sábado, 2 de março de 2013

Jack Kerouac, Geração Beat, literatura e cinema!

Jack Kerouac, Geração Beat, literatura e cinema - por Claudio Willer, do Cronópios


Grande parte dos membros da Beat Generation está nessa foto antológica. 

Havia escrito este artigo para a revista Reserva Cultural, em março de 2011. Em breve, publicarei outro, confrontado o que vi agora com minhas avaliações e prognósticos feitos há 16 meses

       Pode-se dizer que, até hoje, a relação da Geração Beat com o cinema tem sido um infortúnio permanente – especialmente se comparada àquela com a música, com artes visuais, com a própria literatura, com a política e a vida. 

A exceção é William Burroughs. A adaptação de seu Naked Lunch (Almoço nu) por David Cronenberg (de 1991, aqui traduzida como Mistérios e paixões) é forte e consistente. Foram excelentes suas participações em Drugstore Cowboy de Gus van Sant e Home of the Brave de Laurie Anderson. E, além de outras colaborações em filmes, agora ganhou um documentário, A man within (de 2010, feito por Eric Burton).

       O filme mais genuinamente beat, no espírito e pela circunstância, é Pull my Daisy de 1958[1], criado por Robert Frank (fotógrafo, autor de The Americans, prefaciado por Kerouac) e Alfred Leslie. Alude a um irreverente poema coletivo de Ginsberg, Kerouac e Cassady com esse título. Roteiro e narração em off de Kerouac; atores, Allen Ginsberg, Peter Orlowsky e Gregory Corso, além de Delphine Seyrig (sim,a mesma do Marienbad de Resnais). Música de David Amram, um notável erudito-jazzista. Raridade (assisti em uma cópia japonesa com legendas em alemão), é esquisito, sombrio. Matriz do cinema underground, certamente influenciou Jim Jarmush. 

O enredo – a visita de um bispo à casa de Carolyn e Neal Cassady – é o mesmo da igualmente esquisita peça Geração Beat (L&PM) de Kerouac. Faz parte de sua obsessão em reinterpretar e desconstruir o termo “geração beat”.

       Já as tentativas de aproximação do próprio Kerouac com o cinema foram desastrosas (assim como tantas outras coisas em sua vida). Incluíram negociações fracassadas com Hollywood para adaptar On the Road (queria Marlon Brando, que nunca se interessou, em um dos papéis), o roubo de um conceito para a série de TV Route 66 (Kerouac processou) e a repugnante adaptação de Os subterrâneos (de 1960, direção de Ranald MacDougall, com George Peppard e Leslie Caron) – exemplo de emasculação hollywoodiana, adulteração covarde e gananciosa, com a sofisticada Leslie Caron no papel da negra e drogada Mardou Fox. Salva-se a trilha sonora com Jerry Mulligan.

       Um filme sobre o caso a três de Kerouac, Carolyn e Neal Cassady (revelado ao mundo pela biografia de Kerouac por Ann Charters), Heart Beat de 1980 (de John Byrum, com Nick Nolte e Sissy Spacek), apesar dos elogios e bom elenco, passou batido, desapareceu de vista (assim como seu realizador). 

O mesmo parece ter acontecido com Beat de 2001 (de Gary Walkow, com Kiefer Sutherland e Courtney Love), relatando um reencontro de Lucien Carr (um dos que empreenderam a busca da “nova visão” pelo grupo iniciador da beat em 1944, com Burroughs, Ginsberg e Kerouac) com Joan Vollmer Burroughs no México, antes de seu trágico fim em 1951.

       Sem dúvida, foram realizados bons documentários beat. Um dos mais completos, The Source de 2000 (por Chuck Workman, com boas participações especiais: Dennis Hopper, John Turturro, Johnny Depp etc, além de mostrar bastante sobre os protagonistas daquele movimento).

       Há um semi-documentário recente sobre o processo em 1956 contra Howl (Uivo) de Ginsberg, por obscenidade (de 2010, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, com James Franco). Houve quem gostasse. É registro fiel dos fatos. Mas James Franco não funciona como Ginsberg; e as cenas de delírio a propósito do poema são questionáveis: afinal, Ginsberg pretendia-se um realista e objetivista (insistiu nisso quando me correspondi com ele ao traduzi-lo), e todo o poema é uma sucessão de versões condensadas de acontecimentos reais. 

Na Mostra de Cinema de São Paulo, usaram nas legendas toda a minha tradução de Uivo – isso, sem falarem comigo ou com o editor (L&PM), e sem qualquer crédito: assim se respeitam direitos autorais em nosso país.

