domingo, 2 de abril de 2017

‘La Ciociara’: Vittorio De Sica mostra os efeitos nefastos da Segunda Guerra Mundial para as mulheres e o povo italiano! – Marcos Doniseti!

‘La Ciociara’: Vittorio De Sica mostra os efeitos nefastos da Segunda Guerra Mundial para as mulheres e o povo italiano! – Marcos Doniseti!
'La Ciociara' (1960), clássico neo-realista de Vittorio De Sica, que conquistou inúmeros prêmios (Oscar, Cannes, Globo de Ouro) e consagrou a jovem e bela atriz Sophia Loren.
A produção de 'La Ciociara'!

Vittorio De Sica foi um dos principais diretores do Neo-Realismo italiano, sendo que vários dos filmes que dirigiu trataram de questões relacionadas às consequências da Segunda Guerra Mundial para o povo italiano. 

Ele fez isso em filmes clássicos como ‘Vítimas da Tormenta’ (1946), ‘Ladrões de Bicicleta’ (1948), ‘Milagre em Milão’ (1950), ‘Umberto D’ (1951) e, também, neste ótimo ‘Ciociara’ (produção de 1960).

As consequências da Segunda Guerra Mundial para a vida das pessoas é o tema principal desse belo filme de Vittorio De Sica. Não vemos nenhuma cenas de batalha, pois o que interessa na obra é a maneira como a vida das pessoas comuns, os não-combatentes, é afetada pelas Guerras. 



‘La Ciociara’ é baseado em um livro de Alberto Moravia, consagrado escritor italiano que teve inúmeras obras de sua autoria adaptadas para o Cinema. Na época em que De Sica filmou ‘La Ciociara’ essa onda de adaptações das obras moravianas estava no auge.

A trama do filme!

Em ‘La Ciociara’ vemos a história de uma pequena comerciante romana (a viúva Cesira, interpretada pela belíssima e talentosa Sophia Loren) e de sua filha (a adolescente Rosetta, de 13 anos), que fogem da capital italiana quando esta passa a ser cada vez mais bombardeada pelos Aliados.

Os bombardeios dos Aliados sobre Roma levaram Cesira a fugir para a região na qual ela nasceu (Ciociara), levando a filha (Rosetta) junto com ela, que é viúva.
Cesira é simpatizante do Fascismo e pergunta o que Mussolini irá fazer para acabar com os bombardeios promovidos pelos Aliados. Assim, ela mostra desconhecer o quanto a Itália fascista é militarmente fraca e que, sozinha, a pátria de Mussolini não possui nenhuma condição de resistir ao avanço das tropas dos EUA e da Grã-Bretanha pelo país. 

Elas vão para uma região montanhosa e isolada, localizada ao sul de Roma, passando a viver, temporariamente, em um pequeno povoado (da região de Ciociara) no qual Cesira nasceu e onde ela conhece várias pessoas. Estas acabam por dar abrigo para as duas (Cesira e Rosetta). 

Em Roma, Cesira era proprietária de um pequeno mercado, no qual vendia alimentos e, pouco antes de partir, ela chega a ter um rápido envolvimento amoroso com outro comerciante (Giovanni), que é o proprietário de uma loja de carvão e lenha. 

Obs1: Os pequenos proprietários foram um dos grupos sociais que mais forneceram apoio ao Nazi-Fascismo, mas depois que Hitler e Mussolini chegaram ao poder, eles pouco ou nada fizeram em seu benefício, preferindo receber o apoio e governar em favor dos latifundiários e dos Grandes Capitalistas. 

Cesira e Giovanni chegaram a namorar no passado, mas ela acabou se casando com outro homem, bem mais velho do que ela, com quem pôde desfrutar de uma vida melhor materialmente. Mais adiante no filme ela confessa, porém, que nunca amou o marido e que era horrível ter que dormir, todas as noites, com um homem que ela não amava. 
Em Roma, a viúva Cesira se envolve romanticamente com Giovanni, que é casado mas que sempre a amou. Mas ela preferiu se casar com outro, com quem poderia desfrutar de melhores condições de vida, mesmo sem que sentisse algo pelo mesmo.
E agora um romance entre eles é muito mais difícil, pois Giovanni é casado e tem dois filhos. Mesmo assim, quando se despede de Giovanni, na estação ferroviária, ela pede que ele cuide do seu mercado e chora. 

A viagem de trem leva as duas mulheres até um local próximo ao povoado, mas o restante do caminho é feito a pé. E nesta caminhada ela conhece um velho habitante de um povoado próximo, que anda de bicicleta, e que acaba sendo morto por um avião que os atacou. 

Elas também se encontraram com dois integrantes de uma Milícia fascista, sendo que um deles tentou atrair Rosetta, deixando Cesira indignada. Os milicianos foram brutos com as duas e ameaçaram prender ambas, mas não o fizeram. 

Quando chegam ao povoado, Cesira reconhece algumas pessoas com quem conviveu em sua infância e encontra com outras que também são refugiadas.
Nesta época, o Sul da Itália tinha sido invadido pelos Aliados (EUA e Grã-Bretanha). 

A invasão começou pela Sicília e, gradualmente, foi avançando pelo território do país. No início de Setembro, as tropas dos Aliados chegaram à Nápoles. 
Cesira chora ao se despedir de Giovanni, com quem ela desfrutou de uma noite de amor, algo que ela não tinha há muito tempo. 
Quando ocorreu a invasão do território italiano pelos Aliados, em Julho de 1943, os próprios membros do ‘Grande Conselho Fascista’ decidiram derrubar Mussolini do comando do governo e coloca-lo na prisão, o que foi determinado pelo Rei Vítor Emanuel III no dia 25 do mesmo mês. 

E o novo governo italiano, no início de Setembro de 1943, também acabou fechando um acordo e a Itália passou para o lado dos Aliados na guerra. Depois disso, em 12/09/1943, um comando liderado por Otto Skorzeny (capitão da SS) invadiu o local onde Mussolini estava preso (estação de esqui de Gran Sasso, a leste de Roma), libertou o ‘Duce’ e o levou para a Alemanha. 

Além de libertar Mussolini, Hitler também ordenou a invasão do Norte e do Centro da Itália, onde instalou a chamada ‘República de Saló’, que foi um governo fascista fantoche que, formalmente, era liderado por Mussolini. 

