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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Costa-Gavras: 'Estado de Sítio' - Obra-Prima do Cinema Político que denuncia os crimes das Ditaduras Latino-Americanas! - Marcos Doniseti!

Costa-Gavras: 'Estado de Sítio' - Obra-Prima do Cinema Político que denuncia os crimes das Ditaduras Latino-Americanas! - Marcos Doniseti!
'Etat De Siege' (Estado de Sítio; 1972) é um dos grandes clássicos do cinema político mundial, no qual o cineasta grego Costa-Gavras denuncia as torturas como sendo fruto de política de Estado adotada pelas Ditaduras latino-americanas, do Cone Sul em especial (Brasil e Uruguai, no caso específico do filme). 
'Estado de Sítio' é um clássico do cinema político, dirigido pelo mestre Costa-Gavras, cineasta de origem grega, que se naturalizou francês e que realizou a maior parte dos seus filmes na França.

O filme foi produzido em 1972, quando a repressão por parte da Ditadura Militar brasileira encontrava-se no auge. E no Uruguai ela também já era praticada desde a década de 1960, sendo que no caso dos dois países isso era feito com a assessoria da CIA.

A sua consagração como cineasta veio com o clássico filme 'Z', que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 1970. 'Z' trata da história que resultou em um brutal Golpe de Estado que instalou uma cruel e violentíssima Ditadura Militar na Grécia (chamada de 'Ditadura dos Coronéis') e que durou de 1967 a 1974.

As filmagens de 'Estado de Sítio' foram realizadas no Chile, na época em que o mesmo era governado pelo socialista Salvador Allende.
Dan Mitrione era um policial em uma pequena cidade dos EUA, foi trabalhar para o FBI, acabou sendo recrutado pela CIA, tendo disseminado sofisticadas técnicas de tortura pela América Latina.
Costa-Gavras chegou a ser hostilizado por direitistas chilenos em função disso (que o chamavam de 'comunista' e o mandavam ir embora do Chile), mas o governo do país (Allende) lhe ofereceu as garantias necessárias para que pudesse concluir o filme, com as filmagens sendo realizadas em Viña del Mar.

Porém, Salvador Allende jamais chegou a assistir o filme, pois morreu lutando contra o Golpe de Estado corrupto (seus líderes foram subornados pela CIA), assassino e traiçoeiro de 11 de Setembro de 1973, que foi liderado pelo General Augusto Pinochet que, pouco tempo antes, havia lhe jurado total lealdade. Aliás, quando o Golpe de Estado começou, e ainda sem ter qualquer ideia da participação de Pinochet no mesmo, Allende chegou a pensar que o general, no qual ele possuía plena confiança, tinha sido preso ou mesmo morto pelos golpistas. Doce ilusão...

O verdadeiro Dan Mitrione (Philip Michael Santore no filme) era um policial de uma pequena cidade dos EUA e que foi recrutado pelo FBI. Posteriormente, ele se transformou um agente da CIA que ensinou e disseminou sofisticadas e brutais técnicas de torturas por toda a América Latina, oferecendo cursos a centenas policiais e militares da região. E estes, posteriormente, repassaram as mesmas a milhares de outros militares por todo o subcontinente latino-americano.

Assim, a história do filme é inspirada em acontecimentos reais: O sequestro e morte de Dan Mitrione pelo grupo guerrilheiro uruguaio Tupamaros em 1970, quando Mitrione trabalhava, sob disfarce, infiltrado na Polícia do país (no 'Escritório de Segurança Pública', que fazia parte da AID). Mas ele era, de fato, um agente da CIA.
Augusto Pinochet, Rafael Videla e Garrastazu Médici comandaram três das Ditaduras mais brutais e sanguinárias da história da América Latina, que institucionalizaram a prática das torturas, usando das técnicas que foram ensinadas pela CIA aos militares e policiais da região desde a década de 1960.  
O objetivo dos Tupamaros com o sequestro não era matar Mitrione, mas sim conseguir uma troca do agente secreto dos EUA por 150 prisioneiros políticos, mas o governo uruguaio recusou-se a fazer tal acordo, o que levou à morte do agente da CIA.

Portanto, Mitrione foi um agente secreto dos EUA (CIA) que trabalhou em vários países da América Latina (Brasil, República Dominicana e Uruguai) atuando como conselheiro para as forças policiais destes países, transmitindo-lhes seus conhecimentos a respeito de novas, sofisticadas e brutais técnicas de torturas, pretensamente científicas, que haviam sido desenvolvidas pela CIA nas décadas de 1950 e 1960, por meio do projeto 'MKUltra', que foi financiado pelo serviço secreto dos EUA.

Obs1: No livro de Naomi Klein, 'A Doutrina do Choque', lemos que: "Um memorado da CIA que se tornou público explicava que o programa 'examinou' e investigou numerosas técnicas novas de interrogatório, inclusive assédio psicológico e outras como 'isolamento total' e 'uso de drogas e produtos químicos'. Primeiramente denominado de Projeto Bluebird, e depois renomeado para Projeto Artichoke, foi finalmente batizado de MKUltra em 1953. Nos dez anos que se seguiram, o MKUltra gastou 25 milhões de dólares em pesquisas que visavam encontrar novas maneiras de destroçar as vidas dos prisioneiros suspeitos de serem comunistas ou agentes duplos. Oitenta instituições estiveram envolvidas no programa, inclusive 44 universidades e doze hospitais".
 A história resumida deste projeto secreto da CIA é contada por Naomi Klein, em seu excepcional livro 'A Doutrina do Choque'. Em seu livro, ela diz: "A tortura é um conjunto de técnicas destinadas a colocar os prisioneiros em estado de desorientação e choque, de modo a obrigá-los a fazer concessões contra a própria vontade". 
O agente Dan Mitrione atuava sob disfarce, é claro, como se fosse apenas um técnico da AID ('Agência para o Desenvolvimento Internacional' dos EUA), mas seu superior em Washington era, de fato, um diretor da CIA.

Na América Latina, Mitrione ministrou inúmeros cursos para a formação de torturadores, baseado nos manuais 'Kubark', da CIA, que foram elaborados com bases nas pesquisas realizadas no âmbito do MKUltra. Estes manuais diziam ser possível torturar uma pessoa 'com a dor precisa, no momento preciso, com a quantidade precisa, para se obter o resultado desejado'.

Tais cursos de formação de torturadores contavam, inclusive, com a realização de aulas práticas, utilizando-se de mendigos, prisioneiros comuns e de prisioneiros políticos, que eram torturados pelos 'professores' na frente dos 'estudantes'.

