domingo, 23 de dezembro de 2012

'O Fim da Eternidade': A obra prima de Asimov!

A obra prima de Asimov - por Rafael Reboredo, do blog 'Ambrosia'

O livro clássico de Asimov é uma das principais influência sobre 'Fringe'. 

“O Fim da Eternidade” conta a história de quando o homem tornou-se Deus. Nesta obra, Asimov descreve sua Eternidade como sendo uma entidade cuja responsabilidade converge para a manipulação de acontecimentos no tempo, visando único e exclusivamente a manutenção da raça humana. 


A principal ação para realizar tal objetivo é eliminar acontecimentos infortuitos do curso temporal, modificando a realidade vigente afim de que a estabilidade dos séculos posteriores seja preservada. A Eternidade, que é muito mencionada sobre diversas conotações ao longo da narração, é alheia ao “tempo normal”. 

Todas as modificações impostas pela própria, não lhe acarretam resultados. Para isso, Asimov descreve outro tipo de marcação de tempo corrente, denominado “fisiotempo”. A obra foi publicada em 1955 nos EUA e em 1981 no Brasil, pela editora Hemus. O livro recentemente teve uma re-impressão e sua publicação atual é feita pela editora Aleph.

Andrew Harlan é um Eterno. Os Eternos são funcionários da Eternidade. Eles, dentro de sua singular hierarquia, são responsáveis pelas M.M.N (Mudança Mínima Necessária) e para com os estudos dos mais variados fenômenos dos séculos cuja humanidade ainda vive. Imagine se a viagem no tempo fosse possível. O que você faria para melhor aproveitá-la?


Não seria interessante poder mudar certos acontecimentos que culminaram na morte de milhões de pessoas, ou destruíram belas construções, ou, talvez, eliminaram o conhecimento de toda uma cultura? E se fosse possível fazer com que Hitler nunca tivesse o poder que teve? 

É exatamente isso que os “Setores” da Eternidade fazem. Eles simplesmente exercem o papel… de Deus. Paralelo à isso, Asimov nos faz questionar: Até onde isso é realmente benéfico à humanidade?

“Não há graça na Eternidade dona. Nós trabalhamos! Trabalhamos para esboçar todos os detalhes de todas as épocas, desde o começo da Eternidade até onde a Terra está vazia; e tentamos esboçar todas as infinitas possibilidades de todos os poderia-ter-sido, escolher um poderia-ter-sido que seja melhor do que o que é, decidir onde no Tempo podemos fazer uma minúscula mudança para substituir o é pelo poderia-ser e procurar um novo poderia-ser, para todo o sempre; e é assim que tem sido desde que Vikkor Mallansohn descobriu o Campo Temporal no Século 24, lá no primitivo Século 24, e então foi possível iniciar a Eternidade no Século 27; o misterioso Mallansohn que nenhum homem conhece e que começou a Eternidade, realmente, e o novo poderia-ser, para sempre, para sempre, para sempre e…”

Harlan à Noys, página 72

O narrador observador começa nos contando uma das viagens do Técnico Harlan. Nesta história, as pessoas não se apresentam nativas de lugares, mas sim, de tempos. Harlan é do século 95. 


Para cada século existe um Setor da Eternidade, destinado à Observar e reestruturar a sociedade do presente, caso necessário. Qualquer mudança, mesmo ela sendo mínima, tem grandes resultados. 

Por exemplo: você poderia sabotar o carro de um jovem estudante que pretendia ir à um congresso de ciências, e este, nunca teria descoberto determinada tecnologia. A descoberta da mesma seria atrasada em alguns Séculos e uma guerra atômica seria evitada. Ou é possível inserir algum objeto em determinado local no tempo e modificar todo um pensamento de uma cultura. 

Quando se faz uma mudança na realidade, tudo pode ser modificado. Esta é uma das premissas deste conto de Asimov. Quando enfim acontece esta modificação, as pessoas desta realidade - na grande maioria das vezes - se modificam. Tanto fisicamente, quanto em termos comportamentais e ideológicos. À este novo ser dar-se o nome de “Análogo”.

“Apertou a mão de cada um deles, e Harlan, sério, dedicado, orgulhoso em sua convicção de que os privilégios de ser um Eterno continham seu maior privilégio na suposição de responsabilidade pela felicidade de todos os seres humanos que estavam ou que algum dia estariam ao alcance da Eternidade, estava mergulhado em auto-admiração.”

Página 23

Harlan é um destes Técnicos exemplares. Graduou-se com êxito e sempre cumprira seu trabalho como ditava os manuais. Sempre sendo totalmente profissional, até quando havia desentendimento com um de seus superiores. Isto até conhecer uma das poucas mulheres funcionárias da Eternidade, Noys. 


Conhece-a enquanto ela exercia suas obrigações de secretária para com seu superior, o Computador Finge, enquanto Tempista (Tempistas são pessoas comuns, que vivem as realidades manipuladas pela Eternidade). Ao primeiro momento, Harlan desaprova que uma mulher atraente, que induz pensamentos não concordantes com as normas, possa exercer suas funções em ambiente onde a atenção deve ser precisa. 

Depois, obviamente, ele muda de idéia. Esta mudança de opinião vem quando Finge o designa para a função de Observador no século nativo de Noys. Harlan deve viver então, sob o teto da mulher e colher informações sobre este tempo. É aí que a trama decola, não que antes já não fosse excitante.

Os Eternos são totalmente independentes das M.M.N. Eles nunca sofrem modificações junto aos Tempistas. Tendem à eliminar sua humanidade - logo ao seu recrutamento - à fim de decidirem de forma imparcial nas mudanças de realidade. 


É devido à este fato que nenhum funcionário pode trabalhar nos séculos próximos de seu nascimento. O rigor e a hierarquia são tratados com maestria nesta obra: para se ter uma idéia clara do que falo, os chefes de Setores da Eternidade são denominados Computadores. São humanos como todos os outros, exceto talvez pelo fato de que neles, as próprias características humanas já não sejam observadas, em termos emocionais, naturalmente.

A narrativa nos mostra as mais variadas facetas burocráticas da Eternidade, destrinchando a hierarquia e o amadurecimento de Harlan, passando por diferentes postos até atingir o grau de Técnico. Isso tudo acontece - inicialmente - de forma não cronológica, que para um conto sobre manipulação temporal tem um efeito bem mais interessante e oculta, de certa forma, o transparecer do encaixe proposital nos diferentes acontecimentos descritos neste invólucro do continum.

É importante salientar que “O Fim da Eternidade” não é um conto descritivo. Nele é explorado muito mais as questões filosóficas e éticas da manipulação temporal. A narrativa foca-se nos passos do Técnico Harlan frente à essas missões. Asimov menciona apenas a preferência de determinado tempo à utilizar, por exemplo, vidro e porcelana em mobílias e construções; e em outro Século, a preferência dar-se-á por madeira nativa ou aço. Isto apenas para fins ilustrativos.

Alguns mistérios e teorias são explorados ao longo da narração: Como a incapacidade da Eternidade de modificar a realidade de séculos acima do 70000 - os chamados Séculos Ocultos -, a teoria de que os acontecimentos no tempo se “movem” em círculos, ou seja, acontecem continuadamente (inclusive na introdução, Asimov já menciona tal idéia, muito comum à preceitos da filosofia) , o paradoxo do avô…


Entre muitas outras, que se reveladas aqui, poderão comprometer o entretenimento que a leitura deve proporcionar. Estes argumentos concedem um ritmo característico à trama, que se somado às páginas finais, deixam o leitor ofegante e intrigado para com as últimas e impressionantes revelações.

Asimov rege sua sinfonia de viagens no tempo com admirável maestria. Explora aspectos das narrações distópicas que fizeram grandes obras como “Admirável Mundo Novo” serem sucessos em seu meio. Descreve tudo com uma impressionante clareza de raciocínio, dando a impressão de o próprio leitor ser um viajante do tempo. 


O autor tenta explicar quase à termos científicos, as tecnologias exploradas na trama. São estes pontos que fazem “O Fim da Eternidade” ser o melhor conto de viagens no tempo que já pude experimentar. E este sucesso talvez se dê por sua própria clareza em conceitos, conceitos estes que proporcionaram o mais puro deleite às histórias do maior mestre de ficção-científica que a Eternidade (e a infinidade) teve o prazer de conhecer.

Originalmente publicado em: http://www.ambrosia.com.br/2009/06/15/o-fim-da-eternidade-de-isaac-asimov/

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