Na prática, tal governo fascista era controlado pelos alemães, que levaram forças militares consideráveis para o Norte da Itália, a fim de impedir que o território alemão fosse invadido por forças dos EUA e da Grã-Bretanha. Mas a criação desse regime fascista fantoche, e que tinha a participação dos segmentos mais radicais do Fascismo italiano, gerou uma brutal guerra civil no Norte da Itália e que durou de 1944 a 1945.
Durante a viagem rumo a Ciociara, Cesira enfrenta dois milicianos fascistas, que perseguem desertores e que mexeram com a sua filha (Rosetta).
Assim, somente no final de Abril de 1945 é que Mussolini acabou sendo novamente preso e, depois, morto pela Resistência e a região norte do país foi libertada do domínio nazista pelos Aliados.  

A história mostrada em ‘Ciociara’ se desenvolve em um momento no qual temos o início da invasão dos Aliados e as tropas dos EUA e da Grã-Bretanha estão avançando e conquistando territórios no Sul da Itália.

No pobre povoado sulista, Cesira e Rosetta acabam se tornando amigas de um jovem estudante esquerdista (Michele), que possui uma formação educacional e cultural mais sofisticada, sendo um típico jovem intelectualizado das cidades e nada possuindo em comum com um camponês de um pequeno povoado do interior.

Michele é filho de moradores locais e não omite de ninguém que defende ideias esquerdistas, mesmo com várias das pessoas ali sendo simpatizantes declaradas de Mussolini e do Fascismo. Por isso, Michele entra em conflito com estes moradores em várias oportunidades. 

Inclusive, Michele chega a anunciar que irá embora do povoado para poder se unir à Resistência, mas isso não irá acontecer devido à chegada de um grupo de soldados alemães em fuga. 
Em Ciociara, Cesira é bem recebida pelos moradores, que já a conheciam, e por outros refugiados que se encontravam no local. Dali, mesmo vivendo numa região montanhosa e isolada, eles se ajudavam e ainda conseguiam acompanhar a evolução da Guerra. 
 Algumas das mulheres do povoado chegam a brincar, perguntando como seria fazer amor com Mussolini, que elas dizem não ser muito atraente, mas uma das mulheres diz que não teria problema quanto a isso, sendo que para resolver o problema bastaria apagar as luzes. 

Os camponeses e refugiados de Ciociara, do alto da montanha onde residiam, conseguem acompanhar a evolução da Guerra e as mudanças que ocorrem no conflito. 

Em um primeiro momento, os dois milicianos fascistas acabaram chegando ao povoado (usando trajes civis) e informaram que Mussolini havia sido derrubado do governo e que tinha sido preso, fazendo com que Michele ficasse bastante feliz com as notícias. Percebendo o fato, um dos milicianos ameaçou matar Michele, mas não o fez. 

Obs2: Nota-se, na postura e discurso dos milicianos fascistas, que eles eram bem mais radicais e extremistas do que os próprios camponeses que admiravam Mussolini. Esses fascistas radicais queriam que os grupos sociais conservadores (Igreja Católica, Latifundiários, Rei, Burguesia, Exército), com os quais Mussolini se aliou para poder ascender ao poder e governar, fossem afastados do governo. Os chamados ‘Camisas Negras’ fascistas radicais queriam governar de forma solitária, sem que fosse necessário se aliar a outros grupos políticos e sociais, pois não queriam dividir o poder com os mesmos para governar a Itália. 
Filho de moradores da região de Ciociara, Michele (interpretado por Jean-Paul Belmondo) se apaixona por Cesira, mas esta resiste a ter algum envolvimento amoroso com o mesmo. 
Obs3: No livro ‘A Anatomia do Fascismo’, o historiador Robert O. Paxton explica de que maneira Hitler e Mussolini se aliaram aos setores conservadores de seus respectivos países e governaram em aliança com os mesmos. As Burguesias alemã e italiana, por exemplo, foram muito beneficiadas com a destruição do movimento sindical e dos partidos de Esquerda (Socialistas e Comunistas), bem como com a militarização de seus países. Isso implicou em gigantescos gastos com a produção de armamentos, que aumentaram fortemente os lucros das indústrias bélicas que os capitalistas controlavam. Alguns fascistas e nazistas mais radicais não aceitavam tais acordos e alianças, mas acabaram sendo reprimidos e isolados pelos próprios líderes de seus movimentos (Hitler e Mussolini é claro). Assim, os líderes das tropas de assalto nazistas (SA) foram brutalmente assassinados por ordens do próprio Hitler, pois as SA desejavam substituir o Exército como a principal força militar alemã. Quando massacrou as lideranças das SA, em 30/06/1934, Hitler demonstrou que não iria permitir isso. E o Exército lhe foi grato por isso. Em um trecho do seu livro, Paxton escreveu o seguinte: “O fato de Hitler e Mussolini terem chegado ao poder em aliança com as poderosas elites tradicionais não pode ser visto como uma peculiaridade da história alemã ou italiana. É difícil de acreditar que os partidos fascistas pudessem ter subido ao poder de alguma outra forma” (A Anatomia do Fascismo, Robert O. Paxton, Editora Paz e Terra, página 193). 

Posteriormente, apareceram no povoado dois soldados ingleses, que pedem água e alimento, mas os moradores locais não querem ajuda-los, pois dizem temer por eventuais punições que poderiam vir a ser aplicadas pelos alemães. Além disso, eles são simpatizantes de Mussolini. 
Cesira tenta ajudar a filha, Rosetta, que está em choque após ser violentada por soldados marroquinos. 
Somente Cesira, Rosetta e Michele é que se propõe a ajudar aos ingleses, sendo que o jovem esquerdista irá guia-los pelas montanhas, ajudando-os de forma inteiramente voluntária. Afinal, eles estão lutando contra os mesmos inimigos, os nazi-fascistas. 

Michele sente uma forte atração por Cesira e diz que a ama, mas ela não quer envolvimento com ninguém neste momento. Porém, pouco tempo depois, eles acabam se beijando. 

Mesmo isolados, os camponeses e refugiados de Ciociara vão acabar percebendo, no entanto, que os alemães estão sendo derrotados pelos Aliados quando um grupo de seis soldados germânicos aparece no local, visivelmente abatidos e cansados, e exigem que os camponeses lhes forneçam água e alimentos. Os soldados alemães também exigem que um dos moradores ajude na sua fuga e eles acabam levando 
Michele com eles, para servir de guia. 

Nota-se a diferença entre os soldados ingleses, que pedem por ajuda de forma civilizada, e os alemães, que fazem ameaças aos moradores do povoado para que os mesmos os ajudem.
Cesira chorando na estrada é uma cena clássica do filme de Vittorio De Sica. Sophia Loren tem um desempenho brilhante, que a levou a conquistar vários prêmios internacionais, incluindo o Oscar de Melhor Atriz. 
Não muito tempo depois, quando Nápoles acaba sendo conquistada pelos Aliados vemos soldados dos EUA em seus jipes e blindados transitando pelo local e sendo recebidos como libertadores pelos moradores e refugiados, que são os mesmos que se recusaram a ajudar os soldados ingleses. Quando estes apareceram, aquela região ainda estava sob o domínio nazi-fascista e a chegada das tropas dos EUA mostrava que isso não acontecia mais. 

Afinal, sempre é bom ficar do lado dos vitoriosos, não é mesmo? 

Com isso, os refugiados que estavam em Ciociara decidem ir embora, voltando para as suas cidades e regiões de origem. Cesira e Rosetta, no entanto, são as únicas que irão tomar o destino de Roma e, com isso, elas acabam saindo do local sem a companhia de ninguém. 

No caminho, as duas acabam se abrigando em uma igreja quase que inteiramente destruída, onde são atacadas e estupradas por um grupo de soldados marroquinos. 

Depois disso, a tímida Rosetta, que sempre havia sido tão apegada e obediente à mãe, muda radicalmente de comportamento, afastando-se de Cesira e adotando uma postura liberal em relação aos homens adultos que demonstram interesse por ela. 

Ela chega a sair com um deles (o motorista Florindo), à noite, sem avisar Cesira. 
Cesira e a filha entram em conflito em função do comportamento rebelde da filha após ter sido violentada pelos soldados marroquinos. 
É evidente que Rosetta culpa a mãe, Cesira, pelo que lhe aconteceu, pois a mesma não conseguiu protege-la dos agressores. 

De certa maneira, este é o tema do filme, ou seja, a incapacidade de uma mãe de proteger os filhos em um momento de guerra e de violência sem controle, mostrando a sua marca pacifista e antibelicista. E é claro que livro e filme também possuem um caráter claramente antifascista. 

Afinal, foram Hitler e Mussolini que iniciaram a Segunda Guerra Mundial, que tanta destruição e sofrimento provocaram para milhões de pessoas, no mundo inteiro, incluindo a Itália, é claro. 

Rosetta somente mudará de postura mais adiante, depois que a mãe lhe disse que Michele havia sido assassinado pelos alemães. 

As duas mulheres choram, sozinhas. 

Fim.
No fim, Mãe e Filha voltam a ficar juntas. 

Informações Adicionais:


Título: Ciociara (Duas Mulheres);
Diretor: Vittorio De Sica;
Roteiro: Cesare Zavattini; Baseado no livro de Alberto Moravia;
Ano de Produção: 1960; País de Produção: Itália;
Duração: 97 minutos; Gênero: Drama;
Música: Armando Trovajoli;
Fotografia: Gábor Pogány;
Elenco: Sophia Loren (Cesira); Ralf Vallone (Giovanni); Jean-Paul Belmondo (Michele); Eleonora Brown (Rosetta); Renato Salvatori (Florindo, o motorista).
Prêmios: Oscar de Melhor Atriz para Sophia Loren em 1962.
BAFTA de Melhor Atriz (em filme estrangeiro) para Sophia Loren em 1962. 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro de 1962. 
Melhor Atriz para Sophia Loren no Festival de Cannes em 1961. 

Vídeo - Trechos do Filme:

sábado, 1 de abril de 2017

‘In Nome Della Legge’ – Homenageando o ‘Western’, Pietro Germi denuncia as ações da Máfia siciliana em clássico do Neo-Realismo! - Marcos Doniseti!

‘In Nome Della Legge' – Homenageando o ‘Western’, Pietro Germi denuncia as ações da Máfia siciliana em clássico do Neo-Realismo! - Marcos Doniseti!
'In Nome Della Legge' (Em Nome da Lei), de Pietro Germi, é um filme que mistura influências do Neo-Realismo e do Western. Ele influenciou o chamado 'Western Spaghetti' e também o Cinema Político Italiano dos anos 1960/1970.
Pietro Germi foi um dos mais importantes cineastas do Neo-Realismo italiano, dirigindo vários clássicos que são identificados com esse importante e influente ‘movimento cinematográfico’, como foram os casos de ‘Il Camino della Speranza’ e deste ‘In Nome Della Legge’ (1949). 

O belo filme ‘Il Camino della Speranza’ é uma produção de 1950, que já foi comentada aqui no blog e que o próprio Germi considera como sendo o seu melhor filme.

Ele também dirigiu, posteriormente, algumas das melhores comédias italianas, tornando-se um dos principais diretores do gênero, ao lado de Ettore Scola e de Mario Monicelli (que é um dos roteiristas de ‘In Nome Della Legge’). 

A história do filme gira em torno das ações de um novo e jovem juiz (Guido Schiavi, com 26 anos) que é transferido para a cidade de Capodarso, na Sicília, onde a ‘Justiça’ e as ‘Leis’ são feitas pela Máfia e pelos poderosos locais e as determinações dos Tribunais são ignoradas.

O filme começa com a saída do juiz anterior (Pisani), todo feliz por se livrar daquele ambiente em que a sua autoridade era inexistente, e a chegada de Guido à cidade.

Guido é recebido com olhares de desconfiança por parte da população local e mal pisa na cidade ele já é avisado sobre o fato de que o juiz anterior respeitava as ‘tradições e costumes’ locais, ou seja, a Justiça e a Polícia não faziam nada, deixando que a Máfia tomasse conta de tudo, incluindo a punição contra eventuais criminosos. Até mesmo o seu assistente vive lhe dizendo isso. 
Mal chega à cidade de Capodarso, na Sicília, e o juiz Guido já enfrenta o seu primeiro crime. 'In Nome Della Legge' gerou um intenso debate sobre os limites do Neo-Realismo. 
Isso acontece ao mesmo tempo em que a Justiça também ignora os abusos e ilegalidades cometidos pelos Capitalistas locais, principalmente da parte de um poderoso Barão, que é aliado da Máfia. Este Barão também é o proprietário de uma mina, que mantém fechada, impedindo que a população local tenha trabalho. E quem se revolta contra essa situação acaba sendo perseguido e morto pela Máfia. 

Nestas circunstâncias, a miserável população de trabalhadores locais sente-se totalmente impotente, abandonada e amedrontada, não tendo a quem recorrer para lutar contra as violências de que é vítima, pois sabe que Justiça, Polícia e Governo nada farão por ela. 

Logo, as principais instituições públicas locais simplesmente não funcionam, caracterizando uma situação de total privatização e terceirização das atribuições do Estado. 

Obs1: Os neoliberais iriam adorar viver em uma sociedade com essas características.

Já no início do filme vemos um assalto, que mostra como as coisas funcionam por ali, e que ocorre em uma paisagem selvagem que lembra claramente a dos filmes de Western estadunidenses (e a música que toca nesta cena, e durante o filme, também faz essa referência): Dois ladrões comuns roubam duas mulas e matam o transportador, pois este havia sido reconhecido por um dos ladrões. 
O juiz Guido e Teresa (esposa do Barão Lo Vasto) sentem uma forte atração e se apaixonam, mas os conflitos que ocorrem na cidade irão dificultar o romance deles. 
O problema é que as mulas pertencem a um poderoso Barão local, que não liga a mínima para a morte do seu funcionário e se importa apenas em querer as mulas de volta. Ele quer fazer isso por meios legais, aguardando pela chegada do novo juiz (Guido), mas o chefão local da Máfia manda dois capangas para convencê-lo de que ele pode resolver o problema.

Assim, o Barão sequer precisa se preocupar em denunciar o roubo à Polícia, pois dois capangas do poderoso líder mafioso da cidade (Turi Passalacqua), de quem o Barão é amigo, irão se encarregar de ‘fazer Justiça’. 

Com isso, um dos ladrões (Aleo) acaba sendo morto por um dos capangas (Messana) e o outro (Vanni Vetriolo) foge da cidade antes que vire ‘presunto’ também. 

Porém, o novo e jovem juiz não quer saber de ver a Máfia controlando as ações na cidade e demonstra uma grande vontade de trabalhar já no seu primeiro dia, o que deixa o seu assistente e um advogado (que trabalha para o Barão) preocupados. 

Guido é advertido pelo seu assistente de que ali existem ‘tradições e costumes’ que precisam ser respeitados, ou seja, os crimes não precisam ser investigados e os criminosos são justiçados pela Máfia, que é quem mantém a ‘lei e a ordem’ no local. 
O poderoso Barão Lo Vasto é um dos que se recusa a obedecer a Justiça e por isso entrará em conflito com o juiz Guido. 
É claro que ele sabe do poder que a Máfia exerce no local (Guido é siciliano), mas isso não o intimida. E no fim das contas é a Polícia quem recupera as mulas para o Barão. 

Mas a primeira providência de Guido é justamente mandar reabrir os casos antigos que ficaram sem uma decisão final. Ele demonstra uma imensa vontade de ‘botar ordem na casa’ e de aplicar a Lei na cidade, o que irá lhe criar problemas e conflitos com os poderosos locais, é claro. 

Guido ficará conhecendo o poderoso Barão que, numa linguagem mais empolada, lhe diz a mesma coisa, ou seja, ali a Justiça e as Leis não existem e ele tem que se adaptar a esta situação, deixando que a Máfia e os Barões controlem tudo. 

Inclusive, durante o julgamento de um caso de briga entre dois trabalhadores, Guido toma conhecimento do fato de que o Barão mandou fechar uma mina local, deixando uma grande parte dos trabalhadores da cidade sem trabalho e passando fome. 

O Barão, porém, joga a responsabilidade para a sua esposa (Teresa), uma bela mulher que atrai a atenção de Guido, dizendo que ela é a proprietária da mina, embora ele seja o administrador da mesma. 
O líder mafioso Turi Passalacqua, que se considera um 'homem de honra', é quem controla tudo na cidade, decidindo quem vive e quem morre. Mas com a chegada do juiz Guido esse cenário começará a se modificar. 
E a mina continuou fechada, mesmo depois que o Tribunal determinou a reabertura da mesma, pois a decisão da Justiça não foi colocada em prática pelo juiz anterior, temeroso de ter que enfrentar os poderosos da cidade. 

Assim, o filme de Pietro Germi acaba se tornando uma corajosa, realista e vigorosa denúncia contra os imensos poderes e atividades criminosas da Máfia e dos Grandes Proprietários na Sicília. 

Mesmo com todas as advertências que recebe (do Barão, do seu assistente, de Teresa) o juiz Guido dá continuidade ao processo judicial da mina e decide fazer uma investigação sobre as condições em que a mesma se encontra, com o objetivo de reabrir a mesma. 

E os mineiros ficam eufóricos com o fato de que eles ganharam o processo e pressionam Guido para que ele determine a imediata reabertura da mina, independente da situação em que a mesma se encontre, o que legalmente não pode ser feito. 

Isso faz com que a popularidade de Guido aumente bastante e todos na cidade passam a trata-lo com respeito e deferência. 
Os trabalhadores ficaram sabendo que ganharam o processo para reabrir a mina e recuperar os seus empregos. Eles vão até a residência do juiz Guido para que possam começar a trabalhar imediatamente. Mostrar a realidade do povo italiano era um dos principais aspectos do Neo-Realismo.  
Desesperado com a derrota no processo, o Barão, que deseja manter a mina fechada, tenta subornar Guido, que rejeita tal tentativa. 

Além disso, temos também uma trama secundária, envolvendo Guido e Teresa (esposa do Barão), que acabam se apaixonando. Ela procura sempre advertir Guido dos perigos e riscos que o mesmo corre ao enfrentar o Barão e a Máfia. 

O envolvimento romântico dos dois acaba sendo descoberto pelo Barão, que também ameaça divulgar o caso para tentar desmoralizar Guido, mas este não recua da sua decisão de mandar reabrir a mina. 

Desta maneira, logo depois de recusar o suborno, Guido acaba levando um tiro de um capanga do Barão, mas sobrevive ao mesmo.

O ladrão foragido, Vanni Vetriolo, chegou a agradecer Guido por ter libertado os seus pais da prisão, mas logo depois ele acaba sendo assassinado por ordens do mafioso Passalacqua. Guido faz uma investigação para descobrir quem havia sido o responsável pela morte de Vetriolo e descobre que um dos capangas do líder mafioso era o assassino. 

Guido manda prender o capanga, fato este que leva Passalacqua e seus ajudantes a tomar a decisão de matar Guido, bem como o jovem Paolino, ajudante do juiz, pois este é que entregou o capanga para o mesmo. 
O assassinato de Paolino leva o juiz Guido a permanecer na cidade, para poder continuar a combater os crimes em Capodarso. 
Enquanto isso, outro dos capangas do mafioso Passalacqua, Ciccio Messana, se interessa pela jovem Bastianneda, embora seja a mãe dela quem deseja ter um relacionamento com ele. Porém, a jovem não quer saber do violento capanga e tem um romance com Paolino, ajudante do juiz Guido. 

Paolino e Bastianneda planejam se casar e para evitar que ela venha a ser esposa de Messana, os dois passam uma noite juntos, fato este que se torna público. Assim, a mãe teria que concordar com o casamento dos dois e desistiria de entregar a filha para Messana. Mas é claro que este não irá aceitar o fato e dará o troco. 

Os poderosos locais decidem enviar uma carta para Roma, a capital italiana, reclamando junto ao Governo da atuação de Guido, dizendo que este seria incapaz de exercer as suas atividades. 

Na verdade, o que eles não aceitam é que os seus abusos e ilegalidades sejam investigados e punidos. Um procurador de Palermo (principal cidade siciliana) é enviado para Capodarso a fim de avisar Guido de que ele será transferido para outra cidade. 
Teresa sonhava em ir embora, junto com Guido, mas isso não será possível. 
Mas um pouco antes de Guido ir embora da cidade, junto com Teresa, ele é avisado pelo comissário de Polícia de que Paolino havia sido assassinado por Messana. 

No fim, é o assassinato de Paolino por Messana (por razões sentimentais) que fará com que o juiz permaneça na cidade (Capodarso), desistindo de ir embora com Teresa, a bonita, solitária e infeliz esposa do Barão. Teresa não hesitaria em ir embora, até porque o insensível Barão não demonstra interesse algum pela esposa e nem pelo fato dela tocar piano. Ela é mais um troféu que ele gosta de exibir para os outros, mas a trata com total desprezo e indiferença. 

Guido convoca toda a população para uma reunião pública e denuncia a todos dizendo que ninguém o apoiara na sua luta para que as leis fossem respeitadas no local. Ele diz que todos os moradores da cidade, de certa maneira, ajudaram a matar Paolino, na medida em que ou eles procuraram atrapalhar ou então não o ajudaram em nada no sentido de fazer com que as Leis sejam respeitadas na cidade. 

E o líder mafioso da cidade (Passalacqua), que havia entrado em conflito com Guido em vários momentos, decide aceitar a Lei do Estado, submetendo-se à autoridade de Guido, ou seja, da Justiça. Com isso, o líder mafioso entrega Messana para Guido, a fim de que o mesmo seja julgado e condenado pelo assassinato de Paolino. 
Guido discursa para a população, dizendo que não recebeu apoio suficiente para fazer o seu trabalho. Nos filmes do Neo-Realismo, a multidão assume um papel bastante ativo, o que acontece em vários momentos deste clássico de Germi. 
Obs2: Talvez essa iniciativa de Passalacqua seja aquele caso de ‘entregar os anéis, para não perder os dedos’. Assim, o líder mafioso abre mão de alguns dos seus poderes, mas em compensação ele poderá continuar agindo em defesa dos seus interesses sem ser incomodado pela Justiça. 

Logo, é mostrado, no final do filme, que ocorre um acordo entre a Máfia e o Estado. 

De fato, no Pós-Guerra, depois que o governo italiano passou a ser controlado pelo PDC (Partido Democrata-Cristão), a partir de Julho de 1948, a Máfia passou a apoiar o governo do país, que também tinha o apoio da Igreja Católica, do governo dos EUA e da burguesia italiana (industriais, banqueiros, latifundiários). 

Foi essa ampla aliança política que manteve o controle político da Itália, até que a operação ‘Mãos Limpas’ expôs o lado sujo do sistema, promovendo a sua virtual 
destruição. 

Obs3: Até mesmo o governo dos EUA foi obrigado a negociar com a Máfia siciliana quando da invasão da ilha pelas tropas dos Aliados, em Julho de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Assim, Guido decide permanecer na cidade e Teresa chora, pois sabe que, agora, a sua chance de ir embora não existe mais e ela terá que continuar vivendo com o Barão. 

Fim.
No fim, o juiz Guido consegue fazer valer a autoridade do Estado, à qual até mesmo a Máfia se submete. Mas parece que os mafiosos italianos não gostaram do filme, pois dizem que um 'homem de honra' jamais faria isso.

Informações Adicionais
!


Título: In Nome Della Legge (Em Nome da Lei);
Diretor: Pietro Germi;
Roteiro: Pietro Germi; F.Fellini; Mario Monicelli; Tullio Pinelli; Giuseppe Mangione; Baseado no romance ‘Piccola Pretura’, de Giuseppe Guido Lo Schiavo;
Ano de Produção: 1949; 
País de Produção: Itália;
Duração: 97 minutos; 
Gênero: Drama;
Música: Carlo Rustichelli; 
Fotografia: Leonida Barboni;
Elenco: Massimo Girotti (Juiz Guido Schiavi); Charles Vanel (Turi Passalacqua); Jone Salinas (Baronesa Teresa); Camillo Mastrocinque (Barão Lo Vastro); Saro Urzi (Policial Grifo); Umberto Spadaro (Advogado Faraglia); Nadia Niver (Bastianedda); Ignazio Balsamo (Francesco Messana); Carmelo Olivero (Dom Peppino); Nanda De Santis (Lorenzina La Scaniota); Turi Pandolfini (Don Fifi). 
Parece uma cena de filme de 'Western'? Sem dúvida. O gênero foi homenageado por Pietro Germi em seu clássico 'In Nome Della Legge'. A paisagem siciliana está intimamente relacionada a história que é contada no filme. Essa ligação entre paisagem e a trama é outra característica importante dos filmes Neo-Realistas. 

Links:

Festival de Cinema homenageia Pietro Germi:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,festival-de-cinema-italiano-no-mis-homenageia-o-ator-pietro-germi,1595541

'In Nome Della Legge': Neo-Realismo? (por Fernando Mascarello):

https://core.ac.uk/download/pdf/25531165.pdf

O Neo-Realismo Italiano:

http://diariocinefiloclasico.blogspot.com.br/2015/04/neorrealismo-italiano-1943-1952-italian.html

Vídeo - Trecho do Filme: 

domingo, 26 de março de 2017

‘Riso Amaro’ (Arroz Amargo): Um clássico do neo-realismo que transformou Silvana Mangano em estrela e símbolo sexual!! – Marcos Doniseti!

‘Riso Amaro’ (Arroz Amargo): Um clássico do neo-realismo que transformou Silvana Mangano em estrela e símbolo sexual!! – Marcos Doniseti!
'Riso Amaro' (Giuseppe De Santis; 1949) é um clássico do Neo-Realismo bastante atípico, pois a história de exploração das trabalhadoras braçais do arrozal fica em segundo plano e o maior destaque do filme fica com a beleza e sensualidade da jovem Silvana Mangano.
O cineasta Giuseppe De Santis foi um dos pioneiros do cinema Neo-Realista, sendo um dos criadores desse ‘movimento cinematográfico’, junto com Vittorio De Sica, Roberto Rossellini e Luchino Visconti (de quem foi assistente no primeiro filme neo-realista, que foi 'Ossessione', de 1943). Apesar da sua importância, ele nunca desfrutou da fama e popularidade desta ‘Santíssima Trindade' do Neo-Realismo. 

Giuseppe De Santis foi um colaborador da revista 'Cinema', publicação quinzenal que era dirigida por Vittorio Mussolini, o filho do Duce, junto com outros jovens talentosos que, posteriormente, também ganharam destaque no cinema italiano, tais como Carlo Lizzani, Gianni Puccini e Antonio Pietrangeli. 

De Santis também estudou, em 1940/1941, no 'Centro Experimental de Cinematografia', escola de Cinema que foi fundada em 1935. Michelangelo Antonioni, Alessandro Blasetti, Dino de Laurentis, Pietro Germi, Alida Valli e Clara Calamai, todos importantes nomes do cinema italiano nas décadas seguintes também estudaram ali. Ele também foi mais um dos inúmeros cineastas italianos que se ligou ao PCI (Partido Comunista Italiano). 
O cineasta Giuseppe De Santis foi um dos pioneiros, bem como um dos principais nomes do Neo-Realismo italiano. 
No entanto, é importante ressaltar que ‘Arroz Amargo’ não é exatamente um típico filme neo-realista, pois ele foi produzido em um ano (1949) no qual o Neo-Realismo já tinha perdido o seu público e quando os filmes do movimento já eram censurados pelo governo conservador e direitista do PDC (Partido Democrata-Cristão), embora alguns dos principais elementos do estilo estejam presentes no mesmo, tais como: 

A) A denúncia da exploração dos trabalhadores (as mulheres do arrozal); 
B) O uso de atores e atrizes não profissionais; 
C) Filmagens que foram realizadas em locações naturais. 

A história do filme deveria girar em torno das relações de trabalho envolvendo as centenas de mulheres que, anualmente, fazem a colheita do arroz em uma região do Norte da Itália durante um período de quarenta dias. Mas apenas uma parte do filme trata deste assunto. 

Estas mulheres saem de inúmeras regiões do país para ir até o local para trabalhar na colheita. O fato é um verdadeiro acontecimento midiático, chamando a atenção de uma emissora de rádio de Turim. 
Walter convence Francesca a roubar um colar de um hotel do qual ela era a camareira e tem um romance com a jovem. Mas ela muda de postura e se afasta desse ladrão manipulador que usa de lábia para iludir e enganar as mulheres, prometendo-lhes uma vida de luxo e riqueza. 
Aliás, foi ao ver inúmeras mulheres (chamadas de 'Mondines') na estação ferroviária de Turim se preparando para ir trabalhar na colheita do arroz que levou o cineasta Giuseppe De Santis a produzir 'Riso Amaro'. 

O esquema de trabalho no arrozal é baseado numa disciplina e hierarquia rígidas, com alguns capatazes organizando e comandando tudo. Para trabalhar no local, é necessário possuir a autorização do sindicato, mas um grupo de 40 trabalhadoras clandestinas também quer participar da colheita do arroz. Elas são ‘agenciadas’ por dois ‘picaretas’, que as introduzem no arrozal e que ficam com uma parte do que elas produzem. 

Os agentes das trabalhadoras clandestinas convencem os capatazes a aceitar a presença delas com base na promessa de que elas irão produzir mais do que as outras trabalhadoras (legalizadas) e que eles, capatazes, irão lucrar com isso. 

O trabalho delas é prejudicado, no entanto, pelas chuvas intensas que caem na região durante vários dias seguidos. Como a remuneração das trabalhadoras (que são pagas com arroz) está ligada à quantidade de arroz que elas colhem, quanto menos dias elas trabalharem, menor será a remuneração. 
Silvana Mangano exibindo as suas belas coxas. O uso da beleza física das atrizes não era algo comum nos filmes neo-realistas. 
Com isso, elas decidem voltar a trabalhar mesmo debaixo de chuva, mas uma das trabalhadoras (Gabriella) acaba não suportando a situação e termina indo embora.

Porém, o foco principal do filme não são as relações de trabalho entre as mulheres e os seus empregadores, como seria de se esperar de um filme neo-realista típico. 

O filme acaba girando em torno de acontecimentos que envolvem uma das trabalhadoras que vai para o arrozal, que é Silvana, que é interpretada pela jovem, bela e sensual Silvana Mangano. 

A beleza física e a sensualidade explícitas de Silvana Mangano são o atrativo principal do filme, o que é algo incomum quando se trata do cinema neo-realista, que sempre se caracterizou por mostrar a realidade de pobreza, miséria, desigualdades, injustiças, privilégios e atraso que caracterizavam a Itália da época. 

A valorização da beleza física das personagens femininas é uma característica que não está presente nos filmes neo-realistas típicos. 

Logo, ‘Arroz Amargo’ é uma grande e solitária exceção, pelo menos no momento em que foi produzido (1949). 
Silvana em meio às trabalhadoras do arrozal. Em 'Riso Amaro', Silvana Mangano se destacou pela sua beleza e sensualidade mas, posteriormente, ela conquistou vários prêmios por suas ótimas atuações e terminou a sua carreira como uma atriz reconhecida por seu grande talento. 
Essa mudança no foco desta produção neo-realista pode estar relacionada a vários fatores, tais como: 

A) Alguém da equipe de produção do filme se apaixonou por Silvia Mangano, que estava no auge da beleza e da sensualidade em seus 19 anos. Isso, de fato, acabou acontecendo. O produtor do filme foi Dino de Laurentis, que acabou se casando com Silvana Mangano, com quem teve quatro filhos. Eles viveram juntos até 1989, quando ela faleceu.  

B) Os produtores do filme decidiram explorar a beleza de Silvana Mangano para poder faturar e lucrar mais e transformá-la em um símbolo sexual, fazendo isso em um momento no qual os filmes neo-realistas já não atraíam o interesse do público italiano; 

C) A censura que o governo Democrata-Cristão passou a promover, cortando cenas e dificultando a exibição dos filmes neo-realistas, em função do fato de que os mesmos mostravam uma realidade de pobreza e atraso, que marcavam a Itália da época, que o governo direitista e conservador, que se instalou no país em 1948, não queria que fosse mostrada nos filmes nacionais. Tal censura era feita por pessoas ligadas à Igreja Católica, que acusava os filmes neo-realistas de serem 'amorais' e de defenderem ideais comunistas.  
Francesca tinha uma vida marcada pelo envolvimento com o ladrão Walter, mas acabará perdendo o interesse por ele, passando a se interessar pelo honesto sargento Marco. Enquanto isso, Silvana se afastará de Marco e irá se envolver com Walter. 
Assim, De Santis percebeu que não poderia explorar o tema das relações de trabalho com a importância e da maneira que gostaria. Desta forma, ele teria escolhido uma saída, também polêmica, que foi a de explorar a beleza e a sensualidade de Silvana Mangano. 

Durante o filme, a bela Silvana aparece em inúmeros momentos com diferentes partes do seu corpo à mostra: coxas, costas, ombros e braços. 

E isso é feito em diferentes cenas nas quais Silvana aparece: deitada na cama, no arrozal, em uma escada. O belo rosto e os lábios sexy e carnudos de Silvana também ficam em evidência em vários momentos. É bom ressaltar que isso não era comum no cinema produzido nesta época, muito menos nas produções neo-realistas, como já ressaltei. 

É como se De Santis tivesse decidido se vingar dos censores ligados à Igreja Católica, pensando ‘Ah, esses reacionários da Igreja Católica me pagam. Já que eu não posso mostrar a exploração das trabalhadoras do jeito que eu quero, então irei exibir o belo corpo e a sensualidade da Silvana Mangano’. 
Esta é mais uma cena que destaca a beleza e sensualidade de Silvana Mangano. Mas em sua carreira ela trabalhou com cineastas consagrados (Fellini, De Sica, Visconti, Pasolini), passando a interpretar personagens cada vez mais complexos e que exigiam muito talento por parte da bela Silvana. Com isso, ela conquistou vários prêmios por suas atuações. 
Independente dos motivos que o levaram a agir desta maneira, De Santis claramente dá uma grande ênfase à beleza de Silvana Mangano, embora conecte a vida desta com a situação de exploração e miséria em que ela e as trabalhadoras do arrozal vivem. 

Além disso, o fato de Silvana desistir de continuar trabalhando no arrozal e se ligar ao ladrão do colar (Walter), na expectativa de desfrutar de uma vida melhor, é um elemento que também estava presente nos filmes policiais Noir, que começaram a ser produzidos na década de 1940, nos EUA. 

E não se pode esquecer que Giuseppe De Santis foi assistente de direção em 'Ossessione', de 1943, que é considerado por muitos estudiosos como o primeiro filme neo-realista e que foi adaptado do romance policial Noir 'O Destino Bate à Sua Porta', de James M. Cain, que havia sido publicado em 1934. Essa influência dos filmes ‘Noir’ também está presente em ‘Arroz Amargo’, principalmente na sequência final. 

E contar uma história com tais características, de uma jovem miserável que apela para o crime a fim de melhorar de vida, era uma maneira de mostrar que a ascensão social e econômica era inviável por meio do trabalho honesto, ou seja, acabava sendo uma forte crítica à sociedade italiana. 
O produtor de 'Riso Amaro' foi Dino de Laurentis, que gostava de cenas grandiosas e contratou centenas de extras. O filme concorreu ao Grande Prêmio do Festival de Cannes de 1949, bem como ao Oscar de Melhor Roteiro, em 1951. 
Mas a tentativa de Silvana acabará fracassando, até porque a proposta neo-realista poderia até explicar os motivos das pessoas apelarem para atividades criminosas para poder melhorar de vida, mas não defendiam tal opção. Os cineastas neo-realistas valorizavam o trabalho, tal como também acontecia com o PCI, ao qual muitos deles eram ligados. 

Com essa crescente repressão que os filmes neo-realistas passaram a sofrer, vários cineastas ligados ao ‘movimento’ se afastaram do mesmo, enquanto que outros passaram a produzir filmes mais leves, em tom de humor, dando origem ao que se chamou de ‘Neo-Realismo Rosa’. 

Tais filmes mostravam a situação de exploração dos trabalhadores, desemprego elevado, desigualdades sociais, pobreza e abandono das periferias, mas eles faziam isso em um tom mais leve e mais bem humorado do que as primeiras produções do Neo-Realismo. Este foi o caso de ‘Le Ragazze di Piazza di Spagna’ (dirigido por Luciano Emmer, de 1952), que já foi comentado aqui no blog.

Em ‘Arroz Amargo’, Silvana acaba se envolvendo com um casal (Walter e Francesca) que está ligado ao roubo de um colar de grande valor. Eles estão sendo procurados pela Polícia em função disso. Francesca tenta conseguir trabalho no arrozal, mas ela e outras 40 mulheres são clandestinas, ou seja, querem trabalhar sem ter a autorização do sindicato para isso. 
Silvana Mangano, em uma das mais belas cenas de 'Riso Amaro'. 
Este fato acaba desencadeando um conflito entre Silvana e Francesca, pois a primeira denunciou a presença das trabalhadoras clandestinas no arrozal. Porém, lideradas por Francesca, estas decidiram trabalhar na colheita do arroz mesmo sem ter a devida autorização, procurando mostrar que seriam mais produtivas do que as trabalhadoras autorizadas. Mas isso faz com que elas se desgastem e cansem mais rapidamente do que as outras trabalhadoras. 

No entanto, o conflito entre Silvana e Francesca acabou por aproximar as duas, que vão se tornar amigas. Francesca acaba por contar a história da sua vida para Silvana, dizendo que havia engravidado de um homem (Walter) que se aproveitava dela e que a obrigou a abortar o bebê. Ela também diz que roubou um valioso colar de um hotel no qual havia trabalhado como empregada por ter sido convencida pelo mesmo homem.  

Silvana também conhece um militar (o sargento Marco) que se apaixona por ela, que chega a demonstrar ciúme quando a vê dançando com Walter. Porém, ela irá acabar Marco, pois vê no desonesto Walter e seu colar de milhões a grande chance de sair da vida de miséria que leva até aquele momento. Enquanto isso, Francesca é que sente-se atraída por Marco. 

Silvana usa do seu charme, beleza e capacidade de sedução para atrair o ladrão Walter, embora não perceba que este pretende usá-la para levar adiante um ambicioso plano de roubo de arroz, ou seja, quer fazer com ela o mesmo que já havia feito com Francesca. 
O sargento do Exército (Marco, interpretado por Ralf Vallone) é o protótipo do homem correto, fiel e honesto, com quem Silvana irá se envolver romanticamente. Mas ela o abandona para poder ficar junto com o manipulador, criminoso e mentiroso Walter. 
Logo, Walter não possui nenhuma intenção de ter um relacionamento sério com Silvana, mas esta aceitou ficar noiva dele depois que o mesmo lhe deu o colar, acreditando que, desta maneira, poderia sair da miséria na qual vive. 

Nestas circunstâncias, o sargento Marco e Francesca acabam se aproximando. Afinal, Francesca quer ter uma vida correta ao lado de um homem simples, mas honesto, o que é o caso de Marco. 

Com isso, Silvana termina por se envolver em um plano de Walter, que pretende roubar a produção de arroz que está guardada no local. Eles decidem levar o plano do roubo adiante durante a realização de uma festa que será feita em homenagem às mulheres trabalhadoras do arrozal e que acontecerá com a presença do prefeito local. 

Assim, enquanto Silvana abre as comportas e desvia a atenção de todos que estão na festa, Walter e mais três picaretas (os agentes das trabalhadoras clandestinas) roubam o arroz, colocando o mesmo em dois caminhões. Mas a abertura das comportas fez com que os caminhões ficassem entalados, impossibilitando a fuga dos ladrões, que acabam sendo presos ali mesmo. 
As belas coxas de Silvana Mangano, que tinha apenas 19 anos quando participou de 'Riso Amaro', são um dos principais destaques do filme, que a transformou em um símbolo sexual, chegando a ser convidada para trabalhar em Hollywood. 
Além disso, Marco e Francesco descobrem sobre o plano do roubo e decidem tentar impedir que o mesmo seja levado adiante, pois se o mesmo for bem sucedido as trabalhadoras irão embora sem receber coisa alguma pelo trabalho que realizaram (elas terão direito a 40 kg de arroz cada uma, ou seja, 1 kg de arroz por cada dia trabalhado). 

Os dois casais acabam se enfrentando, com troca de tiros, e é neste momento que Silvana fica sabendo, por meio de Francesca, que o colar é falso e que o mesmo não vale coisa alguma. Sentindo-se traída, Silvana atira e mata Walter, por quem foi enganada. 

Em estado de choque e com o rosto cheio de lágrimas, ela decide colocar um fim a tudo, cometendo suicídio (outro tema que não era muito comum nos filmes neo-realistas). Essa atitude de Silvana não foi resultado, apenas, de ter sido enganada por Walter, mas também foi provocada pelo fato de que ela não acredita que poderá melhorar de vida por meio do seu trabalho. 

E as trabalhadoras a homenageiam, jogando um pouco de arroz sobre o corpo dela (coberto e sem vida). 

Não fica claro se as trabalhadoras ficaram sabendo do envolvimento de Silvana com o plano de roubar o arroz que elas haviam colhido, mas com certeza elas têm consciência de que Silvana foi mais uma vítima da exploração que sofria e da miséria na qual viveu desde que veio ao mundo. Isso ajuda a entender a identificação que elas sentem em relação à Silvana. 

Neste aspecto, o encerramento do filme está inteiramente de acordo com os cânones do Neo-Realismo. 
Vittorio Gassman interpreta Walter, um ladrão que faz falsas promessas para as mulheres que procura atrair, a fim de usá-las em suas atividades criminosas. 
Informações Adicionais: 

‘Riso Amaro’ (Arroz Amargo);
Diretor: Giuseppe De Santis;
Roteiro: Giuseppe De Santis; Carlo Lizzani; Carlo Musso; Corrado Alvaro; Gianni Puccini; Ivo Perilli; 
Ano de Produção: 1949; País de Produção: Itália;
Gênero: Drama; Duração: 104 minutos;
Música: Goffredo Petrassi;
Fotografia: Otello Martelli; 
Elenco: Silvana Mangano (Silvana); Vittorio Gasmann (Walter Granata); Ralf Valone (Marco, o militar); Doris Dowling (Francesca); Anna Maestri (Irene); Maria Grazia Francia (Gabriella); Nico Pepe (Beppe); Checco Rissone (Aristide); Adriana Sivieri (Celeste); Lia Corelli (Amelia); Dedi Ristori (Anna); Maria Capuzzo (Giulia).

Link:

Dino de Laurentis deixou marca forte na história do Cinema:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,dino-de-laurentiis-deixou-uma-marca-forte-na-historia-do-cinema,638453
O corpo de Silvana, após o seu suicídio, que foi resultado do seu desespero, e que foi provocado pelo fato de que ela não tinha mais esperanças de sair da miséria em que sempre viveu. 
Vídeo - Trecho do Filme: