domingo, 8 de outubro de 2017

'O Jovem Karl Marx': Filme imperdível para quem deseja conhecer as origens do movimento operário de inspiração marxista! - Marcos Doniseti!

'O Jovem Karl Marx': Filme imperdível para quem deseja conhecer as origens do movimento operário de inspiração marxista! - Marcos Doniseti!
O excelente filme 'O Jovem Karl Marx' mostra as origens do movimento operário de inspiração marxista, nos cincos anos anteriores à elaboração do 'Manifesto Comunista' (1843-1848). 

Assisti ao filme 'O Jovem Karl Marx' e gostei muito, pois é uma produção realista e caprichada, que mostra o contexto político, social e histórico no qual Marx e Engels começaram a agir politicamente no sentido de conscientizar, organizar e mobilizar os trabalhadores na luta contra a exploração capitalista. 


Na época que é mostrada no filme (1842-1848) a Europa vivia uma fase de industrialização acelerada, mas que combinava isso com um grande aumento da concentração de renda, das desigualdades sociais, da pobreza e da miséria, sendo que os trabalhadores eram brutalmente explorados pelos capitalistas. 

E os governos europeus (dos quais uma grande parte eram Absolutistas) ainda tratavam as questões sociais com o uso da violência. Nem mesmo os movimentos liberais-burgueses eram poupados dessa repressão. Em 1848 tivemos, inclusive, o estouro de uma Revolução que atingiu grande parte do continente europeu (França, Itália, Alemanha, Polônia). Foi a chamada 'Primavera dos Povos'. 

O filme mostra o período imediatamente anterior à elaboração do 'Manifesto Comunista' (que foi publicado em Fevereiro de 1848, na mesma época em que ocorreu a chamada 'Primavera dos Povos'), por Karl Marx e Friedrich Engels, bem como a criação da primeira 'Liga Comunista'. 
Engels, Marx e as filhas deste último.
A 'Liga Comunista' surgiu a partir da antiga 'Liga dos Justos', que era fortemente influenciada pelas concepções jacobinas de luta política e revolucionária, estando muito ligadas às concepções da época da Revolução Francesa.

O filme também mostra como Marx e Engels se conheceram (na época em que Marx colaborou com o jornal 'A Gazeta Renana'), ficaram amigos e passaram a atuar politicamente. Na época em que colaborava com o jornal 'A Gazeta Renana' (jornal de tendência liberal-burguesa) Marx acabou sendo preso e perseguido pelo governo alemão, pois as suas críticas incomodavam o reacionário e absolutista governo do país. 


Assim, ele é obrigado a ir embora da Alemanha, indo morar em Paris, onde dará continuidade às suas atividades políticas e intelectuais revolucionárias. Aliás, isso é algo que deve ser ressaltado: Para Karl Marx a atuação política e a sua produção intelectual eram inseparáveis. Ele colocou o seu gênio criativo, sua vasta erudição e seu talento incomparável à serviço dos trabalhadores. Posteriormente, Marx foi obrigado, também, a ir embora da França, devido às pressões do governo prussiano sobre o governo francês. 
Manchester, em plena época da Revolução Industrial, com suas indústrias poluentes, nas quais os trabalhadores eram brutalmente explorados. 
Depois, quando já faziam parte da 'Liga dos Justos', Marx e Engels conseguiram convencer os trabalhadores que faziam parte da organização de que aquela história de que seria possível construir um mundo justo, no qual 'todos seriam irmãos', e sem exploração apelando apenas para a razão e para os bons sentimentos da burguesia era uma asneira monumental.

Marx e Engels falam para os trabalhadores da 'Liga dos Justos' (que possui algumas centenas de membros espalhados por vários países da Europa: França, Suíça, Inglaterra, Alemanha) que não havia fraternidade alguma entre a burguesia e o proletariado. 


Igualdade, então, nem pensar.

Marx e Engels dizem para os trabalhadores da organização que apenas com o desenvolvimento de uma luta política revolucionária promovida pelos trabalhadores, que destruísse o Capitalismo, é que seria possível eliminar a exploração do homem pelo homem e construir uma sociedade humanizada, justa e igualitária.

As operárias que trabalhavam nas indústrias do pai de Engels e que viviam em uma miséria brutal. 
O filme também mostra que, no início, existia uma certa desconfiança entre Marx e Engels (dois jovens intelectuais brilhantes), principalmente por parte de Marx, que via Engels como um jovem fútil e boa vida (um 'Dândi', como se dizia na época). 

Porém, o filme é justo com a importância de Engels em suas contribuições para o pensamento marxista, mostrando que foi o filho do rico industrial alemão que disse para Marx que ele deveria estudar as obras dos economistas ingleses (David Ricardo, Adam Smith e Jeremy Bentham). 

Afinal, Engels era filho de um rico e insensível industrial alemão que era sócio de várias indústrias na Inglaterra e que explorava os trabalhadores de suas indústrias de forma cruel. Engels se rebelou contra isso e acabou vivendo com uma das operárias exploradas por seu pai (Mary Burns). Além disso, ele escreveu um trabalho brilhante a respeito da situação dos operários ingleses ('A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra') que foi elogiado por Marx, que o considerou como sendo um trabalho colossal. 
Marx e Jenny assistem a um discurso proferido por Proudhon. 

Aliás, é ressaltado no filme a importância das mulheres dos dois revolucionários alemães. As esposas de Marx (Jenny) e de Engels (Mary Burns) tem, sim, uma atuação política e intelectual. Elas ajudam e estimulam seus maridos, participam das reuniões da 'Liga dos Justos'. Jenny chega a dizer para Engels que ela é uma revolucionária que deseja destruir o velho mundo, fazendo com que Engels dissesse que ela era uma mulher extraordinária. 

Inclusive, em um diálogo travado entre a aristocrática germânica Jenny e a operária irlandesa Mary Burns fica bastante evidente as inúmeras diferenças de valores e comportamento das duas, que são originárias de dois mundos totalmente diferentes. Jenny fica perplexa quando Mary lhe diz que não quer ter filhos, mas que o marido (Engels) poderá engravidar a sua irmã. E quando percebe a perplexidade de Jenny, a mulher de Engels ainda pergunta se ela disse algo errado... 

Em outro momento, quando Marx hesita em deixar Jenny e a empregada sozinhas com os filhos, em Paris, e viajar para a Inglaterra, Jenny é que o convence a ir até lá se encontrar com os líderes da 'Liga dos Justos'. 
Proudhon, Bakunin, Jenny e Marx.

Enquanto isso, foi Mary Burns quem levou Engels para conhecer a vida dos miseráveis operários ingleses, o que permitiu que Engels escrevesse 'A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra'. 


No filme vemos, também, as polêmicas que Marx travou com o anarquista francês Proudhon (cujas ideias eram consideradas como sendo muito abstratas por Marx e Engels), com o russo Bakunin (que admitia que Proudhon defendia algumas ideias equivocadas) e com o importante líder socialista utópico cristão Wilhelm Weitling, que se inspirava na Bíblia e numa visão muito pessoal de Jesus Cristo para defender a construção de uma sociedade justa, harmoniosa e igualitária.

Weitling era muito popular entre os trabalhadores que integravam a 'Liga dos Justos', mas isso não intimidou Marx, que o confrontou, mostrando que suas concepções de um Socialismo inspirado no Cristianismo eram utópicas e ilusórias. Apesar disso, a importância de Weitling não deve deixar de ser reconhecida, sendo que ele foi considerado por Engels como sendo o fundador do Comunismo na Alemanha.
Jenny, esposa de Marx, era uma revolucionária que desejava destruir o velho mundo, de exploração e miséria, e construir um novo, de justiça e igualdade. 

Marx e as dificuldades econômicas que enfrentava para manter a sua família também são mostradas no filme. Nos momentos de aperto financeiro, Engels o socorria, embora Marx sempre tentasse trabalhar de maneira a não depender do amigo para pagar as contas, mas nem sempre ele conseguia. 


Um dos melhores momentos do filme ocorre quando Engels apresenta, para Marx, um grande industrial amigo do seu pai, e Marx o questiona a respeito da exploração das crianças em suas fábricas. O capitalista afirma que os seus produtos ficarão mais caros do que os dos concorrentes se ele não explorar as crianças. Assim, é a exploração da força de trabalho que está na base da acumulação capitalista. 

O filme também mostra que Marx e Engels confrontaram a sociedade burguesa da época não apenas no aspecto político e ideológico, mas também em suas vidas pessoais. 

Afinal, Marx se casou com uma jovem aristocrata (Jenny), enquanto que Engels acabou se casando com uma miserável operária irlandesa (Mary Burns). E ambas contribuíram no trabalho dos dois quando eles estavam escrevendo o 'Manifesto Comunista'. 
Weitling foi um dos principais líderes da 'Liga dos Justos', mas foi derrotado por Marx e Engels nos debates travados na mesma. 

Sempre que Marx participava de debates e discussões com outros líderes da 'Liga dos Justos' ele não hesitava em apontar as falhas no pensamento dos mesmos, o que os irritava profundamente (caso de Weitling). 


Marx era um polemista brilhante e implacável e Engels era um excelente orador, o que é destacado no filme. Desta maneira, a ruptura de Marx e Engels com vários destes antigos líderes da 'Liga dos Justos' tornou-se inevitável. E Weitling acabou saindo da 'Liga' e, mais adiante, foi morar nos EUA. 

Logo, após muitos debates e discussões, Marx e Engels conseguiram o apoio da maioria dos integrantes da 'Liga dos Justos' que, desta maneira, se transformou na 'Liga Comunista'. Com isso, o lema da organização foi modificado da afirmação liberal iluminista de que 'Todos os homens são irmãos' para o marxista 'Proletários de todo o Mundo, Uni-vos'. 
Uma fábrica de tecidos inglesa do século XIX, na qual as mulheres e as crianças eram brutalmente exploradas. 

E com a publicação do 'Manifesto Comunista' (que foi encomendado pela 'Liga dos Justos' para Marx e Engels)', em Fevereiro de 1848, temos o encerramento do filme. 


E a história da Humanidade nunca mais foi a mesma. 

Obs1: O filme já não está mais disponível no Youtube para ser visto e não foi lançado no Brasil para ser exibido nas salas de cinema. Quem sabe alguma distribuidora o lance em DVD em breve. Caso contrário os brasileiros ficarão sem poder ver esse ótimo filme, infelizmente. Ou então terão que apelar para os famosos torrents. 

Mas recomendo que procurem assistir ao filme, de um jeito ou de outro.

É imperdível.
Os líderes da 'Liga dos Justos' conversam com Marx e Engels. 

Frases e diálogos retirados do filme (essa seleção eu peguei na página do filme no site 'Filmow'. Não é de minha autoria):


- "No início de 1843 a Europa está dominada por monarquias absolutas e numa situação de escassez, crises institucionais e econômicas. Está à beira de mudanças profundas. Na Inglaterra a revolução industrial perturba a ordem mundial e cria a nova classe dos proletários. Em todos os lugares surgem organizações de trabalhadores fundadas na noção comunista de uma sociedade na qual todos os homens são irmãos. Dois jovens alemães vão abalar as concepções utópicas destas organizações, transformando sua luta ... e o futuro do mundo."

- "Até agora, os filósofos limitaram-se a interpretar. Interpretam o mundo. Porém, o mundo deve ser transformado.".

- "O verdadeiro preço de tudo o que um bem realmente vale àquele que quer adquiri-lo é o trabalho e a dificuldade de adquiri-lo".
Engels comemora a mudança de nome da 'Liga dos Justos' para 'Liga Comunista', com o novo lema 'Proletários de todo o Mundo, Uni-vos'. 

- "O verdadeiro valor de um bem para aquele que o adquiriu, e para aquele que o vendeu ou trocou por outra coisa, é o trabalho ou os problemas que poderá poupar a ele mesmo e que pode impor a outra pessoa."

- "O trabalho foi o primeiro preço. O dinheiro de compra original, que foi pago por todas as coisas.".

- "Sem revolta não há felicidade. Revolta contra a ordem existente, contra o mundo velho. É nisso que acredito.".

- "O que acha do Rafael, do Da Vinci e do Michelangelo?
- Rejeito todos. A arte do futuro vai ser coletiva e para o coletivo.".
Durante a conversa entre a aristocrática Jenny e a operária Mary Burns fica claro que elas possuem valores e formas de comportamento completamente diferentes. 

- "O ponto essencial é a mercadoria. O trabalho, o seu trabalho é uma mercadoria. Vocês vendem a sua força de trabalho para o patrão como se fosse uma mercadoria. Porém, vocês não são livres, são obrigados a vendê-la para conseguirem viver. E a vendem por um preço baixo! Sempre existirão patrões e operários! 

- Sempre existirão patrões e operários!
- Não, nem sempre! Dizer que "sempre haverá" é uma ideia burguesa. É o que o capital quer que pensemos, mas tudo muda. Tudo está sujeito a alterações. Nada é eterno. Todas as relações sociais escravidão, servidão, salariato são históricas e transitórias. Na verdade, as condições atuais têm de mudar. O burguês é sempre livre para usar o trabalho e o trabalhador é sempre obrigado a vendê-lo. O burguês adora falar de liberdade, mas a liberdade é apenas para eles, não é para vocês, como bem sabem. Vocês sentem isso na pele, todos os dias, dia após dia! Assim sendo, não é um jogo justo. Isto é óbvio. Está manipulado.".
Marx, Jenny e Engels debatem com um capitalista, que explora o trabalho infantil em suas fábricas. 

- "Creio que o importante é afirmar que o materialismo, tal como o concebemos, difere do materialismo burguês, já que ele visa uma sociedade humanizada.".


- "A crítica devora tudo o que existe. E quando não tem mais nada, ela devora a si mesma.".

- "Provavelmente, há aqui pessoas que choram, quando ouvem as palavras bondade, amabilidade e fraternidade. Mas as lágrimas não dão poder, o poder não derrama lágrimas. A burguesia não é amável com vocês e não vão conquistá-la com bondade.".
Engels tenta convencer Marx a elaborar um programa para a 'Liga Comunista'. A elaboração de programas, panfletos e manifestos era uma tradição europeia que já vinha de longa data. 

- "A burguesia e os trabalhadores são irmãos? 

- Não, não são. Eles são inimigos.".

- "O antagonismo entre o proletariado e a burguesia só pode conduzir a uma revolução total. E enquanto houver classes, a última palavra da ciência social será sempre, tal como George Sand disse, a luta ou a morte, o combate sangrento ou o nada."

- "A revolução industrial criou o escravo moderno, este escravo é o proletariado, que ao se libertar, liberta toda a humanidade, e essa liberdade tem um nome: Comunismo.".

- "Um espectro assombra a Europa, é o espectro do comunismo.Todos os poderes da velha Europa uniram-se numa santa aliança para exorcizar este espectro.".
Marx e Engels elaboram o 'Manifesto Comunista', processo que conta com a participação de Mary Burns e de Jenny. 

- "A história de todas as sociedades até nossa época tem sido a história das lutas de classes. A sociedade burguesa divide-se cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado. A burguesia fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e substituiu as diversas liberdades conquistadas com tanto esforço pela única e implacável liberdade do comércio e do lucro. Ela rasgou o véu de emoção sentimental que cobria as relações familiares, reduzindo-as a simples relações monetárias. Ela afogou os mais celestiais êxtases de fervor religioso, do sentimentalismo filisteu, nas águas geladas do cálculo egoísta.".


- "As crises comerciais, com a sua periodicidade, ameaçam cada vez mais a sociedade burguesa. Impelida pela constante necessidade de novos mercados, a burguesia invade todo o globo. E assim se desenvolve uma burguesia comercial generalizada e uma interdependência generalizada das nações.".

- "A burguesia moderna se assemelha a um feiticeiro que já não sabe como controlar os poderes infernais que invocou.".

- "As armas de que a burguesia usou para derrubar o feudalismo, voltam-se contra ela.".
No fim, o filme de Raoul Peck mostra cenas de alguns dos principais acontecimentos dos séculos XX e XXI, procurando relacionar o pensamento de Marx e Engels com a realidade atual. 

Informações Adicionais:


Título: 'Le Jeune Karl Marx' (O Jovem Karl Marx);
Diretor: Raoul Peck;
Roteiro: Raoul Peck e Pascal Bonitzer; 
Duração: 118 minutos; Gênero: Drama histórico; 
Fotografia: Kolja Brandt; Música: Alexei Aigui;
Elenco: August Diehl (Karl Marx); Stefan Konarske (Friedrich Engels); Hannah Steele (Mary Burns); Vicky Krieps (Jenny von Westphalen); Olivier Gourmet (Pierre Proudhon); Alexander Scheer (Wilhelm Weitling); Ivan Franek (Bakunin); Marie Meinzenbach (Lenchen); Niels-Bruno Schmidt (Karl Grun).

Links:

O Jovem Karl Marx: Um filme para se ver e discutir:

http://jornalggn.com.br/blog/ion-de-andrade/o-jovem-karl-marx-um-filme-para-ver-e-discutir-por-ion-de-andrade

Fevereiro de 1848: Marx e Engels publicam o Manifesto Comunista:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/2984/conteudo+opera.shtml

Pierre-Joseph Proudhon:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/19271/hoje+na+historia+1865+-+morre+pierre-joseph+proudhon+principal+teorico+do+anarquismo.shtml

Mary e Lizzy Burns:

https://gz.diarioliberdade.org/mundo/item/141759-mary-e-lizzy-burns.html

A 'Liga dos Proscritos' e a 'Liga dos Justos':

http://mundodosocialismo.blogspot.com.br/2012/01/liga-dos-proscritos-e-liga-dos-justos.html

'O Jovem Marx': Algumas observações sobre o filme:

https://www.correiodobrasil.com.br/jovem-marx-a

Os anos rebeldes de Marx na capital da modernidade:

https://ocafezinho.com/2016/12/30/rogerio-bitarelli-medeiros-o-jovem-marx-ganha-as-telas-do-cinema/

Trailer do Filme: 

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