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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

‘La Guerre Est Finie’ (A Guerra Acabou), de Alain Resnais, mostra o fim dos sonhos dos espanhóis que lutaram contra Franco na Guerra Civil! – Marcos Doniseti!

‘La Guerre Est Finie’ (A Guerra Acabou), de Alain Resnais, mostra o fim do sonho dos espanhóis que lutaram contra Franco na Guerra Civil! – Marcos Doniseti! 
'La Guerre Est Finie' (1966) é um ótimo filme do cineasta francês Alain Resnais e que mostra o desencanto dos refugiados comunistas espanhóis que, exilados na França, tentam continuar a luta contra a Ditadura de Francisco Franco, mas em condições bastante desfavoráveis. 
O Contexto Histórico!

Atualmente, estou lendo um livro do historiador britânico Tony Judt a respeito da história da Europa no Pós-Guerra ("Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945"). E em uma determinada parte do livro (página 525), Judt comenta a respeito da situação política da Espanha nas décadas de 1960/70, no qual ele cita este filme de Resnais como um exemplo de que, para as novas gerações de espanhóis, a Guerra Civil era algo muito distante de suas vidas e que tal acontecimento, mesmo sendo importante historicamente, pertencia ao passado. 

Instigado pelos comentários de Tony Judt, me interessei em assistir a este filme de Alain Resnais. E tal como diz o historiador britânico, o filme do cineasta francês deixa claro que os sonhos dos comunistas e veteranos da Guerra Civil (1936-1939) de promover um levante revolucionário na Espanha, na década de 1960, com o objetivo de derrubar a Ditadura de Franco, não passavam de ilusões. 

De fato, é esta a triste e melancólica mensagem que este belo filme de Resnais transmite, ou seja, a de que a Ditadura de Franco, naquele momento em que o filme foi produzido (1966), estava fortemente consolidada e que era literalmente impossível derrubar a mesma por meio de uma insurreição revolucionária, tal como sonhavam os comunistas espanhóis, pois não existiam as condições necessárias para que isso fosse levado adiante. 

E neste caso pode-se dizer que o filme de Resnais sabia muito bem a ideia que estava transmitindo às pessoas em seu filme, pois o roteiro do mesmo foi escrito pelo escritor (político, roteirista) e ex-dirigente do PCE (Partido Comunista Espanhol) Jorge Semprún. 
Matéria de jornal sobre o filme 'La Guerre Est Finie', de Alain Resnais. 
Semprún foi um militante político espanhol que atuou na Resistência Francesa, que lutou contra o domínio nazista na França, e que se tornou um importante dirigente do Partido Comunista Espanhol, ao qual se filiou em 1942. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, Semprún foi preso e levado para o campo de concentração de Buchenwald. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, Semprún atuou no PCE, de forma clandestina, devido à forte repressão promovida pela Ditadura de Franco contra toda e qualquer oposição, chegando a se tornar um membro do Comitê Central do partido. 

Nesta condição, Semprún e outros líderes e dirigentes do PCE alimentaram, durante muito tempo, a ilusão de que seria possível mobilizar e organizar o povo espanhol para que o mesmo promovesse uma Revolução que derrubaria a Ditadura franquista. 

E o filme de Alain Resnais mostra o processo de desmoronamento desta ilusão, que durou muito tempo, pois a Guerra Civil espanhola havia terminado no distante ano de 1939. 

É bom ressaltar que a Guerra Civil Espanhola foi, segundo o historiador britânico marxista Eric Hobsbawm, um conflito que uniu as forças liberais-democráticas da opinião pública do Ocidente com as diferentes forças de Esquerda (stalinistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas revolucionários) em uma luta internacionalista contra as forças do Nazi-Fascismo que apoiaram ostensivamente as forças reacionárias do general Franco. Até nos EUA, as forças do governo esquerdista republicano espanhol tinham o apoio de 87% da população. 
Guernica: A pequena cidade (de 5 mil habitantes) do norte da Espanha (País Basco) foi reduzida a escombros pelos aviões da Legião Condor, formada por aviões da Alemanha Nazista e da Itália Fascista. Os regimes de Hitler e Mussolini inauguraram, assim, a prática de bombardear a população civil e não mais apenas alvos militares. Mas durante a Segunda Guerra Mundial os dois países provariam do próprio veneno.  
De acordo com Hobsbawm, a história da Guerra Civil Espanhola acabou sendo escrita pelos vencidos, devido à maciça mobilização internacional que ocorreu por parte de escritores, artistas e intelectuais, e não pelo vencedor, Francisco Franco e os regimes nazi-fascistas que o apoiaram. 

Isso aconteceu porque, no final, o Nazi-Fascismo acabou sendo derrotado fragorosamente na Segunda Guerra Mundial. Com isso, o regime franquista fez com que a Espanha ficasse isolada da comunidade internacional por quase uma década após o final do conflito.

Somente com o desenvolvimento da Guerra Fria é que a Ditadura de Franco acabou se integrando ao mundo Capitalista Ocidental e tornou-se uma aliada dos EUA (o mesmo aconteceu com a Ditadura de Salazar, em Portugal) e uma inimiga da URSS e do chamado 'Bloco Socialista'. 

Aliás, o mesmo aconteceu na América Latina, onde os EUA foram decisivos na instalação e apoio a uma série interminável de sangrentas, corruptas e criminosas Ditaduras Militares em toda a região (Argentina, Brasil, Haiti, Nicarágua, Honduras, Chile, Uruguai, Paraguai, etc). 
Marianne e Diego: Ela deseja ter uma vida convencional com ele, casando e tendo filhos com o mesmo, pedindo que Diego abandone a vida clandestina como dirigente do PCE. Mas o veterano revolucionário resiste a abandonar a luta. 
O filme de Resnais mostra que, apesar da derrota na Guerra Civil (1936-1939), os comunistas espanhóis mantiveram, por muito tempo, a esperança de que ainda seria possível derrubar a Ditadura franquista por meio de um processo revolucionário, mas que estas ilusões já não existiam mais após 30 anos do início do conflito e 27 anos depois da ascensão de Franco ao poder (que ocorreu em 1939, após vencer a Guerra Civil, graças ao decisivo apoio dos governos de Hitler, Mussolini e Salazar. 

Somando as três Ditaduras (Hitler, Mussolini e Salazar), elas enviaram cerca de 110 mil soldados para lutar ao lado das forças franquistas na Guerra Civil Espanhola. 

A trama do filme!

A trama do filme, no qual temos alguns trechos que são narrados pelo próprio Semprún, gira em torno de um dirigente do PCE, Diego Mora (interpretado por Yves Montand), que vive transitando entre as fronteiras da Espanha e da França, levando informações a respeito da situação política espanhola para os dirigentes do PCE que estão exilados na França, bem como passando orientações destes líderes para os militantes que permaneceram na Espanha. 

Na sua mais recente viagem para a Espanha, Diego descobre a respeito da prisão de vários dos mais importantes militantes do PCE e toma a decisão de retornar para a França, mesmo sem a autorização dos dirigentes exilados no país, a fim de avisar um dos líderes do partido (Juan) para que o mesmo não vá para a Espanha, pois a chance dele vir a ser preso é muito grande. 

Afinal, é claro que os militantes presos há poucos dias serão brutalmente torturados para que entreguem companheiros e passem informações aos policiais espanhóis sobre os grupos de resistentes. 
Diego e Nadine: A jovem revolucionária por quem ele sentiu uma forte atração e que representa uma vida diferente e uma estratégia de luta política distinta da que ele tem com Marianne e que adota com o PCE. No fim, Diego terá que escolher com qual delas ele irá ficar e qual estratégia revolucionária que ele irá seguir. 
E o próprio Diego passa por dificuldades para retornar para a França, pois ele e seu companheiro de viagem, são parados na fronteira pelos policiais franceses, que desejam obter informações a respeito de Diego, que viaja com um passaporte falso, que pertence a um espanhol (Sallanches) que faz parte da rede de exilados espanhóis. Ele é salvo de maiores complicações por Nadine, filha de Sallanches, que confirma as informações que ele precisava obter a fim de não ser preso. 

Enquanto Diego viaja de volta para a Espanha, temos também uma narração na qual ele conta a respeito das prisões que ocorreram durante a sua estadia em sua terra natal. Ele fica cada vez mais preocupado, angustiado e desiludido com as sucessivas prisões dos militantes comunistas, pois se dá conta de que a análise que os dirigentes do PCE (exilados na França) fazem a respeito da situação política e social da Espanha está totalmente equivocada. 

Diego percebe que a Espanha não está, como pensam os dirigentes exilados do PCE, próxima de passar por uma greve geral que irá desembocar em um levante revolucionário e que irá mobilizar os trabalhadores, as massas proletárias, resultando na queda da Ditadura franquista. 

Diego percebe que, de fato, o cenário é totalmente diferente e que a Ditadura de Franco está mais forte do que nunca. 
Roberto e Diego são dois dirigentes do PCE exilados na França e que sonham, e lutam, por uma Revolução que possa derrubar a Ditadura de Franco. Mas o cenário mundial é totalmente diferente da época heroica da Guerra Civil Espanhola, pois a Ditadura de Franco tem apoio dos EUA para se manter no poder e a Espanha recebia (em 1965) 14 milhões de turistas anualmente, que deixavam recursos no país que eram fundamentais para manter sólida a economia espanhola e a Ditadura de Franco. 
Diego fala que a Guerra Civil se transformou numa espécie de Mito ao qual os antigos combatentes comunistas se agarram a fim de manter a suas ilusões revolucionárias, mas que não isso não tem mais base alguma na realidade espanhola da época. Ele chega a dizer que enquanto os dirigentes do PCE estão pensando em Revolução, a Espanha recebe 14 milhões de turistas por ano. Assim, ele percebe que a Ditadura franquista consegue se manter economicamente sólida e que realidade internacional da época é totalmente contrária aos planos dos comunistas espanhóis.

Obs1: Esta visão de Diego é bem mais realista do que a dos demais dirigentes do PCE. A Espanha de Franco, mesmo sendo uma Ditadura, conseguiu quebrar o isolamento em que se encontrava ao final da Segunda Guerra Mundial, aliando-se ao mundo Capitalista liderado pelos EUA, com o qual o governo da Espanha assinou uma série de acordos militares, passando a integrar o sistema de Defesa ocidental. E a Espanha somente não entrou para a OTAN, na época de vigência do Franquismo, porque os outros países europeus vetaram a sua adesão, devido ao fato dela ser uma Ditadura. Assim, a Espanha, como Diego percebeu, não estava mais isolada no cenário internacional, muito pelo contrário. Logo, qualquer tentativa de se promover uma revolução socialista no país acabaria desembocando, muito provavelmente, em algum tipo de intervenção militar direta da OTAN (em favor de Franco, é claro) ou então esta forneceria significativa ajuda militar ao governo de Franco para que o mesmo pudesse derrotar tal tentativa de Revolução.  

Retornando para a França, Diego voltará a ver a sua amante (Marianne), com a qual ele não se encontrava já há seis meses. Ela é uma mulher madura, uma tradutora bem estabelecida em sua profissão, e deseja que ele abandone aquela vida de revolucionário profissional, que exige que ele faça constantes viagens para a Espanha, falando que deseja se casar e que também quer ter um filho com Diego.
Diego discute a situação política da Espanha com os dirigentes exilados do PCE. Enquanto estes ainda acreditam no triunfo de uma Greve Geral Revolucionária na Espanha, Diego percebe que 'A Guerra Acabou' e que a Ditadura de Franco está consolidada, contando com sólido apoio internacional (dos EUA, em especial). 
Mas quando volta para a França, Diego vai se encontrar com Nadine Sallanches, que foi a responsável por evitar a sua prisão quando retornava da Espanha, fazendo-se passar por filha dele. E quando eles se encontram, surge uma forte atração entre ambos. Diferente de Marianne, Nadine se encanta ao saber que ele é um 'revolucionário profissional', enquanto ele sente-se atraído pelo espírito mais libertário da bonita jovem. E com isso eles acabam tendo uma noite de amor...

No filme, Resnais deixa, assim, bem claro o contraste entre as duas vidas que Diego poderá vir a seguir: um relacionamento conservador e convencional, com Mariane, ou mais libertário e ousado, com Nadine. 

Aliás, Nadine também faz parte de um grupo esquerdista, que se diz leninista, e que critica a estratégia adotada pelo PCE, defendendo uma postura mais ousada e combativa na luta contra a Ditadura franquista. Eles não querem simplesmente promover Greves Gerais revolucionárias, que é a estratégia (mais tradicional) do PCE, mas partir para uma ação revolucionária imediata, leninista-bolchevique, promovendo-se atentados terroristas, para poder derrubar a ditadura de Franco.

Aliás, a estratégia defendida por esse pequeno 'Grupo Leninista de Ação Revolucionária' é o de promover atentados terroristas que afastem os turistas da Espanha, pois eles percebem, tal como o próprio Diego, que os recursos gastos pelos turistas são fundamentais para que a Ditadura de Franco e a economia espanhola se mantenham fortes. 
Francisco Franco, de bigode, e Adolf Hitler, se cumprimentam. O apoio do ditador nazista, bem como de Mussolini, foi fundamental para a vitória do general espanhol na Guerra Civil (1936-1939). Em retribuição, Franco criou uma 'Divisão Azul', formada por 'voluntários espanhóis', que lutou ao lado dos Nazistas na guerra contra a URSS. 
Porém, embora pense de maneira semelhante aos integrantes do grupo leninista, Diego não se sente nenhum pouco atraído pelo uso do terrorismo como método de luta, até porque tal prática acaba afastando o apoio popular à qualquer tentativa de se derrubar o governo, mesmo que este seja uma Ditadura, como era o caso da Espanha de Franco. 

Assim, da mesma forma que Diego se divide entre duas mulheres (a conservadora Marianne e a ousada Nadine), ele também se divide entre duas estratégias de luta política e social, ambas pretensamente revolucionárias (a do PCE e a do Grupo de Ação Revolucionária).   

Quando um policial foi interrogar Nadine, por que foi para ela que Diego telefonou quando ficou retido na fronteira entre França e Espanha, o mesmo disse que a Polícia tinha conhecimento pleno do fato de que não era apenas contrabando que passava pela fronteira, mas também ativistas políticos clandestinos. E ele completa dizendo que nem sempre a Polícia prende tais militantes políticos porque, no futuro, eles poderão estar no Governo, ocupando cargo de ministros.

Obs2: Este diálogo do Policial com Nadine se confirmou quando, entre 1988 e 1991, Jorge Semprún ocupou o cargo de Ministro da Cultura do governo de Felipe González (do PSOE, cujos integrantes lutaram na Guerra Civil Espanhola contra Franco). 
A jovem bela Geneviève Bujold interpreta Nadine, que representa uma mudança radical na forma de viver e de lutar de Diego. Mas este irá preferir o caminho tradicional, que ele conhece melhor e no qual já se encontra há muito tempo.  
Quando ele volta para a França e se reúne com os dirigentes do PCE, estes percebem, pela análise que Diego faz da realidade espanhola, que o mesmo não acredita mais na ideia de que é possível desencadear um processo revolucionário na Espanha. E em função disso, tais dirigentes determinam que Ramon irá para a Espanha, clandestinamente, no lugar de Diego. Mas a morte de Ramon faz com que Diego tenha que ir em seu lugar. E Marianne acaba, desta vez, por ir junto com ele.

Aliás, enquanto Marianne o estimula a continuar a sua luta, usando a mesma estratégia de sempre, dizendo que a Greve Geral irá triunfar, dispondo-se a ir viver com ele na Espanha, Nadine sente-se atraída pelos métodos de ação direta, violentos, do 'Grupo Leninista de Ação Revolucionária' do qual ela faz parte.

Portanto, para Diego, fica claro que a escolha por uma das mulheres implicará, também, na opção por uma das estratégias de luta.

Assim, Diego acaba por abandonar a jovem e liberal Nadine, optando por ficar com Marianne, dando continuidade à mesma forma de luta à qual ele conhece muito bem e a qual já está habituado. 

Uma das cenas mais bonitas do filme é justamente quando Nadine vai atrás de Diego, após este encerrar a discussão com os jovens revolucionários leninistas, e lhe pergunta se ele irá voltar desta viagem para a Espanha e ele, em silêncio, deixa claro que, desta vez, esta será uma viagem sem volta. Diego fez a sua escolha. 

Diego, mesmo não acreditando mais na ideia de que a Revolução esteja prestes a triunfar na Espanha, acabou decidindo continuar a luta em seu país natal, mesmo que o resultado da mesma seja a derrota ou a sua morte. 

Afinal, em muitos momentos históricos, o mais importante não é vencer ou perder, mas lutar, a fim de não permitir que a chama se apague.
O cineasta Alain Resnais, Geneviève Bujold e Yves Montand na época das filmagens de 'La Guerre Est Finie'. 

Informações Adicionais!

Título: La Guerre Est Finie (A Guerra Acabou);
Diretor: Alain Resnais;
Roteiro: Jorge Semprún;
Duração: 116 minutos;
Ano de Produção: 1966; Países de Produção: França e Suécia;
Elenco: Yves Montand (Diego Mora); Ingrid Thulin (Marianne); Geneviève Bujold (Nadine Sallanches); Jean-François Rémi (Juan); Paul Crauchet (Roberto); Anouk Ferjac (Marie Jude); Dominique Rozan (Jude); Michel Piccoli (Inspetor da Aduana): Marie Mergey (Madame Lopez); Roland Monod (Antoine); Gérard Lartigau (Líder do Grupo de Ação Revolucionária); Jean Bouise (Ramon); Annie Fargue (Agnès); Jacques Rispal (Manolo); Sissi Kaiser (Lola). 
Música: Giovanni Fusco.
Prêmio: Melhor Filme do Sindicato dos Críticos de Cinema da França (1967). 

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0060481/?ref_=fn_al_tt_1

Jorge Semprún:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Sempr%C3%BAn

Campo de concentração de Buchenwald:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Buchenwald


Felipe González (PSOE) venceu as eleições para o Parlamento espanhol em 28/10/1982 com 46% dos votos, conquistando a maioria absoluta dos deputados (201 em um total de 350). Felipe González governou por 14 anos consecutivos, até 1996. Em seu governo a Espanha entrou para a OTAN e para a União Europeia e passou por um rápido processo de crescimento e de modernização econômica. E nunca mais a Espanha se tornou uma Ditadura... 
Eric Hobsbawm e a Guerra Civil Espanhola:

http://www.sinpermiso.info/textos/memoria-de-la-guerra-civil-espaola

O bombardeio sobre Guernica:

sábado, 20 de agosto de 2016

'Muerte de un Ciclista': Filme Noir e Neo-Realista de Juan A. Bardem mostra que havia algo de podre na Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!

'Muerte de un Ciclista': Filme Noir e Neo-Realista de Juan A. Bardem mostra que havia algo de podre na Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!
'Muerte de un Ciclista' é um belo filme do cineasta espanhol Juan Antonio Bardem (tio de Javier Bardem), que fez parte de uma geração que procurou renovar o cinema da Espanha, mesmo sofrendo com a censura imposta pela Ditadura de Franco, que é claramente criticada neste filme. 
Este é um ótimo filme, que mistura elementos do filme Noir e do Neo-Realismo italiano, do cineasta Juan Antonio Bardem, e faz parte de um processo de renovação do cinema da terra de Cervantes e Luis Buñuel e que se desenvolveu durante a década de 1950. Bardem integrou um movimento chamado de 'Novo Cinema Espanhol' e esta é, provavelmente, a sua obra principal, sendo o seu filme mais conhecido.

O chamado Novo Cinema Espanhol procurou retratar a realidade espanhola da época, marcada pelo isolamento internacional do país, provocado pela Ditadura franquista e pela forte presença e influência da Igreja Católica sobre a educação e a cultura do país.

A qualidade e importância de 'Muerte de un Ciclista' foi amplamente reconhecida já na época do seu lançamento, chegando a receber o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 1955. 

Na época em que o filme foi produzido a Espanha sofria com a censura imposta pela Ditadura de Francisco Franco, bem como pelo poder imenso que a Igreja Católica possuía. Esta instituição tinha, inclusive, o direito de censurar qualquer produção cultural que fosse considerada como ofensiva à religião. 
Em 'Muerte de un Ciclista' fica bem clara a a influência dos filmes de Antonioni, com suas paisagens integradas à história do filme. As paisagens nubladas, os planos abertos, com grande profundidade, são características dos filmes de Antonioni que estão, também, presentes no filme de Bardem. 
E o Cinema espanhol, é claro, sofreu bastante com isso. Os filmes tinham, até, os seus roteiros alterados pelos censores. Em uma ocasião, o diretor Luis G. Berlanga chegou a oferecer a co-autoria de um de seus roteiros a um padre censor, tantas foram as mudanças que este havia promovido na história do filme. 

Aliás, isso também aconteceu com 'Muerte de un Ciclista', que teve o seu final censurado e modificado pela Ditadura franquista. 

Além de Juan Antonio Bardem, cineastas como Luis Garcia Berlanga, José Antonio Nieves Conde e, um pouco mais tarde, Carlos Saura também fizeram parte desse processo de renovação do cinema espanhol, que foi fortemente influenciado pelo Neo-Realismo italiano. Tal movimento denunciou o cinema espanhol produzido na época (meados da década de 1950) como sendo "politicamente ineficaz, socialmente falso, intelectualmente ínfimo, esteticamente nulo e industrialmente raquítico". 

Os cineastas do movimento procuraram mostrar o cotidiano e a vida muito difícil, marcada pela pobreza, que caracterizava o povo e a sociedade espanhola naquela época de forte censura e repressão promovida pela Ditadura franquista, que somente foi terminar com a morte do ditador, em 1975. 
Juan Fernández e Maria José namoram desde a juventude, mas a Guerra Civil os separou. Ela se casou com um rico e poderoso industrial (Miguel Castro) para fugir da pobreza e do atraso que marcavam a Espanha franquista (1939-1975).
E no caso deste filme de Bardem, também se nota, claramente, uma nítida influência do genial cineasta italiano Michelangelo Antonioni, principalmente do filme 'Cronaca di un Amore' (que já foi devidamente comentado aqui no blog). 

Existem várias coisas em comum entre o filme de Antonioni e o de Bardem, tais como: 

1) Ambas as histórias envolvem casos de adultério e mortes não intencionais: A morte de uma amiga, Giovanna, do casal de amantes - Guido e Paola - no filme de Antonioni; A morte de um ciclista desconhecido, no filme de Bardem;

2) Nos dois filmes, o adultério é praticado por duas belas e sensuais mulheres e que são casadas com ricos e influentes industriais (Enrico Fontana, no filme de Antonioni; Miguel Castro, no filme de Bardem). E nos dois filmes, elas se casam, mas não por amor, e sim para ascender social e economicamente; 

3) Os amantes são pessoas mal sucedidas econômica ou profissionalmente (caso de Guido, no filme de Antonioni) ou que desistiram de querer algo mais da vida devido às desilusões acumuladas (caso de Juan, no filme de Bardem). Ambos são considerados 'perdedores', se levarmos em consideração a acumulação de riqueza;
Rafael Sandoval chantageia a bela Maria José e o descrente e niilista Juan Fernández, pois sabe do romance de ambos. Rafa despreza os integrantes da burguesia espanhola, aos quais considera como sendo desonestos e imorais.
4) As mulheres que praticam o adultério são interpretadas pela mesma atriz, a 
belíssima Lucia Bosé (que foi Miss Itália em 1947). Lucia Bosé interpreta Paola Molon Fontana, no filme de Antonioni, e Maria José de Castro, no filme de Bardem;

5) Os dois filmes sofreram uma nítida influência do Neo-Realismo italiano e do Filme Noir. Ambos os filmes mostram as desigualdes sociais, a pobreza e o egoísmo dos ricos (elemento mais presente no filme de Bardem) e características do filme Noir: presença de um investigador, de uma mulher fatal, crimes, romance, adultério.

O filme de Bardem gira em torno do relacionamento entre Juan Fernández Soler e Maria José de Castro. Eles foram amantes desde a juventude, mas a Guerra Civil espanhola (1936-1939) os separou. Juan lutou no Exército de Franco (do qual foi tenente), mas embora este tenha chegado ao poder, ele saiu do conflito totalmente descrente de tudo, adotando uma postura nitidamente niilista e existencialista. 

Além disso, Maria José acabou, em função das suas precárias condições de vida, casando-se com um rico e poderoso industrial (Miguel Castro). Ela nunca amou o marido, mas vê no casamento a única chance de ascender social e economicamente na Espanha pobre e atrasada de Franco. Com isso, ela passa a desfrutar de uma vida marcada pelo luxo, riqueza e sofisticação. E Maria José não esconde de Juan que ama essa vida.
Juan Fernández visita o local onde vivia o ciclista morto, que era um simples operário metalúrgico. A pobreza do povo espanhol durante a Ditadura franquista é mostrada neste belo filme de Juan A. Bardem.
Apesar do casamento com Miguel, Maria José e Juan nunca se separaram, vivendo um romance secreto e duradouro e que, é claro, eles fazem de tudo para esconder de tudo e de todos, principalmente de Miguel. Maria José teme perder a vida de luxo e sofisticação da qual desfruta caso o marido venha a descobrir a respeito do seu caso com Juan. E este aceita a situação, pois esta é a única maneira dele continuar vendo Maria José. 

Porém, em uma das vezes em que eles se encontraram, quando voltavam para suas casas, Maria José dirigia o automóvel e acabou, acidentalmente, atropelando um ciclista. Eles viram que o ciclista estava vivo e foram embora, pois caso tivessem prestado atendimento ao mesmo o romance deles acabaria sendo revelado.

Posteriormente, eles ficaram sabendo, por meio de uma notícia de jornal, que o ciclista tinha falecido. E é neste momento que Rafael Sandoval entra em ação. Ele é um crítico de arte que é sempre convidado para festas, encontros e recepções das quais participam apenas os membros da elite espanhola (empresários, diplomatas, religiosos) e se dedica a conversar, obter informações e descobrir segredos para, depois, utilizá-los a fim de promover chantagens.
A estudante Matilde foi prejudicada em função de um erro cometido por Juan Fernández. Mesmo com a Espanha vivendo sob uma Ditadura, ela se rebelou contra o fato e isso acabou levando o mesmo a entrar em uma crise de consciência, fazendo com que ele tomasse a iniciativa  de corrigir os erros que havia cometido em sua vida.
Estas festas são a oportunidade para que Bardem mostre o preconceito e o desprezo da burguesia espanhola pelos mais pobres, bem como a sua arrogância, egoísmo e subserviência perante os EUA (em uma cena Rafa, ao piano, pede que um empresário dos EUA escolha a música que irá tocar). 

Um exemplo desse comportamento é que uma das amigas de Maria José fala, com desprezo, que elas irão participar de jogos de canastra para ajudar crianças pobres, doentes ou algo do tipo, mostrando que está mais interessada no jogo do que em ajudar alguém. 

E é justamente em uma destas festas é que Rafa (como é chamado) deixa claro para Maria José que a viu em uma rodovia, dirigindo um carro e sugere que tem conhecimento do fato de que ela estaria tendo um romance com outro homem. Rafa deixa bem claro todo o seu desprezo pelos membros da elite espanhola, que considera como sendo uma verdadeira escória. 

Durante o filme, Rafa vai aumentando o grau de ansiedade de Maria José, pois quando conversa com a mesma ele sempre diz algo que a compromete, sugerindo até que saberia do envolvimento dela em um assassinato. 
A belíssima atriz Lucia Bosé interpreta Maria José, esposa de um rico e influente industrial espanhol, mas que tem um caso com Juan Fernández, seu namorado desde a juventude. Embora fique sabendo do caso, o marido decide que a solução para evitar um escândalo público é levá-la para uma viagem, de vários meses, para outros países. 
Apavorada, Maria José conta para Juan a respeito do que Rafa lhe disse. Ele procura acalmá-la, dizendo que ele, provavelmente, não sabe de nada, e que deveriam procurar descobrir, afinal, do que ele tem conhecimento exatamente. 

E é exatamente isso que ela faz. Maria José diz para Juan que está convencida de que Rafa sabe algo a respeito da morte do ciclista, pois o mesmo chegou a comentar a respeito do fato, do qual tomou conhecimento pela leitura do jornal. 

Enquanto isso, Juan é membro de uma poderosa e influente família, sendo professor assistente de uma universidade pública na qual o seu cunhado é o reitor. Quando leu a respeito da notícia da morte do ciclista no jornal, ele ficou tão nervoso que acabou prejudicando uma aluna, Matilde, que fazia uma prova e que, em função disso, acabou sendo reprovada, embora estivesse fazendo tudo corretamente. 

O caso de Matilde acabou gerando um protesto de estudantes da universidade, que exigiam que Juan fosse demitido de seu cargo. E quando viu o protesto, Juan disse que isso havia sido a melhor coisa que poderia lhe acontecer, pois pela primeira vez em muitos anos as pessoas estavam deixando os seus interesses individuais de lado e lutando de forma solidária, coletiva. Juan e Matilde acabam, depois, ficando amigos. E é para Matilde que ele irá, depois, entregar a carta de demissão da universidade. 
No final, Maria José fica angustiada, pois hesita sobre qual caminho a seguir: Continuar o romance com Juan Fernández ou ir embora com o marido, a fim de continuar vivendo no luxo e na sofisticação que o casamento com ele proporcionava. 
Porém, antes da viagem, Maria José decide se encontrar com Juan e é neste momento no qual ela fica sabendo que ele pretende contar tudo para a Polícia a respeito do envolvimento de ambos na morte do ciclista, pois Juan pretende ficar em paz com a sua consciência. Nesta cena, fica claro que ela não gosta nenhum pouco dessa ideia.

Juan também se preocupou em investigar a respeito do ciclista falecido (um trabalhador metalúrgico) e foi até o local em que ele morava, com a esposa e os dois filhos. Desta maneira, vemos a pobreza e o abandono em que vivem os operários espanhóis em pleno regime franquista, o que é uma característica típica dos filmes neo-realistas. Ele e Maria José também combinaram de enviar algum dinheiro para a família do ciclista falecido, mas fica claro que eles fazem isso não para reparar o crime, mas apenas para aliviar a sua consciência. 

O clima de tensão e suspense, tipicamente hitchcockiano, vai crescendo à medida que Rafa vai sugerindo que sabe tudo a respeito do romance entre Maria José e Juan Fernández. E quando Rafa finalmente conta para Miguel, o rico industrial e marido de Maria José, a respeito do romance dela com Juan, ela fica desesperada, imaginando que o chantagista possa saber algo a respeito do seu envolvimento na morte do ciclista. 

Mas fica claro que ele não sabe de nada a respeito do acidente que matou o humilde trabalhador. Ele apenas viu Maria José, sozinha no carro, na rodovia, e percebeu que ela e Juan sempre conversavam nas festas e recepções. Daí foi só ligar os pontos e concluir que eles tinham um romance. 
A bela cena do filme de Bardem, que mostra a influência do cinema de Michelangelo Antonioni. Juan Fernández decide se entregar à Polícia, a fim de ficar em paz com a sua consciência, mas a ideia acaba por desagradar à bela Maria José.  
No entanto, Miguel não acredita na história de Rafa, ou então ele apenas finge não acreditar, pois não quer se expor perante a sociedade como sendo um marido traído, imaginando o escândalo que isso representaria para ele e para a sua bela esposa. No final, a fim de fugir de qualquer possibilidade de exposição pública do romance extranconjugal de Maria José com Juan, Miguel decide levá-la para fora do país, em viagem que irá durar vários meses. 

Mas, antes da viagem, Maria José decide se encontrar com Juan e é neste momento no qual ela fica sabendo que ele pretende contar tudo para a Polícia a respeito do envolvimento de ambos na morte do ciclista, pois Juan pretende ficar em paz com a sua consciência. Nesta cena, fica claro que ela não gosta nenhum pouco dessa ideia.

Quando decidem voltar para casa, eles param em um lugar no qual Juan participou de um combate na Guerra Civil e onde ele começa a rememorar os fatos daquele sangrento conflito, que o levou a se tornar uma pessoa descrente de tudo. Maria José pensa, fica angustiada, hesita, mas decide matar o homem ao qual ela amou a vida toda, pois não deseja passar o resto da sua vida na prisão. 

Assim, ela atropela e mata Juan e vai embora, mas no durante a viagem, em meio a uma forte chuva e em uma pista bastante escorregadia, Maria José acaba sofrendo um acidente fatal, ao tentar evitar de atropelar um... ciclista. 

Fim. 
Maria José, depois de matar Juan Fernández, tenta retornar a tempo de viajar com o marido para fora da Espanha. Mas isso não será possível. 
Links:

Informações sobre o filme:


http://www.imdb.com/title/tt0048394/?ref_=ttmi_tt


Realismo no Cinema Espanhol:


http://cerradomix.maiscomunidade.com/conteudo/2009-04-23/cerradomix/8510/MOSTRA-REALISMO-NO-CINEMA-ESPANHOL-.pnhtml


História do Cinema Espanhol:

http://classroom.orange.com/pt/historia-do-cinema-espanhol.html

Trechos do livro 'Espanha: Política e Cultura':

https://books.google.com.br/books?id=HqfbCMQlkyIC&pg=PT50&lpg=PT50&dq=novo+cinema+espanhol+juan+antonio+bardem&source=bl&ots=aR4zEXDMZ0&sig=tcqrVTkZyHvSjWPJROM4PqNPe0E&hl=pt-BR&sa=X&sqi=2&ved=0ahUKEwjV2YXr9s_OAhXClZAKHdCSArkQ6AEIOjAI#v=onepage&q=novo%20cinema%20espanhol%20juan%20antonio%20bardem&f=false

Informações Adicionais:

Título: 'Muerte de un Ciclista' (A Morte de um Ciclista);
Diretor: Juan Antonio Bardem;
Roteiro: Juan Antonio Bardem; Luis Fernando de Igoa;
Ano de Produção: 1955; País de Produção: Espanha e Itália;
Duração: 88 minutos;
Elenco: Lucia Bosé (Maria José de Castro); Alberto Closas (Juan Fernández Soler); Carlos Casaravilla (Rafael Sandoval; Rafa); Otello Toso (Miguel Castro); Bruna Corrá (Matilde Luque); Alicia Romay (Carmina); Julia Delgado Caro (Dona Maria); Manuel Alexandre (Ciclista). 
Prêmios: Prêmio da Crítica do Festival de Cannes (1955); 

Vídeo  - Trecho do filme: