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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Luis Bunuel: "Susana" mostra como as instituições reprimem e sufocam as paixões humanas! - por Marcos Doniseti!

Luis Bunuel: "Susana" mostra como as instituições reprimem e sufocam as paixões humanas! - por Marcos Doniseti!
'Susana' é um dos excelentes filmes dirigidos por Luis Buñuel em sua 'fase mexicana', que durou de 1946 a 1964. Nesta obra, as instituições sociais são criticadas e desmascaradas pelo genial cineasta espanhol. 
Este belo e polêmico filme do genial cineasta Luis Buñuel trata de um tema que está presente em algumas das suas principais obras cinematográficas, que é a maneira como as instituições sociais (Polícia, Justiça, Família, Igreja) atuam como um fator de repressão das paixões humanas, que acabam sendo sufocadas.

Este assunto também é desenvolvido em outros excepcionais filmes de Buñuel, como é o caso, por exemplo, de 'Viridiana'.

"Susana" é um excelente filme da fase mexicana (que durou de 1946 até 1964, durante a qual Buñuel dirigiu 21 filmes) do grande cineasta espanhol e a trama gira em torno da jovem, bela e sensual Susana que, sendo perfeitamente consciente do fato de que possui a capacidade de seduzir e de deixar os homens completamente malucos por ela, acaba por usar deste poder para manipulá-los. 

Assim, Susana consegue fazer com que os homens se submetam aos seus desígnios, em busca do prazer sexual que as instituições sociais reprimem e que a Igreja Católica, em especial, considera como sendo 'obra do Demônio'. Mas esta maneira de viver desta jovem que leva uma vida independente também é um jogo perigoso, que chega até a colocar em risco a própria vida de Susana, pois as paixões humanas muitas vezes saem do controle. 

E com tudo isso ela consegue, literalmente, virar de cabeça para baixo a vida de uma próspera e tranquila família de um autoritário e orgulhoso fazendeiro mexicano (Guadalupe).
No reformatório onde está presa, Susana vê a cruz e implora a Deus para que o mesmo a liberte. O Todo-Poderoso atende ao seu desejo. E a discórdia irá se espalhar pela Terra...
E é claro que aos olhos dos cristãos mais fervorosos (que, no filme, é representado pela empregada, Felisa) um elemento tão perturbador e desestruturador, como é a jovem, bela e sedutora Susana, somente pode ser a encarnação do 'Demônio'.

Afinal, não dizem que se o Demônio viesse à Terra ele jamais iria aparecer de forma tão horripilante quanto as caricaturas medievais o pintavam (de rabo, tridente, chifres), mas sim sob a forma de uma bela, sensual e sedutora mulher, que pudesse semear a confusão, a discórdia e os conflitos entre os seres humanos?

Pois essa é Susana.

Susana é uma jovem que foi internada em um reformatório do governo mexicano e que é mantida presa, de maneira a isolá-la totalmente das pessoas. No início do filme, ficamos sabendo que ela chegou a ficar presa por dois anos e, agora, ela voltou para o reformatório. Não chegamos a saber o motivo da prisão anterior dela, mas a trama do filme acabará por revelar a razão de Susana ser tratada desta maneira, que é o fato de que para aonde ela vai o conflito e a discórdia acabam vindo à tona, desestruturando tudo ao seu redor. 

Na prisão, uma cela na qual está sozinha, Susana fica horrorizada quando percebe que faz companhia a morcegos, ratos, aranhas e, depois que vê a imagem de uma cruz no chão, ela começa a implorar a Deus para que a liberte daquele lugar.
A jovem, bela, sensual e manipuladora Susana chega a uma, até então, pacata fazenda, onde vivia uma harmoniosa família. Os moradores a acolhem, pensando que ela é 'jovem e inocente'.
Desesperada, ela consegue tirar a janela em meio a uma tempestade e foge do reformatório. Ela já havia tentado fazer o mesmo, antes de pedir e implorar a Deus, mas sem conseguir. Mas, depois, o milagre que ela pediu a Deus aconteceu. Então, é como se Deus tivesse tido piedade dela e a tivesse libertado daquela prisão.

Susana acaba indo parar em uma fazenda, onde acaba sendo bem tratada pela família que ali vive e que nada a sabe a respeito do passado e da origem da jovem. E é claro que ela irá inventar uma história, dizendo que o pai da família que a havia criado tinha tentado abusar dela, para que as pessoas daquela família tivessem piedade dela e a ajudassem. Com isso, ela conquista a simpatia de Carmen e consegue convencer o marido desta, o fazendeiro Guadalupe, a permitir que ela passe a viver junto com eles.

E é claro que eles não fazem a menor ideia de que as suas vidas irão mudar completamente, e para pior, em função disso. Afinal, Guadalupe e sua família pensam que Susana é apenas uma mulher bonita, jovem, recatada e do lar.

Nada mais equivocado...
Felisa olha para Susana, como que dizendo 'Eu te conheço, sua sem vergonha. A mim você não engana, não'. A idosa empregada não demorou a perceber o quanto Susana era manipuladora, notando, desde o início, que de 'inocente e recatada' a bela Susana não tinha absolutamente nada. 
A única que desconfia que dias piores virão com a chegada de Susana é a idosa empregada da família do fazendeiro (Felisa) uma velha experiente que sabe antecipar os perigos que se aproximam. 

Felisa chega a dizer para Carmen, depois, que Susana jamais conseguiria se transformar em uma mulher recatada, mesmo que a jovem usasse um hábito de freira.

Susana é, literalmente, um pedaço de mau caminho, sinônimo de perdição. E é claro que ela irá conduzir os homens da fazenda pelo mesmo...

Aliás, uma fortíssima tempestade atingia a região quando da chegada de Susana à fazenda de Guadalupe e o fato foi interpretado por Felisa como um sinal de que a mesma era obra do Demônio, pois sempre que uma tempestade como essa ocorria muitas coisas ruins acabavam acontecendo, ainda mais que não era época de chuvas.

Felisa diz que tempestades assim sempre deixam rastros...Felisa revela-se uma verdadeira profeta, pois não demora muito para que estas coisas ruins (que ela chama de 'coisas do Diabo') comecem a acontecer.
Sempre que ia ao encontro de Dom Guadalupe e Alberto, filho do fazendeiro, Susana arrumava o vestido de maneira a que ficasse mais sensual e provocante.
Dom Guadalupe, sua esposa (Carmen) e Alberto (o filho, que estuda agronomia na Cidade do México) seguem rigidamente regras sociais e familiares, como a de que a esposa e o filho somente podem se sentar à mesa para jantar depois que o chefe de família o fez. Depois, a família se une para jogar baralho. 

Assim, o clima familiar é de absoluto respeito e harmonia entre os seus membros, o que inclui também a empregada, Felisa. E nesta família os desejos mais profundos também são devidamente reprimidos e controlados, sendo que o mesmo acontece entre os empregados da fazenda. 

Mas é claro que até isso a jovem, bela, 'recatada' e sensual Susana irá modificar, representando o elemento que semeará discórdia e conflitos entre todos, fazendo com que todo o edifício social existente comece a desmoronar. 

Para começar, a égua está parindo um potro e o mesmo nasceu morto. E a própria égua, à qual o fazendeiro Guadalupe era muito afeiçoado, corre o risco de vir a morrer.

Felícia diz que parece que um Demônio está à solta por aí. Ela mal termina de falar tal frase, aparece Susana, olhando pela janela. E Felisa diz que é o Diabo... Mas a esposa de Guadalupe, Carmen, diz que Susana é jovem, asseada e inocente e quer que ela fique morando com eles... Mal sabe ela o que a espera.
Jesús apertou Susana contra o seu corpo e alguns ovos se quebraram, molhando as pernas da bela Susana. Esse Buñuel...
Guadalupe até pensou em mandar Susana embora da fazenda, mas foi convencido por Carmen a não agir desta maneira. E fica claro que ele desejava fazer isso não por rejeitá-la, mas porque se sentia atraído pela jovem. E a jovem mexe tanto com seus desejos que o mesmo até agarra e beija a esposa, para espanto desta. 

Inclusive, em uma cena na qual Susana, vestida de maneira sensual e provocante, está limpando os vidros do armário no qual Guadalupe guarda as suas armas, vemos o fazendeiro limpar o cano da arma com um pedaço de pano, enquanto a aponta para Susana, o que é, claramente, uma alusão ao ato de masturbação masculina. 

Esse Buñuel... 

Guadalupe também diz para Jesús que este avise aos demais funcionários da fazenda para que não paquerem essa jovem 'bela e inocente', pois apenas ele queria fazer isso, é claro. E é claro que Jesús obedece, pois ele também tem um forte sentimento por Susana, embora ela rejeite as suas 'cantadas'.

Assim, Jesús, empregado de Guadalupe, é outro que sente-se irresistivelmente atraído por Susana, chegando a perseguir a jovem quando esta vai buscar os ovos que haviam sido chocados pelas galinhas. Nesta cena, Jesús abraça Susana, que esmaga alguns ovos que ela tinha em seu vestido, fazendo com que um líquido escorra sobre as suas belas pernas, numa clara alusão ao ato e ao prazer sexual. 
Dom Guadalupe usa um pano para limpar o cano do seu fuzil, enquanto aponta o mesmo para a jovem, bela e sensual Susana. Esse Buñuel...
Mas embora rejeite as tentativas de Jesús, com Alberto, filho de Dom Guadalupe, ela age de maneira diferente, procurando se insinuar para cima dele que, é claro, também sente-se fortemente atraído por Susana. Até antes de conhecer Susana, Alberto era o típico filho estudioso, obediente, inteiramente respeitoso para com os pais. A chegada de Susana irá, no entanto, promover uma grande mudança em sua personalidade, fazendo com que aspectos até então desconhecidos da mesma (desejo sexual, ódio, vontade de independência) passem a vir à tona. 

Jesús, por sua vez, encontra-se com alguns policiais que procuram por uma jovem bonita que fugiu há dois dias do reformatório. É claro que ele percebe que estão falando sobre Susana, mas ele diz que não viu ninguém assim. E é mais do que previsível que Jesús vai usar essa informação para chantagear Susana, a fim de conseguir se relacionar sexualmente com ela, o que ele acaba conseguindo.

Porém, Susana rejeita totalmente as investidas posteriores de Jesús, pois seu interesse se volta para Dom Guadalupe, que é o dono da fazenda. Como se percebe, ela é bem ambiciosa. Afinal, porque ela se contentará em ficar com o empregado, se poderá conquistar o patrão?

E é evidente que Dom Guadalupe também irá se sentir atraído por Susana e isso é tão evidente que ele pede para que ela passe a usar roupas mais 'recatadas'. Como se isso fosse resolver alguma coisa... É claro que não vai, tal como a empregada irá perceber. 
Susana é uma mulher independente, cuja única preocupação é com o seu prazer sexual. Para ela, os homens são meros instrumentos para que lhe proporcione o mesmo, manipulando-os na cara-dura para atingir os seus objetivos. E é claro que ela não consegue, depois, controlar as paixões que desencadeia nos mesmos, tal como aconteceu com Alberto, o filho de Dom Guadalupe.
A empregada, Felisa, claramente representa o conservadorismo da Igreja, que condena como sendo um verdadeiro pecado diabólico a prática do sexo por mero prazer, que é a própria razão de viver de Susana, uma mulher independente que se preocupa apenas com a busca do prazer sexual, pouco se importando com as consequências negativas dos seus atos. 

Afinal, o problema não são as roupas, mas a beleza, juventude e a sensualidade naturais de Susana, que deixa os homens totalmente malucos, levando-os a cometer atos que, em situações normais (ou seja, quando os seus desejos estão sob controle) eles jamais o fariam. E Dom Guadalupe, inclusive, manda Jesús manter os empregados da fazenda longe de Susana pois esta seria 'boa e inocente'.

Até Carmen estranha quando o marido lhe diz para falar com Susana a respeito das roupas que esta usa, pois ela pensa que Guadalupe somente se interessa por cavalos e éguas... Bem, antes de Susana chegar à fazenda, pode ser que isso fosse verdade, mas agora a situação ficou bem diferente, algo que Carmen irá descobrir mais adiante. 

Como se percebe, a empregada, Felícia, é a única que percebe que Susana não tem nada de 'jovem e inocente'. E só para confirmar as suspeitas de Felicia, Susana sempre abaixa a alça do vestido quando vai ao encontro de Dom Guadalupe e de seu filho, Alberto. 
Susana simulou uma queda, apenas para fazer com que Dom Guadalupe acariciasse a sua perna. Jovem, bela, sensual, provocante, manipuladora. Essa é a Susana de Buñuel.
Assim, ela consegue seduzir e conquistar Alberto, que a beija e se apaixona perdidamente por ela. Porém, Alberto percebe que Jesús também possui um forte interesse por Susana, que acaba sendo chantageado por este, tendo que se relacionar com ele, mesmo contra a sua vontade, senão ele contaria a verdade a respeito dela para Dom Guadalupe.

Posteriormente, quando viu que Guadalupe estava caçando, ela fingiu ter se machucado e fez com que o fazendeiro acariciasse a sua perna, manipulando-o de forma descarada, tal como fez com o filho do fazendeiro. E é claro que Dom Guadalupe também acabará se apaixonando por esta jovem 'bela, asseada, recatada e inocente jovem'.

Assim, os três homens mais importantes da fazenda acabam sendo conquistados por Susana, que não resistem à sua beleza, juventude, sensualidade e fúria sexual. 

Em função disso, os homens da fazenda (Guadalupe, Alberto e Jesús) acabam ficando cada vez mais irritados e nervosos com a situação, pois desejam possuir Susana, tendo-a apenas para si. E é evidente que isso não é possível. 

Até Carmen, a esposa e mãe dedicada e fiel (esta, sim, recatada e do lar), acaba sendo maltratada pelo marido e pelo filho, pois ambos, tal como Jesús, estão perdendo a cabeça por culpa de Susana.
Jesús, empregado de Dom Guadalupe, não resiste aos encantos da bela e sensual Susana, chegando até a chantagear a jovem para que se relacionasse sexualmente com ela.
E é claro que tudo isso irá desencadear uma sucessão de conflitos entre todos eles, bem como com a esposa de Guadalupe, Carmen, e até com a empregada, Felisa, que percebe que todas as suas suspeitas a respeito de Susana acabaram se confirmando.

Desta maneira, Carmen acabará vendo o marido beijar Susana e descobre que o filho, Alberto, também se apaixonou intensamente pela bela jovem. Alberto e Jesús também tiveram um desentendimento e quase brigaram por 'culpa' de Susana. E até mesmo Dom Guadalupe e Alberto, pai e filho, quase que chegaram às vias de fato porque ambos estavam apaixonados pela manipuladora Susana.

Jesús, por sua vez, acaba sendo mandado embora da fazenda quando Dom Guadalupe descobriu que o mesmo pressionava Susana para que ela tivesse um romance com ele. Mesmo assim, Jesús voltou para a fazenda, chegando a ameaçar Susana, caso esta o rejeitasse. 

Assustada com as paixões que desencadeou em Jesús e Alberto e que ameaçam se voltar contra ela, Susana busca por Dom Guadalupe, o qual ela percebe ser o único que poderá protegê-la dos demais. E nesta cena ela chega a se ajoelhar perante o fazendeiro, o que é outra alusão ao ato sexual. 
Dom Guadalupe se apaixona perdidamente por Susana e chega até a decidir pela expulsão da esposa (Carmen) de sua casa, para que pudesse ficar com a bela jovem apenas para si.
Assim, mesmo Dom Guadalupe chega a se iludir quanto aos verdadeiros sentimentos e desejos de Susana. Afinal, para esta, os homens lhe são úteis apenas enquanto se dispõem a lhe proporcionar o prazer sexual que tanto ambiciona, não passando de meros joguetes em suas mãos. 

Assim, Dom Guadalupe, que anteriormente concedera à esposa (Carmen) o direito de contratar e despedir os funcionários que trabalhavam dentro da casa, humilhou a esposa na frente de todos, obrigando-a a aceitar a permanência de Susana na casa, mesmo depois que Carmen já havia mandado a jovem embora.

Desta maneira, o 'demônio' em forma de mulher, que é Susana e que foi libertado de sua prisão por Deus, provocou a discórdia e o conflito entre todos os membros desta família que, até antes da sua chegada, vivia feliz e em clima de total respeito e harmonia.

Aqui me parece que Luis Buñuel faz uma clara referência ao 'Apocalipse', onde é dito que Deus libertou o Diabo da sua prisão e que permitiu que ele gerasse conflitos e discórdias entre os seres humanos, antes que seja definitivamente aniquilado.

Mas a jovem Susana é ameaçada por Jesús, que retorna à fazenda. Atemorizada, ela decide que a única pessoa que pode protegê-la é Dom Guadalupe, o mais poderoso chefe local. Com isso, ela diz que o ama.
Alberto observa Jesús perseguir a jovem e provocante Susana. Esta desencadeou paixões intensas nos homens da fazenda, fazendo com que todos entrassem em conflito. 
Desesperada, Carmen pede ajuda divina, implorando para que o Todo-Poderoso faça algo que resolva aquela situação, que ameaça destruir a sua família. 

Carmen confronta Susana, mandando-a embora da casa e agredindo-a, mas a jovem a enfrenta e diz que se ela insistir nessa atitude ela mesma, Susana, fará com que Dom Guadalupe expulse a sua esposa da casa.

E era exatamente isso que o fazendeiro, loucamente apaixonado por Susana, iria fazer quando Jesús, percebendo que Susana não ficará com ele, leva a polícia para a fazenda e conta a verdade a respeito dela para todos.

Com isso, ao descobrir a verdade sobre Susana, Dom Guadalupe permite que ela seja levada embora.

O 'demônio' (Susana) foi expulso e, com isso, a harmonia e a felicidade voltaram a reinar naquela família, como se absolutamente nada tivesse acontecido.

As tempestades acabaram, o Sol voltou a brilha e até a égua, que estava à beira da morte, se recuperou. 

As instituições funcionaram (Polícia, Justiça, Família, Igreja) e as paixões humanas foram devidamente reprimidas e sufocadas.

Fim.
Carmen ataca Susana, que desestruturou a sua vida e de seus familiares. No fim, ela implora a Deus, para que ajude a salvar a sua família e acaba sendo atendida.  
Links:

Informações sobre o Filme: 


Lista de 21 filmes da fase mexicana da obra de Luis Buñuel:


Frases:

1) Guadalupe: Homens são como potros mal domados. Nunca se sabe como irão reagir.

2) Felísa: Nem um hábito de freira deixaria essa menina recatada.

Informações Adicionais:

Título: Susana;
Diretor: Luis Buñuel;
Roteiro: Manuel Reachi; Jaime Salvador; Rodolfo Usigli; Luis Buñuel;
Duração: 83 minutos;
Ano de Produção: 1951; País de Produção: México;
Elenco: Fernando Soler (Guadalupe, fazendeiro); Rosita Quintana (Susana); Victor Manuel Mendoza (Jesús, empregado); Maria Gentil Arcos (Felisa, empregada); Luis Lopez Somoza (Alberto, filho de Guadalupe); Matilde Palou (Carmen, esposa de Guadalupe); Rafael Icardo (Don Severiano, veterinário).
Música: Raul Lavista;
Fotografia; Jose Ortiz Ramos.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Luis Bunuel: 'Assim é a Aurora' conecta histórias de amor com a luta de classes de forma sensível e inteligente! - Marcos Doniseti!

Luis Bunuel: 'Assim é a Aurora' conecta histórias de amor com a luta de classes de forma sensível e inteligente! - Marcos Doniseti!
'Cela S'Appelle L'Aurore' (1956): Este belíssimo filme do genial Luis Bunuel é a primeira parte de uma trilogia, que também reúne 'A Morte No Jardim' (1956) e 'Os Ambiciosos' (1959). 
Assim é a Aurora' é um belíssimo filme e também é um dos mais acessíveis e fáceis de assistir da vasta e genial obra do grande Luis Bunuel, embora no mesmo estejam presentes características que a marcam profundamente, como as críticas feitas à Burguesia e à Igreja, bem como temos muitos elementos que levam o espectador a refletir sobre o significado da presença dos mesmos no filme (os gatos, uma pequena tartaruga...).

A trama do filme se desenvolve na França, em um povoado de uma pequena ilha da Córsega, e que está longe de tudo, principalmente da vida agitada das grandes cidades.

Mas, no povoado que aparece no filme vemos, porém, uma espécie de microcosmo da sociedade burguesa capitalista, à qual Bunuel faz duras e impiedosas críticas, embora isso seja feito de uma forma elegante, em alguns momentos, e mais crua em outros.

A luta de classes, a aliança entre a Igreja e Burguesia, a exploração e pobreza dos trabalhadores, a submissão da Justiça e da Polícia (logo, do Estado) aos interesses burgueses estão presentes nesta bela obra de Bunuel.

Inclusive, na cena que abre o filme, vemos um grupo de crianças brincando de correr atrás de uma outra criança que faz o papel subversivo ou revolucionário e que acaba sendo presa. E quando o 'subversivo' estava para ser fuzilado, aparece um outro grupo de crianças que apedreja o local, a fim de libertar o seu companheiro que está prestes a morrer.
Valerio, ao centro, é o médico que trabalha visando ajudar a população pobre de um povoado da Córsega, como é o caso de Magda e Sandro, que trabalham na fazenda de um rico, poderoso, insensível e imoral burguês (Gorzone).  
O recado é claro, com Bunuel defendendo o direito do povo de se revoltar contra classes sociais e governos de natureza tirânica ou ditatorial, mesmo que seja necessário usar da violência revolucionária para isso.

Em função disso, estudiosos da obra de Bunuel apontam 'Assim é a Aurora' como sendo a primeira parte de uma trilogia, que também inclui 'La Mort en ce Jardin' ('A Morte no Jardim', 1956) e 'La Fièvre Monte à El Pao' ('Os Ambiciosos, 1959). Nestes três filmes, Bunuel defende uma estratégia de luta de caráter revolucionário, que promova a destruição da sociedade capitalista. 

A história do filme gira em torno da ação de um poderoso burguês (industrial e fazendeiro), Gorzone, que explora sem hesitar os trabalhadores que emprega e que não demonstra nenhuma sensibilidade frente aos problemas que eles enfrentam. 

Um destes trabalhadores é Sandro Galli, que trabalha na fazenda de Gorzone, onde vive junto com a sua amada esposa, Magda. Esta se encontra gravemente doente e, em função disso, Sandro passa a relaxar no trabalho, deixando de fazer as atividades necessárias.
Valerio e a sua esposa, Angela, uma pequena burguesa que está infeliz e insatisfeita, pois o marido se preocupa mais em ajudar a população pobre do povoado do que em fazê-la feliz. Ela prefere a vida em Nice, cidade grande, onde possui muitos amigos burgueses, ricos, que frequentam os mesmos lugares (teatros, restaurantes...). Seu desprezo pelos pobres dos quais Valerio cuida é bem evidente.  
Gorzone visita a fazenda, constata que o trabalho na mesma não é realizado há vários dias, fica irritado com o fato e demite Sandro, ordenando que o mesmo deixe a fazenda, pois já contratou outro trabalhador para ocupar o seu lugar (o exército de reserva de mão-de-obra está aí para isso mesmo...).

O poderoso burguês Gorzone também abusa do seu poder para paquerar, na cada-dura, uma enfermeira que trabalha em sua indústria, onde ocorreu um acidente que feriu mais de 40 trabalhadores (logo, não existe preocupação alguma com a segurança no trabalho).

Até mesmo a sua esposa reclama do seu comportamento, bastante indiscreto, dizendo que todos já estão sabendo do que está acontecendo, mas ele não dá a mínima, tratando de minimizar o fato, desprezando a reclamação da esposa.

E mesmo assim ela se submete ao marido, afinal ela pode continuar desfrutando da riqueza e do prestígio que são decorrentes do fato de ser casada com um rico e poderoso membro da burguesia, mesmo que este se revele uma pessoa desonesta e infiel. Aliás, ela nem sequer pede que Gorzone lhe seja fiel, mas apenas que ele seja 'discreto' em seu caso com a enfermeira, que já chegou ao conhecimento de todos. 

Mas nem essa simples reclamação ele aceita, como se o imenso poder do qual desfruta na sociedade lhe desse o direito de fazer o que bem entende, sem dar satisfação à ninguém, nem mesmo à sua esposa, demonstrando o seu caráter desonesto, aético e imoral.
Clara (interpretada pela belíssima Lucia Bosé) e Valerio sentiram uma forte atração logo na primeira vez em que se encontraram. Eles tem uma postura ambígua durante quase todo o filme, pois enquanto convivem com pessoas da burguesia, também mantém laços afetivos com os membros do proletariado. Mas no final do filme, quando os conflitos entre Gorzone/Burguesia/Justiça/Polícia X Sandro/Proletariado explode, eles acabarão escolhendo um dos lados. 
Outra trama importante que vemos no filme, e que se conecta com os conflitos entre o burguês Gorzone e o proletário Sandro, se dá em torno da vida do Dr. Valerio, que trabalha ali apenas e tão somente com o objetivo de oferecer assistência médica à paupérrima população da localidade que é muito pobre e que não tem a menor condição de pagar pelos seus serviços.

Valerio é casado com uma típica pequena burguesa, Angela, que o ama intensamente, mas que se cansou totalmente da tediosa e monótona vida na ilha, bem como do fato de que ele não tem mais tempo livre para ela. Assim, ela tenta convencer o marido a ir embora dali, para Nice, cidade bem maior, mais rica e com muito mais atrativos para ela (museus, teatros, restaurantes, amigos burgueses).

Porém, Valerio somente aceita deixar o local caso consiga um substituto, pois não quer deixar a população local sem assistência, o que não é nada fácil, é claro, pois não são todos os médicos que se sujeitam a trabalhar em benefício dos mais pobres e sem ganhar nada por isso.

Com isso, Angela decide ir para Nice, onde vai morar junto com o seu pai, e deixa Valerio sozinho por ali, o que acaba se revelando um grave erro, pois o mesmo acaba conhecendo uma jovem e belíssima viúva (Clara), que é interpretada pela belíssima e estonteante Lucia Bosé. E é claro que eles irão se sentir fortemente atraídos já na primeira vez em que se vêem.
Clara fica sabendo que Valerio é casado e diz que não há mais como ficarem juntos, mas ele insiste, pois está perdidamente apaixonado pela bela e jovem viúva. E a paixão é correspondida, o que leva ao início de um intenso romance entre os dois. 
Este primeiro contato acontece quando um velho tentou abusar da sua neta, uma criança, e a polícia convocou o Dr. Valerio para prestar atendimento à garota. 

Clara estava presente no local e acaba ajudando Valerio, bem como ganha uma carona dele até casa do irmão, na qual passou a residir depois que o seu marido faleceu. E a forte atração que sentem leva-os a combinar de se encontrar novamente no dia seguinte.

E quem também percebe esse interesse mútuo entre Clara e Valerio é o Comissário Fasaro. Bastou ele entrar no quarto em que Valerio e Clara atendiam à garota para ele notar que havia uma forte atração entre ambos. Já nesse primeiro encontro ela tratou de informar Valerio que ela estava sozinha, que não esperava por ninguém e que é nova no povoado.

Um aspecto importante dos filmes de Bunuel, e que também está presente neste belíssimo 'Assim é a Aurora', é a natureza contraditória dos personagens.

Isso fica claro, por exemplo, quando vemos que o Comissário Fasaro dá um bronca nos policiais que tratam um preso com brutalidade e que, ao mesmo tempo, colabora com as forças dominantes da sociedade (Igreja, Burguesia), mesmo sabendo do caráter insensível e violento das mesmas.
Após se encontrarem e sentirem uma irresistível atração, Valerio e Clara iniciam um romance. Eles tentam ser discretos, mas em pouco tempo um número cada vez maior de pessoas irá descobrir a respeito do relacionamento deles. 
E este mesmo Comissário que está à serviço das classes dominantes, tem um quadro de Salvador Dali (mostrando Cristo crucificado) e um livro do poeta Paul Claudel em seu escritório, bem como gosta de compor as suas próprias poesias, embora elas não sejam lá grande coisa. 

A natureza contraditória dos personagens de Bunuel é um aspecto que também está presente em muitas outras obras suas, tal como ocorre em 'Viridiana' e em 'Tristana', por exemplo. E o mesmo ocorre com outros personagens deste belo filme que é 'Assim é a Aurora'.

Quando Valerio vai encontrar Clara, no dia seguinte, ela não quer mais nada com ele, pois a mesma descobriu que Valerio é casado. Mas ele insiste e fica claro que está perdidamente apaixonado por ela, sendo que ela corresponde à sua paixão. 

Desta maneira, eles iniciam um intenso romance, mas procurando ser bastante 
discretos, de maneira a que ninguém fique sabendo do mesmo.

Mas, logo depois, Pietro vai até a casa do irmão de Clara, para avisar Valerio de que Magda está muito mal. Valerio quer saber como é que este descobriu a sua presença ali, e ele diz que recebeu a informação do Comissário Fasaro.
Gorzone, o burguês explorador, desonesto, insensível e imoral, Azzopardi, seu pau-mandado e Pietro, proletário e grande amigo de Sandro, que o ajuda sempre que necessário. 
Fica nítido também que o Dr. Valerio tem grandes dificuldades para romper com os valores burgueses, pois ele não quer se divorciar da esposa, à qual não deseja fazer sofrer com um dolorida separação, mesmo tendo um romance muito intenso com Clara, que é a mulher a qual verdadeiramente ama.

Valerio é como a pequena tartaruga que levou para Clara, que caiu de costas no chão e que tem grandes dificuldades para se virar e caminhar por sua própria conta. E Valerio tem imensas dificuldades para conseguir romper com os valores de sua classe social, que o obrigam a ficar com a esposa e esquecer da amante, Clara, mesmo sendo esta a mulher que verdadeiramente ama.

Valerio tenta convencer Clara de que o melhor é que todos eles devem ir embora para Nice, onde o romance entre eles será mais fácil (afinal, é uma cidade grande...), mas ela diz que Valerio não saberá mentir para a esposa e chora. Mas Valerio diz que ninguém conseguirá separá-lo de Clara.

Porém, Magda acaba falecendo, o que provoca uma reviravolta na história. A sua morte ocorreu depois que ela e Sandro foram expulsos da fazenda por Gorzone. Essa expulsão acabou acontecendo mesmo depois que Gorzone havia prometido ao Dr. Valerio que Sandro e a esposa poderiam continuar morando e trabalhando em sua fazenda.
A morte da esposa, Magda, levou Sandro a se vingar de Gorzone, que os havia expulsado de sua fazenda, obrigando-os a ir embora do local. Magda, bastante doente, morreu durante a viagem, deixando Sandro inconsolável.
A mentira de Gorzone e a morte de Magda, quando a mesma estava sendo transportada para a casa de Pietro, amigo dela e de Sandro, faz com que o marido fique inconsolável.

Extremamente revoltado e indignado com a situação, Sandro decide se vingar de Gorzone, a quem responsabiliza pela morte de Magda, indo até a mansão deste, onde o mesmo dava uma festa da qual participavam outros burgueses ricos, bem como alguns membros da Igreja, mostrando claramente a aliança existente entre a Igreja e a Burguesia.

Um dos religiosos pede que Sandro, armado com um revólver, vá embora, mas o mesmo desfere três tiros em Gorzone, que acaba morrendo ali mesmo, logo depois da chegada do Dr. Valerio ao local para lhe prestar atendimento, que acabará sendo desnecessário.

Desesperado, Sandro acaba indo até a casa do Dr. Valerio e encontra-se com Clara, que havia escrito e levado um bilhete para o amante. Ele fica escondido e vê quando Valerio chega à casa, levado pelo Comissário Fasaro.
Valerio ama Clara de forma muito intensa, mas se recusa a se separar da esposa, Angela, mostrando que tem dificuldades em romper com os seus valores burgueses. Eles não querem que Angela sofra, mas ambos sofrem com a ideia de ficarem separados. 
E o Comissário deseja um 'boa noite' em tom irônico para Valerio, olhando para a casa, demonstrando claramente que sabe do caso deste com a jovem e bela Clara, o que deixa Valerio irritado pela ironia que o mesmo usou. E Clara informa Valerio da presença de Sandro na casa, escondido no jardim.

Obs1: Sandro, o assassino, está no jardim. E o filme que integra a segunda parte desta trilogia de Bunuel se chama justamente 'A Morte no Jardim'.

Valerio e Clara decidem esconder Sandro num quarto dos fundos da casa do médico. Ela diz que Sandro amava Magda e Valerio fala que teria feito o mesmo, se estivesse no lugar do amigo.

Assim, foi somente quando os membros da pequena burguesia (Clara e Valerio) se identificaram com a situação de pobreza, miséria, injustiça e violência em que o casal de proletários (Sandro e Magda) vivia é que eles romperam com os valores, ideias e interesses da Grande Burguesia (Gorzone), deixando de caminhar a reboque desta.
O comissário Fasaro, fumando, foi o primeiro a notar a forte atração existente entre Clara e Valerio e a perceber que eles haviam iniciado um romance. Ele condenava a brutalidade policial e escrevia poesias, mas não hesitava em colocar a força ao lado dos interesses das classes dominantes, da Igreja e da Burguesia. 
Assim, há uma clara identificação de Valerio/Clara com a situação vivida por Sandro/Magda. O que aconteceu com o casal de proletários, também poderia acontecer com eles. 

Afinal, Valerio e Clara se amam de forma tão forte e intensa quanto Sandro e Magda se amavam e eles poderiam, muito bem, estar no lugar do casal proletário que foi vítima das injustiças e violências de Gorzon, o burguês imoral e insensível.

Obs2: De fato, a história está repleta de exemplos (Revolução Francesa, Revoluções Liberais do século XIX) em que a pequena burguesia, quando é explorada, torna-se vítima de injustiças e de violências e se transforma em uma força revolucionária, ela também acaba sendo vítima da brutal repressão desencadeada pelos governos que estão a serviço dos interesses do Grande Capital.

Para ajudar Sandro, ele correu o risco até de ser preso, junto com Clara, para poder ajudar aquele pobre trabalhador, Sandro, que decidiu fazer justiça com as próprias mãos, pois este sabia que a Justiça jamais faria qualquer coisa contra o rico, poderoso, influente, desonesto e imoral burguês que é Gorzone.
Luis Bunuel, de camisa branca, e Lucia Bosé, sentada, no set de filmagem de 'Assim é a Aurora'. 
É como se Bunuel estivesse dizendo que as ações revolucionárias até podem contar com a participação da pequena burguesia, mas é o proletariado que tem que tomar a liderança e conduzir a Revolução. Valerio também decide pedir a ajuda de Pietro (outro trabalhador de origem humilde), que é um grande amigo de Sandro, e eles decidem tirá-lo da ilha no barco de um primo de Pietro, que o levará para o continente na noite seguinte.

No dia seguinte, na delegacia, o Comissário fala para Valerio que não há como Sandro fugir, pois o porto está tomado por policiais e que se alguém esconder e proteger Sandro acabará se dando mal por isso, o que é um claro recado a Valerio, que é muito amigo do fugitivo, fato este que é do conhecimento do Comissário, é claro.

Enquanto isso, Angela e seu pai chegam à ilha e Valerio sequer se dá ao trabalho de ir recebê-los, mostrando claramente o crescente afastamento que ele sente em relação à esposa e aos valores que a mesma representa. 

O pai dela fica desconfiado sobre a presença de alguém em um quarto dos fundos e, colocado contra a parede, Valerio confessa que está protegendo e escondendo Sandro. E mesmo pressionado por Angela e o pai desta, ele se recusa a entregar Sandro para a polícia, o que vai provocar o fim do seu casamento.
Matéria sobre este ótimo filme do genial Luis Bunuel. Notem a cotação do filme: A 'Centrale Catholique' diz 'para adultos, com reservas', devido às críticas de Bunuel à Igreja que estão presentes no filme. Sem falar dos quadros de Salvador Dali que aparecem no mesmo...
Angela e o seu pai estão convencidos de que a ruptura com Valerio se dá por culpa da proteção deste a Sandro, mas eles desconhecem o romance entre Valerio e Clara. Valerio até tentou falar para Angela a respeito do seu caso com Clara, mas não conseguiu.

Obs3: Na sala em que Valerio discute com Angela e o pai desta há um quadro que mostra um castelo medieval, um feudo, portanto. Esta é uma forma de Bunuel mostrar que o tema principal do filme é a luta de classes e que a mesma tem raízes históricas.

Assim, foi necessário que o proletário (Sandro) tomasse a iniciativa de atacar o burguês (Gorzone), para que o membro da pequena burguesia (Valerio) rompesse com a classe dominante e se aliasse aos trabalhadores explorados.

Quando a polícia, devidamente avisada por Angela e seu pai, vai até a casa de Valerio, com um mandado judicial para ver se Sandro se encontra escondido por lá, o médico não se opõe. 
Magda, esposa doente de Sandro, e um gato. Os gatos estão presentes neste filme de Bunuel e talvez passem a ideia de que, tal como os pobres moradores do povoado, eles também precisam de alguém que cuide deles, que os proteja e os ajude. 
Afinal, Valério e Clara já fizeram a sua escolha, já optaram por um dos lados conflito que ocorre entre a burguesia (Gorzone) e o proletariado (Sandro), fechando uma aliança com a classe revolucionária (o proletariado) e estão dispostos a pagar o preço pela opção que fizeram. 

Mas Sandro fugiu, acabou perseguido e cercado pela Polícia, preferindo cometer suicídio no final, para evitar que Valerio e Clara fossem prejudicados. Valerio e Clara lamentam a morte do amigo e aliado.

E a falsidade e hipocrisia do Comissário Fasaro ficam explícitas no final, quando ele diz para Valerio que sente muito pela morte de Sandro mas, logo na sequência, chama o mesmo de 'porco' e agradece pelo fato que Sandro guardou a última bala  do revólver para se matar.

Com a fuga e morte de Sandro, Valerio e Clara se livram da prisão e caminham ao lado de Pietro e de outros proletários, que são os seus novos aliados na luta pela transformação revolucionária da sociedade.

Fim.
Valerio (pequeno burguês) e Pietro (operário), dois grandes amigos de Sandro, de classes sociais diferentes, mas que se unem para ajudar o amigo proletário a fugir. A pequena burguesia e o proletariado se unem para combater a burguesia. 
Informações Adicionais:

Título: Cela S'Appelle L'Aurore ('Assim é a Aurora');
Diretor: Luis Bunuel;
Roteiro: Luis Bunuel e Jean Ferry (adaptação do romance de Emmanuel Robles);
Duração: 98 minutos;
Ano de Produção: 1956; País de Produção: França/Itália;
Elenco: Lucia Bosé (Clara Bernacci); Georges Marchal (Dr. Valerio); Jean-Jacques Delbo (Gorzone); Giani Esposito (Sandro Galli); Nelly Borgeaud (Angela); Julien Bertheau (Comissário Fasaro); Brigitte Eloy (Magda); Roberto Le Fort (Pietro); Henri Nassiet (pai de Angela); Simone Paris (esposa de Gorzone); Pascal Mazzotti (Azzopardi); Gaston Modot (novo empregado da fazenda); Yvette Thilly (Delphine). 

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