estava bastante maquiada. 

Logo, essa foi mais uma situação em que Hazanavicius distorceu o conteúdo do livro de Anne ('Um Ano Depois'). 

Aliás, depois de tantas distorções, mentiras e omissões que estão presentes em seu filme, pode-se perguntar se não foi Donald Trump que escreveu o roteiro do filme de Hazanavicius, tal é a quantidade de manipulações que o mesmo contém. 

Concluindo, também pode-se dizer que o péssimo e mentiroso filme de Hazanavicius resume o espírito de nossa época, que é inteiramente dominada pelas Fake News. E Hazavanicius absorveu de tal maneira essa espírito que fez um filme, a respeito de Godard, que é um verdadeiro festival de Fake News, do início ao fim.

A julgar pelas inúmeras manipulações promovidas por Hazanavicius o roteiro do seu filme deve ter sido escrito por esse sujeito aí: Donald Trump, o Rei das Fake News. Na imagem  acima Trump está dizendo 'Assim é que se escreve um roteiro, seus zémanés!'...

Informações Adicionais!

Título: 'Le Redoutable' (O Formidável); 
Diretor: Michel Hazanavicius;
Roteiro: Michel Hazanavicius; adaptação do livro 'Um Ano Depois' ('Un An Après') de Anne Wiazemsky;
País de Produção: França; Ano de Produção: 2017;
Fotografia: Guillaume Schiffman; 
Elenco: Louis Garrel (Godard); Stacy Martin (Anne); Bérénice Bejo (Michele Rosier); Micha Lescot (Bamban); Grégory Gadebois (Michel Cournot); Félix Kysyk (Jean-Pierre Gorin); Arthur Orcier (Jean-Jock); Marc Fraize (Èmile); Jean-Pierre Mocky (Idoso no Restaurante); Guido Caprino (Bernardo Bertolucci); Emmanuele Aita (Marco Ferreri); Giulia Dussollier (Paola Bertolucci). 

Links:

Texto de Luiz Carlos Merten (Estadão):

https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,godard-e-retratado-como-comico-e-patetico-em-cinebiografia,70002065285

Texto de Inácio Araújo (Folha):

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/10/1930029-em-o-formidavel-hazanavicius-vampiriza-godard-descaradamente.shtml 

Crítica sobre o filme de Hazanavicius:

https://nosbastidores.com.br/critica-o-formidavel/

Crítica sobre o filme de Hazanavicius:

http://pocilga.com.br/2017/10/critica-o-formidavel-le-redoutable/

Maio de 68, quando o Festival de Cannes parou:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/11/cultura/1526039729_424562.html?rel=str_articulo#1546858645943

Cinco Filmes produzidos por Godard e Gorin entre 1968-71 são lançados em bluray:

https://culturedvultures.com/jean-luc-godard-jean-pierre-gorin-five-films-1968-1971-blu-ray-review-radical-collaboration/