quinta-feira, 16 de junho de 2011

André Forastieri: O que o Brasil tem a aprender com os EUA (ou: vamos fazer a América?)!


O que o Brasil tem a aprender com os Estados Unidos (ou: vamos fazer a América?) - por André Forastieri!

Semana passada, nos Estados Unidos, pela 16° vez em 12 anos, e pela milionésima vez me ocorre: ninguém sabe ser tão louco ou tão careta quanto americano. São os mais destrambelhados e os mais certinhos. São assim porque as leis e cultura estimulam, ou a sociedade foi moldada para se adaptar ao jeito de ser dos gringos?

Nos EUA me sinto como um escriba da antiguidade visitando a Roma dos césares - impossível não ficar admirado com tanto poder e prazer, mas sei que jamais serei cidadão do império. Voltar ao Brasil é sempre delicioso, e sempre o contraste é brutal. Seja na variedade de cervejas no supermercado - lá, mais de 40, e oito tipos de maçã - ou na qualidade do debate público, das exposições nos museus, ou da adaptação das calçadas paulistanas a cadeirantes.

O ponto alto e baixo da civilização americana é sua defesa apaixonada da ideia de liberdade individual, o que se traduz maravilhosamente (ou se reduz tristemente) na incrível liberdade de consumir de que gozam os americanos.

Há países em que se vive mais e melhor, mas em nenhum lugar você pode consumir tanto quanto na América. É um ótimo país para ser rico e nem tanto para ser pobre, mas os pobres nem percebem, porque estão detonando o cartão de crédito no shopping.

Na América você pode ser quem você quiser, contanto que siga as regras. Você pode se fantasiar de Patolino e sair patinando pela calçada, mas não pode pisar na grama, mesmo que esteja de terno.

Pode fumar maconha tranquilo nas ruas de São Francisco, mas para fumar um cigarro comum precisa estar a cinco metros da entrada do restaurante. Está liberado para fundar um partido libertário que pregue a destruição do Governo Federal, contanto que pague os impostos em dia.

Tenho grande admiração pelos Estados Unidos, quando se trata de liberdade de expressão. Mesmo nestes anos pós-Torres Gêmeas, o país ainda goza de liberdades sem paralelo em quase nenhum outro canto do planeta. Tem maluco defendendo Hitler e Bin Laden, casando vestido de alienígena e fundando religião Jedi...

Tudo permitir é tudo neutralizar, dizem, e concordo, mas não muito. Sim, o "sistema" é ótimo para absorver os golpes, e reempacotá-los e vendê-los em versões aguadas e adocicadas. Mas sociedade nenhuma escapa intocada de tanta porrada; as contusões e olhos roxos são o que chamamos de progresso.

Tenho grandes problemas com alguns aspectos dos Estados Unidos:

- A ignorância inexplicável sobre o resto do mundo

- A encanação com horários - festa tem hora pra começar e acabar, geralmente às 22h.

- A convicção de que os EUA são caso único de civilização avançada, distinta de todas as outras, ungida pela história - talvez por Deus

- A própria influência religiosa sobre a cultura de massas, o que no caso da América inclui a política

- A guerra às drogas e a guerra ao terror

- O moralismo

- Essa obsessão chatíssima com celebridades

- Que, aliás, faz com que muito americano comum se porte como estivesse o tempo todo sob os cliques dos paparazzi; é só ver como se portam algumas figuras nas filas dos Starbucks

- As bizarras e inexplicáveis ausências de direitos comuns nos países avançados, como licença-maternidade e férias remuneradas

- A separação dos imigrantes em micro-culturas estanques, bairros separados, esse papo de chinese-american, armenian-american, african-american etc.

- A entonação adocicada e pseudo-boba que passa por voz de uns 70% das moças americanas

- E por aí vai.

Tenho tentação de passar o dia listando todas as mazelas da América, e tudo que mais admiro. Sua lista talvez fosse diferente, mas acho que não muito. A civilização americana tem óbvias qualidades e defeitos bem à vista, até porque todos nós vivemos na civilização americana, em graus diferentes, de Uberlândia a Djibouti a Pequim.

O Brasil pode e deve se espelhar no que os Estados Unidos têm de melhor, que é a liberdade, e rejeitar o joio. Na impossibilidade de fundarmos nosso próprio país com nossa própria identidade, o mínimo a fazer é ir além da caricatura de gringo.

Ou imitamos o melhor do Império, ou nos contentamos com uma superfície de civilização, com a tintura loira e o outlet, com a pseudo-liberdade de personalizar o mocha frapuccino e a placa do carro... E, no fim das contas, com a defesa intransigente do nosso modo de vida, às custas de outros seres humanos e do próprio planeta.

Temo a América, pelo seu poder cego e glutão. Amo a América, pela sua liberdade e coragem. Escolha a sua, e vamos fazer nossa América.

Link:

http://noticias.r7.com/blogs/andre-forastieri/2011/06/15/o-que-o-brasil-tem-a-aprender-com-os-estados-unidos-ou-vamos-fazer-a-america/

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