domingo, 29 de janeiro de 2017

'A Dupla Vida de Véronique': Kieslowski fez uma obra-prima sobre vida, morte, destino, tragédia, acaso e livre-arbítrio! - Marcos Doniseti!

'A Dupla Vida de Véronique': Kieslowski fez uma obra-prima sobre vida, morte, destino, tragédia, acaso e livre-arbítrio! - Marcos Doniseti!
'La Double Vie de Véronique' (1991) é um filme belo, poético, romântico, trágico, melancólico, filosófico e misterioso do genial Kieslowski, que foi um dos mais importantes cineastas da história.

A formação e a trajetória de Kieslowski!

Krzysztof Kieslowski
foi mais um dos talentosos e criativos cineastas poloneses do Pós-Guerra. Ele se formou na famosa Escola de Cinema de Lodz, onde também estudaram Andrzej Wajda e Roman Polanski.


Kieslowski começou a filmar documentários em 1966 e somente na década de 1980 é que ele passou a se dedicar a realizar filmes ficcionais que, no entanto, estão intimamente relacionados ao momento histórico vivido pelos poloneses naquela época, em que o regime do 'Socialismo Real' enfrentava uma grave crise política, econômica e social, o que gerou a criação do movimento 'Solidariedade', liderado por Lech Walesa.

Esse movimento conquistou o apoio da quase totalidade dos poloneses, o que provocou a derrubada do governo 'comunista' em 1990, quando o o povo polonês elegeu um novo governo e Walesa tornou-se o novo Presidente do país. 

Os filmes de Kieslowski eram bastante críticos em relação ao sistema político, econômico e social dominante na Polônia entre 1945-1990 e justamente por isso é que os seus filmes eram frequentemente censurados. O filme 'Przypadek' ('Sorte Cega'), por exemplo, foi realizado em 1981 mas somente foi liberado pelo governo polonês em 1987. 

Após a realização de uma série de ótimos filmes e de uma monumental série de TV ('Dekalog'), que foi baseada nos Dez mandamentos, mas que tratava da vida humana no mundo atual, com seus dilemas, conflitos, angústias e contradições, a fama de Kieslowski atravessou fronteiras, consagrando-o como um dos principais cineastas contemporâneos, recebendo vários prêmios internacionais importantes (no Festival de Cannes, por exemplo).
A jovem e bela polonesa Weronika viaja para Cracóvia, de trem, enquanto observa as estrelas verde e vermelha dentro da pequena esfera.

Com a consagração de 'Dekalog', Kieslowski foi convidado para trabalhar na França, mas sem que isso significasse cortar inteiramente os laços com a sua terra natal, a Polônia. 


Essa dualidade pode ser claramente notada, inclusive, na produção de seu primeiro filme 'francês', que é esta obra-prima chamada 'A Dupla Vida de Véronique', pois a história do filme se desenvolve em dois países (Polônia e França), com duas personagens que são idênticas, não apenas nos aspectos físicos, mas também espirituais.

A protagonista do filme, interpretada pela bela e talentosa Irene Jacob, é uma jovem formada em Música. Mas acontece que a protagonista não é apenas uma, mas duas pessoas e que se chamam Weronika (a jovem polonesa) e Véronique (a jovem francesa).


As duas bonitas jovens nasceram no mesmo dia, mês e ano (23/11/1966), mas em duas cidades diferentes (Varsóvia e Paris) e ambas se formaram em Música. E o que acontecia na vida de uma delas, acabava se refletindo na vida da outra, em vários momentos, como se elas estivessem interligadas por tênues fios invisíveis. Inclusive, ambas sofriam dos mesmos problemas cardíacos, que acabará sendo fatal para uma delas. 

Cena na qual a imagem parece distorcida, como se estivesse mostrando uma outra realidade. 

Assim, quando Weronika, ainda criança (com apenas dois anos de idade), queimou a mão, Véronique quase fez o mesmo, em Paris, dias depois, mas evitou de fazer isso ao retirar a sua mão no último momento, embora não soubesse, é claro, o que havia acontecido com Weronika, a milhares de quilômetros de distância. Mas o que havia ocorrido com Weronika acabou evitando que ela fizesse a mesma coisa. 


Essa conexão entre as duas jovens (uma polonesa e outra francesa) pode ser interpretada de várias maneiras, pois essa é uma característica dos filmes do genial Kieslowski, ou seja, ele apresenta uma série de questões, mostra a sua visão dos acontecimentos, mas deixa espaço em sua obra para que aqueles que assistem aos seus filmes possam interpreta-la à sua própria maneira.


Tal conexão pode ser vista, por exemplo, como uma ligação espiritual que existiria entre as duas jovens, o que explicaria o fato de que aquilo que acontecia com uma, acabava mexendo com as sensações e sentimentos da outra. 


Weronika, por exemplo, diz ao seu pai que sente que não está sozinha no mundo. Ele responde que ela não está, mesmo, demonstrando não compreender o que a sua filha havia dito. 


E muitos pequenos detalhes também mostram essa conexão entre elas. 

Momento em que Weronika vê, pela primeira e única vez, a francesa Véronique junto com o grupo de turistas, que está correndo para entrar no ônibus, enquanto estudantes e policiais entram em conflito na praça de Cracóvia. 

Assim, quando o namorado de Weronika (Antek) fica hospedado em um hotel de Cracóvia, para onde ela viajou, o número do quarto é 287. 
Enquanto isso, quando Véronique se hospeda em um hotel de Paris, enquanto era perseguida por Alexandre (por quem estava apaixonada, mas que a havia decepcionado), o número do quarto no qual ela fica também é o de número 287. 


Logo, vemos em vários momentos do filme que as duas personagens estão ligadas por formas de comunicação não-verbais. E esta duplicidade das protagonistas é representada pelo uso das cores vermelha e verde. As duas cores aparecem o tempo inteiro, do início ao fim do filme, representando a ligação existente entre as duas jovens. 


No filme, também temos um único momento no qual as duas estiveram bem próximas. Isso ocorreu quando Véronique fez uma viagem pela Polônia, Hungria e Tchecoslováquia. 


E vemos que Véronique esteve em Cracóvia, em uma praça na qual ocorria uma manifestação estudantil que protestava contra o governo do país, Weronika percebe a presença de Véronique, que não a vê em nenhum momento e que está entrando em um ônibus de turistas (enquanto fotografava o povo na praça). Weronika fica olhando para Véronique, surpresa, sem acreditar no que estava acontecendo, mas Véronique não a vê. 

A francesa Véronique, dentro do ônibus, em Cracóvia. Ela fotografou Weronika, mas somente irá perceber isso mais adiante, graças à Alexandre. 

Posteriormente, somente no final do filme, é que Véronique irá se dar conta de que esteve na mesma praça em que Weronika se encontrava, ao mesmo tempo que a jovem polonesa. 


Além da conexão espiritual, uma outra possível explicação para essa duplicidade e para a conexão existente entre Weronika/Véronique é o mito europeu do doppelganger, que surgiu no século XIX e que possui origem germânica. Este mito diz que todos nós temos um duplo, que é idêntico em tudo a nós, não apenas nos aspectos físicos, mas também nos espirituais, bem como nas características de nossa personalidade.  


E duas outras possíveis explicações podem ser usadas para entender a relação existente entre a polonesa Weronika e a francesa Véronique, que vivem a uma imensa distância uma da outra, mesmo sendo tão semelhantes em praticamente tudo, que são: A) Universos Paralelos; B) Entrelaçamento Quântico.


Se o filme de Kieslowski fosse de ficção científica, então a teoria dos Universos Paralelos (Teoria dos Muitos Mundos ou do Multiverso, elaborada pelo físico Hugh Everett, em 1954) poderia ser aplicada para explicar a conexão entre as duas jovens. Segundo esta teoria, o nosso Universo não é o único. Existiriam muitos outros Universos, nos quais teríamos réplicas da Terra e de nós mesmos. E estas nossas réplicas seria muito semelhantes a nós, nos aspectos físicos, espirituais, aspectos da personalidade. 

Momento em que Weronika vê, em Cracóvia, Véronique dentro do ônibus de turistas. Ao fundo uma tropa da Polícia, que está reprimindo uma manifestação estudantil contra o governo polonês. 

Aliás, há um momento no filme no qual essa possibilidade parecer estar sendo sugerida por Kieslowski, que ocorre quando Weronika está viajando de trem para Cracóvia e olha pelo vidro e a imagem é um pouco modificada, como se estivesse mostrando a imagem de uma outra realidade, de um mundo alternativo. 


E uma última possibilidade para explicar essa forte ligação que temos entre Weronika/Véronique é a ideia do Entrelaçamento Quântico, a qual Einstein chamou, de forma irônica e espirituosa, de 'Ação Fantasmagórica à Distância'. 


Segundo este aspecto da Física Quântica, dois elétrons podem estar separados por uma gigantesca distância no espaço, mas o que acontece com um acaba refletindo no outro, independente do quão distantes possam estar. Einstein contestou tal ideia, porque ela violava a lei da Física que diz que nada pode viajar mais rápido do que a Luz. 


Mas o genial Einstein se enganou e, agora, é reconhecido que o Entrelaçamento Quântico realmente existe. Assim, há uma influência mútua entre tudo o que existe no Universo, não importando qual seja a distância que exista entre os diferentes objetos.  

A mulher misteriosa que vê Weronika sendo aceita como a nova soprano da Orquestra, na Polônia. Depois que Weronika morre, ela estará em Paris, onde ficará espantada ao se encontrar com Véronique e verificar a imensa semelhança existente entre as duas jovens. 

Obs1: 
Uma série de TV que usou e desenvolveu bastante essa Teoria do Multiverso de Everett foi a ótima 'Fringe', sobre a qual escrevi e postei muitos textos aqui no blog. Aliás, a ideia do Entrelaçamento Quântico, de formas de comunicação não-verbais e a existência de doppelgangers também estão presentes no seriado. Será que os produtores e roteiristas de 'Fringe' eram admiradores de Kieslowski? 


Então, todas estas possibilidades podem ser usadas para explicar porque as duas jovens, Weronika e Véronique estão conectadas e porque sentem que não estão sozinhas (Weronika) ou porque são afetadas por acontecimentos aos quais elas não tem ligação direta (Véronique). 


E a conexão entre as duas jovens é tão forte que quando Weronika morre, logo após ter sido escolhida para se tornar a soprano de uma orquestra, Véronique desiste de continuar com as suas aulas de canto, para desgosto do seu professor. Ela nem sabe explicar o motivo da sua decisão, mas claramente ela age desta maneira porque foi muito afetada, mesmo sem o saber, pela morte de Weronika. 


Véronique diz, para Alexandre, que a vida inteira ela teve a sensação de que nunca esteve sozinha. E ao mostrar os objetos que estão dentro de sua bolsa para ele, no hotel, ele vê uma fotografia, que Véronique tirou quando viajou para Cracóvia. Ela percebe que fotografou Weronika, a jovem que é idêntica à ela e com quem ela se sentiu ligada durante toda a sua vida. 


Logo, Véronique se dá conta da conexão que sentia com a jovem polonesa e chora, emocionada. 
Uma senhora idosa e corcunda, que anda com dificuldade. Será que os seres humanos são tão frágeis? 

Aliás, a própria maneira como Véronique e Alexandre se conheceram e se apaixonaram foi meio que de repente, eles nem mesmo conseguem explicar como este sentimento nasceu entre eles. É como se já estivesse pré-determinado que isso iria acontecer, o que é uma forma de Kieslowski questionar se, de fato, os seres humanos possuem o controle sobre as suas vidas ou se não passam de marionetes num jogo maior, a respeito do qual pouco conhecem, não possuindo controle algum sobre o seu destino.  


Além disso, o belo, poético e filosófico filme de Kieslowski também faz referências ao momento político que a Polônia vivenciava em 1990/91, quando o filme foi produzido, que foi justamente a época em que o regime comunista estava desmoronando e o país vivia um processo de democratização. 


O protesto na praça em Cracóvia e a retirada de uma gigantesca estátua (que parece ser de Lenin) são claras referências a estas mudanças políticas e sociais que ocorriam na Polônia. O filme também faz referência aos atentados terroristas que aconteciam na França naquela época. 


Mas em 'A Dupla Vida de Véronique' estes aspectos políticos ficam claramente em segundo plano, o que é uma diferença marcante em relação aos filmes realizados por Kieslowski quando o mesmo trabalhava na Polônia, quando vários dos seus filmes tinham nas questões políticas e sociais o seu tema dominante. 

Véronique fica triste quando descobre que Alexandre, por quem ela se apaixonou, entrou em contato com ela apenas porque estava escrevendo um livro e queria fazer um teste psicológico com uma mulher, sem ter tido nenhum motivo especial para te-la escolhido. 

Desta maneira, se nos filmes da sua fase polonesa predominam os aspectos exteriores da realidade e de que maneira os personagens de seus filmes eram afetados tais acontecimentos, ao começar a filmar na França o cineasta polonês parece ter passado a priorizar o interior dos personagens. 


Outro aspecto marcante deste filme fabuloso de Kieslowski está relacionado à questão do livre-arbítrio. 


Kieslowski parece questionar se os seres humanos são realmente livres para tomar as suas decisões ou se os mesmos são apenas meras marionetes que são manipuladas por uma Força Superior (ou Forças Superiores)? Aliás, o namorado (Alexandre) francês de Véronique é justamente alguém que trabalha com marionetes. 


Ou será que os acontecimentos que mudam e definem as nossas vidas são frutos do acaso? 


Alexandre chega a fazer duas marionetes de Véronique, sendo que ele justifica isso dizendo que elas costumam quebrar facilmente. Kieslowski parece que está se referindo à fragilidade do ser humano. Esta ideia sobre a fragilidade humana parecer ser representada no filme pela presença de uma senhora idosa, corcunda, que anda lentamente. 

Véronique e Alexandre mal se conhecem e se apaixonam, como se isso já estivesse escrito. 

Será que é assim que Deus age em relação aos seres humanos, parece perguntar Kieslowski, criando várias versões de cada um de nós, pois somos muito frágeis e quebramos facilmente?


A história de vida de Weronika e de Véronique não fecha as portas para nenhuma destas possibilidades. 


Com isso, Kieslowski consegue fazer uma série de questionamentos a respeito da existência e da vida humana, apresentando a sua visão sobre a mesma, ao mesmo tempo em que deixa espaço para que as pessoas possam assistir, refletir e tirar as suas próprias conclusões. 


E tudo isso é feito ao mesmo tempo em que vemos a um filme absolutamente maravilhoso, que é uma verdadeira obra-prima do Cinema mundial, com uma fotografia estupenda e que também possui uma das mais belas trilhas sonoras da história, de autoria de Zbigniew Presnier, que trabalhou com Kieslowski em inúmeros filmes (tal como ocorreu no 'Decálogo'). 

Momento no qual Véronique descobre que havia fotografado Weronika, quando viajou para Cracóvia. 

Infelizmente, o genial e talentoso Kieslowski encerrou a sua carreira logo após filmar 'A Fraternidade é Vermelha' (1994), ou seja, após encerrar a sua fantástica 'Trilogia das Cores'.


Depois disso, Kieslowski anunciou que não realizaria mais nenhum filme, pois afirmou que já havia dito tudo o que desejava em seus filmes. E poucos meses depois ele faleceu...


Destino? Talvez. Não sei. 


Mas seria tão bom se existisse um duplo de Kieslowski e o mesmo desse continuidade à sua carreira, criando novos e geniais filmes, que fossem tão excepcionais quanto 'A Dupla Vida de Véronique'. 

Alexandre mostra uma das marionetes que fez de Véronique. Ele fez duas, porque elas, tal como os seres humanos, se quebram facilmente. 

Informações Adicionais!


Título: La Double Vie de Véronique (A Dupla Vida de Véronique);

Diretor: Krzysztof Kieslowski;
Roteiro: Krzysztof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz;
Duração: 93 minutos;
Ano de Produção: 1991; 
Países de Produção: França, Polônia e Noruega;
Gênero: Drama;
Música: Zbigniew Preisner;
Fotografia: Slawomir Idziak;
Elenco: Irène Jacob (Weronika/Véronique); Aleksander Bardini (Maestro); Wladyslasw Kowalski (Pai de Weronika); Jerzy Gudejko (Antek); Philippe Volter (Alexandre Fabbri); Sandrine Dumas (Catherine); Claude Duneton (Pai de Véronique); Gilles Gaston-Dreyfus (Jean-Pierre);
Prêmios: 
Melhor Filme: Sindicato de Críticos de Cinema da França; 
Irène Jacob: Melhor Atriz no Festival de Cannes de 1991; 
K.Kieslowski: Melhor Diretor pela Federação Internacional de Críticos de Cinema - FIPRESCI.
Fim. 

Links:


Teoria dos Muito Mundos ou do Multiverso de Hugh Everett:


http://hypescience.com/interpretacao-de-muitos-mundos-vai-dar-um-no-na-sua-cabeca/


A Teoria do Multiverso pode estar certa?


http://hypescience.com/teoria-do-multiverso/

O Entrelaçamento Quântico realmente existe:


http://hypescience.com/emaranhamento-quantico-prova/


O mito do Doppelganger:


http://hypescience.com/10-historias-perturbadoras-de-doppelgangers/


Kieslowski: Outra Europa, outros filmes, outros públicos:


https://www.publico.pt/2015/12/05/culturaipsilon/noticia/kieslowski-1716160

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0101765/?ref_=nm_flmg_wr_10

Vídeo - Trailer do filme:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

'Sorte Cega': Kieslowski fez um clássico sobre o destino da Polônia e do ser humano! - Marcos Doniseti!

'Sorte Cega': Kieslowski fez um clássico sobre o destino da Polônia e do ser humano! - Marcos Doniseti! 
'Przypadek' ('Sorte Cega'): Ótimo filme de Kieslowski que mostra quais os caminhos que a Polônia poderia seguir, bem como de que maneira o acaso pode definir o rumo de nossas vidas. Filme foi produzido em 1981, mas somente foi liberado em 1987 pelo governo polonês devido às críticas que fazia ao regime comunista. 

Kieslowski e a Polônia!

O polonês Krzysztof Kieslowski foi um dos principais cineastas da história, sem dúvida alguma. Ele é o autor de uma obra belíssima, sendo o criador de vários clássicos do Cinema mundial, tais como são os casos dos filmes que constituem a chamada 'Trilogia das Cores' ('A Liberdade é Azul', 'A Igualdade é Branca' e 'A Fraternidade é Vermelha').

A obra de Kieslowski, que teve uma longa carreira como realizador de documentários, possui uma íntima relação com a história da Polônia, principalmente com aquele período que remete ao momento de crise final do regime comunista do país, que desmoronou em 1990, quando tivemos a eleição direta de Lech Walesa (principal líder do  movimento 'Solidariedade') como o novo Presidente da Polônia.

Este é o caso deste ótimo filme que é 'Sorte Cega' '('Przypadek' é o título original), que foi produzido em 1981, mas que foi censurado e que acabou sendo liberado pelo governo polonês apenas em 1987, ou seja, já na fase final de existência do regime socialista, que acabou sendo derrubado, de forma relativamente pacífica, e com uma transição negociada entre o governo do país (liderado pelo general Jaruzelski) e o movimento 'Solidariedade', liderado por Lech Walesa.

E a razão para a demora da liberação de 'Sorte Cega' fica clara quando assistimos ao filme, que faz uma dura crítica ao regime de governo do chamado 'Socialismo Real' que vigorava no país, questionando os motivos pelos quais os dirigentes comunistas se recusavam a abrir mão do poder e contestando claramente o suposto idealismo dos mesmos.
O adolescente Daniel aparece no início do filme e, depois, já adulto, irá reaparecer em uma das histórias.

Em 'Przypadek' também fica claro que o regime comunista polonês era bastante impopular e que o mesmo não contava com a simpatia dos poloneses, citando a realização de greves e protestos contrários ao governo do país, em vários momentos históricos, e que também ocorriam naquele momento (na época da produção do filme o 'Solidariedade' estava no auge).

Quem assistisse ao filme, naquela época, ficaria convicto de que o regime comunista não iria durar muito tempo, o que, de fato, acabou acontecendo. Não é exagero dizer que, em 'Sorte Cega', Kieslowski profetizou o fim daquele sistema. Um dos personagens (Adam), dirigente do Partido Comunista, diz que o governo comunista irá desmoronar e que precisarão deles, os burocratas, para 'juntar os pedaços' quando isso vier a acontecer.

E foi o que aconteceu na Polônia e, também, nos demais países do chamado 'Socialismo Real' quando tais governos foram derrubados, entre 1989/1990.

E o genial Kieslowski também trata de mostrar, em 'Sorte Cega', quais seriam os possíveis caminhos que a Polônia e os povos que viviam sob os regimes do 'Socialismo Real' do 'Leste Europeu' (Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Alemanha Oriental) poderiam seguir sob aqueles sistemas de governo. Atuar dentro do governo para poder modificá-lo? Se integrar à Resistência? Ou adotar uma atitude apolítica?
Cena que mostra Witek cursando Medicina. Em uma das histórias (a terceira) ele irá se formar e seguirá a carreira de médico e em outras não. 

E o filme também pode ser visto como uma forma de mostrar que as decisões que tomamos em nossas vidas irá nos conduzir a destinos muitos diferentes. Se pegarmos um trem, a nossa vida será uma. Se não o pegarmos, a vida que teremos será radicalmente distinta. É o acaso decidindo as nossas vidas.

No caso da Polônia, no momento histórico (1981) em que Kieslowski está produzindo 'Przypadek', o sindicato 'Solidariedade' já tinha conseguido um apoio maciço da população (chegou a ter 10 milhões de membros) e conseguia promover inúmeras greves e protestos pelo país (o que, aliás, é citado no filme), mas também era duramente perseguido e reprimido pelo governo polonês.

Obs1: Em dezembro de 1981, um governo militar tomou o poder na Polônia e, sob o comando do general Wojciech Jaruzelski, colocou o 'Solidariedade' na ilegalidade e prendeu os seus principais líderes (incluindo Walesa). Tudo indica que os militares poloneses fizeram isso para impedir que as tropas do 'Pacto de Varsóvia' (organização militar que reunia a URSS e os demais países do bloco soviético europeu) invadissem a Polônia, tal como já haviam feito em 1956 (Hungria) e em 1968 (Tchecoslováquia).

E Kieslowski trata de mostrar essa realidade dos países do bloco soviético (e do destino que nos aguarda) com base na vida de um jovem estudante de medicina (Witek), que tem dúvidas a respeito do que fazer da sua vida. E as dúvidas de Witek podem, muito bem, ser relacionadas aos rumos que a própria nação polonesa poderia tomar naquele momento em que o filme foi realizado.
O pai de Witek pediu ao filho que fosse uma pessoa honesta. E o mesmo cumpriu com esta vontade. 

Obs2:
É bom esclarecer que foi a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista que desencadeou a Segunda Guerra Mundial na Europa, em 01/09/1939. Na Ásia, a Guerra já havia se iniciado em 1931, quando o Japão invadiu e ocupou a Manchúria, região do norte da China. Entre 1939 e 1941 a Polônia terminou sendo dividida e ocupada por alemães e soviéticos e, ao final do conflito, a URSS acabou impondo um regime de governo tipicamente stalinista ao país, o que era rejeitado pela maioria do povo polonês, que preferia um governo liberal. Mas naquela época era a vontade das Grandes Potências que valia e não as dos povos de cada nação. A Grécia, por exemplo, seguiu o caminho oposto. Sua população, ao final da Segunda Guerra, era majoritariamente socialista e, no entanto, ela foi obrigada a aceitar a submissão do país ao Capitalismo Ocidental. E para impor esse sistema, ali também foi necessário instalar uma Ditadura brutal, que massacrou a oposição e eliminou milhares de pessoas. Na Espanha, um governo de Esquerda havia sido democraticamente eleito em 1936, mas um Golpe de Estado (liderado por Francisco Franco) iniciou uma Guerra Civil e impôs uma Ditadura que matou cerca de 2 milhões de espanhóis até ser derrubada, em 1975. A Ditadura de Franco somente durou tanto tempo porque a mesma contou com o apoio dos EUA e dos demais países capitalistas. 

Kieslowski e o acaso!

Witek é um jovem que decidiu seguir a carreira de médico para atender à vontade de seu pai. Mas, poucos segundo antes de morrer, ao falar com o mesmo ao telefone, ele ouviu que não precisaria mais fazer isso, ficando livre para escolher o seu destino.

E é a partir daí que o filme se dividirá em três partes, nas quais também fica claro que as decisões que tomamos sofrem a interferência do acaso e que o mesmo acaba sendo decisivo no rumo que as nossas vidas irão tomar.
Witek conheceu Werner, o veterano dirigente comunista, no trem que o leva à Varsóvia e isso mudou o rumo de sua vida. 
Assim, se você for a uma balada, ao teatro ou ao cinema, poderá acabar conhecendo o amor de sua vida e, assim, será muito feliz ao lado do mesmo. Mas se você não fizer nada disso, isso significa que você não o encontrará e, desta maneira, poderá ser uma pessoa triste e solitária até o fim dos seus dias.

Tais dúvidas quanto a que rumo seguir levam Kieslowski a contar três diferentes histórias de vida para Witek: Na primeira ele se torna um dirigente bem sucedido do Partido Comunista depois que conheceu Werner durante a viagem de trem. Na segunda história, ele se torna um militante do movimento de Resistência que luta para derrubar o regime comunista polonês depois que foi preso e condenado a prestar serviços comunitários, período durante o qual conheceu um militante do movimento estudantil. E na terceira trama ele é um médico e profissional dedicado e bom pai de família, mas totalmente apolítico, que não é favorável e nem contrário ao governo do país, mas que no fim acaba tendo que tomar uma posição.

Nas três histórias percebe-se um elemento em comum, que é o fato de que Witek é uma pessoa honesta, correta, decente, justa e que deseja o melhor para todos. Mas nas três histórias as suas tentativas de agir sempre de maneira honesta não o impede de se envolver em situações nas quais os outros acabam sendo vítimas de injustiças.

Na primeira trama, por exemplo, o fato dele ser dirigente, correto e honesto, do Partido Comunista não impede que a sua namorada (Czuszka) seja presa pela Polícia Secreta por envolvimento em atividades políticas.
Witek reencontra Czuszka, uma antiga namorada, com quem ele reata o relacionamento. 
Na segunda história, ele participa de atividades do movimento de Resistência, acaba sendo seguido pela Polícia Secreta que, por meio dele, acaba chegando aos outros militantes, que são presos. E como ele não foi preso, acaba sendo visto como suspeito e é expulso do movimento.

E na terceira história, Witek tenta se manter alheio à qualquer forma de atividade política, mas acabará mudando de opinião e se envolvendo, com a finalidade de ajudar ao seu amigo e professor de Medicina, fato este que o levará a ter um final trágico.

Esta acaba sendo uma maneira de Kieslowski criticar aqueles que tentavam se manter alheios ao que estava acontecendo na Polônia naquele momento.

Kieslowski: Três filmes em um!

As três histórias começam de forma muito semelhante: Witek sai correndo para comprar uma passagem a fim de 'pegar' o trem que o levará até Varsóvia, capital da Polônia. Nas três oportunidades temos pequenas diferenças, bem sutis, neste momento.
Nas três histórias em que o filme se divide, Witek corre para tentar pegar o trem. O resultado de cada tentativa será diferente e isso resultará em vidas distintas para o jovem estudante. 

Na primeira história, Witek esbarra em um homem que está bebendo cerveja na estação ferroviária e derruba o copo de sua mão. Na segunda trama, ele se choca com o mesmo, mas não derruba o copo dele. E na terceira história, ele empurra o homem, mas sem derrubar o copo de cerveja.  

O filme começa com algumas cenas aparentemente desconectadas, mas que estão claramente relacionadas às três histórias que serão desenvolvidas.

A primeira cena mostra algumas pessoas mortas, sangrando e sendo arrastadas no corredor de um hospital, como se tivessem sido vítimas de algum ato de violência ou de repressão. A segunda cena mostra um pai ensinando o seu filho a fazer conta e a escrever números (e o número oito tem um destaque especial... o motivo disso ficará claro mais adiante). Na terceira cena vemos uma criança, Daniel, se despedindo de seu amigo, pois irá morar na Dinamarca.

Em uma quarta cena vemos um grupo de professores em uma reunião, enquanto uma criança (que tudo indica ser Witek) os espiona. Depois vemos outra cena, na qual Witek e a sua namorada (Czuszka) estão se beijando na beira de uma rodovia e um caminhoneiro o provoca.

E mais adiante também assistimos a uma cena na qual uma mulher está tendo o seu corpo cortado como parte de uma aula a estudantes de Medicina, incluindo Witek e uma jovem e bonita loira (Olga). Esta acaba sentindo-se mal e isso chama a atenção de Witek, que nunca havia conversado com ela anteriormente. Isso irá mudar a vida de ambos, pois em uma das tramas do filme eles irão namorar e casar.
Adam é um veterano dirigente do Partido Comunista que ajudará Witek a subir dentro da burocracia partidária. Isso mostra que o apadrinhamento político era importante na Polônia da época do 'Socialismo Real'. Mas quando o padrinho caía em desgraça os seus protegidos também sofriam as consequências. Assim, o filme de Kieslowski mostra as principais deficiências do regime do 'Socialismo Real' polonês. 
Também vemos outra cena, na qual Witek visita o seu pai, que está internado em um hospital e que se relaciona com uma das enfermeiras. 

Em outro momento, Witek conversa com o seu pai ao telefone e o mesmo o desobriga de fazer a sua vontade, ou seja, de estudar e se formar, obrigatoriamente, em Medicina. Depois, assistimos a uma cena na qual um policial pega Witek urinando, à noite, na estação ferroviária. Witek, em outra cena, comunica ao seu professor que irá parar de estudar Medicina. 

Todas estas cenas duram quase sete minutos. E todas elas estão, de alguma maneira, relacionadas às três histórias que veremos neste filme de Kieslowski.

Primeira história!

Na primeira história, que é a mais longa do filme, Witek sai correndo por uma estação ferroviária, compra a passagem e consegue entrar no trem que o levará até Varsóvia.

Durante a viagem ele acaba conhecendo um dirigente do Partido Comunista (Werner), de quem ele se tornará amigo. Werner é um antigo dirigente comunista que foi preso na época mais dura e repressiva do regime stalinista, no início dos anos 1950, e que ficou manco devido às torturas que sofreu na prisão.
Na primeira história, Czuszka é uma ativista do movimento de Resistência, enquanto Witek é membro do Partido Comunista. Ela será presa em função do seu envolvimento com a oposição, o que irá revoltar Witek. 
Obs3: Nesta época, o governo de Stalin impôs aos países do Leste Europeu a instalação de governos cujos integrantes fossem de uma total lealdade ao governo soviético. Quem não fosse considerado como sendo de absoluta confiança aos olhos do governo da URSS era preso e acusado de inúmeros crimes (espionagem, atividades contra-revolucionárias, sabotagem), mesmo que tais acusações fossem totalmente falsas. E as confissões eram arrancadas sob tortura, física e psicológica, é claro. Um ótimo filme que mostra essa repressão nos regimes stalinistas do 'Leste Europeu' é a 'A Confissão', de Costa-Gavras.

Depois, Werner foi reabilitado e ganhou um apartamento simples, vivendo da ajuda que o governo lhe fornecia. E apesar do que lhe aconteceu na prisão, Werner fazia palestras a jovens dirigentes do Partido Comunista nas quais dizia que acreditava que o regime comunista era o melhor, apesar dos erros que cometia, e que o mesmo teria condições de construir um mundo justo e que essa crença era fundamental para que isso acontecesse. Mas em particular, quando conversa com Witek, ele faz tal afirmação, mas sem muita convicção, adotando uma postura dúbia.

Nesta primeira história, Witek também acaba sendo indicado, por Werner, para procurar por Adam, outro dirigente comunista que foi preso e reabilitado, mas que conseguiu subir dentro da burocracia partidária. E por indicação de Adam, Witek entra para o Partido Comunista. Ele tenta fazer o seu trabalho, de colher informações e reclamações por parte da população e de levá-las até os dirigentes, mas vai percebendo o quanto a burocracia e o partido não se esforçam para resolvê-los, pois isso implicaria, muitas vezes, em reduzir o poder da burocracia partidária sobre o Estado e a Sociedade.
Witek recebe de Werner uma passagem para que possa viajar até Paris. Os funcionários do governo tinham certos privilégios em relação à população em geral, comprando bens de consumo e serviços que as pessoas comuns não tinham acesso. Isso era um dos motivos da insatisfação dos poloneses com o governo do Partido Comunista. 
Adam se apresenta como um líder reformista, que deseja promover mudanças no governo e na sociedade, mas ele afirma que elas somente são possíveis de serem realizadas por 'dentro' do sistema. Quem está 'de fora' não consegue fazer isso. 

Obs4: De certa maneira, o filme de Kieslowski antecipou o governo de Gorbatchev, que de 1985 em diante começou um programa de reformas políticas (Glasnost) e econômicas (Perestroika) que visava modernizar o sistema comunista soviético. 

Assim, um dirigente, um líder do próprio Partido Comunista, liderava um processo de reformas, confirmando o que Adam, personagem de 'Sorte Cega', diz, ou seja, que atuando dentro do sistema ficaria mais fácil modificá-lo. 

Witek acaba sendo escolhido para tratar de uma revolta que é promovida por um grupo de jovens drogados que está internado em um hospital para tratamento de viciados. Tais jovens se rebelaram e prenderam os médicos do hospital em uma jaula, ameaçando matá-los, pois adotam um tratamento muito repressivo.

Os jovens querem o retorno dos antigos médicos, que os tratavam de forma mais liberal, respeitando os seus desejos e interesses. E Witek é enviado para resolver a situação. Ele consegue libertar os médicos presos, impedindo que os mesmos viessem a ser mortos pelos jovens.
Witek revolta-se contra o fato de que uma greve o impede de viajar para a França. 
Este fato pode ser interpretado como uma forma de Kieslowski defender a criação de um governo mais liberal, mais aberto a mudanças e a críticas, para a Polônia. 

Witek também se encontra com uma antiga namorada (Czuszka), dos tempos de ensino médio, com quem ele acaba reatando o relacionamento. Porém, ela está envolvida com atividades do movimento de Resistência e ajuda a elaborar textos e artigos que são divulgados por todo o país.

Witek e a namorada acabam sendo descobertos por Adam e, tempos depois, ela termina sendo presa pela Polícia Secreta. Witek vai atrás de Adam, agredindo ao mesmo, e o acusa de tê-lo usado como informante. Indignado, ele vai embora do apartamento de Werner e tenta reatar o relacionamento com a namorada (Czuszka), mas essa acaba por rejeitá-lo. 

Witek vai até o aeroporto, pois irá viajar em uma missão oficial, mas uma greve o impede de realizar a viagem.

Fim da primeira história.

Segunda história!

Nesta segunda trama do filme de Kieslowski, o início é muito semelhante ao da primeira história, mas com pequenas e sutis diferenças.
Quando prestou serviços comunitários, Witek conheceu Marek, membro do movimento de Resistência, ao qual ele irá aderir. 

Nela, Witek corre em direção a estação ferroviária, para comprar uma passagem para Varsóvia, ele sai em disparada, pois o trem está saindo da estação, derruba o copo de cerveja de um homem, não consegue subir no trem e briga com o segurança do local, que chama a Polícia. 

Com isso, Witek acaba sendo preso, julgado e condenado a prestar 30 dias de serviços comunitários. No local onde presta o serviço, ele acaba conhecendo um jovem militante (Marek) do movimento de Resistência, que luta contra o governo comunista do país. Assim, ele acaba aderindo ao movimento. Witek participa de reuniões, da impressão de panfletos, distribuição de livros clandestinos e de outras atividades. 

O movimento conta com a importante participação de um padre católico (Stefan) e Witek chega a se converter ao Catolicismo e a ser batizado. Witek diz para o padre Stefan que se não tivesse perdido o trem no mês anterior, ele não estaria ali naquele momento e Stefan disse que isso não aconteceu por acaso, mas Witek diz o contrário. 

Assim, enquanto na primeira trama do filme Witek tenta promover mudanças na Polônia atuando dentro do sistema político do país, agora ele vai atuar fora do mesmo.
Na segunda trama do filme, Witek conheceu a bela Vera, com quem ele terá um envolvimento romântico.
Obs5: A Igreja Católica desempenhou um importante papel no apoio ao movimento 'Solidariedade', ainda mais que a Polônia é um país fortemente católico, apoiando greves, protestos e manifestações contra o regime stalinista. Não se pode esquecer que o Papa João Paulo II era polonês e também deu um importante apoio ao 'Solidariedade', contribuindo fortemente para o enfraquecimento e para a derrubada do regime comunista do país. 

Witek promove uma reunião do movimento de Resistência em seu apartamento (que é de sua velha tia, uma esperta e veterana comunista) e reencontra Daniel, aquele garoto que, no início do filme, foi para a Dinamarca. E por meio deste reencontro, ele fica conhecendo a bela Vera, com quem inicia um romance. 

Witek recebe a missão de viajar ao exterior, para um encontro de jovens católicos, mas a Polícia sabe que ele faz parte da Resistência e diz que ele somente irá viajar caso se transforme em um informante da Polícia, o que ele recusa. Assim, ele não irá viajar. 

Witek revê Vera e cita uma série de fatos históricos importantes da Polônia e nos quais os seus antepassados se envolveram: a Rebelião de 1863 (Bisavô), Pilsudisk no Vístula (Avô), Kutrzeba em 1939 e Poznan em 1956 (Pai).
O padre Stefan, que faz parte do movimento de Resistência, tem uma participação importante na segunda história e aparece rapidamente na terceira e última. 

No entanto, Witek acaba sendo perseguido pela Polícia, que descobre o local em que os integrantes do movimento se reuniam. E assim eles acabam sendo presos, com a exceção de Witek. Por isso ele passa a ser considerado suspeito de traição e é expulso da Resistência.

Uma característica do filme de Kieslowski é que personagens que participam de uma das tramas e com as quais Witek interagiu fortemente, em outra história ele tem contatos rápidos (visuais ou conversas passageiras) com os mesmos. Assim, nesta segunda trama ele conversa rapidamente com Werner, que na primeira história foi fundamental para mudar o rumo de sua vida.

E a velha tia comunista ouve, na emissora 'Europa Livre' (que era mantida pela CIA), a notícia a respeito de uma série de greves e protestos que estão acontecendo na Polônia e diz para Witek que tinha sido bom que ele não tivesse viajado.

Fim.

Terceira história!

Na terceira trama do filme, Witek corre para comprar a passagem de trem, empurra o homem que bebe cerveja, mas o copo não cai, ele tenta entrar no trem, mas não consegue.
Vera e Witek se beijam... Mas este romance acontece apenas na segunda trama do filme. 
Com isso, ele acaba encontrando, na estação, a jovem Olga, a mesma estudante de Medicina que se sentiu mal quando viu o corpo de sua ex-professora ser cortado durante uma aula. Ela havia ido até a estação para se despedir dele. E os dois começam a namorar. 

Nesta terceira parte, Witek retoma o curso de Medicina que havia abandonado e conclui o curso, passando a exercer a profissão. Ele e Olga acabam se casando e tendo um filho (além disso, ela ficará grávida de uma menina).

Agora, Witek não tem mais qualquer tipo de envolvimento político, seja a favor do governo (como membro do Partido Comunista), seja contra o mesmo (como membro da Resistência).

Ele é apenas um cidadão que procura agir de forma correta e honesta, bem como construir uma família. E nas oportunidades em que Witek foi convidado para atuar politicamente, ele se recusou a fazer isso. E nesta parte do filme, a tia de Witek é apenas uma boa senhora que ajuda a tomar conta do filho dele. E nesta terceira trama, Witek é ateu.
Na última história do filme, Witek formou-se em Medicina, construiu uma família e adotou uma postura apolítica. 
Apesar de adotar uma postura apolítica, Witek acabará atendendo a um pedido do seu professor, cujo filho foi preso por envolvimento em atividades políticas. O professor quer ir para Varsóvia, a fim de ajudar na libertação do filho, mas ele tem conferências marcadas na Líbia. Ele pede que Witek vá em seu lugar e este acaba aceitando. 

E personagens da história anterior (a segunda) irão aparecer novamente, agora, de forma rápida, caso do padre Stefan, que também está no aeroporto, esperando pelo voo que o levará à Paris. E uma funcionária do aeroporto que apareceu na primeira trama, surge novamente, nesta terceira parte do filme. 

Desta vez, Witek entrará no avião, o que ele não conseguiu nas duas tramas anteriores, mas o mesmo irá explodir em pleno ar, matando os seus passageiros.

Fim.
Na única oportunidade em que Witek conseguiu embarcar no avião, o mesmo explodiu.
Informações Adicionais:

Título: Przypadek (Sorte Cega);
Diretor: Krzysztof Kieslowski;
Roteiro: Krzysztof Kieslowski;
Ano de Produção: 1981 (liberado apenas em 1987 devido à censura); 
País de Produção: Polônia;
Duração: 114 minutos; 
Gênero: Drama Político;
Música: Wjociech Kilar; 
Fotografia: Krzysztof Pakulski;
Elenco: Boguslaw Linda (Witek); Tadeusz Lomnicki (Werner); Zbigniew Zapasiewicz (Adam); Boguslawa Pawelec (Czuszka); Marzena Trybala (Werka ou Vera); Jacek Borkowski (Marek); Jacek Sas-Yhrynowski (Daniel); Adam Ferency (Stefan); Monica Gozdzik (Olga); Zygmunt Hubner (Dziekan); Irena Byrska (Ciotka).

Links:

Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0084549/?ref_=nm_flmg_wr_14

Kieslowski: Outra Europa, outros filmes, outros públicos:

https://www.publico.pt/2015/12/05/culturaipsilon/noticia/kieslowski-1716160


Vídeo - Trailer do Filme: