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domingo, 21 de julho de 2019

O Cinema Novo Polonês e a sua história!

História do Cinema Novo Polonês! - por Mateusz Werner!
A Escola de Cinema Polonesa e alguns dos seus principais representantes reunidos no Festival de Cannes, em 1990: Andrzej Zulawski, Andrzej Wajda, Agnieska Holland, Roman Polanski, Ryszard Bugajski e Krzysztof Kieslowski.

Do site "Culture.Pl".


A situação do cinema polonês mudou drasticamente após a virada de 1989 ...
Conteúdo:

I. A era comunista | II. 1989 | III A descoberta.

I. A era comunista!

Se olharmos para os filmes feitos na República Popular da Polônia sem preconceitos (temos o direito de o fazer agora mais do que nunca), verifica-se que o sabor particular deste cinema está na presença esmagadora da política e da ambição artística.
Sem julgar se a especificidade polonesa era de fato uma aflição de toda a região cultural da Europa Oriental e Central que foi absorvida pelo sistema soviético depois de 1945, ou se tinha um significado mais profundo que remonta à tradição do século 19 de lidar com a escravização por meio da cultura, defendo a tese de que esses dois pontos são indicadores-chave que definem a "essência" do cinema polonês daquele período. 

Descrevê-los pode nos ajudar a entender a mudança que ocorreu no lugar do cinema depois de 1989.
Os cineastas, que procuraram estabelecer um relacionamento com um público mais amplo, acharam-no incorporado na crítica política mais ou menos complicada da situação contemporânea.
A criação da própria linguagem quase universalmente significava estabelecer uma "linguagem esopoeana" única, usada para transmitir conteúdo suscetível à censura. Esses códigos secretos forneceram um álibi para os criadores antes das autoridades, mas foram infalivelmente decifrados pelo público.
Eles estavam profundamente enraizados no contexto histórico e foram formulados de maneira diferente no "Degelo" de 1956 do que, digamos, na era do Solidariedade.

Uma gradação da codificação das mensagens dissidentes poderia ser exibida em um gráfico: dos filmes realistas sociais de Munk e Wajda (Czlowiek na torze - Man on the Tracks; Pokolenie - A Generation), onde se podia sentir uma rajada do novo, aos filmes do início dos anos 80 que negam diretamente os fundamentos políticos da República Popular da Polônia, como 'Czlowiek z zelaza' (Homem de Ferro), ou 'Przesluchanie' (Interrogatório) de Ryszard Bugajski.
A dimensão política deste cinema é visível na coincidência do ritmo de viradas históricas com as divisões geracionais entre os artistas - em vez do termo "Escola de Cinema Polonesa", pode-se dizer "Cinema do Outubro Polonês" e todos compreendem.
Mais tarde, houve o "Cinema de Ligeira Estabilização" dos anos sessenta e - após os acontecimentos de março de 1968 - "Cinema de Inquietação Moral" que se transformaria posteriormente em "Cinema de Solidariedade" e "Cinema de Direito Marcial".
Todos esses termos associam certa estética da comunicação a um certo fragmento da história política da República Popular da Polônia, ao qual foi uma reação artística. 

Não é por acaso que esta linguagem política de descrição ainda não foi superada, pois, na verdade, ela se relaciona com a lógica do desenvolvimento do cinema polonês e se demitir dele seria um tratamento artificial e ficcional que falsificaria o quadro dos acontecimentos.
Kieslowski foi um dos mais geniais e talentosos cineastas poloneses e europeus e sua obra começou a se desenvolver na época do 'Cinema de Inquietação Moral', no Pós-68.
O segundo elemento que constitui a especificidade polonesa foi a posição invulgarmente forte do ambicioso cinema artístico que buscou novas formas de expressão na linguagem cinematográfica - formas que permitiriam, ao lado da literatura, tocar as questões existenciais e filosóficas mais importantes.
Essa atitude foi demonstrada não apenas pelos cineastas que, como Jerzy Wojciech Has ou Grzegorz Królikiewicz, segundo os melhores círculos de arte mostrados, mostraram sua ausência para o público em geral e fizeram filmes por conta própria, de acordo com os melhores círculos artísticos, 'padrões', mas também aqueles que trataram o cinema como uma ferramenta para a comunicação social.
Para Andrzej Wajda, Andrzej Munk, Kazimierz Kutz, Roman Polanski, Tadeusz Konwicki ou Jerzy Skolimowski, o ponto de referência não era o popular cinema de Hollywood, mas o Cinema Autoral europeu - o Neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague francesa ou o britânico Angry Young Men. 

Vale ressaltar que até mesmo os filmes mais leves, como comédias de costumes, dramas etc., foram julgados de acordo com os critérios adotados no cinema artístico.
Isto é o que aconteceu com a produção interessante de Stanislaw Bareja, criador de uma série de comédias nos anos 70 que ainda são muito populares hoje e alcançaram um status cult. Ele foi ferozmente atacado por seu gosto convencional e burguês e foi considerado sem talento, embora tenha começado na categoria de entretenimento, um rumo diferente dos que foram explorados por Krzysztof Kieslowski ou Krzysztof Zanussi.
Claro, o cinema de entretenimento apolítico também foi feito na Polônia, assim como o tipo politicamente correto. Mas isso passou ao esquecimento, sem ter mexido em nenhuma emoção. 

Os cineastas que se subordinaram aos slogans de propaganda não eram numerosos e pertenciam à margem. Não havia personalidades fortes ou talentos maiores entre eles. Certamente, o trabalho de Sylwester Checinski foi um certo fenômeno.

Ele foi o criador de comédias imensamente populares e, ao mesmo tempo, politicamente seguras. Outros, como Jan Lomnicki ou Jerzy Gruza, foram responsáveis ​​por várias séries de TV. O primeiro cineasta que queria fazer, via de regra, apenas entretenimento bom e puro da maneira ocidental e tinha a centelha divina dentro de si mesmo, era Juliusz Machulski, que estreou no início dos anos 80.
Mas mesmo em suas comédias mais leves, as pessoas viram um diálogo estilístico sutil com a convenção de filmes de gângsteres (Vabank - Hit the Bank), ou alusões políticas (Seksmisja - Sexmission). O tom do Cinema Polonês foi transmitido por artistas e, por esse motivo, artistas politicamente engajados.
Andrzej Wajda estudou na Escola de Cinema de Lódz, tal como outros cineastas poloneses.

II. 1989!

Esta situação mudou drasticamente após a transformação de 1989.

A mudança do sistema político para a democracia fez com que o cinema perdesse o status de fórum público, um substituto não oficial de uma troca de idéias gratuita. A política saiu dos clubes de cinema e das casas de arte para o parlamento. 
Os artistas, assim como os sacerdotes, deixaram de ser os “falantes da nação” e, portanto, perderam o sentido singular de sua posição e missão pública. Muitos deles simplesmente se voltaram para a política e foram eleitos para o Parlamento. Apesar das implicações individuais dessa mudança, ela teve um tremendo impacto na linguagem do cinema. 
Perdeu seu "código político cifrado" que contrabandeava a mensagem, integrando as pessoas que visitavam os cinemas para comer esse "fruto proibido". Desde 1989 foi possível dizer tudo nos filmes diretamente, sem alusões complicadas. Mas não foi necessário ir ao cinema para ouvi-lo. Era suficiente ligar a televisão e assistir aos procedimentos parlamentares. 
A nova situação também influenciou o estado mental dos "artistas puros". Eles sentiram que haviam perdido a justificativa para sua atitude solene, uma vez que o escapismo nos tempos de censura era algo diferente do que é nos tempos de liberdade de expressão e imagem.
Por outro lado, a mudança do sistema econômico para o capitalismo trouxe uma nova hegemonia - o consumidor de massa. 
Os cineastas, por medo de que o público se afastasse deles e sentissem em seus pescoços o fôlego de filmes competitivos de Hollywood que inundaram os cinemas poloneses, começaram a buscar uma nova fórmula que pudesse substituir o antigo fio político de comunicação com o público. Para os artistas sofisticados, por outro lado, o capitalismo significava dificuldades em encontrar dinheiro para seus ambiciosos experimentos. 
A atmosfera do "grande público sempre tendo razão" não permitia uma atitude tão elevada, especialmente porque os meios financeiros ainda estavam fluindo principalmente do orçamento do Estado, não das contas de clientes ricos que poderiam financiar suas fantasias. Tudo isso representou grande desconcerto entre os cineastas políticos e artísticos. 
Naquela época, muitos projetos foram feitos na tentativa de misturar as ambições artísticas e comerciais e alcançar um compromisso entre o cálculo das expectativas do público e as experiências artísticas originais. O "Cinema de Autor Popular", internamente contraditório e, por isso, insincero, cheio de idéias artificiais forçadas, era um reflexo da situação organizacional e financeira em que se encontrava a cinematografia polonesa. 

O aparato de produção e o sistema de financiamento estavam aptos para o cinema original, enquanto as expectativas da audiência projetada eram "populistas" e "orientadas para a massa".
Catherine Deneuve e Roman Polanski em 1967. Ela foi a protagonista do clássico 'Repulsion' (Repulsa ao Sexo; 1965).

Esta nova situação no início dos anos 90 foi melhor enfrentada pelos estreantes. 

Por um lado, temos Wladyslaw Pasikowski, autor de Psy (Porcos) e Psy 2 (Porcos 2), o maior sucesso comercial da época. Como diretor, ele conscientemente decidiu fingir o cinema de ação americano em um ambiente polonês. 
Além disso, ele criou, através de seus personagens, a maior estrela masculina dos anos 90 - Boguslaw Linda, que hoje é conhecida por interpretar personagens implacáveis ​​e brutalmente durões. 

Por outro lado, há Jan Jakub Kolski, que constrói consistentemente paisagens rurais fundidas com a atmosfera fantástica e mágica de seus filmes que, apesar de sua sofisticação artística e narrativa especificamente lenta, conquistaram uma grande audiência, especialmente o carro-chefe Jancio Wodnik (Johnny Aquarius). ) que foi mostrado em Cannes, fora da competição.
O sucesso desses dois artistas tornou-se um sinalizador em meados dos anos 90 para muitos cineastas que buscavam seu lugar nessa nova situação. 
Pasikowski tinha muitos imitadores, como Jaroslaw Zamojda ou Olaf Lubaszenko, cujo objetivo era atingir o público mais jovem, fascinado com novos fenômenos que eram conhecidos apenas de filmes americanos, como o crime organizado, o cotidiano de bandidos, o luxo de financiamentos financeiros iniciantes e elites sociais, etc.

Em seguida, o trabalho de Kolski criou uma moda para o cinema em 'estilo tcheco' que apresenta, com humor e ironia, as vidas de 'pessoas comuns' em algum lugar da província, onde o tempo parece fluir de maneira diferente.
Essa moda já se foi. 'Pessoas comuns' são mostradas sem poupar qualquer severidade, por exemplo em Czesc Tereska (Hi, Tereska) por Robert Glinski, Edi por Piotr Trzaskalski ou Zurek (Sopa azeda) por Ryszard Brylski.
O próprio Kolski testou sua força além de seu estilo característico em adaptações de livros de Hanna Krall ('Daleko od okna' - 'Keep Away from the Window') ou Witold Gombrowicz ('Pornografia' - Pornografia). O mais novo filme de Kolski, 'Jasminum', embora muito bem recebido pelo público, retorna ao antigo idioma, beirando a auto-paródia.
Entre os pares de Kolski, que, apesar das tentações do populismo, permaneceram fiéis às suas escolhas artísticas desde o momento da sua estreia, há pessoas como Mariusz Trelinski e Dorota Kedzierzawska. Seus filmes sofisticados, precisos e característicos quase sempre atraíram os críticos, mas raramente chegaram a um público mais amplo.
Jerzy Skolimowski foi outro cineasta importante da Escola Polonesa.

III A descoberta!

No final dos anos 90, houve um avanço no cinema polonês.
Duas grandes produções baseadas em clássicos da literatura polonesa - Ogniem i mieczem (Com Fogo e Espada, 1999) de Jerzy Hoffman, baseado em um romance de Henryk Sienkiewicz, e Pan Tadeusz (Pan Tadeusz: A Última Jornada na Lituânia, 1999) por Andrzej Wajda, baseado no épico nacional de Adam Mickiewicz, foi um grande sucesso de bilheteria, mais do que todos os filmes americanos exibidos naquela época combinados. Pela primeira vez desde 1989, o cinema polaco provou que tem o seu público.
Esse sucesso de cineastas da geração mais velha encorajou outros, e logo outras adaptações se seguiram com orçamentos recordes (por exemplo, Quo Vadis, de Jerzy Kawalerowicz, cerca de US$ 22 milhões) e campanhas publicitárias até então inéditas na Polônia. A maioria deles trouxe lucros.
Ao mesmo tempo, apareceram filmes como 'Dlug' (The Debt, 1999), de Krzysztof Krauze e 'Czesc Tereska' (Oi, Teresksa, 2000), de Robert Glinski, que reconstruíram o diálogo entre os cineastas e o público que foi quebrado em o começo dos anos 90.
Em ambos os filmes, os diretores falam na convenção de uma confissão pública e o público sentiu que eles não são apenas um "grupo-alvo", mas também um parceiro em uma discussão sobre os problemas que afetam a todos que vivem "aqui".
Em seu olhar sobre o perigo do crime e da pobreza no complexo de grandes centros urbanos, os diretores assumiram a perspectiva da opinião pública.
Eles observam que o gângster que exige dinheiro de proteção não é um 'caráter negro' fotogênico e viril, mas uma ameaça real, enquanto os grupos de crianças 'desgarradas' vasculhando os vastos bairros não são um fenômeno abstrato dos documentos sociológicos, mas uma realidade.
O mais recente filme de Krzysztof Krauze, 'Plac Zbawiciela' (Praça do Salvador), vencedor do Festival de Cinema Polonês de 2006 em Gdynia, é uma continuação desta forma de diálogo, em que o espectador é tratado como parceiro e não como consumidor de sensações.
Na profunda descrição psicológica de Krauze de um conflito familiar, que é o assunto principal da história, não há divisões fáceis, semelhantes à mídia, entre os culpados e a vítima. A tragédia que ocorre no final do filme é retratada como resultado de uma situação 'normal' de uma casa 'média', que por sua vez se torna um sinal do autor de que o problema nos atinge, incluindo os criadores do filme.
No final dos anos 90, surgiu um grupo forte de jovens que já receberam sua educação cinematográfica na nova realidade.
Cena de 'Pociag' (Trem Noturno; 1959), dirigido por Jerzy Kawalerowicz.

Alguns deles, como Malgorzata Szumowska, Lukasz Barczyk, Iwona Siekierzynska, Artur Urbanski, Marek Lechki ou Dariusz Gajewski tiveram a chance de estrear na televisão pública (TVP) como parte de um ciclo "Geração 2000".
Esse nome um tanto enganador - a faixa etária desses jovens artistas é bastante grande - torna fielmente a intenção do produtor: selecionar novos indivíduos, cuja sensibilidade artística e conhecimento do mundo foram moldados ao longo dos anos 90.
Outros, como Piotr Trzaskalski, Andrzej Jakimowski ou Przemyslaw Wojcieszek, chegaram ao topo encontrando produtores privados para seus projetos ou começando pela postura semiprofissional de "fora do cinema".
Claro, seus filmes são extremamente variados. Mas há uma necessidade comum de comunicação que os vincula. Eles querem dizer ao espectador (às vezes de maneira espalhafatosa, às vezes de maneira rabugenta, às vezes em prosa simples), sua própria certeza ou incerteza, ou, para dizer de maneira arrogante, sua verdade.
Mas antes de acontecer, eles mostram ao espectador como essa verdade foi constituída, de onde veio e de que ponto de vista ela pode ser vista.
Desta forma, vejo Patrze na ciebie Marysiu (Mary) e Przemiany (Mudanças) de Lukasz Barczyk, Edi de Piotr Trzaskalski, Glosniej od bomb (Louder Than Bombs) de Przemyslaw Wojcieszek e Moje miasto (My Town) de Marek Lechki.
O primeiro grita comigo "Eu vou dizer do que eu tenho medo", o segundo resmunga "Eu vou dizer no que eu acredito", o terceiro anuncia "Eu vou dizer o que está acontecendo aqui" etc. Não há nenhuma falsa seriedade, tantas vezes encontrada entre os jovens atores, sem tensão, brincadeiras insolentes ou o habitual cálculo comercial.
Esses filmes são antes uma confissão humilde, uma tentativa de definir o próprio lugar, às vezes uma sessão terapêutica, um caderno de assuntos cotidianos ou uma cerimônia de emoções íntimas. Apesar da exibição de uma perspectiva privada, eu não chamaria esse tipo de cinema egocêntrico ou egocêntrico.
O clima intimista é antes uma reação ao imenso zumbido ideológico da mídia e à história politizada do cinema polonês.
Paradoxalmente, graças à restrição do campo de visão a uma perspectiva privada, há muita realidade circundante nos filmes das gerações mais jovens em comparação com os seus colegas mais velhos.
Dariusz Gajewski, à direita, é um dos principais cineastas poloneses no século XXI. E Agnieska Grochowska, com quem ele é casado, é uma das principais atrizes polonesas.
Uma visão nítida e satírica do tédio de cidade pequena, que se acende com o capitalista do "dinheiro novo", é desenhada em Glosniej od bomb (Louder Than Bombs) por Przemyslaw Wojcieszek.
Seu filme foi brilhantemente complementado alguns anos depois com Wesele (O Casamento), de Wojciech Smarzowski, um filme que, através de sua intransigência intransigente no retrato do moderno campo polonês, se equilibra na fronteira de um satirão anarquista.
A luta de dois estudantes com a vida é apaixonadamente e humoristicamente descrita por Iwona Siekierzynska. Na Oda do radosci (Ode To Joy) tripartida, bem recebida pelos críticos, os três diretores estreantes, Anna Kazejak-Dawid, Jan Komasa e Maciej Migas, abordam uma experiência chave da geração de seus pares - a imensa onda de emigração em busca de dinheiro entre os jovens poloneses, que são desencorajados pelo desemprego e pela implacável batalha pela sobrevivência no final dos anos 90 na Polônia.
Dariusz Gajewski, por outro lado, vencedor do Festival Político de Longa Metragem de 2003 em Gdynia, contém em sua obra Warszawa (Varsóvia) algo que há muito é esperado por todos - uma metáfora visual dos tempos modernos.
Não é, como Natalia Koryncka teria em Amok, o prédio da bolsa de valores, nem um arranha-céu de uma cidade grande, uma fazenda estatal em ruínas ou a sede da polícia, como outros a conceberam.
Não conheço um lugar que descreva nossos tempos melhor do que nossa capital, com a sede do Partido Comunista transformada em centro de negócios e o Ministério da Educação Nacional, situado na antiga sede da Gestapo.
Os criadores de Warszawa tentaram capturar essa confusão fundamental da realidade em que os poloneses agora vivem. Esse permanente encaixe de amnésia grupal e o vestir-se comum funcionam como um escape de pânico de nossa própria identidade; muito doloroso, pobre e traumatizado para suportar, estar doente e finalmente curar.
Pela primeira vez em anos, Varsóvia não pretende ser o pano de fundo de um filme sobre os ricos, os atletas de hooligan ou os europeus, mas precisamente Varsóvia, um lugar que fala por si. E este é o verdadeiro triunfo do cinema sobre a realidade.
Autor: Mateusz Werner
Do catálogo "Young Polish Cinema" publicado pelo Instituto Adam Mickiewicz, junho de 2007.

Cinema Novo Polonês:

terça-feira, 20 de setembro de 2016

'Pokolenie' ('Geração'): Andrzej Wajda mostra a luta do povo polonês contra a dominação nazista! - Marcos Doniseti!

'Pokolenie' ('Geração'): Andrzej Wajda mostra a luta do povo polonês contra a dominação nazista! - Marcos Doniseti!
'Pokolenie' (1955): Filme de Andrzej Wajda mostra uma versão da luta dos poloneses contra o domínio nazista. Mas nem todos concordam com a mesma.
Andrzej Wajda é um dos principais cineastas que surgiram na Polônia e no chamado Leste Europeu no Pós-Guerra, ao lado de Krzysztof Kieslowski e Roman Polanski (Polônia), Milos Forman (Tchecoslováquia), Miklós Jancsó (Hungria), entre muitos outros.

Wajda fez parte de uma geração que se formou na 'Escola Nacional de Cinema de Lodz', uma verdadeira Universidade de Cinema, que forma diretores, atores, roteiristas e demais técnicos que trabalham na área.

Essa instituição foi criada em 1946 e foi estatizada pelo regime 'Socialista' polonês em 1950. E mesmo depois que isso aconteceu, os profissionais formados ali continuaram desfrutando de uma liberdade de criação que não existia em outros setores da sociedade polonesa. 

'Pokolenie' foi o primeiro longa-metragem de Wajda e o mesmo faz parte de uma trilogia, que também inclui 'Kanal' (1957) e 'Cinzas e Diamantes' (1958). Esta é a chamada 'Trilogia da Guerra' de Andrzej Wajda. Antes de 'Pokolenie', Wajda havia feito um curta metragem e dois documentários.
Burgueses poloneses e Nazistas juntos. Antes da invasão do país, pela Alemanha Nazista (Oeste) e pela URSS (Leste), a Polônia era uma Ditadura Militar de Direita e que já perseguia os Judeus. O Anti-Semitismo já era muito forte no país, muito antes de Hitler mandar invadir o mesmo, em 01/09/1939. 
Com este filme, considera-se que foi encerrada a era do 'Realismo Socialista' no cinema polonês e que ele também foi muito importante para a definição do que, posteriormente, ficou conhecido como a 'Escola Polonesa' de Cinema. 

Este filme permitiu que toda uma nova geração de talentosos profissionais de Cinema aparecesse, incluindo o próprio Wajda, mas também Roman Polanski (que interpreta Mundek, jovem integrante do grupo de Resistência que lutava contra a dominação nazista da Polônia), Jerzy Lipman (responsável pela Fotografia do filme e que trabalhou com Wajda em outros filmes, bem como com Roman Polanski) e atores que tiveram uma longa carreira no Cinema, tais como Tadeusz Lomnicki, Zbigniew Cybulski e Tadeusz Janczar.  

Wajda é um cineasta cuja história familiar se confunde com a da própria Polônia, pois o seu pai, Jakub Wajda, foi morto pelo NKVD (polícia secreta soviética antecessora da KGB) no episódio que ficou conhecido como 'Massacre de Katyn', no qual quase 22 mil oficiais militares poloneses foram mortos pelos soviéticos.  

O filme de Wajda sofre uma clara influência dos Filmes Noir e de Gângsters, como é o caso de 'Angels With Dirty Faces', 'The Roargin Twenties' e 'White Heat' ('Anjos de Cara Suja', 1938; 'Heróis Esquecidos', 1939, 'Fúria Sanguinária',1949; ambos com James Cagney). Outra influência presente neste filme de Wajda é a do Neo-Realismo, com a miséria e a exploração que os trabalhadores sofrem sendo mostrados no mesmo. 
A jovem e bonita Dorota recruta novos integrantes para a Gwardia Ludowa, movimento de Resistência formado pelos comunistas e que lutou contra a dominação nazista da Polônia depois que Hitler ordenou a invasão da URSS (22/06/1941). O Gwardia Ludowa realmente existiu (foi criado em Janeiro de 1942) e contou com um importante apoio do Exército Vermelho.
A trama do filme gira em torno dos jovens membros de vários grupos de Resistência que lutam contra os Nazistas. A líder de um dos grupos (Gwardia Ludowa) é a jovem Dorota. Inteligente, bonita, forte, determinada, articulada, ela exerce uma liderança incontestável sobre os demais integrantes, todos homens, incluindo Stach, com quem ela terá um bonita história de amor. 

Stach é um jovem operário, que vive sozinho com a mãe (uma mulher totalmente desiludida, que já não espera mais nada de bom da vida) numa favela de Varsóvia. 

Ele e mais dois amigos costumavam roubar carvão dos trens alemães que passavam por Varsóvia (fazendo uma espécie de 'roubo patriótico'), e que tinham o Leste como destino, até que em uma das tentativas um dos amigos de Stach foge (Kostek) e o outro acaba sendo morto (Zyzio) por um soldado alemão.

Depois disso, Stach começa a trabalhar em uma carpintaria, como um aprendiz, em meio a uma série de trabalhadores já adultos e veteranos. O proprietário e mais alguns trabalhadores da carpintaria também colaboram com a Resistência, formando uma célula do Armia Krajowa (movimento nacionalista) no lugar. Simultaneamente, a carpintaria é obrigada a atender às encomendas feitas pelos nazistas. Esta é uma forma de mostrar que, de alguma forma, a burguesia polonesa colaborava com os nazistas. 
Stach começa a trabalhar, como aprendiz, na carpintaria, na qual entrará em contato com Sekula, integrante do Gwardia Ludowa que o apresentará à bonita e determinada Dorota.
Na carpintaria, Stach é escalado para substituir Jasio, que foi promovido (agora ele é um trabalhador qualificado e assalariado), e cujo velho pai também trabalha ali (como um vigia noturno, mas que está perto de se aposentar). Na carpintaria, Stach conhece o integrante (Sekula) de um movimento de Resistência (Gwardia Ludowa) e da qual a líder naquela região é uma jovem bonita, inteligente e articulada, que é Dorota. 

O Camarada Sekula é um operário marxista, que integra o Guardia Ludowa (ou Guarda Popular), que é formado por comunistas, e que explica a essência da exploração capitalista (a extração de mais-valia) para o jovem Stach. Assim, junto com o trabalho ocorre um processo de conscientização da sua condição de trabalhador explorado. 

Sekula é o responsável por apresentar Stach a Dorota, líder da organização da Juventude do Gwardia Ludowa. Stach se une ao grupo liderado por ela e chega a prestar um juramento militar, começando a participar de ações de sabotagem contra os nazistas. E ele também irá se envolver romanticamente com a bonita jovem, com quem deixará de ser virgem. 

Assim, o filme de Wajda mostra também o momento de passagem da adolescência para a idade adulta. Stach deixa as brincadeiras adolescentes de lado (brincar com facas, roubar carvão) e começa a trabalhar, a conviver com adultos, entra para um movimento político de Resistência e tem o seu primeiro grande amor na vida (Dorota). 
Cena do filme mostra o Gueto de Varsóvia incendiado. Levante contra os Nazistas se deu quando mais de 300 mil dos seus 380 mil moradores já haviam sido levados para o campo de extermínio de Treblinka. Aqueles que ficaram ali decidiram morrer lutando. Levante demorou cerca de quatro meses para ser finalmente derrotado (começou em Janeiro e terminou em Maio de 1943). 
Em uma das cenas do filme vemos inúmeros corpos de poloneses pendurados em fios de energia e que foram mortos pelos nazistas pelo fato de participarem dos grupos de Resistência. A ordem de Hitler era que para cada alemão que fosse morto pelos poloneses, outros 100 poloneses deveriam ser mortos pelos nazistas, como forma de retaliação. 

E os poloneses também leem, com uma expressão de profunda tristeza, listas imensas com os nomes de compatriotas que morreram vítimas dos nazistas. E também vemos inúmeros poloneses que eram obrigados a fazer trabalhos forçados para os alemães, algo que era bastante comum nos países e territórios que a Alemanha Nazista conquistou. Hitler chegou a dizer que os povos eslavos somente serviam para isso mesmo. 

Tudo isso aumentava ainda mais o ódio que o povo polonês sentiam pelo nazistas, levando-os a continuar a luta na Resistência. 

Obs1: Durante a ocupação da Polônia pelos nazistas alemães, existiram vários grupos armados de Resistência que lutaram para expulsar os invasores. Os principais eram o Armia Krajowa (nacionalista, ligado ao governo polonês exilado em Londres e que tinha o apoio do governo britânico) e o Gwardia Ludowa (Guarda Popular, ligado ao Partido Comunista e que recebia apoio soviético) e que foi formado em Janeiro de 1942. O apoio do Exército Vermelho fez o Gwardia Ludowa crescer rapidamente, chegando a 3000 combatentes em pouco tempo, promovendo inúmeros atos de sabotagem e guerra de guerrilhas contra os nazistas alemães. 
Membros do Gwardia Ludowa: Jacek, Stach, Mundek, Dorota e Jasio. No centro (Mundek) vemos um ainda muito jovem Roman Polanski. 
No filme de Wajda, vemos que nacionalistas (Armia Krajowa) e comunistas (Gwardia Ludowa) eram movimentos políticos rivais, embora ambos lutassem contra a dominação nazista. 

Em uma das cenas, inclusive, quando dois integrantes do Armia Krajowa foram até a casa de Stach para recuperar uma arma que este havia roubado na carpintaria, os vizinhos, operários miseráveis como Stach e sua mãe, expulsaram os dois do local. Assim, o filme passa a ideia de que os operários estariam ao lado dos comunistas do Gwardia Ludowa. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, os dois movimentos (AK e GL) entraram em conflito e a vitória coube aos comunistas do Gwardia Ludowa, que tiveram o apoio decisivo de Stalin para implantar um governo comunista aliado da URSS no país, embora esta não fosse a vontade da maioria dos poloneses.

Obs2: Isso foi resultado de acordos fechados nas negociações feitas entre os Aliados (EUA, Grã-Bretanha e URSS) ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Este foi o chamado 'acordo das porcentagens', por meio da qual Churchill sugeriu a Stalin que a Europa fosse, no Pós-Guerra, dividida em esferas de influência. No Ocidente, a hegemonia seria da Grã-Bretanha e no Leste Europeu seria da URSS. E é claro que Stalin concordou com a ideia, pois interessava a ele ter governos aliados nos países que foram libertados da dominação nazista pelo Exército Vermelho.
Jasio luta e resiste até o fim. Vendo-se cercado pelos nazistas, ele preferiu se atirar do alto da escada a cair prisioneiro dos alemães que o perseguiam.
Em seu filme, Wajda também mostra que a Igreja Católica mantinha escolas para os jovens poloneses, mas que o ensino não tinha nenhuma relação com a luta do povo pela sua libertação do domínio nazista. E foi em um dos dias de aula que a jovem Dorota apareceu ali a fim de recrutar novos resistentes. Stach sentiu-se atraído pela jovem e pela ideia de lutar e vai procurar por ela posteriormente.  

Numa das vezes em que Stach e outros funcionários da carpintaria foram levar madeira para os alemães, ele foi agredido gratuitamente por um oficial nazista, acusado de um falso roubo. 

Obs3: Os nazistas alemães tinham um profundo desprezo pelos poloneses (povo ao qual consideravam inferior) e, após a invasão do país, Hitler determinou o extermínio de toda a elite intelectual polonesa: escritores, artistas, professores universitários, músicos. A ideia de Hitler era a de transformar o povo polonês em uma força de trabalho que faria apenas serviços pesados, ou seja, em escravos que trabalhariam para o Reich Nazista. Esse desprezo dos nazistas alemães pelos poloneses fica bem evidente no filme de Wajda. 

Em um dos dias de trabalho, Stach encontra uma arma num depósito da carpintaria (a mesma que os membros do AK foram buscar em sua casa), pega a mesma e a mostra aos outros membros do seu grupo (Jacek, Mundek, Jasio). Com a arma, eles decidem matar o oficial nazista (que acariciava as pernas de uma prostituta quando foi morto) que agrediu Stach, o que é feito por Jasio. 

Eles são repreendidos por Dorota pelo ato, pois o Gwardia Ludowa proíbe matar alguém que trabalhe próximo ao local onde os seus integrantes vivem.
O cineasta Andrzej Wajda, um dos mais talentosos da Polônia e do Leste Europeu que surgiu no Pós-Guerra. Ele se formou na Escola Nacional de Cinema de Lodz e ganhou vários prêmios importantes em sua carreira, incluindo um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra.
Jasio resistia a participar do Gwardia Ludowa, pois se morresse o seu pai ficaria sozinho, mas acabou se integrando ao movimento. 

Obs4: Os nazistas alemães invadiram a Polônia em 01/09/1939, dando início à Segunda Guerra Mundial na Europa. Embora o Exército polonês tenha lutado com coragem e bravura, a derrota frente à poderosa máquina de guerra alemã, que usou da 'Blitzkrieg', foi inevitável. Depois da URSS, a Polônia foi o país que mais sofreu com a brutalidade nazista; 6 milhões de poloneses morreram durante a Guerra. 

Obs5: Antes da Segunda Guerra Mundial, a Polônia tinha a maior população judaica da Europa, somando cerca de 3,5 milhões de pessoas, o que representava 10% da população do país. Destes, 90% foram assassinados pelos nazistas (3.150.000). Somente a URSS teve um número maior de mortos (27 milhões) do que a Polônia entre os países invadidos pela Alemanha Nazista. E os principais campos de extermínio nazista foram instalados na Polônia: Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Belzec, Chelmno e Maidanek. 

Quando tem início o Levante do Gueto de Varsóvia, que começou em 1943, Sekula decidiu participar do mesmo (de fato, membros do AK e do GL foram para lá, lutar contra os nazistas). Com o massacre promovido pelos nazistas, que provocou a derrota do Levante, ele e mais alguns são resgatados pelos jovens membros do Gwardia Ludowa (Stach, Jasio, Jacek). 

Eles acabam sendo perseguidos por soldados nazistas, sendo que Jasio acaba cometendo suicídio, de forma corajosa e heroica, atirando-se de uma escada, a fim de não ser preso ou morto pelos alemães. 

Enquanto isso, Dorota e Stach passam, juntos, a sua última noite, na qual eles sonharam com um futuro melhor. Naquela noite, eles se amaram. Mas ela acabou sendo presa pela Gestapo e Stach não voltou mais a vê-la. 

No fim, ele se encontra com um novo grupo de jovens recrutas, que acabaram de entrar para o Gwardia Ludowa e que darão continuidade à luta da qual Dorota participou ativamente. E agora Stach será o líder destes jovens. 

Stach chora, pois sabe que nunca mais irá ver a bonita jovem que o recrutou para o movimento e pela qual ele se apaixonou.

Fim.
O jovem operário Stach chora a perda de Dorota, a jovem que o recrutou para a Resistência e pela qual ele se apaixonou. 
Obs6: É bom esclarecer que foram feitas críticas muito fortes à maneira como Andrzej Wajda conta a história da Resistência à dominação nazista na Polônia. O intelectual liberal Adam Michnik (que fez parte do 'Solidariedade') diz que o filme é, essencialmente, uma peça de propaganda do governo comunista polonês e que o mesmo distorce a forma como se deu a luta dos poloneses por sua libertação. Michnik diz que o filme de Wajda passa a ideia de que apenas os comunistas teriam tido um papel digno na Resistência, o que não seria verdade, na sua visão. Ele também diz que o filme de Wajda foi baseado em um livro de Bohdan Czeszko e que este transmite uma visão falsa sobre o tema. Debates sobre filmes relacionados a acontecimentos históricos são, de fato, polêmicos e intermináveis. 

Informações Adicionais:

Título: 'Pokolenie' ('Geração');
Diretor: Andrzej Wajda;
Roteiro: Bohdan Czeszko (baseado em seu romance autobiográfico);
Duração: 87 minutos; 
Ano de Produção: 1954; 
País de Produção: Polônia;
Fotografia: Jerzy Lipman;
Música: Andrzej Markowski;
Elenco: Tadeusz Lomnicki (Stach Mazur); Ursula Modrzynska (Dorota); Tadeusz Janczar (Jasio Krone); Janus Paluszkiewicz (Sekula); Ryszard Kotys (Jacek); Roman Polanski (Mundek); Ludwik Benoit (Grzesio); Zbigniew Cybulski (Kostek); Zygmunt Hobot (Abram); Jersy Krasowski (Wladek); Stanislaw Milski (Pai de Jasio); Zygmunt Zintel (Ziarno); Juliusz Roland (Kaczor); Hanna Skarzanka (Mãe de Stach); Janusz Sciwiarski (Chefe da Carpintaria); Kazimierz Wichniarz (Werkschutz), Ryszard Ber (Zyzio).
Membros da verdadeira Gwardia Ludowa, que lutou contra a dominação nazista da Polônia entre 1942 e 1945.