       Há meio século tenta-se adaptar On the Road (aqui publicado pela L&PM). 

Chances haviam ganho novo alento quando Francis Ford Coppola comprou os direitos. Mas Coppola adaptar Kerouac seria impossível: uma das suas características é enriquecer e ampliar o que adapta, como fez com The Heart of Darkness de Joseph Conrad (Coração das trevas, duas edições brasileiras, da Companhia das Letras e da L&PM), relato de umas 100 páginas que se tornou esse monstro de filme, Apocalipse Now – não sem falir um estúdio e todas as demais peripécias que marcaram sua realização. 

O grande Jack Kerouac...

Antes, o relato de Mario Puzzo, O chefão, também havia sido ampliado. Imaginem o que faria comOn the Road, narrativa enorme, multifacetada, polifônica, simbolicamente tão rica, com tantos personagens e todas essas aventuras e viagens erráticas, alternando humor, licenciosidade, misticismo, lirismo, repleto de episódios que, por sua vez, dariam enredos de cinema. Resultaria um filme de dez ou doze horas...

       É viável adaptar On the Road? Filmá-lo não será reduzi-lo? Há o risco de mais um fracasso na tentativa de transpor grandes obras? Isso ocorreu com Ulisses de Joyce e Em busca do tempo perdido de Proust. 

Aliás, ambas, Ulisses Em busca do tempo perdido, intertexto de On the Road: Kerouac fazia leituras em voz alta de Ulisses e Finnegan’s Wake para captar sua prosódia; ele e Neal Cassady levavam um exemplar amarrotado de Proust em suas viagens.

       Meu ideal de adaptação de On the Road demandaria um produtor louco e infinitamente milionário para contratar uma plêiade de cineastas talentosos, cada qual a criar sua versão com total liberdade. Um deles, o próprio Coppola, sem dúvida. E os outros realizadores que chegaram a ser cogitados para essa tarefa. 

Jarmusch nos daria uma versão bem dark, um preto e branco sombrio e sujo, com o acento em uma das acepções da palavra beat, como batido, derrotado. Sem dúvida, Strangers in Paradise é filme beat, especialmente na metade final, com aqueles dois sujeitos vagando em um automóvel. 

Já Gus van Sant faria um On the Road visualmente sedutor, valorizando o maravilhamento de Kerouac diante das paisagens grandiosas; e com atenção para as incursões no submundo, o uso de estimulantes e maconha, a licenciosidade e as estripulias sexuais de Cassady, inclusive sua relação a quatro com Ginsberg, Carolyn Cassady e MaryLou Henderson, entre outras façanhas (encontráveis na versão não-expurgada, On the Road- o manuscrito original, recentemente recuperada e aqui também publicada pela L&PM). 

       O cinema brasileiro poderia entrar nessa hipotética lista de realizadores de On the Road, não apenas com Walter Salles, mas com Hector Babenco, que já havia lido os autores beat na Argentina antes de vir para cá, e Carlos Reichembach (que alude à beat em vários de seus filmes). 

       O que esperar da adaptação por Walter Salles? Seriedade no tratamento do assunto: vem precedida por um documentário sobre a beat, também rodado por ele.

Um bom registro das extensões norte-americanas, das paisagens grandiosas que maravilhavam Kerouac; e também de sua simpatia por vilarejos e pequenas cidades. 

A capacidade de retratar os submundos e a condição de marginal mostrada em Terra Estrangeira. A criação de tipos, a boa caracterização de personagens. Lirismo na breve relação de Kerouac com a mexicana Bea Franco. 

       Mas conseguirá trazer para a tela tudo o que On the Road tem de paradoxal, o jogo de contrastes que sustenta essa narrativa? Entre outros, seu humor característico alternando-se com a tristeza, a melancolia, a sensação de ser um permanente exilado, sem lugar no mundo e nessa sociedade. 

A confusão de licenciosidade e desregramento com sua particular religiosidade, misto de budismo e catolicismo, caracterizando-o como anarquista religioso, um místico da transgressão. As epifanias, êxtases e revelações em situações extremas, como aquela ao passar fome em San Francisco (uma de minhas passagens prediletas).

 A identificação, calcada em Dostoievski, de santidade e crime, levando-o a designar Neal Cassady como “santo”. A empatia por toda a sorte de marginais e excêntricos, formando essa extensa galeria de tipos pelos quais passa em suas viagens: vagabundos, loucos, negros, índios. 

Poster do Filme de Walter Salles sobre a clássica obra de Jack Kerouac.

       A mística da marginalidade é proclamada com o vigor de um manifesto em On the Road: “Num entardecer lilás caminhei com todos os músculos doloridos entre as luzes da 27 com a Welton no bairro negro de Denver, desejando ser negro, sentindo que o melhor que o mundo branco tinha a me oferecer não era êxtase suficiente para mim, não era vida o suficiente, nem alegria, excitação, escuridão, não era música o suficiente.”

       Vagabundos errantes são metáforas de uma condição superior e do conhecimento revelado na obra de Kerouac. Trata-os como sábios que, através do trânsito por um lado mais obscuro da realidade, tiveram acesso a mistérios e abriram brechas na realidade ilusória, no véu de Maya, alcançando vislumbres de outro plano. 

Conversar e conviver com eles era anamnese, no sentido platônico do termo.

       Como serão retratados, nessa versão para a tela, “Mississipi Gene”, o vagabundo por opção? E o “fantasma de Susquehanna”, que já não sabe mais para onde vai? É um caso particular dos que, perdendo a orientação, não estão mais subordinados ao tempo; dos loucos, celebrados no início da narrativa:
[...] porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’.

       Principalmente, como serão transpostos o ritmo de Kerouac, sua prosa poética e prosódia? 

Como testemunhou em seus diários (Diários de Jack Kerouac, 1947-1954, L&PM): “On the Road é meu veículo com o qual, como um poeta lírico, como um profeta leigo, e como possuidor de uma responsabilidade com minha própria personalidade (o que quer que ela esteja louca para fazer), desejo evocar essa música triste indescritível da noite nos Estados Unidos – por razões que são mais profundas que a música. É o verdadeiro som interior de um país.” 

A paixão pelo jazz tem relação direta com a busca do “som interior” e da “voz triste das ruas”: aqueles jazzistas, os Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charlie Mingus, Miles Davis,além do pianista cego George Shearing e do múltiplo Slim Gaillard, ambos equiparados a Deus em On the Road, queriam que seus instrumentos falassem, em uma síntese da expressão verbal e musical. A prosódia de Kerouac é a recíproca dessa tentativa: queria que sua escrita fosse música. 

       Ao mesmo tempo, é a escrita de alguém que optou pela criação literária e foi integralmente fiel a essa escolha. Por isso, um leitor dos poetas como Rimbaud, Whitman e Blake; dos memorialistas como Thomas Wolfe e Proust; dos narradores de viagens, os Mellville e Conrad; dos autores que trouxeram a língua falada para a escrita, Louis-Férdinand Céline e Joyce; e, principalmente, de Dostoievski, partilhando suas obsessões religiosas e pelo submundo. Baudelaire fazia orações para Poe, conforme seus escritos íntimos; Kerouac acendia velas e rezava para Dostoievski, como se lê em seus diários. Seu intertexto aparecerá nessa adaptação?

       Justifica-se insistir na qualidade de On the Road, e da obra de Kerouac como um todo, pois, vez por outra, ainda saem críticas depreciativas, com os mesmos ataques conservadores repetido desde o final da década de 1950. 

Uma das boas cenas do filme de Walter Salles. 

Já observei, diante dessas recaídas, que nem Coppola, nem Bob Dylan são bobos: criadores notáveis em seus campos, estão entre os que declaram que ler On the Road mudou suas vidas. Dylan, como se sabe, saiu de casa após essa descoberta. 

Isso, como parte de um extenso cordão de escritores e artistas que receberam influência de Kerouac e da beat. E de um impacto que extrapolou os campos da criação artística propriamente ao originar a contracultura e estimular rebeliões de jovens. 

       Espero, por isso, que os filmes de Walter Salles – o documentário e a adaptação da narrativa – tenham sucesso, e principalmente qualidade, confirmando On the Road como obra seminal e Kerouac como um dos grandes autores da segunda metade do século XX.

_________________

[1] Quero registrar, a propósito desse e de outros registros, a colaboração do músico Pita Araujo que fez e apresentou um levantamento de material audiovisual sobre a beat nos cursos que ministrei sobre o assunto em 2010.

Claudio Willer (Brasil, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. 

É autor de Geração Beat, L&PM Pocket. Doutor em Letras, DLCV-FFLCH-USP, sua tese “Um obscuro encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna” foi recentemente transformada em livro pela editora Civilização Brasileira. 

E-mail: 



Link:

Nenhum comentário: