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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

'Arquivo X': De que maneira a série denuncia o poder e os crimes do moderno Estado Policial! - Marcos Doniseti!

'Arquivo X': De que maneira a série denuncia o poder e os crimes do moderno Estado Policial! - Marcos Doniseti!
"Arquivo X": Desde o início a série sempre denunciou os crimes cometidos pelo Estado contra os cidadãos. Entre estes crimes, tivemos os sequestros e testes ilegais feitos em Billy Miles, Samantha, Max Fennig, Scully e Cassandra Spender.

"Arquivo X' e a denúncia da existência de um Estado Policial no mundo!


Em muitos dos episódios da série nós vemos uma clara denúncia e condenação dos crimes cometidos pelas principais instituições do Estado (nos EUA, em especial).

E a luta inicial de Mulder (e, depois, de Scully) foi justamente no sentido de trazer a público tais crimes e expor os seus autores perante a opinião pública, para que eles fossem acusados, julgados e condenados pelos mesmos. 

Abaixo, cito alguns exemplos:

A) Forças Armadas!

A imagem dos militares que 'Arquivo X' divulga não é, exatamente, das mais positivas, para dizer o mínimo. 

Assim, eles estão sempre envolvidos em algum tipo de atividade criminosa, como os sequestros ilegais de  cidadãos indefesos (incluindo os da Samantha, Scully, Max Fennig e Cassandra Spender), seja na realização ou no acobertamento dos mesmos. Eles também cometem vários assassinatos. 

Os militares também são acusados de inventarem mentiras elaboradas a fim de esconder atividades secretas e criminosas, bem como se envolvem em pesquisas científicas que visam criar supersoldados altamente evoluídos e que pudessem cometer um grande número de crimes, seja por meio da manipulação do código genético ou por meio da erradicação do sono.

Episódios onde tudo isso fica claro: "A Verdade Está Lá Fora' (1X02); "Caçada Sangrenta' (1X10), ''Projeto Litchfield" (1X11); 'O Ser do Espaço' (1X17), 'Sem Dormir' (2X04); a trilogia 'Duane Barry'/'A Ascensão'/''Por um Fio" (2x05, 2X06 e 2X08); 'Lapso de Tempo - Partes 1 e 2' (4X17 e 4X18). 
'Simpatizantes', da quinta temporada, é um episódio de 'Arquivo X' que denuncia os crimes cometidos na época do Macarthismo, nos EUA, durante a década de 1950. Centenas de pessoas foram falsamente acusadas de serem comunistas. Foi neste episódio que ficamos sabendo o motivo do uso da expressão 'X-Files' para os casos que não eram solucionados pelo FBI.

B) Justiça!


A série também divulga uma imagem muito negativa da Justiça, que não condena as pessoas que ocupam cargos elevados no aparelho estatal dos EUA, independente dos crimes que tenham cometido. 

O criminoso impune mais famoso da série é, sem dúvida alguma, o Canceroso, que entra e sai do Pentágono, do FBI e do Capitólio na hora em que bem entende. É como se, para o Canceroso, as portas não existissem, o que é uma clara demonstração do imenso poder que o mesmo possui. 

Assim, os membros do Sindicato (o Canceroso em especial) estão acima das leis, possuindo autoridade para cometer os crimes que bem entendem sem que jamais sejam punidos pelos mesmos. 

E o único que tenta investigar e denunciar os seus crimes (Mulder, é claro) acaba pagando um alto preço por isso (o pai de criação, Bill Mulder, é assassinado). Scully, que acabará ajudando Mulder nesse trabalho, também perderá a irmã (Melissa) em função disso.  

Exemplo: Quando o Mulder disse que desejava divulgar a verdade sobre os crimes do Sindicato, Krycek lhe disse que isso jamais aconteceria, pois estes homens estão acima da Justiça e das Leis ('Tunguska', 4X08). 


Cena do episódio 'Caçada Sangrenta', da primeira temporada, onde vemos os militares dos EUA envolvidos em uma missão de acobertamento e de manipulação de informações, enganando a população a respeito das suas atividades.

Skinner, quando a Scully foi sequestrada pelos militares (de forma totalmente ilegal), também falou o mesmo para o Mulder, dizendo que tais pessoas sempre ficarão impunes, pois são mais poderosas do que a própria Justiça ('Por um Fio', 2X08).


No episódio 'Tunguska - Partes 1 e 2' (4X08 e 4X09) tivemos uma investigação feita pelo Senado a respeito da chegada de um malote diplomático vindo da Rússia que continha o 'Vírus Alienígena', o que resultou na morte do mensageiro que o trazia, que estava a serviço do Sindicato.

Tal malote havia sido interceptado por Mulder e Scully, por indicação de Krycek. 

O Canceroso pressionou o 'Homem Bem Vestido' para que tais investigações fossem encerradas. E no fim, ele teve acesso a todo o conteúdo da investigação que havia sido feita pela Comissão de Investigação do Senado, mostrando que havia conseguido dominar o resultado da mesma. 

Assim, fica claro que o Sindicato é um tipo de governo secreto que está acima das leis e da Justiça, que os seus crimes jamais serão investigados e que os responsáveis pelos mesmos sempre ficarão impunes.

...And Justice For All: Será mesmo?
Cena de 'My Struggle' (primeiro episódio da 10a. temporada) que denuncia a espionagem global promovida pela NSA, citando o caso de Edward Snowden, que revelou a verdade a respeito da mesma. 

C) FBI!


Os próprios chefões do FBI (Blevins e o Third Man) estavam envolvidos em uma missão de espionagem do apartamento de Mulder, que foi feita de maneira inteiramente ilegal. Embora isso não seja mostrado como sendo culpa da instituição, mas das pessoas que trabalham na mesma, não deixa de ser uma crítica ao FBI, pelo fato do mesmo ter permitido que isso acontecesse. 

Em vários outros episódios vemos que o FBI não demonstra muito interesse em investigar os casos quando os mesmos envolvem pessoas e instituições muito poderosas. 

Ver episódios 'A Verdade Está Lá Fora' (1X02) e 'A Maior das Mentiras' (5X02).

D) Congresso Nacional!

No episódio 'Simpatizantes' (5X15) vemos as denúncias que 'Arquivo X' faz contra o fenômeno do Macarthismo (anos 1950, durante a chamada Guerra Fria), durante o qual inúmeras pessoas foram falsamente acusadas de serem comunistas e de traírem os EUA. 
Até mesmo o genial Charles Chaplin chegou a ser perseguido nos EUA na época do Macartismo, o que o obrigou a ir embora do país. O 'Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas' do Senado, comandado por Joseph McCarthy, foi o responsável por isso.  Centenas de pessoas foram perseguidas e tiveram suas vidas pessoais e carreiras prejudicadas ou destruídas em função disso.

Na época, o senador Joseph McCarthy comandou uma comissão de investigação do Congresso (Comitê de Atividades Anti-Americanas) que acusou inúmeras pessoas de serem comunistas, mesmo que isso fosse mentira, criando um clima de terror e paranoia nos EUA.


Muitos integrantes das classes artística e intelectual dos EUA foram perseguidos neste período (caso do roteirista Dalton Trumbo) e tiveram a sua carreira prejudicada, sendo que alguns tiveram que sair dos EUA (caso de Charles Chaplin) em função de tais perseguições. 

Já no episódio 'Grampeados' (3X23) um agente secreto que se encontra com o Mulder, em Washington, nas proximidades do Capitólio (sede do Congresso Nacional), para lhe passar informações a respeito do caso que ele e Scully estão investigando, diz para Mulder que a conversa tem que ser rápida, pois a região se caracteriza por possuir um elevado índice de criminalidade. 

E Mulder responde dizendo 'Principalmente quando o Congresso está reunido'.

Assim, o poder Legislativo também é mostrado de maneira extremamente negativa em 'Arquivo X'. 
Wernher Von Braun junto com militares da Alemanha Nazista em 1941. Ele foi o responsável por criar os foguetes alemães 'V-2' e, depois, já trabalhando para o governo dos EUA, comandou o desenvolvimento do foguete 'Saturno V', que levou o homem à Lua. 

E) Poder Executivo (Presidência dos EUA)!


O Poder Executivo também é mostrado como possuindo envolvimento em inúmeras atividades criminosas. 

Exemplos disso são os episódios 'Operação Clipe de Papel' (3X02) e 'Os Japoneses'/'O Falso Alienígena' (3X09 e 3X10).

No primeiro, vemos que o governo dos EUA, no Pós-Guerra, levou cerca de 1500 cientistas nazistas para o país, a fim de trabalhar em inúmeros projetos científicos e tecnológicos. O mais famoso deles, citado na série, foi Wernher Von Braun, criador dos foguetes nazistas V-2 e do foguete Saturno V, que levou o homem para a Lua. 

E nos dois episódios seguintes, vemos um grupo de cientistas japoneses que foram levados para os EUA, a fim de trabalhar em projetos de pesquisa secretos para o governo estadunidense.

Em ambos os casos, tais cientistas receberam a garantia de imunidade (ou melhor, de impunidade), sendo que jamais responderam perante a Justiça pelos crimes de guerra que cometeram. 

Obs: Os dois fatos citados na série aconteceram mesmo. São acontecimentos históricos. Não são ficção. A parte ficcional da trama começa apenas quando os cientistas alemães e japoneses são mostrados fazendo pesquisas envolvendo hibridação genética, procurando criar um híbrido humano-alienígena. 
General Shiro Ishii, do Exército Imperial Japonês (EIJ), foi o responsável pela criação da 'Unidade 731', que começou a realizar experiências horripilantes com cidadãos chineses logo depois que os japoneses invadiram o norte da China em 1931. Depois da Guerra, os médicos que trabalharam para a Unidade 731 receberam imunidade do governo dos EUA, para o qual passaram a trabalhar. 

F) Serviços Secretos (CIA, NSA)!


Os principais serviços secretos do país também são mostrados de maneira muito negativa, sendo que também se envolvem em atividades ilegais, como assassinatos, espionagem e chantagem. 

Exemplo disso, é a espionagem que eles promovem dos próprios cidadãos, o que foi mostrado, por exemplo, no episódio 'O Ser do Espaço' (1X17), quando Mulder descobre que foram instalados equipamentos de escuta em seu escritório. Mulder, posteriormente, denunciou este fato para Skinner ('Por Um Fio'; 2X08). 

No episódio 'Os Homenzinhos Verdes' (2X01) também vemos o senador Richard Matheson convidar Mulder para uma reunião em seu gabinete no Capitólio e escrever em um pedaço de papel 'Eles podem estar ouvindo', mostrando que sabia que seu gabinete estava sob vigilância (ilegal) dos serviços secretos.  

Outro exemplo da denúncia de atividades ilegais desenvolvidas pelos serviços secretos dos EUA, que é feita por 'Arquivo X', nós vimos no ótimo episódio 'Via Negativa' (8X07), no qual é citado o projeto secreto de controle da mente e que foi desenvolvido pela CIA (na década de 1950) chamado de 'MK Ultra'. Tal projeto realmente existiu. Não é ficção. 
John Doggett, com o terceiro olho, no episódio 'Via Negativa', que cita o projeto secreto da CIA 'MK Ultra', de controle da mente, que começou a ser realizado na década de 1950.

Portanto, todas as principais instituições dos EUA (Justiça, Forças Armadas, Serviços Secretos, poderes Executivo e Legislativo) são denunciadas e criticadas por seu envolvimento em atividades ilegais e criminosas ao longo de todas as temporadas de 'Arquivo X'. 


E fica claro que 'Arquivo X' denuncia que, de fato, o que existe nos EUA é um tipo de governo que desrespeita inteiramente os direitos dos cidadãos, contra os quais o Estado comete inúmeros crimes, incluindo os da espionagem e vigilância sobre os mesmos, caracterizando a existência de um verdadeiro Estado Policial no país. 

Chris Carter já disse, há muitos anos, que a frase 'Não Confie em Ninguém' resume o que ele pensa a respeito de política. 

E o reflexo dessa visão bastante crítica de Chris Carter nós vemos nos episódios de 'Arquivo X'. 
'Trust No One' (Não Confie em Ninguém). Chris Carter afirmou, há muitos anos, que tal frase resume o que ele pensa sobre política. 

Links:


O projeto 'MK Ultra' da CIA:

http://www.mundofreak.com.br/2014/09/18/mk-ultra-o-programa-de-manipulacao-de-mentes/

Wernher Von Braun e o projeto 'Apollo':

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160128_vert_futu_hitler_homem_lua

Japão: A unidade 731 e os seus crimes:

http://historiamilitaronline.com.br/2015/06/24/uma-auschwitz-na-asia-o-japao-e-sua-macabra-unidade-731/

O Macartismo e a perseguição política e ideológica nos EUA durante a Guerra Fria:

http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=1267

Snowden e as suas revelação sobre espionagem global:

https://www.terra.com.br/noticias/mundo/estados-unidos/edward-snowden-e-a-espionagem-da-nsa,6289f082fe3df310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html

domingo, 31 de dezembro de 2017

'Mourir à Madrid': Um documentário clássico que mostra quais foram as causas da Guerra Civil Espanhola! - Marcos Doniseti!

'Mourir à Madrid': Um documentário clássico que mostra quais foram as causas da Guerra Civil Espanhola! - Marcos Doniseti!
'Morir en Madrid': Excelente documentário que mostra a evolução dos conflitos políticos e sociais que geraram a Guerra Civil Espanhola. Ele foi indicado ao Oscar em 1966. 

'Mourir a Madrid' é um excepcional documentário, dirigido por Frédéric Rossif. Ele mostra quais foram as causas da Guerra Civil Espanhola e porque as forças mais reacionárias acabaram vitoriosas no conflito, no qual morreram cerca de 1 milhão de pessoas em dois anos e nove meses de guerra. 


O documentário é muito esclarecedor a respeito dos conflitos políticos e sociais que provocaram essa que foi, sem dúvida, a 'Guerra Civil Espanhola' (1936-1939), e que se transformou na primeira batalha da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

Afinal, todas as principais potências europeias, mais os EUA, se envolveram, de uma forma ou de outra, no brutal conflito espanhol: Grã-Bretanha, Alemanha Nazista, Itália Fascista, França URSS. Destas, somente França e, principalmente, a URSS ajudaram ao governo democrático da República. 

Mas, no caso francês, pois havia uma divisão muito forte dentro do governo (também de Frente Popular) e do país. Uma boa parte dos franceses apoiou Franco e, ainda, pressionou o governo do país para que recusasse qualquer ajuda à República espanhola. A França possuía muitos movimentos políticos de Direita e de Extrema-Direita que simpatizavam com Franco, Hitler e Mussolini, sendo que os mesmos contavam com significativo apoio popular. 
François de La Rocque liderava um movimento de características tipicamente Fascistas (o Croix de Feu). Em 06 de Fevereiro de 1934 ele comandou seus seguidores numa tentativa de Golpe de Estado, tentando imitar o seu ídolo (Mussolini), promovendo uma espécie de 'Marcha Sobre Paris', mas que acabou fracassando. 

Exemplo disso foi o movimento de Direita Radical chamado 'Croix de Feu', liderado por François la Roque, que possuía uma força paramilitar própria (chamada de 'Dispos'), defendia a instalação de uma Ditadura, atacava o Liberalismo e o Socialismo, bem como defendia o Corporativismo. 


Desta maneira, a 'Croix de Feu' reunia as principais características de um movimento tipicamente Fascista. 

As causas da Guerra Civil Espanhola foram essencialmente internas, mas as questões envolvidas eram as mesmas que afetavam outros países da Europa neste período: 

- Luta de classes, com o fortalecimento das mobilizações promovidas por operários e camponeses, que lutavam por reforma agrária, melhores salários, leis trabalhistas e, até, por uma Revolução Social que destruísse o Capitalismo e criasse uma sociedade igualitária.

No caso espanhol, uma parte deste movimento era mais radical e queria também destruir o Estado, a Igreja e o Capitalismo: Eram os Anarquistas ou Anarcossindicalistas, representados pela CNT-FAI, e por uma minoria dos Socialistas, que eram representados pelo PSOE e pela UGT (seu principal líder era Francisco Largo Caballero, que foi o primeiro líder do governo Republicano, entre 1936-1937). 
Cartaz Republicano estimulando a defesa de Madrid por parte da população. A criação de cartazes, durante a Guerra Civil Espanhola, foi de grande importância. Afinal, uma grande parte da população espanhola era de analfabetos. 

Uma outra ala, mais moderada, queria reformar e modernizar a Espanha, mas sem promover uma Revolução Social, o que era o caso da maioria dos Socialistas, dos Comunistas, da Burguesia Liberal e da Classe Média;


A) Rejeição às mudanças e à modernização por parte das forças conservadoras (Igreja, Exército, Latifundiários);

B) Crescente papel dos jovens e das mulheres na sociedade;  

C) Industrialização e urbanização, que enfraquecia progressivamente os poderes da Igreja Católica e dos Latifundiários, que exercia uma influência bem pequena nas regiões mais industrializadas e nas maiores cidades (Barcelona, Madrid, Valência, Bilbao);


Cartaz do PCE chamando os operários, camponeses, soldados e intelectuais a se unirem ao Partido e em defesa da República.

D) Expansão das classes médias instruídas e urbanas, que lutavam para participar do sistema político, o que era barrado pelas forças mais reacionárias do país;


E) Lutas de algumas regiões por maior autonomia em relação ao governo central. Na Espanha, este era o caso do País Basco e da Catalunha, em especial. As forças Franquistas queriam o contrário, construindo um Estado totalmente centralizado. 

Com isso, depois que venceu a Guerra Civil, Franco chegou até a proibir que as populações da Catalunha e da região Basca usassem as suas línguas, obrigando-as a falar apenas o Castelhano.

Também vemos, no documentário, quais eram as forças políticas e sociais que entraram em choque na Guerra e quais os motivos que as levaram a participar do conflito: 
Hitler e Franco juntos. Hitler deu apoio decisivo para a vitória de Franco na Guerra Civil. Em troca, Franco entregou para controle alemão minérios que foram importantes para a indústria bélica germânica. Ele também enviou uma 'Divisão Azul', com 47 mil soldados, que lutou ao lado dos alemães na invasão da URSS. Poucos sobreviveram. 

A) De um lado, as forças reacionárias, contrárias às mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que ocorriam no país, pois as mesmas levavam a uma crescente perda do seu imenso poderio e dos seus privilégios. 


Estes eram os casos dos Latifundiários, do Exército, da Monarquia e da Igreja Católica, cujo apoio vinha das regiões mais pobres e atrasadas do país (as áreas rurais, onde ainda vivia mais da metade da população espanhola);

B) Enquanto isso, outras forças políticas e sociais lutavam para aprofundar e acelerar as mudanças e promover a modernização da Espanha: Operários, Camponeses, Classe Média instruída, Industriais, Nacionalistas bascos e catalães, jovens e mulheres. 

A base social destas forças se concentrava nas regiões mais ricas, industrializadas e urbanizadas do país: Catalunha, Valência e País Basco, em especial. 
Brigadistas internacionais que foram lutar do lado Republicano na Guerra Civil Espanhola. A ida deles para a Espanha era organizada pelo PCF (Partido Comunista Francês, liderado por Maurice Thorez).

Os Anarquistas (ou Anarcossindicalistas) conseguiram, também, conquistar um grande apoio entre os camponeses e trabalhadores rurais miseráveis da região Sul da Espanha, pois estes eram brutalmente explorados pelos Latifundiários. Estes contavam com o apoio da Igreja e das forças policiais, motivos pelos quais os camponeses sulistas espanhóis repudiavam o Estado, o Capitalismo e a Religião. 


Isso explica o grande apelo popular do discurso Anarcossindicalista na região sulista espanhola.  

Os segmentos reacionários temiam os efeitos das mudanças realizadas pelo primeiro governo Republicano (de perfil progressista e liberal, que durou de 1931 a 1933), que promoveu a reforma agrária, fez investimentos maciços na educação pública, aumentou salários, criou leis trabalhistas (jornada de 8 horas diárias, a licença-maternidade, as férias remuneradas,), reconheceu o direito de voto para as mulheres, reformou o Exército e proibiu cultos religiosos. 

Este governo Republicano era um governo de perfil Iluminista, cuja principal fonte de inspiração era a Revolução Francesa de 1789-1799. Mas, entre 1935-1936, a divisão das forças progressistas, que entraram em choque entre si, enfraqueceu o governo Republicano. 
Cartaz das Brigadas Internacionais. Cerca de 60 mil brigadistas foram lutar em defesa da República. Eles eram originários de 54 países. Inclusive, tivemos 40 brigadistas brasileiros, sendo que um deles foi Apolônio de Carvalho.

Isso aconteceu porque alguns segmentos sociais dos Republicanos entendiam que as mudanças promovidas pelo governo eram insuficientes e queriam acelerar e radicalizar o processo de transformação. Este era o caso dos Anarquistas e de setores radicais dos Socialistas (cuja maioria era reformista, mas não revolucionária).  


Com isso, as forças mais conservadoras venceram as eleições de 1934 e retomaram o controle do governo espanhol. Daí, elas procuraram reverter as principais mudanças que o governo Republicano progressista havia promovido.

Esse retrocesso fará com que as forças políticas e sociais mais progressistas (Anarquistas, Socialistas, Comunistas, Republicanos de Esquerda e Burguesia Liberal) se unam. 

E essa união as levará a criar a chamada 'Frente Popular', que venceu (por estreita margem) as eleições para o Parlamento espanhol em Fevereiro de 1936. 

Assim, a Espanha voltou a ter um governo Republicano e progressista novamente. E com isso, as mudanças do governo de 1931-1933 foram retomadas. 
Mulheres que combateram do lado Republicano na Guerra Civil Espanhola. As mulheres Anarquistas criaram uma organização chamada 'Mujeres Libres', que foi fundada em 1936 e chegou a possuir 21 mil integrantes. A luta delas se davam tanto contra o Capitalismo explorador, como contra o domínio patriarcal na sociedade. Suas lutas anteciparam os movimentos feministas da década de 1970. 

E foi isso que levou as forças mais retrógradas da Espanha a se unir para promover um Golpe de Estado que derrubasse o governo da Frente Popular. Mas esta tinha substancial base popular organizada, que lhe dava sustentação: partidos políticos, sindicatos, centrais sindicais, movimentos de jovens e mulheres.


E tais segmentos progressistas resistiram ao Golpe das forças Reacionárias, que estourou em 17/07/1936,  graças à esta base social organizada que possuía. 

Com isso, o Golpe Reacionário foi apenas parcialmente vitorioso. 

No início da Guerra Civil, os golpistas conseguiram assumir o controle apenas das regiões mais atrasadas do país: parte agrária do Sul (dominada pelos latifundiários) e o Norte, no qual a Igreja Católica predominava. Já nas áreas mais ricas e industrializadas, as forças progressistas da Frente Popular foram vitoriosas, conseguindo derrotar os golpistas. 

Se dependesse apenas das forças políticas e sociais internas, é muito provável que a República fosse vitoriosa. Afinal, ela controlava as regiões mais ricas e tinha as reservas de ouro do país em suas mãos. Mas tal vitória não aconteceu, pois o fator que acabou decidindo o resultado final do conflito foi a atuação das grandes potências mundiais.
Dolores Ibárruri (La Pasionaria) discursando para uma multidão em Barcelona. Ela estimulou a Resistência até o final e dizia "Mais vale morrer de pé que viver de joelhos'. Ela terminava seus discursos usando da famosa expressão 'No Pasarán!'. 

Assim, Franco contou com o apoio descarado e gigantesco da Itália Fascista e da Alemanha Nazista que, somadas, enviaram mais de 90 mil soldados (passam de 100 mil se somarmos os 10 mil soldados enviados pela Ditadura de Salazar) e muitos armamentos modernos (aviões, blindados e artilharia), tais como os canhões de 88 mm e os aviões alemães Junker 52, Henkel 111 e Messerschmitt 109. 


Franco também contou com um significativo apoio dos setores privados dos EUA, da Grã-Bretanha e da França. Muitos industriais e banqueiros destes países ajudaram as forças franquistas com petróleo, empréstimos e veículos. A GM e a Ford forneceram milhares de veículos para os franquistas. 

Enquanto isso, a República contava apenas com o apoio limitado da URSS que, no entanto, evitou um envolvimento maior no conflito espanhol para não alarmar a França, a Grã-Bretanha e os EUA, com quem Stalin desejava forjar uma ampla aliança a fim de conter a expansão do Nazi-Fascismo. 

E tudo isso acontecia enquanto o governo da Grã-Bretanha promovia uma hipócrita, falsa e mentirosa política de 'não-intervenção', que foi inteiramente prejudicial apenas para o governo Republicano. 

Afinal, tal política foi totalmente ignorada pela Itália Fascista e pela Alemanha Nazista, que controlavam o acesso dos espanhóis ao Mar Mediterrâneo (impedindo a chegada de produtos e armamentos para as forças Republicanas) e enviaram armamentos e soldados em grande quantidade para as forças Franquistas. 
Aviões alemães Messerschmitt BF-109, que foram utilizados na Guerra Civil Espanhola, contribuíram fortemente para a vitória de Franco, que graças ao maciço apoio italiano e alemão dispôs de imensa superioridade aérea durante todo o conflito.

Logo, as forças franquistas sempre dispuseram de uma significativa vantagem em termos de forças militares, tanto no número de soldados (seus mortos e feridos eram repostos com mais facilidade e rapidez), quanto nos armamentos disponíveis (aviões, blindados, canhões). E também nunca faltou acesso a empréstimos externos por parte de banqueiros britânicos, franceses e estadunidenses para que Franco e seus aliados pudessem comprar o petróleo, alimentos, veículos necessários a uma guerra que durou dois anos e nove meses. 


Essa substancial ajuda externa que as forças Franquistas receberam, bem como o isolamento internacional da República, foi o fator principal que levou à vitória das forças franquistas na Guerra Civil Espanhola. 

Sem o apoio decisivo de Hitler e Mussolini, e do apoio disfarçado, mas significativo, dos EUA e da Grã-Bretanha, Franco jamais teria vencido a Guerra na Espanha. 

E o povo espanhol pagou um alto preço por esta vitória de Franco, que impôs uma Ditadura brutal, que procurou aniquilar toda e qualquer oposição, real ou imaginária, implantando um Estado Policial e Totalitário dos mais brutais e cruéis que já existiu na Europa, construindo campos de concentração, explorando trabalho escravo dos prisioneiros, eliminando fisicamente centenas de milhares de Republicanos. 
Chamberlain, Daladier, Hitler, Mussolini e Ciano durante as negociações que resultaram na assinatura do Pacto de Munique, que entregou a Tchecoslováquia e a Europa Central para o controle da Alemanha Nazista. Tal fato condenou a República Espanhola à derrota. A assinatura do Pacto representava a continuidade das políticas de 'Apaziguamento' e de 'Não-Intervenção' adotada por britânicos e franceses e que resultou no progressivo fortalecimento da Alemanha Nazista e da Itália Fascista no cenário europeu e mundial. 

Informações Adicionais:

Título: Mourir à Madrid (Morrer em Madrid);
Diretor: Frédéric Rossif;
Roteiro: Frédéric Rossif e Madeleine Chapsal;
Ano de Produção: 1963; País de Produção: França;
Gênero: Documentário; Fotografia: Georges Barsky; Música: Maurice Jarre; 
Narradores: Suzanne Flon; Germaine Montero; Pierre Vaneck; Roger Mollien e Jean Vilar;
Prêmios:  BAFTA Awards de Documentário de 1968; Prêmio Jean Vigo, de 1963, de Melhor Produção. 

Link:

A Guerra Civil Espanhola - Augusto Buonicore:

http://vermelho.org.br/noticia/283839-1

As 'Mujeres Libres' Anarquistas:

http://www.publico.es/politica/memoria-publica/80-anos-mujeres-libres-xxx-mujeres-libres-anarquistas-revolucionaron-clase-obrera.html

Vídeo - Documentário 'Morir à Madrid' na íntegra (legendado em Português):

segunda-feira, 18 de maio de 2015

'Continuum': Série de Sci-Fi se inspira no Marxismo e no Anarquismo para criticar o poder crescente das Corporações capitalistas globalizadas e adverte sobre o futuro da Humanidade! - Marcos Doniseti!

'Continuum': Série de Sci-Fi se inspira no Marxismo e no Anarquismo para criticar o poder crescente das Corporações capitalistas globalizadas e adverte sobre o futuro da Humanidade! - Marcos Doniseti!
A excelente série 'Continuum' crítica o crescente poder das Corporações Capitalistas que, gradualmente, estão se apropriando da máquina do Estado, que está sendo colocado à serviço dos interesses do Grande Capital globalizado. Na série temos referências a empresas Petrolíferas, Farmacêuticas, Químicas e de Tecnologia de Ponta.
A excelente série de ficção científica 'Continuum' não é tão ficcional quanto se pensa. Na verdade, ela apresenta uma visão bastante crítica da realidade do mundo atual. 

É claro que elementos clássicos de ficção científica como as viagens no Tempo e a existência de diferentes Linhas Espaciais-Temporais estão presentes no seriado. 

Mas ela não trata apenas disso, não. 

Na verdade, 'Continuum' faz duras críticas ao estágio atual em que se encontra o desenvolvimento do capitalismo globalizado e adverte para o sério risco de que, neste exato momento histórico em que estamos vivendo, estejamos assistindo ao nascimento de uma Ditadura Capitalista Globalizada.

Segundo a visão divulgada na série, nesta Ditadura Capitalista Global o Estado será um mero instrumento do poder de gigantescas corporações do futuro, perto das quais as maiores empresas existentes atualmente não passam de micros e pequenas empresas. 

Esta concepção do Estado como sendo um mero instrumento do poder do Grande Capitalista possui, claramente, uma nítida inspiração marxista. No 'Manifesto do Partido Comunista' (de autoria de Marx e Engels), temos o seguinte trecho:

'A burguesia, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, conquistou, finalmente, a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno. O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa.'.

Em 'Continuum' esse conceito marxista de que o Estado é dominado pelos interesses da burguesia capitalista é levado ainda mais adiante, pois a série parte do princípio de que o Estado, propriamente dito, deixará de existir no futuro e todos os seus agentes serão, de fato, empregados das Corporações, sendo até financiados e pagos por elas. 

Um exemplo claro disso ocorre na terceira temporada da série: Quando o 'old' Alec Sadler pensou que a Kiera tinha morrido, ele mesmo, dono da Sadtech e o mais poderoso capitalista da época (2077), tratou de anunciar que iria pagar a indenização para o marido dela. 

Logo, o Estado, como um organismo político organizado e dotado de uma certa 'autonomia', já não existia mais em 2077 e havia sido inteiramente dominado pelas Corporações Capitalistas Globalizadas, que assumiram o controle de todas as funções que, anteriormente, eram do Estado, incluindo até o pagamento dos salários e benefícios dos agentes policiais e demais categorias que, hoje, pertencem ao serviço público.
A belíssima Rachel Nichols interpreta Kiera Cameron, que se vê como uma agente que está salvando vidas e evitando que a 'Liber8' seja bem sucedida em seus atentados terroristas, que fazem milhares de vítimas.
Obs1: Se levarmos em consideração que está avançando rapidamente no Congresso Nacional brasileiro a proposta de aprovar a Terceirização (PL 4330) para todas as atividades-fim das empresas privadas, bem como a ampliação dela para o setor público, podemos concluir, sem medo de errar, que a visão do criador de 'Continuum' (Simon Barry) e dos produtores e roteiristas da série está mais do que correta. 

Afinal, as grandes empresas privadas (as Corporações dos mais variados segmentos da economia) serão as maiores beneficiárias com a aprovação deste projeto, que irá precarizar ainda mais as relações de trabalho no Brasil, aumentando a jornada de trabalho, reduzindo salários e eliminando direitos sociais, trabalhistas e previdenciários de mais de 40 milhões de trabalhadores que estão no mercado formal de trabalho.

Em 2077, o que existia, na verdade, era um Estado Capitalista Ditatorial, totalmente controlado pelas Corporações privadas. 

Na série, vemos que após a crise econômica global de 2007-2010, as Corporações começaram a, gradualmente, dominar o aparelho de Estado, a fim de garantir que este atendesse aos seus interesses, ajudando-as sempre que necessário.

Obs2: Na crise econômica global que se iniciou em 2007-2009, os governos dos EUA e da UE gastaram US$ 19 trilhões de dólares para salvar o sistema financeiro das duas economias, pois eles estavam literalmente falidos. Assim, o Estado foi colocado à serviço dos interesses das maiores instituições financeiras do mundo. Logo, qualquer semelhança com o que vemos em 'Continuum' não é mera coincidência. 

Um exemplo perfeito disso é que, na terceira temporada de 'Continuum', vimos que a polícia de Vancouver passou a ter as suas despesas pagas pela Piron, corporação privada de propriedade do Escher e que, depois, passou para o controle do seu filho, Alec Sadler e, mais adiante, de Matthew Kellogg. 

Com a continuidade deste processo de crescente fortalecimento das CCGs (Corporações Capitalistas Globalizadas) nas décadas seguintes tivemos, como grande consequência, a virtual falência do governo liberal-representativo, que se esvaziou inteiramente, perdendo as suas atribuições, que passaram para as mãos das CCG. 
Em 'Continuum', a 'Liber8' é um grupo anarco-terrorista cujos integrantes voltam no tempo e procuram fazer com que as pessoas da época atual se rebelem contra o crescente poderio e dominação exercidos pelas cada vez mais poderosas Corporações Capitalistas, que passaram a controlar as responsabilidades que, antes, pertenciam ao Estado.
Desta maneira, todo o aparato Estatal (Governo, Justiça, Polícia, Congresso Nacional, Prisões, Sistema Educacional) caiu sob o domínio das Corporações, que usam do poder repressivo do Estado para manter a população inteiramente submissa, e isso incluía o uso de uma sofisticada tecnologia para tentar impedir que a população promovesse manifestações e reuniões inteiramente pacíficas, sendo que mesmos estas se tornaram totalmente ilegais. Quanto à rebeliões de qualquer tipo, a repressão era ainda mais brutal, levando os que se envolviam com as mesmas a serem condenados à morte.

Vejam que os membros do grupo anarco-terrorista 'Liber8' viajaram no tempo, de 2077 para a época atual (2012), justamente quando estavam para ser executados, devido aos atos de violência cometidos pelos integrantes da organização. 

E a bela Kiera Cameron era uma agente a serviço deste gigantesco e extremamente poderoso aparato repressivo. 

Mas ela de fato acreditava que estava agindo de maneira correta, pois a 'Liber8' usava de métodos extremamente violentos para tentar destruir a Ditadura das Corporações Capitalistas, algo que ela condenava inteiramente. Então, na visão dela, Kiera, ao fazer o seu trabalho, ela estava salvando milhares de vidas. Ela não se via como alguém que estava a serviço das CCGs, mas a serviço do público, da população como um todo.

E com o uso desta violência, por parte da 'Liber8', milhares de pessoas inocentes, acabaram morrendo. 

Quanto a Kiera volta no tempo, para 2012, e ela vê como tudo começou, tomando conhecimento de quais foram as origens da Ditadura das CCGs, é que ela começa a se dar conta de que as ideias da 'Liber8' não estão erradas, mas sim os métodos violentos que a organização utiliza e que resulta na morte de milhares de pessoas inocentes, que não tem como se defender dos ataques terroristas cometidos pela 'Liber8'.
'Sonmanto' é anagrama de 'Monsanto'. A 'Sonmanto' é uma das Corporações que ajuda a criar uma Ditadura Capitalista no futuro da Humanidade e cujo embrião é o momento histórico atual. Esta é uma das maiores corporações do capitalismo globalizado, atualmente, e atua na área relacionada ao agronegócio, incluindo sementes transgênicas, herbicidas, etc.
Inclusive, é bom chamar a atenção para o fato de que dentro da 'Liber8' havia, quando eles chegam em 2012, uma nítida divisão dentro da organização. 

De um lado, tínhamos Edouard Kagame, o grande líder da 'Liber8', que entendia que a melhor maneira de conseguir mais adeptos e seguidores para a organização era por meio da divulgação de suas ideias, procurando conquistar os 'corações e mentes' da população, fazendo com que as pessoas tomassem conhecimento dos seus manifestos. 

Um exemplo perfeito disso ocorreu quando a 'Liber8' sequestrou a CEO (Henrietta Sherman) de uma grande empresa petrolífera, a Exotrol, no episódio 'Time's Up' (1X06), e fez uma votação online para perguntar se a mesma deveria viver ou morrer? 

A organização exigiu que a CEO confessasse a prática de vários crimes e também usou o caso para divulgar o manifesto da 'Liber8'. E no fim a vida de Henrietta foi poupada pois o objetivo principal da ação era divulgar as ideias da organização, conquistando um maior número de adeptos e seguidores para a mesma. 

Enquanto isso, a facção de Travis Verta dentro da 'Liber8' somente queria saber de usar de força bruta e de violência para levar os seus planos adiante e atingir os objetivos da organização, que era o de impedir que as CCGs passassem a controlar totalmente o Estado e assim, conseguir inviabilizar a criação do Governo Corporativo no futuro. 

Mas o líder da 'Liber8', Kagame, está convencido de que a violência terrorista não é o melhor caminho para se atingir tal objetivo e é justamente por isso que ele determina, após a sua morte, que a sua leal e fiel seguidora, Sonya, acabe por matar ao Travis, pois ele discorda totalmente do modo de agir deste, embora não duvide da sua convicção e de sua lealdade à causa da 'Liber8'. E desta maneira Sonya se tornaria a sua herdeira, assumindo o comando da organização.

Obs3: Esse tipo de divisão existiu muitas vezes, ao longo da história, dentro de inúmeras organizações revolucionárias. Na época da luta de guerrilhas contra a Ditadura Militar brasileira, havia inúmeros debates dentro das organizações revolucionárias sobre qual seria o melhor caminho a seguir para se derrubar ao regime ditatorial. Alguns (a 'ala política) defendiam que se deveria priorizar a chamada 'luta de massas', mobilizando e organizando os trabalhadores, para se atingir este objetivo, enquanto que outros entendiam que a luta armada era caminho certo a seguir ('ala militarista'). 
Kagame e Sonya defendem que a Revolução deve ser feita conquistando os 'corações e mentes' das pessoas. Já Travis e Garza pensam que o melhor caminho para isso é o da violência. Após a morte de Kagame, a 'Liber8' se dividiu e Travis se aliou e passou a comandar as organizações criminosas de Vancouver para levar os seus planos adiante. 
No final da terceira temporada de 'Continuum' vimos que as ações violentas da 'Liber8' realmente funcionaram e que o Governo Corporativo não foi criado na Timeline na qual os fatos se desenvolvem. Porém, o que ficamos sabendo é que o resultado disso foi o colapso tanto das empresas privadas, como do poder do Estado. 

Assim, formaram-se clãs privados, extremamente poderosos, que guerreiam entre si, gerando uma guerra civil generalizada, de todos contra todos, e onde o caos na sociedade é generalizado. E simplesmente não há ninguém que tenha poder suficiente para restabelecer a ordem e a paz. 
O livro '1984', de George Orwell. Mas você também pode chamá-lo de '2077'. 
Assim, no futuro desta Timeline da terceira temporada de 'Continuum' a Humanidade submergiu naquele tipo de situação descrito por Thomas Hobbes em sua obra 'Leviatã', na qual o 'homem é o lobo do homem' e existe uma 'guerra de todos contra todos'. 

Portanto, pode-se claramente concluir que 'Continuum', ao mesmo tempo que crítica e condena o crescente poderio das Corporações Privadas que, gradualmente, estão se apoderando das atribuições e responsabilidades do Estado, o que poderá levar à criação de uma futura Ditadura das Corporações Capitalistas, também não apoia a solução defendida por Travis/Garza, que é a do uso da violência, para impedir a criação do Congresso (Governo) Corporativo Ditatorial no futuro do qual ele e os demais integrantes da 'Liber8' vieram. 

Porém, e independente de qual seja o caminho que a Humanidade irá trilhar nas próximas décadas, e que será fruto das escolhas que estamos fazendo neste exato momento histórico que estamos vivenciando, o fato concreto é que o alerta feito por essa ótima série que é 'Continuum' é mais válido do que nunca. 

E então, o que iremos fazer? Como é que iremos lutar? Seguiremos o caminho indicado por Kagame ou por Travis? Ou então, ficaremos sentados, adotando uma postura passiva e acomodada, esperando que o futuro venha até nós?
Em 'Continuum', o futuro da Humanidade é sombrio. E então, o que faremos para impedir que o mesmo se torne realidade? Da resposta que daremos dependerá o nosso futuro. E como a série mostra, se ela for a resposta errada, então poderemos mergulhar num mundo de caos e desordem, onde teremos uma guerra de todos contra todos. 
Links:

Estado e Poder Político em Marx:

http://www.goiania.ifg.edu.br/cienciashumanas/images/downloads/artigos/estado_poderpolitico_marx.pdf

Thomas Hobbes - Leviatã:

http://www.brasilescola.com/sociologia/o-papel-estado-segundo-thomas-hobbes.htm

http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_thomas_hobbes_leviatan.pdf

http://academico.direito-rio.fgv.br/ccmw/images/9/98/Thomas_Hobbes.pdf