Os cursos ministrados por Dan Mitrione formaram centenas de torturadores em países como o Brasil (para onde ele veio em 1960 e no qual permaneceu até 1967, atuando como conselheiro na Polícia de Minas Gerais), República Dominicana (para onde ele foi em 1967 e na qual atuou na repressão aos movimentos políticos esquerdistas, que tinham sido vitoriosos na eleição presidencial de 1963, que haviam levado Juan Bosch à Presidência do país por meio de eleições democráticas) e no Uruguai, país onde ele chegou em 1969 e no qual ele finalmente acabou morrendo, em Agosto de 1970.
Bandeira do movimento guerrilheiro Tupamaros, que contou com grande apoio popular no Uruguai na década de 1960. Grupo guerrilheiro foi criado em 1962 e se integrou à luta política pacífica e legal em 1989, quando passou a fazer parte da 'Frente Ampla'. Pepe Mujica foi integrante dos Tupamaros e se elegeu Presidente do Uruguai, país ao qual governou entre Março de 2010 e Março de 2015. 
Logo, Dan Mitrione foi o responsável por espalhar estas horrendas técnicas de tortura por toda a América Latina. E depois elas se espalharam pelo mundo todo, principalmente após os atentados de 11/09/2001, quando a CIA criou prisões secretas pelo mundo inteiro e nas quais as técnicas desenvolvidas no projeto MKUltra foram largamente utilizadas. Não foi à toa, portanto, que ele foi chamado de 'Mestre da Tortura da CIA'.

O filme de Costa-Gavras começa mostrando que é inverno na América Latina, uma forma de mostrar a escuridão em que a região se encontrava, pois muitos países se encontravam sob o domínio de brutais ditaduras de Direita apoiadas e financiadas pelos EUA (Brasil, Argentina, Bolívia, Guatemala, entre outros). E nos anos seguintes este número iria crescer ainda mais, após a vitória dos Golpes de Estado no Uruguai (Junho de 1973) e no Chile (Setembro de 1973). O Paraguai, por sua vez, já era governado por uma Ditadura desde 1954 (Alfredo Stroessner) 

A trama do filme se inicia com a morte de Dan Mitrione/Santore e, depois, vai mostrando tudo o que aconteceu para que a história de sua vida tivesse tal desfecho, que resultou na sua morte pelos guerrilheiros do MLN-Tupamaros. Desta maneira, ficamos sabendo tudo o que já foi dito aqui a respeito da trajetória deste agente da CIA especializado em sofisticadas e supostamente 'científicas' técnicas de tortura.

No inverno uruguaio vemos uma megablitz feita pela Polícia, com o objetivo de encontrar os responsáveis pela morte do torturador Dan Mitrione/Santore, que é brilhantemente interpretado por Yves Montand. E desde o início vemos que os agentes secretos dos EUA trabalham de forma conjunta com a Polícia uruguaia, algo que de fato acontecia desde o começo dos anos 1960.
O Uruguai e a América Latina enfrentaram um longo inverno durante a época das Ditaduras Militares, que se espalharam pela região nas décadas de 1960/70, graças ao apoio e participação direta do governo dos EUA nos Golpes de Estado que resultaram na instalação das mesmas.
E a submissão política do Uruguai aos interesses dos EUA fica bem evidente quando o Congresso Nacional decreta luto nacional em função da morte de Dan Mitrione/Santore. E o Núncio Apostólico reza a missa feita para o agente secreto e torturador da CIA, mas sem a presença do Arcebispo, mostrando que a Igreja estava dividida a respeito, e também sem a participação dos Reitores das Universidades.

Mas as áreas da igreja destinada aos militares, aos membros do governo, aos diplomatas e para os integrantes das forças militares e policiais estão repletas.

Em uma reunião, a esposa de Mitrione/Santore fica sabendo que irá viver em uma cidade grande, com oferta de água potável e de alimentação saudável, e que, portanto, seus familiares não estarão sujeitos a problemas que afetam a uma parte da população uruguaia, como a ausência de saneamento básico ou a insuficiência de alimentos. E é dito que elas não são apenas esposas de militares dos EUA, mas representantes de uma civilização, de um estilo de vida.

O filme mostra como foi a operação que capturou Santore, que reuniu muitos integrantes dos Tupamaros. Os guerrilheiros roubavam os automóveis apenas para uso na operação, deixavam os veículos abandonados e orientavam os donos a fazer queixa na Polícia mais tarde, a fim de recuperá-los. O dono de um táxi até já sabia como proceder, pois já tinha sido roubado anteriormente numa outra operação dos Tupamaros. Ele até orientou os guerrilheiros sobre os problemas que o carro tinha...
Blitz da Polícia para tentar encontrar os sequestradores de Santore (agente da CIA e torturador) e Fernando Campos (Cônsul do Brasil).
Uma outra mulher, que teve o seu carro expropriado pelos guerrilheiros, e que estava vestida de forma luxuosa, foi levada a um lixão, no qual crianças miseráveis catavam qualquer coisa que pudessem, o que é uma maneira de se denunciar as desigualdades sociais existentes no Uruguai da época.

Na ação de sequestro, os guerrilheiros cercaram inteiramente o veículo no qual Santore estava e, acidentalmente, desferiram um tiro nele. Depois, levaram-no para um esconderijo e colocam um bigode para disfarçá-lo, a fim de levá-lo a um hospital.

Afinal, o objetivo dos integrantes dos Tupamaros não era matar Santore, mas usá-lo como moeda de troca a fim de conseguir a libertação de 150 prisioneiros políticos. Portanto, era eseencial que Santore vivesse.

Além de Santore, o cônsul brasileiro (Fernando Campos) no Uruguai também é sequestrado pelos Tupamaros, devido ao fato da Ditadura Militar brasileira torturar milhares de pessoas na época (1970). O período do governo de Garrastazu Médici (1969-1974) foi o auge da repressão promovida pela Ditadura Militar.

E um outro funcionário do governo dos EUA (Anthony Lee) também foi sequestrado, mas acabou sendo libertado logo na sequência. Provavelmente isso foi feito apenas como uma ação para despistar os militares uruguaios, dispersando as forças dos mesmos em várias operações simultâneas.
O Cônsul brasileiro Fernando Campos (à esquerda) era membro da organização reacionária católica TFF (Tradição, Família e Propriedade) e Santore (à direita), agente da CIA que treinou centenas de militares e policiais latino-americanos em sofisticadas técnicas de tortura. 
Obs2: No consulado brasileiro vemos que o nome do diplomata é Roberto Campos, político e economista brasileiro que apoiou a Ditadura Militar, tendo sido ministro do Planejamento do governo ditatorial de Castello Branco, quando adotou uma política de arrocho salarial, repressão aos movimentos sociais (operário, camponês, estudantil), restrição ao crédito e privatizações desnacionalizantes, que provocaram uma forte Recessão entre 1964-1967. O nome verdadeiro do cônsul brasileiro que foi sequestrado pelos Tupamaros era Aloysio Gomide.

Obs3: Na América Latina, a primeira ação de sequestro de um diplomata ou agente secreto dos EUA que resultou na libertação de prisioneiros políticos que estavam sendo brutalmente torturados por uma Ditadura Militar aconteceu no Brasil, em Setembro de 1969, quando integrantes da ALN (Ação Libertadora Nacional, liderada por Carlos Marighella) e do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) sequestraram o embaixador dos EUA no Brasil, Charles Elbrick. O embaixador acabou sendo libertado em troca da divulgação de um manifesto, escrito pelos guerrilheiros, pela imprensa brasileira e da libertação de 15 prisioneiros políticos, que foram enviados ao México, onde chegaram em segurança (a respeito do fato sugiro que assistam ao excelente documentário 'Hércules 56'.

Para poder reprimir o crescimento expressivo pelo qual o movimento dos Tupamaros teve no Uruguai durante a década de 1960, e que contava com amplo apoio popular, o governo se utiliza de uma legislação que concede poderes excepcionais ao governo. Tal lei foi aprovada para valer por apenas 60 dias, mas já está sendo usada há dois anos. Logo, há um significativo processo de desrespeito à Constituição, por parte do próprio governo, em andamento no Uruguai neste momento.
O Parlamento do Uruguai vota e aprova decreto que impõe luto nacional em função da morte de um agente da CIA e torturador (Santore). Somente deputados direitistas aprovaram a medida. Entre Junho de 1968 e o final de 1972 o país esteve sob 'Estado de Emergência'.  
O funcionário da AID apresenta a sua entidade como tendo interesse apenas em ajudar o desenvolvimento do Uruguai e de outros países nas áreas da indústria, agricultura, mineração, educação e que atua em inúmeros países que solicitam a ajuda econômica e técnica dos EUA.

E é desta maneira também que os EUA infiltram inúmeros agentes secretos nestes países, como é o caso de Santore, que se faz passar por funcionário da AID, mas que é, de fato, um agente da CIA. E com isso, os EUA também passam a conhecer os outros países em detalhes: suas riquezas, suas fraquezas, suas principais lideranças políticas e empresariais.

Obs4: Para se perceber o quanto isso não mudou, basta verificar onde juízes, policiais e procuradores brasileiros vão fazer cursos: no Departamento de Justiça dos EUA, que comanda o FBI, que foi quem recrutou Dan Mitrione quando este era um simples policial de uma cidade do interior dos EUA.

Um jornalista (Carlos Ducas), bastante inteligente e acurado em suas observações, comenta que são os EUA que necessitam da ajuda dos demais países, por meio do consumo de produtos que são produzidos pelas multinacionais estadunidenses pelo mundo afora: cerveja, alimentos, pasta de dente, geladeiras, entre muitos outros. E é desta maneira os cidadãos do mundo contribuem para a manutenção dos EUA como o país mais rico do mundo.
A esposa de Santore toma conhecimento da realidade uruguaia, onde ela e a sua família terão uma vida privilegiada, sendo os representantes de um estilo de vida, de uma civilização (liderada pelos EUA, é claro).  
Obs5: Atualmente, não é apenas por meio da aquisição de produtos, mas também de serviços, de tecnologia, de dólares e de títulos públicos do governo dos EUA as maneiras pelas quais a população do mundo inteiro colabora para que os EUA continuem sendo o país mais rico e poderoso do mundo. Isso explica porque a prioridade número 1 da política externa dos EUA é abrir os mercados dos outros países para os produtos, serviços, tecnologia e investimentos das empresas estadunidenses. E isso também ajuda, e muito, a entender porque os EUA sempre promovem Golpes de Estado, processos de desestabilização e, se necessário, guerras sangrentas para derrubar governos que adotem políticas nacionalistas e reformistas, pois estas vão contra os interesses dos EUA. 

Obs6: O Golpe de 2016 no Brasil, por exemplo, ocorreu muito em função do fato de que o governo Lula estatizou o pré-sal (criando o Regime de Partilha, por meio do qual 75% da renda líquida do mesmo ficaria com o Estado brasileiro). Não demorou muito tempo para que o governo Temer, que foi rapidamente reconhecido pelo governo Obama, iniciasse a entrega do pré-sal para as petroleiras estrangeiras e iniciasse o desmonte da Petrobras (vendendo campos de petróleo do pré-sal, a rede de gasodutos da empresa e a Petrobras Distribuidora). Outros exemplos dessa política externa extremamente agressiva dos EUA são as Guerra no Iraque, na Ucrânia, na Líbia e na Síria.

No filme, vimos que os EUA entregaram 300 veículos para a Polícia uruguaia por meio da 'Aliança para o Progresso', o que levou a ampliar a presença dos EUA no país, e que Santore participou da cerimônia de entrega dos mesmos. E vemos que há um acordo entre a AID e a Polícia uruguaia para questões de 'trânsito, administrativas e de comunicações'. E é claro que isso é mera fachada para a penetração da CIA no país.
Dois integrantes do MLN-Tupamaros se preparam para ação que irá raptar Santore. Objetivo da organização é trocar o torturador da CIA por 150 prisioneiros políticos. 
Obs7: Aliás, algo semelhante ocorreu no Brasil, entre 1961-1964. Na época, o governo dos EUA recusou-se a oferecer qualquer ajuda econômica ao governo Jango, mas forneceu milhões de dólares em ajuda econômica para governos estaduais que faziam oposição ao governo nacionalista e reformista de João Goulart. Os governos mais beneficiados por tal política foram os de Minas Gerais (Magalhães Pinto), Guanabara (Carlos Lacerda) e São Paulo (Adhemar de Barros. Os três governadores participaram ativamente do Golpe que derrubou o governo democrático de Jango em 1964. Deve ter sido mera coincidência...

Durante o interrogatório a que é submetido pelos membros dos Tupamaros (nome que é originário de Tupac Amaru, líder indígena que se revoltou contra o domínio espanhol em 1780) no cativeiro, Santore se apresenta como um mero técnico e diz que a sua atuação não tem nada a ver com questões políticas dos países nos quais trabalha. Os jornais que forram as paredes contém notícias que mostram a intervenção de instituições controladas pelos EUA (OEA, BID) nos países latino-americanos.

Quando é interrogado, Santore faz de conta que não conhece as técnicas de tortura utilizadas pela CIA e que ele ensinou a centenas de militares e policiais latino-americanos. Ele diz que as torturas no Brasil eram 'casos isolados' (algo que nunca foram... elas foram institucionalizadas pela Ditadura Militar e dezenas de milhares de pessoas foram torturadas no país inteiro no período ditatorial). Neste momento vemos uma 'aula' de tortura sendo ministrada para militares, com o uso de prisioneiros políticos e comuns, o que efetivamente aconteceu.

Os membros dos Tupamaros leem várias notícias que falam do treinamento de policiais brasileiros pelos agentes dos EUA, citando uma do 'The New York Times' que diz que 100 mil policiais foram treinados pelos ianques e seus colegas no Brasil, sendo que outros 600 oficiais da Polícia brasileira foram treinados nos EUA. Mas Santore insiste em dizer que não tem nada a ver com isso.
Uma mulher que teve o seu carro roubado para a ação de rapto de Santore é levada, pelos guerrilheiros, até um lixão, a fim de tomar contato com a realidade de pobreza em que vive uma parte da população do país.  
E quando lhe é mostrada um pedaço de uma foto e é questionado se conhecia algumas pessoas que apareciam na mesma, Santore nega, mas quando a fotografia é mostrada na íntegra, vemos que ele estava ao lado daquelas pessoas em uma palestra. Esse foi o padrão de comportamento de Santore durante todo o interrogatório, mentindo e negando tudo, até que no final ele acaba se entregando, dizendo que está travando uma guerra e que todos os meios são válidos para vencer a mesma.

O Cônsul brasileiro, Fernando Campos, também é interrogado e faz um discurso cristão (ele é membro da TFP, organização católica extremamente reacionária) que condena o materialismo e defende o amor ao próximo, e o Tupamaro o ironiza, dizendo que eles tem quase que os mesmos objetivos.

Enquanto não consegue encontrar os dois sequestrados, a Polícia continua a promover inúmeras blitz, para ver se encontra algum integrante do grupo Tupamaros que possa conduzí-los até o local do cativeiro. Eles chegaram perto do local, mas não o encontraram.

Santore confirma que esteve em 'São Domingos' (ou seja, na República Dominicana) entre 1965 e 1967, período no qual os EUA invadiram o país a fim de garantir a manutenção no poder de um governo aliado e submisso aos seus interesses, mas nega o seu envolvimento em qualquer tipo de crime.
Os EUA entregaram 300 veículos para a Polícia uruguaia, por meio da 'Aliança para o Progresso'. É claro que essa 'ajuda' tem um preço, que é a submissão aos interesses dos EUA. 
Obs8: Em 1961 a CIA assassinou um dos mais brutais ditadores da história da América Latina, que foi Rafael Trujillo, um antigo aliado dos EUA, mas cujas políticas (corruptas, criminosas e sanguinárias) levaram o governo estadunidense a temer que levasse ao estouro de uma Revolução no país, tal como já havia acontecido em Cuba em 1959. Depois, em 1963, tivemos eleições democráticas no país, que foram vencidas por um candidato esquerdista, o escritor Juan Bosch. Seu governo durou poucos meses, pois ocorreu um Golpe de Estado que o tirou do poder. Uma tentativa de Contra-Golpe ocorreu tempos depois e jogou o país numa guerra civil. Daí, em 1965, 40 mil militares (a imensa maioria dos EUA) invadiram o país e massacraram as forças progressistas dominicanas.

Obs9: Na época, década de 1960/70, os EUA estavam totalmente dispostos a impedir que surgisse uma 'nova Cuba' nas Américas. Temendo que a influência da Revolução Cubana se espalhasse pela América Latina, os EUA iniciaram inúmeros programas de infiltração de milhares de agentes secretos nos países da região, seja por meio de acordos oficiais, seja ilegalmente.

No Parlamento, um deputado oposicionista de Esquerda (Fabbri) denuncia a verdadeira invasão que os EUA promovem no Uruguai e na América Latina por meio da AID, Corpos de Paz, Aliança para o Progresso, FMI, BID, entre outras organizações, enviando milhares de especialistas, conselheiros, técnicos para todos os países da região.

Com isso, os EUA irão formar, na América Latina, uma elite técnica e intelectual (economistas, por exemplo) que irá reproduzir e defender as ideias e os interesses dos EUA. E é claro que muitos destes 'técnicos' são agentes secretos disfarçados, tal como Santore/Mitrione, que também irão formar militares e policiais especializados em torturas.

Fabbri denuncia a presença dos EUA na Polícia uruguaia desde 62, ou seja, logo depois da Revolução Cubana ter se consolidado, adquirindo um caráter Socialista.
Santore é interrogado pelos guerrilheiros dos Tupamaros, no cativeiro. Ele negou, o tempo inteiro, sua participação na disseminação de sofisticadas técnicas de tortura pela América Latina, mas no final acabou sendo desmascarado e disse que isso era necessário, a fim de combater os 'comunistas e subversivos'.  
Obs10: No livro 'A Doutrina do Choque', Naomi Klein mostra como o Departamento de Economia da Universidade de Chicago, defensora intransigente das ideias neoliberais de Hayek e Friedman, formou dezenas de estudantes chilenos e, depois, os enviou de volta para o Chile, para lecionar e formar novos economistas neoliberais, a fim de que eles pudessem influenciar os debates econômicos e sociais no país. Tais economistas elaboraram o plano econômico que foi implantado no Chile durante a Ditadura de Pinochet. Tal plano já estava pronto e detalhado, possuindo mais de 500 páginas (e por isso foi chamado de 'O Tijolo'), quando Pinochet assumiu o poder no Chile, após derrubar o governo de Allende de forma covarde, traiçoeira e sangrenta, num Golpe de Estado que foi planejado, organizado, financiado e realizado graças a participação da CIA e de grandes multinacionais dos EUA (caso da ITT).

Fabbri diz que em 1966 a presença dos EUA na Polícia do Uruguai torna-se oficial, com a chegada de um Tenente-Coronel das Forças Especiais, Robert Bain, que passa a trabalhar com um policial local (Baldez) que costuma frequentar a embaixada dos EUA.

E Fabbri diz que obteve essa informação porque não escolheu ser distraído, tal como ocorre com os políticos direitistas do Parlamento uruguaio. Fabbri diz que os Tupamaros (de cujos métodos de luta ele discorda) representam uma força revolucionária que se opõem à exploração dos trabalhadores e ao domínio dos EUA sobre o Uruguai e o seu povo. Fabbri também afirma que Santore substituiu Bain, pois este não havia feito um bom trabalho,
Militares assistem a aula de tortura ministrada pelos agentes secretos da CIA e por militares que foram ensinados pelo serviço secreto dos EUA.
No cativeiro, Santore vai sendo progressivamente desmascarado, revelando-se que ele sempre esteve em contato permanente com os chefes da Polícia uruguaia, sendo que estes foram treinados e doutrinados pela 'IAP' (Academia Internacional de Polícia dos EUA), que também fizeram o mesmo treinamento com inúmeros outros policiais de toda a América Latina.

No diálogo entre o líder dos Tupamaros e Santore, há uma parte muito interessante, quando Santore pergunta o que ele teria a ganhar pessoalmente ao colaborar para manter uma sociedade capitalista, que se baseia na exploração dos trabalhadores, o que é aceito por ele como algo normal. E o líder Tupamaro respondeu "A ilusão de ser você também um patrão e não o que és, ou seja, um criado". Santore fica em silêncio.

Obs11: Essa ilusão de querer ser também um patrão, um burguês, é o que faz grande parte da classe média brasileira e, também, latino-americana, ter uma participação significativa no apoio a Golpes de Estado e Ditaduras Militares que reprimem brutalmente os movimentos sociais, que foi exatamente o que as Ditaduras latino-americanas fizeram nos anos 1960/80. A classe média entende que faz parte de um segmento privilegiado da sociedade, mas isso somente é possível enquanto existirem milhões de trabalhadores pobres e miseráveis com os quais ela possa se comparar e que ela, também, possa explorar uma parte dos mesmos (como empregados domésticos ou funcionários de pequenas empresas  - lojas, terras, fábricas, oficinas - das quais ela é proprietária). Assim, como essa classe média é proprietária e explora força de trabalho ela se vê como estando muito mais próxima dos capitalistas do que dos trabalhadores assalariados. 

Em uma das melhores cenas do filme, vemos os alto-falantes da Universidade tocar uma música em homenagem a Che Guevara. Os policiais ficam desesperados para desligar os mesmos, mas quando eles fazem isso com um alto-falante, outro continua a tocar a mesma música. Enquanto isso, as batidas policiais e blitzes continuam por toda a cidade, a fim de se encontrar o cativeiro.
Fabbri é um deputado de Esquerda que denuncia a infiltração que os EUA promovem na América Latina por meio de várias organizações: FMI, BID, Corpos de Paz, Aliança para o Progresso, AID, CIA. 
No Parlamento, uma deputada lê um relatório que foi elaborado por uma comissão formada por representantes de todos os partidos e, no mesmo, temos a denuncia de que a tortura se tornou um sistema frequente, habitual, sendo que elas são utilizadas mesmo contra pessoas inocentes, que não sofreram nenhuma condenação judicial. 

E chega-se à conclusão de que as vítimas principais destas torturas são os estudantes e os dirigentes sindicais. E tudo isso acontece sem o reconhecimento do governo, que tenta esconder o fato de que existem organizações paralelas atuando no país, ou seja, os 'Esquadrões da Morte'.

Obs12: Os estudantes e os sindicalistas eram muito visados porque boa parte dos membros do grupo Tupamaros vinham destes dois segmentos da sociedade. Então, a perseguição que eles sofriam era uma maneira de tentar conter essa participação destes setores sociais no MLN-Tupamaros. 

E finalmente Santore é obrigado a reconhecer que o programa dos cursos ministrados aos policiais uruguaios são ligados a movimentos revolucionários (como as de Cuba, Argélia, Vietnã) bem como a questões políticas e sociais (greves, manifestações). Estes cursos também tratam de ensinar técnicas a respeito do uso de explosivos e cujos treinamentos são realizados no Texas.

Tais militares, treinados nos EUA, irão cometer inúmeros atentados terroristas e começarão a matar militantes de Esquerda por toda a América Latina, fazendo tudo isso com a garantia da proteção policial. Também ocorrem execuções a sangue-frio de militantes esquerdistas rendidos. São os 'Esquadrões da Morte' em ação.
O corpo de Santore, que foi morto pelos Tupamaros, é levado para o avião que o conduzirá aos EUA. 
Santore justifica tudo isso, atribuindo aos comunistas e subversivos o desejo de 'destruir a civilização cristã e o mundo livre' e que é necessário combatê-los por todos os meios. Logo, ele assume o seu papel nesta 'guerra'. 

E os Tupamaros denunciam, em mais um comunicado à população, a sangrenta Ditadura Militar brasileira e a criação (por Santore) de grupos paramilitares que atuam sob proteção policial e que promovem atividades como espionagem, assassinatos políticos e torturas.

Tudo isso acontece enquanto uma crise política ameaça derrubar o Presidente da República, caso o Parlamento do país se recuse a aceitar a troca do cônsul brasileiro e de Santore pela libertação de 150 prisioneiros políticos. 

Uma cena das mais interessantes do filme é quando vemos ministros, militares, industriais e banqueiros indo para uma reunião que irá decidir o que será feito. E fica claro que a elite política e econômica uruguaia é formada apenas por grandes capitalistas que são intimamente ligados à economia dos EUA.

A Polícia consegue prender grande parte das lideranças dos Tupamaros, ficando claro para os sequestradores que o governo não irá libertar nenhum prisioneiro político. E os líderes do movimento Tupamaros decidem que Santore deve ser executado, o que acabará sendo feito. E chega um novo representante do governo dos EUA, que continuará fazendo o mesmo trabalho sujo de Santore, enquanto é observado por membros do movimento Tupamaros.

Fim.
Um novo agente (de cabelos brancos) é enviado pelos EUA para substituir Santore... 
Informações Adicionais!

Título: Etat de Siege (Estado de Sítio);
Diretor: Costa-Gavras;
Roteiro: Franco Solinas;
Gênero: Drama Político;
Ano de Produção: 1972; 
Países de Produção: França, Itália e Alemanha;
Duração: 115 minutos;
Música: Mikis Theodorakis;
Fotografia: Pierre-William Glenn;
Elenco: Yves Montand (Philip Michael Santore); Renato Salvatori (Capitão Lopez); Jacques Weber (Hugo); O.E.Hasse (Carlos Ducas, jornalista); Rafael Benavente (Cônsul brasileiro); Harald Wolff (ministro das Relações Exteriores); Maurice Teynac (Ministro do Interior); Nemesio Antúnez (Presidente da República); Douglas Harris (Diretor da A.I.D.); Jerry Brouer (Anthony Lee); André Falcon (deputado Fabbri); Evangeline Peterson (esposa de Santore); Robert Holmes (Núncio Apostólico); Alejandro Sieveking (Enrique Macchi).
Prêmio: Vencedor do Prêmio Louis Delluc de 1972.

Links:

Os Tupamaros, Dan Mitrione e o sequestro do Cônsul brasileiro no Uruguai:


Naomi Klein e seu livro 'A Doutrina do Choque':


Os Tupamaros e a Ditadura Militar no Uruguai:


Costa-Gavras e as filmagens de 'Estado de Sítio' no Chile


Dan Mitrione: O Mestre da Tortura da CIA:


Kubark: Os métodos de tortura sofisticados que a CIA desenvolveu e usa no mundo todo:



Trailer do Filme:

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

‘La Guerre Est Finie’ (A Guerra Acabou), de Alain Resnais, mostra o fim dos sonhos dos espanhóis que lutaram contra Franco na Guerra Civil! – Marcos Doniseti!

‘La Guerre Est Finie’ (A Guerra Acabou), de Alain Resnais, mostra o fim do sonho dos espanhóis que lutaram contra Franco na Guerra Civil! – Marcos Doniseti! 
'La Guerre Est Finie' (1966) é um ótimo filme do cineasta francês Alain Resnais e que mostra o desencanto dos refugiados comunistas espanhóis que, exilados na França, tentam continuar a luta contra a Ditadura de Francisco Franco, mas em condições bastante desfavoráveis. 
O Contexto Histórico!

Atualmente, estou lendo um livro do historiador britânico Tony Judt a respeito da história da Europa no Pós-Guerra ("Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945"). E em uma determinada parte do livro (página 525), Judt comenta a respeito da situação política da Espanha nas décadas de 1960/70, no qual ele cita este filme de Resnais como um exemplo de que, para as novas gerações de espanhóis, a Guerra Civil era algo muito distante de suas vidas e que tal acontecimento, mesmo sendo importante historicamente, pertencia ao passado. 

Instigado pelos comentários de Tony Judt, me interessei em assistir a este filme de Alain Resnais. E tal como diz o historiador britânico, o filme do cineasta francês deixa claro que os sonhos dos comunistas e veteranos da Guerra Civil (1936-1939) de promover um levante revolucionário na Espanha, na década de 1960, com o objetivo de derrubar a Ditadura de Franco, não passavam de ilusões. 

De fato, é esta a triste e melancólica mensagem que este belo filme de Resnais transmite, ou seja, a de que a Ditadura de Franco, naquele momento em que o filme foi produzido (1966), estava fortemente consolidada e que era literalmente impossível derrubar a mesma por meio de uma insurreição revolucionária, tal como sonhavam os comunistas espanhóis, pois não existiam as condições necessárias para que isso fosse levado adiante. 

E neste caso pode-se dizer que o filme de Resnais sabia muito bem a ideia que estava transmitindo às pessoas em seu filme, pois o roteiro do mesmo foi escrito pelo escritor (político, roteirista) e ex-dirigente do PCE (Partido Comunista Espanhol) Jorge Semprún. 
Matéria de jornal sobre o filme 'La Guerre Est Finie', de Alain Resnais. 
Semprún foi um militante político espanhol que atuou na Resistência Francesa, que lutou contra o domínio nazista na França, e que se tornou um importante dirigente do Partido Comunista Espanhol, ao qual se filiou em 1942. Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, Semprún foi preso e levado para o campo de concentração de Buchenwald. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, Semprún atuou no PCE, de forma clandestina, devido à forte repressão promovida pela Ditadura de Franco contra toda e qualquer oposição, chegando a se tornar um membro do Comitê Central do partido. 

Nesta condição, Semprún e outros líderes e dirigentes do PCE alimentaram, durante muito tempo, a ilusão de que seria possível mobilizar e organizar o povo espanhol para que o mesmo promovesse uma Revolução que derrubaria a Ditadura franquista. 

E o filme de Alain Resnais mostra o processo de desmoronamento desta ilusão, que durou muito tempo, pois a Guerra Civil espanhola havia terminado no distante ano de 1939. 

É bom ressaltar que a Guerra Civil Espanhola foi, segundo o historiador britânico marxista Eric Hobsbawm, um conflito que uniu as forças liberais-democráticas da opinião pública do Ocidente com as diferentes forças de Esquerda (stalinistas, anarquistas, trotskistas, sindicalistas revolucionários) em uma luta internacionalista contra as forças do Nazi-Fascismo que apoiaram ostensivamente as forças reacionárias do general Franco. Até nos EUA, as forças do governo esquerdista republicano espanhol tinham o apoio de 87% da população. 
Guernica: A pequena cidade (de 5 mil habitantes) do norte da Espanha (País Basco) foi reduzida a escombros pelos aviões da Legião Condor, formada por aviões da Alemanha Nazista e da Itália Fascista. Os regimes de Hitler e Mussolini inauguraram, assim, a prática de bombardear a população civil e não mais apenas alvos militares. Mas durante a Segunda Guerra Mundial os dois países provariam do próprio veneno.  
De acordo com Hobsbawm, a história da Guerra Civil Espanhola acabou sendo escrita pelos vencidos, devido à maciça mobilização internacional que ocorreu por parte de escritores, artistas e intelectuais, e não pelo vencedor, Francisco Franco e os regimes nazi-fascistas que o apoiaram. 

Isso aconteceu porque, no final, o Nazi-Fascismo acabou sendo derrotado fragorosamente na Segunda Guerra Mundial. Com isso, o regime franquista fez com que a Espanha ficasse isolada da comunidade internacional por quase uma década após o final do conflito.

Somente com o desenvolvimento da Guerra Fria é que a Ditadura de Franco acabou se integrando ao mundo Capitalista Ocidental e tornou-se uma aliada dos EUA (o mesmo aconteceu com a Ditadura de Salazar, em Portugal) e uma inimiga da URSS e do chamado 'Bloco Socialista'. 

Aliás, o mesmo aconteceu na América Latina, onde os EUA foram decisivos na instalação e apoio a uma série interminável de sangrentas, corruptas e criminosas Ditaduras Militares em toda a região (Argentina, Brasil, Haiti, Nicarágua, Honduras, Chile, Uruguai, Paraguai, etc). 
Marianne e Diego: Ela deseja ter uma vida convencional com ele, casando e tendo filhos com o mesmo, pedindo que Diego abandone a vida clandestina como dirigente do PCE. Mas o veterano revolucionário resiste a abandonar a luta. 
O filme de Resnais mostra que, apesar da derrota na Guerra Civil (1936-1939), os comunistas espanhóis mantiveram, por muito tempo, a esperança de que ainda seria possível derrubar a Ditadura franquista por meio de um processo revolucionário, mas que estas ilusões já não existiam mais após 30 anos do início do conflito e 27 anos depois da ascensão de Franco ao poder (que ocorreu em 1939, após vencer a Guerra Civil, graças ao decisivo apoio dos governos de Hitler, Mussolini e Salazar. 

Somando as três Ditaduras (Hitler, Mussolini e Salazar), elas enviaram cerca de 110 mil soldados para lutar ao lado das forças franquistas na Guerra Civil Espanhola. 

A trama do filme!

A trama do filme, no qual temos alguns trechos que são narrados pelo próprio Semprún, gira em torno de um dirigente do PCE, Diego Mora (interpretado por Yves Montand), que vive transitando entre as fronteiras da Espanha e da França, levando informações a respeito da situação política espanhola para os dirigentes do PCE que estão exilados na França, bem como passando orientações destes líderes para os militantes que permaneceram na Espanha. 

Na sua mais recente viagem para a Espanha, Diego descobre a respeito da prisão de vários dos mais importantes militantes do PCE e toma a decisão de retornar para a França, mesmo sem a autorização dos dirigentes exilados no país, a fim de avisar um dos líderes do partido (Juan) para que o mesmo não vá para a Espanha, pois a chance dele vir a ser preso é muito grande. 

Afinal, é claro que os militantes presos há poucos dias serão brutalmente torturados para que entreguem companheiros e passem informações aos policiais espanhóis sobre os grupos de resistentes. 
Diego e Nadine: A jovem revolucionária por quem ele sentiu uma forte atração e que representa uma vida diferente e uma estratégia de luta política distinta da que ele tem com Marianne e que adota com o PCE. No fim, Diego terá que escolher com qual delas ele irá ficar e qual estratégia revolucionária que ele irá seguir. 
E o próprio Diego passa por dificuldades para retornar para a França, pois ele e seu companheiro de viagem, são parados na fronteira pelos policiais franceses, que desejam obter informações a respeito de Diego, que viaja com um passaporte falso, que pertence a um espanhol (Sallanches) que faz parte da rede de exilados espanhóis. Ele é salvo de maiores complicações por Nadine, filha de Sallanches, que confirma as informações que ele precisava obter a fim de não ser preso. 

Enquanto Diego viaja de volta para a Espanha, temos também uma narração na qual ele conta a respeito das prisões que ocorreram durante a sua estadia em sua terra natal. Ele fica cada vez mais preocupado, angustiado e desiludido com as sucessivas prisões dos militantes comunistas, pois se dá conta de que a análise que os dirigentes do PCE (exilados na França) fazem a respeito da situação política e social da Espanha está totalmente equivocada. 

Diego percebe que a Espanha não está, como pensam os dirigentes exilados do PCE, próxima de passar por uma greve geral que irá desembocar em um levante revolucionário e que irá mobilizar os trabalhadores, as massas proletárias, resultando na queda da Ditadura franquista. 

Diego percebe que, de fato, o cenário é totalmente diferente e que a Ditadura de Franco está mais forte do que nunca. 
Roberto e Diego são dois dirigentes do PCE exilados na França e que sonham, e lutam, por uma Revolução que possa derrubar a Ditadura de Franco. Mas o cenário mundial é totalmente diferente da época heroica da Guerra Civil Espanhola, pois a Ditadura de Franco tem apoio dos EUA para se manter no poder e a Espanha recebia (em 1965) 14 milhões de turistas anualmente, que deixavam recursos no país que eram fundamentais para manter sólida a economia espanhola e a Ditadura de Franco. 
Diego fala que a Guerra Civil se transformou numa espécie de Mito ao qual os antigos combatentes comunistas se agarram a fim de manter a suas ilusões revolucionárias, mas que não isso não tem mais base alguma na realidade espanhola da época. Ele chega a dizer que enquanto os dirigentes do PCE estão pensando em Revolução, a Espanha recebe 14 milhões de turistas por ano. Assim, ele percebe que a Ditadura franquista consegue se manter economicamente sólida e que realidade internacional da época é totalmente contrária aos planos dos comunistas espanhóis.

Obs1: Esta visão de Diego é bem mais realista do que a dos demais dirigentes do PCE. A Espanha de Franco, mesmo sendo uma Ditadura, conseguiu quebrar o isolamento em que se encontrava ao final da Segunda Guerra Mundial, aliando-se ao mundo Capitalista liderado pelos EUA, com o qual o governo da Espanha assinou uma série de acordos militares, passando a integrar o sistema de Defesa ocidental. E a Espanha somente não entrou para a OTAN, na época de vigência do Franquismo, porque os outros países europeus vetaram a sua adesão, devido ao fato dela ser uma Ditadura. Assim, a Espanha, como Diego percebeu, não estava mais isolada no cenário internacional, muito pelo contrário. Logo, qualquer tentativa de se promover uma revolução socialista no país acabaria desembocando, muito provavelmente, em algum tipo de intervenção militar direta da OTAN (em favor de Franco, é claro) ou então esta forneceria significativa ajuda militar ao governo de Franco para que o mesmo pudesse derrotar tal tentativa de Revolução.  

Retornando para a França, Diego voltará a ver a sua amante (Marianne), com a qual ele não se encontrava já há seis meses. Ela é uma mulher madura, uma tradutora bem estabelecida em sua profissão, e deseja que ele abandone aquela vida de revolucionário profissional, que exige que ele faça constantes viagens para a Espanha, falando que deseja se casar e que também quer ter um filho com Diego.
Diego discute a situação política da Espanha com os dirigentes exilados do PCE. Enquanto estes ainda acreditam no triunfo de uma Greve Geral Revolucionária na Espanha, Diego percebe que 'A Guerra Acabou' e que a Ditadura de Franco está consolidada, contando com sólido apoio internacional (dos EUA, em especial). 
Mas quando volta para a França, Diego vai se encontrar com Nadine Sallanches, que foi a responsável por evitar a sua prisão quando retornava da Espanha, fazendo-se passar por filha dele. E quando eles se encontram, surge uma forte atração entre ambos. Diferente de Marianne, Nadine se encanta ao saber que ele é um 'revolucionário profissional', enquanto ele sente-se atraído pelo espírito mais libertário da bonita jovem. E com isso eles acabam tendo uma noite de amor...

No filme, Resnais deixa, assim, bem claro o contraste entre as duas vidas que Diego poderá vir a seguir: um relacionamento conservador e convencional, com Mariane, ou mais libertário e ousado, com Nadine. 

Aliás, Nadine também faz parte de um grupo esquerdista, que se diz leninista, e que critica a estratégia adotada pelo PCE, defendendo uma postura mais ousada e combativa na luta contra a Ditadura franquista. Eles não querem simplesmente promover Greves Gerais revolucionárias, que é a estratégia (mais tradicional) do PCE, mas partir para uma ação revolucionária imediata, leninista-bolchevique, promovendo-se atentados terroristas, para poder derrubar a ditadura de Franco.

Aliás, a estratégia defendida por esse pequeno 'Grupo Leninista de Ação Revolucionária' é o de promover atentados terroristas que afastem os turistas da Espanha, pois eles percebem, tal como o próprio Diego, que os recursos gastos pelos turistas são fundamentais para que a Ditadura de Franco e a economia espanhola se mantenham fortes. 
Francisco Franco, de bigode, e Adolf Hitler, se cumprimentam. O apoio do ditador nazista, bem como de Mussolini, foi fundamental para a vitória do general espanhol na Guerra Civil (1936-1939). Em retribuição, Franco criou uma 'Divisão Azul', formada por 'voluntários espanhóis', que lutou ao lado dos Nazistas na guerra contra a URSS. 
Porém, embora pense de maneira semelhante aos integrantes do grupo leninista, Diego não se sente nenhum pouco atraído pelo uso do terrorismo como método de luta, até porque tal prática acaba afastando o apoio popular à qualquer tentativa de se derrubar o governo, mesmo que este seja uma Ditadura, como era o caso da Espanha de Franco. 

Assim, da mesma forma que Diego se divide entre duas mulheres (a conservadora Marianne e a ousada Nadine), ele também se divide entre duas estratégias de luta política e social, ambas pretensamente revolucionárias (a do PCE e a do Grupo de Ação Revolucionária).   

Quando um policial foi interrogar Nadine, por que foi para ela que Diego telefonou quando ficou retido na fronteira entre França e Espanha, o mesmo disse que a Polícia tinha conhecimento pleno do fato de que não era apenas contrabando que passava pela fronteira, mas também ativistas políticos clandestinos. E ele completa dizendo que nem sempre a Polícia prende tais militantes políticos porque, no futuro, eles poderão estar no Governo, ocupando cargo de ministros.

Obs2: Este diálogo do Policial com Nadine se confirmou quando, entre 1988 e 1991, Jorge Semprún ocupou o cargo de Ministro da Cultura do governo de Felipe González (do PSOE, cujos integrantes lutaram na Guerra Civil Espanhola contra Franco). 
A jovem bela Geneviève Bujold interpreta Nadine, que representa uma mudança radical na forma de viver e de lutar de Diego. Mas este irá preferir o caminho tradicional, que ele conhece melhor e no qual já se encontra há muito tempo.  
Quando ele volta para a França e se reúne com os dirigentes do PCE, estes percebem, pela análise que Diego faz da realidade espanhola, que o mesmo não acredita mais na ideia de que é possível desencadear um processo revolucionário na Espanha. E em função disso, tais dirigentes determinam que Ramon irá para a Espanha, clandestinamente, no lugar de Diego. Mas a morte de Ramon faz com que Diego tenha que ir em seu lugar. E Marianne acaba, desta vez, por ir junto com ele.

Aliás, enquanto Marianne o estimula a continuar a sua luta, usando a mesma estratégia de sempre, dizendo que a Greve Geral irá triunfar, dispondo-se a ir viver com ele na Espanha, Nadine sente-se atraída pelos métodos de ação direta, violentos, do 'Grupo Leninista de Ação Revolucionária' do qual ela faz parte.

Portanto, para Diego, fica claro que a escolha por uma das mulheres implicará, também, na opção por uma das estratégias de luta.

Assim, Diego acaba por abandonar a jovem e liberal Nadine, optando por ficar com Marianne, dando continuidade à mesma forma de luta à qual ele conhece muito bem e a qual já está habituado. 

Uma das cenas mais bonitas do filme é justamente quando Nadine vai atrás de Diego, após este encerrar a discussão com os jovens revolucionários leninistas, e lhe pergunta se ele irá voltar desta viagem para a Espanha e ele, em silêncio, deixa claro que, desta vez, esta será uma viagem sem volta. Diego fez a sua escolha. 

Diego, mesmo não acreditando mais na ideia de que a Revolução esteja prestes a triunfar na Espanha, acabou decidindo continuar a luta em seu país natal, mesmo que o resultado da mesma seja a derrota ou a sua morte. 

Afinal, em muitos momentos históricos, o mais importante não é vencer ou perder, mas lutar, a fim de não permitir que a chama se apague.
O cineasta Alain Resnais, Geneviève Bujold e Yves Montand na época das filmagens de 'La Guerre Est Finie'. 

Informações Adicionais!

Título: La Guerre Est Finie (A Guerra Acabou);
Diretor: Alain Resnais;
Roteiro: Jorge Semprún;
Duração: 116 minutos;
Ano de Produção: 1966; Países de Produção: França e Suécia;
Elenco: Yves Montand (Diego Mora); Ingrid Thulin (Marianne); Geneviève Bujold (Nadine Sallanches); Jean-François Rémi (Juan); Paul Crauchet (Roberto); Anouk Ferjac (Marie Jude); Dominique Rozan (Jude); Michel Piccoli (Inspetor da Aduana): Marie Mergey (Madame Lopez); Roland Monod (Antoine); Gérard Lartigau (Líder do Grupo de Ação Revolucionária); Jean Bouise (Ramon); Annie Fargue (Agnès); Jacques Rispal (Manolo); Sissi Kaiser (Lola). 
Música: Giovanni Fusco.
Prêmio: Melhor Filme do Sindicato dos Críticos de Cinema da França (1967). 

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0060481/?ref_=fn_al_tt_1

Jorge Semprún:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Sempr%C3%BAn

Campo de concentração de Buchenwald:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Buchenwald


Felipe González (PSOE) venceu as eleições para o Parlamento espanhol em 28/10/1982 com 46% dos votos, conquistando a maioria absoluta dos deputados (201 em um total de 350). Felipe González governou por 14 anos consecutivos, até 1996. Em seu governo a Espanha entrou para a OTAN e para a União Europeia e passou por um rápido processo de crescimento e de modernização econômica. E nunca mais a Espanha se tornou uma Ditadura... 
Eric Hobsbawm e a Guerra Civil Espanhola:

http://www.sinpermiso.info/textos/memoria-de-la-guerra-civil-espaola

O bombardeio sobre Guernica: