domingo, 27 de março de 2016

'A Memória que me Contam' é um belo filme que relembra a luta heroica de uma geração contra a Ditadura Militar Terrorista, Assassina e Corrupta! - Marcos Doniseti!

'A Memória que me Contam' é um belo filme que relembra a luta heroica de uma geração contra a Ditadura Militar Terrorista, Assassina e Corrupta! - Marcos Doniseti! 
O belo, sensível e inteligente filme de Lúcia Murat relembra a luta de uma geração que ousou sonhar e lutar por um mundo mais justo e melhor para todos. 
Assisti hoje ao 'A Memória que me Contam'. Este é um belo, sensível e, também, polêmico filme de Lucia Murat, que conta uma bela e trágica história, levanta questões que incomodam as forças de Esquerda, principalmente aquelas que se envolveram, de alguma forma, na luta armada contra a Ditadura Militar. E o filme também tem um final emocionante. 

Nele, Lucia Murat faz uma homenagem a uma amiga que lutou contra a Ditadura Militar, Vera Sílvia Magalhães, falecida em 2007 e que participou da luta armada contra a Ditadura Militar como integrante do MR-8. Vera acabou sendo presa e brutalmente torturada, sendo que jamais se recuperou inteiramente do tratamento cruel a que foi submetida nos porões da Ditadura Militar Terrorista, Assassina e Corrupta. 

Aliás, Lúcia Murat também participou da mesma organização guerrilheira da qual Vera fazia parte e que havia sido criada por jovens integrantes do movimento estudantil e que nunca haviam tido qualquer tipo de treinamento ou de experiência militar anterior. 

Vera participou do rapto do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em Setembro de 1969, num momento em que vigorava no país o AI-5 e a censura sobre a imprensa era total, os movimentos sociais tinham sido inteiramente silenciados e a repressão e tortura estavam já virtualmente institucionalizados no Brasil pela Ditadura. 
Vera Sílvia Magalhães, a quem o filme é dedicado, é amparada por Cid Benjamin, devido às brutais sessões de tortura a que foi submetida pela Ditadura Militar.
O objetivo do rapto era quebrar o muro de silêncio que a Ditadura havia imposto ao povo brasileiro, que não ficava sabendo de nada sobre o que acontecia no Brasil, a não ser sob a perspectiva dos militares. 

Os guerrilheiros sabiam que a única chance de derrotar a Ditadura Militar era atraindo o povo para a sua luta, tal como os guerrilheiros cubanos e vietnamitas haviam conseguido. 

Aliás, não foi à toa que as duas Revoluções, cubana e vietnamita, foram vitoriosas, pois ambas contaram com intensa participação popular. E não é a toa, também, que ambos os governos revolucionários ainda permanecem no poder. 

Então, a ideia de raptar o embaixador dos EUA surgiu em função da necessidade de quebrar a censura e de se tentar explicar para a população qual a visão dos guerrilheiros sobre a realidade brasileira da época e, assim, conseguir a adesão popular para a sua luta, algo que acabou não acontecendo, o que, junto com a brutal repressão da Ditadura Militar (por meio da OBAN e do Doi-Codi, em especial), levou à derrota da guerrilha. 

Assim, enquanto o país embalava no ritmo do 'Milagre Brasileiro', que havia começado em 1968, a repressão e a tortura se institucionalizavam, com a criação da OBAN (em Junho de 1969) e, depois, do Doi-Codi.
Herbert Daniel, que é citado no filme, foi integrante de vários grupos guerrilheiros que lutaram contra a Ditadura Militar. 
No filme, Vera é Ana, personagem que é interpretada por Simone Spoladore. Esta aparece apenas quando jovem, mas Ana está no hospital, inconsciente, gravemente doente e em situação crítica. 

E é em função disso que seus antigos amigos de luta contra a Ditadura se reúnem, na sala de espera do hospital, numa situação que lembra a do filme 'As Invasões Bárbaras' (2003). 

Os velhos amigos, todos ex-guerrilheiros, aproveitam o momento para debater a ascensão de um governo progressista ao comando do Brasil e que conta com a participação de antigos guerrilheiros em cargos importantes (algo que aconteceu tanto no governo Lula, como no governo Dilma), cobrando do mesmo a divulgação dos documentos das Forças Armadas a respeito dos crimes cometidos pela Ditadura Militar contra as forças de oposição, tanto as que lutaram pacificamente, quando daquelas que pegaram em armas para tentar derrubar o regime ditatorial.

Aliás, isso (a luta armada contra regimes tirânicos de governo) é algo que é aceito pela Doutrina Liberal. John Locke já dizia, no século XVII, que a população tem o direito de usar a violência para derrubar regimes tirânicos. Isso também é aceito pela Doutrina da Igreja Católica e pela Carta da ONU.  
Já no século XVII o filósofo inglês John Locke defendia que o povo tem o direito de se rebelar, mesmo que usando de violência, contra governos tirânicos. E foi exatamente isso que os guerrilheiros brasileiros fizeram.
Em tais debates também ficam claras algumas das divergências que existem entre os ex-guerrilheiros e que remetem à época da luta contra a Ditadura. 

Exemplo disso é o debate que eles travam em torno da execução de alguns membros dos grupos guerrilheiros que foram acusados, julgados e condenados pelo fato de, supostamente, ter traído o movimento. 

No filme, essa é, a meu ver, uma clara referência a um livro de um ex-membro da ALN, Carlos Eugênio Paz, autor do livro 'Viagem à Luta Armada', no qual ele comenta a respeito deste delicado assunto. É bom esclarecer que isso acontecia porque, na época, muitos integrantes dos grupos guerrilheiros estavam sendo presos pela Ditadura Militar. Um dos personagens do filme, Cacalo, parece ter sido inspirando nele. 

A Ditadura havia conseguido infiltrar agentes secretos nos grupos guerrilheiros (um deles foi o chamado 'Cabo Anselmo', que se infiltrou na ALN) e as seguidas prisões (chamadas de 'quedas') de integrantes da guerrilha havia criado a suspeita entre os mesmos de que havia traidores atuando dentro das organizações. 

Outro tema que é debatido no filme é a questão de que os grupos guerrilheiros estavam lutando contra uma Ditadura para derrubá-la e, depois, instalar outra no lugar. Seria a chamada 'Ditadura do Proletariado'. 

A questão é que essa expressão era usada, por Marx e Engels, não no sentido de cercear as liberdades da população (expressão, manifestação, reunião, organização), impedindo-a de se expressar ou de participar de eleições.
Vladimir Palmeira discursa durante a Passeata dos Cem Mil, que ocorreu no Rio de Janeiro, em 26/06/1968. Cena da passeata é exibida no filme de Lúcia Murat.
'Ditadura do Proletariado', para Karl Marx, representa uma situação na qual uma classe social impõem o seu poder sobre outra. Para ele, por exemplo, a chamada 'Democracia Liberal' não existia. O que temos, nos países ditos democráticos liberais (EUA, Europa Ocidental), é uma Ditadura Burguesa e a tal democracia era uma falácia, pois nos países capitalistas existe uma clara situação de dominação e de exploração dos trabalhadores pela burguesia e as desigualdades sociais são imensas. 

Neste contexto, falar que existe democracia em países capitalistas é uma piada. 

Assim, o filme não se furta a debater temas delicados para os que atuaram nos grupos guerrilheiros que lutaram contra a Ditadura Militar. 

Aliás, isso é algo que diferencia os guerrilheiros dos defensores da Ditadura (como o fascista, racista, homofóbico e machista Jair Bolsonaro), já que estes fazem das tripas coração para tentar justificar os bárbaros e horripilantes crimes que cometeram na época. 

E é bom ressaltar que até mesmo as leis da Ditadura Militar proibiam a prática de tortura e assassinato de prisioneiros. 
Nelson Mandela também pegou em armas para lutar contra o regime racista do Apartheid na África do Sul. Será que ele também foi um terrorista, como os reacionários e fascistas dizem a respeito dos guerrilheiros brasileiros que lutaram contra a Ditadura Militar?
Outro tema debatido pelos ex-guerrilheiros do filme foi a prisão e o pedido de extradição de um ex-guerrilheiro italiano que vivia no Brasil já há vários anos. O personagem, Paolo di Lucca, interpretado por Franco Nero, é uma clara referência ao caso de Cesare Battisti. 

Também fica claro o conflito de gerações existentes entre os antigos guerrilheiros e os seus filhos, que não adotaram as ideologias e nem o modo de vida, dedicado inteiramente à luta política, de seus pais. Eles até admiram e respeitam as lutas dos país, mas não adotam as mesmas ideologias e atitudes, o que é até compreensível, visto que não existe mais uma Ditadura Militar contra a qual lutar. 

Interessante é a fala de Eduardo, quando diz para a mãe, Irene (uma cineasta que também lutou contra a Ditadura e cujos filmes são quase sempre sobre questões políticas, o que é uma clara referência à própria Lúcia Murat), que ela pensa que a geração dela mudou tudo, enquanto ele ainda é discriminado por ser homossexual em pleno século XXI.

No diálogo entre a mãe, Irene, e o filho, Eduardo, ela cita Daniel, um ex-guerrilheiro que era homossexual. No caso, a referência se dá em relação a Herbert Daniel, que foi integrante de várias organizações guerrilheiras, como a Colina, VAR-Palmares e VPR. Ele chegou a ser preso e torturado, mas sobreviveu, atuou no PT e no PV e, em 1992, morreu vítima da AIDS. 
Na sala de espera do hospital onde Ana está internada, ex-guerrilheiros debatem sobre as suas ações do passado e as divergências vem à tona. 
E a nova geração também demonstra ter ambições de mudar o mundo, mas faz isso a partir de uma perspectiva diferente e de uma outra forma de agir na sociedade, levando arte para crianças de comunidades carentes ou adotando uma postura mais ousada e liberal no plano individual, o que é o caso de Eduardo, por exemplo. Este diz que acredita em micro-revoluções e na explosão dos afetos. 

Aliás, a mudança de atitude por parte da antiga geração de revolucionários também fica claro quando um ex-presidiário (João Tavares) vai até o hospital visitar Ana e encontra a sobrinha desta. João conta que Ana fazia um trabalho sobre a questão da cidadania na prisão e que os presos apreciavam muito. Quando ela ficou doente e parou de ir até lá, metade dos presos que frequentavam o curso o abandonaram. 

Assim, o filme também aponta um novo caminho de atuação política e de transformação social para os antigos militantes, cujos sonhos revolucionários foram destruidos pela derrota que sofreram. 

No filme, também vemos a presença de Ana em momentos atuais, conversando com Irene. Em tais cenas, Irene se imagina conversando com a amiga, mas esta se encontra internada no hospital.  

Em um destes momentos, Ana fala que aqueles que foram torturados e que cometeram suicídio é que estavam certos. Um dos militantes desta época que sofreu torturas violentíssimas e que jamais conseguiu se recuperar das mesmas foi o Frei Tito, que acabou se exilando na França, onde se matou (ver livro e filme 'Batismo de Sangue').
Estas foram algumas das milhares de vítimas da Ditadura Militar. 
Em nenhum momento do filme vemos a imagem de Ana no hospital, doente. Ela somente aparece do jeito que era quando jovem: bela, inteligente, charmosa, articulada. Esta foi a imagem que os amigos, Irene principalmente, decidiram guardar da amiga combatente e revolucionária, com a qual eles compartilharam dos mesmos sonhos, lutas, ideais e utopias. 

Talvez essa tenha sido a maneira de, também, preservar, na memória, os belos sonhos e as lindas utopias pelas quais toda uma geração de jovens brasileiros lutou e cuja história merece ser lembrada, até para que o país jamais venha a sofrer, novamente, com a implantação de uma Ditadura, seja ela Militar ou Midiática-Judicial.

Em uma cena do filme vemos Ana, na praia, folheando um jornal, que tem a manchete 'Loira assalta banco no centro da cidade'. Esta é uma referência ao fato de que quando Vera integrou o MR-8, a mesma participava de ações armadas em bancos, supermercados, carros-forte, nos quais sempre usava uma peruca loira. 

Outra reportagem do mesmo jornal tem como título 'Médici elogia política de Nixon', referindo-se àquele que foi o período mais brutal da Ditadura Militar, que foi o governo do ditador assassino Emílio G. Médici (1969-1974), bem como à ligação existente entre a Ditadura Militar brasileira e o governo dos EUA, que planejou, financiou, organizou o Golpe de 64 e que, depois, reconheceu e apoiou ostensivamente a Ditadura que se instalou no Brasil. 
Otávio Augusto interpreta Ricardo, um ex-guerrilheiro que é conservador no aspecto comportamental e que não gosta que as questões polêmicas da época da guerrilha sejam debatidas publicamente. 
No governo de Castello Branco a ligação entre a Ditadura Militar e os EUA foi tão forte que o Brasil chegou a enviar soldados para a invasão da República Dominicana, comandada pelos EUA. E o Brasil também contou com uma grande ajuda financeira por parte do governo dos EUA, que renegociou a dívida externa brasileira de forma bastante rápida. 

E foi no período do governo Médici em que as Forças Armadas foram, literalmente, transformadas numa instituição destinada a promover prisões ilegais, sequestros, torturas, assassinatos e que ainda desaparecia com os corpos das vítimas. Logo, nesta época, elas se transformaram numa organização criminosa, algo que Golbery e Geisel perceberam, claramente, quando este último tornou-se o novo Ditador em Março de 1974. 

A tal abertura 'lenta, gradual e segura', de ambos, foi, de fato, uma tentativa de desmantelar o criminoso e violentíssimo aparato de repressão da Ditadura Militar, mas sem que os militares abrissem mão do poder de governar. A intenção de ambos era criar uma espécie de 'Ditadura Light', que iria tolerar críticas e até manifestações populares de oposição, mas eles, militares, continuariam governando o país. 

Assim, foi contra este regime tirânico e brutal, que instalou um Estado de natureza verdadeiramente criminoso, tirânico e terrorista no país, que a geração de Lúcia e Vera lutaram, de forma heróica e desigual, visto que jamais tiveram ao seu dispor os gigantescos recursos, materiais e humanos, que a Ditadura Militar possuía. 
Irene e Ana conversam e esta pergunta se, realmente, valeu a pena lutar contra a Ditadura Militar. Sim, claro  que valeu. Afinal, apesar da derrota que sofreram, os grupos guerrilheiros mantivem acesa a chama da luta, evitando que o Brasil vivesse numa 'paz dos cemitérios'. 
No final, a jovem Ana pergunta, para Irene, se valeu a pena lutar.

Bem, tomo a liberdade de responder:

Sim, Ana, sempre vale a pena, quando a alma não é pequena. 

E que o exemplo de uma luta heróica que foi levada adiante por uma geração que se levantou contra a Tirania jamais seja esquecida. 

Ditadura Nunca Mais!

Links:

Trailer oficial do filme 'A Memória que me Contam':

Foto inédita mostra efeitos da tortura em Vera Sílvia Magalhães:

http://www.vermelho.org.br/noticia/189236-1

Entrevista com Vera Sílvia Magalhães:


https://www.youtube.com/watch?v=q8fUe7vsj2s

Entrevista com Cid Benjamin:

https://www.youtube.com/watch?v=SHpyAZOJleM&ebc=ANyPxKoNAaprtgSNUp5aRSAXjPbjuCVcZT6u7UOIu-2Y75CUUgGN_8iFS_eMjZ8ww5_CCGJz7HvGKdHSd41fnqdmSgYQeosAew

Entrevista com Carlos Eugenio Paz:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/40260/o+dia+em+que+a+luta+armada+descobriu+que+cabo+anselmo+era+um+traidor.shtml

Dilma instala a Comissão da Verdade:

https://www.youtube.com/watch?v=VF9BTTs-oJA

O direito à rebelião em John Locke:

http://espectroinvertido.blogspot.com.br/2011/10/o-direito-rebeliao-em-john-locke.html

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