domingo, 12 de março de 2017

‘Ladrões de Bicicleta’ – Vittorio De Sica mostra, de forma bela e poética, a miséria da Itália do Pós-Guerra em um clássico do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!

‘Ladrões de Bicicleta’ – Vittorio De Sica mostra, de forma bela e poética, a miséria da Itália do Pós-Guerra em um clássico do Neo-Realismo! – Marcos Doniseti!
'Ladrões de Bicicleta', uma obra-prima neo-realista de Vittorio De Sica, é um dos grandes clássicos da história do Cinema italiano e mundial. 
Neo-Realismo: Contexto Histórico e Características!

Vittorio De Sica foi um dos principais diretores do Neo-Realismo italiano, que se consagrou como um dos mais importantes movimentos da história do Cinema, exercendo uma grande influência sobre a produção cinematográfica de todo o planeta (Brasil, Leste Europeu, Japão). No Brasil, por exemplo, o Neo-Realismo gerou a criação do chamado ‘Cinema Novo’, do qual Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos foram alguns dos principais nomes. 

‘Ladrões de Bicicleta’ é, sem dúvida alguma, um dos principais filmes do Neo-Realismo, sendo uma obra bela, sensível e poética, tendo conquistado o Oscar de Melhor Filme estrangeiro em 1950. 

Nele, estão presentes todas as principais características deste importante movimento: 

A) O uso de atores não profissionais (é o caso dos atores que interpretam Antonio, Maria e Bruno); 

B) As locações feitas nas ruas e campos (até porque os estúdios cinematográficos foram usados para ajudar desabrigados); 

C) O baixo orçamento das produções; 

D) A recusa em usar de efeitos visuais e a utilização de diálogos simples; 

E) A denúncia da pobreza e da miséria na qual a grande maioria do povo italiano vivia nesta época (logo após o final da Segunda Guerra Mundial), mostrando tudo o que caracterizava o país (desemprego, fome, miséria, falta de moradias, serviços públicos precários, prostituição); 

F) O uso das línguas faladas nas diferentes cidades e regiões italianas. 
Antonio consegue um emprego de colador de cartazes, mas ele precisa de uma bicicleta para fazer o trabalho. Muitos queriam o emprego, mostrando que a oferta de vagas não atendia a procura. 
O auge do Neo-Realismo se deu entre 1943 e 1948, que foi justamente o período no qual se desenvolveu a luta contra o Fascismo. Foi nessa época que os comunistas, socialistas, liberais e democrata-cristãos italianos lutaram juntos, de armas na mão, para derrubar o governo de Mussolini e expulsar os alemães da Itália, o que aconteceu em Abril de 1945, bem como para garantir a construção de uma sociedade livre e democrática no Pós-Guerra. 

Após a invasão do Sul italiano pelos Aliados, no início de Julho de 1943, e a derrubada do governo de Mussolini pelos próprios membros do Grande Conselho Fascista (que ocorreu no final de Julho de 1943), os nazistas alemães invadiram e ocuparam o Norte e o Centro da Itália, onde eles criaram a chamada ‘República de Saló’, que existiu entre Setembro de 1943 e Abril de 1945. 

Mussolini era, formalmente, o líder deste Governo, mas o mesmo nunca passou de um regime fantoche que era inteiramente controlado pelos nazistas alemães. Mussolini, nesta época, já vivia em profunda depressão e não governava coisa alguma. 

Nesta época, dos dois lados da Europa, naquelas regiões que foram ocupadas por tropas soviéticas (Leste Europeu) e por tropas dos EUA, França e Grã-Bretanha (Europa Ocidental), foram formados governos de ‘União Nacional’, que eram integrados por representantes da Burguesia, das Classes Médias e dos Trabalhadores. 

Porém, a partir de 1947/48 o cenário político europeu e italiano se modificou radicalmente, ocorrendo uma divisão entre as forças políticas e sociais que haviam lutado contra o Nazi-Fascismo. 
Antonio e a sua esposa (Maria) precisam retirar água de um poço para abastecer a sua casa. A infra-estrutura das cidades italianas estava em situação bastante precária em função da destruição provocada pela Guerra, principalmente nas cidades do Centro e do Norte italiano.
Isso desencadeou a Guerra Fria entre os dois blocos (soviético e americano), dividindo o Velho Mundo, o que acabou se refletindo dentro de cada país que havia sido libertado do domínio Nazi-Fascista (Itália, França, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria) pelos países Aliados (URSS, EUA, Grã-Bretanha), gerando o fim dos governos de ‘União Nacional’. 

Com isso, os comunistas e socialistas foram expulsos do governo de ‘União Nacional’ italiano que havia sido formado logo após o final da Segunda Guerra.

Assim, a Itália passou a ser governada por uma coalizão de forças políticas e sociais conservadoras, liderada pelo PDC (Partido Democrata Cristão), e que contava com o apoio da Igreja Católica, dos industriais, dos banqueiros, dos latifundiários, do governo dos EUA e, também, da Máfia. 

E foi justamente neste período que o Neo-Realismo passou a ser perseguido pelo governo italiano, que começou a censurar e a dificultar a produção dos filmes realizados pelos cineastas neo-realistas, que mostravam uma Itália (pobre e atrasada) que o governo conservador desejava esconder. Essa perseguição contra o Neo-Realismo acabou gerando a sua decadência junto ao grande público.

Essa perseguição aconteceu, também, muito em função do fato de que a grande maioria dos cineastas neo-realistas era, também, ligada ao PCI (Partido Comunista Italiano), que havia sido expulso do governo do país.
Antonio e Maria sonham com uma vida melhor, depois que Antonio comprou a bicicleta que lhe permitirá trabalhar como um colador de cartazes. 
Nos filmes neo-realistas, estes cineastas tratavam de temas que incomodavam fortemente aos governantes italianos conservadores (burgueses) do Pós-48, tais como: O fascismo, o desemprego e o subemprego urbanos, as consequências da Guerra, a prostituição, a falta de moradias, os problemas sociais na área rural e no atrasado e pobre Sul da Itália, a delinquência, a situação das mulheres, a migração campo-cidade e a emigração para outros países (França, por exemplo). 

Para levar tal política conservadora adiante, o governo italiano também passou a estimular a importação de filmes de Hollywood, que não tinham qualquer ligação com a realidade do povo italiano, fazendo com que os filmes neo-realistas perdessem a maior parte do seu público. 

Nesta época, a reconstrução da Itália e da Europa Ocidental ainda estava em andamento, sendo que a mesma somente foi possível devido ao ‘Plano Marshall’ que os EUA adotaram a partir de 1948. A reconstrução da Europa Ocidental havia começado logo após o final da Segunda Guerra, mas ela estava sendo financiada por dinheiro emprestado pelos EUA. 

No entanto, a dívida acumulada pelos governos europeus cresceu tanto que, no início de 1947, a reconstrução foi interrompida, o que gerou um aumento significativo do descontentamento popular.
A felicidade estampada nos rostos de Antonio e do filho (Bruno) quando o pai sai para trabalhar, levando a tão sonhada e desejada bicicleta. 
Com medo de que isso levasse Socialistas e Comunistas ao poder na França, Itália, Grécia e em outros países europeus, os EUA decidiram criar o ‘Plano Marshall’, em 1947, a fim de permitir a reconstrução europeia por meio da doação de recursos pelo governo ianque, sendo que 30% destes recursos foram usados na aquisição de produtos agrícolas e industriais dos EUA, contribuindo para a continuidade do crescimento da economia estadunidense no Pós-Guerra. 

Com a adoção do ‘Plano Marshall’, que funcionou entre 1948 e 1953, os governos de inúmeros países europeus ocidentais (Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Bélgica, Holanda) receberam uma grande ajuda financeira do governo dos EUA, sendo que ela chegou a representar até 12% do PIB anual destes países. Estes recursos foram usados, prioritariamente, para reconstruir e recuperar as indústrias, fazendas, ferrovias e a infra-estrutura urbana do Velho Mundo. 

Além de permitir a reconstrução das nações da Europa Ocidental, o ‘Plano Marshall’ colaborou decisivamente para que as mesmas permanecessem como aliadas dos EUA no Pós-Guerra. Tais nações também passaram a fazer parte da OTAN (aliança militar controlada pelos EUA e que foi criada em Abril de 1949). Além disso, os EUA decidiram dividir a Alemanha, criando a República Federal Alemã (Alemanha Ocidental) em Maio de 1949. 

O projeto de integração da economia europeia no Pós-Guerra também começou por inspiração dos EUA e tinha finalidades políticas, procurando integrar as economias de França e Alemanha de tal forma que eles nunca mais pensariam em guerrear entre si novamente. Isso deu origem à Comunidade Europeia, em 1956, que é a matriz da atual União Europeia. 
Antonio e Bruno, felizes, pois agora o pai tem um emprego que irá melhorar as condições de vida da família. Na época, os serviços de transporte coletivo eram muito ruins, não atendendo à demanda. Com isso, a bicicleta tornou-se essencial para que as pessoas pudessem se deslocar pelas cidades, bem como para conseguir um emprego e estudar. 
Assim, os países capitalistas europeus ocidentais integraram-se plenamente ao bloco político-militar liderado pelos EUA, enquanto que a URSS fazia o mesmo com os países do bloco soviético do chamado ‘Leste Europeu’ (que passaram a fazer parte do Comecon e do Pacto de Varsóvia).

Até mesmo as mais antigas Ditaduras europeias da época (Francisco Franco, na Espanha, e Antonio Salazar, em Portugal) acabaram aliando-se aos EUA no Pós-Guerra, sendo que, principalmente no caso da Espanha, tivemos grandes investimentos feitos por empresas dos EUA, após acordo assinado entre os dois países em 1953.

Assim, a Espanha tornou-se um importante centro turístico internacional, viabilizando a longa duração do regime ditatorial franquista, que somente foi derrubado em 1975. 

Com a criação do ‘Plano Marshall’ e da OTAN, as Guerras da Coréia e do Vietnã e o rápido crescimento das economias capitalistas desenvolvidas no Pós-Guerra (fenômeno que se desenvolveu entre 1948 e 1973), as populações da Europa Ocidental também puderam desfrutar de um amplo conjunto de direitos e benefícios sociais, trabalhistas e previdenciários, dando origem ao que se chamou de ‘Welfare State’ (Estado de Bem-Estar Social). 

Na época em que se desenvolve a trama do filme (1948), no entanto, o Plano Marshall mal havia se iniciado, grande parte do Velho Mundo ainda precisava ser reconstruída e a fome, o desemprego e a miséria grassavam pela Europa. 
O primeiro cartaz que Antonio colou foi o do filme 'Gilda', com Rita Hayworth, que mostrava uma vida de luxo, riqueza e ostentação, contrastando inteiramente com a miséria que grassava na Itália na mesma época.
E a Itália era o mais miserável destes países, com elevados índices de desemprego, muita fome, miséria, falta de moradias e prostituição em grande escala. 

Nesta época, as cidades italianas e europeias ainda contavam com sistemas de transportes coletivos muito precários, o que fica muito evidente no clássico filme de Vittorio De Sica. 

Assim, uma grande parte da população das cidades italianas e europeias ainda usava de bicicletas para se locomover pelas mesmas, seja para trabalhar, estudar ou para assistir a um jogo de futebol, pois os bondes não eram suficientes para atender a toda a demanda e viviam superlotados, o que é mostrado no filme.

Portanto, possuir uma bicicleta era algo extremamente importante para os trabalhadores italianos, neste momento, pois sem a mesma ficaria impossível se locomover pelas áreas urbanas em longas distâncias, bem como seria extremamente difícil conseguir um emprego. 

A Trama do Filme!

A história do filme se desenvolve em torno da vida de um miserável trabalhador (Antonio Ricci), de Roma, que consegue um emprego de colador de cartazes, mas que somente poderá trabalhar caso venha a adquirir uma bicicleta. Muitos outros trabalhadores desempregados querem aquele emprego, mas Antonio é escolhido por afirmar que possui uma bicicleta. Ele não a possui, mas com a ajuda da esposa, Antonio vende alguns lençóis e, desta maneira, consegue o dinheiro necessário para comprar a bicicleta. Logo, o seu emprego está garantido. 
O jovem e o seu cúmplice agem de forma combinada para roubar a bicicleta de Antonio. 
O operário (Antonio), a esposa (Maria) e o filho (Bruno) ficam muito contentes, é claro, pois agora o orçamento familiar irá aumentar bastante. A bela cena em que Antonio veste o uniforme que usará em seu trabalho mostra toda a alegria dos membros da família, que agora confiam que as suas vidas irão melhorar. 

É interessante também notar como o operário (Antonio Ricci) não desgruda da bicicleta, chegando a carregar a mesma até o local de trabalho, mostrando a importância da mesma, como se fosse um tesouro. Afinal, a sobrevivência da sua família dependia daquela simples bicicleta. 

Mas já no primeiro dia de trabalho a bicicleta é roubada por um jovem delinquente, que conta com a ajuda de um homem mais velho, que irá levar o operário para um destino totalmente diferente daquele que o jovem ladrão tomou após o roubo. 

Obs1: Em ‘Ladrões de Bicicleta’, Vittorio De Sica faz uma crítica direta às grandes produções de Hollywood, que dominavam o mercado mundial com filmes que contavam histórias de ostentação e riqueza e que criaram a figura do ‘star system’, a estrela de Cinema, que as pessoas no mundo inteiro idolatravam e com quem desejavam se parecer. O primeiro cartaz que Antonio está colando no muro é o do filme ‘Gilda’ (produção de 1946), no qual vemos Rita Hayworth, que era uma das grandes estrelas de Hollywood naquela época. É flagrante o contraste entre o luxo mostrado em ‘Gilda’ e a miséria em que o povo italiano vivia nessa época e que é retratada brilhantemente por De Sica em ‘Ladrões de Bicicleta’. Apesar dessa crítica, o filme do cineasta italiano acabou ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1950. 
Bruno mal sabe usar os talheres. Atrás vemos uma família burguesa abastada comendo e bebendo à vontade. O filme mostra que as desigualdades sociais eram imensas na Itália nos primeiros anos do Pós-Guerra.
Desesperados, o operário e o filho saem pela cidade, a fim de encontrar a bicicleta roubada e, no dia seguinte, junto com alguns amigos, eles chegam a visitar um mercado paralelo de comércio de bicicletas, para ver se encontram a mesma. Mas isso não acontece. 

Depois, andando pela cidade, eles chegam a ver o jovem ladrão conversando com um homem bem mais velho, que é perseguido e interrogado pelo operário e seu filho, mas que consegue desaparecer da vista de ambos. 

Nesta busca desesperada para encontrar a bicicleta, temos um momento em que inúmeros operários miseráveis estão em uma Igreja, assistindo a uma missa, mas fica mais do que evidente de que eles estão ali apenas porque haverá distribuição de sopa gratuita posteriormente. Logo, eles rezam apenas porque desejam se alimentar e não por sua fé. 

Em outro momento, Antonio e Bruno decidem esquecer um pouco das agruras, dos problemas e da miséria em que vivem, e entram em um restaurante, no qual bebem vinho e comem um lanche. Durante o almoço, Bruno fica observando um garoto, de família rica, que come e bebe à vontade, invejando a fartura da qual o mesmo desfruta. 
Antonio encontra o jovem miserável que roubou a sua bicicleta, mas ele não conseguirá recuperá-la. 
Mas o garoto rico olha para Bruno com desprezo, ignorando as tentativas do filho do operário de se comunicar com ele, o que não deixa de ser uma forma de mostrar as imensas desigualdades sociais e o preconceito elitista existente na sociedade italiana nesta época, situação esta que ainda existe pelo mundo afora. 

Porém, logo depois, Antonio e Bruno terão que voltar à realidade. 

E o desespero com a perspectiva de continuar naquela vida miserável leva a que Antonio tente roubar uma bicicleta, mas ele não é um ladrão e não tem qualquer experiência nessa atividade, sendo perseguido e preso pelo dono da mesma. E o filho, Bruno, chora quando descobre o que o pai havia feito e ao vê-lo sendo humilhado e agredido. 

Porém, o operário e o garoto não desistem da busca pela bicicleta (afinal, a sobrevivência da família e a esperança de uma vida melhor dependem disso) e acabam encontrando o jovem ladrão na região em que este mora e, apesar de pressioná-lo e de buscar um policial, que entrou na casa do ladrão para averiguar se a mesma estava lá, a bicicleta não foi encontrada. 

Hostilizados pelos vizinhos e por amigos do jovem ladrão, e sem encontrar a tão desejada bicicleta (que deve ter sido vendida, é claro), pai e filho caminham, em meio à multidão. 

Como eles irão reagir a essa situação? Não sabemos, pois o final do filme deixa margem a inúmeras interpretações. 
Pai e filho choram e vão embora, de mãos dadas, depois de tentar recuperar a bicicleta e não conseguir. O clássico filme de De Sica está repleto de cenas tocantes, belas e emocionantes. 

Informações Adicionais:


Título: ‘Ladri di Biciclette’ (‘Ladrões de Bicicleta’);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Vittorio De Sica; Cesare Zavattini; Gerardi Guerrieri; Oreste Biancoli; Adolfo Franci; Suso Cecchi D’Amico;
Ano de Produção: 1948; País de Produção: Itália;
Duração: 91 minutos; Gênero: Drama;
Música: Alessandro Cicognini; Fotografia: Carlo Montuori;
Elenco: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci); Enzo Staiola (Bruno); Lianella Carell (Maria, esposa de Ricci); Gino Saltamerenda (Baiocco); 
Prêmios: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1950; 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1950; 
Prêmio BAFTA de Melhor Filme de 1950;
Melhor Filme Europeu de 1951;
Prêmio Especial do Júri do Festival de Locarno de 1949.

Vídeo  - Trailer do Filme: 

sábado, 11 de março de 2017

‘Chove Sobre o Nosso Amor’: Bergman critica o conservadorismo da sociedade burguesa! – Marcos Doniseti!

‘Chove Sobre o Nosso Amor’: Bergman critica o conservadorismo da sociedade burguesa! – Marcos Doniseti!
'Chove Sobre Nosso Amor' é o segundo filme de Ingmar Bergman, um dos principais cineastas da história. Neste filme já temos alguns dos elementos que estarão presentes em suas principais obras, mas que tem um tom mais leve e bem humorado. 
Este não é um dos filmes mais famosos e comentados do genial cineasta sueco Ingmar Bergman, mas nele fica claro o seu inegável talento.

A trama do filme se desenvolve em torno de um jovem casal e que é formado por dois seres errantes e desajustados, que são David Lindell e Maggi. 

Ambos estão procurando por uma pessoa com quem possam ter uma vida normal, serem felizes, ter filhos, possuírem suas dívidas e pagarem seus impostos, a fim de serem aceitos pela sociedade. 

Enquanto David acabou de sair da prisão (da qual vive entrando e saindo), Maggi saiu pelo mundo para seguir uma improvável carreira de atriz, desejando fazer um curso de arte dramática, mas carrega no ventre um bebê cujo pai é desconhecido. Mas aos olhos da sociedade burguesa, 'cristã, iluminista e democrática' da Suécia eles são apenas marginais que não querem viver de forma decente. 

David e Maggi acabam se cruzando ao acaso, em uma praça, e acabam passando a noite juntos, em um hotel, no qual se relacionam sexualmente, mesmo sem que nenhum dos dois soubesse o nome do outro. Essa liberdade sexual da qual desfrutam é um dos motivos pelos quais eles não são aceitos pela sociedade. 
David e Maggi são dois jovens desajustados que desejam desfrutar de uma vida normal, mas que enfrentam inúmeros obstáculos para atingir os seus objetivos. Burocracia estatal, pequenos burgueses, Justiça e aproveitadores fazem de tudo para atrapalhar os seus planos de querer viver de forma livre e honesta. 
Quando ela se apresenta no hotel, junto com David, Maggi é obrigada a mostrar que possui uma mala, a fim de provar que não é uma prostituta. David critica os valores dominantes da sociedade, dizendo que esta usa a posse de uma mala para definir se uma pessoa é decente ou não. 

Eles acabam se apaixonando e ele se lembra de um antigo amigo (Tornberg), a quem pede por um trabalho, mas a esposa do mesmo não permite, pois não gosta de David, em função do seu passado pouco recomendável. Os valores conservadores vão começar, desde o início, a atrapalhar as intenções de David e Maggi. 

David e Maggi vão parar na área rural de uma cidade sueca, onde também irão sofrer com o preconceito da população local. A chuva torrencial que os atinge, logo no início, é um sinal dos problemas que eles terão que enfrentar. 

Eles acabam se instalando em um chalé, que pensam estar abandonado, mas que pertence a um velho solitário (Per Hakansson), um pequeno proprietário que vive apenas com os seus inúmeros gatos e que chama a Polícia, que desfere algumas bordoadas em David, enquanto Hakansson ri de Maggi, que teme que o namorado volte para a prisão. 

Hakansson, porém, permite que David e Maggi passem a viver ali, passando a cobrar um aluguel do casal. Mas eles desconhecem o fato de que o tal chalé é, na verdade, uma casa móvel e pré-fabricada que Hakansson vive levando para outros lugares a fim de explorar pessoas ingênuas como David e Maggi. Hakansson não toma uma atitude sequer que não seja pensando em se aproveitar dos outros. Ele é, claramente, o Diabo em pessoa. 
A forte chuva que cai sobre David e Maggi no início do filme é um sinal das dificuldades que eles irão enfrentar. 
David consegue um emprego em um centro de jardinagem, onde também irá sofrer o preconceito da esposa do proprietário (Andersson), a quem David protege, para que o mesmo possa ir ao bar. A mulher é uma velha rabugenta que oprime o marido e a filha, sendo que o marido se vinga saindo para beber. Afinal, somente estando muito bêbado, mesmo, para aguentar viver com uma megera dessas. 

Ela chega a suspeitar que David esteja roubando alguns objetos da loja (cafeteira, pá), que desapareceram depois que ele passou a trabalhar no local, embora ele seja inocente. Na verdade, os responsáveis pelos furtos são dois vizinhos ‘trambiqueiros’ circenses e amigos de David, que fizeram amizade com ele e Maggi logo depois que o casal chegou à cidade e de quem o jovem casal ganhou um rádio de presente de Natal. Eles furtam por toda a região, nunca são descobertos e entregam os objetos para os amigos. 

Na noite de Ano Novo, David diz que eles serão iguais a todas as outras pessoas, possuindo contas na mercearia e pagando impostos. 

Ele a pede em casamento, mas ela resiste, e David não compreende a razão disso. 

Mais adiante, Maggi fala para David que está grávida, deixando-o muito surpreso quando ela ainda afirmou que o pai era um ilustre desconhecido com quem ela havia se relacionado pouco tempo antes de conhecer David e com o qual manteve relações sexuais apenas uma vez. 
Hakansson se apresenta como alguém que estaria disposto a ajudar David e Maggi, mas não é bem assim. 
Em um primeiro momento, inconformado e sofrendo com a situação, David afasta-se de Maggi, mas o medo de ficar sozinho (tal como o Anjo que diz) faz com que ele volte para a mulher que ama. No início, David rejeita a ideia de que Maggi deva ter a criança, mas depois ele acabará aceitando o fato ou, pelo menos, aparenta isso. 

Afinal, ele realmente gosta de Maggi e não quer perde-la.  

Logo, David e Maggi tem uma vida calma, tranquila e feliz, que é tudo o que desejavam, mas eles sempre são discriminados pelos outros, apesar dos seus esforços em serem aceitos por esta sociedade formada por pequenos proprietários (um microcosmo da Suécia daquela época?). 

Um exemplo desde preconceito que sofrem se dá quando eles decidiram se casar, mas descobriram que a burocracia não permitia que isso acontecesse e que Maggi teria que ir morar em uma casa maternal. Apesar disso, eles continuaram juntos e felizes, mas o filho dela acabaria nascendo morto. 

Esse preconceito que as pessoas manifestam em relação a David e Maggi é a ‘chuva’ do título do filme. A sociedade faz de tudo para impedir que o jovem e apaixonado casal possa ter uma vida normal e que possam se integrar à mesma, que é tudo o que eles mais desejam. Eles querem ter um trabalho, uma casa, pagar contas e impostos, tudo o que os outros já possuem. Mas a pequena burguesia, os burocratas, a Polícia, os aproveitadores (Hankasson) fazem de tudo para impedir que isso aconteça.
A dupla de 'trambiqueiros', amigos de David e Maggi, dá um rádio de presente para o jovem casal. Junto com Hanna, a vizinha, eles formam um grupo de amigos que se ajudam em todos os momentos, cultivando valores que a sociedade burguesa despreza, como o companheirismo e a solidariedade. 
Assim, David e Maggi têm que lutar contra os preconceitos e os valores conservadores da sociedade burguesa para que possam atingir os seus objetivos. Embora vejamos elementos de conflitos de classes no filme de Bergman, o jovem casal não quer se rebelar contra a sociedade burguesa, mas se integrar à mesma. A questão é que David e Maggi parecem que não percebem que há um preço a pagar para que eles, dois desajustados libertinos, possam ser aceitos pelas pessoas ditas 'decentes e normais'. 

No filme, também temos a presença de um personagem, um homem idoso, que faz comentários sobre a trama, falando diretamente com o espectador, e que também interage com os personagens (David, em especial). Em um determinado momento, por exemplo, ele diz para David que o mesmo havia ficado contente com a morte do bebê, pois este não era filho dele. Ele sempre fala à consciência de David. 

Enquanto isso, Hakansson, que havia alugado o chalé para David e Maggi, e que havia se apresentado como alguém que tinha interesse em ajuda-los, também mostrou ser uma pessoa ardilosa e manipuladora, pois confessou para o jovem casal que ele não podia, segundo a Lei, alugar o chalé para ninguém, mas apenas vender o mesmo. 

Assim, ele diz que se David e Maggi não comprarem o chalé, eles terão que ir embora do lugar. Assim, Davi decide comprar o chalé. Na visão de David aquele é um passo a mais que ele e Maggi estão dando para se tornarem um casal feliz e que possa ser aceito pela sociedade. 
David estapeia o burocrata (Purman) que não liga a mínima para o que irá acontecer com ele e Maggi depois que forem expulsos do chalé. Em função disso, ele será levado a julgamento. 
Afinal, agora eles são proprietários, o que, em uma sociedade capitalista na qual predominam os valores burgueses, é sinônimo de ‘pessoas respeitáveis’. 

Assim, se Hakansson representa o Mal, esse homem idoso (um Anjo) representa o Bem. E ambos procuram, de diferentes maneiras, influenciar o comportamento e as decisões de David e Maggi. De certa maneira, o filme trata justamente disso, ou seja, o conflito entre o Bem e o Mal, que procuram, cada um à sua maneira, influenciar e determinar o comportamento dos seres humanos.

Logo depois que Maggi e David retornam para o chalé, eles são comunicados que a prefeitura irá desalojá-los do local, onde serão construídas novas moradias, mas ele expulsa e agride o funcionário (Purman) que os avisou do fato. Purman é um burocrata frio e insensível que não se importa com o que irá acontecer com o jovem casal caso eles percam o chalé). 

Com isso, David acaba sendo levado a julgamento, no qual são relembradas todas as suas passagens anteriores pela Polícia e a sua vida errante e marginal.

E os moradores da cidade dão vários depoimentos, todos bastante negativos a respeito de David e o promotor os acusa de não terem tentado construir uma vida respeitável. Na verdade, isso foi tudo o que eles mais desejaram e tentaram alcançar, de todas as maneiras, mas as pessoas não os ajudaram, muito pelo contrário. 

O advogado de defesa chama Hanna Ledin (a vizinha do jovem casal), no entanto, fala muito bem deles, dizendo que os mesmos desconheciam o fato de que a dupla de 'trambiqueiros' roubava os bens que lhes dava como presentes. E o advogado também diz que, de uma maneira esquisita, eles tentaram, sim, levar uma vida respeitável e se integrar à sociedade. 
O 'Anjo' defende David durante o julgamento e o mesmo acaba sendo absolvido. 
Mas eles foram enganados, desprezados, tratados como suspeitos de crimes que não cometeram e os seus problemas não foram levados em consideração pelo governo quando foram avisados de que teriam que abandonar o local em que moravam. David finaliza dizendo que está arrependido de ter agredido Purman e pede que não seja enviado para a prisão, pois ele e Maggi estão apaixonados e querem viver de forma decente.

David é declarado inocente e, logo depois, o ardiloso Hakansson desfaz o negócio da venda do chalé para David. Este, na sequência, é avisado por Hakansson de que a Prefeitura irá pagar uma indenização aos moradores que abandonarem o local onde as casas serão construídas. Hakansson diz que David é uma boa pessoa, mas que age impulsivamente, sem pensar. E ele Hakansson se aproveita da ingenuidade e inexperiência de David, mostrando o quanto é picareta e desonesto. 

No fim, David e Maggi decidem ir embora (sem dinheiro algum, somente com as roupas do corpo e uma pequena mala), pois as novas casas que foram construídas no lugar são feias e cercadas e eles desejam ter uma vida calma, junto a um lago, em meio a natureza. 

Eles encontram o advogado (que mais parece um anjo, tal como é dito por Maggi), que lhes diz que irá chover e que oferece um guarda-chuva para o jovem e inexperiente casal, como se tivesse oferecendo uma proteção contra os problemas, dificuldades e obstáculos que eles irão enfrentar na vida. 

Fim.
O "Anjo" dá um guarda-chuva de presente para David e Maggi, a fim de que eles fiquem preparados para superar os problemas que irão enfrentar em suas vidas.  

Informações Adicionais:

Título: Det Regnar pa Var Karlek' ('Chove Sobre o Nosso Amor');
Diretor: Ingmar Bergman;
Roteiro: Herbert Grevenius e Ingmar Bergman;
País de Produção: Suécia; Ano de Produção: 1946;
Duração: 96 minutos; 
Gênero: Drama; Romance;
Música: Erland von Koch;
Elenco: Barbro Kollberg (Maggi); Birger Malmsten (David); Ludde Gentzel (Hakansson); Julia Caesar (Hanna Ledin); Douglas Hage (Andersson); Gunnar Bjornstrand (Purman); Erik Rosen (Juíz); Magnus Kesster (Tornberg); Gosta Cederlund (Anjo).

Vídeo - Trecho do Filme:
                                           

sexta-feira, 3 de março de 2017

"Europa '51" - Rossellini mistura marxismo e cristianismo para defender a criação de uma sociedade justa e igualitária! - Marcos Doniseti!

"Europa '51" - Rossellini mistura marxismo e cristianismo para defender a criação de uma sociedade justa e igualitária! - Marcos Doniseti!
Ingrid Bergman estrela o clássico 'Europe 51', de Roberto Rossellini. Sua brilhante atuação foi reconhecida, recebendo vários prêmios importantes pela mesma.  
Rossellini e a Itália do início dos anos 1950!

Roberto Rossellini foi um dos mais importantes cineastas italianos, tendo realizado vários clássicos do Cinema ('Alemanha, Ano Zero', 'Stromboli, 'Roma, Cidade Aberta'). 


"Europa '51" é mais um da lista de grandes filmes de autoria de Rossellini, no qual ele dirigiu a bela e talentosa sueca Ingrid Bergman, com a qual ele era casado (que gerou a também bonita e talentosa atriz Isabella Rossellini). 

Grande parte dos cineastas italianos do Pós-Guerra eram, de alguma, ligados ao PCI (Partido Comunista Italiano), mas Rossellini não era um deles. 

Embora ele tenha sido, junto com outros importantes cineastas (Luchino Visconti, Giuseppe De Santis), um dos criadores do Neo-Realismo italiano, Rossellini nunca foi filiado ou ligado, de alguma maneira, ao PCI, embora nutrisse (como se percebe por este "Europa '51") ideais socialistas, mas que eram inspirados no Cristianismo. 

Inclusive, antes deste "Europe 51", Rossellini havia dirigido um filme a respeito da vida de São Francisco de Assis, um cristão que dedicou a sua vida a ajudar aos mais pobres. 

Percebe-se a presença, no filme, de muitos elementos do Neorrealismo, pois o mesmo mostra as imensas desigualdades sociais, a pobreza e a miséria que ainda persistiam na Itália do início da década de 1950.A época de maior crescimento econômico da Itália (o chamado 'Milagre Econômico') iria se desenrolar a partir do final da década de 1950, principalmente nos anos 1960, quando toda a economia europeia e mundial cresceu rapidamente. 
Durante a Guerra, Irene e Michel estiveram muito próximos. Mas após o final da mesma, a mãe se afastou do filho, que sofreu muito com isso. Entre outros cineastas importantes, ela trabalhou com Hitchcock, Rossellini, Jean Renoir e Ingmar Bergman.

A trama do filme!

A trama do filme se desenvolve em torno da bela esposa de um embaixador, Irene (de origem sueca), que vive no luxo e na riqueza, preocupando-se muito mais com os jantares e recepções dos amigos ricos dela e do marido do que em dar atenção ao filho (Michel), que ainda é uma criança.

Durante a Segunda Guerra Mundial ela viveu, junto com o filho, na Inglaterra, enquanto o marido (George) se dedicou a lutar no conflito. 

Com isso, Irene e Michel desenvolveram uma relação muito próxima, fazendo com que o garoto se tornasse muito dependente da presença da mãe.

Porém, após o fim da guerra, George foi enviado para a Itália, como embaixador, e a vida de jantares e recepções fez com que ela deixasse de dar a mesma atenção para Michel, que fazia de tudo para chamar a atenção da mãe. Mas isso não funcionou e, desesperado, o garoto acabou por se jogar da escada, provocando a própria morte. 

Irene fica desolada com o fato e recusa-se a sair da cama ou mesmo a se alimentar corretamente. Um dos seus melhores amigos (Andrea, um jornalista que é um simpatizante do PCI e que sempre foi apaixonado por Irene) tenta ajudá-la, pois ela demonstra não ter mais vontade alguma de continuar vivendo.
George tenta ajudar Irene, após a morte do filho, mas ela não demonstra mais vontade alguma de viver.

Andrea tenta amenizar o sofrimento de Irene e fala para ela que a morte de Michel foi provocada pelos horrores da sociedade, pelo medo, pelos bombardeios, enfimn, pela Guerra. Neste mesma conversa que tem com Irene, Andrea comenta a respeito de uma família muito pobre que possui um filho doente, mas que não tem o dinheiro necessário para comprar o remédio para o menino. 


Irene, que havia acabado de perder um filho, se propõe a comprar o remédio para o menino (Bruno) e ela fica bastante emocionada pela maneira bonita com que a família do garoto agradeceu pela ajuda dela. 

Desta maneira, Irene descobre um motivo para continuar vivendo, ou seja, ela passa a se dedicar a ajudar aos pobres e miseráveis italianos, que vivem na periferia de Roma, em condições muito precárias, amontoando-se muitas vezes em um único comodo, vivendo em verdadeiros cortiços. 

Eles até possuem acesso a energia e água, mas muitos são desempregados, outros vivem de trabalhos temporários e mal remunerados e, é claro, alguns deles apelam para a delinquência ou para a prostituição como um meio de sobreviver.

Irene passa a viver em função disso, de ajudar as pessoas mais necessitadas, mal permanecendo dentro de sua casa. Ela nem se preocupa mais com os jantares, recepções, idas ao teatro, dos quais tanto gostava anteriormente, sendo que mal dava atenção ao filho em função disso. 
Irene não dá mais atenção para o filho, preocupando-se mais com os jantares e idas ao teatro. Depois, ela reconhecerá que tinha sido egoísta e mesquinha. 

Ela reconhece, inclusive, que antigamente ela era mesquinha e egoísta. Irene diz para Andrea que não entende o motivo dos miseráveis se conformarem com a sua situação e ele responde que o dever de pessoas como eles (mais esclarecidas) seria justamente o de acordá-los, de dar-lhes uma consciência. Ou uma esperança, diz Irene, ao que Andrea responde 'consciência, consciência'. 


Essa ideia de que seria possível 'dar uma consciência' para os mais pobres que se conformam, aparentemente, com a sua situação não deixa de ser objeto de crítica, mas essa era a visão de muitos revolucionários ou comunistas naquela época. Andrea chega a emprestar livros e jornais esquerdistas para Irene. 

Inclusive, Irene é questionada pela própria mãe a respeito disso, que a adverte de que os comunistas foram todos presos nos EUA, o que é uma clara referência ao Macarthismo que vigorava no país naquela época. Irene diz que a mãe não deveria se preocupar, pois ela está apenas procurando por 'alguma coisa', ou seja, por algo que lhe proporcione vontade de continuar vivendo. 

Obs1: Esta afirmação da mãe de Irene é uma referência a respeito do senador Joseph McCarthy, que foi um notório anti-comunista histérico que comandou uma comissão no Congresso dos EUA e que perseguia todas as pessoas que defendiam ideias progressistas. Até mesmo Charles Chaplin foi perseguido, o que o levou a ir embora do país. McCarthy caiu em desgraça quando acusou funcionários do Pentágono e do Departamento de Estado de serem comunistas. Com isso, a sua comissão foi encerrada e ele acabou esquecido e morreu no ostracismo, alguns anos depois.
Andrea, um simpatizante do PCI, e que sempre foi apaixonado por Irene, procura ajudá-la e vai ser o responsável por fazer com que ela se interesse em ajudar aos pobres e miseráveis italianos. Andrea defende a construção de um paraíso terreno, no qual os trabalhadores sejam livres, mas para Irene isso é insuficiente, pois ela quer um paraíso que inclua a todos, vivos e mortos, pois somente assim o filho que ela perdeu (Michel) participará do mesmo. 

É claro que George também não gostou dessa abrupta mudança de comportamento por parte da sua bela, inteligente e elegante esposa e passa a suspeitar que Irene possa estar tendo um caso com Andrea, que embora seja um amigo da família, não é bem visto por ser um comunista. 


Obs2: Em vários momentos do filme fala-se na possibilidade de estourar uma guerra e que Irene poderia ser enviada para um campo de concentração em função disso. Isso é uma referência à 'Guerra Fria' entre EUA e URSS, que começou em 1947. Ela gerou a divisão da Alemanha em dois países (Ocidental e Oriental) e a divisão da Europa em dois blocos (capitalista, liderado pelos EUA; socialista, liderado pela URSS). Com a Guerra Fria também tivemos a criação da OTAN e do Pacto de Varsóvia. 

Em uma conversa com Andrea, Irene comenta que ajudou uma família que era liderada por uma mulher que possuía três filhos próprios e outros três que ela adotou. Irene conseguiu um emprego para ela, mas no primeiro dia ela não foi trabalhar e Irene a substituiu. Essa experiência deixou Irene chocada, pois as condições de trabalho dos operários eram muito ruins. 

O ambiente da fábrica era muito barulhento e o trabalho era bastante perigoso. Com isso, ela pôde ter uma ideia melhor da exploração e das condições de trabalho dos operários industriais, e ela diz para Andrea que, agora, ela compreende porque eles acabavam votando no PCI. 
A família Galli, que recebeu a ajuda de Irene, agradece à mesma. A simplicidade dos pobres italianos conquista Irene, que passa a dedicar a sua vida para ajudá-los, deixando o marido e abandonando a sua antiga vida de luxo e ostentação em função disso. 

Nesta conversa, Andrea disse para Irene que no futuro os trabalhadores serão os donos da vida, que a humanidade desfrutará de um grande progresso e que viverá no paraíso (ele está referindo-se ao Comunismo, é claro), mas Irene não se mostra tão certa disso. 


Irene vai ao cinema e vê a exibição de um documentário que exalta o desenvolvimento econômico e industrial, mas depois da experiência horrível que ela teve na fábrica, ela não está tão certa de que o futuro será tão glorioso. 

Em um outro momento do filme, um dos moradores da periferia, que conversou com Irene, lhe disse que 'o trabalho enobrece o homem'. 

Mas em função desta experiência na fábrica, Irene diz para Andrea que os trabalhadores são escravos acorrentados, mas ele retruca, dizendo que ela viu o trabalho no qual o ser humano é explorado e que no futuro tudo será bem melhor, com menos injustiça. 

Irene fala que isso poderá até acontecer, mas ela diz que o trabalho é um castigo, uma punição, tal como está na Bíblia, e que somente quando as pessoas tiverem consciência disso é que poderá existir menos injustiça, que elas poderão se unir e superar a situação na qual vivem.
A bela e elegante Irene teve a oportunidade de trabalhar, por apenas um dia, em uma fábrica. A experiência a deixou chocada. Com isso, ela passou a dizer que não seria possível construir uma sociedade justa e harmoniosa com esse tipo de organização do trabalho, que brutaliza e desumaniza os operários, aos quais ela chama de 'escravos acorrentados'. 

Assim, vemos no filme de Rossellini diferentes concepções sobre o trabalho humano sendo apresentadas. Para o pobre morador da periferia o trabalho é sinônimo de nobreza, para Andrea ele é um instrumento de libertação do trabalhador e para Irene o trabalho é castigo, punição. 


Depois disso, Irene vai à Igreja e, no caminho de volta, ela encontra uma prostituta, levando-a para a casa dela. Ela adoece, Irene chama um médico, mas ela acaba morrendo, fazendo com que Irene sofra. Assim, ela se identifica com a situação de pobreza e de miséria dos trabalhadores, dos explorados, e chega a abandonar ao marido para colaborar com os mesmos. 

Além disso, ela orienta a fuga do jovem filho de uma das famílias que ela ajudou e que cometera um crime. Ela diz que ele deve procurar a Polícia e se entregar. Ele o faz, mas ela acaba sendo interrogada em função disso. Apesar do marido conseguir que o nome dela não seja divulgado pela imprensa, Irene é levada para uma instituição psiquiátrica, na qual é obrigada a conviver com inúmeras mulheres que possuem graves problemas mentais, o que não é o caso dela, é claro.

Depois de alguns meses no hospital ela passa por uma avaliação, onde ela diz que ajuda aos mais pobres por sentir amor por eles e não por ser comunista ou cristã. 
O compromisso de Irene em ajudar aos mais pobres levou a que o seus familiares passassem a pensar que ela estava completamente louca, submetendo-a a exames que pudessem comprovar isso.

Ela diz que o mal nasce do fato de que não se dá todo o amor aos que mais necessitam dele. 


Irene diz que deve-se amar as pessoas 'como elas são e ajudá-los 
como podemos', pois 'Deus nos criou assim'. Ela diz que, no passado, foi egoísta e que, agora, procura dar aos outros todo o amor que tem, mas que não pertence a ela. 

Irene também diz que deve-se viver em plenitude de amor por todos e o que importa é que os homens e o mundo sejam salvos. 

Até o Padre que é enviado para conversar com ela percebe que o sentimento que ela tem pelos mais pobres é fruto de um sentimento cristão verdadeiro, de querer abrir mão de tudo para se doar aos outros, o que deixa ao próprio surpreso e assustado, pois a sociedade capitalista não permite que esse tipo de comportamento seja tolerado. E quem age assim acaba sendo considerado como louco (a).

Irene é interrogada pelo juiz, para o qual diz que não deseja voltar a viver junto com o seu marido, pois isso não salvaria nem a ela mesma e tampouco aos outros. De certa maneira, toda essa doação de Irene aos miseráveis é resultado do sentimento de culpa que carrega pela morte do filho, que foi provocada pela fato dela tê-lo, praticamente, abandonado. 

Em função disso, Irene continua presa no hospital e as pessoas necessitadas as quais ela ajudou, e que a visitam, passam a dizer que ela é uma verdadeira Santa.
Para os pobres que Irene ajudava ela não tinha nada de louca, mas era uma verdadeira Santa. 

Informações Adicionais:


Título: Europa '51;
Diretor: Roberto Rossellini;
Roteiro: R.Rossellini; Sandro De Feo; Mario Pannunzio; Ivo Perilli; Brunello Rondi;
Ano de Produção: 1952; País de Produção: Itália;
Duração: 118 minutos;
Gênero: Drama;
Música: Renzo Rossellini; Fotografia: Aldo Tonti;
Elenco: Ingrid Bergman (Irene Girard); Alexander Knox (George Girard); Ettore Gianinni (Andrea Casatti); Sandro Franchina (Michel); Giulietta Masina (Mãe das 6 crianças); Teresa Pellati (Ines); Marcella Rovena (Sra. Puglisi); Tina Perna (Cesira); Giancarlo Vigorelli (Juíz). 
Prêmios: Melhor Atriz para Ingrid Bergman (Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália) em 1953;
Melhor Atriz para Ingrid Bergman no Festival de Veneza de 1952. 
Prêmio Internacional no Festival de Veneza de 1952 para Roberto Rossellini. 

Vídeo - Trecho do filme: