sábado, 15 de abril de 2017

'Milagre em Milão': De Sica mostra o esgotamento da proposta original do Neo-Realismo e o triunfo do Liberalismo burguês na Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti!

'Milagre em Milão': De Sica mostra o esgotamento da proposta original do Neo-Realismo e o triunfo do Liberalismo burguês na Itália do Pós-Guerra! – Marcos Doniseti! 
'Miracolo a Milano', de Vittorio De Sica, mostra que os valores burgueses passaram a predominar na Itália do Pós-Guerra. 
As origens do Neo-Realismo Cinematográfico Italiano!

O diretor deste ‘Milagre em Milão’, Vittorio De Sica, foi um dos criadores do Neo-Realismo italiano e junto com Roberto Rossellini e Luchino Visconti ele foi integrante de uma espécie de ‘Santíssima Trindade’ deste que foi um dos mais importantes e influentes ‘movimentos’ cinematográficos da história. 

Obs1: O roteirista Cesare Zavattini também é considerado uma das figuras centrais do Neo-Realismo, sendo o seu mais importante teórico.

O ponto de partida do Neo-Realismo foi o filme ‘Ossessione’ (que já foi comentado aqui no blog), uma produção de 1943, ou seja, ele foi realizado já nos estertores do regime Fascista de Mussolini, que foi derrubado em Julho de 1943, quando os Aliados (EUA e Grã-Bretanha) iniciaram a invasão da Itália. 

‘Ossessione’ foi dirigido por Luchino Visconti e se baseou em uma romance policial ‘Noir’ de autoria de James M. Cain (O Destino Bate à Sua Porta), embora isso não tenha sido informado pelo cineasta italiano, temeroso de ser censurado pelo regime fascista. 

Afinal, o romance de Cain era um retrato duro e pessimista da sociedade estadunidense da época da Grande Depressão e mostrava que a ascensão social não era possível naquele momento, a não ser por meio de atividades criminosas. 
Totó foi encontrado à beira de um rio, em meio à uma plantação de couves. Será que ele é um 'Moisés' moderno que levará os deserdados para a Terra Prometida? 
Inclusive, quando Vittorio Mussolini, o filho mais velho do Duce que era um entusiasta e apaixonado pelo Cinema, assistiu ‘Ossessione’ ele disse ‘Esta não é a Itália’, pois o filme mostrava um retrato muito realista da pobreza e do atraso da sociedade italiana do período. 

Em ‘Ossessione’, as mulheres italianas também foram retratadas de forma totalmente diferente da versão idealizada pelo Fascismo. No filme de Visconti elas tomavam a iniciativa, possuíam amantes, praticavam a prostituição, participavam de crimes e enfrentavam os homens sem medo algum e de forma pública. 

Nos anos seguintes à produção de ‘Ossessione’ tivemos a realização de uma série de filmes Neo-Realistas, que se tornaram verdadeiros clássicos do Cinema italiano e mundial, tais como ‘Roma, Cidade Aberta’ e ‘Alemanha, Ano Zero’ (ambos de Roberto Rossellini), ‘Ladrões de Bicicleta’ e ‘Vítimas da Tormenta’ (de Vittorio de Sica), ‘A Terra Treme’ (Luchino Visconti), ‘O Caminho da Esperança’ (Pietro Germi) e ‘Arroz Amargo’ (Giuseppe De Santis). 

É bom ressaltar que o Neo-Realismo se desenvolveu devido à existência de um ambiente político e social altamente favorável, quando a Itália possuía um governo de ‘União Nacional’. 
Totó, logo depois de ter saído do orfanato, onde ficou por vários anos, após a morte de Lolotta. 
Este era formado pelos representantes dos vários segmentos políticos e sociais que lutaram contra o Nazi-Fascismo (liberais, conservadores, democrata-cristãos, socialistas, comunistas). 

Neste momento, existiam muitas esperanças de que a Itália pudesse caminhar na direção de algum tipo de Socialismo, pois os partidos Socialista e Comunista, somados, conquistaram 40% dos votos na primeira eleição democrática que foi realizada no país, em 1946. 

Com isso, os cineastas do país desfrutaram de ampla liberdade criativa e puderam mostrar, em seus filmes, a realidade de pobreza, miséria, fome, exploração, desemprego, criminalidade e desigualdades sociais que caracterizavam a Itália do imediato Pós-Guerra.

Mas a partir de 1948 o cenário político e cultural europeu e italiano passou por grandes mudanças, que representaram um claro retrocesso em relação à situação imediatamente anterior, pois tivemos o início da Guerra Fria entre EUA e URSS. 
Desta maneira, os governos de ‘União Nacional’ que existiam em vários países (Itália, França, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia) chegaram ao fim. 
A comunidade que os sem teto construíram em um terreno abandonado da periferia de Milão.
Nos países do Leste Europeu tivemos a subida ao poder de governantes ligados aos interesses da URSS stalinista, enquanto que no Ocidente tivemos a ascensão de governos conservadores e direitistas, inteiramente comprometidos com os interesses dos EUA. Isso resultou na divisão da Europa no Pós-Guerra em dois blocos: Capitalista, liderado pelos EUA; Socialista, liderado pela URSS.

Tal fenômeno aconteceu mesmo que na França os Socialistas e Comunistas somassem, juntos, mais de 50% dos votos e na Itália esse percentual dos dois partidos chegasse a 40%. 

No entanto, em 1948, na Itália, uma nova eleição deu ao PDC (Partido Democrata-Cristão) uma grande votação (48,5%), obtida graças ao apoio maciço da Igreja Católica, da Máfia, da Burguesia italiana (industriais, banqueiros, latifundiários) e do governo dos EUA (incluindo a CIA, que injetou milhões de dólares na campanha da PDC).

E o novo governo conservador do PDC passou a criticar e a censurar os filmes Neo-Realistas, afirmando que os mesmos mostravam uma imagem muito negativa da Itália. Inclusive, censores a serviço da Igreja Católica passaram a controlar a produção cinematográfica italiana, desestimulando a produção de filmes Neo-Realistas.
Totó tenta ensinar algo para a miserável população da comunidade, que os sem teto criaram, até mesmo na hora de dar nome às 'ruas'.
Para o governo do PDC os filmes Neo-Realistas eram obra de cineastas ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), o que é apenas parcialmente verdadeiro. Afinal, vários diretores ligados ao Neo-Realismo nunca tiveram qualquer conexão com os Comunistas italianos (casos de Roberto Rossellini e de Pietro Germi). 

Até mesmo o clássico ‘Ladrões de Bicicleta’ chegou a ter o seu visto de exportação negado pelo conservador governo italiano. Mesmo assim ele chegou a fazer muito sucesso no exterior e conquistou o Oscar de Melhor Filme estrangeiro em 1951. 

Para tirar espaço dos filmes Neo-Realistas, o governo do PDC também estimulou a importação de filmes de Hollywood, que mostravam uma visão idealizada da realidade, e não exigia que um percentual mínimo de filmes italianos fosse exibido nas salas comerciais, tal como determinava a lei da época.

É neste contexto que os cineastas ligados ao Neo-Realismo passaram a realizar filmes com um teor de crítica social mais ameno, passando a se utilizar do humor, da comédia, ou explorando a beleza física de atrizes como Silvana Mangano (‘Arroz Amargo’) e Lucia Bosé ‘(Páscoa de Sangue) em suas produções. Estes dois filmes, aliás, foram dirigidos por Giuseppe De Santis, um dos criadores do Neo-Realismo. 
Totó organiza a vida da população na comunidade dos sem teto. 
Essa nova postura dos cineastas Neo-Realistas deu origem ao que se convencionou chamar de ‘Neo-Realismo Rosa’, que gerou filmes que combinavam a comédia com uma crítica social mais amena. Um ótimo exemplo disso é ‘Le Ragazze di Piazza di Spagna’, de Luciano Emmer (que já foi comentado aqui no blog).

A trama do filme!

E até mesmo cineastas como Vittorio De Sica passaram a fazer isso, o que se comprova por este ótimo ‘Milagre em Milão’. A história do filme gira em torno de um conflito envolvendo a posse de uma propriedade na periferia de Milão, na qual se descobriu água e petróleo. 

A propriedade havia sido ocupada por algumas centenas de miseráveis sem teto que são liderados por um jovem bom e ingênuo chamado Totó. 

Este gostava de dar ‘Bom Dia’ para cumprimentar a todos, incluindo pessoas que ele não conhecia, sendo que era considerado um ‘retardado’ em função disso.

Totó havia sido encontrado, ainda bebê, por uma mulher idosa em meio a sua plantação de couve (qualquer referência a Moisés não é mera coincidência). Ela cuidou dele, que se tornou uma criança amável, mas morreu quando ele ainda era muito novo. Com isso, Totó foi levado a um orfanato, de onde saiu quando completou 18 anos. 
Totó ajuda as pessoas, de todas as maneiras. Seu espírito solidário contagia os moradores. 
Ele sai com uma pequena maleta e uns poucos objetos, mas ela é furtada por um morador miserável das redondezas. Totó o persegue e concorda em lhe dar a maleta, tornando-se amigo do pobre ladrão. Este o convida para morar em seu barraco. E junto com outros miseráveis eles vão ocupar uma propriedade abandonada, onde criam a sua comunidade. 

Totó tenta organizar o local, dando nome às ruas (cujos nomes têm um caráter educativo) e determinando onde cada um iria morar. 

Os moradores do local criam um forte senso de coletividade, lutando e colaborando entre si, com a exceção de apenas um morador, que age de forma individualista e que considera os moradores dali como sendo um bando de vagabundos. Mas, apesar disso, ali temos todos os tipos de pessoas: generosas, arrogantes, ambiciosas. 

Enquanto isso, Totó procura ajudar a todos, tentando amenizar o sofrimento dos seus moradores e procurando espalhar otimismo e esperança entre eles. Ele consegue impedir, inclusive, que um dos moradores chegue a cometer suicídio.

Porém, ao descobrirem água e, depois, petróleo na localidade, isso acaba por atiçar o interesse do Sr. Mobbi, um rico capitalista da cidade, que acaba comprando a propriedade. 
O capitalista comanda a força policial que tenta expulsar os sem teto do terreno que ocupam. Qualquer semelhança com a situação atual não é mera coincidência. 
Em sua primeira visita ao local, o capitalista Mobbi se compromete a manter os moradores no lugar, agindo como se fosse igual aos mesmos. Afinal, todos eles possuem cinco dedos, não importando se eles são ricos ou pobres.

Porém, não muito tempo depois, o mesmo Mobbi decide pedir ao governo que expulse os moradores da propriedade. E a Polícia se mobiliza para isso. Totó e uma comissão de moradores vai conversar com Mobbi, que os trata muito bem e os convence de que eles irão continuar morando no mesmo lugar. Mas enquanto conversa com os mesmos, a Polícia já está sendo mobilizada para expulsar os sem teto da propriedade. 

Assim, quando chegam à propriedade, Totó e os demais percebem que foram enganados por Mobbi, que manda a Polícia reprimir e expulsar os sem teto do local. Afinal, no Capitalismo, o Estado está a serviço da Burguesia, certo?

Mesmo assim, os moradores decidem enfrentar a Polícia, que arremessa bombas de gás e joga água sobre os sem-teto.

Obs2: Qualquer semelhança com as operações de retirada de moradores sem-teto nas cidades brasileiras não é mera coincidência, embora no Brasil as ações de despejo sejam bem mais brutais e violentas do que essa que é mostrada em ‘Milagre em Milão’.
A falecida mãe de Totó entrega uma 'pomba mágica' para o mesmo. E essa 'pomba' transformará em realidade os desejos dos sem teto.
Neste momento, os moradores recebem uma inesperada ajuda espiritual, vinda da falecida mãe adotiva de Totó. Ela entrega uma espécie de ‘Pomba Mágica’ para Totó, sendo que a mesma tem o poder de atender a todos os desejos do jovem. 

Assim, quando a Polícia joga água nos moradores, Totó pede por guarda-chuvas e todos ali passam a possuir os mesmos. Ele também usa deste poder para transformar um Policial em General, fazendo com que este desistisse de obrigar os moradores a sair da propriedade. Quando os oficiais tentam ordenar um ataque contra os moradores, Totó faz com que eles cantem com uma voz bem aguda, expondo os mesmos ao ridículo.

Quando os sem teto percebem quais são os poderes de Totó, no entanto, eles demonstram possuir apenas preocupações de caráter individualista, pensando apenas em seus desejos e necessidades estritamente pessoais e de caráter material. 

Desta maneira, uma moradora pede por belas roupas, outros querem ficar milionários (ou seja, virar capitalistas) e pedem milhões de Liras, outro pede para aumentar de tamanho, outros pedem por eletrodomésticos (uma enceradeira, por exemplo, embora o piso dos barracos seja de madeira ou terra). 

Assim, nenhum dos sem teto pensa em pedir um título de propriedade que os transformasse em donos do local. Nenhum dos seus pedidos é feito pensando nos interesses da comunidade. 
Quando a Polícia joga água sobre os moradores, Totó usa a 'pomba mágica' para dar guarda-chuvas para todos. 
Esta foi uma maneira que Vittorio De Sica encontrou de mostrar que embora os sem teto estejam lutando coletivamente, eles possuem uma mentalidade individualista, tipicamente capitalista. 

Logo, eles são trabalhadores miseráveis, mas já assimilaram as ideias, os valores e o comportamento da Burguesia, pensando apenas em seus próprios interesses. Eles deixaram de pensar e de agir coletivamente. 

O Capitalismo triunfou e o Socialismo fracassou, pelo menos na Itália, essa é a mensagem deste belo e clássico filme de Vittorio De Sica. 

Outra interpretação para isso, talvez seja que esta foi uma maneira que De Sica usou para criticar o fato de que, após 1947, o público italiano não se interessava mais em assistir às produções Neo-Realistas, preferindo assistir aos filmes de Hollywood, que atraíam um público imenso para as salas de cinema. E com isso os valores capitalistas e individualistas do ‘American Way of Life’ acabaram se impondo na Itália. 

Afinal, como diziam Lênin e Mussolini, ‘o Cinema é a arte mais forte’ e poderia influenciar o modo de pensar e de agir das pessoas, ainda mais numa época em que a Televisão ainda não existia (período Entreguerras) ou estava engatinhando (Pós-Guerra).  
O policial tenta dar a ordem de ataque, mas não consegue, pois Totó usou a 'pomba mágica' para fazê-lo cantar.
Enquanto isso, os locais que ainda exibiam os filmes Neo-Realistas ficavam às moscas, sendo frequentados por um pequeno numero de pessoas, pois os mesmos insistiam em mostrar a realidade miserável e os problemas da Itália daquela época, o que era condenado pelo governo conservador do PDC. Um dos principais líderes da Democracia-Cristã chegou a dizer que 'roupa suja se lava em casa', como uma forma de condenar os filmes Neorrealistas. 

Já as produções de Hollywood mostravam um mundo de luxo e fantasia, a vida dos ricos, tal como acontecia na era fascista, que produziu um grande número de filmes do estilo chamado de ‘Telefone Bianchi’ (telefone branco, que era a cor dos telefones da burguesia italiana). 

Assim, passou a existir um total contraste entre as produções Neo-Realistas e o gosto dominante do povo italiano, ocorrendo uma verdadeira ruptura entre eles. E é justamente isso que parece ter sido objeto de crítica por parte de Vittorio De Sica nesta produção. 

É como se, em ‘Milagre em Milão’, De Sica estivesse antecipando, em algumas décadas, aquela famosa frase do carnavalesco Joãozinho Trinta: ‘O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual’. 

Essa mudança no gosto do público italiano, que abandonou os filmes Neo-Realistas, junto com a política de censura e perseguição que estes passaram a sofrer, mostram que o projeto Neo-Realista de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, ou seja, Socialista, acabou fracassando. 
Quando os sem teto se reúnem para fazer pedidos para Totó, eles somente pedem  coisas para eles mesmos. Ninguém pensa no interesse coletivo. Essa é a forma que De Sica encontrou para mostrar que os valores individuais já tinham se tornado dominantes na Itália.  
Logo, junto com a derrota política e eleitoral dos Socialistas e, em especial, dos Comunistas (PCI), tivemos o esvaziamento e o esgotamento do Neo-Realismo. Afinal, havia uma forte conexão entre ambos (PCI e Neo-Realismo). 

E isso abriu caminho para o surgimento do ‘Neo-Realismo Rosa’ e para produções que até mostravam a exploração e a pobreza existentes na Itália, mas que valorizavam o humor e ou exaltavam muito mais a beleza das atrizes do que os problemas sociais da Itália, como já foi comentado aqui. 

Em ‘Milagro em Milão’, De Sica acabou também por sugerir que dentro dos estreitos limites do Capitalismo Liberal que se impõem ao país a partir de 1948 simplesmente não haveria soluções para os principais problemas que afetavam o povo italiano. Tal ideia também estará presente em seu filme posterior, o belíssimo ‘Umberto D’. 

As soluções, portanto, somente poderiam vir do Céu, de algum poder Divino. Mesmo assim, De Sica finaliza o seu filme com uma mensagem de esperança, o que é uma característica marcante da sua obra. 

Obs3: Quando vemos os sem teto viajando em direção ao Céu, em vassouras, vemos de onde Spielberg tirou aquela famosa cena do filme ‘E.T.’, que foi um dos seus maiores sucessos. 
Os sem teto viajam, em suas vassouras, rumo ao Céu. Qualquer semelhança com a cena de 'E.T', de Spielberg, não é mera coincidência. 
Informações Adicionais!

Título: ‘Milagro a Milano’ (Milagre em Milão);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Mario Chiari, Adolfo Franci, Suso Cecchi D'Amico; Baseado em livro de Cesare Zavattini; 
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1950;
Gênero: Comédia Dramática; Duração: 97 minutos;
Fotografia: G.R. Aldo;
Música: Alessandro Cicognini; 
Elenco: Francesco Golisano (Totó); Paolo Stoppa (Rappi); Guglielmo Barnabò (Mobbi); Emma Grammatica (Lolotta, mãe adotiva de Totó); Brunella Bobo (Edvige); Arturo Bragaglia (Alfredo); Erminio Spalla (Gaetano).
Prêmios: Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1951. 

Vídeo - Trecho do filme:



quinta-feira, 13 de abril de 2017

‘Umberto D’ – De Sica homenageia o pai em um filme belo e triste que encerrou a era do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!

‘Umberto D’ – De Sica homenageia o pai em um filme belo e triste que encerrou a era do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!
'Umberto D', de Vittorio De Sica, é um clássico do Neo-Realismo italiano, sendo o filme preferido de Martin Scorsese e Ingmar Bergman. 
O ciclo do Neo-Realismo italiano durou aproximadamente uma década. 

Ele tem o seu início com o filme ‘Ossessione’, produção de 1943 que foi dirigida por Luchino Visconti (que já foi comentado aqui no blog). E o seu encerramento se dá justamente com este belíssimo filme de Vittorio De Sica, que é ‘Umberto D’ (1952). 

‘Ossessione’, o filme de Visconti, foi proibido pelo regime Fascista italiano, sendo que o filho do Duce, ao assistir ao mesmo, disse ‘Isto não é a Itália’. Afinal, ‘Ossessione’ mostrava um país marcado pela pobreza, desemprego, prostituição, desigualdades sociais e pessimismo. 

O governo fascista de Mussolini estimulou bastante a produção cinematográfica italiana e o mesmo fez isso de várias formas: Criando a ‘Cinecittà’ em 1937 e a revista quinzenal ‘Cinema’, bem como apoiando a criação do ‘Centro Experimental de Cinematografia’, que formava diretores, roteiristas, atrizes, atores, técnicos. 

Mas o regime fascista também usava o Cinema para mostrar uma visão idealizada da sociedade italiana, não tendo nenhuma conexão mais forte com as dificuldades que a população enfrentava no seu cotidiano. 
Maria, a empregada da pensão, é a única amiga (humana, pelo menos) de Umberto D. 
A maioria dos filmes que foram produzidos durante o regime Fascista eram puramente escapistas, mostrando a vida da burguesia (eram os filmes chamados de ‘Telefone Bianchi’) ou então eram comédias leves ou ainda produções que exaltavam os heróis e acontecimentos históricos mais relevantes da história italiana. Em alguns filmes o povo italiano e as paisagens naturais italianas até eram exibidos, mas sempre de forma idealizada.

As condições históricas que permitiram o desenvolvimento do cinema Neo-Realista já foram devidamente comentadas aqui no blog e podemos citar: A luta de todos os setores sociais italianos contra o Nazi-Fascismo; A invasão da Itália pelos Aliados; A derrubada do governo de Mussolini; A formação de um governo de ‘União Nacional’ no Pós-Guerra e que vai durar até 1947; A liberdade criativa existente no país no período de 1943-1947.

E os fatores que foram decisivos para a perda de espaço por parte dos filmes Neo-Realistas no mercado italiano também podem ser relembrados: 

A) O fim do governo de ‘União Nacional’; 
B) A ascensão de um governo direitista e conservador liderado pelo PDC (Partido Democrata-Cristão) a partir de meados de 1948; 
C) A expulsão de Socialistas e Comunistas do governo italiano; 
D) A censura e perseguição promovida pelo governo conservador aos filmes Neo-Realistas; 
E) A importação maciça de filmes de Hollywood por parte do governo conservador italiano; 
F) O desrespeito à lei que determinava um percentual mínimo de exibição de filmes italianos nas salas comerciais. 
Umberto D começa a vender os seus bens (livros, relógio), a fim de poder pagar a dívida acumulada com a proprietária da pensão em que vive. 
Com essas mudanças que aconteceram no cenário político, econômico e cultural da Itália, os cineastas Neo-Realistas introduziram algumas mudanças em suas produções, passando a fazer uso do humor, de belas atrizes e amenizando a crítica social. Isso deu origem ao que se chamou de ‘Neo-Realismo Rosa’.

O próprio Vittorio De Sica já havia feito algumas destas mudanças em seu filme anterior (‘Milagre em Milão’, de 1951), quando usou do humor, da fábula e de efeitos visuais para mostrar uma história de repressão governamental e policial contra um grupo de moradores sem teto de Milão. 

Já em ‘Umberto D’ temos uma espécie de despedida, de encerramento do Neo-Realismo por parte de Vittorio De Sica, mas no qual ele reafirma os princípios deste que foi um dos mais importantes e influentes ‘movimentos’ da história do Cinema mundial. 

É bom ressaltar a fundamental participação, durante todo o período do Neo-Realismo, do roteirista Cesare Zavattini, que foi o principal teórico deste ‘movimento’ cinematográfico. 
A pedido de Umberto D, Maria tenta pagar uma parte da dívida, mas a proprietária da pensão exige receber tudo. 
Não é à toa que o roteiro de ‘Umberto D’ foi escrito justamente por Zavattini, que foi um assíduo colaborador nos filmes de Vittorio De Sica, sendo considerado por muitos um verdadeiro coautor dos filmes deste. 

Frequentemente, quando se comenta sobre os principais nomes do Neo-Realismo são citados Roberto Rossellini, Luchino Visconti e a dupla Vittorio De Sica- Cesare Zavattini. 

Neste belo, poético, sensível e triste filme que é ‘Umberto D’, De Sica homenageia o seu pai (que se chamava Umberto De Sica) e retorna às características originais do Neo-Realismo. 

A obra cinematográfica de De Sica também é marcada por saber transmitir emoções e sentimentos como poucos e neste ‘Umberto D’ isso é um elemento que está muito presente, tal como já havia acontecido em ‘Ladrões de Bicicleta’, por exemplo. 

Assim, em ‘Umberto D’, De Sica usa de pessoas comuns para interpretar os personagens principais (Carlos Battisti, que interpreta Umberto D, era professor e este foi o seu único filme), filma tudo em paisagens naturais e não se utiliza de efeitos visuais. 
Umberto D se interna em um hospital público, com o objetivo de fazer economia e ter dinheiro suficiente para pagar a sua dívida. 
O genial cineasta também mostra a triste realidade dos idosos e aposentados italianos, que viviam em grandes dificuldades em função dos baixos valores das pensões que recebiam, bem como ilustra o descaso do Governo italiano com os problemas que os aposentados enfrentavam. 

No filme, também é mostrado o egoísmo das pessoas, que são cada vez mais individualistas, em uma sociedade na qual os valores burgueses acabaram se impondo. Se alguém não é bem sucedido, diz a ideologia liberal burguesa, a culpa é da própria pessoa, embora muitos burgueses ricos e milionários tenham apenas herdado a sua fortuna, enquanto que outros a acumularam com uma substancial ajuda do Estado. 

Umberto Domenico Ferrari é um aposentado, que vive sozinho em uma pensão, sem amigos. As únicas exceções são Maria, a adolescente analfabeta que é empregada da pensão, e o seu inseparável cãozinho Flike, que tem uma grande importância na história e que protagoniza algumas das mais belas cenas da história do Cinema. Flike ‘atua’ tão bem que deveria ter recebido um Oscar de Melhor Ator, com certeza... (modo irônico). 

O filme começa com uma cena tipicamente Neo-Realista, na qual os aposentados fazem um protesto contra os seus reduzidos vencimentos e a Polícia os reprime sem hesitar. Umberto D e mais alguns pensionistas participam da manifestação e conversam sobre a sua situação. 
Umberto D procura por velhos amigos, da época em que era funcionário público, para ver se consegue a ajuda deles. Mas isso não irá acontecer. 
Umberto D fala que está devendo 15 mil Liras para a proprietária da pensão em que mora, mas não tem como pagar tal dívida. Ele diz que, antigamente, a proprietária o chamava de avô, mas que agora ela o trata com absoluto desprezo e exige o pagamento integral da dívida, caso contrário ele será despejado. 

Com isso, Umberto D começa a vender alguns bens (livros, relógio), a fim de conseguir o dinheiro necessário para pagar a dívida, pois se não o fizer ele não terá onde morar. Ele também recorre a alguns antigos amigos do Ministério do Trabalho, onde trabalhou por 30 anos, mas que agora não tem nem tempo para conversar com ele e nem vontade de ajuda-lo. As pessoas somente querem se livrar dele o quanto antes. 

Umberto também chega a simular uma doença, a fim de ser internado em um hospital público, onde teria moradia e alimentação gratuitas. Com isso, ele economizaria dinheiro suficiente para poder pagar a dívida. 

Quando ele volta para a pensão, descobre que Flike fugiu. Desesperado, ele vai até o local da cidade para o qual os cães vadios são levados e encontra o cãozinho. 
Flike, o cãozinho que ajuda Umberto D a obter os recursos necessários para poder pagar a sua dívida. 
A adolescente Maria é a única pessoa com quem Umberto D tem uma relação de amizade, mas ela também não tem como ajuda-lo. Ela também passa por um momento difícil, pois namorava dois soldados e acabou engravidando de um deles, sendo que ela nem sabe direito quem é o pai da criança. 

E o problema é que os dois soldados negam ser o pai da criança e nenhum deles quer assumir a responsabilidade pela mesma. Maria também esconde a gravidez da proprietária da pensão, pois se esta descobrir a verdade acabará por mandar Maria embora. E se ela voltar para o pai, Maria será espancada pelo mesmo. Assim, ela está sem opção.  

Umberto D estimula Maria a estudar, pois diz que as pessoas se aproveitam dos ignorantes, mas ela acaba por se resignar à vida que leva. Em uma cena ela guarda lápis e papel na gaveta, enquanto fica moendo o café e chora. Assim, ela não tem mais esperanças de desfrutar de uma vida melhor. 

Umberto D é um idoso, com 70 anos, que procura manter a sua dignidade intacta, mesmo em uma situação de visível derrocada da sua vida. Ele até chegou a tentar pagar uma parte da dívida, mas a proprietária da pensão recusou-se a aceitar, exigindo que ele pagasse tudo ou que fosse embora.  
Sem conseguir o dinheiro necessário para pagar as suas dívidas, Umberto D decide ir embora da pensão e cometer suicídio. Mas ela não conta isso para a jovem Maria. 
Depois das várias tentativas fracassadas que fez para acumular o dinheiro necessário para pagar toda a dívida, ele acaba apelando para a mendicância. Em um destes momentos, Umberto D estende a mão voltada para cima, mas quando um homem vai lhe dar o dinheiro, ele vira o rosto e a mão, pois não consegue fazer aquilo. A dignidade o impede.  

Isso também gera uma das cenas mais bonitas e sensíveis, bem ‘chapliniana’, da história do Cinema, quando ele coloca o seu chapéu na boca de Flike, que fica em pé na rua, esperando que as pessoas joguem algum dinheiro no mesmo. Mas quando ele vê um Comendador, um velho amigo, que reconhece Flike, Umberto fala que o cãozinho está apenas fazendo uma brincadeira. Ele pensa em pedir ajuda ao Comendador, mas percebe que este não irá fazer nada por ele. 

Logo, a tentativa de Umberto de apelar para a mendicância, mesmo que temporária, também acabou fracassando. A vergonha que sente ao agir desta maneira é forte demais para ele. 

Com isso, e totalmente desesperado com a situação em que se encontra, Umberto D toma a decisão de ir embora da pensão, a fim de cometer suicídio. A cena em que ele se despede de Maria, que não sabe das suas intenções suicidas, quando ela pergunta se eles continuarão a se ver, é uma das mais bonitas do filme. 
Umberto D brinca com Flike, o cãozinho que terá um papel fundamental em sua decisão de continuar vivendo. 
Mas para que possa concretizar o seu plano, Umberto D ainda precisa fazer mais uma coisa, que é se livrar de Flike, seu cãozinho e melhor amigo, que nunca se separa dele. 

Umberto D tenta várias coisas: Doar Flike para um casal de idosos que possui inúmeros cães, mas que exige muito dinheiro para fazer isso; doar o cãozinho para uma garotinha (Daniela) que frequenta um parque; largar Flike, sozinho, no parque e ir embora (mas isso não dá certo, pois Flike irá atrás dele e acabará por encontra-lo). 
Incapaz de se livrar do inseparável Flike, Umberto D acaba encontrando no carinho e amor que o cão lhe devota uma razão para continuar vivendo. E aparece um grupo de crianças, jogando futebol, felizes. É a forma que De Sica encontrou de mostrar que ainda é possível, apesar de todas as adversidades, desfrutarmos de um futuro melhor. 

E a cena final de ‘Umberto D’ é uma das mais belas e emocionantes da história do Cinema, sem dúvida alguma. 
Feliz com a decisão que tomou, Umberto D brinca com Flike, em um dos mais belos finais da história do Cinema. 
Informações Adicionais:

Título: ‘Umberto D’;
Diretor: Vittorio De Sica:
Roteiro: Cesare Zavattini;
Musica: Alessandro Cicognini; Fotografia: G.R. Aldo;
Duração: 89 minutos; Gênero: Drama;
País de Produção: Itália; Ano de Produção: 1952;
Elenco: Carlos Battisti (Umberto D. Ferrari); Maria Pia Casilio (Maria); Lina Gennari (Antonia Belloni); Ileana Simova (dona da pensão).
Prêmios: Bodil Awards - Melhor Filme Europeu de 1955;
Jussi Awards - Melhor Filme Estrangeiro de 1957. 

Filme na íntegra (legendado em Português):



domingo, 9 de abril de 2017

‘Ossessione’ – Baseado em romance Policial Noir, Visconti fez o primeiro filme Neorrealista! – Marcos Doniseti!

‘Ossessione’ – Baseado em romance Policial Noir, Visconti fez o primeiro filme Neorrealista! – Marcos Doniseti!
'Ossessione', filme de Luchino Visconti de 1943, é considerado o primeiro filme Neo-Realista. 
As origens do Neorrealismo Italiano!

Durante muitos anos desenvolveu-se um debate sobre qual teria sido a origem do Neo-Realismo italiano, que foi um dos mais influentes e importantes ‘movimentos’ cinematográficos da história. Martin Scorsese diz, no documentário ‘Viagem à Itália’, que este foi o mais importante movimento da história do Cinema. 

‘Roma, Cidade Aberta’ foi considerado pelos críticos, e por muitos anos, como sendo o marco inaugural do Neo-Realismo, mas nem Roberto Rossellini e Luchino Visconti concordavam com isso.

A respeito dessa polêmica, Visconti declarou o seguinte: 

“Por mais que se diga... "mas, já havia ‘O Navio-Hospitale’ ‘O Homem da Cruz’, de Rossellini, ou ‘Uomini sul Fondo’, de De Robertis", esses filmes, de fato, eram documentários. A meu ver, é absolutamente necessário deixar de lado os dois filmes de Rossellini que citei, porque eram fascistas, de propaganda fascista. De Sica ainda rodava filmes como ‘Teresa Venerdi’, ‘Un Garibaldino ai Convento’ e, pouco depois de ‘Obsessão’, realizou ‘A Culpa dos Pais’, que já seguia a mesma linha. [...] O termo "neo-realismo" nasceu com ‘Obsessão’.”.

Rossellini, por sua vez, afirmou o seguinte sobre as origens do Neo-Realismo: 

“Se o chamado neo-realismo se revelou ao mundo de forma mais impressionante através de ‘Roma, Cíttà Aperta’, cabe aos outros julgar. Eu vejo o nascimento do neo-realismo mais para lá: em primeiro lugar, em alguns documentários de guerra romanceados, nos quais também eu estou representado com ‘La Nave Bianca’; depois, nos verdadeiros filmes de ficção sobre a guerra, dos quais fui colaborador no roteiro, como ‘Luciano Serra Pilota’, ou realizador, como ‘L'uomo Âalla Croce’; por fim, e sobretudo, em certos filmes menores, como ‘Avanti cè Posto’,’L'ultima Carrozzella’ e ‘Campo de' Fiori’, em que a fórmula do neo-realismo, se assim o quisermos chamar, vem se compondo através das criações espontâneas dos atores: de Anna Magnani e de Aldo Fabrizi, particularmente.”.
Luchino Visconti era chamado de 'Conde Vermelho', pois apesar da sua origem aristocrática ele era um marxista declarado. Mas ele sempre preservou uma grande autonomia em relação ao PCI, ao qual era ligado. 
Obs1: As afirmações de Rossellini e Visconti sobre as origens do Neo-Realismo foram retiradas do capítulo ‘Neo-Realismo Italiano’, de autoria de Mariarosaria Fabris, que está incluído no livro ‘História do Cinema Mundial’ (Fernando Mascarello; org.).

Foi o próprio montador de ‘Ossessione’, Mario Serandrei, o responsável por usar da expressão Neo-Realismo, pela primeira vez, para definir este filme de Visconti, que foi realizado em 1943 e que foi repudiado pelo regime Fascista, pois mostrava uma imagem bastante ‘negativa’ (ou melhor, realista) da Itália.

O regime Fascista, liderado por Mussolini, dava grande valor ao Cinema, que era a principal forma de entretenimento popular na era pré-Televisão. 

O ‘Duce’ Mussolini (um ex-socialista que, depois, tornou-se um líder da Extrema-Direita e inimigo mortal do Socialismo, o qual tentou exterminar, aliando-se a Hitler para atingir esse objetivo) considerava, tal como Lenin, que o Cinema era a mais poderosa das artes, principalmente no aspecto de influenciar as ideias e o comportamento das massas populares, o que era de grande importância para o regime fascista. 
Mussolini concordava com Lenin, que considerava o Cinema como sendo uma forma de arte de grande importância para influenciar as ideias e o comportamento da população. Por isso ele investiu na construção da Cinecittà, que produziu mais de 330 filmes entre 1937 e 1943.
Para poder concorrer com a hegemônica produção de Hollywood, que dominava o mercado italiano (e mundial, claro), Mussolini chegou a construir uma indústria cinematográfica italiana.

Para isso, ele construiu a famosa ‘Cinecittà’ (Cidade do Cinema), nos subúrbios de Roma, que era um conjunto de grandes estúdios cinematográficos. Ela foi inaugurada em 1937 e produziu mais de 330 filmes até 1943, quando a Itália foi invadida pelos Aliados (EUA e Grã-Bretanha) em Julho do mesmo ano. 

No mesmo mês e ano, Mussolini foi derrubado do governo e acabou sendo preso. E em Setembro de 1943 o novo governo italiano passou para o lado dos Aliados na Guerra, enquanto que os alemães invadiam o Norte e o Centro da Itália, onde criaram a chamada ‘República de Saló’. 

Esta foi um regime fantoche fascista, que formalmente era liderado por Mussolini (que havia sido libertado da prisão por um comando nazista liderado por um capitão da SS, Otto Skorzeny), mas que, na prática, era controlado pelos Nazistas alemães.
A revista 'Cinema' também foi criada pelo regime fascista de Mussolini. Seu diretor era Vittorio Mussolini, o filho mais velho do Duce. Nela se reuniu uma equipe de críticos que se propunha a renovar o cinema italiano e que, depois, fizeram parte do Neorrealismo, incluindo Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Giuseppe De Santis. 
Devido à forte presença militar alemã no Norte da Itália, este governo nazi-fascista somente foi derrubado nos dias finais de Abril de 1945, quando Mussolini foi capturado e enforcado pela Resistência. Isso aconteceu depois de uma brutal guerra civil que devastou a região e na qual a Resistência antifascista teve um papel fundamental, lutando ao lado das tropas Aliadas. 

Além da ‘Cinecittà’, o regime fascista também apoiou a criação de uma ‘Escola de Cinema’, chamada de ‘Centro Experimental de Cinematografia’, que começou a funcionar em 1939 e que formou inúmeros diretores, atores, atrizes, roteiristas e técnicos. 

Muitos destes profissionais tiveram um papel fundamental nas produções Neo-Realistas, bem como em todo o cinema italiano do Pós-Guerra. Michelangelo Antonioni foi um destes profissionais. 

E durante o governo de Mussolini também tivemos a criação da revista ‘Cinema’, que era publicada a cada quinze dias e que tinha Vittorio Mussolini (o filho mais velho do Duce) como diretor. 
Vittorio De Sica, Roberto Rosselini e Federico Fellini foram três dos principais nomes do cinema italiano e mundial. Os três estiveram, em algum momento de suas carreiras, ligados ao Neo-Realismo. 
No entanto, a maior parte dos filmes produzidos durante o regime Fascista eram puramente escapistas, mostrando a vida dos ricos, da burguesia italiana, não tendo qualquer semelhança com as condições de vida da imensa maioria dos italianos, que viviam na pobreza e na miséria. 

Estes filmes eram muito influenciados pela produção de Hollywood e eram chamados de ‘Telefone Bianchi’ (telefones brancos), pois branca era a cor dos telefones da burguesia, enquanto o povo italiano usava dos tradicionais telefones pretos. 

Na época do Fascismo, também eram realizadas muitas comédias leves e produções históricas. Alguns filmes até mostravam as paisagens naturais e o povo italiano (que são duas das principais características do Neo-Realismo), mas isso era feito de forma idealizada, como se a vida dos italianos fosse uma verdadeira maravilha. 

O único filme produzido na época do Fascismo que chegou a mostrar a realidade das periferias de Roma (com toda a sua pobreza e desemprego) foi ‘Ragazzo’, de Ivo Perilli. 
Gino Costa (interpretado por Massimo Girotti) vivia de forma errante, fazendo trabalhos temporários e mal remunerados, por toda a Itália. 
Em função disso, ou seja, de ser muito realista, o filme foi proibido pelo próprio Mussolini, que disse ‘Essas coisas não existem mais’, a respeito da pobreza e do desemprego que grassavam na Itália da época. 

Obs2: As informações sobre a proibição do filme ‘Ragazzo’ foram retiradas do livro ‘Mussolini’, de Pierre Milza, págs. 121-122, Editora Nova Fronteira. 

Obs3: Visconti era um Conde, filho de um Duque, sendo um membro da Nobreza, portanto. Ele viveu muitos anos na França, onde conheceu Jean Renoir, um dos expoentes do chamado ‘Realismo Poético Francês’, com quem trabalhou no filme ‘Une Partie de Campagne’. Neste seu ‘período francês’ Visconti se conectou ao PCF (Partido Comunista Francês). Retornando para a Itália, ele se ligou ao PCI (Partido Comunista Italiano), embora nunca tenha se filiado à legenda, ficando conhecido como o ‘Conde Vermelho’, devido ao seu marxismo declarado. Na Itália, Visconti passou a atuar na Resistência, chegando a ser preso pela Gestapo em 1943 (ele ficou três meses na prisão). Visconti também voltou a trabalhar com Jean Renoir, no filme ‘La Tosca’ e em 1940 ele passou a trabalhar na revista ‘Cinema’, dirigida por Vittorio Mussolini, o filho do ‘Duce’. ‘Ossessione’ foi o seu primeiro filme. Em uma entrevista de 1976 (ano em que veio a falecer) Visconti disse: “Prefiro contar as derrotas, descrever as almas solitárias, os destinos esmagados pela realidade”. Estas informações foram retiradas do livro ‘O Cinema de... De Sica, Rossellini, Visconti, Antonioni e Fellini’, de Roberto de Castro Neves (págs. 47-50; Ed. Mauad X, 2012). 
Bragana cobra Gino por este não ter pago a conta no restaurante. Para isso, Gino fará alguns serviços para Bragana, consertando o caminhão do mesmo. 
A trama do filme!

Vittorio Mussolini, o filho do ditador italiano, disse, a respeito de ‘Ossessione’, que ‘Esta não é a Itália’, já que a trama do filme mostrava um país e um povo empobrecidos e sem esperança de melhorar de vida por meio do trabalho duro e honesto.

Desemprego, fome, miséria, crime, prostituição e desesperança são algumas das características da Itália que são mostradas neste filme fundamental de Visconti. 

Então, isso explica os motivos que levaram o filho do ‘Duce’ a detestar o filme. 

O roteiro de ‘Ossessione’ é baseado no livro ‘O Destino Bate à Porta’, um clássico do romance policial Noir que foi escrito por James M. Cain, mas Visconti não mostrou isso no filme, o que criou complicações para a sua exibição nos EUA. 

Visconti fez algumas mudanças na trama, adaptando a mesma para a realidade italiana. 

Ele transferiu a ação dos EUA da época da Grande Depressão para a Itália de Mussolini (no início da década de 1940) e introduziu um novo personagem na história (Spagnolo, ao qual é sugerido ser um homossexual), o que estava ausente do livro. 
A bonita Giovanna sente-se atraída por Gino logo que o vê pela primeira vez. E ele corresponde ao interesse. 
Obs4: Luchino Visconti era homossexual assumido e vários dos seus principais filmes tratam do assunto, como é o caso de ‘Morte em Veneza’ e ‘Os Deuses Malditos’.

Visconti também introduziu uma nova personagem feminina na história (Anita), uma jovem bonita que desperta o interesse de Gino e por quem ela também se apaixona. 

Mas na essência, ou seja, a possibilidade de ascensão social e econômica apenas por meio de atividades criminosas e o final trágico, a história do filme é bastante fiel ao livro de James M. Cain.

Obs5: Em 1946, tivemos a produção da versão estadunidense do livro de James M. Cain, que recebeu o mesmo título do livro (O Destino Bate à Porta) e que foi dirigido por Tay Garnett. O papel feminino principal ficou com a belíssima Lana Turner. John Garfield fez o protagonista masculino, amante da personagem da sensual Lana Turner. 

No filme de Visconti, vemos Gino (interpretado por Massimo Girotti), que é um trabalhador errante e desempregado e que vive de fazer trabalhos eventuais enquanto viaja pelo país. 
Giovanna e Gino se aproveitam da ausência de Bragana para ficarem juntos. 
Gino acaba por se envolver romanticamente com Giovanna (interpretada por Clara Calamai), a bonita e sensual esposa do proprietário (Giuseppe Bragana) de um restaurante de beira de estrada que fica próximo de Ancona. 

Gino é tão miserável que sequer tem dinheiro suficiente para comprar uma passagem de trem e viaja, mesmo sem ter autorização para isso, nas caçambas de caminhões. 

Nem dinheiro para se alimentar ele possui. Inclusive, ele chegou a comer no restaurante de Giovanna e saiu sem pagar. Apesar disso, ele é honesto, recusando-se a virar um ladrão, vivendo de trabalhos temporários e mal remunerados. 

Obs6: Agora, com a aprovação das ‘reformas’ trabalhistas, previdenciária e da Terceirização generalizada, pelo governo Neoliberal de Temer, milhões de trabalhadores brasileiros, principalmente os de baixa qualificação, irão viver igual a Gino. 

E assim ele acaba chegando ao restaurante onde Giovanna trabalha, junto com o marido (Giuseppe). Gino mal entra no local e a atração entre ele e a mulher é imediata. Ele chegou a ver a bonita mulher sentada, em cima de uma mesa, balançando as suas belas pernas, uma cena que foi bastante ousada para a época. 
Giovanna é uma mulher casada, mas infeliz, pois ela nunca amou Bragana, o seu marido. 
Para poder pagar a refeição, Gino concorda em fazer alguns serviços para Giuseppe, consertando o hidrante e o caminhão do mesmo. E é neste momento que o romance entre ele e Giovanna engata uma quinta, sem que o marido desconfie de qualquer coisa. Giuseppe passa a confiar rapidamente em Gino pelo fato do mesmo ter feito os serviços combinados. 

Giovanna confessa, para Gino, que ela se casou com Giuseppe apenas porque vivia na miséria, entregando-se para os homens nas ruas, ou seja, ela era uma prostituta. Isso é dito indiretamente por ela, o que deve ter sido uma maneira de burlar a censura imposta pelo regime Fascista. 

Logo, o casamento com Giuseppe foi uma maneira que ela encontrou de sair daquela vida. Mas ela diz para Gino que, de fato, não tem nenhuma atração pelo marido e que sente repulsa pelo mesmo. 

Obs7: Inúmeros filmes neorrealistas mostram a prostituição na Itália neste período, pois esta era, muitas vezes, a única maneira pela qual uma mulher poderia ganhar algum dinheiro naquela época de grande miséria no país, principalmente nos primeiros anos do Pós-Guerra.
Gino e Giovanna tentaram ir embora, mas ela desistiu e permaneceu vivendo com Bragana. 
Gino e Giovanna querem ficar juntos, mas ele não consegue viver com ela enquanto essa permanecesse casada, até porque Giuseppe é ciumento e vigia a esposa. Eles tentam fugir, aproveitando-se da ausência temporária de Giuseppe, mas ela acaba desistindo. 

Com isso, Gino vai embora e embarca em um trem de forma clandestina. 

No trem, ele conhece Spagnolo, que paga a sua passagem, dizendo que é preciso que as pessoas se ajudem. E também é possível perceber que ele se sente atraído por Gino. Spagnolo tem esse apelido porque esteve na Espanha, o que é uma clara referência à Guerra Civil Espanhola (1936-1939). 

E fica bem claro, pelo seu discurso de querer ajudar aos demais, que Spagnolo é esquerdista e que lutou contra Franco na guerra espanhola. E também é sugerido que ele é homossexual, principalmente quando ele disse para Gino, mais adiante, que gostava de visitar o cais de Gênova, pois ali ele conseguia fazer muitos ‘amigos’. 

Eles ficam um tempo juntos, chegando a dormir no mesmo quarto de uma pensão, mas não há qualquer evidência de que eles tenham tido alguma relação sexual. Tudo fica no plano da sugestão. 
'Spagnolo' é um veterano da Guerra Civil Espanhola, na qual lutou contra Franco, e se torna amigo de Gino, ao qual ajudou sem sequer conhecê-lo. 
Gino sai de Ferrara e vai para Ancona, onde pensa em embarcar em um navio, indo embora dali, mas o seu amor por Giovanna impede que ele faça isso. 

Em Ancona ele participa de apresentações públicas de Spagnolo, mas no local ocorre também uma festival de canto lírico e Giuseppe Bragana participa do mesmo. 

Ele e Giovanna acabam encontrando Gino, que os acompanha na apresentação. 

É claro que isso faz com que Gino e Giovanna retomem o romance, sendo que ela quer aproveitar a situação para eliminar o marido e Gino acaba concordando. 

Aproveitando-se do fato de que Giuseppe havia bebido muito e era noite, no retorno para casa, Gino substitui o mesmo na direção do veículo. Na manhã seguinte o veículo aparece tombado numa ribanceira e Giuseppe está morto. Fica claro que o acidente foi forjado e que o marido de Giovanna foi assassinado por Gino.

Gino e Giovanna são interrogados pela Polícia e entram em contradição, o que leva o comissário a continuar com as investigações. E Gino passa a ser seguido por um Policial. 
Gino e Giovana são interrogados pela Polícia após a morte de Bragana, que ocorreu em circunstâncias suspeitas.  
Apesar do fato de que agora eles estão juntos, Gino sente-se muito mal com o fato de ter assassinado Giuseppe e briga constantemente com Giovanna. Por isso, ele diz que deseja ir embora, mas ela se recusa. 

Afinal, agora ela é a proprietária de um restaurante e ainda irá receber o dinheiro do Seguro, desfrutando de uma vida livre, tranquila e estável, o que é algo totalmente novo para ela. Ela decide movimentar o restaurante, contratando grupos musicais e organizando festas que lhe proporcionam um bom lucro. 

Desta maneira, Gino passa a brigar com Giovanna e a ficar bêbado constantemente. 

No dia da festa, Gino reencontra o Spagnolo, mas eles discutem, pois Gino não quer ir embora junto com o amigo e prefere ficar por ali mesmo. Assim, Gino está perdido. 

Ele não quer ir embora e nem ficar por ali. Ele sabe apenas o que não quer, mas ainda não descobriu o deseja. 
Gino conhece a jovem e bonita Anita. Eles também sentem uma atração mútua e se envolvem romanticamente, mas ele se recusa a ter relações com ela. Gino é um homem ético. 
A discussão termina com Gino agredindo Spagnolo, que toma a iniciativa de procurar a Polícia para contar o que sabe a respeito das circunstâncias da morte de Giuseppe. 

Gino e Giovanna vão à Seguradora, em Ferrara, pois Giuseppe havia feito um seguro de vida no valor de 50 mil Liras sem que Giovanna soubesse disso. Porém, Gino fica convencido de que Giovanna sabia do seguro de vida de Giuseppe e de que o teria usado para matar o marido e ficar com o dinheiro.

Nesta viagem para Ferrara, enquanto aguarda por Giovanna, Gino acaba conhecendo uma bonita e sensual jovem (Anita). Ela se apresenta como bailarina, mas na verdade é uma prostituta. A atração entre eles é imediata, mas ele evita de ter uma relação com a jovem, embora essa demonstre interesse. Ele não quer se aproveitar dela. 

Apesar de conhecer Anita há pouco tempo, Gino percebe que ela é generosa e conta tudo para a bela jovem: Seu romance com Giovanna, as circunstâncias do crime que cometeu. 
Anita fica desolada com o fato de Gino ter ido embora. 
Aliás, essa é uma característica de ‘Ossessione’, ou seja, tudo acontece rapidamente. 

Assim, as pessoas mal se conhecem e já estão se envolvendo. Foi assim com Gino e Giovanna e, também, com Gino e Anita. Giuseppe também passou a confiar rapidamente em Gino, depois dos serviços que ele fez. E o crime cometido por Gino também acontece sem que os detalhes do mesmo fossem mostrados. 

Gino também percebe que está sendo perseguido pela Polícia. Mesmo depois de ficar sabendo tudo o que ele fez, Anita continua gostando de Gino e decide ajuda-lo a fugir.

A esperta Giovanna viu os dois juntos e briga com Gino em público, sendo que este a esbofeteia duas vezes, o que chama a atenção das pessoas. Enquanto isso, Anita observa tudo. E o Policial que vigiava Gino vai atrás deste, que consegue fugir (com a ajuda de Anita) na caçamba de um caminhão.

Dois homens procuram a Polícia, para contar o que viram no dia do ‘acidente’, deixando claro para o Comissário que Giuseppe foi assassinado por Gino. 
Gino e Giovanna fogem da Polícia, que os perseguem, e sonham em viver juntos e serem felizes.
Gino volta para o restaurante, junto com Giovanna, e eles decidem ficar juntos e ir embora dali. Na viagem, no entanto, o carro em que estavam acaba caindo numa ribanceira depois que Gino tentou fazer uma ultrapassagem. 

Giovanna morre no acidente, Gino carrega o seu corpo (momento em que podemos ver as coxas e até uma parte da b...a de Clara Calamai) e o coloca na estrada, sentindo-se arrasado com a tragédia. O Policial diz ‘vamos’ para Gino, que chora. Ele sabe que a sua vida acabou. 

Assim, o final será trágico para todos os envolvidos na trama: Gino, Giovanna, Anita. Afinal, para os derrotados e perdedores que vivem em uma sociedade desigual e que não lhes permite alcançar os seus objetivos de forma honesta não podem existir finais felizes. 

Fim. 

Obs8: Em ‘Cronaca di un Amore’ (filme de 1950), que foi o primeiro longa-metragem de Michelangelo Antonioni, também temos a influência do Policial Noir, bem como uma história parecida com a de ‘Ossessione’. No filme de Antonioni, uma jovem e bela mulher (Paola, interpretada pela belíssima Lucia Bosé) e o amante (interpretado pelo mesmo Massimo Girotti de ‘Ossessione’) tentam se livrar do marido rico da mesma. A principal diferença em relação à ‘Ossessione’ é que a trama do filme de Antonioni já se desenvolve numa Itália diferente daquela que Visconti mostrou em seu filme, que é a do começo da década de 1940. Já em ‘Cronaca di un Amore’ o país passava pelo período de reconstrução (que foi possível graças ao ‘Plano Marshall’, que vigorou de 1948 a 1953). E no filme ‘Muerte de um Ciclista’ (de 1967 e que também já foi comentado no blog), o cineasta espanhol Javier A. Bardem também conta a história que envolve uma mulher casada e um amante que tentam esconder o crime que cometeram, enquanto mostra o caráter fortemente repressivo da ditadura de Franco. Em todos estes filmes temos algo em comum, que é o final triste e trágico. 
Gino tira Giovanna do carro, após o acidente. 
Informações Adicionais!

Titulo: ‘Ossessione’ (Obsessão);
Diretor: Luchino Visconti;
Roteiro: Luchino Visconti; Giuseppe De Santis; Gianni Puccini; Mario Alicata; Baseado no livro 'O Destino Bate à Porta', de James M. Cain;
Ano de Produção: 1943; 
País de Produção: Itália;
Gênero: Drama; 
Duração: 134 minutos;
Fotografia: Aldo Tonti; Música: Giuseppe Rosati;
Montagem: Mario Serandrei;
Elenco: Massimo Girotti (Gino Costa); Clara Calamai (Giovanna Bragana); Juan de Landa (Giuseppe Bragana); Michele Riccardini (Don Remigio); Elio Marcuzzo (Spagnolo); Dhia Cristiani (Anita); Vittorio Duse (agente da Polícia); Michele Sakara (garota).
O Policial, que vigiava e perseguia Gino, lhe diz 'Vamos'. A prisão o espera.