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domingo, 9 de outubro de 2016

'Trens Estreitamente Vigiados': Uma comédia clássica da 'Nova Onda Tcheca' que conquistou o Oscar! - Marcos Doniseti!

'Trens Estreitamente Vigiados': Uma comédia clássica da 'Nova Onda Tcheca' que conquistou o Oscar! - Marcos Doniseti!
'Ostre Sledované Vlaky'. Filme de Jirí Menzel, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1968, é uma comédia dramática que fez grande sucesso, sendo considerado um dos melhores filmes da história do cinema tcheco. 
A chamada 'Nova Onda Tcheca' renovou a linguagem cinematográfica do país e fez grande sucesso internacional, conquistando inúmeros prêmios pelo mundo todo. Em 1966, o filme 'A Pequena Loja da Rua Principal' (dos diretores Ján Kádar e Elmar Klos) já havia conquistado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. E em 1968 foi a vez de 'Trens Estreitamente Vigiados' fazer o mesmo e de forma mais do que merecida. 

A trama do filme se passa na Tchecoslováquia ocupada pela Alemanha Nazista (1938-1945), mas este fato é apenas o pano de fundo no qual a história se desenvolve. Ele não é o tema principal. 

A história deve se passar por volta de 1944/45, pois no filme é mostrado que no momento em que a trama se desenvolve, a Alemanha estava tendo que enfrentar os soviéticos, na Frente Oriental, e os estadunidenses, britânicos e canadenses, na Frente Ocidental. Portanto, a história ocorre entre Junho de 1944 (mês em que ocorreu a invasão da Normandia pelos Aliados ocidentais) e Maio de 1945, quando a Alemanha Nazista acabou finalmente derrotada. 

Aliás, a Tchecoslováquia somente foi libertada do domínio nazista em 09 de Maio de 1945, o dia da rendição alemã. 
A estação ferroviária de uma pequena localidade da Tchecoslováquia, onde se desenvolve toda a trama deste ótimo filme. Ali, a Guerra é algo distante. Já as mulheres estão bem próximas e o sexo está disponível para quem quiser. O diretor, Jirí Menzel, chega a participar do filme, interpretando o Dr. Brabec. 
A trama do filme gira em torno de um jovem (Milos) que começará a trabalhar como sinaleiro de uma estação ferroviária, por onde passam trens que enviam munição para as tropas alemãs que lutam contra os soviéticos na Frente Oriental. 

Milos começa contando a história da sua família, dizendo que o seu avô (William) seguiu a carreira de hipnotizador, para poder ter uma vida fácil, e que o mesmo tentou hipnotizar os blindados alemães quando a Tchecoslováquia foi invadida pela Alemanha Nazista, em 1938 (resultado do 'Pacto de Munique', assinado por alemães, italianos, franceses, britânicos), mas que acabou sendo morto por eles. 

E Milos dará continuidade a uma tradição familiar, já que o seu pai também trabalhou na estação ferroviária, na mesma função, durante muitos anos, até que foi aposentado precocemente pelo governo. Desde então, ele não faz outra coisa a não ser ficar deitado no sofá o dia inteiro.

Milos diz que deseja fazer o mesmo serviço do pai, não por orgulho, mas porque também não quer saber de fazer nenhum tipo de trabalho duro, dando continuidade a outra tradição familiar, a da preguiça. Mas a sua mãe fica toda orgulhosa pelo fato de que o filho terá um uniforme e um emprego estável. 
Milos começa a trabalhar na estação, onde o veterano Hubicka se envolve com inúmeras mulheres. Hubicka não será promovido por isso, mas ele não se importa. As suas conquistas são mais importantes. 
O chefe da estação ferroviária é Max, que adora pombos, aos quais alimenta com prazer, e que também cria gansos. A sua esposa costuma afogar os gansos (é sério...), enquanto Max trabalha na estação. Ele faz questão de sempre estar impecavelmente vestido, mas no momento mais importante da história, para ele, Max estará todo sujo. 

Na estação, também temos um outro sinaleiro (Hubicka) que é um verdadeiro Casanova, pois passa o tempo livre na estação (e esse tempo livre é bastante significativo) se relacionando com mulheres que aparecem por ali ou que trabalham no local. E Hubicka sempre é bem sucedido em suas tentativas, enquanto que Max, mesmo sendo casado, tenta seduzir as mesmas mulheres, mas acaba sendo sempre passado para trás por Hubicka, o que o leva a não esconder a sua antipatia pelo sujeito.

Milos também tem uma namorada (Masa), que também trabalha na ferrovia, viajando com os trens. Na primeira vez em que vemos os dois juntos, Hubicka aprontou uma brincadeira com eles, apitando para que o trem saísse da estação no exato instante em que eles iriam se beijar. Apesar da frustração, esta foi uma bonita cena. Aliás, o filme está repleto de belos momentos.  
O alemão Zednicek tenta convencer Max (ao centro) e Hubicka (à direita) de que apesar das inúmeras 'retiradas táticas', as forças militares alemãs estão vencendo a Guerra...
O relacionamento entre Milos e Masa limita-se a troca de beijos e abraços, pois ele não consegue se controlar quando tenta ter alguma relação sexual com a bonita jovem, sofrendo de ejaculação precoce. 

No filme, também vemos a figura de uma Condessa, que pede aos trabalhadores da estação ferroviária para transportar o gado dela até o matadouro. Ela também diz que a igreja local terá que ser consagrada novamente, pois estão fornicando atrás do altar. E o chefe da estação (Max) e Hubicka nem escondem a atração sexual que sentem por ela. 

Parece que, durante a Segunda Guerra Mundial, os tchecos resolveram deixar a guerra de lado e pensaram apenas em fazer sexo, o tempo inteiro. Mas será que esta não foi justamente a maneira que o diretor encontrou de criticar a insanidade que é a Guerra? 

Obs1: Antes da implantação do Socialismo, os países do Leste Europeu possuíam uma elite agrária, incluindo uma Nobreza proprietária de terras, que detinha grande poder político e econômico. Na Tchecoslováquia o partido dominante, durante mais de 20 anos, foi justamente o 'Partido Agrário'. Tal poder foi destruído apenas depois da implantação do regime socialista, o que vai acontecer entre 1946 e 1949, quando as terras dos grandes proprietários foram entregues aos camponeses do país, o que destruiu o poder político e econômico da Nobreza. 
Enquanto se envolve com mais uma mulher que apareceu na estação, Hubicka passa o seu trabalho para o jovem Milos, cuja maior frustração é justamente não conseguir se relacionar sexualmente com uma mulher, embora tenha uma bonita namorada. 
Obs2: A Tcheco-Eslováquia (nome oficial do país) tinha uma parte mais rica, industrializada, liberal e cosmopolita (que é a parte tcheca) e uma parte mais pobre, rural e mais conservadora (que é a parte eslovaca). 

E Hubicka aproveita para provocar Milos, novamente, a respeito do fato dele não ter relacionamento sexual com a sua bonita namorada. Enquanto isso, ele conquistava mais mulheres e pedia para Milos substituí-lo no trabalho, para que ele pudesse se relacionar com elas. 

Inclusive, Max diz para Milos que Hubicka não será promovido por dez anos em função do seu comportamento liberal em matéria sexual e diz para o jovem seguir o seu exemplo, como se ele fosse um modelo de retidão moral. 

Haja hipocrisia... 

Outro personagem que é satirizado no filme é o inspetor alemão Zednicek. Chega a ser ridícula e cômica a exposição da situação militar alemã que ele faz para Max, Hubicka e Milos, falando a respeito de uma série de 'brilhantes retiradas táticas' que o exército alemão está fazendo por toda a parte: Bélgica, Itália, na Frente Oriental. 
A jovem, bela e liberal Zdenka, com a sua sensualidade natural, será mais uma das conquistas de Hubicka, o Casanova da Tchecoslováquia. 
Assim, ele tenta transformar em gloriosas vitórias aquilo que não passa de uma sucessão de derrotas das forças militares alemãs, enquanto diz que a vitória nazista representará o triunfo da civilização (mais hipocrisia...). 

Mesmo sabendo da real situação dos alemães na guerra, o nazista Zednicek deixa claro que se os funcionários da estação ferroviária não colaborarem com as forças alemãs de ocupação, eles poderão vir a ser presos por 10 anos ou até a ser condenados à morte. 

Obs3: Segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm, o apoio popular dos tchecos aos movimentos de Resistência não foi dos mais significativos, o que também aconteceu na França. E na Eslováquia, durante a Guerra, nós tivemos a criação de um regime fantoche, controlado pelos nazistas alemães, que concederam a 'independência' aos eslovacos. 

Enfim, no filme temos vários personagens que são satirizados por seu comportamento imaturo (Milos), bizarro (Zednicek), hipócrita (Max) ou libertino (Hubicka). 

O caráter mais liberal dos tchecoslovacos em termos de comportamento sexual fica bem claro em todo o filme, incluindo um momento no qual vemos um grupo de soldados entrar em um trem no qual temos inúmeras mulheres. E eles entram no trem e se relacionam sexualmente com elas, é claro. 

Outros filmes na 'Nova Onda Tcheca' demonstravam esse liberalismo comportamenteal dos tchecos, mas de uma maneira mais sutil (caso do ótimo 'Krik' - 'O Choro' - que já foi comentado aqui no blog). 
 Milos quer fazer sexo com a sua jovem e bonita namorada, Masa, mas não consegue, o que o leva a tentar o suicídio... em um bordel.
Outro momento irônico ocorre quando o tio de Masa, um fotógrafo, vai tirar uma foto de cinco jovens e provoca as meninas, apalpando a bunda e os seios de algumas delas, o que deixa os membros de uma família indignados. 

 As jovens dão risada e se divertem com o fato, mas hoje isso seria considerado um caso de assédio sexual e ele seria denunciado e preso, com certeza. Mas naquela época os valores e costumes dominantes na sociedade eram outros. E logo depois o estúdio fotográfico será bombardeado e destruído, fato que leva o dono a cair na risada...

Obs4: Estes eram os anos 1960, com o movimento hippie e a Contracultura já em plena ebulição em 1966. E logo depois teríamos o turbulento Maio de 68, mesmo ano em que eclodiu a chamada 'Primavera de Praga', movimento político de caráter democrático e liberal que acabou sufocado pelo 'Pacto de Varsóvia', cujas tropas invadiram a Tchecoslováquia e encerraram aquela que foi a última tentativa de se promover uma reforma democrática nos regimes socialistas do Leste Europeu até que Gorbatchev iniciou a Perestroika e a Glasnost em 1985, o que levou ao fim da URSS em 1992.  

Milos e Masa tentam uma relação sexual, mas o problema dele (ejaculação precoce) impede que isso aconteça. Em função do seu problema, Milos tentará o suicídio, mas sobreviverá, até que é orientado pelo médico (Dr. Brabec) para que tente resolver o seu problema se relacionando com uma mulher mais velha e experiente. Apesar do problema de Milos, Masa continuará namorando com ele. 
A Segunda Guerra Mundial está em pleno andamento, mas os tchecos não estão nem aí: Eles só querem saber de fazer sexo. E quem não consegue (Milos) tenta se matar...
Logo depois de um acontecimento tão trágico, vemos um momento bem humorado, no qual o mulherengo Hubicka brincará com uma jovem, sensual e bela telegrafista (Zdenka). Eles estavam entediados e sozinhos à noite em uma estação ferroviária, na Tchecoslováquia, em plena Segunda Guerra Mundial... Daí, já viu, né?  

Com isso, eles começam uma brincadeira que os levará a uma situação na qual ele irá carimbar a coxa direita e a bunda dela, numa das melhores cenas do filme (se não for a melhor). E ela sente prazer com aquela situação, sorrindo, como se estivesse sendo penetrada, demonstrando que gostou da brincadeira. O próprio ângulo em que a cena é filmada realça o caráter erótico da cena, sem ser nada pornográfico, muito pelo contrário. 

Nunca, na história do Cinema, alguns carimbos tiveram um papel tão erótico... 

Genial. 

A jovem e bela Zdenka possui uma sensualidade natural, à flor da pele, e agiu de uma maneira inteiramente espontânea, por sua própria vontade, quando fez aquele jogo com Hubicka. 

Mas depois a mãe da jovem irá querer abrir um processo contra Hubicka, porém o próprio juiz percebe o caráter de brincadeira da situação, como se ele também fizesse coisas do tipo, aliás... Só faltou o juiz pedir para carimbar a bunda da bela jovem também... 
O comportamento liberal da jovem e bela Zdenka deixa a sua mãe horrorizada. Seus belos e irônicos sorrisos são sensacionais.  
E durante essa tentativa da mãe de processar Hubicka, Zdenka ri de toda a situação, bem como da própria mãe, que fica chocada com o comportamento bastante natural e liberal da sua bela filha. 

Assim, o depoimento da jovem e bela Zdenka, de que agiu desta forma por sua própria vontade, sem que tenha sido forçada a isso, irá inocentar Hubicka. Mas o inspetor Zednicek diz que o sinaleiro será punido porque desrespeitou o idioma alemão, por ter carimbado a bunda da menina com um carimbo germânico. 

Para tentar resolver o seu problema, Milos irá conversar com o padre (que enrola e não diz nada, concluindo que não poderá ajudá-lo neste caso) e até com a esposa de Max, o chefe da estação, que é especialista em afogar os gansos... Talvez por isso é que ele tenha pensado que ela poderia ajudá-lo. Mas isso não aconteceu, coitado. Ela só entende de gansos, mesmo... 

Mas será apenas com a chegada de uma mulher experiente, Viktoria Freie (integrante da Resistência), que irá se relacionar com ele a pedido de Hubicka, que Milos finalmente conseguirá resolver o seu problema
Cena clássica do belo filme de Jirí Menzel. Nunca um carimbo teve um papel tão erótico. A expressão que o Hubicka fez depois dessa noite foi sensacional...
Obs5: É interessante notar que embora o filme mostre que existiu uma Resistência à dominação nazista da Tchecoslováquia, percebe-se que esta não foi das mais relevantes, confirmando o que disse o historiador Eric Hobsbawm. A ação da Resistência aparece apenas no final do filme. 

Depois de se relacionar com Viktoria, Milos se torna um homem de verdade e fica tão confiante que acaba realizando uma missão altamente perigosa, que é a de jogar uma bomba relógio sobre um trem alemão que está enviando munição para os soldados nazistas na Frente Oriental. A missão é perigosa, mas ele irá realizá-la mesmo assim, pois já é um adulto. 

Assim, Milos se transforma radicalmente ao longo do filme, deixando de ser um jovem inseguro e sem confiança, completando a transição da passagem da adolescência para a fase adulta, a ponto de chegar a agir heroicamente, pois ao jogar a bomba sobre o trem ele acaba sendo morto por um soldado alemão que estava no mesmo. 

Seu corpo cai sobre o trem, que explode logo na sequência e seu quepe acaba voando até Masa, que o segura, dando-se conta de que Milos morreu. 

Fim.
O trem alemão explode, graças à ação heroica do jovem Milos. 
Informações Adicionais:

Título: Ostre Sledované Vlaky ('Trens Estreitamente Vigiados');
Diretor: Jirí Menzel;
Roteiro: Jirí Menzel; Bohumil Hrabal; roteiro baseado em romance de Bohumil Hrabal;
Gênero: Comédia Dramática;
Duração: 93 minutos;
Ano de Produção: 1966; 
País de Produção: Tchecoslováquia;
Fotografia: Jaromir Sofr;
Música: Jirí Sust;
Elenco: Václav Neckár (Milos Hrma; jovem sinaleiro); Josef Somr (Ladislav Hubicka, sinaleiro); Jitka Bendová (Masa, namorada de Milos); Jitka Zelenohorská (Zdenka; telegrafista); Nada Urbánková (Viktoria Freie; integrante da Resistência); Vladimir Valenta (Max, chefe da estação); Vlastimil Brodský (Zednicek; inspetor nazista); Alois Vachek (Novak); Jirí Menzel (Dr. Brabec); Libuse Havelková (esposa de Max); Kveta Fialová (Condessa); 
Prêmio: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1968.
Cartaz nazista, atacando os soviéticos, que diz: 'Se lhe pegarem, irá morrer'. Na Tchecoslováquia de 1966, no entanto, essa era uma advertência contra a URSS, que dominava política e militarmente os países do Leste Europeu desde o início da Guerra Fria.
Informações sobre o filme:

http://www.imdb.com/title/tt0060802/?ref_=fn_al_tt_1

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

'Krik' (O Choro, Jaromil Jires, 1963): Uma história romântica, política e poética que trata da crise do presente e da incerteza ante o futuro! - Marcos Doniseti!

'Krik' ('O Choro', Jaromil Jires): Uma história romântica, política e poética que trata da crise do presente e da incerteza ante o futuro! - Marcos Doniseti!
'Krik' (O Choro', 1963) foi o primeiro longa-metragem de Jaromil Jires e é considerado por muitos como o marco inaugural da chamada 'Nova Onda Tcheca', movimento que renovou a linguagem cinematográfica do país. Muitos destes filmes conquistaram importantes prêmios internacionais. 
A Nova Onda Tchecoslovaca!

A chamada 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca' (ou 'Nova Onda Tcheca') foi uma das várias 'Nouvelles Vagues' que tivemos pelo mundo afora (Japão, Brasil, Canadá), sendo que a pioneira foi, evidentemente, a francesa, que começou no final da década de 1950 e que revelou ao mundo cineastas do porte de Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol.

O movimento tchecoslovaco de renovação cinematográfica também abriu espaço para uma nova geração de cineastas bastante talentosos, como são os casos de Stefan Uher (cujo filme 'O Sol em uma Rede' já foi comentado aqui no blog), Milos Forman, Jirí Menzel, Vera Chytilová, Jan Nemec, Pavel Jurácek, Juraj Herz, Karel Kachyna, Ivan Passer, Evald Schorm e Jaromil Jires, diretor do ótimo filme que irei comentar neste texto, que é 'Krik' ('O Choro'). Estes diretores se formaram na 'Escola de Cinema e Televisão da Academia de Artes Performáticas' em Praga (FAMU).

A chamada 'Nova Onda Tcheca' também foi mais um movimento cinematográfico que foi bastante influenciado pelo Neo-Realismo italiano.

Um claro exemplo disso é 'Krik', no qual vemos pessoas comuns e cenas filmadas in loco, ao natural, fora dos estúdios (pelas ruas de Praga), o uso de atores não-profissionais (a protagonista Ivana, é interpretada por uma 'não-atriz'), que são características presentes nas obras neo-realistas.
Ivana é um jovem e bonita loira que conhece Slavek, de forma acidental, em uma ponte de Praga. 
Essa influência se mistura com as críticas políticas e sociais, uma poesia, um lirismo e uma fantasia que estão presentes na Nova Onda Tchecoslovaca, que também sofreu uma significativa influência do Surrealismo, que exerceu um grande impacto cultural no país durante as décadas de 1920/1930.

Aliás, não é à toa que com uma efervescência cinematógráfica e cultural tão rica, com tantas críticas políticas e sociais sendo feitas em um grande número de filmes, durante vários anos, e que foram reconhecidos internacionalmente, a Tchecoslováquia tenha passado por uma radical experiência política de caráter democrático, que foi a chamada 'Primavera de Praga', em 1968.

Obs1: A experiência da 'Primavera de Praga' acabou violentamente reprimida e destruída pela URSS, em Agosto de 1968, com a invasão da Tchecoslováquia promovida pelo 'Pacto de Varsóvia'. Depois deste trágico acontecimento, a crença no futuro do 'Socialismo Real' desmoronou em todo o bloco soviético, pois ficou evidente para todos os seus habitantes que tal modelo político e social era incompatível com um grau mais avançado de liberdades democráticas, que era o grande desejo da população dos países do chamado 'bloco soviético', junto com a manutenção de relevantes conquistas sociais: moradia, alimento e transportes coletivos baratos e subsidiados; pleno emprego; educação e saúde pública e gratuitas.
Ivana e Slavek: Ela vai até o pequeno e desconfortável apartamento dele. Eles passam a morar juntos e, é claro, iniciam um romance. 

A trama do filme!

'Krik' é um belo filme de Jaromil Jires.

Nele, temos momentos intimistas, realistas, políticos, sociais, poéticos e de pura fantasia, no qual fica clara a busca por uma renovação da linguagem cinematográfica, o que faz dele um dos mais relevantes filmes desta 'Nova Onda Tchecoslovaca'. Este foi um movimento que ganhou bastante destaque no cenário mundial, conquistando inúmeros prêmios internacionais, durante a década de 1960.

O filme foi produzido em 1963, logo depois de 'O Sol em uma Rede' (de Stefan Uher), tendo sido um dos primeiros filmes do movimento, sendo que muitos o consideram como o marco inaugural da 'Nova Onda Tchecoslovaca'.

Obs2: O diretor tcheco Milos Forman disse que a abertura política e cultural que surgiu no bloco soviético após as denúncias dos crimes de Stalin por Nikita Kruschev, em 1956, é que criaram as condições para que o 'Novo Cinema Tchecoslovaco' pudesse florescer. Ele também afirmou que foi em função do sucesso que os cineastas tchecoslovacos alcançaram no exterior que levou a que o governo do país fosse tolerante com as críticas sociais e políticas que eram feitas nos filmes do movimento, pois os prêmios que eles conquistavam aumentavam o prestígio do país no exterior. Se eles soubessem que a 'Nova Onda' cinematográfica do país iria contribuir para a eclosão da 'Primavera de Praga', talvez eles não tivessem sido tão tolerantes assim.
Slavek observa o movimento da bela cidade de Praga. A 'Nova Onda Tcheca' foi influenciada pelo Neo-Realismo italiano e também usava de cenários naturais e de atores não-profissionais.  
O filme de Jires gira em torno de um casal (Slavek e Ivana), que mora em Praga, que se conheceu de forma acidental e que, pouco tempo depois, já estava morando junto. Slavek é um técnico que conserta aparelhos de TV e, assim, não é à toa que o filme começa (tal como acontece em 'O Sol em uma Rede', de 1962) mostrando antenas de TV sobre os edifícios de uma cidade tcheca (Praga, a capital do país).

E tal como ocorre no filme do eslovaco Stefan Uher, em 'Krik' isso também serve como introdução para uma história que irá procurar mostrar um panorama da sociedade (no caso de 'Krik', da parte tcheca do país) do começo da década de 1960, bem como também fará um tipo de apelo por mudanças sociais e políticas.

Ela, Ivana, fica grávida de Slavek e é levada para o hospital e o filme mostra como foi a história do romance deles até esse momento, na perspectiva de ambos, em cenas de flashback, que se alternam o tempo inteiro com outras cenas, do presente e, algumas, do futuro (poucas e rápidas).

Assim, teremos acesso às memórias que eles tem de sua vida juntos até aquele momento e que também se alternam o tempo todo. Estas memórias vão construindo uma espécie de quebra-cabeças do relacionamento de Slavek e Ivana e que é cheio de idas e vindas.
Ivana e Slavek, juntos, em um momento romântico. Ela é bastante ciumenta e exige atenção permanente por parte de Slavek. Quando ela é contrariada, chora, fica nervosa e o deixa sozinho.
Em determinados momentos o filme mostra o presente, com Ivana prestes à dar a luz e Slavek preocupado com o parto, enquanto faz o seu trabalho pela cidade, mas ele também remete ao passado (pelas memórias do casal, que seguem uma ordem não-linear) e trata das incertezas em relação ao futuro, como o medo de uma guerra devastadora que aniquilasse o planeta (cenas de desfiles militares, com uma fileira de blindados, e de caças militares estão presentes).

E o fato de que sua filha, que está para nascer, irá viver num mundo tão marcado por conflitos e incertezas os deixam angustiados, é claro. Não é à toa, portanto, que o filme se chama 'O Choro'. É como se a criança que está para nascer já estivesse chorando de antemão pelo fato de saber que está vindo para um mundo tão caótico e conturbado.

Enquanto Ivana se prepara, no hospital, para ser submetida à cirurgia que trará a sua filha ao mundo, vemos Slavek percorrer diferentes locais da cidade onde os seus serviços são requisitados. Desta maneira, veremos um retrato da sociedade e da população tcheca da época por meio de suas andanças pela cidade.

Ele tentará, o tempo inteiro, telefonar para o hospital (mas sem conseguir), a fim de descobrir como está a esposa, enquanto que essa fica preocupada, questionando-se do motivo pelo qual o marido não lhe telefona para se informar a respeito de sua situação.
Ivana, no hospital, esperando pelo momento do parto. Ela fica ansiosa, preocupando-se com o fato de que Slavek não telefona para saber como ela está. 
Assim, ele vai até uma escola, onde a professora tenta controlar uma sala cheia de crianças bastante agitadas, depois irá até um escritório, onde um jornalista dita um texto (a respeito de um filme neo-realista italiano) para a secretária, com quem ele tem um romance, visita a residência de uma jovem belíssima e sensual que tenta seduzi-lo mal ele entra na casa dela, briga em um local público com um racista, que ofende um adolescente que havia ajudado um jovem negro a fazer um telefonema para uma outra jovem, com quem ele namora.

Ivana é uma bonita e jovem loira que aprecia a música de Bach e que começa a sentir as dores do parto que se aproxima e, por isso, Slavek a leva até o hospital. No local, quando ela olha diretamente para a câmera, começamos a ver a história de como eles se conheceram.

Em sua primeira memória (de Ivana), vemos que isso aconteceu quando Slavek passeava por uma ponte e viu Ivana de cabeça baixa e falou com ela, pensando que ela poderia estar chorando. Ela não estava, mas isso foi o suficiente para que eles demonstrassem um interesse mútuo. E logo depois ela vai até a casa de Slavek e ele permite que ela passe a morar ali, embora o local tenha pouquíssimo espaço. E é claro que começa um romance entre eles.

O primeiro lugar onde Slavek vai trabalhar, enquanto Ivana espera pelo parto, é uma escola, onde as crianças começam a dizer o que elas fariam se fossem invisíveis e é claro que elas falam sobre situações que gostariam de vivenciar, mas que não podem, pois os outros estão observando e vigiando.
Slavek tenta telefonar para Ivana, que está no hospital, mas não consegue e fica irritado com isso. 
É bastante evidente que esta é uma maneira não muito explícita que Jaromil Jires encontrou de criticar o governo autoritário do país, que procura vigiar, controlar e reprimir a população.

Vemos também cenas das pessoas indo para abrigos (como se fosse um documentário), em uma simulação, a fim de se proteger de ataques aéreos.

Obs3: O medo de uma guerra nuclear era algo bastante presente naquela época e isso fazia parte do cotidiano da população da Europa (Ocidental e Oriental), bem como dos EUA e da URSS. Não se pode esquecer que, na época, nós tivemos a chamada 'Crise dos Mísseis' (1962), entre EUA e URSS, que quase desencadeou uma guerra nuclear.

Nas memórias do casal, o filme também mostra cenas de fantasia, com Slavek e Ivana correndo em meio a uma floresta, bem como o dia em que eles se casaram.

Também temos uma cena na qual Ivana fala ao telefone e onde ela parece estar em uma peça de teatro. Depois, ela aparece mobiliando o apartamento que eles compraram, que é bem mais espaçoso e confortável do que o local onde moravam anteriormente.
Em uma das residências nas quais foi trabalhar, para consertar um aparelho de TV, Slavek encontra uma jovem bela e sensual. A cena até sugere que eles tiveram uma relação, mas isso é inconclusivo. 
Slavek tenta telefonar para o hospital, para saber como está Ivana, mas não consegue. E vemos cenas de uma floresta, enquanto toca Bach, e Slavek comenta se a esposa estaria com medo do parto.

Slavek vai consertar o aparelho de TV de um jornalista que dita um texto sobre um filme neo-realista italiano para a sua bela secretária e que fala a respeito da crise social do mundo capitalista e que cita Babel, Pasternak e Le Corbusier. Mas quando ele falava sobre a crise do mundo capitalista, ele também falou do socialista, sugerindo uma crítica aos dois sistemas, que disputavam a hegemonia mundial naquele momento.

Depois, Slavek vai até a casa de uma belíssima jovem (para consertar um aparelho de TV, é claro), de lindos cabelos pretos e lisos, extremamente sensual, que tenta seduzi-lo, mas que aparentemente não consegue.

Percebe-se que Slavek sente-se bastante atraído pela jovem, tanto que ele se deixa abraçar por ela, mas a ideia de que eles consumaram a relação fica apenas na sugestão, embora isso não possa ser descartado.
A jovem bela e sensual tenta seduzir Slavek e não ficamos sabendo se isso aconteceu ou não. O filme de Jaromil Jires mostra que os tchecos desejavam desfrutar de uma liberdade política, comportamental e sexual mais ampla.
Assim, temos presente no filme, também, a ideia de que as pessoas queriam se libertar de uma repressão que tolhia a sua liberdade sexual e comportamental, algo que veria à tona nos anos seguintes, com a emergência do movimento Hippie e da Contracultura, que exerceram uma significativa influência na Tchecoslováquia.

Obs4: O poeta Beat Allen Ginsberg chegou a visitar o país em 1965 e foi aclamado como 'Rei de Maio' por 100 mil pessoas, fato este que o levou a ser expulso pelo governo do país. Ginsberg escreveu um brilhante poema a respeito do acontecimento ('Kral Mahales', ou seja, 'Rei de Maio'; ver link abaixo com o poema devidamente traduzido por Cláudio Willer).

Vemos uma cena do passado de Slavek e Ivana, quando ela fez de tudo para chamar a atenção dele, mas na qual Slavek não se interessou, ela se irritou e lhe estapeou. Em vários momentos vemos que Ivana era muito ciumenta e que sempre queria ser objeto da atenção por parte de Slavek.

Depois, quando Slavek vai para a residência de um casal bem sucedido, percebe-se a frustração da esposa, que não tem um filho, quando Slavek telefona para o hospital a fim de perguntar sobre o parto de Ivana.
Slavek e Ivana se beijam no meio da rua. Ela se questiona se ele realmente sente a sua ausência e teme que, um dia, ele não retorne para ela. 
O marido estimula Slavek a ser pai, para garantir a sua posteridade, preservando o seu nome, mas ao mesmo tempo ele não coloca em prática tal ideia em seu casamento, o que é uma forma de denunciar a sua hipocrisia. Slavek vai ao cinema, onde duas mulheres conversam sobre os filmes que assistem e que não mexem com os sentimentos dela, não fazendo nem rir e tampouco chorar.

Essa foi uma forma que o diretor, Jaromil Jires, encontrou de criticar o Cinema e que era produzido no país até aquele momento, que era dominado pelas ideias do chamado 'realismo socialista', bem como de mostrar aspectos negativos da sociedade da época.

Estes eram alguns dos principais objetivos da 'Nouvelle Vague Tchecoslovaca': 

Renovar a obsoleta e retrógrada linguagem cinematográfica que vigorava no país, ao mesmo tempo em que se mostrava o cotidiano e a realidade da população, criticando o sistema político e social vigentes, aproveitando-se da liberdade relativa que o governo passou a tolerar a partir da segunda metade da década de 1950.

Assim, o governo tchecoslovaco abriu algumas brechas no repressivo sistema político e os brilhantes e talentosos cineastas do país aproveitaram-se disso para ampliá-las, no que foram muito bem sucedidos.
Alguns dos principais diretores da 'Nova Onda Tcheca': Vera Chytilová (ao centro), Milos Forman (segundo, à direita), Evald Schorm (à direita de Forman) e Jirí Menzel (à esquerda de Forman) estão entre os principais nomes de uma geração que mostrou o desejo de liberdade por parte dos tchecos, o que contribuiu para a formação de uma consciência crítica que desembocou na 'Primavera de Praga' (1968).
No filme, inclusive, a bela cidade de Praga é mostrada tal como era naquela época, com seus moradores demonstrando possuir um bom padrão de vida. De fato, a parte tcheca do país era mais rica e desenvolvida, possuindo uma economia industrial mais avançada e uma sociedade mais urbanizada, liberal e cosmopolita do que a parte eslovaca.

Comparando-se os filmes do eslovaco Stefan Uher ('O Sol em uma Rede', de 1962) com 'O Choro' (1963), de Jaromil Jires, percebe-se pelo filme do primeiro que o desejo de mudanças na sociedade eslovaca ainda era algo que não estava presente entre a população, enquanto que na parte tcheca do país tal desejo já era algo bastante evidente.

Obs5: Aliás, é bom ressaltar que a então Tchecoslováquia oferecia (principalmente a parte tcheca), de fato, um dos melhores padrões de vida do bloco soviético, sendo que a sua população vivia melhor do que os próprios soviéticos e do que a população da maioria dos países do chamado 'Socialismo Real'.

Nas memórias que contam a história do seu romance, Slavek e Ivana também fazem um passeio pela cidade, ela lhe pede que compre algo, ele o faz, a cena muda e ela diz 'você demorou anos'. Ele lhe dá uma maçã ácida, tiram uma foto, beijam-se e se despedem.

Neste momento, vemos que o beijo deles se dá em frente a uma loja na qual vemos um vestido caro com um colar, o que seria uma forma de crítica, pois é claro que eles não tem os recursos necessários para comprá-los.
Cena de um desfile militar. Filme foi realizado pouco tempo depois da Crise dos Mísseis (1962) que quase desencadeou uma guerra nuclear entre EUA e URSS e o medo de um conflito global está presente no filme. 
Slavek também se envolve em uma briga com um homem racista e encontra seu grande amigo pintor (Lada), a quem vive emprestando dinheiro, para desgosto de Ivana. Juntos, eles levam um berço para a futura filha de Slavek e Ivana, atrapalhando o trânsito.

Slavek lembra-se que já tinha visto Ivana antes do encontro na ponte, sendo que eles trocaram um olhar, mas não se falaram. Ivana preocupa-se com a possibilidade de que Slavek poderá não voltar para ela um dia e que ele apenas finge que se importa em deixá-la sozinha, 'como se' estivesse triste, quando não está. Por isso, ela diz que tem vontade de chorar, mas finge, 'como se' estivesse feliz. E eles acabam se acostumando ao 'como se', aos fingimentos.

Ela declama um poema de sua autoria, enquanto toca uma música triste, melancólica e vemos cenas de inúmeros casais se beijando: 'Nós Somos Dois. Sempre como Dois. Não podemos ser Um. Somos Um. Sempre como Um. Não podemos ser Dois".
Slavek abaixa o som do aparelho de TV enquanto um cientista fala a respeito de uma experiência científica realizada em uma nave espacial soviética 'Vostok', o que não deixa de ser uma forma de se criticar a URSS.

Slavek vê livros que mostram que seus pais, dele e de Ivana, lutaram na Segunda Guerra Mundial. Enquanto o pai dela foi lutar na Itália, o pai de Slavek teve que trabalhar como escravo para o Reich Nazista.
O filme de Jaromil Jires também se destaca pelo charme e beleza de algumas das suas atrizes. 
Obs6: Isso sugere que o pai de Ivana era eslovaco, enquanto que o de Slavek seria tcheco. É que durante a Segunda Guerra Mundial a Eslováquia chegou a conquistar uma 'independência' temporária, sob o comando de um regime fantoche que era aliado da Alemanha Nazista, o que explicaria o fato do pai dela ter ido lutar na Itália, ao lado dos alemães. Enquanto isso, a parte Tcheca passou a ser governada diretamente pelos alemães e a fazer parte do Reich Nazista, que escravizou grande parte da população do país.

Quando Slavek vê as fotos antigas de Ivana, toca uma música antiga, estilo 'loucos anos 1920', também chamada de 'Era do Jazz'. E finalmente Slavek consegue tomar conhecimento do fato de que era pai de uma saudável menina. Com isso, ele vai até o hospital, mas não vê a esposa e nem a filha. 

Ele vai embora e se lembra de um momento quando ela disse:

"Quando nos olhamos pela primeira vez, parece que conhecemos tudo. E depois começamos a esquecer. Não lave a louça. E coma os morangos você mesmo. Ou lave a louça. E separe os morangos. Nós os colocaremos na mesinha de cabeceira. E então iremos 'como se'.

Fim.
Ivana e sua filha recém nascida. O filme questiona para qual tipo de mundo ela está vindo, em que tipo de sociedade ela irá viver, se ela nasceu com 'a cor de pele' ou com o 'status social' certos. As críticas ao presente e a incerteza quanto ao futuro marcam essa bela obra de Jaromil Jires. 

Informações Adicionais!

Título: Krik (O Choro);
Diretor: Jaromil Jires;
Roteiro: Jaromil Jires, Ludvik Askenazy;
Gênero: Drama;
Duração: 77 minutos;
Ano de Produção: 1963; País de Produção: Tchecoslováquia;
Elenco: Josef Abrhám (Slavek); Eva Límanová (Ivana).

Links:

Furto do Paraíso: O Novo Cinema Tcheco dos anos 1960:


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