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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

'Oldás és Kötés' ('Cantata'): Miklós Jancsó fez um belo filme, influenciado por Antonioni e pelo Existencialismo! - Marcos Doniseti!

'Oldás és Kötés' ('Cantata'): Miklós Jancsó fez um belo filme, influenciado por Antonioni e pelo Existencialismo! - Marcos Doniseti!
'Oldás és Kötés' ('Cantata') foi o quarto longa-metragem realizado pelo húngaro Miklós Jancsó, um dos mais importantes cineastas do Leste Europeu do Pós-Guerra. Ele ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1972, como melhor diretor, e realizou 21 curtas-metragens antes de fazer o seu primeiro longa-metragem.
Este belo filme de Miklós Jancsó tem uma nítida influência da obra genial de uma dos principais cineastas da história, que é Michelangelo Antonioni, bem como do Existencialismo. A ótima trilha sonora do filme (Jazz, Twist e Rock'n'Roll) e a bela fotografia também são destaques deste excelente filme. O diretor, Miklós Jancsó, declarou que o filme 'A Noite' (Antonioni) foi a maior influência na realização de 'Oldás és Köntés'.

A história do filme gira em torno de um cirurgião, Járom Ambrus, que fica indignado porque não consegue fazer a cirurgia cardíaca de uma mulher, esposa de um amigo (Gyula, que também é médico). Esta acaba sendo operada por um outro cirurgião (Ádámfy), já idoso (70 anos), e que há dois anos que não operava ninguém.

Járom questiona se o velho cirurgião teria ainda a habilidade necessária para fazer a cirurgia, bastante delicada, e diz que a medicina moderna gira em torno de um trabalho de equipe (cirurgião, biólogo, engenheiro químico) e não depende mais de 'lobos solitários'.

As cirurgias modernas, afirma Jaróm, precisam de um 'maestro' e não de um 'artesão'. Ele tenta convencer seu antigo professor de medicina (Sandor), sobre o erro de escolher Ádámfy para fazer a cirurgia, mas o mesmo foi aluno do velho cirurgião e discorda dele.
O velho cirurgião (Ádámfy) ainda faz milagres com as suas mãos. 
Porém, mesmo assim, a cirurgia da mulher, foi bem sucedida, graças justamente à habilidade individual do veterano cirurgião, que conseguiu ressuscitar a mulher, cujo coração tinha parado de bater, ficando em situação de morte clínica.

Assim, o resultado da cirurgia negou tudo aquilo que Jaróm disse. Sandor lhe diz que Ádámfy, o cirurgião da 'velha escola', tinha energia, tenacidade e solidão. No hospital, onde se passam os primeiros trinta minutos do filme, Járom pergunta a Sandor se este percebeu, na Universidade, se ele tinha vocação para ser médico ou se era apenas um carreirista, questionando-se a respeito da escolha profissional que fez.

O Professor lhe responde que, como ele tem 32 anos, Jaróm tem mais um ano para decidir se irá preferir ser crucificado ou se irá viver como os outros, dizendo ainda que primeiro ele tem que aprender a viver e que, depois, poderá começar a filosofar.

Tudo isso mostra que Jaróm está passando por um momento pessoal difícil, por uma crise existencial, possuindo inúmeras dúvidas a respeito da sua trajetória de vida, perguntando-se se as decisões que tomou até ali foram corretas ou não. E ele se dá conta dos inúmeros erros que cometeu e que o levaram à situação de angústia, solidão e alienação na qual se encontra.
A jovem e bonita loira diz que está apaixonada por Járom, mas este reage com frieza.
Desta maneira, a influência do Existencialismo sobre este belo filme de Miklós Jancsó é mais clara do que nunca (até pela influência de Antonioni). O protagonista (Járom) parece ter saído de um café parisiense do começo dos anos 1960, com seu sobretudo negro, sua solidão, angústia e  amargura.

Járom vivencia um processo de alienação em relação a tudo: amigos, mulheres, família, sociedade. Ele tenta se envolver com as pessoas que lhe são próximas, mas não consegue.

Quando ele encontra seus amigos em um restaurante, vemos uma jovem e bonita mulher loira, uma amiga, que lhe diz claramente que é apaixonada por ele, mas Járom não responde. Depois, eles vão a um ateliê, onde assistem a um filme, que gera um debate da qual ele fica totalmente excluído.

A loira jovem e bonita chega a lhe entregar a chave do seu apartamento, mas ele não irá até lá. Járom não consegue se envolver sentimentalmente com ela e tampouco interage com o grupo de amigos. Enquanto os amigos bebem, conversam, dão risada, ouvem música, dançam intensamente (ao som do Rock'n'Roll), divertem-se, interagem, ele fica isolado de tudo.
Járom em meio a um grupo de amigos, mas ele não consegue interagir com eles, ficando isolado. 
Quando ele sai do ateliê e vai ao encontro de um outro grupo de amigos, que está em um restaurante, onde os mesmos conversam a respeito de questões artísticas, históricas e culturais, ele fica quieto e não consegue se enturmar, num tédio mortal.

Depois, Jaróm retorna para o grupo de amigos no ateliê e eles estão assistindo a um filme antigo, que mostra Járom e Martá, uma antiga namorada, juntos, à beira do rio (Danubio).

Assim, vemos que Járom já vivenciou um momento em que ele não esteve sozinho, mas fica claro que as angústias existenciais já faziam parte da sua vida. 

No ateliê, fica claro que ele e Martá ainda se amam e chegam a se beijar, conversam, dão risada, algo raro. Jaróm tenta convencer Martá a ficar com ele, mas a mulher pela qual ele demonstra possuir um sentimento mais forte agora é casada e diz que não pode abandonar o marido.

Com isso, Jaróm se dá conta de que talvez tenha perdido a oportunidade de ter sido feliz em sua vida, deixando de ficar com a mulher que amava. E agora é tarde demais para mudar isso.

Em função de tudo, Járom pede ao professor (Sandor) que empreste o seu carro para que ele possa viajar por dois dias, para visitar a família, que mora na área rural, onde o seu pai é um pequeno proprietário de terra. Com isso, Ambrus decide retornar para a pequena cidade onde nasceu, onde também reencontra um antigo amor (a bela Eta) e o seu irmão.
Marta é uma antiga paixão de Járom, com quem ele teve um romance intenso, mas que se casou com outro. Eles continuam a se gostar, mas a separação foi inevitável, pois ela se recusou a abandonar o marido.  
Desta maneira, Jaróm embarca numa viagem em busca das suas raízes, fazendo uma tentativa de tentar entender o que o levou à situação em que se encontrava naquele momento, marcada pela angústia, solidão e pelo sentimento de total alienação que vivencia.

Em contraste com a condição de infelicidade, angústia e de alienação que afetam Járom, o seu pai é uma pessoa plenamente integrada ao mundo que o cerca. Ele é tão solitário quanto Járom (que tem apenas um irmão), mas não se sente sozinho e nem angustiado, muito pelo contrário.

Nas conversas que Jaróm tem com o pai, percebe-se o quanto esse está inteiramente integrado à realidade em que vive, com a natureza. Até os animais lhe obedecem, a cada ordem sua, fazendo exatamente o que ele manda.

Obs1: Na casa da família, Jaróm fica em um quarto que é uma reprodução quase que totalmente fiel de um quadro de Van Gogh. Esta é uma das várias referências culturais que temos no filme. O compositor húngaro Bela Bartók e o escritor Jean Giono (cuja obra trata da condição humana) também são referências usadas por Jancsó em seu belo filme.
A jovem e bonita loira entrega a chave do seu apartamento para Járom, mas este não irá ao mesmo.
Logo, o pai de Járom (é um personagem sem nome) é feliz ali, tanto que quando Járom convida-o para ir morar em Budapeste, o mesmo acaba recusando o convite e decide continuar residindo no campo, onde irá morrer em breve, como ele mesmo prevê. Percebe-se que ele faz parte daquele mundo no qual nasceu e viveu toda a sua vida.

É esse enraizamento que Jaróm não consegue desfrutar e sentir em sua vida, em Budapeste, com os seus amigos ou com as mulheres com as quais se envolve. E no campo, ele também se sente deslocado, pois saiu dali já há muitos anos e já não é mais a mesma pessoa. Assim, ele não se sente parte de nenhum lugar em particular, passando por um completo processo de alienação (social, familiar).

Járom afirma que ele é o filho de um camponês que se tornou cirurgião e que ele não deveria ter tido acesso tão fácil a tudo, como se não fosse merecedor dos esforços e sacrifícios que a família fez para que ele chegasse à Universidade. Ele diz que tudo foi tão fácil para ele: entrar na Universidade, trabalhar numa clínica. Ele diz que até mesmo o fato de ser filho de um camponês pobre tornou tudo mais fácil para ele e que isso teve um ônus (que foi a sua alienação).
Járom enfrenta uma crise existencial que o leva a refletir sobre as decisões que tomou em sua vida. 
Obs2: Esse comentário de Jaróm se explica pelo fato de que os governos do chamado 'Socialismo Real' poderiam ter inúmeros defeitos (como o autoritarismo, a repressão e a censura), mas eles, de fato, permitiram que milhares de jovens filhos de humildes operários e camponeses pudessem ter acesso ao Ensino Superior, algo com que os seus pais jamais poderiam sonhar que fosse acontecer. Jaróm faz parte da primeira geração de jovens húngaros, originários das camadas populares, que teve condições de ter acesso à Universidade. Até mesmo o historiador britânico Tony Judt (um ferrenho anti-comunista) reconheceu esse fato em seu livro 'Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945'.

Obs3: Nos países do chamado 'Socialismo Real', as terras eram coletivizadas, ou seja, passaram para o controle do Estado. Mas em alguns países do bloco soviético era permitida a existência de pequenas propriedades rurais privadas. Estes foram os casos da Polônia, da Hungria e da Tchecoslováquia, três países que foram atingidos por Rebeliões populares em diferentes momentos da sua história (Hungria em 1956; Tchecoslováquia em 1968; Polônia em 1956 e em 1970). Em função disso, até para poder manter a insatisfação popular sob controle, os governos destes países foram mais tolerantes e permitiram que uma parte da economia ficasse nas mãos de pequenos proprietários particulares (incluindo pequenos negócios nas cidades). O acesso a bens de consumo duráveis (automóveis, aparelhos de tv, rádios, etc) também foi outra forma de atender às exigências da população.
Járom quer compreender os motivos que o levaram a um sentimento de solidão, angústia e alienação. 
Em sua viagem, Járom também encontrou um antigo amor (Eta), mas ele lhe disse que, no passado, até gostou dela, mas que nunca a amou. Percebe-se claramente que ela ainda o ama, mas ele recusa qualquer envolvimento com a ainda bonita mulher que ela é, apesar de ser mãe de dois filhos. Eta o questiona a respeito do fato de que ela não recebeu apoio dele na Universidade.

A fala de Eta sugere que a mesma teria participado ativamente da 'Revolução de 1956', que se desenvolveu contra o sistema stalinista e a dominação soviética na Hungria e que resultou na invasão do país pelas tropas do 'Pacto de Varsóvia' (Novembro de 1956) e que, em função disso, teria sido expulsa da Universidade. 

Agora, porém, ela diz que terá que terminar o curso que foi interrompido, caso contrário perderá o seu emprego na fazenda.

Obs4: Milhares de pessoas que participaram da chamada 'Revolução Húngara de 1956' perderam seus cargos no governo, em universidades, e foram perseguidas politicamente, chegando a cumprir penas de vários anos de prisão. E muitos húngaros saíram do país, em busca de refúgio em outros países da Europa.
Járom volta à sua cidade natal, na área rural, e reencontra um antigo amor (Eta).
Assim, ficamos sabendo que ela também foi estudante universitária (curso de Agronomia), mas que em função das suas atividades revolucionárias, Eta foi expulsa da Universidade, enquanto que Járom continuou na mesma devido aos seus 'contatos socialistas'. Ela também diz que eles poderiam ter se casado. Logo, ela foi mais uma mulher com quem ele se envolveu romanticamente, mas que acabou abandonando, tal como também fez com relação a Márta.

Eta lhe apresenta os seus dois filhos (Gyuri e Ferko) e estes dizem que desejam ser médicos quando crescerem. E é claro que isso não deixa Jaróm nenhum pouco feliz, talvez por temer que eles serão tão angustiados, infelizes e alienados quanto ele.

Jaróm também estimula o seu irmão a estudar e o convida para ir morar com ele, em Budapeste,, mas o mesmo parece não ter interesse nisso, preferindo viver ali mesmo como um pequeno fazendeiro. Talvez o próprio fato de ver o que aconteceu com Jaróm o convença de que o melhor a fazer é viver e morrer ali mesmo, no campo, ao qual está perfeitamente integrado.

Jaróm também tenta convencer o pai a voltar com ele.

Desesperado, ele diz: 'Nada parece certo! Eu realmente não sei mais de nada. O jeito que vivi. Tudo tão fácil. Mas agora estou tão só. Ajude-me'. Mas o pai continuará vivendo ali, em seu mundo, ao qual também se integra facilmente. E ali irá morrer, como diz ao filho infeliz.
Járom, seu pai e o irmão: Enquanto ele enfrenta uma situação de alienação em relação a tudo (família, amigos, sociedade), eles se sentem perfeitamente integrados ao mundo no qual vivem. 
Járom faz uma viagem de volta, sozinho, à Budapeste, sendo que no meio do caminho ele deu carona a um jovem ao qual, pouco antes, ele quase atropelou. Ele conversou e riu ao conversar com o jovem caroneiro, que planeja estudar Agronomia, dizendo que as pessoas da sua vila irão apoiá-lo. Assim, ele poderá voltar viver em meio ao local onde cresceu, junto com as pessoas que sempre conheceu, privilégio este que Jaróm não teve, o que o deixa com a sensão de que aquele, sim, é um privilegiado.

Quando chega à Budapeste, Járom reflete sobre a sua tentativa de compreender a situação que vivencia naquele momento e uma frase encerra o filme: ‘Se você olhar diretamente para dentro do Sol e perder a sua visão, não culpe o Sol, mas seus olhos'.

Fim.

Informações Adicionais:

Título: 'Oldás és Kotés' ('Cantata');
Diretor: Miklós Jancsó;
Roteiro: Miklós Jancsó; Gyula Hernádi; Jozsef Lengyel.
Duração: 90 minutos; Gênero: Drama;
Ano de Produção: 1963; País de Produção: Hungria;
Elenco: Zoltán Latinovits (Dr. Járom Ambrus); Andor Ajtay (Professor Ádámfy); Béla Barsi (Pai de Ambrus); Miklós Szakáts (Professor Sandor); Gyula Bodrogi (Kiss Gyula, médico); Edit Domján (Márta); Mária Medgyesi (Eta); Gyöngyver Demjén (Fiatal Iány); István Avar (Balázs).
Járom volta para Budapeste, onde continuará tentando encontrar uma solução para os seus dilemas. 
Links:

Informações sobre o filme:


Textos sobre o filme:



Trecho do filme:

sábado, 20 de agosto de 2016

'Muerte de un Ciclista': Filme Noir e Neo-Realista de Juan A. Bardem mostra que havia algo de podre na Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!

'Muerte de un Ciclista': Filme Noir e Neo-Realista de Juan A. Bardem mostra que havia algo de podre na Ditadura de Franco! - Marcos Doniseti!
'Muerte de un Ciclista' é um belo filme do cineasta espanhol Juan Antonio Bardem (tio de Javier Bardem), que fez parte de uma geração que procurou renovar o cinema da Espanha, mesmo sofrendo com a censura imposta pela Ditadura de Franco, que é claramente criticada neste filme. 
Este é um ótimo filme, que mistura elementos do filme Noir e do Neo-Realismo italiano, do cineasta Juan Antonio Bardem, e faz parte de um processo de renovação do cinema da terra de Cervantes e Luis Buñuel e que se desenvolveu durante a década de 1950. Bardem integrou um movimento chamado de 'Novo Cinema Espanhol' e esta é, provavelmente, a sua obra principal, sendo o seu filme mais conhecido.

O chamado Novo Cinema Espanhol procurou retratar a realidade espanhola da época, marcada pelo isolamento internacional do país, provocado pela Ditadura franquista e pela forte presença e influência da Igreja Católica sobre a educação e a cultura do país.

A qualidade e importância de 'Muerte de un Ciclista' foi amplamente reconhecida já na época do seu lançamento, chegando a receber o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 1955. 

Na época em que o filme foi produzido a Espanha sofria com a censura imposta pela Ditadura de Francisco Franco, bem como pelo poder imenso que a Igreja Católica possuía. Esta instituição tinha, inclusive, o direito de censurar qualquer produção cultural que fosse considerada como ofensiva à religião. 
Em 'Muerte de un Ciclista' fica bem clara a a influência dos filmes de Antonioni, com suas paisagens integradas à história do filme. As paisagens nubladas, os planos abertos, com grande profundidade, são características dos filmes de Antonioni que estão, também, presentes no filme de Bardem. 
E o Cinema espanhol, é claro, sofreu bastante com isso. Os filmes tinham, até, os seus roteiros alterados pelos censores. Em uma ocasião, o diretor Luis G. Berlanga chegou a oferecer a co-autoria de um de seus roteiros a um padre censor, tantas foram as mudanças que este havia promovido na história do filme. 

Aliás, isso também aconteceu com 'Muerte de un Ciclista', que teve o seu final censurado e modificado pela Ditadura franquista. 

Além de Juan Antonio Bardem, cineastas como Luis Garcia Berlanga, José Antonio Nieves Conde e, um pouco mais tarde, Carlos Saura também fizeram parte desse processo de renovação do cinema espanhol, que foi fortemente influenciado pelo Neo-Realismo italiano. Tal movimento denunciou o cinema espanhol produzido na época (meados da década de 1950) como sendo "politicamente ineficaz, socialmente falso, intelectualmente ínfimo, esteticamente nulo e industrialmente raquítico". 

Os cineastas do movimento procuraram mostrar o cotidiano e a vida muito difícil, marcada pela pobreza, que caracterizava o povo e a sociedade espanhola naquela época de forte censura e repressão promovida pela Ditadura franquista, que somente foi terminar com a morte do ditador, em 1975. 
Juan Fernández e Maria José namoram desde a juventude, mas a Guerra Civil os separou. Ela se casou com um rico e poderoso industrial (Miguel Castro) para fugir da pobreza e do atraso que marcavam a Espanha franquista (1939-1975).
E no caso deste filme de Bardem, também se nota, claramente, uma nítida influência do genial cineasta italiano Michelangelo Antonioni, principalmente do filme 'Cronaca di un Amore' (que já foi devidamente comentado aqui no blog). 

Existem várias coisas em comum entre o filme de Antonioni e o de Bardem, tais como: 

1) Ambas as histórias envolvem casos de adultério e mortes não intencionais: A morte de uma amiga, Giovanna, do casal de amantes - Guido e Paola - no filme de Antonioni; A morte de um ciclista desconhecido, no filme de Bardem;

2) Nos dois filmes, o adultério é praticado por duas belas e sensuais mulheres e que são casadas com ricos e influentes industriais (Enrico Fontana, no filme de Antonioni; Miguel Castro, no filme de Bardem). E nos dois filmes, elas se casam, mas não por amor, e sim para ascender social e economicamente; 

3) Os amantes são pessoas mal sucedidas econômica ou profissionalmente (caso de Guido, no filme de Antonioni) ou que desistiram de querer algo mais da vida devido às desilusões acumuladas (caso de Juan, no filme de Bardem). Ambos são considerados 'perdedores', se levarmos em consideração a acumulação de riqueza;
Rafael Sandoval chantageia a bela Maria José e o descrente e niilista Juan Fernández, pois sabe do romance de ambos. Rafa despreza os integrantes da burguesia espanhola, aos quais considera como sendo desonestos e imorais.
4) As mulheres que praticam o adultério são interpretadas pela mesma atriz, a 
belíssima Lucia Bosé (que foi Miss Itália em 1947). Lucia Bosé interpreta Paola Molon Fontana, no filme de Antonioni, e Maria José de Castro, no filme de Bardem;

5) Os dois filmes sofreram uma nítida influência do Neo-Realismo italiano e do Filme Noir. Ambos os filmes mostram as desigualdes sociais, a pobreza e o egoísmo dos ricos (elemento mais presente no filme de Bardem) e características do filme Noir: presença de um investigador, de uma mulher fatal, crimes, romance, adultério.

O filme de Bardem gira em torno do relacionamento entre Juan Fernández Soler e Maria José de Castro. Eles foram amantes desde a juventude, mas a Guerra Civil espanhola (1936-1939) os separou. Juan lutou no Exército de Franco (do qual foi tenente), mas embora este tenha chegado ao poder, ele saiu do conflito totalmente descrente de tudo, adotando uma postura nitidamente niilista e existencialista. 

Além disso, Maria José acabou, em função das suas precárias condições de vida, casando-se com um rico e poderoso industrial (Miguel Castro). Ela nunca amou o marido, mas vê no casamento a única chance de ascender social e economicamente na Espanha pobre e atrasada de Franco. Com isso, ela passa a desfrutar de uma vida marcada pelo luxo, riqueza e sofisticação. E Maria José não esconde de Juan que ama essa vida.
Juan Fernández visita o local onde vivia o ciclista morto, que era um simples operário metalúrgico. A pobreza do povo espanhol durante a Ditadura franquista é mostrada neste belo filme de Juan A. Bardem.
Apesar do casamento com Miguel, Maria José e Juan nunca se separaram, vivendo um romance secreto e duradouro e que, é claro, eles fazem de tudo para esconder de tudo e de todos, principalmente de Miguel. Maria José teme perder a vida de luxo e sofisticação da qual desfruta caso o marido venha a descobrir a respeito do seu caso com Juan. E este aceita a situação, pois esta é a única maneira dele continuar vendo Maria José. 

Porém, em uma das vezes em que eles se encontraram, quando voltavam para suas casas, Maria José dirigia o automóvel e acabou, acidentalmente, atropelando um ciclista. Eles viram que o ciclista estava vivo e foram embora, pois caso tivessem prestado atendimento ao mesmo o romance deles acabaria sendo revelado.

Posteriormente, eles ficaram sabendo, por meio de uma notícia de jornal, que o ciclista tinha falecido. E é neste momento que Rafael Sandoval entra em ação. Ele é um crítico de arte que é sempre convidado para festas, encontros e recepções das quais participam apenas os membros da elite espanhola (empresários, diplomatas, religiosos) e se dedica a conversar, obter informações e descobrir segredos para, depois, utilizá-los a fim de promover chantagens.
A estudante Matilde foi prejudicada em função de um erro cometido por Juan Fernández. Mesmo com a Espanha vivendo sob uma Ditadura, ela se rebelou contra o fato e isso acabou levando o mesmo a entrar em uma crise de consciência, fazendo com que ele tomasse a iniciativa  de corrigir os erros que havia cometido em sua vida.
Estas festas são a oportunidade para que Bardem mostre o preconceito e o desprezo da burguesia espanhola pelos mais pobres, bem como a sua arrogância, egoísmo e subserviência perante os EUA (em uma cena Rafa, ao piano, pede que um empresário dos EUA escolha a música que irá tocar). 

Um exemplo desse comportamento é que uma das amigas de Maria José fala, com desprezo, que elas irão participar de jogos de canastra para ajudar crianças pobres, doentes ou algo do tipo, mostrando que está mais interessada no jogo do que em ajudar alguém. 

E é justamente em uma destas festas é que Rafa (como é chamado) deixa claro para Maria José que a viu em uma rodovia, dirigindo um carro e sugere que tem conhecimento do fato de que ela estaria tendo um romance com outro homem. Rafa deixa bem claro todo o seu desprezo pelos membros da elite espanhola, que considera como sendo uma verdadeira escória. 

Durante o filme, Rafa vai aumentando o grau de ansiedade de Maria José, pois quando conversa com a mesma ele sempre diz algo que a compromete, sugerindo até que saberia do envolvimento dela em um assassinato. 
A belíssima atriz Lucia Bosé interpreta Maria José, esposa de um rico e influente industrial espanhol, mas que tem um caso com Juan Fernández, seu namorado desde a juventude. Embora fique sabendo do caso, o marido decide que a solução para evitar um escândalo público é levá-la para uma viagem, de vários meses, para outros países. 
Apavorada, Maria José conta para Juan a respeito do que Rafa lhe disse. Ele procura acalmá-la, dizendo que ele, provavelmente, não sabe de nada, e que deveriam procurar descobrir, afinal, do que ele tem conhecimento exatamente. 

E é exatamente isso que ela faz. Maria José diz para Juan que está convencida de que Rafa sabe algo a respeito da morte do ciclista, pois o mesmo chegou a comentar a respeito do fato, do qual tomou conhecimento pela leitura do jornal. 

Enquanto isso, Juan é membro de uma poderosa e influente família, sendo professor assistente de uma universidade pública na qual o seu cunhado é o reitor. Quando leu a respeito da notícia da morte do ciclista no jornal, ele ficou tão nervoso que acabou prejudicando uma aluna, Matilde, que fazia uma prova e que, em função disso, acabou sendo reprovada, embora estivesse fazendo tudo corretamente. 

O caso de Matilde acabou gerando um protesto de estudantes da universidade, que exigiam que Juan fosse demitido de seu cargo. E quando viu o protesto, Juan disse que isso havia sido a melhor coisa que poderia lhe acontecer, pois pela primeira vez em muitos anos as pessoas estavam deixando os seus interesses individuais de lado e lutando de forma solidária, coletiva. Juan e Matilde acabam, depois, ficando amigos. E é para Matilde que ele irá, depois, entregar a carta de demissão da universidade. 
No final, Maria José fica angustiada, pois hesita sobre qual caminho a seguir: Continuar o romance com Juan Fernández ou ir embora com o marido, a fim de continuar vivendo no luxo e na sofisticação que o casamento com ele proporcionava. 
Porém, antes da viagem, Maria José decide se encontrar com Juan e é neste momento no qual ela fica sabendo que ele pretende contar tudo para a Polícia a respeito do envolvimento de ambos na morte do ciclista, pois Juan pretende ficar em paz com a sua consciência. Nesta cena, fica claro que ela não gosta nenhum pouco dessa ideia.

Juan também se preocupou em investigar a respeito do ciclista falecido (um trabalhador metalúrgico) e foi até o local em que ele morava, com a esposa e os dois filhos. Desta maneira, vemos a pobreza e o abandono em que vivem os operários espanhóis em pleno regime franquista, o que é uma característica típica dos filmes neo-realistas. Ele e Maria José também combinaram de enviar algum dinheiro para a família do ciclista falecido, mas fica claro que eles fazem isso não para reparar o crime, mas apenas para aliviar a sua consciência. 

O clima de tensão e suspense, tipicamente hitchcockiano, vai crescendo à medida que Rafa vai sugerindo que sabe tudo a respeito do romance entre Maria José e Juan Fernández. E quando Rafa finalmente conta para Miguel, o rico industrial e marido de Maria José, a respeito do romance dela com Juan, ela fica desesperada, imaginando que o chantagista possa saber algo a respeito do seu envolvimento na morte do ciclista. 

Mas fica claro que ele não sabe de nada a respeito do acidente que matou o humilde trabalhador. Ele apenas viu Maria José, sozinha no carro, na rodovia, e percebeu que ela e Juan sempre conversavam nas festas e recepções. Daí foi só ligar os pontos e concluir que eles tinham um romance. 
A bela cena do filme de Bardem, que mostra a influência do cinema de Michelangelo Antonioni. Juan Fernández decide se entregar à Polícia, a fim de ficar em paz com a sua consciência, mas a ideia acaba por desagradar à bela Maria José.  
No entanto, Miguel não acredita na história de Rafa, ou então ele apenas finge não acreditar, pois não quer se expor perante a sociedade como sendo um marido traído, imaginando o escândalo que isso representaria para ele e para a sua bela esposa. No final, a fim de fugir de qualquer possibilidade de exposição pública do romance extranconjugal de Maria José com Juan, Miguel decide levá-la para fora do país, em viagem que irá durar vários meses. 

Mas, antes da viagem, Maria José decide se encontrar com Juan e é neste momento no qual ela fica sabendo que ele pretende contar tudo para a Polícia a respeito do envolvimento de ambos na morte do ciclista, pois Juan pretende ficar em paz com a sua consciência. Nesta cena, fica claro que ela não gosta nenhum pouco dessa ideia.

Quando decidem voltar para casa, eles param em um lugar no qual Juan participou de um combate na Guerra Civil e onde ele começa a rememorar os fatos daquele sangrento conflito, que o levou a se tornar uma pessoa descrente de tudo. Maria José pensa, fica angustiada, hesita, mas decide matar o homem ao qual ela amou a vida toda, pois não deseja passar o resto da sua vida na prisão. 

Assim, ela atropela e mata Juan e vai embora, mas no durante a viagem, em meio a uma forte chuva e em uma pista bastante escorregadia, Maria José acaba sofrendo um acidente fatal, ao tentar evitar de atropelar um... ciclista. 

Fim. 
Maria José, depois de matar Juan Fernández, tenta retornar a tempo de viajar com o marido para fora da Espanha. Mas isso não será possível. 
Links:

Informações sobre o filme:


http://www.imdb.com/title/tt0048394/?ref_=ttmi_tt


Realismo no Cinema Espanhol:


http://cerradomix.maiscomunidade.com/conteudo/2009-04-23/cerradomix/8510/MOSTRA-REALISMO-NO-CINEMA-ESPANHOL-.pnhtml


História do Cinema Espanhol:

http://classroom.orange.com/pt/historia-do-cinema-espanhol.html

Trechos do livro 'Espanha: Política e Cultura':

https://books.google.com.br/books?id=HqfbCMQlkyIC&pg=PT50&lpg=PT50&dq=novo+cinema+espanhol+juan+antonio+bardem&source=bl&ots=aR4zEXDMZ0&sig=tcqrVTkZyHvSjWPJROM4PqNPe0E&hl=pt-BR&sa=X&sqi=2&ved=0ahUKEwjV2YXr9s_OAhXClZAKHdCSArkQ6AEIOjAI#v=onepage&q=novo%20cinema%20espanhol%20juan%20antonio%20bardem&f=false

Informações Adicionais:

Título: 'Muerte de un Ciclista' (A Morte de um Ciclista);
Diretor: Juan Antonio Bardem;
Roteiro: Juan Antonio Bardem; Luis Fernando de Igoa;
Ano de Produção: 1955; País de Produção: Espanha e Itália;
Duração: 88 minutos;
Elenco: Lucia Bosé (Maria José de Castro); Alberto Closas (Juan Fernández Soler); Carlos Casaravilla (Rafael Sandoval; Rafa); Otello Toso (Miguel Castro); Bruna Corrá (Matilde Luque); Alicia Romay (Carmina); Julia Delgado Caro (Dona Maria); Manuel Alexandre (Ciclista). 
Prêmios: Prêmio da Crítica do Festival de Cannes (1955); 

Vídeo  - Trecho do filme: 

sábado, 16 de julho de 2016

'Cronaca di un Amore': Influenciado pelos Filmes Noir, Antonioni conta uma bela e trágica história de amor! - Marcos Doniseti!

'Cronaca di un Amore': Influenciado pelos Filmes Noir, Antonioni conta uma bela e trágica história de amor! - Marcos Doniseti!
"Cronaca di un Amore" (1950): Já em seu primeiro longa-metragem, o gênio Michelangelo Antonioni produziu uma belíssima obra, bastante influenciada pelos filmes Noir. Antes, Antonioni realizou uma série de documentários baseados nos preceitos do Neo-Realismo, do qual foi um dos pioneiros. Mas, em 'Cronaca di un Amore' ele foi criticado porque começou a deixar de lado as teses neo-realistas, mostrando a burguesia como a protagonista da trama e não mais os trabalhadores.
Já no início de sua magistral carreira, Michelangelo Antonioni nos brindou com um belíssimo filme, no qual temos uma clara influência do policial Noir americano. Todos os principais elementos deste gênero policial, que foi extremamente popular nos anos 1930 e 1940, estão presentes neste excelente filme do mestre italiano: Mulheres fatais, crimes passionais e misteriosos, passados nebulosos, clima sombrio, detetives particulares, ciúme, suspeita, final trágico.

Este belo filme de Antonioni também antecipa parcialmente, de certa maneira, a sua produção a partir de 'A Aventura' (de 1960), que passa a tratar muito mais do interior dos personagens, das suas angústias, tristezas, melancolias, enfim, dos seus sentimentos, possuindo características marcadamente existencialistas. 

Assim, em seus filmes do período 1950-1957, Antonioni não trata apenas dos aspectos exteriores da sociedade, da sua realidade social e econômica, como fazia na época do Neo-Realismo, mas também do interior dos personagens. Esta mistura marcará a sua obra por toda a década de 50. 

Esta fase em que elementos neo-realistas e existencialistas se misturam em sua obra vai durar até 'O Grito' (1957), que é outro belíssimo filme de Antonioni, e que já foi comentado aqui no blog. Neste período, Antonioni também dirigiu 'A Dama Sem Camélias' ('La Signora Senza Camelie'; 1953), com a mesma Lucia Bosè de 'Cronaca di un Amore', 'Os Vencidos' ('I Vinti'; 1953) e 'As Amigas' ('Le Amiche', 1955).

A trama deste belo filme que é 'Cronaca di un Amore' gira em torno da jovem e bela Paola Molon, interpretada pela lindíssima Lucia Bosé que, na época da realização do filme, tinha apenas 19 anos, e que havia sido eleita Miss Itália em 1947, concurso no qual derrotou Gina Lollobrigida, Silvana Mangano e Eleonora Rossi Drago que, posteriormente, também tiveram brilhantes carreiras no Cinema.
A belíssima Lucia Bosé tinha apenas 19 anos quando protagonizou este filme de Antonioni. Este foi o seu segundo longa-metragem. Sua estreia tinha sido naquele mesmo ano (1950), em um filme do diretor Giuseppe De Santis ("Non c'è Pace Tra gli Ulivi" ou 'Páscoa Sangrenta' no Brasil). Ela voltaria a ser dirigida pelo grande mestre Antonioni em 'A Dama Sem Camélias', produção de 1953, que faz um retrato bastante crítico do mundo da produção cinematográfica.  
Paola Molon havia casado há apenas um ano com um rico industrial de Milão, Enrico Fontana, e isso ocorreu em Maio de 1943, apenas dois meses depois de terem se conhecido. O marido é muito ciumento, em função da beleza e do charme arrebatadores da jovem, sensual, charmosa e linda esposa. 

E depois de sete anos de casamento (que ocorreu em 1943, na época da Segunda Guerra Mundial), Fontana quer ter certeza de que Paola lhe é fiel e, para isso, contrata um detetive (Carloni) a fim de investigá-la, bem como para descobrir fatos relativos ao passado de Paola, no qual temos alguns acontecimentos nebulosos. 

E é justamente essa investigação que irá levar a que a, até então, fiel esposa reencontre um amor da juventude, Guido. Então, foi o ciúme de Enrico que fez com que Guido e Paola se reencontrassem e iniciassem um novo romance. O medo dele de que a esposa não lhe fosse fiel (e ela era, pelo menos até aquele momento) foi o que deu início a um romance fora do casamento por parte dela. 

Isso acontece depois que a sua amiga de diversão e namoros dos 'velhos tempos', Matilde, informou Guido que havia sido procurada por um homem desconhecido e que o mesmo havia feito inúmeras perguntas sobre o passado dela, Paola, e de Guido. 
Paola sentiu-se perturbada ao rever Guido, depois de muitos anos, pois é claro que os sentimentos dela pelo antigo namorado ainda não morreram.
E é claro que a velha chama do amor de Guido e Paola renasce com toda a força e eles acabam retomando o romance que, antigamente, foi interrompido por razões que serão esclarecidas mais adiante na história. 

Obs1: O belo figurino de Lucia Bosé foi de autoria de Ferdinando Sarmi, o mesmo que interpretou o rico burguês Enrico Fontana, marido de Paola. E a fotografia do filme, com um clima sempre nublado ou chuvoso, ruas escuras, crimes misteriosos, a presença de uma bela 'femme fatale' (Paola, é claro...), história de traição, suspense... Tudo remete ao filme Noir. 

O detetive Carloni vai até Ferrara, fazendo-se passar por um tio de Paola, onde ela viveu a sua juventude, a fim de começar a descobrir os segredos da jovem e bela esposa de Fontana, começando pela escola onde ela estudou. Carloni descobre que ela era namoradeira e que estava sempre acompanhada de duas amigas: Giovanna Carlini, já falecida, e Matilde Galvani. Ele descobre também que Paola foi embora, de forma repentina, logo após a morte de Giovanna. 

Carloni vai até a casa de Matilde, que agora mora com um Sr. Ludovico Algardi, apresentando-se como o 'Professor Ferri' e dizendo que o pai de Paola era um amigo dele e que possuía cartas escritas pelo mesmo que gostaria de entregar à jovem. 

Algardi não se faz de rogado e diz que Paola mora em Milão, que está casada com um rico industrial (Fontana). Carloni fica sabendo que Paola teve somente um romance sério em Ferrara e que o mesmo era noivo de Giovanna (chamava-se Guido), ao qual ela tentava conquistar. 
Paola, de branco, junto aos membros da burguesia de Milão, com seus carros luxuosos e caros. Ela entrou para esse mundo após se casar com Enrico Fontana, saindo da pobreza em que vivia anteriormente.
Giovanna acabou morrendo dois meses antes de seu casamento com Guido, mas não ficamos sabendo, neste momento, do motivo pelo fato deste e Paola não terem se casado após a morte da ex-noiva de Guido. Talvez a morte de Giovanna tenha tido o envolvimento de Paola e Guido e, em função disso, é que eles não se casaram.

Matilde chega à sua casa e é interrogada por Carloni, mas se recusa a colaborar, dizendo que não tem mais nenhum contato com Paola, mostrando muita desconfiança em relação às perguntas que o mesmo lhe faz. Matilde escreve uma carta para Guido, para lhe informar do ocorrido. 

Na sequência, vemos a belíssima Paola com o marido, no dia do seu aniversário (27 anos), e outros amigos. Neste momento, ela vê Guido e fica claramente perturbada com a simples visão do mesmo. Ela se sente mal e isso a leva a convencer o marido a ir embora para casa, para poder dormir. Mas ela recebe um telefonema de Guido, que a convence a se encontrar com ele no dia seguinte. 

No dia seguinte, Paola e Guido se encontram e ele diz que ela está 'estonteante' e que ela tem uma classe que não possuía. Paola também o elogia, dizendo que ele também mudou e que o mesmo demonstra ter mais maturidade do que nos tempos da juventude. 
Depois de muitos anos (sete) que seu romance chegou ao fim, Guido e Paola se reencontram e fica claro que eles não são felizes e que ainda sentem uma forte atração. E a paisagem, com a neblina ao fundo, que faz o mar ficar branco, também está relacionada com a situação dos protagonistas. A importância da paisagem é uma característica que também estará muito presente na obra posterior de Antonioni, principalmente a partir do filme 'A Aventura' (de 1960), que deu início à chamada 'Trilogia da Incomunicabilidade'. 
A atração de antes, entre Paola e Guido, está voltando... 


Guido pergunta se Paola está casada e se é feliz, mas ela não responde, deixando claro que seu casamento com Fontana se deu em função da fortuna do mesmo e não por amor. Guido mostra a carta que Matilde lhe enviou, contando a respeito da investigação que está sendo feita, por um desconhecido, a respeito do passado de ambos. 

Ela fica inquieta, dizendo que pode ser a Polícia agindo, mas ele diz que não deveriam se preocupar. Mas pela reação de Paola fica-se na dúvida se eles não teriam algum motivo para preocupação. Senão, porque ela pensaria que ambos estariam sofrendo uma investigação policial? O que eles escondem? Do que ela tem medo, exatamente? Então, fica claro que há um mistério envolvendo o passado de ambos. 

Guido informa que ficará apenas um ou dois dias em Milão, pois trabalha como vendedor de carros. Ela sugere que ele vá se encontrar com Matilde, em Ferrara, à qual ela viu uma única vez depois que saiu de Ferrara, dizendo que a amiga e Ludovico estão sem dinheiro e que podem estar querendo alguma coisa. Assim, Paola temia que poderia estar sendo vítima de algum tipo de chantagem da sua antiga amiga, pela qual não demonstra muita simpatia e por quem chega até a demonstrar um certo desprezo. 
Paola e Guido passam a se ver continuamente, em função da investigação que Carloni faz a respeito do passado de ambos, e isso leva a que o amor que sentem um pelo outro volte à tona.
À medida que a trama se desenvolve, vemos a evolução do relacionamento amoroso de Paola e Guido ser cada vez mais perturbado pelas investigações e descobertas feitas pelo detetive Carloni, com ambos tendo receio de que estão sendo seguidos e sobre o que poderá ser descoberto a respeito do seu passado. E a bela trilha sonora do filme (ao som de sax e piano) realça essas mudanças na trama. 

Depois, vemos o detetive Carloni lendo uma notícia de jornal a respeito da morte de Giovanna, a ex-noiva de Guido e amiga de Paola, e que faleceu em função de um acidente de elevador. 

Essa morte que, de alguma maneira, está relacionada a Guido e Paola, ajuda a entender o motivo desta última ter ficado tão preocupada com a investigação feita pelo detetive. 

Carloni, que é aquele tipo de detetive persistente e irritante, vai até o local em que ocorreu a morte de Giovanna e conversa com uma empregada da família desta, que lhe passa inúmeras informações a respeito das circunstâncias da morte da jovem, então com apenas 19 anos. Ele sai do local muito desconfiado a respeito da participação de Guido e Paola na morte de Giovanna. 
O Detetive Carloni investiga o passado de Paola e Guido, o que deixa os dois preocupados, pois eles se envolveram na morte de Giovanna, ex-noiva de Guido e amiga de Paola.
Carloni telefona para Enrico Fontana, informando-o a respeito do que descobriu, demonstrando suspeitar que a morte de Giovanna tenha sido em função de um assassinato, embora não diga isso ao marido de Paola.

Guido telefona para Paola e eles se encontram, momento no qual ele a informa a respeito do que o detetive descobriu a respeito do passado deles. Ela novamente se preocupa com a possibilidade de que a Polícia esteja investigando a ambos, mas Guido procura tranquilizá-la. Ele diz que terá que ir embora de Milão, pois está sem dinheiro e que vive 'duro' desde o final da Guerra. 

Ela se propõe a ajudá-lo, fazendo com que ele possa vender um carro para o seu marido, pois é aniversário dela e a mesma pedirá um carro (Ferrari ou Maseratti) de presente. Ela irá procurar fazer isso sem que o marido saiba que Guido irá ganhar dinheiro com o negócio, usando de um intermediário (Valerio). Eles combinam de convidarem Paola e o marido para uma casa noturna, onde o intermediário poderá conhecer Enrico. Mas Paola vê Guido dançando com uma modelo e fica com muito ciúmes. 

Daí, ela decide comprar um vestido, mas não o carro.

Depois, ela muda de ideia e eles vão levar Enrico para testar a Maseratti, mas o mesmo se recusa a comprar o carro de presente para Paola, pois teme pela segurança dela, já que o carro é muito veloz. 
Paola e Guido se beijam, enquanto o marido dela, Enrico, testa o carro (Maseratti) que ela deseja ganhar como presente de aniversário. Ela diz que sempre o amou e que se sente sozinha em sua vida ao lado de Enrico. 
Depois de receber flores, Paola vai ao encontro de Guido, em um hotel barato, mas é seguida por Carloni. Ela consegue despistá-lo depois de ir até uma loja para comprar um vestido. Sua tensão e nervosismo é notada pela gerente. 

No hotel, ela e Guido conversam sobre as circunstâncias misteriosas da morte de Giovanna, onde fica claro que eles poderiam ter agido para salvar a vida da mesma, mas que não o fizeram. 

Então, surge a pergunta: Agindo dessa maneira, será que eles não cometeram assassinato? E é justamente isso que faz com que eles carreguem consigo um sentimento de culpa, que foi o responsável por separá-los durante sete anos. Paola diz que 'Nós não a salvamos e agora podemos nos amar', demonstrando ter consciência do fato. Ela diz que se casou com outro, mas que sempre amou Guido. 

Guido diz que eles não salvaram Giovanna porque a desejavam morta, que isso foi um crime e que tal fato foi o responsável pela separação deles. E da mesma maneira que naquela época, agora também há uma pessoa entre eles (Enrico) e fala que, por isso, eles jamais serão felizes. Paola sugere que eles matem Enrico, para que possam ficar juntos, mas Guido não aceita a proposta e vai embora, deixando-a sozinha no hotel. 
Até mesmos os chapéus que Lucia Bosé usa no filme estão relacionados à trama: O primeiro, meio caído do lado, é uma referência à queda que provocou a morte de Giovanna no elevador. O amarelo, em forma de chamas, se relaciona a uma conversa que ocorreu entre Paola e Guido a respeito da possibilidade deles matarem Enrico, a fim de que pudessem ficar juntos. O último, no canto direito, lembra uma arma, pois ela e Guido estão prestes a matar Enrico. 
Angustiada e sofrendo, após a briga com Guido no hotel, Paola chora em seu quarto. 

Guido lhe telefona e agradece por ela ter devolvido a sua carteira, que havia esquecido no quarto do hotel, mas ele fala que não quer as 80 mil Liras que encontrou na mesma. Paola diz que o dinheiro foi a única maneira que ela encontrou de mantê-lo em Milão e pede para encontrá-lo, com o que ele concorda, marcando o encontro para o dia seguinte. Ele diz que até chegou a ir até a estação, mas que não conseguiu ir embora. 

Sempre que o marido procura se aproximar dela, Paola diz que está com enxaqueca, com sono ou inventa qualquer outra desculpa, demonstrando o seu total desinteresse pelo marido, com o qual evita ao máximo ter contatos íntimos. 

Enrico diz para Paola que mandou investigá-la e que descobriu informações a respeito dela. No encontro com Guido, ela conta isso para ele, dizendo ainda que não suporta o marido. Esta conversa ocorre numa escada, ao lado de um elevador. E foi em um elevador que Giovanna morreu... Isso é claramente uma sugestão do que eles poderão vir a fazer com Enrico. 

Carloni vai pedir a ajuda da Polícia em suas investigações, mas não consegue, pois a mesma não tem recursos suficientes para isso. Carloni diz para o seu chefe que tem certeza que Guido está em Milão e que se encontra com Paola, convencido de que os sentimentos deles continuam os mesmos. 
Guido e Paola juntos, no quarto de hotel, onde eles discutiram sobre a morte de Giovanna, reconhecendo que tiveram a oportunidade de impedir que ela morresse, mas que não o fizeram. E foi isso que os separou por tantos anos.  
Guido encontra a modelo, que acabou de terminar o seu relacionamento com Valerio e que comenta a respeito do mesmo, dizendo que não suportava o fato de que Valerio continuava casado e que vivia adiando a separação da esposa, afirmando que isso acontecia porque os laços matrimoniais são muito fortes, que nem o amor e a paixão suportam isso, e que ela não tolerava essa 'traição' de Valerio. 

Guido percebe que esses comentários da modelo acabam tendo uma clara relação com a situação dele, que também é um amante de uma pessoa casada (Paola). 

Paola e Guido encontram-se, novamente, em um quarto de hotel, e eles discutem sobre o que farão de suas vidas. Ele diz que poderiam ir embora, juntos, para outra cidade ou país. Enquanto isso, Paola faz uma digressão sobre o dinheiro, que escolheu Enrico em vez de Guido, que eles não podem continuar daquele jeito, se encontrando sempre às escondidas e correndo o risco de serem descobertos e que a solução dos problemas deles seria a morte de Enrico, ideia que Guido recusa-se a aceitar. 

Paola e Guido marcam um novo encontro. 

Daí, vemos uma sequência belíssima, que dura cerca de três minutos, na qual Antonioni usou uma única câmera. É um único plano-sequência, no qual vemos um encontro entre Guido e Paola sobre uma ponte. Nesta conversa eles decidem sobre a maneira como irão matar Enrico. 
Cena na qual Guido e Paola falam sobre a forma como pretendem matar Enrico, a fim de que possam ficar juntos. Este plano-sequência dura cerca de 3 minutos. Eles discutem a respeito da morte de Giovanna, com Paola culpando Guido pelo que aconteceu. Guido a esbofeteia por isso e eles vão embora. 
Obs2: Em uma cena que se passa no hotel em que Guido está hospedado, ele diz para a funcionária que se alguém procurar por ele, é para dizer que ele se encontra doente. E a funcionária pergunta 'Incluindo a Dama das Camélias', referindo-se à Paola, é claro. Três anos depois, Lucia Bosé voltou a trabalhar com Antonioni em um novo filme. Nome do filme? 'A Dama sem Camélias'. 

Carloni leva o seu relatório a respeito de Paola para Enrico. Quando termina de ler o mesmo é que ele percebe que a esposa, de fato, nunca o amou. 

Enquanto isso, Guido fica esperando Enrico passar por uma ponte, na qual ele irá matá-lo. E Paola aguarda, ansiosa e nervosa, pelo telefonema de Guido informando-a de que seu marido foi morto. Porém, enquanto Guido esperava, Enrico sofre um acidente fatal. Guido vai até o local do acidente e vê que Enrico está morto, mas não avisa Paola sobre o ocorrido. 

Aqui, surge a dúvida: Será que a morte de Enrico foi, mesmo, um acidente? Ou então, ao ler o relatório do detetive e perceber que Paola nunca o amou ele se deu conta de que, apesar do seu imenso sucesso financeiro, jamais conseguiria ser feliz ao lado dela e, assim, Enrico preferiu a morte?

A Polícia é avisada da morte de Enrico e vai até a casa de Paola para avisá-la, mas ela fica desesperada e foge, pensando que será presa. Ela encontra Guido e diz, novamente, que a culpa foi apenas dele. Mas Guido lhe diz o que aconteceu, falando sobre o acidente. 
Paola chora ao saber que Enrico morreu acidentalmente. 
E Guido percebe que Paola nunca irá se sentir responsável pelo que ocorreu com Giovanna e com Enrico. Ela sempre irá culpá-lo pelo que aconteceu aos dois. Primeiro, ela o culpou pela morte de Giovanna e, agora, faz o mesmo ao saber que Enrico morreu. 

Paola chora e Guido diz que viu Enrico e fala que ele tinha um buraco na garganta, como se tivesse levado um tiro. Assim, ele sente como se, de fato, fosse o assassino do marido de Paola. 

Paola pergunta o que eles farão e Guido diz que não há como continuar com o relacionamento deles. Ele a deixa em sua casa e vai embora, prometendo que voltará. 

Mas Paola sente que isso não vai acontecer. Guido entra no táxi e fala para o motorista levá-lo até a estação. Ele irá embora de Milão, para não mais voltar. Seu romance com Paola chegou ao fim. 

O sentimento de culpa, por parte de Guido, pela morte de duas pessoas inocentes, Giovanna e Enrico, e a incapacidade de Paola de compartilhar essa culpa pelo que ambos fizeram acabou por destruir o relacionamento deles. 

Fim. 
Chorando, a bela e deslumbrante Paola é abandonada por Guido. Ela sabe que ele não voltará mais. 
Diálogo:

Modelo: O Universo é nada, senão amor. Foscolo. Quem é esse?
Vendedor: Um cara sem dinheiro.

Informações Adicionais:

Título: Cronaca di un Amore (Crônica de um Amor; no Brasil foi traduzido como 'Crimes da Alma');
Diretor: Michelangelo Antonioni;
Roteiro: Michelangelo Antonioni; Francesco Maselli; Daniele D'Anza; Silvio Giovaninetti; Piero Tellini;
Ano de Produção: 1950; País de Produção: Itália;
Duração: 98 minutos;
Música: Giovanni Fusco;
Fotografia: Enzo Serafin;
Elenco: Lucia Bosé (Paola Molon Fontana); Massimo Girotti (Guido Garroni); Ferdinando Sarmi (Enrico Fontana); Gino Rossi (Carloni, o Detetive); Rubi d'Alma (amiga de Paola); Marika Rowsky (Joy, a modelo); Vittoria Mondello (Matilde).

Link:

http://www.imdb.com/title/tt0042355/?ref_=fn_al_tt_1

Vídeo - Trecho do filme: