Todos a bordo: Expresso Buraco de Minhoca vai partir - do site Inovação Tecnológica
Com informações da New Scientist - 24/03/2012
Todos a bordo do Expresso Buraco de Minhoca, rumo à primeira viagem realmente espacial da espécie humana.
Calma, não precisa
correr, porque as passagens ainda não estão à venda.
A novidade é que parece que não é tão difícil quanto se imaginava
construir esses túneis que unem localidades diferentes do espaçotempo -
ou abrir portas
para outros universos.
Estima-se que quem entrar em um buraco de minhoca poderá reaparecer
instantaneamente perto de Plutão, ou na galáxia de Andrômeda, ou em
qualquer outro lugar do Universo, ou mesmo em outro universo - sem a
chatice da viagem.
Por enquanto, os
buracos de minhoca estão apenas nos livros de teoria: ninguém nunca detectou um e nem tampouco existe um projeto para construir um deles.
E não é por acaso: a mesma teoria que garante que eles são possíveis
afirma que eles são intrinsecamente instáveis, e costumam se fechar
antes que você embarque em sua nave espacial.
A única saída é alimentá-los com uma
forma exótica de matéria com energia negativa, algo cuja existência é posta em dúvida por muitos físicos.
Buraco de minhoca factível
Mas, agora, tudo mudou - esclareça-se, tudo mudou na teoria.
Um físico grego e dois alemães demonstraram que pode ser possível
construir um buraco de minhoca sem usar nem um só saco desse cimento
esquisito chamado matéria com energia negativa.
"Você não vai precisar nem mesmo de matéria normal, com energia
positiva," garante Burkhard Kleihaus, da Universidade de Oldemburgo, na
Alemanha. "Buracos de minhoca podem ser mantidos aberto sem precisar de
nada."
Se isto estiver correto, significa então que pode ser possível
encontrar buracos de minhoca pelo espaço. Civilizações mais avançadas do
que a nossa já podem
até mesmo estar indo para lá e para cá nesse metrô galáctico construído com buracos de minhoca.
E, eventualmente, até mesmo poderemos construir nossos próprios
túneis espaçotemporais, como portais para outras paragens, o que inclui,
muito provavelmente, outros universos, com suas próprias galáxias,
estrelas e planetas.
Sempre Einstein
A ideia de um buraco de minhoca se sustenta na teoria de Einstein,
que mostra que a gravidade nada mais é do que uma dobradura invisível do
espaçotempo causada pela energia - a massa-energia de grandes corpos
celestes, por exemplo.
Foi o austríaco Ludwig Flamm que, em 1916, descobriu que dobraduras
suficientemente dobradas poderiam funcionar como conduítes através do
espaço e do tempo.
Isso chamou a atenção do próprio Einstein, que estudou a
possibilidade juntamente com Nathan Rosen. Mas eles concluíram que a
única conexão que um buraco de minhoca oferecia seria para um universo
paralelo, o que os dois consideraram algo impensável.
Só em 1955, John Wheeler demonstrou que é possível conectar duas
regiões do nosso próprio Universo - foi ele quem cunhou o termo buraco
de minhoca, assim como ele mesmo já havia batizado os buracos negros.
Mas, claro, coube a Carl Sagan tirar essa curiosidade dos livros de
física e usá-la para atiçar o interesse na ciência do público em geral.
Um buraco de minhoca foi usado em sua obra Contato.
A tal da matéria com energia negativa seria necessária porque essa
matéria teria uma espécie de anti-gravidade, o que seria necessário para
que o buraco de minhoca abrisse sua boca e nos deixasse passar.
Embora a teoria de Einstein tenha resistido a todos os testes feitos
até agora, os cientistas acreditam que ela talvez seja uma aproximação
de uma teoria mais geral, por duas razões: a primeira é que ela não se
coaduna com a mecânica quântica, e esta tampouco cede a todos os
experimentos possíveis. E, segundo, porque a teoria de Einstein colapsa
no centro de um buraco negro, na chamada singularidade.
O observatório Integral recentemente alterou os parâmetros de busca da chamada
física pós-Einstein. [Imagem: ESA/SPI Team/ECF]
Indo além de Einstein
Já em 1921, Theodor Kaluza e Oskar Klein tentaram ir além da teoria da relatividade.
Inspirados em Einstein, que mostrou que a gravidade é a curvatura de
um tecido que une as três dimensões do espaço mais o tempo, Kaluza e
Klein propuseram que tanto a gravidade quanto a força eletromagnética
podem ser explicadas pela curvatura de um espaçotempo de cinco
dimensões.
Hoje, os teóricos da
teoria das cordas afirmam que todas as quatro forças fundamentais podem ser explicadas pelas dobraduras de um espaçotempo de 10 dimensões.
Mas essas teorias são complexas demais até mesmo para os físicos teóricos.
E aqui entram Kleihaus, Panagiota Kanti e Jutta Kunz, os três
intrépidos proponentes de uma versão mais simples dos buracos de
minhoca.
O fundamento é que, se existem outras dimensões, nós não as percebemos porque elas são pequenas demais.
O processo de compactar as seis dimensões que não percebemos -
aquelas que completam o quadro de 10 dimensões da teoria das cordas -
cria vários novos campos de força, um deles chamado campo dilaton.
Da mesma forma que a gravidade na teoria da relatividade depende da
curvatura do espaçotempo, nessas novas teorias a gravidade depende da
curvatura mais a curvatura elevada a uma potência.
Os três pesquisadores usaram esse termo extra para propor um buraco de minhoca que não precisa de antigravidade.
Procurando buracos de minhoca no espaço
O resultado assustaria Einstein, porque o buraco de minhoca
resultante do novo estudo não pode nos levar para Plutão ou Andrômeda,
mas apenas para outros universos.
Desafiador, mas altamente especulativo.
A menos que alguém possa encontrar indícios de que tal estrutura exista no nosso
Universo, pairando por aí em algum lugar.
Os três pesquisadores acreditam que é possível.
É bom lembrar que estávamos falando de dimensões submicroscópicas,
quando estamos interessados em algo por onde possa menos pelo menos uma
nave espacial.
Os cientistas afirmam que a inflação do Universo pode ter espichado
esses buracos de minhoca a ponto de eles superarem as dimensões humanas,
como um ponto de tinta colocado sobre uma bexiga vai aumentando
conforme a bexiga se enche.
"A inflação [do Universo] pode ter inchado os minúsculos buracos
negros que permeiam o tecido submicroscópico do espaço," propõe
Kleihaus.
Como encontrá-los? Olhando para o Universo, já que a presença de um
buraco de minhoca macroscópico deverá representar uma mudança radical no
campo de visão dos telescópios.
"Afinal de contas, a boca do buraco de minhoca é uma janela para outro universo," propõe o cientista.
Desde, é claro, que o buraco de minhoca esteja com a boca precisamente virada para a Terra.
Bibliografia:
Stable Lorentzian Wormholes in Dilatonic Einstein-Gauss-Bonnet Theory
Panagiota Kanti, Burkhard Kleihaus, Jutta Kunz
arXiv
http://arxiv.org/abs/1111.4049
Link:
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=buracos-de-minhoca&id=010130120324